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Nota do digitalizador: Este livro foi digitalizado e corrigido por Lucas
Maia, para uso exclusivo de deficientes-visuais, de acordo com a lei
brasileira de direitos autorais, que segue abaixo: "Lei 9.610, de 19 de
fevereiro de 1998, sobre "Direitos autorais. Alteracao, atualizacao e
consolidacao da legislacao". TITULO III - Dos direitos do autor.
Capitulo IV - Das limitacoes aos direitos autorais. Art. 46 - Nao
constitui ofensa aos direitos autorais: I - A reproducao: d)  De obras
literarias, artisticas ou cientificas, para uso exclusivo de deficientes
visuais, sempre que a reproducao, sem fins comerciais, seja feita
mediante o sistema BRAILLE ou outro procedimento em qualquer suporte
para esses destinatarios;" *Para a correo deste texto, foi usado o
editor de textos do sistema DOSVOX; de modo que o texto pode conter
erros de diagramao e outros. *O nmero das pginas  acompanhado pelo
sinal #, para facilitar a leitura. Maro de 2003.   Fim da nota **** O
mundo dos daemons e das aventuras assombrosas est de volta. Dessa vez,
tudo comea quando o jovem Will mata um homem. Com apenas 12 anos, Will
est sozinho e precisa fugir. Decidido, ele s tem uma coisa em mente
-descobrir toda a verdade que encobre o desaparecimento de seu pai. Num
pace de mgica, Will atravessa uma janela no ar e penetra em outro mundo
onde conhece Lyra -uma garota estranha e selvagem. Lyra tambm tem uma
misso e juntos eles vo fazer de tudo para cumprir seus objetivos. S
que Cittgazze, o mundo onde Will e Lyra se encontram,  assustador.
Espectros letais, devoradores de almas, percorrem as ruas, enquanto o
rufar de asas de anjos distantes ecoa no cu.  a, escondida na torre
dos anjos, que se encontra a Faca Sutil -um poderoso talism, capaz de
cortar o nada e abrir brechas para outros mundos. Seres de todo o
universo so capazes de qualquer coisa para conseguir essa arma.
Qualquer coisa... At mesmo matar. Anciosamente esperado pelos leitores
de A Bssola Dourada, este  o segundo volume da trilogia Fronteiras do
Universo. Se voc gosta de aventuras aterrorizantes... Se voc suporta
emoes fortes... Se voc est disposto a enfrentar um mundo
terrivelmente perigoso, respire fundo e acompanhe Lyra e Will. Os
espectros de Cittgazze aguardam voc. Ansiosamente... Philip Pullman 
considerado um dos mais importantes escritores para jovens da
atualidade. Os dois primeiros livros da trilogia Fronteiras do Universo,
grande sucesso de pblico e crtica, foram traduzidos para 18 lnguas, e
j so um clssico da literatura. A Bssola Dourada recebeu a medalha
Carnegie, o Prmio de Fico do Guardian e foi eleito o livro do ano na
Gr-Bretanha em 1997. A Faca Sutil foi escolido como livro do ano no
Reino Unido em 1997. FRONTEIRAS DO UNIVERSO II A FACA SUTIL "Mais do que
cumprir a promessa de A Bssola Dourada, este segundo volume da trilogia
Fronteiras do Universo comea com um ritmo de acelerar o corao e em
momento algum diminui esta velocidade (...) a grandiosa e exuberante
narrao da histria com certeza ir fascinar leitores de todas as
idades." Publishers Weekly "Em cada poca, apenas uma vez surge um altor
to estraordinrio, que  capaz de mexer com o imaginrio de todas as
geraes que vm depois dele. Lewis Carrol, E. Nesbit, C. S. Lewis e
Tolkien fazem parte deste elenco. Philip Pullman, com essa fantstica
trilogia, vem juntar-se a esse grupo." The New Statesman "A Faca Sutil 
pura fantasia neste final do milnio -fantasia no sentido mais ambicioso
e srio. Uma rara histria contada por um grande mestre da
criatividade." Times Educational Supplement "Anjos, bruxas e magia ficam
lado a lado com a fsica, religio e filosofia nesta aventura de tirar o
flego." The Guardian "Pullman deveria ser acorrentado ao seu teclado
para terminar logo o volume trs." New Stateman & Society Aguarde o
prximo livro da srie. **** PHILIP PULLMAN FRONTEIRAS DO UNIVERSO
VOLUME DOIS A FACA SUTIL Traduo Eliana Sabino OBJETIVA (C) 1997 by
Philip pullman Ttulo original THE SUBTLE KNIFE Todos os direitos desta
edio reservados  EDITORA OBJETIVA LTDA., rua Cosme Velho,103 Rio de
Janeiro -RJ -CEP: 22241-090 Tel.: (021) 556-7824 -Fax: (021) 556-3322
INTERNET: http:www.objetiva.com Capa Ps Imagem Design Reviso Tereza de
Ftima da Rocha Henrique Tarnapolsky Neusa Peanha 1999 1098765432 A
faca sutil  a segunda parte de uma histria em trs volumes que teve
incio com A bssola dourada. Este volume movimenta-se entre trs
universos: o universo de A bssola dourada, que  semelhante ao nosso,
porm com vrias diferenas; o universo que conhecemos; e um terceiro
universo, que apresenta ainda outras diferenas em relao ao nosso.
Sumrio 1. A Gata e os Carpinos 9 2. Entre as Bruxas 40 3. Um Mundo
Infantil 69 4. A Trepanao 88 5. Papel de Carta Via Area 121 6. Os
Voadores Luminosos 136 7. O Rolls Royce 168 8. A Torre dos Anjos 193 9.
O Roubo 220 10. O Xam 238 11. O Belvedere 255 12.A Linguagem da Tela
271 13. Sahttr 290 14. A Ravina do lamo 316 15.Musgo-Sangneo 348
**** 1 A GATA E OS CARPINOS Will puxou a me pela mo, dizendo: -Vamos,
vamos... Mas a me relutava; ainda estava com medo.  luz do entardecer,
Will perscrutou os dois lados da ruela estreita -um quarteiro pequeno,
cada casa atrs de seu jardinzinho minsculo e sua cerca-viva, com o sol
a refletir-se nas janelas de um lado, deixando o outro lado na sombra.
No tinham muito tempo; a essa hora, as pessoas certamente estariam 
mesa, mas logo haveria outras crianas por ali, para prestar ateno,
perceber, comentar. Era perigoso esperar- mas, como sempre, a nica
coisa que ele podia fazer era tentar convenc-la. -Me, vamos entrar e
ver a Sra. Cooper -disse ele. -Olhe,  logo ali. -A Sra. Cooper? -ela
repetiu, em tom de dvida. Mas ele j estava tocando a sineta. Para isso
teve que deixar a mala no cho, pois a outra mo ainda segurava a da
me. Com 12 anos de idade, ele poderia at ficar envergonhado de ser
vistO segurando a mo da mame, mas sabia o #9 que aconteceria se no
fizesse isso. A porta abriu-se e surgiu a figura idosa e encurvada da
professora de piano, exalando cheiro de lavanda, como ele se lembrava.
-Quem ?  William? -perguntOU a anci. -No vejo voc h mais de um
ano. Que  que voc quer, meU filho? -Quero entrar, por favor. Eu e a
minha me- ele disse em tOm firme. A Sra. Cooper olhou para a mulher de
cabelos despenteados e um meio-sorriso aturdido, e para o menino com um
brilho forte e infeliz nOS olhos, lbios contrados, queixO saliente. E
percebeu ento que a Sra. Parry, a me de Will, distraidamente colocara
maquilagem nUm dos olhos, mas no nO oUtro. E Will no tinha vistO isso?
Alguma coisa estava errada. -Bem... -fez ela, pondo-se de lado para
dar-lhes passagem no corredor estreito. William olhou para os dois lados
da rua antes de fechar a porta; a Sra. Cooper percebeu a fora com que a
Sra. Parry agarrava-se  mo do filho, e o carinho com que ele a levou
para dentrO da sala de estar onde ficava o piano (naturalmente, era o
nico aposentO que ele conhecia); e ela percebeu tambm que as roupas da
Sra. Parry tinham um leve odor de mofo, como se tivessem ficado tempo
demais na mquina de lavar antes de serem postas a secar; e que OS dois
se pareciam muito, sentados no sof, o sol vespertino caindo em cheio no
rostO deles: as mas salientes, oS olhos largoS, as sobrancelhas retas
e negras. -Que foi, William? -perguntOU a anci. -Qual  o problema? #10
-Mame precisa de um lugar para ficar alguns dias - ele explicou. -No
momento est muito difcil cuidar dela em casa. No que ela esteja
doente; est s meio confusa, e fica um pouco preocupada. No  difcil
tomar conta dela. Ela s precisa de algum que a trate com carinho, e
acho que a senhora poderia fazer isso facilmente, com certeza. A mulher
olhava para o filho parecendo no entender, e a Sra. Cooper viu um
arranho no rosto dela. Will no tirara os olhos da Sra. Cooper, e sua
expresso era de desespero. -Ela no vai lhe dar despesa -ele
prosseguiu. -Eu trouxe alguns pacotes de comida, acho que ser
suficiente.  para a senhora, tambm. Ela no vai se importar em
dividir. -Mas... No sei se devo... Ela no precisa de um mdico? -No!
Ela no est doente. -Mas deve haver algum que possa... Quer dizer, no
h um vizinho, ou algum da famlia... -Ns no temos famlia. Somos s
ns dois. E os vizinhos so ocupados demais. -E o servio social? No
estou querendo enxotar voc, filho, mas... -No, no. Ela s precisa de
um pouco de cuidado. No vou mais poder fazer isso, mas s por pouco
tempo, no vou demorar. Tenho que... Tenho algumas coisas a fazer. Mas
logo estarei de volta, e vou levar mame de novo para casa, prometo. A
senhora no vai precisar cuidar dela por muito tempo. A me olhava para
o filho com tanta confiana, e ele voltou-se e sorriu para ela com tanto
amor, transmitindo-lhe tanta segurana, que a Sra. Cooper no conseguiu
negar. -Bem, com certeza no ser ruim, por um dia ou dois. -Voltou-se
para a Sra. Parry: -Minha cara, pode ficar no #11 quarto da minha filha,
ela est na Austrlia e no vai precisar dele. -Obrigado -disse Will,
pondo-se de p como se estivesse com pressa de partir. -Mas onde voc
estar? -perguntou a Sra. Cooper. -Vou ficar com um amigo- ele disse.
-Vou telefonar sempre que puder. Tenho o seu nmero. Vai dar tudo certo.
A me olhava para ele, confusa; Will inclinou-se para ela e beijou-a
desajeitadamente. -No se preocupe -disse. -A Sra. Cooper vai cuidar da
senhora melhor que eu, acredite. E amanh eu telefono e falo com a
senhora. Os dois se abraaram com fora, e ento Will beijou-a novamente
e com ternura retirou os braos dela de seu pescoo, antes de se
encaminhar para a porta da rua. A Sra. Cooper notava que ele estava
perturbado, pois tinha os olhos brilhantes, mas ele virou-se,
lembrando-se das boas maneiras, e estendeu a mo. -Adeus, e muito
obrigado -disse. -William, eu queria que voc me contasse qual  o
problema... -ela pediu. - um pouco complicado, mas ela no vai dar
trabalho, eu prometo. No fora isso que ela perguntara, e ambos sabiam;
mas, de um modo ou de outro, Will estava cuidando dos seus assuntos,
fossem eles quais fossem. A anci nunca tinha visto uma criana to
determinada. Ele virou-se, j pensando na casa vazia. O beco onde Will e
a me moravam era uma curva de estrada num loteamento moderno, com uma
dzia de casas #12 idnticas, das quais a deles era, de longe, a mais
modesta. O jardim da frente era apenas um gramado cheio de ervas; no
incio do ano, a me tinha plantado algumas flores, mas elas secaram e
morreram por falta de gua. Quando Will dobrou a esquina, a gata Moxie
saiu de seu local favorito, sob a nica hortnsia que ainda vivia, e
espreguiou-se antes de cumpriment-lo com um miado baixo e esfregar a
cabea contra a perna dele. Ele pegou-a no colo e cochichou: -Eles
voltaram, Moxie? Voc viu algum deles? A casa estava silenciosa.
Aproveitando os resqucios de luz do dia, o morador da casa em frente
estava lavando o carro, mas no prestou ateno em Will, e o garoto no
olhou para ele. Quanto menos as pessoas o percebessem, melhor. Segurando
Moxie junto ao peito, Will destrancou a porta e entrou rapidamente.
Ento ficou escutando com ateno, antes de soltar o animal. No havia
rudo algum; a casa estava vazia. Abriu uma lata de comida para agata e
deixou-a comendo na cozinha. Quanto tempo at o homem voltar? Will no
sabia, de modo que era melhor agir depressa. Subiu a escada e comeou a
busca. Estava procurando um escrnio de couro verde, pudo pelo tempo.
Havia uma quantidade surpreendente de locais para esconder uma coisa
daquele tamanho, mesmo numa casa moderna comum -no  preciso haver
painis secretos e pores enormes para dificultar a busca de alguma
coisa. Will procurou primeiro no quarto da me, constrangido ao revistar
as gavetas onde ela guardava as roupas ntimas, e depois vasculhou
sistematicamente o resto dos quartos no andar de cima, inclusive o seu
prprio. Moxie veio ver o que ele estava #13 ; fazendo; sentou-se a um
canto e ps-se a lamber-se, fazendo-lhe companhia. Mas ele no teve
sucesso. Quando escureceu, Will sentiu fome. Preparou uma poro de
ervilhas com torradas e sentou-se  mesa da cozinha, estudando a melhor
ordem para revistar os aposentos do andar trreo. Estava terminando de
comer quando o telefone tocou. Ele ficou imvel, o corao disparado.
Contou: 26 toques at parar. Colocou o prato na pia e recomeou a busca.
Quatro horas depois, ainda no tinha encontrado o escrnio de couro
verde. Era uma e meia da manh, e ele estava exausto. Deixou-se cair na
cama vestido e adormeceu de imediato; teve sonhos tumultuados e cheios
de gente, o rosto infeliz e assustado da me sempre presente, mas fora
do seu alcance. E quase no mesmo instante, ao que parecia (embora
tivesse dormido quase trs horas), ele despertou tomando conscincia de
duas coisas ao mesmo tempo. A primeira: sabia onde o escrnio estava
escondido. A segunda: sabia que os homens estavam l embaixo, abrindo a
porta da cozinha. Ergueu Moxie para fora do seu caminho e com delicadeza
silenciou seu protesto sonolento. Depois sentou-se na cama e calou os
sapatos, forando cada nervo para ouvir os rudos do trreo -rudos
bastante abafados: uma cadeira ergui da e recolocada no cho, um
cochicho breve, o ranger de uma tbua do assoalho. Movendo-se com menos
rudo do que eles, o menino saiu do quarto e foi p ante p at o quarto
de guardados no alto da escada. A escurido no era total e,  luz
cinzenta e #14 fantasmagrica de antes do amanhecer, ele avistou a velha
mquina de costura de pedal. Tinha revistado o quarto algumas horas
antes, mas esquecera-se do compartimento na lateral da mquina, onde
ficavam guardadas agulhas e carretilhas. Tateou cuidadosamente, sem
deixar de escutar. Os homens moviam-se no andar trreo, e Will via, pela
fresta da porta, uma luz fraca que poderia ser uma lanterna. Ento
encontrou o fecho do compartimento e abriu-o com um estalido; l dentro,
como ele sabia, estava o escrnio de couro. E agora, que poderia fazer?
No momento, nada. Agachou-se na penumbra, o corao disparado, escutando
atentamente. Os dois homens estavam no corredor de entrada. Ele ouviu um
deles dizer baixinho: -Vamos, estou ouvindo o leiteiro entrar na outra
rua. -Mas o negcio no est aqui, vamos ter que procurar l em cima
-disse a outra voz. -Ento v logo. No perca tempo. Will retesou-se ao
ouvir o estalido baixo do degrau superior. O homem procurava no fazer
rudo, mas no pde evitar o estalido porque no sabia dele. Ento houve
uma pausa. Will viu por baixo da porta o facho muito estreito da
lanterna varrer o cho do lado de fora. Ento a porta comeou a
mover-se. Will esperou at o homem estar emoldurado pela porta aberta, e
ento saltou da escurido e jogou-se contra o estmago do intruso. Mas
nenhum dos dois viu agata. Quando o homem chegara ao ltimo degrau,
Moxie sara silenciosamente do quarto e ficara parada, com a cauda
erguida, logo atrs das pernas dele, pronta para esfregar-se nelas. #15
O homem poderia ter dado cabo de Will, pois era grande, forte e
treinado, mas a gata estava no seu caminho e ele tropeou no animal
quando tentou retroceder; e com um grito abafado caiu de costas escada
abaixo, batendo a cabea brutalmente contra a mesa do saguo. Will
escutou um estalo horrvel mas no parou para pensar nisso: desceu a
escada num salto, passando por cima do corpo que se contorcia, agarrou a
sacola de compras que estava sobre a mesa e saiu pela porta da frente,
fugindo antes que o outro homem pudesse fazer algo mais do que surgir 
porta da sala de estar . Mesmo com medo e pressa Will ficou pensando por
que o outro homem no gritara ou sara atrs dele. Mas logo estariam 
sua procura com seus carros e seus telefones celulares. A nica coisa a
fazer era correr . Viu o leiteiro entrar no beco, os faris de seu carro
eltrico plidos ao brilho da aurora que j enchia o cu. Will pulou o
muro para o jardim vizinho, desceu o corredor ao lado da casa, pulou o
muro oposto, cruzou um gramado molhado de orvalho, atravessou a
cerca-viva e entrou no emaranhado de rvores e moitas que ficava entre o
loteamento e a rua principal; l, rastejou para debaixo de uma touceira
e ficou deitado, ofegante e trmulo. Era cedo demais para ir para a rua:
melhor esperar at mais tarde, quando comeasse o movimento matinal. No
conseguia tirar do pensamento o estalo produzido pela cabea do homem
batendo na mesa, e o modo como o pescoo dele estava torcido, to
estranho, e os horrendos espasmos das pernas. O homem estava morto. Ele
o tinha matado. No conseguia tirar isso da cabea, mas precisava. Havia
muita coisa em que pensar. Sua me: ela estaria realmente #16 segura
onde estava? A Sra. Cooper no iria contar, iria? Mesmo se Will no
voltasse como tinha prometido? Porque poderia no voltar, agora que
tinha matado algum. E Moxie. Quem daria comida a ela? Moxie ficaria
preocupada com ele e a me? Tentaria ir atrs dele? Estava ficando mais
claro a cada minuto. J havia luz suficiente para ele verificar as
coisas na sacola de compras: a bolsa da me, a ltima carta do advogado,
o mapa do Sul da Inglaterra, barras de chocolate, pasta de dente, meias
e calas. E o escrnio de couro verde. Estava tudo ali. Na realidade,
estava tudo saindo conforme planejado. A no ser uma coisa: ele tinha
matado uma pessoa. Will tinha sete anos de idade quando percebeu que sua
me era diferente e que ele tinha que tomar conta dela. Estavam num
supermercado, e faziam uma brincadeira: s podiam colocar alguma coisa
no carrinho quando ningum estivesse olhando. A funo de Will era olhar
em volta e cochichar "Agora!", e ela ento pegava depressa uma lata ou
um pacote na prateleira e colocava no carro. Com a mercadoria dentro do
carrinho, eles estavam seguros, porque ficavam invisveis. Era uma boa
brincadeira, e durou um bom tempo, pois era uma manh de sbado e o
mercado estava cheio, mas eles eram bons nisso e juntos trabalhavam bem.
Confiavam um no outro. Will amava muito a me e sempre lhe dizia isso, e
ela dizia a mesma coisa a ele. De modo que quando chegaram  caixa
registradora Will estava excitado e feliz porque quase tinham vencido. E
quando a me no conseguiu encontrar a bolsa, isso tambm fazia parte da
brincadeira, mesmo quando ela disse que os inimigos a tinham roubado;
mas a essa altura Will estava ficando cansado, #17 e faminto tambm, e a
me j no estava to feliz -ela estava realmente assustada, e os dois
ficaram dando voltas no mercado,recolocando todas as mercadorias nas
prateleiras, mas dessa vez tiveram que ter ainda mais cuidado, porque os
inimigos estavam no rastro dela atravs dos nmeros do carto de
crdito, que eles conheciam, pois estavam com a bolsa dela... E Will
ficava cada vez mais amedrontado. Percebia a esperteza da me ao fazer
do perigo real uma brincadeira, para que ele no ficasse assustado, e
via tambm que, agora que sabia a verdade, precisava fingir no estar
com medo, para que ela ficasse tranqila. De modo que o menininho fingiu
que ainda era uma brincadeira, para que ela no tivesse que se preocupar
com o medo dele, e os dois foram para casa sem as compras, mas a salvo
dos inimigos; e ento Will encontrou a bolsa na mesa do corredor de
entrada. Na segunda-feira foram ao banco e fecharam a conta dela, e
abriram uma nova em outro lugar, s para terem certeza. E assim o perigo
passou. Mas ao longo dos meses seguintes Will percebeu, lentamente e a
contragosto, que aqueles inimigos de sua me no estavam no mundo l
fora, mas dentro da mente dela: Isso no os tornava menos reais, nem
menos assustadores ou perigosos; significava apenas que ele teria que
proteg-la ainda mais. E desde o instante, no supermercado, em que ele
percebeu que devia fingir para no preocup-la, parte da sua mente
estava sempre alerta  ansiedade dela. Will amava tanto a me, que
morreria para proteg-la. Quanto ao seu pai, ele desaparecera muito
antes de Will ter capacidade para lembrar-se dele. Will tinha a respeito
do pai uma curiosidade apaixonada, e costumava encher a me de perguntas
que na maioria ela no sabia responder. #18 -Ele era rico? -Para onde
ele foi? -Por que ele foi? -Ele est morto? -Ele vai voltar? -Como ele
era? Essa ltima era a nica pergunta a que ela sabia responder. John
Parry tinha sido um homem bonito, um oficial da Marinha Real corajoso e
inteligente, que deixou a carreira militar para tornar-se explorador e
guiar expedies a regies remotaS do mundo. Will adorou saber disso:
nenhum pai poderia ser mais empolgante do que um explorador. Da em
diante, em todas as suas brincadeiras ele tinha um companheiro
invisvel: ele e o pai estavam juntos abrindo uma picada na mata, ou no
convs de sua escuna protegendo os olhos com a mo para observar o mar
revolto, ou erguendo uma lanterna para decifrar inscries misteriosas
numa caverna infestada de morcegos... Eram os melhores amigos, salvaram
a vida um do outro inmeras vezes, riam e conversavam junto  fogueira
at tarde da noite. Mas ao ficar mais velho Will comeou a questionar.
Por que no havia retratos de seu pai nessa ou naquela parte do mundo,
com homens de barba de gelo em trens no rtico ou estudando runas
cobertas pelo mato na selva? Nada sobrevivera dos trofus e das
curiosidades que ele certamente tinha trazido para casa? No havia um s
livro que falasse dele? A me no sabia. Mas uma coisa que ela costumava
dizer ficou guardada para sempre na mente dele: -Um dia voc vai seguir
os passos do seu pai. Voc tambm vai ser um grande homem. Vai levar o
manto dele. E embora Will no soubesse o que isso significava, entendia
o sentido, e sentia-se cheio de orgulho e propsito: todas #19 as suas
brincadeiras iam se tornar realidade. O pai estava vivo, perdido em
algum lugar, e ele ia salv-lo e levar o manto dele... Valia a pena
viver uma vida difcil, quando se tinha um propsito grandioso como
esse. De modo que ele guardou em segredo o problema da me. Havia
ocasies em que ela ficava mais calma e mais lcida, e ele tratava de
aprender com ela como fazer compras, cozinhar e manter a casa limpa,
para poder fazer essas coisas nos perodos em que ela estava confusa e
assustada. E aprendeu tambm a esconder-se, passar despercebido na
escola; no atrair a ateno dos vizinhos, mesmo quando a me se
encontrava num tal estado de medo e loucura que mal conseguia falar. O
que o prprio Will temia mais do que tudo era que as autoridades
descobrissem sobre ela e a levassem embora, e o colocassem num lar
adotivo entre pessoas desconhecidas. Qualquer dificuldade era melhor que
isso. Porque havia ocasies em que as trevas abandonavam a mente da Sra.
Parry e ela ficava outra vez feliz, ria dos prprios temores e o
abenoava por cuidar dela to bem; e era to cheia de amor e carinho que
ele no podia imaginar uma companhia melhor, e nada mais desejava seno
viver s com ela para sempre. Mas ento apareceram aqueles homens. No
eram da polcia, no eram do servio social e no eram criminosos -pelo
menos pelo que Will podia julgar. No lhe disseram o que queriam, apesar
dos esforos dele para afast-los; s falariam com a me dele. E nessa
ocasio o estado dela era de fragilidade. Mas o garoto escutou atrs da
porta e ouviu-os perguntar pelo pai dele, e sentiu a respirao
acelerar-se. Os homens queriam saber aonde John Parry tinha ido, e se
tinha mandado alguma coisa para ela, e quando ela tivera notcias dele
pela ltima vez, e se ele fizera algum contato com #20 qualquer
embaixada estrangeira. Will percebeu que a me ficava cada vez mais
perturbada, e finalmente ele irrompeu na sala e mandou-os embora. Will
parecia to feroz que nenhum dos dois homens riu, embora ele fosse to
jovem. Podiam simplesmente t-lo derrubado, ou prendido seu corpo no
cho com uma das mos, mas ele era destemido e sua raiva era ardente e
mortal. Eles foram embora. Naturalmente esse episdio fortaleceu a
convico de Will: seu pai estava com problemas, e s ele poderia
ajudar. Suas brincadeiras j no eram infantis, e ele no brincava to
s claras. A fantasia estava virando realidade, e ele teria que se
mostrar  altura. No muito depois, os homens voltaram, insistindo que a
me de Will tinha algo a revelar. Vieram quando Will estava na escola, e
um deles ficou conversando com ela no andar trreo enquanto o outro
revistava os quartos de dormir. Ela no percebeu o que estavam fazendo.
Mas Will voltou para casa mais cedo e os encontrou l, e mais uma vez
brigou com eles, e mais uma vez eles partiram. Pareciam saber que ele
no procuraria a polcia, por medo de perder a me para as autoridades,
e ficaram cada vez mais insistentes. Finalmente arrombaram a porta e
entraram na casa quando Will tinha sado para buscar a me no parque:
ela estava pior agora, e acreditava que tinha que tocar em cada tbua de
cada banco junto ao laguinho. Will resolveu ajud-la, para acabar logo
com aquilo. Quando chegavam perto de casa, avistaram a traseira do carro
dos homens saindo do beco, e ao entrar ele viu que tinham revistado a
casa toda, remexendo na maioria das gavetas e dos armrios. Sabia o que
eles estavam procurando. O escrnio de couro verde era o objeto mais
precioso que sua me possua e ele #21 jamais sonharia em abri-lo, nem
sequer sabia onde ela o guardava, mas sabia que ele continha cartas, e
sabia que ela as lia s vezes, e chorava, e era ento que ela falava
sobre o pai dele. De modo que Will imaginava que era isso que os homens
procuravam, e concluiu que tinha que fazer alguma coisa. Decidiu que
primeiro encontraria um lugar seguro para a me ficar. Pensou e tornou a
pensar, mas no tinha amigos a quem pedir, e os vizinhos j suspeitavam;
a nica pessoa que ele achava digna de confiana era a Sra. Cooper. U ma
vez que a me estivesse em segurana l, ele iria encontrar o escrnio
de couro verde, ver o que ele continha, e depois iria para Oxford, onde
encontraria resposta para algumas das suas perguntas. Mas os homens
voltaram cedo demais. E agora ele tinha matado um deles. De modo que a
polcia tambm estaria atrs dele. Ora, Will sabia como passar
despercebido. Teria que passar mais despercebido do que jamais passara
em toda a sua vida, e continuar assim pelo tempo que fosse possvel, at
encontrar o pai ou at que eles o encontrassem. E se o encontrassem
antes, ele no se importaria em matar quantos fosse necessrio. No final
desse mesmo dia, j perto da meia-noite, Will estava saindo a p da
cidade de Oxford, a 65 quilmetros de distncia da sua casa. Estava
exausto; tinha viajado de carona, de nibus (dois) e a p, e eram seis
da tarde quando chegara a Oxford, tarde demais para fazer o que ele
precisava fazer; ento comeu no Burger King e foi refugiar-se num cinema
(embora no tivesse conseguido prestar a menor ateno ao filme) , e
agora estava caminhando por uma rua infindvel, atravessando os
subrbios na direo norte. At ento ningum o tinha notado. Mas ele
sabia que era melhor encontrar logo um lugar para dormir, pois quanto
mais #22 tarde ficasse, mais conspcuo ele se tornaria. O problema era
que no havia onde se esconder nos jardins das casas confortveis ao
longo dessa rua, e ainda no havia sinal do campo aberto. Chegou a um
trevo largo, um grande entroncamento onde a rua que ele percorria rumo
ao norte cruzava com avia de acesso a Oxford, esta na direo
leste-oeste. A essa hora da noite havia pouco trfego, e a rua onde ele
se encontrava era tranqila, com casas confortveis, cercadas de
arbustos e separadas da calada, nos dois lados da rua, por um extenso
gramado. Plantadas ao longo do gramado, quase na beira da calada, havia
duas fileiras de carpinos, rvores de aparncia estranha, de copas muito
densas e perfeitamente simtricas, mais parecidas com desenhos infantis
do que com rvores de verdade; a luz dos postes da rua dava-lhes uma
aparncia artificial, como um cenrio montado. Will estava entorpecido
de cansao, e poderia ter seguido para o norte ou se deitado no gramado
para dormir sob uma daquelas rvores; mas enquanto estava parado,
tentando clarear a mente, ele viu um gato. Era uma fmea, como Moxie;
surgiu de um jardim na calada onde Will estava. Will colocou a sacola
no cho e estendeu a mo, e agata aproximou-se e esfregou a cabea nos
dedos dele, exatamente como Moxie fazia. Naturalmente todos os gatos
faziam isso, mas mesmo assim Will sentiu uma vontade to grande de
voltar para casa que seus olhos encheram-se de lgrimas. Finalmente
agata deu-lhe as costas; era noite, e havia um territrio para
patrulhar, ratos para caar. Ela atravessou a rua e o gramado at chegar
aos carpinos, e ali estacou. Will, ainda a observ-la, viu que o animal
se comportava de maneira curiosa. A gata estendeu uma pata para tatear
alguma coisa no ar  sua frente, algo invisvel para Will. Depois saltou
para trs, #23 as costas arqueadas e os plos eriados, a cauda rgida
no ar. Will conhecia o comportamento felino; observou com mais ateno
enquanto a gata tornava a se aproximar do local - um trecho de gramado
entre as rvores e oS arbustOS de uma cerca de jardim -e mais uma vez
tateOU no ar. Novamente saltou para trs, mas dessa vez com muito menoS
sobressalto. Depois de mais alguns segundoS farejando, tateando e
fremindo os bigodes, a curiosidade venceu o medo. A gata avanou alguns
passos e desapareceu. Will pestanejou. Ento ficou imvel, grudado ao
tronco da rvore mais prxima, enquantO um caminho virava a esquina e
seUS faris deslizavam sobre ele. Depois que o caminho passou, ele
atravessou a rua, olhos postOS no local onde a gata estivera. No era
fcil, pois nada havia para marcar o lugar, mas quando chegou l e olhou
em volta com ateno ele viu. Pelo menOS de alguns ngulos. Era como se
algum tivesse cortado um pedao do ar a uns dois metrOS da calada, um
pedao que formava um quadrado grosseiro com menoS de um metrO de lado.
Para quem estivesse vendo pelo lado, ele ficava quase invisvel, e por
trs era totalmente invisvel; s podia ser visto pelo lado mais perto
da calada, e mesmo assim com dificuldade, pois tudo que se podia ver
atravs dele era exatamente o mesmo tipo de coisa que havia na frente
dele deste lado: um trecho de gramado iluminado por um poste de rua. Mas
Will sabia, sem sombra de dvida, que aquele gramado do outrO lado
ficava em outrO mundo. No sabia por que, mas sabia, como sabia que o
fogo queimava e que a bondade era boa: estava olhando para alguma coisa
inteiramente aliengena. E apenas por esse motivo ele se inclinou e
olhou mais para dentro. O que viu fez sua cabea girar e o corao bater
#24 com mais fora, mas ele no hesitou: jogou para dentro a sacola e
passou ele mesmo atravs do buraco no tecido deste mundo, para dentro de
outro mundo. Encontrou-se sob uma fileira de rvores. Mas no eram
carpinos: eram palmeiras altas, que, como as rvores em Oxford, cresciam
numa fileira ao longo do gramado. Mas a rua ali era uma avenida larga,
tendo num dos lados uma fileira de cafs e lojinhas, portas abertas,
tudo muito iluminado, e tudo inteiramente silencioso e deserto sob um
cu pesado de estrelas. A noite quente trazia o perfume de flores e o
cheiro salgado do mar. Will olhou em volta cuidadosamente. Atrs dele
alua cheia brilhava sobre uma paisagem distante de grandes montes
verdes, e nas encostas dos morros havia casas com ricos jardins e um
parque aberto, com pequenos bosques e o brilho alvo de um templo
clssico. Logo atrs dele ficava o recorte no ar, to difcil de
distinguir deste lado quanto do outro, mas definitivamente real. Ele se
inclinou para olhar atravs dele e viu a rua em Oxford, no seu prprio
mundo. Virou-se com um estremecimento: fosse o que fosse esse outro
mundo, tinha que ser melhor do que aquele que ele acabava de deixar. Com
um incio de vertigem, uma sensao de estar sonhando e estar acordado
ao mesmo tempo, ele se endireitou e olhou em volta  procura da gata, a
sua guia. Ela no estava  vista. Sem dvida j estava explorando
aquelas ruelas e os jardins atrs dos cafs de luzes to convidativas.
Will pegou sua velha sacola de compras e atravessou lentamente a rua
naquela direo, movendo-se com cuidado para o caso de tudo desaparecer
. O ar daquele lugar tinha algo de mediterrneo, ou talvez de caribenho.
Will nunca estivera fora da Inglaterra, de modo #25 que no podia
compar-lo com qualquer coisa que conhecesse, mas era o tipo de lugar
para onde as pessoas iam tarde da noite para comer e beber, danar e
ouvir msica. No entanto, ali no havia vivalma, e o silncio era
imenso. Na primeira esquina havia um caf com mesinhas verdes na
calada, um balco com tampo de zinco e uma mquina de caf expresso.
Havia copos cheios pela metade, em algumas das mesas; numa delas, um
cigarro queimara at o filtro; um prato de riso to estava ao lado de uma
cestinha de pes velhos, duros como papelo. Ele pegou uma garrafa de
refrigerante na geladeira atrs do bar e pensou por um instante antes de
deixar uma moeda de uma libra na caixa registradora. Assim que a fechou,
tornou a abri-la, imaginando que o dinheiro ali guardado pudesse
mostrar-lhe que lugar era aquele. O dinheiro se chamava corona, mas alm
disso ele nada mais conseguiu descobrir . Guardou de volta o dinheiro e
abriu a garrafa com o abridor preso ao balco antes de sair do caf e
descer a rua que se afastava da avenida. Pequenas quitandas e padarias
ficavam entre joalherias e floristas, e portas com cortinas de contas
levavam a casas particulares onde sacadas de ferro trabalhado, cobertas
de flores, abriam-se acima da calada estreita, e onde o silncio
enclausurado parecia ainda mais profundo. As ruas eram em declive, e
logo terminavam numa avenida larga, onde outras palmeiras erguiam-se no
ar, aparte inferior das folhas brilhando  luz dos postes. Do outro lado
da avenida estava o mar. Will encontrou-se diante de um porto fechado 
esquerda por um molhe de pedra e  direita por um promontrio onde,
entre rvores e arbustos em flor, um prdio grande, com colunas de
pedra, larga escadaria e balces ornamentados, #26 estava iluminado por
holofotes. No porto, um ou dois botes a remo estavam ancorados, e para
alm do molhe o brilho das estrelas refletia-se no mar parado. A essa
altura o cansao de Will desaparecera: ele estava inteiramente acordado
e possudo pelo pasmo. De vez em quando, enquanto caminhava pelas ruas
estreitas, ele estendia a mo para tocar numa parede, numa porta, nas
flores de uma jardineira sob uma janela, e tudo era slido e
convincente; agora ele queria tocar em toda a paisagem  sua frente,
porque ela era ampla demais para ser apreendida somente atravs dos
olhos. Ficou ali parado, respirando profundamente, quase que com medo.
Constatou que ainda estava segurando a garrafa trazida do caf, e provou
o lquido, que tinha sabor daquilo que realmente era: soda limonada
gelada -e muito bem-vinda, porque a noite estava quente. Virou para a
direita e seguiu pela avenida  beira-mar, passando por hotis com
toldos acima das entradas brilhantemente iluminadas, ladeadas de
buganvlias floridas. O prdio entre as rvores, com sua fachada
enfeitada, iluminada por holofotes, poderia ser um cassino, ou at mesmo
um teatro lrico. No jardim que o circundava, por entre as espirradeiras
floridas de cujos ramos pendiam lmpadas, havia alamedas que levavam a
vrias direes. Mas nem um som de vida se ouvia: nenhum pssaro
noturno, nenhum inseto, nada alm do rudo dos passos do prprio Will. O
nico som que ele ouvia, abafado e regular, vinha das marolas que
quebravam mansamente na praia, alm das palmeiras que orlavam o jardim.
Will encaminhou-se para l. A mar estava a meio, e alguns pedalinhos
tinham sido puxados para acima do alcance #27 da gua e formavam uma
fileira na areia branca e macia. A cada poucos segundos, uma onda
minscula dobrava-se na areia antes de deslizar de volta,
harmoniosamente, sob a ondulao seguinte. A uns 50 metros mar adentro,
uma plataforma de mergulho flutuava na gua calma. Will sentou-se na
lateral de um dos pedalinhos e arrancou os sapatos -seus tnis baratos,
que j estavam se desmanchando e apertavam seus ps em brasa. Deixou as
meias junto aos sapatos e enfiou os dedos dos ps na areia. Segundos
depois, tinha arrancado o resto das roupas e entrava no mar. A gua
estava deliciosa, entre fresca e morna. Ele nadou at a plataforma de
mergulho, alou-se para sentar-se nas tbuas alisadas pelo tempo e
voltou o olhar para a cidade. A sua direita, o porto limitado pelo seu
molhe. Atrs dele, distante cerca de dois quilmetros, ficava um farol
listrado de vermelho e branco. Atrs do farol viam-se vagamente penedos
distantes, e mais alm deles, aquelas grandiosas montanhas que ele
avistara assim que atravessou o buraco no ar. Mais prximas ficavam as
rvores luminosas dos jardins do cassino, as ruas da cidade, e a avenida
ao longo da praia, com seus hotis, cafs e lojas acolhedoramente
iluminados - tudo silencioso, tudo deserto. E tudo seguro. Ningum
poderia segui-lo at ali; o homem que revistara a casa jamais saberia; a
polcia nunca o encontraria. Ele tinha um mundo inteiro onde se
esconder. Pela primeira vez desde que sara correndo pela porta de sua
casa, naquela manh, Will comeou a se sentir a salvo. Estava novamente
com sede, e com fome tambm, pois, afinal de contas, alimentara-se pela
ltima vez em outro mundo. #28 Deslizou de volta para a gua e nadou
devagar para a praia, onde vestiu a cueca e recolheu o resto das roupas
e a sacola de compras. Deixou cair a garrafa vazia na primeira lixeira
que encontrou e saiu caminhando descalo pela avenida na direo do
porto. Quando seu corpo secou um pouco ele vestiu o jeans e procurou um
lugar onde arranjar comida. Os hotis eram chiques demais; Will olhou
para dentro do primeiro que apareceu, mas era tudo to grandioso que ele
se sentiu desconfortvel, portanto continuou ao longo da praia at
encontrar um pequeno caf que parecia ser o lugar certo. No saberia
dizer por qu; era um lugar muito parecido com uma dzia de outros,
mesas e cadeiras na calada ao ar livre e uma sacada no primeiro andar
carregada de flores, mas lhe pareceu acolhedor . Havia um balco de bar
com fotografias de lutadores de boxe na parede e um pster autografado
de um homem de sorriso largo tocando acordeom. Havia uma cozinha, e ao
lado dela uma porta que se abria para uma escada estreita atapetada por
um estampado floral de cores vivas. Ele subiu sem rudo at o pequeno
patamar do segundo andar e abriu a primeira porta que encontrou. Era uma
sala de visitas; l dentro estava quente e abafado, e Will abriu a porta
de vidro da sacada, para deixar entrar o ar vespertino. A sala em si era
acanhada, com mveis grandes demais para ela, e modesta, mas era limpa e
confortvel- ali moravam pessoas hospitaleiras. Havia uma pequena
estante de livros, uma revista sobre a mesa, algumas fotos emolduradas.
Will saiu e olhou os outros aposentos: um banheiro pequeno, um quarto
com cama de casal. Alguma coisa fez sua pele arrepiar-se antes de abrir
a ltima porta. Seu corao disparou. Ele no tinha certeza de #29 ter
ouvido um som vindo de dentro, mas alguma coisa lhe dizia que aquele
quarto no estava vazio. Pensou na estranheza desse dia, que tinha
comeado com algum do lado de fora de um quarto escuro, ele esperando
l dentro, e agora as posies eram Inversas. Enquanto ele pensava nisso
a porta escancarou-se de chofre e alguma coisa arremessou-se sobre ele
como um animal feroz. Mas sua memria lhe dera o aviso, e ele no estava
suficientemente perto para ser derrubado. E reagiu comtruculncia:
joelhos, cabea, punhos e a fora dos seus braos contra aquela coisa,
aquele homem, aquela mulher... U ma garota mais ou menos da idade dele,
feroz, a rosnar, roupas sujas e esfarrapadas, membros despidos e magros.
No mesmo momento ela percebeu o que ele era, e desvencilhou-se do peito
nu dele para ir agachar-se no canto do patamar escuro, como um gato
encurralado. E havia mesmo um gato ao lado dela, para espanto de Will:
um enorme gato selvagem cuja altura chegava aos joelhos dele, plo
eriado, dentes  mostra, cauda ereta. Ela colocou a mo no dorso do
animal e lambeu os lbios secos, vigiando cada movimento de Will. O
garoto levantou-se devagar. -Quem  voc? -perguntou. -Lyra da Lngua
Mgica -disse ela. -Voc mora aqui? -No! -fez ela com veemncia. -Ento
o que  este lugar? Esta cidade? -No sei. -De onde voc veio? -Do meu
mundo. Eles esto grudados. Onde est o seu daemon? #30 Os olhos dele se
arregalaram. Ento ele viu uma coisa extraordinria acontecer com o
gato: ele saltou para os braos dela e ali se transformou num arminho
castanho com garganta e barriga creme, que olhava para ele com raiva,
feroz como a prpria garota. Mas ento ocorreu outra mudana, porque ele
percebeu que ambos, a garota e o arminho, tinham um medo profundo dele,
como se ele fosse um fantasma. -No tenho daemon -ele respondeu. -No
sei o que isso quer dizer. -Ento: -Ah, esse a  o seu daemon? Ela se
ergueu devagar. O arminho enrodilhou-se no pescoo dela, e seus olhos
escuros no deixaram o rosto de Will. -Mas voc est vivo! -ela
exclamou, sem acreditar. -Voc no... voc no foi... -Meu nome  Will
Parry -ele disse. -No sei o que voc quer dizer com essa histria de
daemons. No meu mundo, demnio significa... significa diabo, alguma
coisa ruim. -No seu mundo? Quer dizer que este aqui no  o seu mundo?
-No. Acabei de descobrir uma... uma maneira de entrar aqui. Como o seu
mundo, eu acho. Eles devem estar grudados. Ela relaxou um pouco, mas
continuava a vigi-lo atentamente, e ele permaneceu calmo e quieto, como
se ela fosse um gato desconhecido com quem estivesse fazendo amizade.
-J viu mais algum nesta cidade? -ele continuou. -No. -H quanto tempo
est aqui? -Sei l. Alguns dias. No consigo me lembrar. -Ento por que
veio para c? -Estou procurando P -ela explicou. #31 -Procurando p?
Qual p, p de ouro? Que tipo de p? Ela entrecerrou os olhos e no
respondeu. Ele se virou para descer a escada. -Estou com fome -declarou.
-Tem comida na cozinha? -Sei l... -disse ela, e seguiu-o  distncia.
Na cozinha Will encontrou os ingredientes para um ensopado de frango com
cebola e pimento, mas naquele calor as coisas estavam cheirando mal.
Ele jogou tudo na lata de lixo. -Voc no comeu? -perguntou, abrindo a
geladeira. Lyra veio olhar. -No sabia que isto estava a -disse. -Uh,
que frio! O daemon dela tinha se transformado novamente, tornando-se uma
enorme borboleta multicor que esvoaou para dentro da geladeira por um
instante e logo saiu, indo acomodar-se no ombro dela. A borboleta erguia
e baixava lentamente as asas. Will sentiu que no devia ficar olhando,
embora sua cabea girasse com a estranheza daquilo. -Nunca tinha visto
uma geladeira? -quis saber. Encontrou uma lata de refrigerante e
entregou-a a ela antes de tirar uma caixa de ovos. Ela apertou a lata
entre as mos comprazer. -Pode beber -ele disse. Ela ficou olhando para
a lata, de testa franzida, sem saber como se abria aquilo. Ele abriu a
lata para ela e o lquido espumou para fora. Ela lambeu-o com suspeita,
e ento arregalou os olhos. -Isto  bom? -perguntou, a voz meio
esperanosa, meio temerosa. #32 -. Obviamente eles tm Coca-Cola neste
mundo. Escute, vou beber um pouco para mostrar que no  veneno. Abriu
outra lata. Ao v-lo beber, ela seguiu o exemplo. Era evidente que
estava com sede: bebeu to depressa que as bolhas subiram-lhe at o
nariz. Ela espirrou e arrotou ruidosamente, e fez uma careta quando ele
olhou para ela. -Vou fazer uma omelete -ele disse. -Quer um pouco? -No
sei o que  uma omelete. -Bem, fique olhando e saber. Temos tambm uma
lata de salsichas, se preferir. -No sei o que  isso. Ele lhe mostrou a
lata. Ela procurou a lingeta de abrir, como a da lata de refrigerante.
-No.  preciso usar um abridor de lata- ele explicou. -No existe
abridor de lata no seu mundo? -No meu mundo os criados cozinham -ela
disse em tom de desprezo. -Procure naquela gaveta ali. Ela remexeu por
entre os talheres de cozinha enquanto ele quebrava seis ovos numa tigela
e batia-os com um garfo. - isto a -disse, observando-a. -Com o cabo
vermelho. Pode me trazer? Ele perfurou a lata e mostrou-lhe como
abri-la. -Agora pegue aquela panelinha no gancho e despeje isto dentro
dela. Ela cheirou as salsichas e mais uma vez seus olhos assumiram uma
expresso de prazer e suspeita. Virou a lata na panela e lambeu um dedo,
observando Will colocar sal e pimenta nos ovos e cortar um pedao de
manteiga de um pacote na geladeira, jogando-o numa frigideira de ferro.
Ele foi at o bar #33 para procurar fsforos, e ao voltar encontrou-a
enfiando o dedo sujo na tigela com os ovos batidos, para depois lamb-lo
gulosamente. Seu daemon, novamente um gato, estava prestes a enfiar a
pata tambm, mas recuou quando Will se aproximou. -Ainda no est pronto
-disse, retirando a tigela. - Quando foi que fez uma refeio pela
ltima vez? -Na casa do meu pai em Svalbard -ela disse. -Faz dias e mais
dias e mais dias. No sei. Encontrei po e umas COISas aqui e comi. Ele
acendeu o gs, derreteu a manteiga, derramou os ovos e espalhou-os na
frigideira. Os olhos dela acompanhavam tudo gulosamente, vendo-o puxar
para o centro a parte j cozida e inclinar a frigideira para que aparte
crua escorresse, preenchendo o espao vazio. Observava Will, tambm: o
rosto dele, as mos ocupadas, os ombros nus e os ps descalos. Quando a
omelete ficou pronta, ele dobrou-a e cortou-a em dois com a esptula.
-Procure uns pratos -ele disse. Lyra obedeceu. Parecia disposta a
aceitar ordens se as achasse sensatas, de modo que ele mandou que ela
fosse preparar uma mesa na calada em frente ao caf. Ele mesmo levou a
comida e talheres que achou numa gaveta, e os dois se sentaram, um pouco
constrangidos. Ela comeu sua parte em menos de um minuto, e depois ficou
a se mexer com impacincia, balanando a cadeira para frente e para trs
e arrancando pedacinhos de plstico do assento, enquanto ele acabava de
comer. O daemon transformou-se de novo, tornando-se um pintassilgo,
bicando migalhas invisveis sobre a mesa. Will comia devagar .Dera a ela
a maior parte das salsichas, mas mesmo assim demorou muito mais que ela.
O porto #34 diante deles, as luzes ao longo da avenida deserta, as
estrelas no cu escuro, tudo isso estava suspenso no silncio imenso,
como se nada mais existisse. E durante todo o tempo ele esteve
intensamente cnscio da garota. Ela era pequena e leve, mas rija, e
tinha lutado como um tigre; o soco dele lhe causara uma equimose no
rosto, que ela simplesmente ignorava. Sua expresso era uma mistura de
criancice -quando provou o refrigerante -e uma desconfiana triste e
profunda. Os olhos eram azuis e os cabelos seriam de um louro escuro
quando fossem lavados -pois ela estava imunda e cheirava como se no se
banhasse havia dias. -Laura? Lara? -fez Will. -Lyra. -Lyra... da Lngua
Mgica? -. -Onde  o seu mundo? Como voc chegou aqui? Ela deu de
ombros. -Andando. Estava tudo enevoado. Eu no sabia onde estava indo.
Quer dizer, sabia que estava saindo do meu mundo. Mas no conseguia ver
este aqui, at a neblina clarear. Ento me encontrei aqui. -Que foi que
falou sobre p? -P, isso mesmo. Vou descobrir. Mas este mundo parece
estar deserto. No encontrei ningum para perguntar. J estou aqui h...
sei l, trs dias, talvez quatro. E no vi ningum aqui. -Mas por que
quer descobrir p? - um P especial- ela disse em tom seco. -No  p
comum, obviamente. O daemon tornou a mudar. Fez isso num piscar de
olhos, e de pintassilgo transformou-se em um rato, um enorme rato #35
negro de olhos vermelhos. Will encarou-o com olhos arregalados e
assustados, e a garota viu seu olhar. -Voc tambm tem um daemon- disse
em tom firme. -Dentro de voc. Ele no soube o que dizer. -Tem, sim -ela
continuou. Seno no seria humano. Voc seria... um morto-vivo. J vimos
um garoto com o daemon cortado. Voc no  assim. Mesmo que no saiba
que tem um daemon, voc tem. No princpio ficamos com medo quando vimos
voc. Como se fosse uma assombrao ou coisa assim. Mas ento vimos que
voc no era isso. -Ns quem? -Eu e Pantalaimon. Ns. O daemon de uma
pessoa no  uma coisa separada dela.  ela. U ma parte dela. Um faz
parte do outro. No seu mundo no existe ningum como ns? So todos como
voc, com os daemons escondidos? Will contemplou aquele par -a menina
magricela, de olhos claros, e seu daemon-rato, agora acomodado em seus
braos -e sentiu-se profundamente solitrio. -Estou cansado. Vou para a
cama- disse. -Voc vai ficar nesta cidade? -Sei l. Tenho que saber mais
sobre o que estou procurando. Deve haver alguns catedrticos neste
mundo. Tem que haver algum que saiba sobre isso. -Talvez no neste
mundo. Mas eu vim de uma cidade chamada Oxford. L est cheio de
catedrticos, se  o que voc quer. -Oxford? -ela exclamou. - de onde
eu vim! -Ento no seu mundo tambm existe uma Oxford? Voc no veio do
meu mundo. #36 -No mesmo -disse ela. -So mundos diferentes. Mas no meu
mundo existe uma Oxford tambm. Ns dois estamos falando ingls, no
estamos?  bvio que outras coisas so iguais. Como foi que voc passou?
Existe uma ponte, ou o qu? -S uma espcie de janela no ar . -Me mostre
-fez ela. Era uma ordem, no um pedido. Ele sacudiu a cabea. -Agora
no. Quero dormir. De qualquer maneira, estamos no meio da noite. -Ento
me mostre de manh. -Est bem, vou mostrar. Mas tenho minhas prprias
coisas a fazer. Voc vai ter que encontrar sozinha os seus catedrticos.
-Fcil- ela afirmou. -Conheo tudo sobre catedrticos. Ele juntou os
pratos e se levantou. -Eu cozinhei, de modo que voc pode lavar os
pratos. Ela olhou para ele incrdula. -Lavar os pratos? -zombou.
-Existem milhes de pratos limpos por a! Alm disso, no sou uma
criada. No vou lavar os pratos. -Ento no vou lhe mostrar a passagem.
-Eu encontro sozinha. -No encontra, no. Ela est escondida. Voc nunca
vai encontrar. Escute. Eu no sei quanto tempo podemos ficar neste
lugar. Temos que comer, portanto vamos comer o que houver aqui, mas
depois vamos arrumar tudo e manter o lugar limpo, porque temos a
obrigao de fazer isso. Temos que tratar direito este lugar. Agora vou
para a cama. Vou ficar no outro quarto. Vejo voc de manh. #37 Ele
entrou, limpou os dentes com o dedo e um pouco do dentifrcio que trazia
na sacola, caiu na cama de casal e adormeceu num instante. Lyra esperou
at ter certeza de que ele estava dormindo e ento levou os pratos para
a cozinha, colocando-os sob a gua da torneira, e esfregou-os com fora
com um pano at parecerem limpos. Fez o mesmo com garfos e facas, mas
esse mtodo no funcionou com a frigideira, de modo que ela tentou com
uma barra de sabo amarelo, e foi arrancando a sujeira at a frigideira
ficar to limpa quanto ela achava possvel. Ento secou tudo com outro
pano e arrumou direitinho no secador de loua. Como ainda estava com
sede e queria experimentar abrir outra lata, ela fez isso e levou o
refrigerante para cima. Escutou do lado de fora da porta de Will e, nada
ouvindo, foi p ante p at o outro quarto e tirou o aletmetro de sob o
travesseiro. No precisava estar perto de Will para perguntar sobre ele,
mas queria v-lo; moveu a maaneta do quarto dele com o mnimo de rudo,
e entrou. Havia uma luz na praia l fora que brilhava diretamente dentro
do quarto, e sob o brilho refletido do teto ela olhou para o rapaz
adormecido. Ele tinha a testa franzida e o rosto brilhante de suor. Era
forte e parrudo, no como um homem adulto, naturalmente, porque no era
muito mais velho que ela, mas um dia seria muito forte. Como seria mais
fcil se o daemon dele estivesse visvel! Ela se perguntou que forma ele
teria, e se j estava fixo. Fosse qual fosse a forma, ele mostraria uma
natureza selvagem, corts e infeliz. Foi p ante p at a janela. A luz
do poste da rua, ela moveu cuidadosamente os ponteiros do instrumento e
relaxou a mente na forma de uma pergunta. O ponteiro comeou a #38 girar
em torno do mostrador numa srie de pausas e arranques quase rpidos
demais para os olhos. Ela tinha perguntado: O que ele , amigo ou
inimigo? A bssola respondeu: Ele  um assassino. Ao ver a resposta, ela
relaxou imediatamente. Ele conseguia encontrar comida e poderia
mostrar-lhe como chegar a Oxford- talentos que eram teis -, mas podia
ser ao mesmo tempo covarde ou indigno de confiana. Um assassino era um
bom companheiro. Ela se sentiu to segura ao lado dele quanto com Iorek
Byrnison, o urso de armadura. Puxou a persiana da janela para que o sol
matinal no casse sobre o rosto dele e saiu do quarto p ante p. #39 2
ENTRE AS BRUXAS A bruxa Serafina Pekkala, que tinha resgatado Lyra e as
outras crianas da estao experimental de Bolvangar e voado com ela
para a ilha de Svalbard, estava profundamente preocupada. Nas
perturbaes atmosfricas que se seguiram  fuga de Lorde Asriel do
exlio em Svalbard, ela e suas companheiras foram lanadas  grande
distncia da ilha, percorrendo muitos quilmetros por cima do mar
congelado. Algumas delas conseguiram permanecer junto ao balo
danificado de Lee Scoresby, o aeronauta texano, mas Serafina foi lanada
para o alto, para dentro da neblina que logo veio escoando pelo buraco
que a experincia de Lorde Asriel rasgara no cu. Ao encontrar-se
novamente capaz de controlar seu vo, o seu primeiro pensamento foi para
Lyra, pois Serafina no sabia coisa alguma da luta entre o falso
urso-rei e o verdadeiro, Iorek Byrnison, nem do que acontecera a Lyra
depois disso. Ento ps-se a procur-la, voando em seu galho de
pinheiro-nubgeno pelo ar nevoento e tingido de dourado, acompanhada por
seu daemon Kaisa, o ganso cinzento. Voltaram #40 um pouco para o sul, na
direo de Svalbard, viajando durante vrias horas sob um cu
turbulento, com luzes e sombras estranhas. Serafina Pekkala sabia, pela
sensao perturbadora da luz em sua pele, que aquilo vinha de outro
mundo. Depois de algum tempo Kaisa disse: -Veja,  o daemon de uma
bruxa, extraviado... Serafina Pekkala olhou atravs das nuvens de
neblina e viu uma andorinha-do-mar voando em crculos nos abismos de luz
brumosa, aos gritos; ento fez uma curva e voou naquela direo. Vendo
isso, a andorinha-do-mar ganhou altura, assustada, mas Serafina Pekkala
sinalisou amizade e ela desceu para perto deles. Serafina Pekkala
perguntou: -De que cl voc ? -Taymyr -disse ela. -Minha bruxa foi
capturada. Nossos companheiros foram afastados! Estou perdida... -Quem
capturou a sua bruxa? -A mulher do daemon-macaco de Bolvangar...
Ajude-me! Ajude-nos! Estou com tanto medo! -O seu cl era aliado dos
cortadores de crianas? -Sim, at descobrirmos o que eles estavam
fazendo... Depois da luta em Bolvangar eles nos expulsaram, mas a minha
bruxa ficou prisioneira... Ela est num navio... Que  que eu posso
fazer? Ela est me chamando e no consigo encontr-la! Ah, ajude,
ajude-me! -Silncio -pediu Kaisa, o daemon-ganso. -Escutem l embaixo.
Desceram mais, escutando com ouvidos aguados, e Serafina Pekkala logo
distinguiu o rudo, que a nvoa abafava, de um motor a gs. -No
conseguiriam dirigir um barco numa nvoa como esta- disse Kaisa. -Que 
que esto fazendo? #41 - um motor menor do que o de um barco -disse
Serafina Pekkala. Enquanto ela falava, veio um novo som de outra
direo: um urro bestial, baixo e fremente, como alguma imensa criatura
martima clamando das profundezas. O rugido durou vrios segundos,
depois parou abruptamente. -A sirene de neblina do navio -identificou
Serafina Pekkala. Voando baixo, em crculos acima da gua, eles tentaram
ouvir de novo o som do motor. De sbito o encontraram, pois a neblina
parecia ter trechos de densidades diferentes, e a bruxa subiu como um
dardo, bem a tempo de esconder-se de uma lancha que vinha se aproximando
devagar atravs do envoltrio de ar mido. Sua esteira era baixa e
oleosa, como se a gua relutasse em subir. Ficaram voando em crculos, o
daemon-andorinha-do- mar bem perto, como uma criana agarrada  me, e
observaram o timoneiro ajustar ligeiramente o curso enquanto a sirene de
neblina tornava a se fazer ouvir. Havia uma luz na proa, mas s
iluminava a neblina alguns metros  frente. Serafina Pekkala perguntou
ao daemon desgarrado: -Voc disse que algumas bruxas ainda esto
ajudando esta gente? -Acho que sim... Algumas bruxas revoltadas de
Volgorsk... A no ser que elas tenham fugido tambm -disse ele. -Que 
que voc vai fazer? Vai procurar a minha bruxa? -Vou. Mas por enquanto
fique aqui com Kaisa. Serafina Pekkala voou na direo da lancha,
deixando os daemons l no alto, fora de vista, e pousou logo atrs do
timoneiro. A daemon-gaivota dele grasnou, e o homem virou-se para olhar
. #42 -Demorou, hein? -disse ele. -V l para a frente e nos guie para
encostarmos a bombordo. Ela decolou imediatamente. Tinha funcionado:
eles ainda tinham algumas bruxas a ajud-los, e o homem pensou que ela
fosse uma delas. O bombordo ficava  esquerda, ela se lembrava, e sua
luz era vermelha. Ela procurou na neblina at encontrar a luz baa do
bombordo do navio a menos de cem metros. Voltou correndo e pairou acima
da lancha, gritando instrues ao timoneiro, que diminuiu a velocidade e
atracou junto  escada que descia do convs do navio at logo acima da
gua. O timoneiro gritou e um marinheiro jogou uma corda, enquanto outro
descia depressa pela escada para prender acorda na embarcao. Serafina
Pekkala voou para a amurada do navio e abrigou-se nas sombras junto aos
botes salva-vidas. No via outra bruxa, mas elas provavelmente estariam
patrulhando os cus; Kaisa saberia o que fazer. Abaixo, um passageiro
deixava a lancha e subia pela escada. Afigura estava envolta em peles,
encapuzada, annima; mas assim que ela chegou ao convs, um
macaco-dourado subiu agilmente para a amurada e olhou em volta com olhar
feroz, os olhos azuis irradiando malevolncia. Serafina sentiu-se sem
flego: afigura era a Sra. Coulter . Um homem de traje escuro correu
para o convs para receb-la, e olhou em volta como se esperasse mais
algum. -Lorde Boreal... -comeou a dizer. -Ele seguiu para outro local.
J comearam a tortura? -Sim, Sra. Coulter- foi a resposta. -Mas... -Mas
eu mandei que esperassem! -ela interrompeu. -Agora vo me desobedecer?
Talvez este navio esteja precisando de mais disciplina. #43 Ela empurrou
o capuz para trs. Serafina Pekkala viu claramente o rosto dela  luz
amarelada: orgulhosa, passional e, para a bruxa, bem jovem. -Onde esto
as outras bruxas? -quis saber. O homem do navio explicou: -Partiram
todas, senhora. Voltaram voando para casa. -Mas uma bruxa nos guiou para
atracarmos -disse a Sra. Coulter. -Para onde ela foi? Serafina
encolheu-se; obviamente o marinheiro da lancha no tinha conhecimento do
novo estado de coisas. O clrigo olhou em volta, confuso, mas a Sra.
Coulter estava impaciente demais, e depois de um olhar apressado acima e
ao longo do convs ela sacudiu a cabea e, com seu daemon, cruzou a
porta aberta que criava um nimbo amarelado no ar. O homem seguiu-a.
Serafina Pekkala olhou em volta de si para determinar a sua posio.
Estava escondida atrs de um canal de ventilao na rea estreita de
convs entre a amurada e a super estrutura central do navio; e nesse
nvel, de frente para a proa e abaixo da ponte e da chamin, havia um
salo com janelas -no escotilhas -dando para trs lados. Era onde as
pessoas tinham entrado. A luz jorrava das janelas sobre a amurada
perolada pela neblina, permitindo entrever vagamente o mastro de proa e
a escotilha do poro coberta por uma lona. Tudo estava encharcado e
comeando a congelar. Ningum conseguiria enxergar Serafina Pekkala onde
ela estava; mas se ela quisesse ver mais coisas teria que deixar seu
esconderijo. Isso era ruim. Com seu ramo de pinheiro-nubgeno ela podia
fugir, e com sua faca e seu arco podia lutar. Escondeu o ramo atrs do
tubo de ventilao e esgueirou-se pelo convs at chegar  primeira
janela. O vidro estava embaado e era #44 impossvel ver atravs dele, e
Serafina tampouco conseguia ouvir vozes. Tornou a voltar para as
sombras. Havia uma nica coisa a fazer; ela relutava, pois era algo
desesperadamente arriscado e a deixaria exausta; mas parecia que no
havia escolha. Era um tipo de magia que ela podia fazer para tornar-se
invisvel. Naturalmente, a verdadeira invisibilidade era impossvel:
tratava-se de magia mental, um tipo de discrio sustentada com
intensidade que podia fazer a pessoa ficar, no invisvel, mas
simplesmente despercebida. Mantendo o grau de intensidade correto, ela
poderia atravessar uma sala cheia de gente, ou andar ao lado de um
caminhante solitrio, sem ser vista. De modo que agora ela preparou a
mente e levou toda a sua concentrao para o trabalho de alterar o modo
como se postava para desviar completamente a ateno. Precisou de alguns
minutos at adquirir confiana. Fez um teste saindo do esconderijo no
caminho de um marinheiro que vinha pelo convs com uma sacola de
ferramentas; ele deu um passo de lado para evit-la, sem olhar para ela
um instante sequer. Ela estava preparada. Foi at a porta do salo
profusamente iluminado e abriu-a, encontrando o aposento deserto. Deixou
a porta externa apenas encostada, para que pudesse fugir por ela se
fosse preciso, e viu uma porta no outro extremo abrindo-se para uma
escada que descia para as entranhas do navio. Ela desceu e se encontrou
num corredor estreito, iluminado por lmpadas ambricas, com canos 
mostra pintados de branco, que seguia ao longo do comprimento do casco,
com portas nos dois lados. Ela avanou sem rudo, escutando, at que
ouviu vozes. Parecia que havia uma reunio. Abriu a porta e entrou. #45
Havia cerca de uma dzia de pessoas sentadas em volta de uma grande
mesa. U ma ou duas ergueram os olhos por um instante, fitaram-na
distraidamente e esqueceram-na no mesmo instante. Ela ficou quieta perto
da porta, observando. A reunio era presidida por um ancio em trajes de
cardeal, e os outros pareciam clrigos,  exceo da Sra. Coulter, que
era a nica mulher presente. A Sra. Coulter colocara suas peles sobre as
costas da cadeira e tinha as faces rubras pelo calor do interior do
navio. Serafina Pekkala olhou em volta com cuidado e viu mais uma
pessoa: um homem de rosto magro, com um daemon-sapo, sentado a uma mesa
num canto coberta de livros com encadernao de couro e folhas soltas de
papel amarelado. A princpio ela pensou que se tratasse de um
secretrio, at ver o que ele estava fazendo: tinha os olhos fixos num
instrumento dourado, como um relgio grande ou uma bssola, e a cada
instante anotava o que via. Depois abria um dos livros, percorria
trabalhosamente o ndice e procurava um trecho, antes de escrever tambm
isso e voltar para o instrumento. Serafina tornou a prestar ateno na
discusso ao ouvir a palavra "bruxa". -Ela sabe alguma coisa sobre a
criana -disse um dos clrigos. -J confessou que sabe. Todas as bruxas
sabem alguma coisa sobre ela. -No sei o que a Sra. Coulter sabe -disse
o Cardeal. -Ser que h alguma coisa que ela deveria ter nos contado
antes? -Vai ter que falar mais claro -disse a Sra. Coulter em tom
gelado. -Esquece-se de que sou uma mulher, Eminncia, portanto no to
sutil quanto um prncipe da Igreja. Qual  essa verdade que eu deveria
saber sobre a criana? #46 A expresso do Cardeal era muito
significativa, mas ele nada disse. Houve uma pausa, e ento outro
clrigo disse, em tom quase de desculpas: -Parece que existe uma
profecia. Diz respeito  criana, entende, Sra. Coulter? Todos os sinais
se cumpriram. As circunstncias do nascimento dela, para comear. Os
gpcios tambm sabem alguma coisa sobre ela, falam dela em termos de
leo-de-bruxa e fogo-ftuo, sobrenatural, entende? Da ela ter
conseguido levar os homens gpcios para Bolvangar. E alm disso houve a
faanha extraordinria de depor o urso-rei Iofur Raknison. No  uma
criana comum. Frei Pavel talvez possa nos contar mais... Ele olhou de
relance para o homem de rosto magro que lia o aletmetro; ele
pestanejou, esfregou os olhos e olhou para a Sra. Coulter. -A senhora
deve estar sabendo que este  o nico aletmetro que sobrou, alm
daquele que est com a criana -disse. -Todos os outros foram adquiridos
e destrudos por ordem do Magisterium. Fiquei sabendo por este
instrumento que a criana gnhou o dela do Reitor da Universidade
Jordan, e que aprendeu sozinha a decifr-lo, e que consegue us-lo sem
os livros. Se fosse possvel duvidar do aletmetro eu o faria, pois acho
simplesmente inconcebvel algum usar o instrumento sem os livros. So
dcadas de estudo diligente para uma pessoa alcanar algum tipo de
compreenso; ela comeou a ler o instrumento poucos dias depois de
ganh-lo, e agora tem um domnio quase completo. No se compara a nenhum
sbio humano que eu possa lembrar . -Onde ela est agora, Frei Pavel?
-perguntou o Cardeal. #47 -No outro mundo -disse Frei Pavel. - tarde
demais. -A bruxa sabe! -bradou outro homem, cujo daemon-almiscareiro
mastigava incessantemente um lpis. -Est tudo no lugar, exceto o
depoimento da bruxa! Digo que devemos tortur-la outra vez! -Que
profecia  essa? -perguntou a Sra. Coulter, que estava ficando cada vez
mais furiosa. -Como ousam esconder isso de mim? Era visvel o poder que
ela exercia sobre eles. O olhar raivoso do macaco dourado percorreu a
mesa e ningum o encarou. S o Cardeal no se perturbou. Seu daemon, uma
arara, ergueu uma pata e coou a cabea. -A bruxa insinuou uma coisa
extraordinria -disse o Cardeal. -No ouso crer no que acho que
significa. Se for verdade, isso nos traz a mais terrvel
responsabilidade j tomada por homens e mulheres. Mas torno a perguntar,
Sra. Coulter, o que  que a senhora sabe sobre a criana e o pai dela? A
Sra. Coulter tinha o rosto plido de fria. -Como ousa me interrogar?
-cuspiu. -E como ousa esconder de mim o que descobriu com a bruxa? E,
finalmente, como ousa imaginar que estou escondendo alguma coisa? Pensa
que estou do lado dela? Ou acha talvez que estou do lado do pai dela?
Talvez pense que eu deveria ser torturada como a bruxa. Bem, estamos
todos sob o seu comando, Eminncia. Basta estalar os dedos e pode mandar
me matar. Mas mesmo procurando em cada pedacinho da minha carne no iria
encontrar uma resposta, porque nada sei dessa profecia, nada mesmo. E
exijo que me conte o que o senhor sabe. A minha filha, a minha prpria
filha, concebida em pecado e nascida em desonra, mas ainda assim minha
filha, e o senhor esconde de mim aquilo que tenho todo o direito de
saber . #48 -Por favor! -fez outro clrigo, nervoso. -Por favor, Sra.
Coulter... A bruxa ainda no falou; ela nos dir mais coisas. O prprio
Cardeal Sturrock disse que ela s insinuou. -E se ela no revelar?
-retorquiu a Sra. Coulter. - E ento? Ns adivinhamos,  isso? Ns nos
intimidamos, desistimos e tentamos adivinhar? Frei Pavel respondeu:
-No, porque  esta a pergunta que estou preparando para fazer ao
aletmetro. Havemos de encontrar a resposta, seja pela bruxa, seja pelos
livros de smbolos. -E quanto tempo isso vai levar? Ele franziu a testa
com uma expresso de cansao e disse: -Um tempo considervel.  uma
pergunta imensamente complexa. -Mas a bruxa poderia nos dizer
imediatamente -disse a Sra. Coulter. E ps-se de p. Como se a temessem,
quase todos os homens a imitaram. Apenas o Cardeal e Frei Pavel
continuaram sentados. Serafina Pekkala recuou, fazendo uma fora imensa
para manter-se invisvel. O macaco dourado rangia os dentes, e seu plo
brilhante estava todo arrepiado. A Sra. Coulter colocou-o em seu ombro.
-Ento vamos perguntar a ela -comandou. Virou-se e saiu para o corredor.
Os homens seguiram-na apressados, empurrando-se, e passaram por Serafina
Pekkala, que s teve tempo de dar um passo rpido para o lado, a mente
num torvelinho. O ltimo a sair foi o Cardeal. Serafina demorou alguns
segundos para acalmar-se, pois sua agitao estava comeando a deix-la
visvel. Ela ento seguiu os clrigos pelo corredor at um aposento
menor, nu, branco e quente, onde todos estavam agrupados em torno de #49
uma figura terrvel: uma bruxa firmemente amarrada a uma cadeira de ao,
com agonia espelhando-se no rosto cinzento e as pernas retorcidas e
quebradas. A Sra. Coulter postou-se junto a ela. Serafina ficou perto da
porta, sabendo que no conseguiria ficar invisvel por muito tempo mais;
aquilo era demasiado difcil. -Fale-nos da garota, bruxa- disse a Sra.
Coulter. -No! -Voc vai sofrer . -J sofri o suficiente. -Ah, ainda
vir mais sofrimento. Temos mil anos de experincia, nessa nossa Igreja.
Podemos prolongar seu sofrimento infinitamente. Fale-nos da garota
-disse a Sra. Coulter, estendendo a mo para quebrar um dedo da bruxa. O
dedo partiu-se facilmente, com um estalido. A bruxa gritou, e por um
segundo Serafina Pekkala ficou visvel a todos, e um ou dois clrigos
olharam para ela, confusos e assustados; mas ela tornou a recuperar o
controle e eles voltaram aprestar ateno na tortura. A Sra. Coulter
estava dizendo: -Se no responder, vou quebrar outro dedo seu, depois
outro. Que  que sabe sobre a criana? Diga! -Est bem! Por favor, por
favor, chega! -Ento responda. Houve outro estalido e dessa vez a bruxa
irrompeu em soluos. Serafina Pekkala mal conseguiaconter-se. Ento
vieram as palavras, num grito: -No, no! Chega, eu lhe imploro! A
criana que viria... As bruxas sabiam quem ela era antes de vocs...
Descobrimos o nome dela... #50 -Sabemos o nome dela. Que nome  este que
voc est dizendo? -O nome verdadeiro dela! O nome do destino dela!
-Qual  esse nome? Fale! -ordenou a Sra. Coulter. -No... no... -E
como? Vocs descobriram como? -Havia um teste... Se ela conseguisse
pegar um determinado galho de pinheiro-nubgeno entre muitos outros, ela
seria a criana que viria, e aconteceu na casa do nosso Cnsul em
Trollesund, quando a criana chegou com os gpcios... A criana com o
urso... A voz dela falhou. A Sra. Coulter soltou uma pequena exclamao
de impacincia, e ouviu-se outro estalido alto, e um gemido. -Mas qual
era a profecia a respeito dessa criana? - continuou a Sra. Coulter, a
voz agora metlica e fremente de nsia. -E que nome  esse que vai
esclarecer o destino dela? Serafina Pekkala aproximou-se do grupo de
homens que rodeavam a bruxa, e nenhum deles sentiu a presena dela junto
a seus cotovelos. Ela precisava dar um fim ao sofrimento daquela bruxa,
e logo, mas o esforo de manter-se invisvel era enorme. Ela tremia ao
tirar a faca da cintura. A bruxa soluava: -Ela  aquela que veio antes,
e desde ento vocs a odiaram e temeram! Bem, agora ela voltou, e vocs
no conseguiram encontr-la... Ela esteve l em Svalbard, estava com
Lorde Asriel, e vocs a perderam. Ela escapou, e ser... Antes, porm,
que ela pudesse terminar, houve uma interrupo. Atravs da porta aberta
uma andorinha-do-mar entrou voando, enlouquecida de terror, e ps-se
abater as asas ao cair #51 com fora no cho; ergueu-se com esforo e
voou para o peito da bruxa torturada, apertando-se contra ela,
acariciando-a, piando, guinchando, e a bruxa gritou: -Yambe-Akka! Venha
a mim, venha a mim! Ningum entendeu, alm de Serafina Pekkala.
Yambe-Akka era a deusa que aparecia para uma bruxa quando ela estava
prestes a morrer. E Serafina estava preparada. Tornou-se visvel e deu
um passo para a frente sorrindo alegremente, porqueYambe-Akka era alegre
e feliz, e sua visita era um presente de alegria. A bruxa avistou-a e
ergueu para ela o rosto manchado de lgrimas, e Serafina inclinou-se
para beij-lo enquanto enfiava suavemente sua faca no corao da bruxa.
O daemon-andorinha-do-mar ergueu os olhos baos e desapareceu. E agora
Serafina Pekkala teria que abrir caminho lutando. Os homens ainda
estavam chocados, incrdulos, mas a Sra. Coulter recuperou o sangue-frio
quase de imediato. -Agarrem-na! No a deixem fugir! -gritou. Mas
Serafina j estava junto  porta, com uma flecha preparada em seu arco.
Ergueu o arco e soltou a flecha em menos de um segundo, e o Cardeal caiu
no cho em espasmos. Ela chegou ao corredor, virou-se, fez pontaria,
disparou outra flecha; outro homem caiu, enquanto o rudo alto de um
sino enchia o navio. Ela subiu a escada e saiu para o convs. Dois
marinheiros barraram-lhe a passagem e ela disse: -L embaixo! A
prisioneira est solta! Ajudem! Isso foi suficiente para deix-los
confusos, e eles estacaram, indecisos, dando-lhe tempo para passar por
eles e pegar o pinheiro-nubgeno escondido atrs do tubo de ventilao.
#52 -Atirem nela! -fez a voz da Sra. Coulter . No mesmo instante trs
rifles dispararam. As balas bateram no metal e ricochetearam para dentro
da neblina, e Serafina saltou sobre o galho e f-lo subir como uma de
suas flechas. Segundos depois ela estava no cu, em segurana no meio da
neblina, e ento um grande ganso surgiu do meio dos bancos de nvoa
cinzenta e chegou ao seu lado. -Para onde? -perguntou. -Para longe,
Kaisa, para longe -ela disse. -Quero tirar o fedor dessa gente do meu
nariz. Na realidade ela no sabia aonde ir ou o que fazer em seguida.
Mas uma coisa ela sabia com certeza: havia uma flecha em sua aljava que
encontraria o alvo na garganta da Sra. Coulter . Viraram para o sul,
distanciando-se daquela neblina com seu perturbador brilho de outro
mundo, e enquanto voavam uma pergunta comeou a formular-se com mais
clareza na mente de Serafina: o que era que Lorde Asriel estava fazendo?
Porque todos os acontecimentos que tinham revirado o mundo tinham sua
origem nas misteriosas atividades de Lorde Asriel. O problema era que as
costumeiras fontes de conhecimento da bruxa eram naturais. Ela conseguia
seguir qualquer animal, pegar qualquer peixe, encontrar as cerejas mais
raras; e conseguia ler os sinais nas entranhas da marta-do-pinheiro, ou
decifrar a sabedoria nas escamas de uma perca, ou interpretar os avisos
no plen do aafro; mas todos esses eram filhos da natureza e lhe
revelavam suas verdades naturais. Para conseguir saber sobre Lorde
Asriel ela teria que ir a outro lugar . No porto de Trollesund, o cnsul
das bruxas, Dr. Lanselius, mantinha contato com o mundo de homens e
mulheres, #53 e Serafina Pekkala voou rapidamente para l atravs da
neblina, para ver o que ele poderia lhe contar. Antes de ir  casa dele,
ela voou em crculos sobre o porto, onde restos de nvoa deslizavam
fantasmagoricamente sobre a gua gelada, e observou um rebocador guiar
para o porto um grande navio com bandeira africana. Havia muitos outros
navios ancorados do lado de fora do porto -ela nunca vira tantos navios
juntos. Quando o curto dia findava, ela aterrissou no jardim dos fundos
da casa do cnsul. Bateu na vidraa e o prprio Dr. Lanselius abriu a
porta com um dedo nos lbios. -Serafina Pekkala, saudaes- disse.
-Entre depressa, e seja bem-vinda. Mas  melhor no ficar muito tempo.
Ofereceu-lhe uma cadeira junto  lareira, olhou de relance atravs das
cortinas de uma janela que dava para a rua e perguntou: -Toma um pouco
de vinho? Enquanto bebericava o Tokay dourado, ela contou o que tinha
visto e ouvido a bordo do navio. -Acha que eles compreenderam o que ela
falou sobre a criana? -ele perguntou. -No completamente, eu acho. Mas
sabem que ela  importante. Quanto quela mulher, tenho medo dela, Dr.
Lanselius. Vou mat-la, eu acho, mas mesmo assim tenho medo dela. -Eu
tambm -fez ele. E Serafina escutou o que ele lhe contou dos boatos que
tinham varrido a cidade. No meio da confuso de boatos alguns fatos
comearam a emergir com clareza. -Dizem que o Magisterium est reunindo
o maior exrcito j visto, e esta  a vanguarda. E h boatos
desagradveis sobre alguns dos soldados, Serafina Pekkala. Ouvi contar
de #54 Bolvangar, e o que estavam fazendo l, cortando os daemons das
crianas, a maior maldade que j ouvi. Bem, parece que existe um
regimento de guerreiros que foram tratados da mesma maneira. Conhece a
palavra "zumbi"? Eles nada temem porque no tm mente. H alguns aqui na
cidade agora. As autoridades os mantm escondidos, mas os boatos correm,
e os habitantes esto apavorados. -E as bruxas dos outros cls, que
notcias h delas? - perguntou Serafina Pekkala. -A maioria voltou para
suas casas. Todas as bruxas esto esperando, Serafina Pekkala, com medo
no corao, o que acontecer em seguida. -E o que ouviu sobre a Igreja?
-Esto inteiramente confusos. Eles no sabem o que Lorde Asriel pretende
fazer . -Nem eu -disse ela. -E no consigo nem imaginar o que seja. O
que  que o senhor pensa que ele est pretendendo, Dr. Lanselius? Ele
esfregou delicadamente a cabea da sua daemon-serpente com o polegar .
-Ele  um Catedrtico -disse, depois de um momento. -Mas a ctedra no 
a sua maior paixo. Tampouco ser estadista  a sua paixo. Conheci-o uma
vez, e achei que ele tinha uma natureza ardente e poderosa, mas no
desptica. No acredito que ele queira governar... No sei, Serafina
Pekkala. Imagino que o criado dele poderia lhe dizer.  um homem chamado
Thorold, e foi aprisionado com Lorde Asriel na casa em Svalbard. Pode
valer a pena uma visita at l para ver se ele pode lhe dizer alguma
coisa; mas naturalmente ele pode ter ido para o outro mundo com seu amo.
-Obrigada.  uma boa idia... Vou fazer isso. E agora. #55 Ela
despediu-se do cnsul e saiu voando atravs da escurido crescente para
encontrar-se com Kaisa nas nuvens. A viagem de Serafina para o Norte foi
dificultada pela confuso no mundo  sua volta. Todos os povos do Artico
estavam em pnico, assim como os animais, no apenas por causa da
neblina e das variaes magnticas mas tambm pelos estranhos estalidos
no gelo e movimentos do solo. Era como se a prpria Terra estivesse
despertando lentamente de um longo sonho de estar congelada. Nessa
confuso -em que sbitos raios de misterioso brilho vazavam atravs de
rasges nas torres de neblina e ento desapareciam com a mesma rapidez,
em que rebanhos do boi-almiscarado tpico do Artico eram tomados pelo
impulso de galopar para o sul e ento virar repentinamente para o oeste
ou novamente para o norte, em que rgidas formaes de gansos
desintegravam-se num tumulto de grasnidos quando os campos magnticos
que orientavam seu vo oscilavam e partiam-se em todas as direes
-Serafina Pekkala voava para o norte, para a casa no promontrio nas
terras desertas de Svalbard. Ali ela encontrou Thorold, o criado de
Lorde Asriel, lutando contra um grupo de avantesmas-dos-penhascos. Ela
percebeu o movimento antes de se aproximar o suficiente para ver o que
estava acontecendo: asas como de couro e um malvolo grasnar ressoando
no ptio coberto de neve, e uma figura solitria, envolta em peles,
disparando um rifle no meio da confuso, tendo a seu lado um esqulido
daemon-co rosnando e tentando morder cada vez que uma daquelas coisas
nojentas voava suficientemente baixo. Serafina no conhecia o homem, mas
um avantesma-dos-penhascos era sempre um inimigo. Ela fez um crculo
alto e #56 disparou uma dzia de flechas no grupo em tumulto. Com
guinchos e muita algazarra o bando -desorganizado demais para ser
considerado uma tropa -virou-se, viu o novo adversrio e fugiu em
confuso. No minuto seguinte os cus estavam novamente desertos, e os
guinchos assustados ecoavam nas montanhas distantes at desaparecerem no
silncio. Serafina pousou no ptio e saltou sobre a neve pisoteada e
manchada de sangue. O homem empurrou o capuz para trs, ainda segurando
o rifle cautelosamente, porque S vezes uma bruxa era inimiga, e ela viu
um homem idoso, de rosto comprido, cabelos grisalhos e olhar firme. -Sou
amiga de Lyra -ela disse. -Espero que possamos conversar. Veja, baixei
meu arco. -Onde est a criana? -ele perguntou. -Em outro mundo. Estou
preocupada com a segurana dela. E preciso saber o que Lorde Asriel est
fazendo. Ele baixou o rifle. -Ento entre -convidou. -Veja, baixei meu
rifle. Depois da troca de formalidades, eles entraram na casa. Kaisa
deslizava pelos cus, vigiando, enquanto Thorold fazia caf e Serafina
lhe contava o seu envolvimento com Lyra. -Ela sempre foi uma criana com
fora de vontade - ele disse, quando estavam sentados  mesa de carvalho
 luz de um lampio de nafta. -Eu avia todo ano, quando Lorde Asriel
visitava a universidade dele. Eu gostava dela, sabe, no conseguia
evitar. Mas o lugar dela no esquema geral das coisas eu no sei. -O que
Lorde Asriel estava planejando fazer? -No acha que ele me contou, acha,
Serafina Pekkala? Sou s o criado dele. Lavo as roupas dele, preparo
suas refeies, cuido da casa. Posso ter ficado sabendo de uma ou #57
duas coisinhas durante os anos que passei com Lorde Asriel, mas s
acidentalmente. Ele no confiava em mim mais do que confiava no seu pote
de sabo de barba. -Ento me conte essas uma ou duas coisinhas que soube
acidentalmente -ela insistiu. Thorold era um homem velho, mas saudvel e
vigoroso, e sentia-se lisonjeado com a ateno dessa bruxa jovem e bela,
como qualquer homem ficaria. Mas era tambm esperto, e sabia que a
ateno no era realmente para ele, mas para o que ele sabia; e era
honesto, de modo que no adiou indevidamente aquilo que tinha a dizer.
-No sei exatamente o que ele est fazendo, porque os detalhes
filosficos esto alm do meu alcance. Mas posso lhe dizer o que  que
move Lorde Asriel, embora ele no saiba que eu sei. Percebi isso em uma
centena de pequenos sinais. Corrija-me se eu estiver enganado, mas as
bruxas tm deuses diferentes dos nossos, no  verdade? -Sim,  verdade.
-Mas sabe alguma coisa sobre o nosso Deus? O Deus da Igreja, aquele que
chamam de Autoridade? -Conheo, sim. -Bem, Lorde Asriel nunca se sentiu
 vontade, por assim dizer, com as doutrinas da Igreja. J vi um ar de
desagrado no rosto dele quando falam de sacramentos, penitncia,
redeno e coisas assim. Entre o nosso povo, desafiar a Igreja significa
a morte, mas no peito de Lorde Asriel vem crescendo uma revolta desde
que comecei a trabalhar para ele,  isso que eu sei. -Uma revolta contra
a Igreja? -Em parte, sim. Houve uma poca em que ele pensou em usar a
fora, mas desistiu disso. #58 -Por qu? A Igreja era forte demais?
-No, isso no deteria o meu amo -disse o velho criado. -Olhe, isso pode
lhe parecer estranho, Serafina Pekkala, mas conheo aquele homem melhor
do que qualquer esposa, melhor do que uma me poderia conhecer. Ele tem
sido meu amo e meu objeto de estudo h 40 anos. No consigo acompanh-lo
nas alturas do seu pensamento assim como no consigo voar, mas posso ver
aonde ele est indo, mesmo que no possa segui-lo. No. Acredito que ele
desistiu de uma revolta contra a Igreja no porque a Igreja fosse forte
demais, mas porque ela  fraca demais para valer a pena lutar. -Ento...
o que  que ele est fazendo? -Acho que est iniciando uma guerra mais
elevada. Acho que est pretendendo uma revolta contra o poder mais alto
de todos. Ele foi procurar a morada da prpria Autoridade, e vai
destru-la.  o que eu penso. Meu corao estremece quando digo isso,
senhora. Mal ouso pensar sobre isso. Mas no consigo imaginar outra
coisa que faa sentido para o que ele est fazendo. Serafina ficou
quieta por um momento, absorvendo o que Thorold lhe contara. Antes que
ela dissesse alguma coisa, ele continuou: - claro que qualquer pessoa
disposta a uma faanha grandiosa como essa seria alvo da ira da Igreja.
Nem  preciso dizer. Seria a mais gigantesca das blasfmias,  o que
diriam. Ele seria levado a um Tribunal Consistorial e condenado  morte
num piscar de olhos. Nunca falei sobre isso antes, e no tornarei a
falar; at com a senhora eu teria medo de falar, se a senhora no fosse
uma bruxa, fora do alcance do poder da Igreja; nenhuma outra coisa faz
sentido, e isso faz. Ele vai encontrar e matar a prpria Autoridade! #59
-Isso  possvel? -Serafina quis saber. -A vida de Lorde Asriel sempre
foi cheia de coisas que eram impossveis. Eu no gostaria de dizer que
existe alguma coisa que ele no conseguiria fazer, porm, diante disto
tudo, Serafina Pekkala, eu diria que sim, ele est louco. Se os anjos
no conseguiram, como um homem pode ousar pensar nisso? -Anjos? Quem
so? -Seres de puro esprito, diz a Igreja. A Igreja ensina que alguns
anjos se rebelaram antes da criao do mundo, e foram expulsos do
paraso para o inferno. Eles fracassaram, entende? No conseguiram o que
queriam. E tinham o poder dos anjos. Lorde Asriel  apenas um homem, com
poderes humanos, nada mais que isso. Mas a sua ambio  ilimitada. Ele
ousa fazer o que homens e mulheres sequer ousam pensar. E veja o que ele
j fez: rasgou o cu, abriu caminho para outro mundo. Quem mais j fez
isso? Quem mais poderia pensar nisso? De modo que uma parte de mim,
Serafina Pekkala, diz que ele  louco, mau, perturbado. Mas outra parte
pensa: ele  Lorde Asriel, no  como os outros homens. Quem sabe... Se
isso algum dia fosse possvel, seria feito por ele e por ningum mais.
-E o que voc vai fazer, Thorold? -Vou ficar esperando aqui. Vou cuidar
desta casa at ele voltar e me dar outra ordem, ou at eu morrer. E
agora vou lhe fazer a mesma pergunta, senhora. -Vou me certificar de que
a criana est segura -ela revelou. -Pode ser que eu tenha que passar
por esta regio outra vez, Thorold. Fico feliz em saber que voc ainda
estar por aqui. -No vou arredar p daqui -ele assegurou. Ela recusou a
comida que ele ofereceu e despediu-se. Dentro de um minuto ela reuniu-se
ao seu daemon-ganso, e o daemon manteve silncio ao lado dela enquanto
voavam #60 num curso sinuoso acima das montanhas enevoadas. Ela estava
profundamente perturbada, e no havia necessidade de explicar isso: cada
folha de erva, cada poa gelada, cada mosquitinho de sua terra natal
vibrava em seus nervos chamando-a de volta. Ela temia por eles, mas
temia por si prpria tambm, pois estava tendo que mudar; eram problemas
humanos que ela estava investigando, aquilo era um assunto humano; o
deus de Lorde Asriel no era o dela. Ser que estava se tornando humana?
Ser que estava perdendo sua condio de bruxa? Se estava, no poderia
fazer isso sozinha. -Vamos para casa -disse. -Precisamos conversar com
as nossas irms, Kaisa. Esses acontecimentos so grandes demais para
ns. E ambos atravessaram velozmente as nuvens de neblina em direo ao
lago Enara e ao seu lar. Nas cavernas das florestas ao lado do lago,
encontraram as outras do seu cl, e Lee Scoresby tambm. O aeronauta
tinha lutado para manter sua embarcao flutuando depois da queda de
Svalbard, e as bruxas o guiaram para aterra delas, onde ele havia
comeado a consertar o estrago na cesta e no balo de gs. -Senhora,
fico muito feliz em v-la -saudou ele. - Alguma notcia da menininha?
-Nenhuma, Sr. Scoresby. Gostaria de juntar-se a ns no Conselho esta
noite, para nos ajudar a debater o que fazer? O texano pestanejou
surpreso, pois jamais se soubera que um homem tivesse participado de um
conselho de bruxas. -Ser uma grande honra -respondeu. -Pode ser que eu
tenha uma ou duas sugestes. Durante todo o dia chegaram bruxas, como
flocos de neve negra nas asas de uma tempestade, enchendo os cus com o
fremir da sua seda e o cicio do ar atravs das agulhas de seus #61
galhos de pinheiro-nubgeno. Os homens que caavam nas florestas
gotejantes ou pescavam entre os pedaos de gelo a se derreter ouviram
atravs da neblina o sussurro espalhado pelo cu, e se o cu estivesse
claro eles ergueriam os olhos para ver as bruxas voando como farrapos de
escurido na correnteza de uma mar secreta.  noite os pinheiros em
volta do lago estavam iluminados por uma centena de fogueiras, e a maior
fogueira de todas estava montada na frente da caverna de reunies. Ali,
depois que se alimentaram, as bruxas se reuniram. Serafina Pekkala
sentava-se no centro, com uma coroa de pequenas flores vermelhas
aninhada em seus cabelos louros.  sua esquerda, sentava-se Lee Scoresby
e,  sua direita, uma visitante: a Rainha das bruxas de Latvia, cujo
nome era Ruta Skadi. Ela chegara apenas uma hora antes, para surpresa de
Serafina. Serafina achava que a Sra. Coulter era bonita, para uma
vida-curta; mas Ruta Skadi era to linda quanto a Sra. Coulter, com uma
dimenso extra- o mistrio, o sobrenatural. Ela fizera transaes com
espritos, e isso era visvel. Era viva e apaixonada, com grandes olhos
negros; dizia-se que o prprio Lorde Asriel tinha sido seu amante. Usava
pesados brincos de ouro e, nos cabelos negros e cacheados, uma coroa
ornamentada com um anel de presas de tigres-da-neve. Kaisa, daemon de
Serafina, tinha ouvido do daemon de Ruta Skadi que ela prpria matara os
tigres para castigar a tribo trtara que os adorava, porque os homens
dessa tribo tinham deixado de honr-la quando ela visitou o territrio
deles. Sem seus deuses-tigres, a tribo decaiu, por medo e melancolia, e
implorou a ela que lhes permitisse ador-la em lugar dos tigres, mas
foram recusados com desprezo; ela lhes perguntou: que benefcio poderia
trazer a ela a adorao deles? Afinal de contas, isso no #62 tinha
ajudado os tigres. Assim era Ruta Skadi: linda, orgulhosa e impiedosa.
Serafina no tinha certeza do motivo da vinda dela, mas deu-lhe boa
acolhida, e a etiqueta exigia que ela se sentasse  direita de Serafina.
Quando estavam todas reunidas, Serafina comeou a falar: -Irms! Vocs
sabem por que nos reunimos: precisamos decidir o que fazer a respeito
desses novos acontecimentos. O universo est partido, e Lorde Asriel
abriu o caminho deste mundo para outro. Devemos nos preocupar com isso,
ou viver nossa vida como fizemos at agora, cuidando dos nossos prprios
assuntos? Alm disso h a questo da menina Lyra Belacqua, chamada Lyra
da Lngua Mgica pelo Rei Iorek Byrnison. Ela escolheu o galho de
pinheiro-nubgeno correto, na casa do Dr. Lanselius:  a criana que
sempre esperamos, e agora ela desapareceu. Temos dois convidados, que
iro nos oferecer suas idias. Primeiro ouviremos a Rainha Ruta Skadi.
Ruta Skadi ficou de p. Seus braos brancos brilhavam  luz do fogo, os
olhos cintilavam com tanta intensidade que at a bruxa mais distante
distinguia as expresses em seu rosto vvido. -Irms! -ela comeou. -Vou
lhes dizer o que est acontecendo, e contra quem devemos lutar. Pois h
uma guerra iminente. No sei quem vai ficar do nosso lado, mas sei
contra quem devemos lutar.  o Magisterium, a Igreja: durante toda a sua
Histria, que para ns no  muito tempo, mas para os vidas-curtas
significa muitas e muitas geraes, ela tentou reprimir e controlar
todos os impulsos naturais. Quando no consegue control-los, ela os
corta. Algumas de vocs tm conhecimento do que fizeram em Bolvangar.
Aquilo foi horrvel, mas no  o nico lugar, nem a nica prtica deles.
Irms, #63 vocs s conhecem o norte; eu viajei pelas terras do sul. L
existem Igrejas, acreditem, que cortam crianas tambm, no de igual
maneira, mas de uma forma igualmente horrvel: cortam fora os rgos
sexuais, sim, de meninas e meninos, para que no possam sentir prazer. 
isso que a Igreja faz, e toda a Igreja  igual: quer controlar,
destruir, obliterar cada sensao agradvel. Se vier uma guerra e a
Igreja estiver de um lado, ns temos que estar do outro lado, por mais
estranhos que sejam os aliados com quem tivermos que nos envolver . -O
que proponho  que os nossos cls se unam e sigam para o norte para
explorar este novo mundo e ver o que podemos descobrir l. Se no se
consegue encontrar a criana no nosso mundo,  porque ela j ter ido
atrs de Lorde Asriel. E Lorde Asriel  a chave de tudo, acreditem. Ele
j foi meu amante, e eu de boa vontade uniria minhas foras s dele,
porque ele odeia a Igreja e tudo que ela faz.  isso o que tenho a
dizer. Ruta Skadi falou apaixonadamente, e Serafina admirou seu poder e
sua beleza. Quando a rainha latviana se sentou, Serafina voltou-se para
Lee Scoresby. -O Sr. Scoresby  amigo da criana, portanto amigo nosso
tambm -disse. -Gostaria de nos oferecer suas idias, senhor? O texano
ficou de p, magro como um chicote e muito corts. Parecia no ter
conscincia da estranheza da ocasio, mas tinha. Seu daemon-lebre Hester
estava agachado ao lado dele, orelhas estiradas para trs, coladas nas
costas, os olhos dourados entrecerrados. -Senhora, primeiro tenho que
agradecer a todas vocs pela bondade com que me trataram, e pela ajuda
que deram a um aeronauta castigado pelos ventos que sopraram de outro
mundo. No vou abusar muito da sua pacincia. Quando eu #64 estava indo
para o norte, para Bolvangar, com os gpcios, a menina Lyra me falou de
uma coisa que tinha acontecido na universidade onde ela morava em
Oxford: Lorde Asriel mostrou aos outros Catedrticos a cabea cortada de
um homem chamado Stanislaus Grumman, e com isso convenceu-os a lhe dar
algum dinheiro para voltar para o Norte e investigar o que tinha
acontecido. Ele continuou: -Ora, a criana tinha tanta certeza do que
tinha visto, que eu no quis question-la demais. Mas o que ela disse me
trouxe  memria alguma coisa, porm no conseguia lembrar exatamente o
que era. Sabia que era sobre esse tal Dr. Grumman. E s na viagem de
Svalbard para c eu me lembrei o que era. Foi um velho caador de
Tungusk quem me contou. Parece que Grumman conhecia o paradeiro de um
objeto que d proteo a quem quer que o carregue. No quero fazer pouco
da magia que vocs, bruxas, dominam, mas essa coisa, fosse o que fosse,
tinha um tipo de poder que ultrapassa qualquer coisa de que eu j tenha
ouvido falar. E fiquei pensando que poderia adiar a minha volta para o
Texas e procurar o Dr. Grumman, pois estou preocupado com aquela menina.
Acho que ele no est morto, entendem? Acho que Lorde Asriel estava
enganando aqueles Catedrticos. Fez uma pausa antes de prosseguir. -De
modo que vou procurar por ele em Nova Zembla, que  o ltimo lugar onde
ouvi falar dele vivo. No consigo ver o futuro, mas consigo ver muito
bem o presente. E estou com vocs nessa guerra, se  que as minhas balas
valem alguma coisa. Mas  esta a tarefa que vou empreender, senhora
-concluiu ele, virando-se mais uma vez para Serafina Pekkala: -Vou
procurar Stanislaus Grumman, descobrir o que ele #65 sabe e, se
conseguir encontrar o tal objeto, vou lev-lo para Lyra. Serafina
perguntou: -O senhor j foi casado, Sr. Scoresby? Tem filhos? -No,
senhora, no tenho filhos, embora gostasse de ser pai. Mas entendo a sua
pergunta, e a senhora tem razo: aquela garotinha teve m sorte com os
pais verdadeiros, e talvez eu possa compensar. Algum tem que fazer
isso, e eu estou disposto a faz-lo. -Obrigada, Sr. Scoresby- ela disse.
Serafina Pekkala retirou a coroa e desprendeu dela uma das pequenas
flores vermelhas, que permaneciam frescas, como se fossem
recm-colhidas, enquanto ela as usasse. -Leve isto com voc -disse. -E
sempre que precisar da minha ajuda, segure-a e me chame; vou escutar,
no importa onde o senhor esteja. -Ora, obrigado, senhora -disse ele,
surpreso. Pegou a florzinha e guardou-a com cuidado no bolso da camisa.
-E vamos chamar um vento para ajud-lo achegar a Nova Zembla -disse-lhe
Serafina Pekkala. -Agora, irms, quem gostaria de falar? iniciou-se o
conselho propriamente dito. As bruxas eram democratas at certo ponto;
todas as bruxas, at mesmo as mais jovens, tinham o direito de falar,
mas s a rainha tinha o direito de decidir. O debate durou a noite toda,
com muitas vozes veementes a favor da guerra declarada imediatamente, e
outras pedindo cautela -e algumas poucas, as mais sbias, sugerindo que
se enviasse uma misso a todos os outros cls para cham-los a unir-se
pela primeira vez. Ruta Skadi concordava com isso, e Serafina mandou
imediatamente as mensageiras. Quanto ao que ela prpria #66 deveria
fazer, Serafina escolheu vinte das suas melhores guerreiras e ordenou
que se preparassem para voar para o norte com ela, para aquele mundo
novo que Lorde Asriel tinha aberto, para procurar Lyra. -E voc, Rainha
Ruta Skadi? -Serafina perguntou finalmente. -Quais so os seus planos?
-Vou procurar Lorde Asriel, e ouvir dos lbios dele o que ele est
fazendo. E parece que ele tambm foi para o norte. Posso fazer a
primeira parte da viagem com voc, irm? -Pode, e ser bem-vinda -disse
Serafina, feliz em ter a companhia dela. Assim ficou decidido. Logo
depois que o conselho terminou, porm, uma bruxa idosa procurou Serafina
Pekkala e disse: - melhor conversar com Juta Kamainen, Rainha. Ela 
cabea-dura, mas pode ter alguma coisa importante a dizer. A jovem bruxa
Juta Kamainen -isto , jovem pelos padres das bruxas, pois tinha pouco
mais de cem anos de idade -mostrava-se embaraada e de m vontade, e seu
daemon-tordo estava agitado, voando do ombro para a mo dela e em
crculos acima de sua cabea antes de voltar a pousar por um breve
instante em seu ombro. As bochechas da bruxa eram gorduchas e vermelhas:
ela possua uma natureza viva e passional. Serafina no a conhecia muito
bem. -Rainha, conheo o humano Stanislaus Grumman - disse a jovem bruxa,
incapaz de permanecer em silncio sob o olhar de Serafina. -J o amei.
Mas agora o odeio com tanto fervor, que se o encontrar vou mat-lo. No
ia contar, mas a minha irm me obrigou. Olhou com raiva para a bruxa
idosa, que retribuiu com um olhar de compaixo: conhecia o amor . #67
-Bem, se ele ainda estiver vivo, vai ter que ficar vivo at o Sr.
Scoresby o encontrar -declarou Serafina. - melhor vir conosco para o
novo mundo, assim no haver perigo de voc mat-lo antes. Esquea, Juta
Kamainen. O amor nos faz sofrer. Mas a nossa misso  maior do que a
vingana. Lembre-se disso. -Sim, Rainha- fez a jovem bruxa com
humildade. E Serafina Pekkala, suas 21 companheiras e a Rainha Ruta
Skadi da LatVia prepararam-se para voar para o novo mundo, onde bruxa
alguma jamais estivera. #68 3 UM MUNDO INFANTIL Lyra acordou cedo. Tinha
tido um sonho horrvel: algum lhe dera a caixa trmica que ela vIra o
pai, Lorde Asriel, mostrar ao Reitor e aos Catedrticos da Universidade
Jordan. Quando aquilo aconteceu na vida real, Lyra estava escondida no
armrio, e vira Lorde Asriel abrir a caixa e mostrar aos Catedrticos a
cabea cortada de Stanislaus Grumman, o explorador desaparecido; mas no
sonho Lyra tinha que abrir ela mesma a caixa, e no queria fazer isso.
Na verdade, estava apavorada. Mas tinha que abrir, querendo ou no, e
sentia as mos fracas de terror ao soltar o fecho da tampa e ouvir o ar
entrando no vcuo da caixa trmica. Ento retirou a tampa, quase
engasgada de terror, mas sabendo que era preciso, tinha que fazer isso.
E dentro no havia coisa alguma. A cabea sumira. No havia o que temer.
Mas mesmo assim ela despertou chorando e transpirando no quartinho de
frente para o porto, com o luar entrando pela janela, e ficou deitada na
cama de outra pessoa, agarrada ao travesseiro de outra pessoa, com
Pantalaimon na forma de um #69 arminho acariciando-a com o focinho e
murmurando que se acalmasse. Ah, ela estava com tanto medo! E como era
estranho que ela ficasse to apavorada no sonho -logo ela, que na vida
real tivera tanta vontade de ver a cabea de Stanislaus Grumman,
chegando a pedir a Lorde Asriel para abrir de novo a caixa para ela
olhar . Quando amanheceu, ela perguntou ao aletmetro o que o sonho
significava, mas ele respondeu apenas: Foi um sonho a respeito de uma
cabea. Ela pensou em acordar o garoto desconhecido, mas ele dormia to
profundamente, que ela desistiu. Em vez disso, desceu para a cozinha e
tentou fazer uma omelete; 20 minutos depois ela se sentou a uma mesa na
calada e comeu com grande orgulho a mixrdia escura e crocante,
enquanto Pantalaimon, agora um pardal, bicava os pedacinhos de casca de
ovo. Ela ouviu um rudo atrs de si e l estava Will, com os olhos
pesados de sono. -Sei fazer omelete -ela anunciou. -Posso fazer para
voc, se quiser. Ele olhou para o prato dela. -No, obrigado. Vou comer
flocos de milho. Achei na geladeira um pouco de leite que ainda est
bom. Eles no devem ter ido embora h muito tempo, o pessoal que mora
aqui. Ela o observou colocar flocos de milho numa tigela e derramar
leite em cima -mais uma coisa que ela nunca tinha vIStO. Ele levou a
tigela para a rua e perguntou: -Se voc no  deste mundo, onde  o seu
mundo? Como chegou at aqui? -Atravessando uma ponte. Meu pai fez essa
ponte e... eu atravessei atrs dele. Mas ele foi para outro lugar, no
sei #70 onde. No me importo. Mas, enquanto eu estava atravessando,
havia tanta neblina que me perdi, eu acho. Fiquei andando no meio da
neblina durante dias, comendo s cerejas e coisas que eu encontrava.
Ento um dia a neblina sumiu e a gente estava no alto daquele rochedo l
atrs... Fez um gesto para trs de si. Will olhou ao longo da praia,
para alm do farol, e verificou que a costa se erguia numa grande
fileira de rochedos que desapareciam na neblina  distncia. -E vimos a
cidade aqui, e descemos, mas no tinha ningum aqui. Pelo menos tinha
coisas para comer e cama para dormir. No sabamos o que amos fazer
depois. -Tem certeza de que isto aqui no  outra parte do seu mundo?
-Claro. Este no  o meu mundo, disto eu tenho certeza. Willlembrava-se
da sua certeza absoluta, quando viu o trecho de gramado atravs da
janela no ar, de que aquilo no ficava no seu mundo, e ento fez um
gesto de assentimento. -Ento existem pelo menos trs mundos ligados -
disse. -Existem milhes e milhes -disse Lyra. -Aquele outro daemon me
contou. Era o daemon de uma bruxa. Ningum consegue calcular quantos
mundos existem, todos no mesmo espao, mas ningum conseguia ir de um
para outro antes do meu pai fazer essa ponte. -E a janela que eu
encontrei? -Isso eu no sei. Talvez os mundos estejam comeando a entrar
uns nos outros. -E por que voc est procurando p? Ela o encarou
friamente. #71 -Pode ser que um dia eu lhe conte -declarou. -Est bem.
Mas como  que vai procurar esse p? -Vou encontrar um Catedrtico que
saiba sobre ele. -Como assim? Qualquer Catedrtico? -No. Um telogo
experimental- ela esclareceu. - L na minha Oxford, eram eles que sabiam
dessas coisas.  lgico que deve ser o mesmo na sua Oxford. Vou primeiro
 Universidade Jordan, porque a Jordan tinha os melhores telogos.
-Nunca ouvi falar em teologia experimental -ele duvidou. -Eles sabem
tudo sobre partculas elementares e foras fundamentais -ela explicou.
-E ambaromagnetismo, coisas assim. Naves atmicas. -Magnetismo o qu?
-Ambaromagnetismo. Vem de ambrico. Essas luzes -disse, apontando para
os postes ornamentais. -Elas so ambricas. -Ns chamamos de eltricas.
-Eltricas... Parece electrum.  um tipo de pedra, uma jia, feita de
resina de rvore. s vezes tem um inseto dentro delas. -Ah, voc est
falando de mbar- disse ele. Ambos falaram ao mesmo tempo: -Ambrico! E
ambos viram a expresso no rosto do outro. Durante muito tempo
Willlembrou-se desse momento. -Bom, eletromagnetismo -disse ele,
desviando os olhos. -Parece o que agente chama de fsica, essa sua
teologia experimental. Voc vai precisar de cientistas, no de telogos.
#72 -Ah, vou conseguir encontrar -disse ela em tom cauteloso. Estavam
sentados ao ar livre naquela manh sem nuvens, e qualquer um dos dois
poderia ter falado a seguir, porque ambos estavam cheios de perguntas;
mas nesse momento ouviram uma voz que vinha de mais longe ao longo da
calada da praia, da direo dos jardins do cassino. Ambos olharam para
l, espantados. Era uma voz infantil, mas no havia ningum  vista.
Will perguntou baixinho a Lyra: -Hquanto tempo mesmo voc est aqui?
-Trs, quatro dias, perdi a conta. Nunca vi ningum. No tem ningum
aquI. ProcureI em quase toda parte. Mas havia. Duas crianas, uma delas
uma garota da idade de Lyra e a outra um menino mais jovem, saram de
uma das ruas que levavam ao porto. Carregavam cestas, e ambos tinham
cabelos ruivos. Estavam a menos de 100 metros quando avistaram Will e
Lyra  mesa do pequeno restaurante. Pantalaimon mudou de pintassilgo
para camundongo e subiu correndo pelo brao de Lyra para o bolso da
camisa dela. Ele reparou que aquelas novas crianas eram como Will:
nenhuma das duas tinha um daemon visvel. As duas crianas
aproximaram-se e ocuparam uma mesa prxima. -Vocs so de Ci'gazze? -a
menina perguntou. Will sacudiu a cabea. -De Sant'Elia? -No. Somos de
outro lugar -Lyra respondeu. A menina assentiu; era uma resposta
razovel. -O que  que est acontecendo? -Will perguntou. - Onde esto
os adultos? #73 A menina franziu a testa. -Os Espectros no vieram  sua
cidade? -quis saber . -No -disse Will. -Acabamos de chegar. No sabemos
nada sobre Espectros. Qual  o nome desta cidade? -Ci'gazze -a menina
informou, cheia de suspeita. - Quer dizer, Cittgazze. -Cittgazze...
-Lyra repetiu. -Ci'gazze. Por que os adultos tiveram que ir embora? -Por
causa dos Espectros -a menina explicou com enorme sarcasmo. -Qual  o
seu nome? -Lyra. E ele  Will. Qual  o seu? -Anglica. O meu irmo 
Paolo. -De onde vocs vieram? -Dos morros. Houve uma grande tempestade e
muita neblina, e todo mundo ficou assustado, de modo que corremos para o
alto dos morros. Ento, quando a neblina clareou, os adultos viram pelos
telescpios que a cidade estava cheia de Espectros, de modo que eles no
podiam voltar .Mas as crianas, a gente no tem medo de Espectros, ora.
Mais crianas esto vindo a. Vo chegar mais tarde, mas ns fomos os
primeiros. -Ns e o Tullio -disse o pequeno Paolo com orgulho. -Quem 
Tullio? Anglica ficou zangada: Paolo no devia ter mencionado o outro
irmo. Agora j no era segredo. -O nosso irmo mais velho -explicou.
-Ele no est conosco. Est escondido at conseguir... Est escondido,
s isso. -Ele vai pegar... -Paolo comeou, mas Anglica deu-lhe um tapa
com fora e ele calou a boca, apertando os lbios trmulos. #74 -Que foi
que voc disse sobre a cidade? -quis saber Will. -Que est cheia de
Espectros? -, Ci'gazze, Sant'Elia, todas as cidades, os Espectros vo
aonde as pessoas esto. De onde voc vem? -De Winchester -Will informou.
-Nunca ouvi falar. L no tem Espectros? -No. Tambm no estou vendo
nenhum aqui. -Claro que no! -ela exclamou. -Voc no  adulto! Quando a
gente fica adulto, v Espectros. -Eu no tenho medo de Espectros -disse
o garotinho, erguendo o queixo sujo. -Mato todos eles. -Os adultos no
vo mais voltar? -Lyra perguntou. -Vo, daqui a alguns dias -disse
Anglica. -Quando os Espectros forem para outro lugar. Ns gostamos
quando os Espectros vm para c, porque podemos correr pela cidade,
fazer tudo que queremos. -Mas o que os adultos acham que os Espectros
vo fazer com eles? -Will perguntou. -Bom, quando um Espectro agarra um
adulto, a coisa  feia de se ver. Eles comem a vida dele ali, na hora.
No quero ser adulta, eu juro. No princpio eles sabem o que est
acontecendo e ficam com medo, e gritam e gritam, tentam olhar para outro
lado e fingir que no est acontecendo, mas est.  tarde demais. E
ningum chega perto deles, eles ficam sozinhos. Ento ficam plidos e
param de se mexer. Ainda esto vivos, mas  como se tivessem sido
comidos por dentro. A gente olha nos olhos deles e v o fundo da cabea.
No tem nada l dentro. A menina virou-se para o irmo e limpou o nariz
dele na manga da camisa. #75 -Eu e Paolo vamos procurar sorvete
-informou. - Querem vir tambm? -No -disse Will. -Temos uma coisa a
fazer. -Ento at logo -disse ela. -Morte aos Espectros! -Paolo
completou. -At logo -fez Lyra. Assim que Anglica e o menininho
desapareceram, Pantalaimon surgiu do bolso de Lyra, olhos brilhantes, os
plos da cabecinha de camundongo eriados. Disse a Will: -Eles no sabem
da janela que voc encontrou. Era a primeira vez que Will o ouvia falar,
e isso quase o deixou mais espantado do que tudo que ele vira at ento.
Lyra riu do seu espanto. -Mas... ele falou... Todos os daemons falam?
-quis saber. -Claro que sim! -disse Lyra. -Achou que ele era s um
bichinho de estimao? Will passou a mo pelos cabelos e pestanejou.
Depois sacudiu a cabea e voltou-se para Pantalaimon: -No, voc tem
razo, eu acho. Eles no sabem da janela. -Ento  melhor termos cuidado
com isso -Pantalaimon continuou. Durou um instante a estranheza de
conversar com um camundongo, e logo passou a ser to normal quanto falar
ao telefone, porque na verdade ele estava falando com Lyra. Mas o
camundongo era um ser independente; tinha alguma coisa de Lyra em sua
expresso, mas alguma outra coisa tambm. Era difcil raciocinar, com
tantas coisas esquisitas acontecendo ao mesmo tempo. Will tentou
organizar os pensamentos. #76 -Primeiro voc tem que arrumar algumas
roupas, Lyra, antes de entrar na minha Oxford -afirmou. -Por qu? -ela
perguntou, rebelde. -Porque no meu mundo voc no pode ir falar com as
pessoas vestida assim, elas no iam deixar voc chegar perto. Tem que
parecer que faz parte delas. Tem que andar camuflada. Eu sei, entende?
Fao isso h anos.  melhor voc me escutar, seno vai ser apanhada, e
se descobrirem de onde voc veio, a Janela, e tudo... Ora, este mundo 
um bom esconderIJo. Sabe, eu... Preciso me esconder de certas pessoas.
Este  o melhor esconderijo que eu poderia sonhar, e no quero que seja
descoberto. Portanto, no quero que voc estrague tudo com sua aparncia
de quem no faz parte de l. Tenho minhas coisas a fazer em Oxford, e se
me descobrirem por sua causa eu mato voc. Ela engoliu em seco. O
aletmetro nunca mentia: aquele garoto era um assassino -e, se tinha
matado antes, podia mat-la tambm. Ela assentiu com ar srio. -Est bem
-disse, e era verdade. Pantalaimon tinha virado um lmure e o encarava
com um olhar desconcertante. Will encarou-o de volta, e o daemon virou
camundongo outra vez, entrando para o bolso dela. -timo -ele disse.
-Agora, enquanto estivermos aqui, vamos fingir para as outras crianas
que viemos de algum lugar do mundo delas.  bom no haver adultos.
Podemos ficar  vontade, ningum vai perceber. Mas no meu mundo voc vai
ter que me obedecer. E a primeira coisa  tomar um banho. Voc vai
precisar parecer limpa, seno vai ser notada. Temos que estar camuflados
em toda parte. Temos que parecer que fazemos parte dali, com tanta
naturalidade que as pessoas nem nos percebam. Ento, para comear, v
lavar os #77 cabelos. Eu vi um xampu no banheiro. Depois vamos procurar
algumas roupas. -No sei fazer isso -ela admitiu. -Nunca lavei meus
cabelos. A governanta fazia isso na Jordan, e depois de l eu nunca mais
precIseI. -Bom, vai ter que dar um jeito -ele insistiu. -Tome logo um
banho completo. No meu mundo as pessoas so limpas. -Hum... -fez Lyra, e
foi para o segundo andar. O olhar de um camundongo feroz fixou-se nele
por cima do ombro dela, mas ele retribuiu o olhar com frieza. Parte dele
queria passear nessa manh ensolarada, explorar a cidade, mas outra
parte tremia de ansiedade pela me, e mais outra parte estava ainda
dopada pelo choque da morte que ele provocara. E acima de tudo havia a
misso que ele tinha que cumprir. Mas era bom manter-se ocupado, de modo
que enquanto esperava por Lyra ele limpou a cozinha, lavou o cho e
esvaziou a lata de lixo no recipiente que encontrou no beco nos fundos.
Depois pegou dentro da sacola o escrnio de couro verde e contemplou-o
com anseio. Assim que tivesse mostrado a Lyra como atravessar a janela
para dentro da Oxford dele, ia voltar e examinar o seu contedo; mas at
ento ele o enfiou sob o colcho da cama onde havia dormido. Neste mundo
ele estava em segurana. Quando Lyra desceu, limpa e molhada, os dois
saram em busca de roupas para ela. Encontraram uma loja de
departamentos, modesta como tudo mais, com roupas que aos olhos de Will
pareciam um pouco fora de moda, mas acharam para Lyra uma saia escocesa
e uma blusa verde sem mangas, com um bolso para Pantalaimon. Ela
recusou-se a usar jeans: recusou-se at a acreditar quando Will lhe
disse que a maioria das garotas usava. #78 -So calas! -protestou. -Eu
sou mulher. No seja burro. Ele deu de ombros; a saia escocesa era
discreta, isso era o principal. Antes de partirem, Will deixou algumas
moedas na caixa atrs do balco. -O que  que voc est fazendo? -ela
quis saber. -Pagando. Voc tem que pagar pelas coisas. No seu mundo no
se paga pelas coisas? -No neste aqui! Aposto que aquelas outras
crianas no esto pagando por nada! -Elas podem no pagar, mas eu pago.
-Se comear a se comportar como adulto, os Espectros vo lhe pegar -ela
avisou, embora ainda no soubesse se podia brincar com ele ou se devia
continuar tendo medo dele.  luz do dia Will via como eram antigos os
prdios no centro da cidade, e o estado de runa a que alguns deles
tinham chegado. A rua estava cheia de buracos no consertados; havia
janelas quebradas, rebocos caindo. No entanto, j houvera nesse lugar
beleza e esplendor: atravs de arcos entalhados viam-se ptios
espaosos, cheios de plantas, e havia grandes construes que pareciam
palcios, embora as escadarias estivessem rachadas, e as molduras das
portas, soltas das paredes. Parecia que, em vez de derrubar um prdio e
construir um novo, os cidados de Ci'gazze preferiam remend-lo
indefinidamente. A certa altura chegaram a uma torre solitria numa
pracinha. Era a construo mais antiga que tinham visto: uma torre
simples, de quatro andares, com amei as no topo. Alguma coisa na sua
imobilidade  luz forte do sol era intrigante, e tanto Will quanto Lyra
sentiram-se atrados para a meia-porta aberta no topo da escadaria
larga; mas no falaram sobre isso, e com certa relutncia seguiram seu
caminho. #79 Quando chegaram  alameda larga, com as palmeiras, ele
mandou-a procurar um pequeno caf de esquina, com mesas de metal
pintadas de verde na calada. Ela encontrOU-o num minutO. Parecia menor
e mais pobre  luz do dia, mas era o mesmo lugar, com o balco de tampo
de zinco, a mquina de caf expresso, o pratO de risotO pela metade,
agora comeando a cheirar mal no ar quente. - aqui? -Lyra perguntOu.
-No. Fica no meio da rua. Veja se no h outras crianas por pertO...
Mas estavam sozinhos. Will levou-a para o canteiro central sob as
palmeiras e olhou em volta para se orientar. -Acho que era por aqui
-disse. -Quando atravessei, via muitO mal aquele morro altO atrs da
casa branca l em cima, e olhando para este lado eu vi o caf, e. ..
-Como  essa coisa? No estOU vendo nada. -Voc no vai confundir. No
parece nada que voc j tenha vistO. Ele caminhava de um lado para
outro. A janela teria desaparecido? Teria fechado? Ele no conseguia
encontr-la. E de repente encontrOU-a. Estivera observando aborda do
canteiro enquantO caminhava; assim como na noite anterior, no lado de
Oxford, ela s podia ser vista de um lado; quando se passava para trs
dela, ela ficava invisvel. E o sol no gramado do outrO lado era
exatamente como o sol no gramado deste lado, a no ser por alguma coisa
indizivelmente diferente. -Achei! -exclamou, quando teve certeza. -Ah!
EstOu vendo! Ela estava alvoroada. Parecia to atnita quantO ele ao
escutar Pantalaimon falar. O daemon, incapaz de continuar dentro do
bolso, tinha sado como uma vespa, e voou zumbindo #80 at o buraco
algumas vezes, recuando sempre, enquanto ela enrolava entre os dedos os
cabelos ainda molhados. -Fique de lado -ele instruiu. -Se ficar na
frente dele, as pessoas vo ver s um par de pernas, e isso ia causar
sensao. No quero que ningum perceba. -Que barulho  este? -Trnsito.
Vamos sair no trevo de Oxford. Deve estar muito movimentado. Abaixe-se e
d uma olhada por este lado. Na verdade, no  uma hora boa para a gente
atravessar, muitas pessoas passando. Mas vai ser difcil encontrar um
lugar para ir se atravessarmos no meio da noite. Pelo menos, depois de
atravessarmos poderemos nos misturar com facilidade. Voc passa
primeiro. Mergulhe depressa e depois afaste-se da janela. Desde que
saram do caf, ela vinha carregando uma pequena mochila azul e, antes
de agachar-se e olhar para o outro lado, ela tirou a mochila das costas
e segurou-a nos braos. -Ah! -exclamou. -Este a  o seu mundo? No est
parecendo ser Oxford. Tem certeza que estava em Oxford? -Claro que
tenho. Quando atravessar, vai ver uma rua bem na sua frente. V para a
esquerda, e depois, um pouco  frente, pegue a rua que vai para a
direita. Ela leva ao centro da cidade. No deixe de marcar bem esta
janela e no se esquea de onde ela est, certo?  a nica maneira de
voltar . -Certo, no me esquecerei. Com a mochila nos braos, ela
mergulhou no ar atravs das janela e desapareceu. Will agachou-se para
ver aonde ela ia. E l estava ela, parada no gramado na Oxford dele, com
Pan ainda como vespa no ombro dela, e ningum, pelo que ele podia dizer,
a tinha visto surgir do nada. A poucos passos, carros e caminhes
voavam, e nesse cruzamento movimentado #81 nenhum motorista teria tempo
de olhar para o lado e reparar num pequeno trecho de ar esquisito, mesmo
se conseguisse v-lo, e o trnsito escondia a janela de qualquer pessoa
que olhasse da outra calada. Houve o guinchar de freios, um grito, uma
batida. Ele jogou-se no cho para olhar. Lyra estava cada na grama. Um
carro tinha freado to subitamente, que foi atingido pelo furgo que
vinha atrs, sendo empurrado alguns metros para a frente, e l estava
Lyra, imvel... Willlanou-se atrs dela. Ningum o viu surgir; todos os
olhos estavam no carro, no pra-choque amassado, no motorista do furgo-
que saltava do veculo -e na menina. -No consegui impedir... Ela entrou
correndo na frente... -disse a mulher de meia-idade que estava ao
volante do carro. -E voc estava perto demais -acrescentou, voltando-se
para o motorista do furgo. -Depois a gente v isso -ele retrucou. -Como
est a menina? O motorista do furgo estava falando com Will, de joelhos
ao lado de Lyra. Will ergueu os olhos e olhou em volta, mas no havia
outro jeito, ele era responsvel por ela. No cho, Lyra mexia a cabea,
pestanejando. Will viu Pantalaimon em forma de vespa arrastando-se por
um talo de grama ao lado dela. -Voc est bem? -ele perguntou. -Mexa os
braos e as pernas. -U ma estupidez! -dizia a mulher dentro do carro. -
Correu na minha frente. Nem olhou. Que  que eu podia fazer? -Voc est
bem, querida? -perguntou o motorista do furgo. #82 -Estou -balbuciou
Lyra. -Tudo no lugar? -Mexa os ps e as mos -Will insistiu. Ela
obedeceu. No havia fratura. -Ela est bem -Will assegurou. -Vou tomar
conta dela. Ela est tima. -Voc conhece esta menina? -quis saber o
motorista do furgo. - minha irm -disse Will. -Est tudo bem. Moramos
logo ali, dobrando a esquina. Vou levar ela para casa. Lyra agora estava
sentada, e, como era evidente que ela no estava gravemente ferida, a
mulher voltou sua ateno para o carro. O resto do trnsito passava ao
largo dos dois veculos parados, e ao passarem olhavam para a cena com
curiosidade, como sempre acontece. Will ajudou Lyra a se levantar;
quanto mais depressa sassem dali, melhor. A mulher e o motorista do
furgo tinham chegado  concluso de que o problema deveria ser
resolvido pelas respectivas companhias de seguros, e estavam trocando
endereos quando a mulher viu Will afastando-se, ajudando Lyra, que
mancava. -Esperem! -gritou. -Vocs vo ser testemunhas. Preciso do seu
nome e endereo. -Sou Mark Ransom -disse Will, virando-se. - Minha irm
se chama Lisa. Moramos na Travessa Bourne 26. -Cdigo postal? -Nunca me
lembro -ele disse. -Escute, quero levar minha irm para casa. -Entrem
aqui, vou lhes dar uma carona -ofereceu o motorista do furgo. -No 
preciso,  mais rpido a p. #83 Lyra no estava mancando muito.
Afastou-se caminhando com Will ao longo do gramado sob os carpinos; os
dois viraram na primeira esquina que encontraram. Sentaram-se num muro
baixo de praa. -Est machucada? -Will perguntou. -Minha perna bateu. E
quando eu ca, a minha cabea tremeu -ela respondeu. Mas estava mais
preocupada com o que havia dentro da mochila. TateOU l dentro e pegou
um embrulhinho pesado, envolvido em veludo negro, que ela desdobrou.
Will arregalou os olhos ao ver o aletmetro: os minsculos smbolos
pintados em volta do mostrador, os ponteiros dourados, o ponteiro maior
em movimento, a pesada opulncia do envoltrio de metal- tudo isso
deixou-o sem flego. -Que  isso? -quis saber. - o meu aletmetro.  um
contador de verdade. Um leitor de smbolos. Espero que no esteja
quebrado... Mas o artefato estava intacto. Mesmo nas mos trmulas de
Lyra o ponteiro maior girava regularmente. Ela guardou o aletmetro e
disse: -Nunca vi tantas carroas e coisas... Nunca pensei que andassem
to depressa... -A sua Oxford no tem carros e furges? -No tantOS
assim. E no como esses. Eu no estOU acostumada. Mas j estOU bem.
-Bom, de agora em diante tome cuidado. Se for parar debaixo de um
nibus, ou se se perder ou coisa assim, vo perceber que voc no 
deste mundo e vo comear a procurar a passagem... Ele estava muito mais
zangado do que precisava. Finalmente declarou: #84 -Est certo. Escute:
se fingir que  minha irm, isso vai ser um bom disfarce para mim, pois
o menino que eles esto procurando  filho nico. E se eu estiver com
voc, posso lhe ensinar a atravessar a rua sem ser atropelada. -Est bem
-ela concordou com humildade. -E dinheiro. Aposto que voc no tem...
Ora, como poderia ter dinheiro? Como vai se movimentar, comer e tudo
mais? -Eu tenho dinheiro -ela contestou, e pescou algumas moedas de ouro
na bolsa. Will estudou-as com expresso incrdula. - ouro? , sim, no
? Bom, isto ia fazer todo mundo ficar curioso, se ia. Voc no est
segura. Vou lhe dar algum dinheiro. Guarde estas moedas bem escondidas.
E lembre-se: voc  a minha irm e o seu nome  Lisa Ransom. -Lizzie. U
ma vez fingi que meu nome era Lizzie. Posso me lembrar disso. -Est bem,
Lizzie. E eu sou Mark. No esquea. -Est certo -ela concordou. A perna
ia ficar muito dolorida; estava vermelha e inchada onde o carro tinha
batido, e uma grande mancha escura j estava se formando. Com a equimose
no rosto, onde ele a golpeara na vspera, ela parecia maltratada, e isso
tambm preocupava o garoto: e se um policial ficasse curioso? Tentou
tirar isso da cabea e os dois partiram, atravessando a rua no sinal e
lanando um ltimo olhar  janela sob os carpinos. No conseguiam v-la.
Ela estava invisvel, e o trnsito retomara seu fluxo. Em Summertown,
depois de dez minutos de caminhada pela Rua Banbury, Will parou na
frente de um banco. -O que  que voc vai fazer? #85 -Vou tirar algum
dinheiro.  melhor no fazer isso muitas vezes, mas eles s vo
registrar o saque no final do expediente, eu imagino. Colocou o carto
bancrio da me na caixa automtica e digitou a senha. Pelo jeito estava
tudo certo, portanto ele retirou 100 libras, que a mquina entregou sem
um seno. Lyra observava, boquiaberta. Ele deu a ela uma nota de 20
libras. -Para usar depois -disse. -Compre uma coisa qualquer para trocar
o dinheiro. Vamos procurar um nibus para a cidade. No nibus, Lyra
deixou que ele cuidasse das coisas e ficou sentada, muito quieta,
observando as casas e os jardins da cidade que era dela e no era. Ela
se sentia como se estivesse dentro do sonho de outra pessoa. Saltaram no
centro da cidade, junto a uma antiga igreja de pedra, que ela conhecia,
na frente de uma grande loja de departamentos que ela no conhecia.
-Est tudo mudado! -disse. -Como... Ali no  o Mercado de Milho? E esta
aqui  a Broad. Ali, o Balliol. E a Biblioteca Bodley's, ali embaixo.
Mas onde est a Jordan? Ela agora tremia com fora. Podia ser uma reao
retardada por causa do acidente, ou um choque atual por encontrar um
prdio inteiramente diferente no lugar da Universidade Jordan, que era o
seu lar. -No est certo -disse. Falava baixinho, porque Will lhe
ordenara que parasse de apontar e comentar em voz to alta as coisas que
estavam erradas. - uma outra Oxford. -Bom, agente sabia disso. Ele no
estava preparado para o espanto e a confuso de Lyra. No tinha como
saber at que ponto a infncia dela havia #86 transcorrido em correrias
por ruas quase idnticas a essas, e o orgulho que ela sentia por
pertencer  Universidade Jordan, cujos Catedrticos eram os mais
inteligentes, cujos cofres eram os mais ricos, cuja beleza era a mais
esplndida; e tudo isso agora simplesmente no estava ali, e ela no era
mais a Lyra da Jordan; era uma menininha perdida num mundo estranho, que
no fazia parte de nenhum lugar. -Bem, se no est a... -disse em voz
trmula. Ia apenas demorar um pouco mais do que ela havia pensado -s
isso. #87 4 A TREPANAO Assim que Lyra seguiu seu caminho, Will
procurou um telefone pblico e discou o nmero que constava na carta do
advogado que ele tinha na mo. -Al? Quero falar com o Sr. Perkins.
-Quem est falando, por favor? - a respeito do Sr. John Parry. Sou o
filho dele. -Um momento, por favor... Passou-se um minuto e uma voz
masculina disse: -Al? Sou Alan Perkins. Quem est falando? -William
Parry. Desculpe-me incomodar.  sobre o meu pai, John Parry. De trs em
trs meses o senhor manda dinheiro do meu pai para a conta bancria da
minha me. -Sim... -Bem, quero saber onde meu pai est, por favor. Ele
est vivo ou morto? -Quantos anos voc tem, William? -Doze. Quero saber
sobre o meu pai. #88 -Sim... A sua me, ela... A sua me sabe deste
telefonema? Will pensou cuidadosamente. -No -disse afinal. -Mas ela no
est muito bem de sade. No pode me contar muita coisa, e eu quero
saber. -Certo, entendo. Onde  que voc est? Em casa? -No. Estou...
Estou em Oxford. -Sozinho? -. -E a sua me no est bem, foi o que voc
disse? -Isso mesmo. -Ela est no hospital, ou coisa assim? -Algo
parecido. Escute, o senhor pode me contar ou no? -Bem, posso lhe contar
alguma coisa, mas no muita, e no neste momento, e eu prefiro no fazer
isso por telefone. Tenho um cliente daqui a cinco minutos... Voc
poderia vir ao meu escritrio s duas e meia? -No -fez Will. Seria
arriscado demais: o advogado poderia estar sabendo que ele estava sendo
procurado pela polcia. Pensou depressa e prosseguiu: -Tenho que pegar
um nibus para Nottingham. Mas o que eu quero saber o senhor pode me
contar pelo telefone, no pode? S quero saber se o meu pai est vivo,
e, se estiver, onde  que ele est. O senhor pode me contar isso, no
pode? -No  to simples assim. No posso fornecer informaes pessoais
sobre um cliente sem ter certeza de que o cliente deseja isso. E de
qualquer maneira preciso de uma prova de quem voc . -Est certo, eu
compreendo, mas pode me dizer s se ele est vivo? #89 -Bem... Isso no
seria confidencial, mas infelizmente no posso lhe informar, porque
tambm no sei. -Hein? -O dinheiro vem de um legado de famlia. Ele
deixou instrues para que o pagamento seja feito at que ele me d
outra ordem. Desde esse dia no tive mais notcias dele. O que isso quer
dizer  que... Bem, acho que ele desapareceu.  por isso que no posso
responder  sua pergunta. -Desapareceu? Sumiu? -Essa informao  de
domnio pblico. Escute, por que no vem ao meu escritrio e... -No
posso. Vou para Nottingham. -Bem, ento me escreva ou pea  sua me
para me escrever, e vou informar o que eu puder. Mas tem que entender
que no posso fazer isso pelo telefone. -, entendo. Est bem. Mas pode
me dizer onde foi que ele sumiu? -Como j lhe disse, isso  de domnio
pblico. Na poca muitos jornais publicaram. Voc sabe que ele era um
explorador? -Mame me contou algumas coisas... -Bem, ele estava
trabalhando como guia para uma expedio que desapareceu. H uns 10
anos. -Onde? -No extremo norte. No Alasca, eu acho. Voc pode procurar
na biblioteca pblica. Por que voc no... Mas nesse ponto acabou o
dinheiro que Will colocara no telefone pblico, e ele no tinha mais
trocado. O sinal de discar zumbia em seu ouvido. Ele baixou o fone e
olhou em volta. O que queria acima de tudo era falar com a me. Teve que
fazer fora para no discar o nmero da Sra. Cooper, #90 porque se
ouvisse a voz da me seria muito difcil no voltar para perto dela, e
isso colocaria os dois em perigo. Mas podia mandar-lhe um carto-postal.
Escolheu uma foto da cidade e escreveu: "Mame querida, estou bem e logo
estarei de volta. Espero que esteja tudo certo. Eu te amo. Will." Ento
endereou-o e comprou um selo, e segurou o carto junto ao peito por um
instante antes de deix-lo cair na caixa de coleta. Era o meio da manh
e ele estava na principal rua de comrcio, onde os nibus abriam caminho
por entre a massa de pedestres. Ele comeou a perceber como estava
exposto; era um dia de semana, e uma criana da sua idade deveria estar
na escola. Aonde poderia ir? No demorou a se esconder. Will conseguia
desaparecer com facilidade, pois era bom nisso; tinha at orgulho da sua
habilidade. O modo como fazia isso foi parecido com o modo como Serafina
Pekkala ficou invisvel no navio: ele se fazia intensamente discreto.
Tornava-se parte da paisagem. Agora, conhecendo o tipo de mundo em que
vivia, ele entrou numa papelaria e comprou uma caneta esferogrfica, um
bloco de notas e uma prancheta. Muitas vezes as escolas enviavam grupos
de alunos para fazer pesquisas de compras, ou algo assim, e, se desse a
impresso de estar envolvido num projeto desse tipo, no causaria
estranheza. E assim ele vagou, fingindo tomar notas, olhos atentos 
procura da biblioteca pblica. Lyra, enquanto isso, estava procurando um
lugar sossegado para consultar o aletmetro. Na sua Oxford haveria uma
dzia de lugares a menos de cinco minutos a p, mas essa Oxford era to
desconcertante, to diferente, com trechos de pungente familiaridade
vizinhos a trechos inteiramente disparatados. #91 Por que tinham pintado
aquelas linhas amarelas na rua? Que eram aqueles crculos brancos
pontilhando as caladas? (No seu mundo nunca se ouvira falar de goma de
mascar.) Que poderiam ser aquelas luzes vermelhas e verdes em cada
esquina? Era tudo muito mais difcil de decifrar do que o aletmetro.
Mas ali estavam os portes da Universidade St. John's, que ela e Roger
uma vez saltaram depois que escureceu para plantar fogos de artifcio
nos canteiros de flores; e aquela pedra no muro, na esquina da Rua Catte
-l estavam as iniciais SP que Simon Parslow tinha feito, as prprias!
Ela tinha visto Simon fazer aquilo! Algum neste mundo, com as mesmas
iniciais, parou ali e fez exatamente a mesma coisa. Talvez houvesse um
Simon Parslow neste mundo. Talvez houvesse uma Lyra! Aquela Oxford
diferia da dela tambm em outra coisa: a enorme quantidade de pessoas
enchendo todas as caladas, entrando e saindo de todos os prdios; havia
gente de todo tipo- mulheres vestidas como homens, africanos, at mesmo
um grupo de trtaros pacificamente seguindo seu lder, todos bem
vestidos, levando caixinhas pretas penduradas no pescoo. Ela os
contemplou a princpio com medo, porque eles no tinham daemons, e no
mundo dela seriam considerados avantesmas, ou coisa pior . Mas o mais
estranho era que pareciam inteiramente vivos. Aquelas criaturas
demonstravam vivacidade, exatamente como se fossem humanos, e Lyra teve
que admitir que provavelmente eram mesmo humanos, e que seus daemons
estavam dentro deles, como o de Will. Depois de vagar por uma hora
observando aquela falsa Oxford, ela sentiu fome e comprou uma barra de
chocolate #92 com sua nota de 20 libras. O vendedor olhou para ela com
estranheza, mas vinha das ndias e com certeza no entendia o sotaque
dela, embora ela tivesse pronunciado com clareza. Com o troco ela
comprou uma ma no Mercado Coberto, que era muito mais parecido com a
Oxford de verdade, e se encaminhou para o parque. Ali encontrou-se
diante de um prdio grandioso, um prdio do tipo Oxford de verdade, mas
que no existia no mundo dela, embora no fosse parecer deslocado l.
Ela sentou-se na grama do lado de fora para comer, e ficou contemplando
o prdio com olhar de aprovao. Descobriu que era um museu. As portas
estavam abertas, e l dentro ela encontrou animais empalhados,
esqueletos de fsseis e caixas de minerais, exatamente como o Museu
Geolgico Real que ela visitara com a Sra. Coulter na sua Londres. Atrs
do grande saguo de ferro e vidro, ficava a entrada para outra parte do
museu, e como ali parecia quase deserto, ela entrou e olhou em volta. O
aletmetro ainda era a coisa mais urgente em sua mente, mas naquele
segundo salo ela se viu rodeada de coisas que conhecia bem: trajes
rticos iguaizinhos ao dela, trens, objetos entalhados em presas de
lees-marinhos, arpes para a caa s focas, uma mistura de mil e um
trofus, relquias, objetos -mgicos, ferramentas e armas, no apenas do
Artico -ela percebeu -mas de todas as partes daquele mundo. Ora, que
coisa estranha! As peles de caribu eram exatamente iguais s delas, mas
tinham atado as tiras do tren de modo inteiramente errado! Mas ali
estava um fotograma mostrando alguns caadores samoiedes, a imagem exata
dos que tinham raptado Lyra para vend-la para Bolvangar. Veja s! So
os mesmos homens! E aquela corda tinha se esgarado exatamente no mesmo
lugar, que ela conhecia intimamente, #93 tendo passado vrias horas de
sofrimento amarrada naquele mesmo tren... O que eram esses mistrios?
Haveria, afinal, um nico mundo, que passava o tempo sonhando com outros
mundos? E ento ela encontrou uma coisa que lhe lembrou novamente o
aletmetro. Numa antiga estante de vidro com moldura de madeira pintada
de preto havia alguns crnios humanos, e alguns tinham buracos; alguns
na frente, outros do lado, outros no topo. O do centro tinha dois. Uma
caligrafia ornamentada, num carto, informava que aquele processo se
chamava "trepanao". O carto afirmava tambm que todos os orifcios
tinham sido feitos durante a vida das pessoas porque o tecido
cicatrizara em volta da borda. Um deles, no entanto, era diferente: o
orifcio tinha sido feito por uma flecha de ponta de bronze que ainda
estava l dentro, e a borda era aguada e irregular, de modo que era
bvio que aquele era outro caso. Era exatamente o que os trtaros do
Norte faziam. E o que Stanislaus Grumman tinha feito a si mesmo, segundo
os Catedrticos da Jordan que o conheceram. Lyra olhou em volta, no viu
ningum e ento pegou o aletmetro. Focalizou a mente no crnio central
e perguntou: a que tipo de pessoa esse crnio pertenceu, e por que ela
mandou fazer esses buracos? Enquanto estava concentrada,  luz
empoeirada que se filtrava pelo telhado de vidro e passava pelas
galerias superiores, ela no percebeu que estava sendo observada. Um
homem corpulento, de 60 e poucos anos, usando um terno de linho muito
bem cortado e segurando um chapu panam, estava parado na galeria
superior, junto ao parapeito de grade de ferro, olhando para ela. #94
Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trs, desnudando a testa
lisa, bronzeada, com pouqussimas rugas. Ele tinha os olhos grandes,
escuros e profundos, clios longos, e a cada minuto sua lngua pontuda,
de ponta escura, assomava no canto da boca e dardejava umidamente sobre
os lbios. O leno no bolso do palet, branco como neve, era perfumado
com algum perfume forte, como aquelas plantas de estufa to ricas que se
pode sen tir o cheiro da sua degenerescncia exalado pelas razes. Ele
estava observando Lyra havia alguns minutos. Tinha acompanhado da
galeria superior o percurso da menina no andar abaixo e, quando ela
parou junto  estante de crnios, ele ficou a observ-la atentamente,
estudando todos os detalhes: os cabelos despenteados, a equimose no
rosto, as roupas novas, o pescoo nu curvado sobre o aletmetro, as
pernas nuas. Ele tirou o leno do bolso e enxugou a testa, depois se
dirigiu para a escada. Lyra, absorta, estava aprendendo coisas
estranhas. Aqueles crnios eram inimaginavelmente velhos; os cartes na
estante diziam simplesmente "Idade do Bronze", mas o aletmetro, que
nunca mentia, disse que o homem a quem aquele crnio pertencera tinha
vivido 33.254 anos antes, e que tinha sido um feiticeiro, e que o
orifcio tinha sido feito para que os deuses entrassem em sua cabea. E
ento o aletmetro, na maneira casual com que s vezes respondia a uma
pergunta que Lyra no tinha formulado, acrescentou que havia muito mais
P em volta dos crnios trepanados do que daquele com a flecha. O que
aquilo poderia significar? Lyra saiu da tranqilidade forada que
compartilhava com o aletmetro e voltou para o momento presente, onde
constatou que j no estava sozinha: contemplando a estante seguinte
estava um homem #95 idoso de terno claro e cheiro bom. Ele lembrava-lhe
algum que ela no conseguiu identificar. Ele percebeu que ela o
observava e ergueu os olhos com um sorrIso. -Voc est olhando para os
crnios trepanados? Que coisas estranhas as pessoas fazem a si mesmas!
-Hum -fez ela, sem expresso. -Sabe que as pessoas ainda fazem isso? -?
-Os hippies, sabe, gente assim. Alis, voc  jovem demais para se
lembrar dos hippies. Dizem que  mais eficaz do que usar drogas. Lyra
tinha guardado o aletmetro na mochila, e estava pensando em como sair
dali; ainda no tinha feito a pergunta principal, e agora aquele velho
estava puxando assunto com ela. Ele parecia bonzinho, e certamente
cheirava bem. Ele chegou mais perto. Sua mo roou a dela quando ele se
inclinou para a estante. -No d para acreditar, no  mesmo? Nada de
anestesia, nem desinfetante. Provavelmente feito com ferramentas de
pedra. Eles devem ter sido dures, no concorda? Acho que nunca vi voc
por aqui antes. Venho sempre aqui. Qual  o seu nome? -Lizzie -ela
respondeu, muito naturalmente. -Lizzie. Oi, Lizzie, eu sou Charles. Voc
estuda em Oxford? Ela no sabia como responder. -No -disse finalmente.
-Est de visita? Bom, escolheu um lugar maravilhoso para visitar. Em que
tipo de coisa voc est especialmente interessada? #96 Aquele homem
deixava-a mais confusa do que qualquer outra pessoa que ela tivesse
conhecido durante muito tempo. Por um lado ele era bonzinho e simptico,
muito limpo e bem vestido, mas por outro lado Pantalaimon, dentro do
bolso dela, estava pedindo sua ateno e implorando que ela tomasse
cuidado, porque ele tambm estava quase recordando alguma coisa; e ela
sentia, vindo de algum lugar, no um cheiro, mas a idia de um cheiro, e
era cheiro de esterco, de putrefao. Isso lhe lembrou o palcio de
Iofur Raknison, onde o ar era perfumado mas o cho era coberto de
imundcie. -Em que estou interessada? Ah, em tudo, na verdade. Acabei de
ficar interessada nesses crnios; no sei como algum ia querer fazer
isso.  horrvel. -No, eu tambm no ia gostar, mas juro a voc que
isso acontece mesmo. Eu poderia levar voc para conhecer algum que fez
-ele ofereceu, com ar to simptico e prestativo que ela quase ficou
tentada a aceitar. Mas nesse instante ele dardejou a ponta escura da
lngua pelos lbios com a rapidez de uma serpente, e ela sacudiu a
cabea. -Preciso ir -disse. -Obrigada pelo oferecimento, mas no vou
poder. E tenho que ir agora porque vou me encontrar com uma pessoa. A
minha amiga -acrescentou. -Com quem estou morando. -Ah, claro -ele
respondeu em tom bondoso. -Bem, foi um prazer conversar com voc. At
logo, Lizzie. -At -fez ela. -Ah! S para garantir, eis meu nome e
endereo -ele disse, estendendo-lhe um cartozinho. -Para o caso de voc
querer saber mais sobre coisas como esta. -Obrigada -ela respondeu
inexpressivamente. #97 Guardou o carto no bolso traseiro da mochila,
antes de sair, e sentiu que ele a observava durante todo o percurso at
a porta. Uma vez fora do museu, ela entrou no parque, que conhecia como
um campo de crquete e outros jogos, e encontrou um lugar sossegado sob
algumas rvores, onde tentou novamente o aletmetro. Dessa vez perguntou
onde poderia achar um Catedrtico que soubesse do P. A resposta que
recebeu foi simples: mandava que ela fosse a um certo aposento no prdio
alto e quadrado atrs dela. Na verdade, a resposta foi to direta e veio
to abruptamente que Lyra teve certeza de que o aletmetro tinha mais
alguma coisa a dizer; ela agora estava comeando a sentir que ele tinha
diferentes estados de esprito, como uma pessoa, e a distinguir quando
ele queria lhe contar mais alguma coisa. E ele queria mesmo. O que disse
foi: Voc tem que se preocupar com o garoto. A sua tarefa  ajud-lo a
encontrar o pai. Concentre-se nisto. Ela pestanejou. Estava realmente
atnita. Will surgira do nada para ajud-la; certamente isso era bvio.
A idia de que ela havia ido at ali para ajud-lo deixou-a sem flego.
Mas o aletmetro ainda no terminara. O ponteiro estremeceu, e ela leu:
No minta para a pessoa que voc vai procurar. Ela embrulhou o
aletmetro no veludo e escondeu-o dentro da mochila. Depois ficou de p
e olhou em volta  procura do prdio onde o seu Catedrtico seria
encontrado, e encaminhou-se para l sentindo-se insegura, mas decidida.
Will encontrou a biblioteca com facilidade. A bibliotecria estava
perfeitamente preparada para acreditar que ele estava pesquisando para
um dever de geografia e ajudou-o a encontrar os exemplares do ndice do
Times para o ano do nascimento #98 dele, que foi quando o pai tinha
desaparecido. Will sentou-se para procurar. Sem dvida havia vrias
referncias a John Parry em relao a uma expedio arqueolgica. Cada
ms ficava num rolo de microfilme separado; ele colocou um por um no
projetor, localizou os artigos e leu-os com grande ateno. O primeiro
deles contava a partida de uma expedio para o Norte do Alasca. A
expedio era patrocinada pelo Instituto de Arqueologia da Universidade
de Oxford, e ia estudar uma regio onde esperavam encontrar evidncias
de habitao humana em outras eras. John Parry, um explorador
profissional que tinha pertencido  Marinha Real, guiava a expedio. O
segundo artigo era de seis semanas mais tarde. Relatava concisamente que
a expedio tinha chegado  Estao de Pesquisa Norte-Americana em
Noatak, no Alasca. O terceiro datava de dois meses depois do segundo.
Dizia que os sinais enviados pela Estao de Pesquisa no estavam
recebendo resposta e que se presumia que John Parry e os companheIrOS
estavam mortos. Depois disso houve uma curta srie de reportagens
descrevendo as expedies que tinham partido em vo  procura deles, os
vos de busca acima do Mar Bhering, a reao do InstItuto de
ArqueologIa, entrevIstas com parentes. Seu corao bateu forte, porque
havia um retrato da sua prpria me. Segurando um beb: ele. O reprter
tinha escrito um artigo padro -a esposa chorosa esperando angustiada
notcias do marido -que Will achou decepcionantemente carente de fatos
reais. Havia um breve pargrafo dizendo que John Parry fizera uma
carreira de sucesso na Marinha Real e tinha partido para especializar-se
em organizar expedies geogrficas e cientficas -e isso era tudo. #99
No ndice no havia outra meno, e Will sentia-se confuso ao
levantar-se do leitor de microfilmes. Devia haver mais informaes em
algum outro lugar; mas aonde ele poderia ir? E se levasse tempo demais
nessa busca, acabaria sendo descoberto... Devolveu os rolos de
microfilme e perguntou  bibliotecria: -Sabe o endereo do Instituto de
Arqueologia, por favor? -Posso descobrir... De que escola voc ? -St.
Peter's -Will respondeu. -Isto no fica em Oxford, fica? -No,  em
Hampshire. A minha classe est fazendo uma espcie de pesquisa de campo.
Uma espcie de desenvolvimento dos instrumentos de pesquisa ambiental...
-Ah, entendo. O que voc queria mesmo... Arqueologia... Pronto, aqui
est. Will copiou o endereo e o telefone; como era seguro admitir que
no conhecia Oxford, ele perguntou onde encontrar esse lugar. No era
longe. Ele agradeceu  funcionria e partIu. Dentro do prdio, Lyra
encontrou uma grande escrivaninha ao p de uma escadaria, e atrs dela
um porteiro. -Aonde voc vai? -ele quis saber. Era como estar em casa de
novo. Ela sentiu que Pan, dentro do seu bolso, estava se divertindo.
-Tenho um recado para uma pessoa no segundo andar -ela disse. -Para
quem? -O Dr. Lister. -O Dr. Lister fica no terceiro andar. Se tem alguma
coisa para ele, pode deixar aqui, que eu aviso a ele. #100 -Ah, mas 
uma coisa de que ele precisa agora mesmo. Acabou de mandar buscar .No 
um objeto, na verdade,  uma coisa que preciso contar a ele. Ele a
estudou atentamente, mas no era preo para a docilidade humilde que
Lyra conseguia afetar quando queria; e finalmente assentiu e voltou ao
seu jornal. O aletmetro no contava a Lyra o nome das pessoas,  claro.
Ela lera o nome do Dr. Lister num escaninho na parede atrs do porteiro,
pois  mais fcil conseguir entrar quando a gente finge que conhece
algum. De certo modo Lyra conhecia o mundo de Will melhor que ele. No
segundo andar ela encontrou um corredor comprido onde havia uma porta
aberta que dava para um auditrio deserto, e outra dando para um
aposento menor, onde dois Catedrticos discutiam algo junto a um
quadro-negro. Essa sala e as paredes daquele corredor eram vazias e sem
adornos, de um modo que Lyra associava  pobreza, no  erudio e ao
esplendor de Oxford; no entanto, as paredes de tijolos eram bem
pintadas, e as portas eram de madeira pesada e os corrimes de ao
polido, de modo que eram caros. Essa era apenas mais uma coisa estranha
daquele mundo. Ela logo encontrou a porta mencionada pelo aletmetro. O
cartaz preso a ela dizia: "Unidade de Pesquisa de Matria Escura", e sob
ela algum rabiscara Descanse em Paz. Outra mo acrescentara a lpis:
"Diretor: Lzaro". Lyra no entendeu nada daquilo. Bateu  porta e uma
voz feminina respondeu: -Entre! Era uma sala pequena, atulhada de pilhas
instveis de livros e papis, e os quadros-negros nas paredes estavam
cobertos de algarismos e equaes. Preso nas costas da porta #101 aberta
Lyra entrevia outro aposento, onde havia uma complicada mquina ambrica
desligada. Lyra, por seu lado, ficou um pouco surpresa ao constatar que
o Catedrtico que procurava era mulher, mas o aletmetro no tinha
mencionado um homem, e aquele era um mundo estranho, afinal. A mulher
estava sentada diante de um mecanismo que mostrava nmeros e formas numa
pequena tela de vidro diante da qual todas as letras do alfabeto estavam
dispostas em bloquinhos numa bandeja de marfim. A Catedrtica tocou num
deles e a tela escureceu. -Quem  voc? -perguntou. Lyra fechou a porta
atrs de si. Pensando no que o aletmetro lhe dissera, ela tentou no
fazer o que normalmente faria, e falou a verdade. -Lyra da Lngua Mgica
-respondeu. -Qual  o seu nome? A mulher pestanejou. Tinha seus 30 e
tantos anos, Lyra imaginava, talvez um pouco mais velha que a Sra.
Coulter, com cabelos negros curtos e faces vermelhas. Usava um jaleco
branco aberto sobre uma camisa verde e aquelas calas de lona azul que
tanta gente usava neste mundo. Diante da pergunta de Lyra, a mulher
passou a mo pelos cabelos e disse: -Bem, voc  a segunda coisa
inesperada que me acontece hoje. Sou a Doutora Mary Malone. O que  que
voc quer? -Quero que me fale do P -disse Lyra, depois de olhar em
volta para ver se estavam sozinhas. -Sei que a senhora sabe sobre ele.
Posso provar. A senhora tem que nos contar. -P? De que  que voc est
falando? #102 -Pode ser que a senhora no chame assim. So partculas
elementares. No meu mundo os Catedrticos chamam de Partculas de
Rusakov, mas normalmente chamam de P. Elas no aparecem facilmente, mas
vm do espao e se fixam nas pessoas. No tanto nas crianas. Mais nos
adultos. E uma coisa que s descobri hoje: eu estava no museu no fim
desta rua e havia uns crnios com buracos, como os trtaros fazem, e
havia muito mais P em volta deles do que em volta de um que no tinha o
mesmo tipo de buraco. Quando foi a Idade do Bronze? A mulher encarava-a
de olhos arregalados. -A Idade do Bronze? Meu Deus, no sei. Talvez h
uns 5 mil anos -disse. -Ah, bom, ento eles erraram quando escreveram
aquilo. Aquele crnio com os dois buracos tem 33 mil anos de idade. Ela
ento silenciou, porque a Dra. Malone parecia prestes a desmaiar. A cor
das faces tinha desaparecido completamente; ela levou uma das mos ao
peito enquanto com a outra agarrava-se ao brao da poltrona, e tinha o
queixo cado. Lyra, firme e sem saber o que pensar, ficou esperando que
ela se recuperasse. -Quem  voc? -a mulher perguntou finalmente. -Lyra
da Lngua... -No, de onde voc vem? O que voc ? Como  que sabe
dessas coisas? Lyra suspirou de cansao; tinha se esquecido de como os
Catedrticos so complicados. Era difcil contar-lhes a verdade quando
eles entenderiam muito mais facilmente uma mentira. -Eu venho de outro
mundo -comeou a garota. - E nesse mundo existe uma Oxford como esta
aqui, s que diferente, e foi de l que eu vim. E... #103 -Espere,
espere, espere. Voc vem de onde? -De outro lugar -disse Lyra, com mais
cuidado. - No sou daqui. -Ah, de outro lugar- repetiu a mulher. -Estou
entendendo. Quer dizer, acho que estou. -E tenho que descobrir o que 
esse P -Lyra explicou. -Porque as pessoas da Igreja no meu mundo, sabe,
elas tm medo do P porque acham que  o pecado original. Ento  muito
importante. E o meu pai... No! -exclamou com veemncia, chegando a
bater o p no cho. -No era isso que eu ia dizer. Estou fazendo tudo
errado! A Dra. Malone olhou para a expresso de desespero da menina, os
punhos cerrados, os machucados na face e na perna, e disse: -Meu Deus,
menina, acalme-se e... Parou de falar e esfregou os olhos, que estavam
vermelhos de cansao. -Mas por que estou escutando tudo isso? Acho que
estou ficando doida. O caso  que este  o nico lugar no mundo onde
voc conseguiria a resposta que deseja, e esto prestes a fechar isto
aqui... O que voc est mencionando, o seu P, parece uma coisa que
estamos estudando j h algum tempo, e o que voc diz sobre os crnios
no museu me deu um susto, porque... Ah, no,  demais. Estou cansada
demais. Quero escutar o que voc tem a dizer, acredite, mas no agora,
por favor. Eu j lhe contei que vo fechar isso aqui? Tenho uma semana
para montar uma proposta para o comit de financiamento, mas no temos a
menor esperana... Ela bocejou longamente. -Qual foi a outra coisa
inesperada que aconteceu hoje? -Lyra perguntou. #104 -Ah, sim, uma
pessoa que eu esperava que nos apoiasse retirou seu apoio. Afinal,
talvez isso no fosse to inesperado assim. Ela tornou a bocejar. -Vou
fazer um caf -disse. -Seno vou dormir em p. Quer tambm? Encheu de
gua uma chaleira eltrica e, enquanto ela colocava caf solvel em duas
xcaras, Lyra estudava o desenho chins nas costas da porta. -O que 
aquilo? -quis saber. - chins. Os smbolos do I Ching. Sabe o que 
isso? Vocs tm I Ching no seu mundo? Lyra olhou para ela de olhos
apertados, sem saber se a outra estava sendo sarcstica. Respondeu:
-Algumas coisas so iguais e outras so diferentes, s isso. No sei
tudo sobre o meu mundo. Talvez eles tenham essa coisa Ching l tambm.
-Desculpe -disse a Dra. Malone. -, pode ser que tenham. -O que 
matria escura? -Lyra perguntou. - o que diz no cartaz, no ? A Dra.
Malone tornou a se sentar e com o p puxou outra cadeira para Lyra.
-Matria escura  o que a minha equipe de pesquisa est procurando.
Ningum sabe o que . Existem mais coisas no universo do que ns podemos
ver, o caso  esse. Vemos as estrelas e as galxias e as coisas que
brilham, mas para que tudo isso fique coeso e no se espalhe, precisa
haver mais outra coisa. Para fazer a gravidade funcionar, entende? Mas
ningum consegue descobrir essa coisa. De modo que existem muitos
projetos de pesquisa tentando descobrir do que se trata, e o nosso  um
deles. #105 Lyra prestava a maior ateno. Finalmente a mulher estava
falando srio. -E o que a senhora pensa que ? -perguntou. -Bem, o que
ns pensamos... -comeou a Dra. Malone, mas a gua ferveu e ela se
levantou para fazer o caf. Continuou: -Achamos que  alguma espcie de
partcula elementar. Algo completamente diferente de qualquer coisa que
foi descoberta at agora. Mas  muito difcil de detectar. Onde  que
voc estuda? Est estudando fsica? Lyra sentiu Pantalaimon
mordiscar-lhe a mo, advertindo-a para no ficar zangada. Tudo bem que o
aletmetro lhe mandasse falar a verdade, mas ela sabia o que aconteceria
se contasse a verdade inteira. Tinha que pisar com cuidado e evitar as
mentiras diretas. -Sim, sei um pouquinho. Mas no sobre a matria
escura. -Bem, estamos tentando detectar essa coisa quase imperceptvel
no meio do rudo de todas as outras partculas em coliso. Normalmente
colocam detectores a centenas de metros abaixo do solo, mas o que ns
fizemos foi criar um campo eletromagntico em volta do detector para
filtrar as coisas que no queremos e deixar passar as que queremos.
Ento amplificamos o sinal e o passamos pelo computador . Ela estendeu
uma xcara de caf. No havia leite nem acar, mas ela encontrou alguns
biscoitos de gengibre numa gaveta, e Lyra comeu um com avidez. A Dra.
Malone continuou: -E encontramos uma partcula que combina. Achamos que
combina. Mas  to estranho... Porque estou lhe contando isso? No
devia. No est publicado. No tem referncias, no est sequer escrito.
Estou meio doida, hoje. Bem... -continuou, #106 e bocejou durante tanto
tempo que Lyra pensou que ela no iria mais parar. -As nossas partculas
so figurinhas esquisitas, sem dvida. Ns as chamamos de partculas de
sombra. Sombras. Sabe o que quase me derrubou da cadeira? Quando voc
mencionou os crnios no museu. Porque um membro da nossa equipe,
entende,  arquelogo amador. E ele um dia descobriu uma coisa em que
no conseguimos acreditar. Mas no podamos ignorar, porque combinava
com a coisa mais louca de todas a respeito dessas Sombras. Sabe o que ?
Elas tm conscincia. Isso mesmo. As Sombras so partculas de
conscincia. J ouviu alguma coisa to idiota? No  de estranhar que
no queIram renovar o nosso financiamento. Ela bebericou seu caf. Lyra
bebia cada palavra como se fosse uma florzinha sedenta. -Sim, elas sabem
que estamos aqui -continuou a Dra. Malone. -Elas respondem. E a vem
aparte louca: voc s as enxerga se quiser. Se colocar a mente em certo
estado. Tem que estar confiante e relaxada ao mesmo tempo. Tem que ser
capaz de... Onde est aquela citao? Ela remexeu nos papis sobre a
escrivaninha e encontrou um pedao de papel no qual algum escrevera com
tinta verde. Ela leu: -"... capaz de passar por incertezas, mistrios,
dvidas, sem qualquer gesto impaciente de procurar o fato e a razo...".
Tem que estar nesse estado de esprito. Alis, isso  do poeta Keats.
Encontrei outro dia. A pessoa fica no estado de esprito correto e ento
olha para a Caverna... -Caverna? -estranhou Lyra. -Ah, desculpe, o
computador. Ns o chamamos de Caverna. Sombras nas paredes da Caverna,
entende, de Plato. #107 Coisa do nosso arquelogo, tambm.  um
intelectual. Mas ele foi a Genebra para candidatar-se a um emprego, e
acho que no voltar... Onde  que eu estava? Certo, a Caverna, isso
mesmo. U ma vez ligada ao computador, se a pessoa pensar , as Sombras
reagem. No h a menor dvida quanto a isso. As Sombras acorrem para o
seu pensamento como pssaros... -E os crnios? -J vou chegar a eles.
Oliver Payne, o meu colega, um dia estava passando tempo testando coisas
com a Caverna. E foi muito estranho. No fazia sentido, do jeito que um
fsico esperaria. Ele pegou um pedao de marfim, um pedao qualquer, e
ele no reagiu, no havia Sombras nele; mas uma pea de jogo de xadrez
feita de marfim reagiu. Um pedao de pau no reagiu, mas uma rgua de
madeira reagiu. E uma estatueta de madeira entalhada tinha mais... Estou
falando de partculas elementares, ora bolas! Como pedacinhos minsculos
de quase nada. Elas sabiam o que eram aqueles objetos. Qualquer coisa
associada  manufatura humana e ao pensamento humano era rodeada de
Sombras... E ento Oliver, o Dr. Payn, conseguiu alguns crnios de
fsseis com um amigo no museu e testou-os para ver at onde no passado o
efeito alcanava. Encontrou um limite em uns 30 a 40 mil anos atrs.
Antes disso no havia Sombras; depois disso, muitas. E foi mais ou menos
ento, parece, que surgiram os primeiros seres humanos modernos. Os
nossos ancestrais remotos, entende, gente no muito diferente de ns, na
verdade... - P -Lyra afirmou com veemncia. - isso o que . -Mas eu
no posso dizer esse tipo de coisa num pedido de financiamento, se
quiser ser levada a srio. No faz sentido. No pode existir. 
impossvel, e se no for impossvel  #108 irrelevante, e se no for
qualquer dessas coisas, ento  embaraoso. -Quero ver a Caverna -disse
Lyra. Ela ficou de p. A Dra. Malone passava as mos pelos cabelos e
pestanejava com fora para clarear os olhos cansados. -Bem, no vejo por
que no -disse. -Amanh pode ser que a gente no tenha mais um
computador. Venha comigo. Ela levou Lyra para a outra sala. Era maior, e
estava repleta de equipamento eletrnico. -Ali -disse, apontando para
uma tela que brilhava em cinza. - ali que fica o detector, atrs de
todos esses fios. Para ver as Sombras voc tem que estar ligada a alguns
eletrodos. Como os que a gente usa para medir as ondas cerebrais. -Quero
experimentar -Lyra pediu. -Voc no vai conseguir enxergar. De qualquer
maneira, estou cansada.  complicado demais. -Por favor! Sei o que estou
fazendo! -Ah, sabe? Eu gostaria de saber. No, pelo amor de Deus!  uma
experincia difcil e cara. Voc no pode aparecer assim e se
intrometer, como se isto fosse um joguinho eletrnico... Alis, de onde
 que voc vem? No deveria estar na escola? Como foi que chegou at
aqui? Lyra estava tremendo. Diga a verdade, pensou. -Fui guiada por isto
aqui -disse, pegando o aletmetro. -Que coisa  esta? Uma bssola? Lyra
deixou que ela o pegasse. A Dra. Malone arregalou os olhos ao sentir o
peso dele. #109 -Meu Deus,  feito de ouro. Mas onde... -Acho que ele
faz o que a sua Caverna faz.  o que eu quero descobrir. Se eu descobrir
a resposta a uma pergunta, alguma coisa que a senhora saiba a resposta e
eu no saiba, ento posso experimentar a sua Caverna? -continuou,
desesperada. -Como ? Agora vamos ler a sorte? Que coisa  esta? -Por
favor! Faa-me uma pergunta, s isso! A Dra. Malone deu de ombros. -Ora,
est bem. Diga-me... Diga-me o que eu fazia antes. Ansiosa, Lyra pegou o
aletmetro e girou os ponteiros. Sentia a mente procurar as figuras
certas antes mesmo que os ponteiros estivessem apontando para elas, e
sentia o ponteiro maior estremecendo, pronto para reagir. Quando ele
comeou a girar em volta do mostrador, Lyra seguiu-o com os olhos,
observando, calculando, acompanhando as longas cadeias de significado
at o nvel onde estava a verdade. Ento pestanejou, suspirou e saiu do
transe temporrio. -A senhora era freira -disse. -Eu nunca teria
adivinhado. As freiras costumam ficar para sempre no convento. Mas a
senhora parou de acreditar nas coisas da Igreja e eles deixaram que
fosse embora. No  como no meu mundo, nem um pouco. A Dra. Malone
deixou-se cair na nica cadeira, os olhos fixos em Lyra. A menina disse:
-Isto  verdade, no ? -, sim. E voc descobriu nesse... -No meu
aletmetro. Ele funciona pelo P, eu acho. Vim at aqui para saber mais
sobre o P, e ele me disse para vir procurar a senhora. Ento acho que a
sua matria escura #110 deve ser a mesma coisa. Agora posso experimentar
a sua Caverna? A Dra. Malone sacudiu a cabea, mas no para recusar o
pedido -apenas por espanto. Estendeu as mos espalmadas. -Muito bem.
Acho que estou sonhando. Sendo assim, no faz mal irmos at o fim. Ela
girou a cadeira e apertou vrios botes, provocando um zumbido eltrico
e o rudo do ventilador do computador; e ouvindo esse som, Lyra soltou
uma exclamao de espanto: o som naquela sala era o mesmo que ela ouvira
naquela horrvel sala brilhante em Bolvangar, onde a guilhotina de prata
quase a separara de seu Pantalaimon. Sentiu-o estremecer em seu bolso e
acariciou-o para acalm-lo. Mas a Dra. Malone no percebeu; estava
entretida demais ajustando botes e apertando as letras em outra
daquelas bandejas de marfim.  medida que ela fazia isso, a tela mudava
de cor e algumas letras e nmeros apareceram. -Agora voc se senta
-disse, cedendo a cadeira a Lyra. Depois abriu um vidro e explicou:
-Preciso colocar um gel na sua pele para ajudar o contato eltrico. Sai
facilmente com gua. Agora fique imvel. A Dra. Malone pegou seis fios,
cada um deles terminando numa ponta achatada, e prendeu-os a vrios
lugares na cabea de Lyra. A menina estava decidida a ficar imvel, mas
tinha a respirao acelerada e seu corao batia com fora. -Pronto,
voc est ligada -disse a Dra. Malone. - A sala est cheia de Sombras.
Alis, o universo est cheio de Sombras. Mas esta  a nica maneira de
poder v-las: quando agente esvazia a mente e olha para a tela. L vai.
Lyra olhou. A tela estava escura e vazia. Ela via seu prprio reflexo,
mas s. A ttulo de experincia, ela fingiu que estava #111 lendo o
aletmetro, e imaginou-se perguntando: O que  que esta mulher sabe
sobre o P? Que perguntas ela est fazendo? Moveu mentalmente os
ponteiros do aletmetro em volta do mostrador, e a tela comeou a
piscar. Atnita, ela perdeu a concentrao e a tela escureceu. No
percebeu que a Dra. Malone se endireitava, curiosa; ela chegou para a
frente e comeou de novo a se concentrar . Dessa vez a resposta veio
instantaneamente. Um jorro de luzes danantes, parecendo a cortina
tremeluzente da aurora boreal, atravessou a tela. Elas formavam desenhos
que se mantinham por alguns segundos, antes de se desmancharem e se
juntarem em formas diferentes, ou cores diferentes; faziam arcos e
volteios, espalhavam-se, irrompiam em chuveiros de luz que de repente
mudavam de direo como um bando de pssaros mudando de rumo no cu. E
Lyra sentia a mesma sensao de estar  beira da compreenso que se
lembrava de ter sentido quando estava comeando a ler o aletmetro. Fez
outra pergunta: Isto  o P? A mesma coisa que est fazendo estes
desenhos move o ponteiro do aletmetro? A resposta veio em mais arcos de
luz. Ela imaginou que isso queria dizer sim. Ento outra idia lhe
ocorreu, e ela virou-se para falar com a Dra. Malone; esta estava
boquiaberta, a mo na cabea. -O que... -comeou. A tela escureceu. A
Dra. Malone pestanejou. -O que foi? -Lyra completou a pergunta. -Ah,
voc conseguiu a maior amostra que j vi, s isso -disse a Dra. Malone.
-O que  que voc estava fazendo? Em que estava pensando? -Estava
pensando que a senhora podia conseguir fazer isto ficar mais claro
-disse Lyra. #112 -Mais claro! Nunca foi to claro quanto agora! -Mas o
que significa? A senhora consegue ler? -Bem, no se l como se l uma
carta, no funciona assim. O que est acontecendo  que as Sombras esto
reagindo  ateno que voc dedica a elas. Isso por si s j  bastante
revolucionrio:   nossa conscincia que elas reagem, entende? -No, o
que eu quero dizer  o seguinte: essas cores e formas a dentro, elas
poderiam fazer outras coisas, essas Sombras. Poderiam fazer a forma que
a senhora quisesse. Poderiam formar figuras, se a senhora quisesse.
Olhe. Ela se virou e tornou a focalizar a mente, mas dessa vez fingiu
que a tela era o aletmetro, com todos os 36 smbolos dispostos ao longo
da borda. Conhecia-os to bem que agora seus dedos automaticamente
moviam-se no colo como se ela movimentasse os ponteiros imaginrios para
apontar para a vela (para compreenso), o alfa e mega (para linguagem)
e a formiga (para trabalho), e fez a pergunta: O que aquelas pessoas
precisavam fazer para compreender a linguagem das Sombras? A tela reagiu
com a mesma rapidez do pensamento, e da confuso de linhas e clares
formou-se uma srie de figuras com perfeita nitidez: bssola, alfa e
mega outra vez, raio, anjo. Cada figura surgia um nmero diferente de
vezes, e depois vieram outras trs: camelo, jardim, lua. Lyra via
claramente o significado delas, e saiu do transe para explicar. Dessa
vez, quando se voltou, viu que a Dra. Malone estava recostada na
cadeira, plida, agarrando aborda da mesa. -Ele est falando a minha
linguagem, entende, a linguagem das figuras. Como o aletmetro. Mas o
que ele diz  que poderia usar a linguagem comum tambm, palavras, se a
senhora o preparasse para isso. Podia fazer com que ele pusesse #113
palavras na tela. Mas ia precisar de muito raciocnio com os nmeros,
isso era a bssola, entende, e o raio significa energia ambrica, quer
dizer, energia eltrica, mais disso. E o anjo,  sobre as mensagens. H
coisas que ele quer dizer. Mas quando foi para o segundo pedao... Era a
sia, quase o Extremo Oriente, mas no tanto. Sei l que pas seria. A
China, talvez...  um modo que eles tm l de falar com o P, quer
dizer, com as Sombras, a mesma coisa que a senhora tem aqui e eu tenho
com... Eu tenho com figuras, s que eles usam pauzinhos. Acho que ele
estava falando daquela figura na porta, mas no entendi direito. No
princpio, quando vi aquilo, achei que era importante, mas no sabia por
qu. Ento deve haver muitas maneiras de falar com as Sombras. A Dra.
Malone estava sem flego. -O I Ching- disse. -Ele  chins, sim. Uma
espcie de adivinhao. E eles usam pauzinhos. Aquele cartaz s est ali
para enfeitar -disse, como se quisesse assegurar a Lyra que ela na
verdade no acreditava em I Ching. -Voc est me dizendo que quando as
pessoas consultam o I Ching elas esto entrando em contato com as
partculas de Sombra? Com a matria escura? - -Lyra respondeu. -Existem
muitas maneiras, como eu j disse. Eu no sabia disso. Pensei que s
havia uma. -Aquelas figuras na tela... -comeou a Dra. Malone. Lyra
sentiu um lampejo de pensamento no fundo da mente, e voltou-se para a
tela. Mal tinha comeado a formular uma pergunta quando mais figuras
apareceram, passando to depressa que a Dra. Malone mal conseguia
acompanh-las; mas Lyra sabia o que elas estavam dizendo, e virou-se
para ela. -Diz que a senhora tambm  importante -revelou  cientista.
-Diz que a senhora tem uma coisa importante para fazer. Sei l o que ,
mas ele no diria se no fosse verdade. #114 Ento a senhora
provavelmente deveria fazer ele usar palavras, para poder entender o que
ele diz. A Dra. Malone ficou em silncio por um instante, depois
perguntou: -Muito bem. De onde voc veio? Lyra fez uma careta. Sabia que
a Dra. Malone, que at agora tinha agido influenciada pela exausto e
pelo desespero, normalmente jamais teria mostrado o seu trabalho para
uma criana desconhecida que apareceu do nada, e estava comeando a se
arrepender. Mas Lyra tinha que dizer a verdade. -Venho de outro mundo
-disse. - verdade. Atravessei para este aqui. Eu estava... tive que
fugir, porque pessoas no meu mundo estavam me caando, para me matar . E
o aletmetro vem... do mesmo lugar. Foi o Mestre da Universidade Jordan
quem me deu. Na minha Oxford existe uma Universidade Jordan, mas aqui
no. Eu procurei. E aprendi a ler o aletmetro sozinha. Consigo fazer a
minha mente ficar vazia, e ento simplesmente vejo o que elas
significam. Conforme a senhora falou sobre... dvidas e mistrios e
tudo. Ento, quando olhei para a Caverna, fiz a mesma coisa, e funciona
do mesmo jeito, ento o meu P e as suas Sombras so a mesma coisa,
tambm. Ento... Agora a Dra. Malone estava inteiramente desperta. Lyra
pegou o aletmetro e embrulhou-o no veludo, como uma me agasalhando o
filho, antes de guard-lo na mochila. -Quer dizer, a senhora pode fazer
esta tela falar com palavras, se quiser. Ento poderia falar com as
Sombras como eu falo com o aletmetro. Mas o que eu quero saber : por
que as pessoas no meu mundo odeiam ele? O P, quer dizer, as Sombras.
Matria escura. Querem destruir ele. Acham que  mau. Ento o que 
isso, as Sombras?  bom ou ruim? #115 A Dra. Malone esfregou o rosto,
deixando as faces ainda mais vermelhas. - tudo to constrangedor...
-disse. -Sabe como  embaraoso falar em Bem e Mal num laboratrio
cientfico? Tem idia disso? Uma das razes de me tornar cientista foi
para no ter que pensar nesse tipo de coisa. -Mas a senhora tem que
pensar nisso -disse Lyra em tom severo. -No pode estudar as Sombras, o
P, seja l o que for, sem pensar nesse tipo de coisa, o Bem, o Mal,
coisas assim. E ele disse que a senhora tem que fazer isso, lembre-se.
No pode recusar. Quando  que vo fechar isto aqui? -O comit de
financiamento vai decidir no final da semana... Por que. -Porque ento a
senhora tem esta noite -disse Lyra. - Poderia ajeitar esta mquina para
colocar palavras na tela em vez de figuras, como eu fiz. Ia ser fcil
fazer isso. Ento a senhora poderia mostrar para eles e eles teriam que
lhe dar o dinheiro para continuar. E a senhora poderia descobrir tudo
sobre o P, as Sombras, e me contar. Sabe, o aletmetro no me diz tudo
que preciso saber -continuou, com certo desdm, como uma duquesa
descrevendo uma criada insatisfatria. -Mas a senhora poderia descobrir
para mim. Ou ento eu provavelmente conseguiria com esse tal Ching, com
os pauzinhos. Mas  mais fcil trabalhar com figuras. Pelo menos, eu
acho. Vou tirar isto agora -acrescentou, retirando os eletrodos da
cabea. A Dra. Malone deu-lhe um leno de papel para limpar o gel, e
guardou os fios. -Ento j vai embora? -perguntou. -Bem, voc me
proporcionou momentos estranhos, sem dvida. -Vai fazer ele usar
palavras? -Lyra perguntou, pegando a mochila. #116 -Acho que  to
intil quanto completar o pedido de verba- suspirou a Dra. Malone. -No,
escute, quero que volte aqui amanh. Voc vai poder? Mais ou menos a
esta hora? Quero que voc demonstre para outra pessoa. Lyra franziu a
testa. Seria uma armadilha? -Bom, est certo -concordou. -Mas no se
esquea que eu preciso saber umas coisas. -Sim,  claro. Voc vir?
-Sim. Se digo que venho, venho mesmo. Acho que posso ajudar a senhora. E
partiu. O porteiro ergueu os olhos e logo voltou ao seu jornal. -A
escavao de Nuniatak? -disse o arquelogo, girando a cadeira. -Voc  a
segunda pessoa em um ms que quer saber sobre isso. -Quem foi a outra?
-Will perguntou, imediatamente em guarda. -Acho que ele era jornalista,
no tenho certeza. -Por que ele queria saber sobre isso? -Tinha ligao
com um dos homens que desapareceram naquela viagem. Foi no auge da
Guerra Fria que a expedio desapareceu. Guerra nas Estrelas. Voc
provavelmente  jovem demais para se lembrar. Os americanos e os russos
estavam construindo enormes instalaes de radar em todo o Artico...
Mas, afinal, em que posso ajudar? -Bem, na verdade estou s tentando
saber coisas sobre aquela expedio -disse Will, tentando ficar calmo.
- para um trabalho da escola sobre o homem pr-histrico. Li sobre essa
expedio que desapareceu, e fiquei curioso. -Bem, voc no  o nico.
Na poca houve grande repercusso. Eu pesquisei para o jornalista.
Tratava-se de uma #117 investigao preliminar, no exatamente
escavaes. No se pode escavar at saber se vale a pena, de modo que
aquele grupo foi examinar alguns stios para fazer um relatrio. Era uma
meia dzia de sujeitos. As vezes, nesse tipo de expedio, juntam-se
pessoas de outros campos, sabe, gelogos ou coisa assim, para rachar o
custo. Eles estudam as coisas deles, e ns, as nossas. Nesse caso havia
um fsico no grupo. Acho que ele estava estudando partculas
atmosfricas. A aurora boreal, entende, as luzes do Norte. Parece que
ele tinha bales com radiotransmissores. O homem fez uma pausa, depois
continuou: -E havia outro homem com eles. Um ex-militar da Marinha Real,
uma espcie de explorador profissional. Iam entrar num territrio
bastante selvagem, e os ursos polares so sempre um perigo no rtico. Os
arquelogos podem lidar com algumas coisas, mas no somos treinados para
atirar, e  muito til ter algum que saiba atirar, montar um
acampamento, que entenda de navegao e de todo tipo de necessidades de
sobrevivncia. Mas todos sumiram. Ficaram em contato pelo rdio com uma
estao de pesquisa local, mas um dia no responderam ao sinal e nunca
mais houve notcias deles. Tinha havido uma tempestade de neve, mas isso
era comum. A expedio de busca encontrou o ltimo acampamento deles
mais ou menos intacto, embora os ursos tivessem devorado o estoque de
comida, mas no havia qualquer sinal de gente. Infelizmente  tudo que
tenho para lhe contar. -Sim... -fez Will. -Muito obrigado. -Fez meno
de sair, mas parou  porta. -Hum... Aquele jornalista, o senhor disse
que ele estava interessado num dos homens. Qual deles era? -O
explorador. Um homem chamado Parry . -Como era ele? Quer dizer, o
jornalista? -Por que voc quer saber? #118 -Porque... -Will no
conseguiu pensar numa razo plausvel. No deveria ter perguntado.
-Perguntei  toa. S curiosidade. -Pelo que me lembro, era um homem
grande e louro. De cabelos muito claros. -Certo, obrigado- repetiu Will,
e voltou-se para sair . O homem observou-o partir sem nada dizer, a
testa franzida. Will viu-o estender a mo para o telefone e saiu
depressa do prdio. Will percebeu que estava tremendo. O jornalista era
um dos homens que tinham ido  sua casa: um homem alto, de cabelos to
louros que parecia no ter sobrancelhas ou clios. No era aquele que
Will tinha derrubado na escada: era o que tinha aparecido  porta da
sala enquanto Will descia correndo e saltava por cima do cadver. Mas
no era jornalista. Havia um grande museu ali perto. Will entrou,
segurando a prancheta como se estivesse fazendo um trabalho escolar, e
sentou-se numa galeria cheia de quadros. Tremia muito e sentia nuseas,
oprimido pelo conhecimento de ter matado algum, de ser um assassino.
At agora tinha mantido o controle, mas estava ficando difcil. Ele
tinha tirado a vida de um ser humano. Ficou meia hora sentado ali, e foi
a meia hora mais difcil da sua vida. As pessoas entravam e saam,
contemplavam os quadros, falando em voz baixa, ignorando-o; um
funcionrio do museu ficou parado  porta durante alguns minutos, mos
atrs das costas, e depois afastou-se devagar; e Will, s voltas com o
horror daquilo que tinha feito, no movia um msculo. Gradualmente foi
ficando mais calmo. Afinal, tinha agido para defender a me. Eles a
estavam assustando; nas condies #119 dela, eles a estavam perseguindo.
Ele tinha o direito de defender o seu lar. O pai iria querer que ele
agisse assim. Tinha feito aquilo porque era a coisa certa a fazer. Fez
para impedir que roubassem o escrnio de couro verde. Fez para que
pudesse encontrar o pai; e no tinha o direito de fazer isso? Todas as
suas brincadeiras infantis lhe voltavam agora: ele e o pai, um salvando
o outro de avalanches ou combatendo piratas. Bom, agora era de verdade.
"Vou achar voc", prometeu em pensamento. " s me ajudar, e eu vou
achar voc, e vamos tomar conta da mame, e tudo vai ficar bem..."
Afinal, ele agora tinha um lugar onde se esconder, um lugar to seguro
que ningum jamais o encontraria l. E os papis dentro do escrnio (que
ele ainda no tivera tempo de ler) tambm estavam em segurana debaixo
do colcho em Citgazze. Finalmente percebeu que todas as pessoas
tomavam a mesma direo. Estavam saindo, pois o funcionrio avisava que
o museu fecharia dali a 10 minutos. Will reuniu foras e partiu.
Conseguiu encontrar a rua onde ficava o escritrio do advogado e pensou
em ir v-lo, apesar do que tinha dito antes. O homem parecia amigvel...
Mas ao decidir atravessar a rua e entrar, ele estacou de repente. O
homem alto de sobrancelhas claras estava saindo de um carro. Will
virou-se imediatamente e ficou olhando de modo casual para a vitrine de
uma joalheria. Viu o reflexo do homem olhar em volta, ajeitar o n da
gravata e entrar no escritrio do advogado. Assim que ele entrou, Will
afastou-se, o corao novamente disparado: nenhum lugar era seguro.
Tomou a direo da biblioteca da universidade para esperar por Lyra.
#120 5 PAPEL DE CARTA VIA AREA -Will! -Lyra chamou. Ela falou em tom
baixo, mas mesmo assim ele levou um susto: a menina estava sentada no
banco ao lado dele, e ele nem percebera! -De onde voc surgiu?
-Encontrei o meu Catedrtico! Na verdade,  uma Catedrtica. Ela se
chama Dra. Malone. E tem uma mquina que consegue enxergar o P e ela
vai fazer a mquina falar... -Nem vi voc chegar! -Porque no estava
prestando ateno -ela explicou. -Devia estar pensando em outra coisa.
Ainda bem que eu vi voc. Escute,  fcil enganar as pessoas. Veja...
Dois policiais em patrulha vinham na direo deles: um homem e uma
mulher, com as camisas brancas da farda de vero, com seus rdios, seus
cassetetes e seus olhos cheios de suspeitas. Antes que chegassem perto,
Lyra estava de p falando com eles. -Por favor, pode me dizer onde fica
o museu? -pediu. -Meu irmo e eu ficamos de encontrar nossos pais l, e
nos perdemos. #121 o policial olhou para Will, e o menino, controlando a
raiva, deu de ombros como se dissesse: ela tem razo, ns nos perdemos,
no foi uma tolice? O homem sorriu. A mulher perguntou: -Qual museu? O
Ashmoleano? -Esse mesmo -disse Lyra, e fingiu escutar cuidadosamente as
instrues que a mulher lhe dava. Willlevantou-se e agradeceu, e
afastou-se com Lyra. No olharam para trs, mas os policiais j tinham
perdido o interesse neles. -Viu s? Se estavam procurando voc, eu
atrapalhei - disse Lyra. -Porque eles no esto procurando algum com
uma irm.  melhor eu ficar com voc de agora em diante - continuou, em
tom de reprimenda, depois de virarem a esquina. -No est seguro
sozinho. Ele no respondeu. Seu corao batia forte, de raiva. Seguiram
em frente, na direo de um prdio redondo com um grande domo de chumbo,
situado numa praa rodeada de prdios universitrios cor de mel, uma
igreja e rvores de grandes copas acima de altos muros. O sol da tarde
realava os tons mais quentes, e o ar estava repleto disso tudo, quase
da cor de vinho dourado. Todas as folhas estavam imveis, e naquela
pracinha at mesmo o rudo do trnsito era abafado. Ela finalmente tomou
conscincia do estado de esprito de Will e perguntou: -Qual  o
problema? -Se falar com as pessoas, voc atrai a ateno delas - disse
ele, em voz trmula. -Devia ter ficado quieta, parada, e eles no iam
prestar ateno. Fiz isso a minha vida inteira. Sei fazer isso. Do seu
jeito, voc s consegue... se fazer visvel. No devia fazer isso. No
devia brincar com isso. Voc no est sendo sria. #122 -Voc acha? -fez
ela, e sua raiva explodiu. -Acha que no sei mentir? Sou a melhor
mentirosa que j existiu. Mas no minto para voc, e nunca mentirei, eu
juro. Voc est em perigo, e se eu no tivesse feito aquilo naquela hora
voc teria sido preso. No viu que estavm olhando para voc? Estavam,
sim. Voc no  cuidadoso. Se quer a minha opinio,  voc que no 
srio. -Se eu no sou srio, que  que estava fazendo, esperando voc,
quando podia estar a quilmetros de distncia? Ou escondido, em
segurana, naquela cidade? Tenho as minhas coisas para resolver, mas
estou plantado aqui para poder ajudar voc. No me diga que no sou
srio. -Voc tinha que atravessar -ela retrucou, furiosa. Ningum podia
falar com ela assim; era uma aristocrata. Era Lyra. -Voc precisava,
seno no ia descobrir nada sobre o seu pai. Voc fez isso por sua
causa, no por mim. Estavam discutindo apaixonadamente, mas em voz
baixa, por causa do silncio da praa e das pessoas que passavam. Quando
ela disse isso, porm, Will estacou. Teve que se encostar no muro atrs
de si. Tinha o rosto plido. -O que  que voc sabe do meu pai?
-perguntou baixinho. Ela respondeu no mesmo tom: -No sei nada de nada.
Tudo que sei  que voc est procurando por ele. Foi s isso que eu
perguntei. -Perguntou? A quem? -Ao aletmetro,  claro. Ele levou um
instante para se lembrar. E ento pareceu to zangado e desconfiado que
ela pegou o aletmetro na mochila e disse: -Est bem, vou lhe mostrar .
#123 Sentou-se no muro de pedra em volta ao gramado no meio da praa,
inclinou a cabea sobre seu instrumento dourado e ps-se a girar os
ponteiros, movendo os dedos quase depressa demais para a vista, e fez
uma pausa de alguns segundos enquanto o ponteiro mais fino girava no
mostrador, parando aqui e ali; ela ento tornou a mover os ponteiros com
a mesma rapidez para uma nova posio. Will olhou em volta
cautelosamente, mas no havia ningum perto para ver; um grupo de
tUristas olhava para o domo no alto do prdio, um sorveteiro empurrava
seu carrinho ao longo da calada, mas ningum prestava ateno neles.
Lyra pestanejou e suspirou, como se despertasse. -A sua me est doen
te, mas est em segurana -disse em voz baixa. -U ma mulher est tomando
conta dela. E voc pegou umas cartas e fugiu. E um homem, acho que era
um ladro, voc matou ele. E est procurando o seu pai, e... -Est bem,
cale a boca -disse Will. -Chega. Voc no tem o direito de revistar a
minha vida desse jeito. Nunca mais faa isso. Isso  espionagem. -Eu sei
a hora de parar de perguntar -ela retrucou. -Sabe, o aletmetro  quase
como uma pessoa. Eu sei mais ou menos quando ele vai ficar zangado ou
quando no quer que eu saiba de alguma coisa. Eu sinto. Mas quando voc
surgiu do nada ontem, eu tinha que perguntar quem voc era, para saber
se eu estava segura. Tinha que fazer isso. E ele disse... -Ela baixou
mais ainda a voz. -Ele disse que voc era um assassino, e eu pensei: que
bom, isto  timo, posso confiar nele. Mas no perguntei mais nada at
agora, e se voc no quiser que eu pergunte, prometo que no vou fazer
isso, O aletmetro no  um aparelho de bisbilhotice. Se eu simplesmente
espionasse os outros, ele pararia de funcionar. Sei disso to bem quanto
conheo a minha Oxford. #124 -Voc poderia ter perguntado a mim, em vez
de perguntar a essa coisa. Ele disse se o meu pai est vivo ou mortO?
-No, porque eu no perguntei. Estavam ambos sentados. Will, exaustO,
descansou a cabea nas mos. -Bem, acho que vamos ter que confiar um no
outro - disse finalmente. -Tudo bem. Eu confio em voc. Will assentiu
desanimado. Estava muitO cansado, e no havia a menor possibilidade de
dormir naquele mundo. Lyra no costumava ser to perceptiva, mas alguma
coisa no jeitO dele a fez pensar: ele est com medo, mas est dominando
o medo, como Iorek Byrnison disse que temos que fazer; como eu fiz na
peixaria juntO ao lago congelado. -Will, no vou contar seu segredo a
ningum. PrometO -ela acrescentOu. -timo. -U ma vez eu fiz isso. Tra
uma pessoa. E foi a pior coisa que j fiz. Na verdade, pensei que estava
salvando a vida dele, s que estava levando ele diretO para o lugar mais
perigoso que poderia existir. Fiquei com dio de mim mesma por isso, por
ter sido to idiota. De modo que vou tentar com tOdas as minhas foras
no ser descuidada, nem me distrair e denunciar voc sem querer. Ele no
respondeu; esfregou os olhos e pestanejou vrias vezes, para tentar
manter-se acordado. -No podemos atravessar a janela to cedo -disse. -
Foi imprudncia termos atravessado durante o dia. No podemos arriscar
que algum veja. E agora temos que esperar horas... #125 -Estou faminta
-Lyra declarou. -J sei! -exclamou ele ento. -Podemos ir ao cinema! -Ao
qu? -Vou lhe mostrar. L poderemos comer alguma coisa, tambm. Havia um
cinema perto do centro da cidade, a 10 minutos de distncia. Will pagou
a entrada de ambos e comprou cachorros-quentes, pipocas e Coca-Cola. Os
dois se acomodaram na platia bem na hora em que o filme ia comear.
Lyra ficou maravilhada. J tinha visto fotogramas projetados, mas nada
no mundo dela a tinha preparado para o cinema. Ela engoliu o
cachorro-quente e as pipocas, bebeu de uma vez a Coca-Cola e ficou a
exclamar e rir de prazer diante das personagens na tela. Felizmente a
platia era ruidosa, cheia de crianas, e a empolgao dela no chamou
ateno. Will logo fechou os olhos e adormeceu. Acordou ao ouvir o rudo
das pessoas saindo, e pestanejou por causa da luz acesa. Seu relgio
mostrava 20h15. Lyra saiu do cinema com relutncia. -Foi a melhor coisa
que j vi em toda a minha vida - disse ela. -Sei l por que nunca
inventaram isso no meu mundo. L algumas coisas so melhores do que
aqui, mas isto  melhor do que qualquer coisa que a gente tenha l. Will
sequer conseguia lembrar o nome do filme. Do lado de fora ainda estava
claro, e as ruas estavam movimentadas. -Quer ver outro? -Claro! Ento
foram ao cinema seguinte, a poucas centenas de metros virando a esquina,
e fizeram a mesma coisa. Lyra #126 acomodou-se com os ps sobre o
assento, abraada ao joelho, e Will deixou a mente vagar. Quando saram,
dessa vez, eram quase 23h, muito melhor. Lyra estava com fome novamente,
ento compraram hambrgueres numa carrocinha e comeram enquanto
caminhavam -outra novidade para ela. -Ns sempre nos sentamos para
comer. Nunca vi algum comer andando- ela contou. -Este lugar aqui 
diferente em muitas coisas. O trnsito, por exemplo. No gosto. Gostei
do cinema e de hambrguer. Gostei muito. E aquela Catedrtica, a Dra.
Malone, ela vai fazer aquela mquina usar palavras. Sei que vai. Amanh
vou voltar l e ver como ela est indo. Aposto que posso ajudar. Eu
poderia provavelmente fazer os Catedrticos lhe darem o dinheiro que ela
quer, tambm. Sabe como o meu pai fez isso? O Lorde Asriel? Ele os
enganou... Enquanto seguiam pela Rua Banbury, ela contou sobre a noite
em que se escondeu no armrio e viu Lorde Asriel mostrar aos
Catedrticos da Jordan a cabea decepada de Stanislaus Grumman na caixa
trmica. Como Will era um timo ouvinte, Lyra foi em frente e contou-lhe
o resto da sua histria, desde a fuga do apartamento da Sra. Coulter at
o momento horrvel em que ela percebeu que tinha levado Roger para a
morte nos penhascos gelados de Svalbard. Will escutou sem fazer
comentrios, mas prestando ateno, solidrio. A narrativa da viagem num
balo, de bruxas e ursos de armadura, de um brao vingativo da Igreja,
tudo parecia combinar com seu prprio sonho fantstico de uma linda
cidade  beira-mar, deserta, silenciosa e segura: no podia ser verdade,
simplesmente. Mas finalmente chegaram ao trevo e aos carpinos. Havia
pouco trnsito: um carro a cada minuto, no mais que isso. E l estava a
janela no ar. Will sorriu: ia dar tudo certo. #127 -Espere at no vir
carro -instruiu. -Vou atravessar agora. E no instante seguinte ele
estava no gramado sob as palmeiras, e logo em seguida Lyra veio atrs.
Sentiam-se como se estivessem em casa. A noite clida, o cheiro de
flores e do mar, o silncio -tudo isso os engolfava como um banho de
gua calmante. Lyra espreguiou-se e bocejou, e Will sentiu-se livre de
um grande peso. Passara o dia inteiro carregando esse peso, e no tinha
percebido o esforo que vinha fazendo; mas agora sentia-se leve, livre e
em paz. E ento Lyra agarrou-lhe o brao com fora. No mesmo segundo ele
ouviu o motivo desse gesto. Em algum lugar, numa das ruelas atrs do
caf, alguma coisa berrava. Will partiu de imediato naquela direo e
Lyra seguiu-o por um beco escuro, escondido do luar. Depois de vrias
curvas e voltas, eles surgiram na praa diante da torre de pedra que
tinham visto pela manh. Cerca de 20 crianas faziam um semicrculo na
base da torre, e algumas seguravam pedaos de pau, outras jogavam pedras
no que quer que estava encurralado contra a parede da torre. A princpio
Lyra achou que era outra criana, mas de dentro do semicrculo vinha um
ganido horrvel que no era humano. E as crianas tambm gritavam de
medo e de dio. Will correu at l e puxou uma delas pelo ombro. Era um
menino mais ou menos da sua idade, usando uma camiseta listrada. Quando
ele se virou, Lyra viu as estranhas bordas brancas em volta das pupilas
dele; ento as outras crianas perceberam o que estava acontecendo e
pararam para olhar. Anglica e seu irmozinho tambm estavam l, com
pedras #128 nas mos, e os olhos de todas as crianas brilhavam
ferozmente ao luar. Ficaram todos em silncio. S o ganido continuava, e
ento Will e Lyra viram o que era: uma gata encolhida contra a parede da
torre, a orelha rasgada e a cauda torcida. Era agata que Will tinha
visto na Avenida Sunderland, aquela que se parecia com Moxie, aquela que
o levara  janela. Assim que ele a viu, jogou para o lado o menino que
estava segurando pelo ombro. O garoto caiu no cho mas levantou-se em
seguida, furioso; mas os outros o contiveram. Will j estava ajoelhado
junto  gata. E logo ela estava em seus braos. Quando ela saltou para o
peito dele, ele a segurou junto ao corpo e ergueu-se para enfrentar as
crianas; por um segundo Lyra teve a idia louca de que o daemon dele
tinha finalmente aparecido. -Por que esto machucando esta gata? -ele
perguntOU. Ningum soube responder. Todos tremiam diante da raiva de
Will, ofegantes, segurando seus paus e pedras, e no conseguiam falar .
Mas ento a voz de Anglica soou com clareza: -Voc no  daqui! No 
de Ci'gazze! No sabia dos Espectros, no sabe dos gatos tambm. No 
como ns! O menino de camiseta listrada que Will tinha derrubado estava
cheio de vontade de lutar, e se no fosse pelo gato nos braos de Will
ele o teria atacado com punhos, dentes e ps, e Will adoraria entrar
nessa briga: havia uma corrente eltrica de dio entre os dois que
apenas a violncia conseguiria dissipar. Mas o menino tinha medo da
gata. -De onde voc veio? -ele perguntou em tom de desprezo. #129 -No
importa de onde ns viemos. Se esto com medo desta gata, eu vou levar
ela para longe de vocs. Se ela para vocs  sinal de azar, para ns
ser de sorte. Agora saiam da frente. Por um instante Will pensou que o
dio deles seria maior do que o medo, e estava prestes a colocar a gata
no cho e lutar, mas ento ouviu-se um rosnado baixo e forte vindo de
trs das crianas; elas se viraram e viram Lyra de p com a mo no ombro
de um enorme leopardo pintado, cujos dentes brilhavam quando ele
rosnava. At mesmo Will, que reconheceu Pantalaimon, ficou assustado por
um segundo. O efeito nas crianas foi drstico: elas fugiram
imediatamente. Segundos depois a praa estava deserta. Mas antes de se
afastar de l, Lyra olhou para o alto da torre. Um rosnado de
Pantalaimon a fez fazer isso, e por um segundo ela viu algum l bem no
alto, olhando por cima das ameias, e no era uma criana, mas um rapaz
de cabelos cacheados. Meia hora depois, estavam no apartamento em cima
do caf. Will tinha encontrado uma lata de leite condensado, que a gata
bebeu com ar faminto, pondo-se depois a lamber suas feridas. Pantalaimon
tinha se tornado um gato, por curiosidade, e a princpio a gata tinha se
arrepiado, cheia de suspeitas, mas logo percebeu que, fosse o que fosse
Pantalaimon, no era um gato de verdade nem uma ameaa, e passou a
ignor-lo. Lyra observou com fascinao Will cuidar da gata. Os nicos
animais que ela vira de perto em seu mundo (alm dos ursos de armadura)
eram animais de trabalho: os gatos serviam para manter a Jordan livre
dos ratos, no para animais de estimao. -Acho que a cauda dela est
quebrada -disse Will. - No sei o que fazer. Talvez se cure sozinha. Vou
colocar um pouco de mel na orelha dela. Li em algum lugar que 
anti-sptico... #130 Foi uma operao melada, mas pelo menos aquilo ia
manter a gata ocupada lambendo o mel, e a ferida ia ficando cada vez
mais limpa. -Tem certeza que foi esta que voc viu? -Lyra perguntou.
-Ah, tenho, sim. E alm disso, se todos aqui tm tanto medo, no deve
haver gatos neste mundo. Ela com certeza no conseguiu encontrar o
caminho de volta. -Pareciam loucos -Lyra comentou. -Iam matar a
coItadInha. Nunca VI crIanas agIndo assIm. -Eu j -disse Will. Mas sua
expresso era sombria: era evidente que ele no queria falar sobre
aquilo, e ela achou melhor no perguntar. Sabia que no devia perguntar
sequer ao aletmetro. Estava muito cansada, de modo que logo foi para a
cama e adormeceu. Pouco mais tarde, quando agata enrodilhou-se para
dormir, Will pegou uma xcara de caf e o escrnio de couro verde, e foi
sentar-se na sacada. Havia luz suficiente entrando pela janela e ele
queria ler os papis. No havia muitos. Como ele pensava, eram cartas,
escritas em papel de via area com tinta preta. Aquelas letras tinham
sido feitas pela mo do homem que ele tanto queria encontrar; passou os
dedos sobre elas muitas vezes e apertou-as contra o rosto, tentando
chegar mais perto da essncia do seu pai. Ento ps-se a ler. Fairbanks,
Alasca Quarta-feira, 19 de junho de 1985 Minha querida; a costumeira
mistura de eficincia e caos -todas as provises j chegaram, mas o
fsico, um idiota genial #131 chamado Nelson, no tomou nenhuma
providncia para levar seus malditos bales para o alto das montanhas
-temos que ficar ociosos enquanto ele procura um transporte. Mas isso
serviu para me dar a oportunidade de conversar com um velhote que
conheci na expedio passada, um minerador de ouro chamado Jake Petersen
-segui o rastro dele at um bar modesto e sob o som de uma partida de
beisebol na TV eu lhe perguntei sobre a anomalia. Ele no queria
conversar ali. Me levou ao seu apartamento. Com a ajuda de uma garrafa
de Jack Daniels, ele falou durante muito tempo. Ele mesmo no tinha
visto, mas tinha conhecido um esquim que viu, e o cara disse a ele que
era uma porta para o mundo dos espritos, que eles sabem disso h
sculos e que faz parte da iniciao de um xam esquim atravessar e
trazer de volta um trofu qualquer, mas muitos no voltaram. De qualquer
maneira, o velho Jake tinha um mapa da regio e marcou nele o lugar onde
o companheiro disse que a coisa ficava. (S para garantir:  6902'11"N,
15712'19"0, num contraforte da Serra Lookout, a uns dois ou trs
quilmetros ao norte do Rio Colville.) Ento passamos a conversar sobre
outras lendas do rtico -o navio noruegus que est vagando sem
tripulao h 60 anos, coisas assim. Os arquelogos so uma turma legal,
esto ansiosos para comear o trabalho, contendo a impacincia com
Nelson e seus bales. Nenhum deles jamais ouviu falar na anomalia, e
pode acreditar que vou deixar que isso continue assim. Muito amor e
carinho para vocs dois. Johnny. Umiat, Alasca Sbado, 22 de junho de
1985 Minha querida: e eu que chamei o homem de idiota genial -o fsico
Nelson no  nada disso, e se no estou enganado ele tambm est
procurando a anomalia. O atraso em Fairbanks foi #132 planejado por ele,
d para acreditar? Sabendo que o resto da equipe no iria querer esperar
por qualquer coisa abaixo de um argumento irrespondvel como o
transporte, ele pessoalmente mandou cancelar os veculos que tinham sido
alugados. Descobri isso por acidente, e ia perguntar que diabos ele
estava planejando, mas ouvi quando ele falava com algum pelo rdio
-descrevendo a anomalia, s que ele no sabia a localisao. Mais tarde
paguei-lhe uma bebida, banquei o soldado meio tapado, o veterano no
rtico, tipo existem mais coisas entre o cu e a terra do que podemos
explicar, coisas desse tipo, fingi brincar com ele a respeito das
limitaes da cincia ( aposto que voc no consegue explicar o
Abominvel Homem das Neves etc.). Fiquei s observando. Ento falei da
anomalia -uma lenda esquim de uma porta para o mundo dos espritos,
invisvel, em algum lugar perto da Serra Lookout, d para acreditar, 
para onde estamos indo, imagine s. E voc sabe que ele teve um choque?
Sabia exatamente do que eu estava falando. Fingi que no percebi e
passei a falar em bruxaria, contei a histria do leopardo do Zaire-
espero que ele tenha me tomado por um milico supersticioso. Mas estou
certo, Elaine, que ele tambm est procurando a mesma coisa. A questo
: devo contar a ele ou no? Tenho que descobrir qual  o jogo dele.
Todo o meu amor e carinho para vocs dois -Johnny. Collvile Bar, Alasca
24 de junho de 1985 Querida: no terei oportunidade de enviar outra
carta durante algum tempo -esta  a ltima cidade antes de subirmos para
as montanhas, a Serra Brooks. Os arquelogos esto doidos para chegar l
em cima. Um sujeito est convencido de que vai encontrar provas de
habitao humana de perodo muito anterior ao que se imagina -perguntei
de quanto tempo atrs e por que #133 ele estava convencido disso, ele
falou de uns entalhes em marfim de narval que ele encontrou numa
escavao; pelo carbono 14, eles tinham uma idade inacreditvel, muito
superior ao que se imaginava antes -uma anomalia, na verdade. No seria
estranho se esses entalhes tivessem vindo de outro mundo atravs da
minha anomalia. Por falar nisso, o fisico Nelson agora  o meu maior
amigo, brinca comigo, insinua que sabe que eu sei que ele sabe etc. Eu
finjo ser o Major Parry, um sujeito confivel durante uma crise, mas no
muito dotado de miolos, ora -mas sei que ele est procurando. Para
comear, embora ele seja um acadmico de verdade, sua verba vem do
Ministrio da Defesa, conheo os cdigos financeiros que eles usam. Alm
disso, os seus bales meteorolgicos no so nada disso- espiei dentro
do caixote: tem um traje anti-radiao, se  que conheo essas coisas.
Muito esquisito, minha querida. Vou manter o meu plano: levar os
arquelogos para o destino deles e tirar alguns dias para ir sozinho
procurar a anomalia. Se eu esbarrar com Nelson vagando pela Serra
Lookout, vou agir segundo as circunstncias. Mais tarde- um lance de
sorte. Encontrei o esquim amigo de Jake Petersen, Matt Kigalik. Jake
tinha me dito onde encontr-lo, mas no ousei ter esperana de que ele
estivesse l. Ele me contou que os soviticos tambm andaram procurando
a anomalia -no incio do ano ele encontrou um homem no alto da serra e
observou-o por alguns dias sem ser visto, porque adivinhou o que o outro
estava fazendo, e tinha razo, e o homem era russo, um espio; ele s me
contou isso. Tive a impresso que ele liquidou com o sujeito. Mas ele me
descreveu a coisa.  como um buraco no ar, uma espcie de janela. A
gente olha por ela e v o outro mundo. Mas no  fcil de encontrar,
porque aquela parte do outro mundo  parecida com a nossa -pedras, musgo
etc. Fica na margem norte de um regato, uns 50 passos a oeste de uma
pedra #134 alta que tem a forma de um urso de p, e a posio que Jake
me forneceu no est correta - mais 12"N do que 11. Tora por mim,
minha querida. Vou levar para voc um trofu do mundo dos espritos. Te
amo eternamente. Um beijo no garoto. Johnny. Os ouvidos de Will zumbiam.
Seu pai estava descrevendo exatamente o que ele prprio tinha descoberto
sob os carpinos. Ele tambm tinha encontrado uma janela -tinha at usado
o mesmo nome para ela! Ento devia estar no caminho certo. E era isso
que os homens haviam procurado... Ento era perigoso, tambm. Will tinha
um ano de idade quando aquela carta foi escrita. Seis anos depois disso,
acontecera aquela manh no supermercado, quando ele ficou sabendo que a
me corria um perigo terrvel e ele tinha que proteg-la; e ento, nos
meses seguintes, aos poucos ele percebeu que o perigo estava na mente
dela, e por isso tinha que proteg-la mais ainda. E ento, de maneira
brutal, a revelao de que afinal nem todo o perigo estava na mente
dela. Havia mesmo algum atrs dela. Depois, essas cartas, essa
informao. Mas ele no tinha idia do que isso significava. Sentia-se
profundamente feliz por compartilhar com o pai uma coisa to importante;
por John Parry e seu filho Will terem, separadamente, descoberto aquela
coisa extraordinria. Quando se encontrassem, poderiam conversar sobre
isso, e o pai teria orgulho por Will ter seguido seus passos. A noite
estava quieta, e o mar, parado. Ele guardou as cartas e adormeceu. #135
6 OS VOADORES LUMINOSOS -Grumman? -repetiu o barbudo mercador de peles.
-Da Academia de Berlim? Um insensato! Eu o conheci h cinco anos, l no
extremo norte dos Urais. Pensei que tivesse morrido. Sentado no bar,
enfumaado e recendendo a nafta, do Samirsky Hotel, Sam Cansino, um
velho conhecido e texano como Lee Scoresby, bebeu de um s gole a vodca
estupidamente gelada. Depois empurrou o prato de peixe em conserva e po
preto na direo de Lee, que comeu um bocado e assentiu para que Sam lhe
contasse mais coisas. -Ele pisou numa armadilha montada por aquele
idiota do Yakovlev e cortou a perna at o osso -continuou o mercador.
-Em vez de usar remdio normal, ele cismou de passar um negcio que os
ursos usam, chamado musgo-sangneo, musgo-de-sangue, uma espcie de
lquen, no  um musgo de verdade; de qualquer maneira, ele ficava
deitado no tren, alternando rugidos de dor com instrues para os
homens que trabalhavam para ele. Estavam fazendo medies das estrelas,
e tinham que fazer direito, seno ele dava uma #136 grande bronca, e,
pode acreditar, a lngua dele era igual a arame farpado. Um homem magro,
duro, forte, curioso, queria saber tudo. Sabia que ele havia sido
iniciado como trtaro? -No diga! -fez Lee Scoresby. Enquanto falava,
vertia mais vodca no copo de Sam. Seu daemon Hester estava deitado no
balco junto ao seu cotovelo, os olhos semicerrados como de costume, as
orelhas estendidas ao longo das costas. Lee havia chegado naquela tarde,
trazido a Nova Zembla pelo vento que as bruxas tinham chamado, e depois
de guardar o equipamento ele se dirigiu diretamente para o Samirsky
Hotel, perto do posto de embalagem de pescado. Aquele era um lugar onde
os andarilhos do rtico paravam para trocar notcias, procurar trabalho
ou deixar recados, e Lee Scoresby no passado tinha ficado muitos dias
por l, esperando um contrato ou um passageiro ou um vento bom, de modo
que nada havia de estranho em seu comportamento atual. E com as grandes
mudanas que eles intuam estarem acontecendo no mundo  sua volta, era
natural que as pessoas se reunissem e conversassem. A cada dia que
passava, surgiam mais notcias: o rio Yenisei estava degelado -e nessa
poca do ano! -; parte do oceano tinha esvaziado, expondo estranhas
formaes regulares de pedra em seu leito; um polvo de 30 metros de
comprimento tinha arrancado trs pescadores de um barco e despedaado
todos os trs... E a nvoa continuava a chegar do norte, densa e fria,
ocasionalmente encharcada da luz mais estranha que se poderia imaginar,
na qual podiam-se ver vagamente formas enormes, e ouvir vozes
misteriosas. De maneira geral, era um tempo ruim para trabalhar, por
isso o bar do Samirsky Hotel estava repleto. #137 -Voc disse Grumman?
-quis saber a pessoa sentada ao lado dele junto ao balco do bar, um
homem de idade, usando trajes de caador de foca, cujo daemon-lmure
espiava solenemente de dentro do bolso do seu casaco. -Ele era mesmo
trtaro. Eu estava l quando ele entrou para aquela tribo. Vi quando
furaram o crnio dele. Ele ganhou outro nome, tambm. Um nome trtaro.
Daqui a pouco me lembro qual era. -Ora, quem diria! -fez Lee Scoresby.
-Deixe-me pagar-lhe uma bebida, amigo. Estou procurando notcias desse
homem. Para qual tribo ele entrou? -Os pakhtars de Yenisei. No sop da
Serra Semyonov. Perto da confluncia do Yenisei com o rio... Esqueci o
nome. Um rio que desce dos morros. Existe uma pedra do tamanho de uma
casa no local de pouso. -Ah, certo, agora me lembro -disse Lee. -J voei
por cima dela. E Grumman teve o crnio perfurado?  mesmo? E por qu?
-Ele era um xam -disse o velho caador de focas. - Acho que, antes da
adoo, a tribo reconheceu que ele era um xam. Foi uma cerimnia e
tanto, aquela perfurao. O ritual dura dois dias e uma noite. Usam uma
broca de arco, como se faz para acender fogo. -Ah, isso explica o modo
como a equipe dele obedecia -Sam Cansino comentou. -Era a turma de
velhacos mais braba que j vi, mas corriam para cumprir as ordens dele
como meninos amedrontados. Pensei que eram os palavres dele que tinham
esse efeito. Se eles pensavam que ele era um xam, faz at mais sentido.
Mas, sabe, a curiosidade daquele sujeito era forte como os dentes de um
lobo; ele simplesmente no desistia. Me fez contar tudo que eu sabia
sobre o terreno das #138 vizinhanas, e os hbitos dos lobos e das
raposas. Estava sentindo bastante dor por causa da maldita armadilha de
Yakovlev; a perna aberta, e ele anotando os efeitos daquele
musgo-sangneo, musgo-de-sangue, medindo a temperatura, vendo a
cicatriz se formar, anotando tudinho... Um homem estranho. Havia uma
bruxa que queria ser amante dele, mas ele recusou. - mesmo? -fez Lee,
pensando na beleza de Serafina Pekkala. -Ele no devia ter feito isso
-disse o caador de focas. -Se uma bruxa nos oferece seu amor, temos que
aceitar. Se no, a culpa  nossa se coisas ruins nos acontecerem.  como
ter que escolher entre uma bno e uma maldio. A nica coisa que no
podemos fazer  deixar de escolher uma das duas. -Ele podia ter seus
motivos -disse Lee. -Se ele tinha algum juzo, o motivo tinha que ser
muito bom. -Ele era cabea-dura -disse Sam Cansino. -Talvez por
fidelidade a outra mulher -Lee sugeriu. - Ouvi contar outra coisa sobre
ele; que ele conhecia o paradeiro de um objeto mgico, no sei o que
poderia ser, que protegia qualquer pessoa que o tivesse. J ouviram essa
histria? -J ouvi isso, sim -disse o caador de focas. -Ele no tinha
essa coisa, mas sabia onde estava. Um homem tentou fazer ele contar, mas
Grumman matou o sujeito. -O daemon dele, isso  curioso -interps Sam
Cansino -, era uma guia, uma guia preta com cabea e peito brancos, um
tipo que eu nunca tinha visto, no sei que bicho era aquele. -Era uma
guia-pesqueira- disse o barman. -Vocs esto falando do Stan Grumman? O
daemon dele era uma guia-pesqueira. Um gavio-pescador . #139 -Que foi
que aconteceu com ele? -perguntou Lee Scoresby. -Ah, ele se envolveu nas
guerras dos escraelingues em Beringland. A ltima notcia que tive foi
que atiraram nele - disse o caador de focas. -Morreu na hora. -Pois eu
soube que eles cortaram a cabea dele -disse Lee Scoresby. -No, vocs
dois esto errados -contestou o barman. -E eu sei, porque quem me contou
foi um esquim que estava com ele na ocasio. Parece que estavam
acampados em algum lugar de Sakhalin e houve uma avalanche. Grumman
ficou soterrado por toneladas de pedra. O esquim viu isso acontecer .
-O que eu no entendo  o que o sujeito estava fazendo -Lee Scoresby
comentou, oferecendo a garrafa em roda. - Procurando leo ptreo,
talvez? Ou ele era militar? Ou era alguma coisa filosfica? Voc falou
em medidas, Sam. Que seria isso? -Estava medindo a luz das estrelas. E a
aurora boreal Ele tinha paixo pela aurora boreal. Mas seu maior
interesse eram runas, eu acho. Coisas antigas. -Sei quem poderia lhe
contar mais coisas -disse o caador de focas. -No alto da montanha
existe um observatrio que pertence  Real Academia Moscovita. L eles
sabero informar. Sei que ele subiu at l mais de uma vez. -Afinal, por
que voc quer saber, Lee? -Sam Cansino perguntou. -Ele me deve dinheiro
-Lee Scoresby respondeu. Essa explicao era to satisfatria, que a
curiosidade dos outros cessou na mesma hora. A conversa mudou para o
#140 assunto na boca de todos: as mudanas catastrficas que estavam
ocorrendo e que ningum conseguia ver. -Os pescadores, eles dizem que se
pode navegar direto at esse mundo novo -declarou o caador de focas.
-Existe um mundo novo? -Lee perguntou. -Assim que essa maldita neblina
clarear, vamos enxergar esse tal mundo -contou-lhes em tom confidencial
o caador de focas. -Quando aconteceu, eu estava no meu caiaque olhando
para o norte, por acaso. Nunca vou esquecer o que vi. Em vez da terra se
curvar no horizonte, ela continuava reta. Eu enxergava longe, e s via
terra e costa, montanhas, portos, rvores verdes e campos de milho,
infindavelmente, no cu. Eu lhes digo, amigos, valeu a pena trabalhar 50
anos para ver aquilo. Eu teria remado para o cu naquele mar calmo, sem
olhar para trs; mas ento veio a neblina... -Nunca vi uma nvoa como
esta -resmungou Sam Cansino. -Parece que vai ficar um ms inteiro,
talvez mais. Mas voc est sem sorte se quer receber dinheiro de
Stanislaus Grumman, Lee; o cara morreu. -Ah, lembrei o nome trtaro
dele! -exclamou o caador de focas. -Acabei de me lembrar como ele era
chamado durante a perfurao. Qualquer coisa como "Jopari". -Jopari?
Nunca ouvi esse tipo de nome -Lee comentou. -Deve ser nipnico, imagino.
Bom, se quero meu dinheiro, talvez eu possa procurar os herdeiros dele.
Ou talvez a Academia de Berlim possa pagar a dvida. Vou perguntar no
observatrio, ver se eles tm um endereo que eu possa procurar. O
observatrio ficava a alguma distncia para o norte, e Lee Scoresby
alugou um tren puxado por ces e um guia. No foi fcil encontrar
algum disposto a arriscar-se a viajar na neblina, mas Lee era
convincente, ou o seu dinheiro o era, e #141 finalmente, depois de uma
prolongada negociao, um velho trtaro da regio do Ob concordou em
lev-lo. Felizmente o guia no se orientava pela bssola, pois seria
impossvel us-la. Ele navegava por outros sinais -seu daemon-raposa
polar, por exemplo, que ficava sentado na frente do tren farejando
atentamente o caminho. Lee, que levava sua bssola consigo para toda
parte, j tinha constatado que o campo magntico da Terra estava to
perturbado quanto tudo mais. Quando pararam para fazer um caf, o velho
guia disse: -J aconteceu antes, esta coisa. -O qu? O cu se abrir?
Isso j aconteceu antes? -H muitos milhares de geraes. Meu povo se
lembra. Muito tempo atrs, muitos milhares de geraes. -O que  que
falam? -O cu abre e os espritos passam entre este mundo e o outro.
Todas as terras se movem. O gelo derrete, depois torna a congelar. Os
espritos fecham o buraco depois de um tempo. E selam. Mas as bruxas
dizem que l o cu  fino, atrs das luzes do Norte. -O que  que vai
acontecer, Umaq? -A mesma coisa que antes. Tudo igual outra vez. Mas s
depois de grande perturbao, grande guerra. Guerra de espritos. O guia
no quis dizer mais, e logo seguiram viagem, percorrendo lentamente as
ondulaes, crateras e erupes de pedra escura na nvoa clara, at que
o velho disse: -Observatrio l em cima. Agora voc anda. Caminho ruim
para tren. Se quer voltar, espero aqui. -, vou querer voltar quando
terminar, Umaq. Faa uma fogueira, amigo, sente-se e descanse um pouco.
Vou levar trs, quatro horas, talvez. #142 Lee Scoresby partiu, com
Hester dentro do casaco, e depois de meia hora de rdua subida deparou
com um conjunto de edificaes que pareciam ter sido colocadas ali pela
mo de um gigante. Mas o efeito devia-se apenas a uma clareira
momentnea na neblina, e depois de um minuto ela tornou a fechar-se. Ele
viu o grande domo do observatrio principal, um domo menor ali perto e,
entre eles, um grupo de prdios de administrao e alojamento de
empregados. No havia luz alguma, pois as janelas eram permanentemente
vedadas para no atrapalhar a escurido necessria aos seus telescpios.
Alguns minutos depois de sua chegada, Lee estava conversando com um
grupo de astrnomos ansiosos por qualquer notcia que ele pudesse lhes
trazer, e poucos filsofos naturais ficam to frustrados quanto um
astrnomo durante uma neblina. Ele contou-lhes tudo que tinha visto e,
esgotado o assunto, pediu notcias de Stanislaus Grumman. Havia semanas
que os astrnomos no recebiam uma visita, e falaram de bom grado.
-Grumman? Ah, sim, vou lhe contar uma coisa sobre ele- disse o Diretor.
-Ele era ingls, apesar do nome. Eu me lembro... -Claro que no
-contestou o Vice-Diretor. -Ele era membro da Academia Imperial Alem.
Eu o conheci em Berlim. Estava certo de que ele era alemo. -No. Acho
que voc vai constatar que ele era ingls. Seu domnio desse idioma era
impecvel- replicou o Diretor . -Mas concordo, ele certamente era membro
da Academia de Berlim. Era um gelogo... -No, est enganado -disse
outra pessoa. -Ele de fato estudava aTerra, mas no como gelogo. Tive
uma longa conversa com ele, certa vez. Acho que se poderia cham-lo de
paleoarquelogo. #143 Os cinco estavam sentados em volta de uma mesa no
aposentO que servia de salo, refeitrio, bar, sala de recreao e mais
ou menos todo o resto. Dois eram moscovitas, um era polons, um era
iorub e o outro, escraelingue. Lee Scoresby sentia que a pequena
comunidade ficava feliz ao receber uma visita, quanto mais no fosse
porque isso proporcionava uma mudana na conversa. O polons tinha sido
o ltimo a falar, e ento o iorub perguntou: -Que quer dizer
paleoarquelogo? Os arquelogos j estudam o que  velho; por que 
preciso colocar um prefixo que tambm significa "velho"? -O campo de
estudos dele recuava muito mais do que seria de se esperar,  isso. Ele
estava procurando vestgios de civilizaes de 20 a 30 mil anos atrs .-
respondeu o polons. -Besteira! -exclamou o Diretor. -Total idiotice! O
camarada estava brincando com voc. Civilizaes h 30 mil anos? Ora!
Onde esto as provas? -Debaixo do gelo -disse o polons. -O problema 
esse. Segundo Grumman, o campo magntico da Terra mudou drasticamente
vrias vezes no passado, e at o eixo da Terra moveu-se, de modo que
regies temperadas ficaram cobertas de gelo. -Como assim? -quis saber o
iorub. -Ah, ele tinha uma teoria complicada. O caso  que qualquer
evidncia que possa haver de antigas civilizaes est h muito tempo
coberta pelo gelo. Ele dizia ter fotogramas de formaes rochosas
incomuns... -Bah! Isso  tudo? -fez o Diretor. -S estou relatando, no
estou defendendo o sujeito -disse o polons. -H quanto tempo vocs
conhecem Grumman? -Lee Scoresby perguntou. #144 -Bem, deixe-me ver...
Faz sete anos que eu o conheo -disse o Diretor . -Ele criou fama um ou
dois anos antes disso, com seu trabalho sobre as variaes do plo
magntico -contou o iorub. -Mas veio do nada. Quero dizer, ningum o
conheceu quando estudante ou viu qualquer trabalho seu anterior a
esse... Conversaram durante algum tempo, trocando reminiscncias e
oferecendo sugestes sobre o paradeiro de Grumman, embora a maioria
deles achasse que ele estava morto. Enquanto o polons foi fazer mais
caf, Hester, o daemon-lebre de Lee, cochichou: -Examine o escraelingue,
Lee. O escraelingue tinha falado pouco. Lee imaginara que ele era
naturalmente taciturno, mas, levado por Hester, no primeiro intervalo da
conversa, ele olhou de modo casual e viu o daemon do sujeito, uma coruja
branca, dardejando-lhe um olhar malvolo com seus olhos de um alaranjado
vivo. Bem, essa era mesmo a aparncia das corujas, elas realmente
encaravam as pessoas -mas Hester tinha razo, havia no daemon
hostilidade e suspeita, que no transpareciam no rosto do homem. E ento
Lee percebeu outra coisa: o escraelingue usava um anel com o smbolo da
Igreja. De repente ele entendeu a razo do silncio do outro. Ouvira
dizer que todo estabelecimento de pesquisa filosfica tinha que incluir
na equipe um representante do Magisterium para atuar como censor e
reprimir as notcias de qualquer descoberta hertica. Percebendo isso, e
recordando algo que ele tinha ouvido Lyra dizer, Lee perguntou:
-Digam-me, senhores, por acaso sabem se Grumman alguma vez estudou a
questo do P? #145 E imediatamente fez-se silncio no aposento abafado,
e a ateno de todos voltou-se para o escraelingue, embora ningum tenha
olhado diretamente para ele. Lee sabia que Hester ficaria impassvel,
com os olhos semicerrados e as orelhas estendidas ao longo das costas. E
ele prprio fez uma expresso de jovialidade inocente enquanto olhava de
um rosto para outro. Finalmente fixou o olhar no escraelingue e
perguntou: -Perdo. Ser que perguntei alguma coisa proibida? O
escraelingue perguntou de volta: -Onde ouviu mencionarem esse assunto,
Sr. Scoresby? -Foram uns passageiros que transportei h algum tempo -Lee
respondeu com naturalidade. -Eles nunca disseram o que era, mas pelo
modo como falavam parecia o tipo de coisa que o Dr. Grumman poderia ter
estudado. Entendi que era alguma coisa celestial, como a aurora boreal.
Mas achei estranho, porque como aerstata conheo muito bem os cus, e
nunca vi essa coisa. O que , afinal? -Como voc disse, um fenmeno
celestial -respondeu o escraelingue. -No tem a menor importncia
prtica. Finalmente Lee achou que era hora de partir; no descobrira
mais nada, e no queria deixar Umaq esperando. Deixou os astrnomos em
seu observatrio cercado de nvoa e ps-se a descer a trilha invisvel,
acompanhando Hester, cujos olhos estavam mais perto do cho. E depois de
10 minutos na trilha, alguma coisa passou pela cabea dele na neblina e
mergulhou sobre Hester. Era o daemon-coruja do escraelingue. Mas Hester
pressentiu o ataque e atirou-se ao solo bem na hora, escapando por pouco
s garras da coruja. Hester sabia lutar: tambm tinha garras afiadas, e
era forte e corajosa. Lee #146 sabia que o escraelingue devia estar por
perto, e pegou o revlver no cinto. -Atrs de voc, Lee -disse Hester, e
ele girou, mergulhando; uma flecha assobiou perto do seu ombro. Atirou
imediatamente. O escraelingue caiu, gemendo, quando a bala cravou-se em
sua perna. No momento seguinte, o daemon-coruja, girando no ar com suas
asas silenciosas, mergulhou e caiu ao lado dele, e ficou cado na neve,
lutando para fechar as asas. Lee Scoresby armou a pistola e segurou-a
junto  testa do outro. -Certo, seu maldito idiota- disse. -Por que
tentou isso? No v que estamos todos com o mesmo problema, agora que
aconteceu essa coisa no cu? - tarde demais -declarou o escraelingue.
-Tarde demais para qu? -Tarde demais para impedir. J mandei um pssaro
mensageiro. O Magisterium vai ficar sabendo das suas perguntas, e vo
ficar contentes em saber sobre Grumman... -Que  que tem ele? -Saber que
outras pessoas esto procurando por ele. Isso confirma o que pensvamos.
E que outras pessoas sabem do P. Voc  um inimigo da Igreja, Lee
Scoresby. Pelos frutos os conhecereis. Por suas perguntas vereis a
serpente devorando o corao deles. .. A coruja gemia fracamente,
erguendo e baixando as asas. Seus olhos brilhantes estavam nublados de
dor. Havia uma poa vermelha na neve em volta do escraelingue: mesmo no
meio da nvoa Lee via que o outro ia morrer. -Pelo jeito, a bala deve
ter atingido uma artria -disse. -Solte o meu brao para eu fazer um
torniquete. #147 -No! -bradou o escraelingue. -Estou feliz por morrer!
Terei a palma do manrio! Voc no vai me privar disso! -Ento morra, se
quiser. S me diga uma coisa... Mas Lee Scoresby no teve tempo de
completar a pergunta, porque com um leve estremecimento a coruja
desapareceu: a alma do escraelingue tinha partido. Lee vira certa vez um
quadro em que um santo da Igreja estava sendo atacado por assassinos.
Enquanto eles espancavam seu corpo moribundo, o daemon do santo era
levado para o cu por querubins, recebendo uma palma, o smbolo do
martrio. O rosto do escraelingue tinha agora a mesma expresso do santo
naquele quadro: um xtase intenso, uma nsia pelo esquecimento. Lee
soltou-o com desagrado. Hester fez um muxoxo. -Devia ter imaginado que
ele mandaria uma mensagem -disse. -Pegue o anel dele. -Para qu, droga?
No somos ladres; ou somos? -No, somos renegados -disse ela. -No por
escolha nossa, mas por causa da maldade dele. De qualquer maneira
estaremos perdidos quando a Igreja tomar conhecimento do que houve.
Enquanto isso, vamos obter todas as vantagens que pudermos. Ande logo,
pegue o anel e esconda, pode ser que nos seja til. Lee compreendeu que
ela estava com a razo e retirou o anel do dedo do cadver. Perscrutando
a neblina, ele viu que a trilha tinha de um lado um precipcio, e rolou
para l o corpo do escraelingue. Demorou algum tempo at ouvir o impacto
do corpo no solo l embaixo. Lee nunca gostara de violncia e odiava
matar, embora por trs vezes j tivesse sido obrigado a isso. -No
adianta pensar nisso -Hester interveio. -Ele no nos deu uma chance, e
no atiramos para matar. Droga, Lee, ele queria morrer. Essa gente 
louca. #148 -Acho que tem razo -concordou ele, guardando a pistola. No
final da trilha encontraram o guia com os cachorros j arreados e
prontos para a partida. Enquanto partiam de volta para o posto de
embalagem de pescado, Lee perguntou: -Diga-me, Umaq, voc j ouviu falar
de um homem chamado Grumman? -Ah, claro -disse o guia. -Todo mundo
conhece o Dr. Grumman. -Sabia que ele tinha um nome trtaro? -Trtaro,
no. Est falando de Jopari? No  trtaro. -Que foi que aconteceu com
ele? Morreu? -Se o senhor me pergunta isso, eu tenho que dizer que no
sei. Portanto nunca vai saber a verdade por mim. -Entendo. Ento a quem
posso perguntar? -Melhor perguntar na tribo dele. Melhor ir at o
Yenisei, perguntar a eles. -A tribo dele... Est falando dos que o
iniciaram? Que perfuraram o crnio dele? -. Melhor perguntar a eles.
Talvez no morreu, talvez morreu. Talvez nem morto, nem vivo. -Como 
que ele pode estar nem morto nem vivo? -No mundo dos espritos. Talvez
esteja no mundo dos espritos. J falei demais. Agora no falo mais. E
no falou. Mas quando voltaram ao posto, Lee foi logo s docas procurar
um barco que pudesse lev-lo  foz do Yenisei. Enquanto isso, as bruxas
tambm estavam procurando. A Rainha Ruta Skadi da Latvia voou na
companhia de Serafina Pekkala durante muitos dias e noites, atravs da
nvoa e dos #149 redemoinhos, sobrevoando regies devastadas por
enchentes e avalanches. O certo era que estavam num mundo que nenhuma
delas conhecera antes, com ventos estranhos, perfumes estranhos no ar,
grandes pssaros desconhecidos que as atacavam ao v-las e tinham que
ser repelidos com rajadas de flechas; e quando encontravam terra para
fazerem um descanso, as prprias plantas eram estranhas. Mesmo assim
algumas dessas plantas eram comestveis, e havia pequenas criaturas, no
muito diferentes de coelhos, que forneciam uma refeio saborosa, e no
havia carncia de gua. Poderia ser um bom lugar para se morar, se no
fossem as formas espectrais que vagavam como nvoa acima das campinas e
se reuniam perto de regatos ou lagos. Em certas condies de luz elas
quase no apareciam, visveis apenas como uma qualidade da luz, uma
evanescncia rtmica, como vus de transparncia girando diante de um
espelho. As bruxas nunca tinham visto algo assim, e encheram-se de
suspeitas. -Acha que esto vivas, Serafina Pekkala? -perguntou Ruta
Skadi enquanto voavam em crculo nas alturas acima de um grupo daquelas
coisas, que estavam imveis na borda de um trecho de floresta. -Vivas ou
mortas, so cheias de maldade- respondeu Serafina. -Sinto isso daqui. E
no quero chegar mais perto sem saber qual tipo de arma pode acabar com
elas. Os Espectros pareciam presos ao cho, sem o poder de voar, para
sorte das bruxas. Mais tarde, nesse mesmo dia, elas viram o que os
Espectros podiam fazer. Aconteceu junto a um local de travessia de um
rio, onde uma estrada empoeirada cruzava uma ponte baixa de pedra ao
lado de um grupo de rvores. O sol do final da tarde caa em raios
oblquos sobre a campina, realando a cor verde intensa do cho #150 e
um dourado embaciado no ar, e quela rica luz oblqua, as bruxas
avistaram um bando de viajantes demandando a ponte, alguns a p, alguns
em carroas puxadas por cavalos, dois deles cavalgando. No tinham visto
as bruxas, pois no tinham motivo para olhar para cima, mas eram as
primeiras pessoas que as bruxas viam naquele mundo, e Serafina estava
prestes a descer para falar com eles quando se ouviu um grito de alarme.
Veio do cavaleiro que ia  frente. Ele apontava para as rvores, onde as
bruxas viram uma torrente dessas formas espectrais espalhando-se pela
campina, parecendo fluir sem esforo na direo das suas presas -os
viajantes. Todos debandaram. Serafina ficou chocada ao ver o lder dar
meia-volta e fugir galopando, sem ficar para ajudar os companheiros, e o
segundo cavaleiro o imitou, fugindo com toda rapidez em outra direo.
-Voem mais baixo e observem, irms -instruiu Serafina Pekkala. -Mas no
interfiram at eu mandar. Viram que o pequeno bando continha crianas
tambm, algumas viajando nas carroas, outras caminhando ao lado delas.
E estava claro que as crianas no conseguiam ver os Espectros, e os
Espectros no estavam interessados nelas: em vez disso, dirigiam-se para
os adultos. Uma mulher idosa sentada numa carroa segurava duas crianas
no colo, e Ruta Skadi ficou furiosa com a covardia: a mulher tentava
esconder-se atrs delas, empurrando-as para a frente, na direo do
Espectro que se aproximara, como se as oferecesse para salvar a prpria
pele. As crianas desvencilharam-se da mulher e saltaram da carroa, e
agora, como as outras crianas, corriam, assustadas, de um lado para
outro, ou juntavam-se em grupos, chorando, #151 enquanto os Espectros
atacavam os adultos. A anci na carroa logo foi envolvida por um brilho
transparente que se mexia sem parar, alimentando-se de alguma maneira
invisvel que deixou Ruta Skadi doente s de ver. O mesmo destino coube
a todos os adultos do grupo, com exceo dos dois que tinham fugido a
cavalo. Fascinada e horrorizada, Serafina Pekkala desceu ainda mais.
Havia um pai com o filho que tentara atravessar o rio para fugir, mas um
Espectro os alcanara e, enquanto a criana agarrava-se s costas do
pai, chorando, o homem parou, com gua at a cintura, indefeso. O que
estava acontecendo com ele? Serafina pairou acima da gua a poucos
metros de distncia, observando, horrorizada. Ouvira de viajantes de seu
prprio mundo a lenda do vampiro, e pensou nela enquanto observava o
Espectro alimentando-se de... alguma coisa, alguma qualidade que aquele
homem tinha, sua alma, talvez seu daemon; pois naquele mundo,
evidentemente, os daemons ficavam dentro das pessoas. Os braos do homem
perderam as foras e a criana caiu na gua ao lado dele; em vo tentava
segurar a mo do pai, engasgando-se, chorando, mas o homem simplesmente
girou a cabea devagar e ficou olhando, com absoluta indiferena,
enquanto seu filho se afogava ao seu lado. Aquilo era demais para
Serafina. Ela baixou ainda mais e tirou a criana da gua; nisso Ruta
Skadi gritou: -Cuidado, irm! Atrs de voc... E Serafina sentiu por um
instante uma terrvel apatia no corao e estendeu a mo para a mo de
Ruta Skadi, que a puxou para fora do perigo. Voaram mais alto, a criana
gritando, agarrada  sua cintura com dedos fortes, e Serafina viu o
Espectro atrs de si, uma lufada de nvoa girando sobre a #152 gua, sem
dvida procurando sua presa perdida. Ruta Skadi desfechou uma flecha
para o meio daquela coisa, sem qualquer efeito. Serafina colocou a
criana na margem do rio, certificando-se de que ela no corria perigo,
e tornaram a levantar vo. O pequeno bando de viajantes no mais iria
prosseguir viagem; os cavalos pastavam na grama ou sacudiam a cabea por
causa das moscas, as crianas choravam e agarravam-se umas s outras,
observando de longe, e todos os adultos estavam imveis. Tinham os olhos
abertos; alguns estavam de p, embora a maioria tivesse se sentado; e
sobre eles pairava uma terrvel imobilidade. Quando o ltimo dos
Espectros deslizou para longe, saciado, Serafina veio pousar diante de
uma mulher sentada na grama, uma jovem forte e de aparncia saudvel, de
faces vermelhas e cabelos louros brilhantes. -Mulher, est me ouvindo?
-Serafina chamou. No houve resposta -Est me vendo? Sacudiu a mulher
pelo ombro. Com um esforo imenso a mulher ergueu o olhar. Mal parecia
perceber. Tinha os olhos vagos, e quando Serafina beliscou-lhe o brao,
ela simplesmente baixou os olhos devagar e depois desviou-os. As outras
bruxas andavam pelas carroas dispersas, contemplando as vtimas.
Enquanto isso, as crianas reuniam-se numa pequena elevao a certa
distncia, observando as bruxas e cochichando, temerosas. -O cavaleiro
est vigiando -disse uma bruxa. Ela apontou para o lugar onde a estrada
passava por um desfiladeiro entre dois morros. O cavaleiro que fugira
tinha parado ali para olhar para trs, protegendo os olhos com as mos
para melhor enxergar . -Vamos falar com ele- disse Serafina, e lanou-se
ao ar. #153 Apesar do comportamento do homem diante dos Espectros, ele
no era covarde: ao ver as bruxas se aproximando, pegou o rifle e
cutucou o cavalo para que o animal avanasse para a campina onde ele
podia enfrent-las em terreno aberto. Mas Serafina Pekkala pousou
devagar e estendeu o arco  frente antes de coloc-lo no solo diante de
si. Mesmo que esse gesto no existisse ali, seu significado era
inconfundvel. O homem baixou o rifle e esperou, olhando de Serafina
para as outras bruxas, e para os daemons delas, que voavam em crculos
no cu l em cima. Mulheres jovens, de aparncia feroz, vestidas de
farrapos de seda negra e cavalgando ramos de pinheiro pelo cu -no
havia coisa assim no mundo dele, mas ele as enfrentou com uma cautelosa
tranqilidade. Ao chegar mais perto, Serafina viu tambm dor no rosto
dele, e fora. Era difcil conciliar isso com a lembrana da fuga
enquanto os companheiros pereciam. -Quem so vocs? -ele perguntou. -Meu
nome  Serafina Pekkala. Sou a rainha das bruxas do Lago Enara, que fica
em outro mundo. Qual  o seu nome? -Joachim Lorenz. A senhora disse
bruxas? Ento tm trato com o diabo? -Se tivssemos, isso faria de ns
inimigas suas? Ele meditou por alguns instantes e acomodou o rifle sobre
o colo. -Podia ser que sim, h mais tempo, mas os tempos mudaram- disse.
-Por que vieram para este mundo? -Porque os tempos mudaram. Que
criaturas so aquelas que atacaram o seu grupo? -Bem, os Espectros...
-disse ele, dando de ombros, espantado. -No conhecem os Espectros? #154
-Nunca vimos no nosso mundo. Presenciamos a sua fuga, e ficamos sem
saber o que pensar. Agora entendo. -No h defesa contra eles -disse
Joachim Lorenz. -S as crianas esto a salvo. Diz a lei que cada grupo
de viajantes tem que incluir um homem e uma mulher a cavalo, e eles tm
que fazer o que fizemos, seno as crianas no tero quem cuide delas.
Mas os tempos esto difceis agora; as cidades esto repletas de
Espectros, e antes no havia mais que uma dzia em cada lugar. Ruta
Skadi estava olhando em volta. Viu o outro cavaleiro voltando na direo
das carroas, e viu que se tratava, realmente, de uma mulher. As
crianas correram ao encontro dela. -Mas diga-me o que esto procurando
-prosseguiu Joachim Lorenz. -No me respondeu antes. No teriam vindo
sem motivo. Responda agora. -Estamos procurando uma criana, uma menina
do nosso mundo -contou Serafina. -O nome dela  Lyra Belacqua, chamada
tambm Lyra da Lngua Mgica. Mas no fazemos idia de onde ela pode
estar. No viu uma menina desconhecida, sozinha? -No. Mas na outra
noite vimos anjos indo para o Plo. -Anjos? -Batalhes de anjos no ar,
com armaduras brilhantes. Nestes ltimos anos eles no tm sido to
comuns, embora costumassem passar com freqncia atravs deste mundo, no
tempo do meu av; pelo menos era o que ele costumava contar . Protegeu
os olhos com a mo e olhou na direo das carroas. A mulher a cavalo
tinha desmontado e estava consolando algumas crianas. Serafina seguiu o
olhar dele e perguntou: #155 -Se acamparmos com vocs esta noite e
ficarmos montando guarda contra os Espectros, voc nos contar mais
sobre este mundo e os anjos que viu? -Certamente. Venha comigo. As
bruxas ajudaram a levar as carroas para mais adiante na estrada, do
outro lado da ponte e longe das rvores de onde os Espectros tinham
sado. Os adultos atacados tinham que ficar onde estavam, embora fosse
doloroso ver as criancinhas agarradas  me que no mais lhes respondia,
ou puxando a manga do pai que nada dizia e olhava para nada com olhos
vazios. As crianas mais novas no conseguiam entender por que tinham
que abandonar seus pais; as mais velhas, algumas das quais j tinham
perdido os pais e j tinham presenciado esse tipo de coisa, estavam
simplesmente chocadas e emudecidas. Serafina pegou no colo o menininho
que tinha cado no rio e que chamava pelo pai, estendendo a mo por cima
do ombro de Serafina na direo da figura silenciosa ainda parada dentro
da gua, indiferente. Serafina sentia as lgrimas dele na sua pele nua.
A mulher a cavalo, que usava grosseiras calas de lona e cavalgava como
homem, no se dirigiu s bruxas. Tinha uma expresso soturna no rosto.
Levava as crianas, falando-lhes com severidade, ignorando suas
lgrimas. O sol da tarde enchia o ar de uma luz dourada na qual cada
detalhe era claro e nada era ofuscante, e o rosto das crianas, do homem
e da mulher pareciam tambm imortais, fortes e belos. Mais tarde,
enquanto as brasas de uma fogueira brilhavam num crculo de pedras sujas
de cinza e os grandes montes eram tranqilos ao luar, Joachim Lorenz
contou a Serafina e Ruta Skadi a histria do seu mundo. #156 J tinha
sido um mundo feliz. As cidades eram espaosas e elegantes, os campos
eram frteis e bem cuidados. Navios mercantes percorriam os mares azuis
e pescadores traziam redes repletas de bacalhau e atum, perca e tainha;
nas florestas a caa abundava, e nenhuma criana passava fome. Nas
alamedas e praas das grandes cidades, embaixadores do Brasil e de
Benin, da Irlanda e da Coria misturavam-se a vendedores de tabaco, a
atores de comdia de Brgamo, a vendedores de bilhetes da sorte. A
noite, amantes mascarados encontravam-se sob os caramanches de rosas ou
nos jardins iluminados por lamparinas, e o ar recendia a jasmim e
vibrava com a msica das cordas do mandarone.* As bruxas escutavam de
olhos arregalados aquela histria de um mundo to parecido com o seu, no
entanto to diferente. -Mas no deu certo -ele continuou. -H 300 anos
alguma coisa saiu errada. Algumas pessoas acham que a Liga dos filsofos
da Torre degli Angeli, a Torre dos Anjos, na cidade que acabamos de
deixar,  a culpada. Outros dizem que foi um castigo por algum grande
pecado, embora eu nunca tenha encontrado concordncia a respeito de qual
seria esse pecado. Mas de repente, do nada, surgiram os Espectros, e
desde ento somos caados. Vocs viram o que eles podem fazer; agora
imaginem o que  viver num mundo com Espectros. Como podemos prosperar,
quando no podemos confiar que alguma coIsa contInue como era? A
qualquer momento um pai pode ser atacado, ou uma me, e a famlia se
desagrega; um mercador pode ser atacado, e sua empresa fracassa, e todos
os seus funcionrios perdem o emprego; e *Mandarone -instrumento
provavelmente imaginrio; nenhuma referncia foi encontrada. [N.T.] #157
como os amantes podem confiar em seus votos de amor? Toda a confiana e
toda a virtude abandonaram o nosso mundo quando os Espectros chegaram.
-Quem so esses filsofos? -Serafina quis saber. - E onde fica essa
Torre? -Na cidade que acabamos de deixar, Cittgazze. A cidade das
gralhas. Sabe por que tem esse nome? Porque as gralhas roubam, e  s
isso que podemos fazer agora. Nada criamos, nada construmos h centenas
de anos, tudo que podemos fazer  roubar de outros mundos. Ah, sim,
temos conhecimento dos outros mundos. Aqueles filsofos da Torre degli
Angeli descobriram tudo que precisamos saber sobre o assunto. Eles tm
um feitio que, quando algum o pronuncia, consegue atravessar uma porta
que no existe, e passa para outro mundo. Alguns dizem que no  um
feitio, mas uma chave que consegue abrir at mesmo quando no h
fechadura. Quem sabe? Seja como for, isso deixou os Espectros entrarem.
E os filsofos ainda o usam, pelo que sei. Eles passam para outros
mundos, roubam deles e trazem de volta o que encontram. Ouro e jias, 
claro, mas outras coisas tambm, como idias, sacos de milho, lpis. So
a fonte de toda a nossa riqueza, essa Liga de ladres -arrematou com
amargura. -Por que os Espectros no fazem mal s crianas? - quis saber
Ruta Skadi. -Este  o maior mistrio de todos. Na inocncia das crianas
existe algum poder que repele os Espectros da Indiferena. Mas  mais
que isso. As crianas simplesmente no os enxergam, embora no possamos
entender por qu. Nunca conseguimos. Mas so comuns os rfos dos
Espectros, como vocs podem imaginar; crianas cujos pais foram
atacados. Elas se juntam e andam por a em bandos, e s vezes alugam-se
para #158 os adultos, para procurar comida e suprimentos em reas cheias
de Espectros, e s vezes simplesmente vagueiam sem rumo, saqueando. Ele
fez uma pausa, depois continuou: -Assim  o nosso mundo. Ah, ns
conseguimos viver com essa maldio. Eles so verdadeiros parasitas: no
matam a sua presa, embora retirem dela quase toda a vida. Mas havia um
certo equilbrio at recentemente, at a grande tempestade. Foi uma
fortssima tempestade; parecia que o mundo inteiro estava rachando e se
esfacelando; ningum se lembra de ter visto uma igual. Depois veio a
nvoa que durou muitos dias e cobriu todo o mundo que conhecemos, e
ningum podia viajar; e quando a nvoa clareou, as cidades estavam
cheias de Espectros, centenas e milhares deles. Ento fugimos para as
montanhas e para o mar, mas desta vez no h como escapar deles, onde
quer que agente v. Como vocs mesmas viram. Agora  a sua vez:
contem-me como  o seu mundo e por que o deixaram para vir para este.
Serafina contou-lhe toda a verdade -ele era um homem honesto, e no era
necessrio esconder qualquer coisa dele. Ele escutou com ateno,
sacudindo a cabea de espanto, e disse, quando ela terminou: -Eu lhes
falei do poder que dizem que tm os nossos filsofos de abrir o caminho
para outros mundos; bem, algumas pessoas acham que eles ocasionalmente
deixam uma porta aberta, por esquecimento; eu no ficaria surpreso se de
tempos em tempos viajantes de outros mundos encontrassem o caminho para
c. Sabemos que os anjos passam, afinal. -Anjos? -repetiu Serafina
Pekkala. -Voc j os mencionou. Nunca ouvimos falar em anjos. Quem so
eles? -Quer saber sobre anjos? Muito bem. Eles se do o nome de bene
elim, segundo eu soube. Algumas pessoas os #159 chamam de Vigilantes.
No so seres de carne como ns, so seres de esprito; ou talvez a
carne deles seja mais etrea que a nossa, mais leve e mais clara, no
sei dizer; mas no so como ns. Transportam mensagens dos cus, esta 
a misso deles. As vezes os vemos no cu, passando atravs deste mundo a
caminho de outro, brilhando como vaga-lumes bem l no alto. Numa noite
sossegada, pode-se at ouvir o ruflar das asas deles. Eles tm
preocupaes diferentes das nossas, embora nos tempos antigos eles
descessem e tratassem com homens e mulheres, e tambm se acasalassem
conosco, dizem alguns. Joachim Lorenz respirou fundo e continuou: -E
quando veio a nvoa, depois da grande tempestade, eu estava encurralado
nas montanhas atrs da cidade de Sant'Elia, a caminho da minha casa.
Refugiei-me na choupana de um pastor junto a uma nascente ao lado de um
bosque de btulas, e durante toda a noite ouvi vozes acima de mim na
neblina, gritos de susto e raiva, e batidas de asas, tambm, mais perto
do que eu jamais tinha ouvido antes; e perto do amanhecer ouvi o som de
combate, o silvar de flechas e o clangor de espadas. Mas no ousei sair
para investigar, pois tive medo, embora estivesse muito curioso. Eu
estava inteiramente apavorado, se querem saber. Quando o cu ficou to
claro quanto poderia ficar naquela nvoa, aventurei-me a olhar para fora
e vi uma figura enorme cada, ferida, perto da nascente. Sentia que eu
estava vendo coisas que no tinha o direito de ver: coisas sagradas.
Tive que desviar os olhos, e quando tornei a olhar, a figura tinha
sumido. Em seguida, ele continuou: -Foi o mais perto que j estive de um
anjo. Mas como lhes contei, ns os vimos outra noite, bem no alto, entre
as estrelas, indo para o Plo, como uma frota de poderosos navios #160
de guerra... Alguma coisa est acontecendo, e aqui embaixo no sabemos o
que pode ser. Poderia ser uma guerra prestes a explodir. Certa vez houve
uma guerra no cu, h milhares de anos, mas no sei qual foi o desfecho
dela. No seria impossvel haver outra. Mas a destruio seria enorme, e
as conseqncias para ns... No consigo sequer imaginar. Ele se ergueu
para avivar o fogo. -Embora esse desfecho possa ser melhor do que eu
imagino -continuou. -Pode ser que uma guerra no cu leve os Espectros
deste mundo de volta para o fosso de onde saram. Que bno seria, ah,
como viveramos felizes, livres dessa praga terrvel! No entanto,
Joachim Lorenz, a contemplar as chamas, parecia tudo, menos esperanoso.
A luz tremeluzente lanava sombras que se moviam em seu rosto, mas no
modificavam a expresso de suas feies; ele parecia triste e soturno.
Ruta Skadi perguntou ento: -O Plo, senhor. Disse que esses anjos iam
para o Plo; sabe por que fariam isso?  l que fica o cu? -No sei.
No sou um homem erudito, isso se percebe facilmente. Mas o Norte do
nosso mundo, bem, dizem que l  a morada dos espritos. Se os anjos
estivessem se reunindo,  para l que iriam, e se pretendessem atacar o
cu, acho que  l que construiriam sua fortaleza, de onde partiriam
para o ataque. Ele ergueu os olhos e as bruxas seguiram o seu olhar. As
estrelas neste mundo eram as mesmas do mundo delas: a Via Lctea
brilhava cruzando o domo do cu, e inmeros pontos de luz empoeiravam a
escurido, e seu brilho quase se igualava ao da lua... -Senhor, j ouviu
falar no P? -Serafina quis saber. #161 -P? Imagino que est falando
outra coisa, no da poeira das estradas. No, nunca ouvi. Mas vejam, l
vai uma tropa de anjos... Ele apontou para a constelao de Ofico. E
realmente, alguma coisa se movia atravs dela -um pequeno grupo de seres
iluminados. E eles no vagavam a esmo, mas moviam-se com o vo
determinado dos gansos ou dos cisnes. Ruta Skadi ficou de p. -Irm, 
hora de me separar de voc -disse ela a Serafina. -Vou subir l e falar
com esses anjos, seja l o que forem eles. Se vo at Lorde Asriel, irei
com eles. Se no, vou continuar procurando sozinha. Obrigada pela sua
companhia, e boa sorte. Beijaram-se, e Ruta Skadi pegou seu ramo de
pinheiro-nubgeno e saltou para o ar. Seu daemon Sergi, um rouxinol
acompanhou-a. -Vamos voar alto? -ele perguntou. -At a altura daqueles
voadores luminosos em Ofico. Eles esto indo depressa, Sergi. Vamos
alcan-los! Ela e o daemon subiram velozmente, voando mais depressa do
que fagulhas de uma fogueira, o ar soprando atravs dos raminhos do seu
galho de pinheiro-nubgeno e seus cabelos negros como uma esteira atrs
dela. Ela no tornou a olhar para a pequena fogueira na imensa
escurido, para as crianas adormecidas e para as bruxas suas
companheiras; aquela etapa da viagem estava encerrada e, de mais a mais,
aquelas criaturas brilhantes  frente dela ainda no estavam mais
prximas, e no mantivesse os olhos fixos nelas, poderia facilmente
perd-las naquele enorme cenrio de estrelas reluzentes. De modo que ela
continuou voando sem perder os anjos de vista, e,  medida que se
aproximava deles, passou a v-los mais claramente. #162 Eles brilhavam,
no como se estivessem ardendo, mas como se, onde quer que estivessem e
por mais escura que fosse a noite, a luz do sol brilhasse neles. Eram
como os humanos, porm com asas, e muito mais altos; como estavam nus, a
bruxa conseguia ver que trs deles eram do sexo masculino e dois do sexo
feminino. As asas nasciam nas omoplatas, e tinham o trax bastante
musculoso. Ruta Skadi ficou atrs deles por algum tempo, observando,
avaliando a fora deles, caso fosse necessrio combat-los. No estavam
armados, mas por outro lado estavam voando com facilidade por seu
prprio poder, e poderiam at voar mais depressa que ela se houvesse uma
perseguio. Preparando o arco por via das dvidas, ela avanou e passou
a voar ao lado deles, gritando: -Anjos! Parem e me escutem! Sou a bruxa
Ruta Skadi, e quero falar com vocs. Eles se viraram. Suas grandes asas
bateram para dentro, diminuindo a velocidade, e os corpos tomaram a
posio vertical at ficarem em p no ar, mantendo a posio atravs de
curtos movimentos das asas. Rodearam-na, cinco figuras enormes brilhando
no ar escuro, acesas por um sol invisvel. Ela olhou em volta, sentada
em seu galho de pinheiro-nubgeno, orgulhosa e destemida, embora seu
corao batesse forte com a estranheza de tudo aquilo, e seu daemon
aproximou-se e sentou-se perto do calor do seu corpo. Cada anjo era um
indivduo em separado, no entanto tinha mais coisas em comum com os
outros anjos do que com qualquer humano que ela tivesse conhecido. O que
tinham em comum era uma manifestao brilhante e dinmica de
inteligncia e sentimento, que parecia dominar todos eles
simultaneamente. Estavam nus, mas ela se sentiu nua sob o olhar deles,
to penetrante, indo to fundo. #163 Mesmo assim ela no se envergonhava
do que era, de modo que retribuiu de cabea ergui da o olhar deles.
-Ento vocs so anjos -disse. -Ou Vigilantes, ou bene elim. Aonde vo?
-Estamos atendendo a um chamado -disse um. Ela no tinha certeza de qual
deles tinha falado. Poderia ter sido qualquer um, ou todos ao mesmo
tempo. -Chamado de quem? -ela perguntou. -De um homem. -De Lorde Asriel?
-Poderia ser. -Por que esto fazendo isso? -Porque queremos -foi a
resposta. -Ento, onde quer que ele esteja, vocs podem me levar at ele
-ela ordenou. Ruta Skadi tinha 416 anos e todo o orgulho e o
conhecimento de uma bruxa-rainha adulta. Era muito mais sbia do que
qualquer humano vida-curta, mas no tinha a menor idia de como parecia
infantil ao lado daqueles seres imemoriais. Tampouco imaginava at que
ponto a conscincia deles se espalhava alm dela como tentculos at os
cantos mais remotos de universos nunca sonhados por ela; e tampouco que
os enxergava como formas humanas simplesmente porque seus olhos
esperavam isso; se fosse perceb-los em sua forma verdadeira, eles
pareceriam mais uma arquitetura do que um organismo, como imensas
estruturas compostas de inteligncia e sentimento. Mas eles esperavam
isso mesmo -afinal, ela era muito Jovem. Imediatamente bateram as asas e
saltaram para a frente, e ela disparou com eles, surfando na turbulncia
que essas asas #164 causavam no ar e adorando a velocidade e a fora que
isso conferia ao seu vo. Voaram durante toda a noite. As estrelas
giravam ao seu redor, e desmaiavam e desapareciam  medida que a aurora
subia do leste. O mundo explodiu em luz quando a borda do sol apareceu,
e ento passaram a voar atravs de um cu azul e um ar claro, fresco,
doce e mido. A luz do dia, os anjos eram menos visveis, embora a sua
singularidade ficasse bvia para qualquer um. A luz que permitia que
Ruta Skadi os visse ainda no era a do sol que agora se erguia no cu,
mas alguma outra luz, vinda de outro lugar. Incansavelmente voaram, e
incansavelmente ela os acompanhava. Sentia uma alegria intensa possu-la
por poder ter  sua disposio aquelas presenas imortais. E alegrava-se
por seu sangue e sua carne, pela spera casca de pinheiro-nubgeno que
ela sentia perto da pele, alegrava-se porque seu corao batia e pela
vida de todos os seus sentidos, pela fome que agora estava sentindo e
pela presena de seu daemon rouxinol de voz to doce, e pela terra l
embaixo e pela vida de cada criatura, tanto planta quanto animal; e
deliciava-se em ser da mesma substncia daquilo tudo, e em saber que,
quando morresse, sua carne iria nutrir outras vidas como elas a tinham
nutrido. E alegrava-se, tambm, por estar indo ver novamente Lorde
Asriel. Outra noite chegou, e os anjos continuavam a voar. E em certo
momento a qualidade do ar mudou, no para pior ou melhor, mas mudou, e
Ruta Skadi percebeu que tinham sado daquele mundo e entrado em outro.
Como isso acontecera, ela no tinha a menor idia. -Anjos! -chamou,
quando sentiu a mudana. - Como foi que deixamos o mundo onde os
encontrei? Onde fica a fronteira? #165 -Existem no ar lugares
invisveis, portas para outros mundos -foi a resposta. -Podemos v-los,
voc no. Ruta Skadi no conseguiu enxergar a porta invisvel, e nem era
necessrio: as bruxas conseguiam orientar-se melhor que os pssaros.
Assim que o anjo falou, ela fixou sua ateno em trs picos pontiagudos
l embaixo, memorizando sua configurao exata. Agora poderia encontrar
de novo a porta, se precisasse, apesar do que os anjos pudessem pensar.
Continuaram voando, e finalmente ela ouviu uma voz de anjo: -Lorde
Asriel est neste mundo, e ali vemos a fortaleza que ele est
construindo... Estavam voando mais devagar, fazendo crculos no cu como
guias. Ruta Skadi olhou para onde um anjo apontava. O primeiro albor
tingia o leste, embora todas as estrelas acima brilhassem com a
intensidade de sempre contra o veludo profundamente negro dos cus. E na
prpria borda do mundo, onde a luz aumentava a cada momento, uma grande
serra erguia seus picos -aguados picos de pedra negra, poderosas lajes
irregulares e cristas serrilhadas empilhadas caoticamente, como runas
de uma catstrofe universal. Mas no ponto mais alto, que enquanto ela
olhava foi tocado e delineado pelos primeiros raios do sol matinal,
havia uma estrutura: uma imensa fortaleza cujas amei as eram formadas
por lajes do basalto com a metade da altura de um monte, e cuja extenso
s podia ser medida em termos de tempo de vo. Sob essa fortaleza
colossal, ardiam fogueiras e chamins soltavam fumaa na escurido do
incio do amanhecer e, a muitos quilmetros de distncia, Ruta Skadi
ouviu o clangor de martelos e o rudo de grandes oficinas. E de todas as
direes ela via grupos de anjos voando para l, e no apenas anjos, mas
#166 mquinas tambm; naves com asas de ao deslizando como albatrozes,
cabines de vidro sob tremeluzentes asas de liblulas, zepelins que
zumbiam como enormes abelhas -todos na direo da fortaleza que Lorde
Asriel estava construindo nas montanhas no fim do mundo. -Lorde Asriel
est l? -ela perguntou. -Est, sim -responderam os anjos. -Ento vamos
voar ao encontro dele. Vocs precisam ser minha guarda de honra.
Obedientemente eles abriram as asas e partiram na direo da fortaleza
orlada de dourado, com a ansiosa bruxa voando  frente. #167 7 O ROLLS
ROYCE Lyra acordou cedo; a manh era clida e quieta, como se a cidade
nunca tivesse tido outra estao alm daquele calmo vero. Ela saltou da
cama, desceu a escada e, ao ouvir vozes de crianas na praia, saiu para
ver o que elas estavam fazendo. Em frente ao porto ensolarado, trs
meninos e uma menina em dois pedalinhos apostavam corrida na gua em
direo aos degraus. Ao verem Lyra, interromperam acorrida, mas logo
voltaram a ela. Os vencedores bateram nos degraus com tanta fora, que
um deles caiu na gua, e depois tentou subir para o outro pedalinho,
virando-o; ficaram todos brincando dentro d'gua como se o terror da
noite anterior nunca tivesse acontecido. Pareciam mais novas do que a
maioria das crianas que estavam junto  torre. Lyra juntou-se a elas na
gua, com Pantalaimon a seu lado na forma de peixinho brilhante. Ela
nunca tivera dificuldades em se relacionar com outras crianas, e logo
estavam todas reunidas em volta dela, sentadas em poas d'gua na pedra
quentinha, suas camisas secando rapidamente sob o sol. O pobre
Pantalaimon #168 teve que voltar para o bolso dela, em forma de sapo,
por causa do pano molhado e frio. -Que  que vocs vo fazer com aquela
gata? -Vocs conseguem mesmo tirar o azar? -De onde vocs vieram? -O seu
amigo, ele no tem medo dos Espectros? -O Will no tem medo de nada
-Lyra afirmou. - Nem eu. Por que vocs tm medo de gatos? -No sabe?
-perguntou o menino mais velho em tom incrdulo. -Os gatos, eles tm o
diabo dentro, tm mesmo.  preciso matar todo gato que aparecer. Eles
mordem, colocam o diabo dentro da gente, tambm. E o que voc estava
fazendo com aquele bicho enorme? Ela compreendeu que ele estava falando
de Pantalaimon em forma de leopardo, e sacudiu a cabea inocentemente.
-Voc deve ter sonhado -disse. -As coisas ficam diferentes ao luar. Mas
eu e Will, de onde a gente vem no tem Espectros, de modo que no
sabemos muita coisa sobre eles. -Se voc no consegue ver os Espectros,
tudo bem, voc est segura -explicou um garoto. -Mas se vir, pode ficar
sabendo que eles vo te pegar. Foi o que papai disse, e depois pegaram
ele. Daquela vez ele nem viu eles. -E eles esto aqui em volta de ns
agora? - -disse a menina. Ela estendeu a mo e agarrou um punhado de
ar, bradando: -Peguei um! -Eles no conseguem nos machucar -disse um dos
garotos. -E ns no podemos machucar eles, tambm. -E sempre teve
Espectros neste mundo? -Lyra quis saber . -- disse um dos meninos. Mas
o outro o desmentiu: #169 -Nada disso! -retrucou a menina. -Minha av
disse que eles vieram porque as pessoas eram ms e Deus mandou eles para
nos castigar . -A sua av no sabe de nada -disse um menino. - Ela tem
barba, a sua av. Igual a um bode. -Que negcio  esse de Liga? -Lyra
insistiu. -Sabe a Torre degli Angeli, a torre de pedra? Certo, ela
pertence  Liga, e tem um lugar secreto l. A Liga, eles l sabem todo
tipo de coisa. Filosofia, alquimia, todo tipo de coisa eles sabem. E
foram eles que deixaram os Espectros entrarem. -Isso no  verdade
-disse outro menino. -Eles vieram das estrelas. -, sim! Foi isso mesmo
que aconteceu: um sujeito da Liga, h muitos sculos, estava separando
um metal. Chumbo. Ele ia transformar em ouro. Cortou, cortou cada vez
menor at que ficou o menor pedao que ele conseguiu fazer. No existe
nada menor. To pequeno que a gente nem consegue enchergar. Mas ele
cortou esse pedao tambm, e dentro do pedacinho mais pequenininho era
onde estavam todos os Espectros juntos, enrolados e dobrados, to
apertados que quase no ocupavam lugar. Mas depois que ele cortou, bum!
Eles saram todos, e esto por a at hoje. Foi o que o meu pai me
contou. -Tem algum homem da Liga na torre agora? -Lyra perguntou. -No!
Eles fugiram como todo mundo -contou a menIna. -No tem ningum na
torre.  mal-assombrado, aquele lugar- declarou um menino. -Foi por isso
que a gata veio #170 de l. A gente no entra l, de jeito nenhum.
Nenhuma criana vai l. D medo. -Os homens da Liga no tm medo de
entrar l - comentou outro. -Eles devem ter uma mgica especial, ou
coisa assim. So ambiciosos, vivem s custas dos pobres -disse a menina.
-Os pobres trabalham e os homens da Liga vivem l de graa. -Mas no tem
ningum na torre agora? -Lyra perguntou. -Nenhum adulto? -No tem nenhum
adulto na cidade inteira! -Eles no tm coragem, de jeito nenhum. Mas
ela havia visto um rapaz l em cima. Tinha certeza. E havia alguma coisa
no jeito daquelas crianas falarem: como mentirosa experiente, Lyra
reconhecia outros mentirosos, e sabia que aquelas crianas estavam
escondendo alguma coisa. E de repente ela se lembrou: o pequeno Paolo
tinha dito que ele e Anglica tinham um irmo mais velho, Tullio, que
tambm estava na cidade, e Anglica tinha mandado o menino se calar... O
rapaz que ela viu poderia ser esse irmo? As crianas foram buscar os
pedalinhos para traz-los de volta  praia, e Lyra voltou a entrar para
fazer caf e verificar se Will estava acordado. Mas ele ainda dormia,
com agata enrodilhada a seus ps, e Lyra estava impaciente para visitar
novamente a sua Catedrtica; portanto, escreveu um bilhete e deixou-o no
cho junto  cama dele, depois pegou a mochila e saiu para procurar a
janela. O caminho que tomou levou-a atravs da pracinha que tinham visto
na vspera. Estava vazia agora, e o sol batia na fachada da torre,
ressaltando os entalhes ao lado da porta: figuras humanas com asas
dobradas, as feies erodidas por sculos de exposio ao tempo, mas de
alguma forma, em sua #171 imobilidade, exprimindo poder, compaixo e
fora intelectual. -Anjos -fez Pantalaimon, um grilo no ombro dela.
-Talvez Espectros -retrucou ela. -No! Eles disseram que isto a 
alguma coisa "angeli" -ele insistiu. -Aposto que quer dizer anjos.
-Vamos entrar? - Olharam para a grande porta de carvalho com suas
ferragens negras; a meia dzia de degraus que levavam a ela estavam
muito gastos, e a prpria porta estava ligeiramente aberta. Nada havia
para impedir que Lyra entrasse, a no ser seu prprio medo. Ela subiu os
degraus p ante p e espiou pela abertura. Tudo que conseguia enxergar
era um saguo escuro, com piso de pedra, e s uma parte dele; mas
Pantalaimon esvoaava ansiosamente em seu ombro, exatamente como tinha
feito quando ela trocara os crnios na cripta da Universidade Jordan, e
agora ela era um pouco mais esperta. Aquele era um lugar ruim. Lyra
desceu correndo os degraus e saiu da praa rumando para o sol brilhante
da avenida de palmeiras. E, assin que se certificou de que ningum
estava olhando, atravessou a janela e entrou na Oxford de Will. Quarenta
minutos depois, Lyra estava mais uma vez dentro do prdio da Fsica,
discutindo com o porteiro; mas dessa vez tinha um trunfo. -Pergunte 
Dra. Malone -disse em voz doce. - Basta fazer isso. Pergunte a ela. O
porteiro pegou o telefone, apertou alguns botes e falou, enquanto Lyra
observava com pena: ele no tinha sequer uma guarita para ficar, como
qualquer universidade na Oxford #172 de verdade; s um grande balco de
madeira, como se aquilo fosse uma loja. -Est certo -disse o porteiro,
virando-se para Lyra. -Ela disse para subir. No v para outro lugar.
-No vou, no -disse ela em tom obediente, como uma menina boazinha
fazendo o que lhe mandavam. No alto da escada, porm, ela teve uma
surpresa, pois, quando estava passando por uma porta com um desenho de
uma mulher, a porta se abriu e ali estava a Dra. Malone, chamando-a com
gestos. Ela entrou, intrigada. Ali no era o laboratrio, era um
banheiro, e a Dra. Malone estava nervosa. -Lyra, tem gente l no
laboratrio, policiais ou coisa assim, eles sabem que voc veio me
visitar ontem, no sei o que esto procurando, mas no gostei. O que 
que est acontecendo? -Como  que eles sabem que eu vim? -No sei! Eles
no sabem o seu nome, mas eu compreendi de quem eles estavam falando...
-Ah, bom, a gente pode mentir para eles.  fcil. Uma voz de mulher
chamou do corredor: -Dra. Malone, viu a menina? -Vi, sim -respondeu a
Dra. Malone. -Eu estava mostrando a ela onde era o banheiro... Lyra
achou que no havia necessidade de ficar to nervosa, mas talvez a
mulher no estivesse acostumada com o perigo. A mulher no corredor era
jovem e estava muito bem vestida, e tentou sorrir quando Lyra saiu, mas
seus olhos continuaram hostis e cheios de suspeita. -Ol! Voc  a Lyra,
no ? -Sou, sim. Qual  o seu nome? #173 -Sou a sargento Clifford.
Entre aqui. Lyra achou que a outra era muito cara-de-pau, agindo como se
o laboratrio fosse seu, mas assentiu humildemente. Foi o momento em que
sentiu o primeiro espasmo de arrependimentO. Sabia que no devia estar
ali; sabia o que o aletmetro queria que ela fizesse, e no era aquilo.
Indecisa, ficou parada  porta. No aposento j estava um homem alto e
corpulento, de sobrancelhas brancas. Lyra conhecia a aparncia de um
Catedrtico, e nenhum daqueles dois se parecia com um. -Entre, Lyra-
disse a Sargento Clifford. -Est tudo bem. Este  o Inspetor Walters.
-Ol, Lyra- fez o homem. -A Dra. Malone j me falou muito de voc.
Gostaria de lhe fazer umas perguntas, se voc no se importa. -Que tipo
de perguntas? -Nada difcil- disse ele, sorrindo. -Entre e sente-se
Lyra. Ele empurrou uma cadeira na direo dela; a menina sentou-se
cautelosamente e ouviu a porta se fechar. A Dra. Malone estava de p
perto dela. Pantalaimon, em forma de grilo no bolso de Lyra, estava
agitado: ela o sentia de encontro ao seu peito, e esperava que o tremor
dele no fosse visvel. Mandou-lhe um pensamento para ficar quieto. -De
onde voc vem, Lyra? -perguntou o Inspetor Walters. Se ela respondesse
"de Oxford", eles poderiam checar facilmente. Mas no poderia dizer "de
outro mundo"; aquelas pessoas eram perigosas, iam querer saber mais.
Lyra pensou no nico nome que conhecia nesse mundo: o lugar de onde Will
tinha vindo. .. #174 -De Winchester -respondeu. -Voc esteve brigando,
no esteve, Lyra? -perguntou o inspetor. -Onde arranjou esses
machucados? Tem uma equimose no rosto, outra na perna... Algum andou
batendo em voc? -No -disse Lyra. -Voc estuda, Lyra? -Estudo, sim. De
vez em quando -acrescentou. -No devia estar na escola hoje? Ela no
respondeu. Sentia-se cada vez mais inquieta. Olhou para a Dra. Malone,
cujo rosto estava tenso e infeliz. -Vim visitar a Dra. Malone -disse
Lyra. -Est hospedada em Oxford, Lyra? Onde est hospedada? -Com umas
pessoas -disse ela. -Uns amigos. -Qual  o endereo deles? -No sei
exatamente como se chama o lugar. Sei chegar l, mas no me lembro do
nome da rua. -Quem so essas pessoas? -Uns amigos do meu pai, s isso.
-Ah, entendo. Como foi que conheceu a Dra. Malone? -Porque meu pai 
fsico e conhece ela. Ela achava que as coisas estavam ficando mais
fceis; comeou a relaxar e a mentir com mais fluncia. -E ela lhe
mostrou o que estava fazendo, no foi? -Foi. O motor com a tela... ,
isso tudo. -Voc est interessada nesse tipo de coisa? Cincia, coisas
assim? -. Especialmente a fsica. -Vai ser cientista quando crescer?
#175 Aquele tipo de pergunta merecia como resposta um olhar
inexpressivo, e foi o que recebeu. O homem no se perturbou: com seus
olhos claros olhou de relance para a outra mulher, depois para Lyra. -E
ficou surpresa com o que a Dra. Malone lhe mostrou? -Bem, mais ou menos,
eu j esperava. -Por causa do seu pai? -. Porque ele est fazendo o
mesmo tipo de trabalho. -Ah, sei. Voc compreende esse trabalho? -S uma
parte. -Ento seu pai est estudando a matria escura? -. -Est to
adiantado quanto a Dra. Malone? -No do mesmo jeito. Algumas coisas ele
faz melhor, mas o motor com as palavras na tela, isso ele no tem. -Will
tambm est hospedado com os seus amigos? -, ele... Ela se calou,
sabendo que tinha acabado de cometer um erro terrvel. Eles tambm
perceberam, e no mesmo instante ficaram de p para impedir que ela
fugisse, mas a Dra. Malone estava no caminho e a sargento tropeou e
caiu, bloqueando a passagem do inspetor. Isso deu a Lyra tempo para sair
correndo, bater a porta atrs de si e disparar para a escada. Dois
homens de jaleco branco saram de uma porta e ela trombou com eles, e de
repente Pantalaimon era um corvo a grasnar e bater asas, assustando
tanto os dois que eles recuaram; ela desvencilhou-se das mos deles e
disparou escada abaixo, chegando  portaria no mesmo instante em que o
porteiro desligava o telefone e saa em sua direo chamando: #176 -Ei!
Pare a! Ei, voc! Mas o pedao do tampo do balco que ele tinha que
levantar para sair ficava na outra extremidade, e ela chegou  porta
giratria antes que ele conseguisse peg-la. Atrs dela, as portas do
elevador se abriram, e delas irrompeu o homem de cabelos claros, to
forte e to veloz... E a porta no girava! Pantalaimon grasnou para ela:
estava empurrando para o lado errado! Ela soltou um grito de medo e
virou-se para a outra parede divisria, jogando seu corpinho leve contra
o vidro pesado, querendo com todas as suas foras que ela girasse;
conseguiu mov-la bem a tempo de evitar que o porteiro a agarrasse. O
porteiro estava no caminho do homem de cabelos claros, de modo que Lyra
conseguiu sair e afastar-se antes que este sasse pela porta. Ela
atravessou a rua -ignorando os carros, as freadas e os pneus cantando -e
entrou num beco entre prdios altos, depois virou em outra rua com
carros indo em ambas as direes, mas ela foi rpida, desviando-se das
bicicletas, sempre com o homem de cabelos claros logo atrs dela -to
apavorante! Entrou num jardim, saltou uma cerca e atravessou um
bosquezinho de arbustos, com Pantalaimon, em forma de pssaro,
esvoaando acima da sua cabea, indicando-lhe o caminho; depois Lyra
agachou-se atrs de um recipiente de guardar carvo enquanto ouvia o
homem de cabelos claros passar correndo -ele nem sequer estava ofegando,
era muito veloz e estava em tima forma! Pantalaimon instruiu: -Agora
volte para aquela rua... Ela esgueirou-se para fora de seu esconderijo e
atravessou de volta o gramado do jardim, saiu pelo mesmo porto e #177
encontrou-se outra vez na amplido da Rua Banbury; mais uma vez
atravessou a rua e mais uma vez OUVIU pneus cantando; e ento entrou
correndo na Norham Gardens, uma rua tranqila, orlada de rvores, com
altas casas vitorianas, perto do Parque. Ela parou para recuperar o
flego. Havia uma cerca-viva alta diante de um dos jardins, tendo 
frente uma mureta, e ali ela se sentou, enfiando-se o mais que pde sob
os alfeneiros. -Ela nos ajudou! -disse Pantalaimon. -A Dra. Malone
atrapalhou eles! Ela est do nosso lado, no do deles! -Ah, Pan, eu no
devia ter dito aquilo do Will... Eu devia ter sido mais cuidadosa...
-No devia ter vindo -disse ele severamente. -Eu sei. Isso, tambm...
Mas no teve tempo de se lamentar, pois Pantalaimon esvoaou para seu
ombro, dizendo: -Cuidado, atrs de voc... E imediatamente
transformou-se outra vez em grilo e mergulhou no bolso dela. Ela
levantou-se, pronta para correr, e viu um sed azul-escuro deslizando
silenciosamente para junto da calada. A menina preparou-se para fugir,
mas a janela traseira do carro desceu e por ela assomou um rosto que ela
reconheceu. -Lizzie! -fez o velho do museu. -Que bom ver voc de novo!
Posso lhe dar uma carona? Ele abriu a porta e recuou para dar lugar a
ela ao seu lado. Pantalaimon mordiscou-lhe a pele atravs do pano fino,
mas ela entrou imediatamente, agarrada  mochila, e o homem,
inclinando-se sobre ela, fechou a porta do carro. -Parece que voc est
com pressa -disse. -Aonde quer ir? #178 -Para Summertown, por favor. O
motorista usava um quepe pontudo. Tudo naquele carro era bonito, macio e
poderoso, e o cheiro da gua-de-colnia do homem era forte naquele
espao fechado. O carro afastou-se da calada sem o menor rudo. -Ento,
que foi que voc andou fazendo, Lizzie? - perguntOU o velho. -Descobriu
mais alguma coisa sobre aqueles crnios? - -disse ela, virando-se para
olhar para a janela traseira. No havia sinal do homem de cabelos
claros. Ela conseguira escapar! E ele nunca a encontraria, agora que ela
estava em segurana num carro poderoso, com um homem rico como aquele.
Lyra teve uma breve sensao de triunfo. -Eu tambm fiz algumas
pesquisas -ele disse. -Um antroplogo meu amigo me disse que eles tm
muitos outros alm dos que esto em exibio. Alguns so realmente muito
antigos. De Neandertal, sabia? -. foi o que eu soube tambm -disse
Lyra, sem ter a menor idia do que ele estava falando. -E como vai o seu
amigo? -Qual amigo? -perguntou Lyra, assustada; tinha contado a ele
tambm sobre Will? -Onde voc est hospedada. -Ah, a minha amiga. Ela
vai muito bem, obrigada. -O que  que ela faz?  arqueloga? -No, ...
fsica. Estuda a matria escura -disse Lyra, ainda um pouco
descontrolada. Naquele mundo era mais difcil contar mentiras do que ela
havia imaginado que seria. E alguma coisa a estava #179 incomodando:
aquele velho lhe parecia familiar de alguma maneira, e ela no conseguia
localizar de onde era. -Matria escura? -ele repetiu. -Que coisa
fascinante! Ainda hoje de manh li alguma coisa sobre isso no Times. O
universo est repleto dessa coisa misteriosa, que ningum sabe o que !
E a sua amiga est estudando isso? -. Ela sabe um monte de coisas sobre
esse assunto. -E o que voc vai fazer depois, Lizzie? Vai estudar fsica
tambm? -Pode ser -disse ela. -Depende. O motorista pigarreou
discretamente e diminuiu a velocidade do carro. -Bem, chegamos a
Summertown -disse o velho. - Onde quer ficar? -Ah, logo depois dessas
lojas. Daqui posso ir caminhando -disse Lyra. -Obrigada. -Vire 
esquerda no Passeio Pblico e encoste do lado direito, Allan -ele
instruiu. -Sim, senhor -fez o motorista. No minuto seguinte estavam
parados diante de uma biblioteca pblica. O velho abriu a porta do seu
prprio lado, de modo que Lyra, para sair, teve que passar por cima dos
joelhos dele. Havia bastante espao, mas por um motivo qualquer aquilo
era constrangedor, e ela no queria ter contato fsico com ele, por mais
bonzinho que ele fosse. -No esquea a mochila -ele disse,
estendendo-lhe o objeto. -Obrigada. -Vamos nos ver de novo, espero,
Lizzie. D minhas lembranas  sua amiga. -Adeus -fez Lyra. #180
Deixou-se ficar parada na calada at o carro virar a esquina e sumir de
vista; s ento saiu na direo dos carpinos. Tinha uma sensao
estranha em relao quele homem de cabelos claros, e queria consultar o
aletmetro. Will estava outra vez lendo as cartas do pai. Sentado no
terrao, ouvindo os gritos distantes das crianas que mergulhavam da
borda do porto, lia a caligrafia firme nas finas folhas de papel de
carta via area, tentando visualizar o homem a quem ela pertencia,
voltando vrias vezes  referncia ao beb -que era ele prprio. Ouviu
os passos de Lyra correndo ainda  distncia; guardou as cartas no bolso
e levantou-se, e quase no mesmo instante Lyra apareceu, com olhos
assustados e Pantalaimon rosnando como um gato selvagem, perturbado
demais para pensar em esconder-se. Ela, que nunca chorava, estava
soluando de dor; tinha o peito ofegante, rilhava os dentes, e jogou-se
sobre ele, agarrando-lhe os braos, gritando: -Eu mato ele! Eu mato ele!
Quero que ele morra! Ah, se Iorek estivesse aqui... Ah, Will, eu agi
mal. Sinto muito... -O que foi? Qual  o problema? -Aquele velho... no
passa de um ladro sujo... ele me roubou, Will! Ele roubou o meu
aletmetro! Aquele velho podre, com suas roupas de rico, seu carro com
motorista... Ah, fiz tanta coisa errada hoje... Ah, eu... E ps-se a
soluar to desesperadamente que ele pensou: um corao pode se
despedaar de verdade, e o dela est se despedaando agora -pois ela
caiu no cho, tremendo, gemendo alto. Ao lado dela, Pantalaimon
transformou-se em lobo e ps-se a uivar com amargo sofrimento. Longe, na
sada do porto, as crianas interromperam o que estavam fazendo e
sombrearam os olhos com as mos para #181 ver melhor. Will sentou-se ao
lado de Lyra e sacudiu-a pelo ombro. -Pare! Pare de chorar! Conte-me do
princpio. Que velho  esse? O que foi que aconteceu? -Voc vai ficar
to zangado... Prometi que no ia fazer isso, denunciar voc, eu
prometi, e agora... -ela soluou. Pantalaimon tornou-se um cozinho
jovem e desajeitado, de orelhas cadas e rabo encolhido, rastejando de
vergonha; e Will compreendeu que Lyra tinha feito alguma coisa da qual
se envergonhava demais para conseguir lhe contar, e ento falou com o
daemon: -O que foi que aconteceu? Conte-me. Pantalaimon contou: -Fomos
at a Catedrtica, e tinha mais gente l, um homem e uma mulher, e eles
nos prepararam uma armadilha, fizeram muitas perguntas e depois
perguntaram sobre voc, e antes que agente percebesse, agente j tinha
revelado que conhecia voc, e ento fugimos... Lyra tinha o rosto
escondido nas mos, a cabea apertada contra a calada. Pantalaimon, em
sua agitao, mudava de uma forma para outra: co, pssaro, gato,
arminho branco como a neve. -Como era o homem? -Will quis saber.
-Grando -fez a voz abafada de Lyra. -E muito forte, de olhos claros...
-Ele viu voc voltar pela janela? -No, mas... -Bom, ento ele no vai
saber onde estamos. -Mas o aletmetro! -ela exclamou, sentando-se com
deciso, as feies rgidas de emoo como uma mscara grega. -, fale
sobre isso -Will pediu. #182 Entre soluos e ranger de dentes ela lhe
contou o que acontecera: que o velho a tinha visto usar o aletmetro no
museu no dia anterior, e que ele hoje tinha parado o carro e ela entrou
para escapar do homem louro, e o carro tinha estacionado do outro lado,
de modo que ela precisou pular por cima dele para sair, e ele deve ter
agido depressa, roupando o aletmetro quando lhe passou a mochila...
Will percebia como ela estava desesperada, mas no entendia por que
deveria se sentir culpada. E ento ela disse: -Will, ah, Will, fiz uma
coisa horrvel. Porque o aletmetro me disse que eu tinha que parar de
procurar o P e tratar de ajudar voc. Eu tinha que ajudar voc a
encontrar o seu pai. E eu podia mesmo, podia levar voc onde ele
estiver, se eu tivesse o aletmetro. Mas eu no quis ouvir. Simplesmente
fiz o que queria fazer, mas no devia... Ele j a tinha visto usar o
aletmetro, e sabia que o instrumento podia mesmo contar-lhe a verdade.
Ento deu-lhe as costas. Ela agarrou o pulso dele, mas ele
desvencilhou-se e caminhou at a beira d'gua. As crianas brincavam
novamente no outro extremo do porto. Lyra correu at ele, e disse:
-Will, estou to arrependida... -De que adianta isso? No quero saber se
est arrependida ou no. Voc errou. -Mas Will, ns temos que ajudar um
ao outro, voc e eu, porque no temos mais ningum. -No vejo como. -Nem
eu, mas... Ela cortou a frase no meio, e seus olhos brilharam. Virou-se
e saiu correndo de volta  mochila abandonada na calada, pondo-se a
remexer febrilmente dentro dela. #183 -Sei quem ele ! E onde mora!
Veja! -disse, estendendo o pequeno carto de visita. -Ele me deu isso no
museu! Podemos ir l pegar o aletmetro de volta! Will pegou o carto e
leu: Sir Charles Latrom Comandante da Ordem do Imprio Britnico Manso
Limefield Old Headington Oxford -Ele  importante -comentou. - um
Cavalheiro. Isso quer dizer que as pessoas vo automaticamente acreditar
nele e no em ns. De qualquer maneira, o que  que voc quer que eu
faa? Chame a polcia? A polcia est me caando! Se no estavam ontem,
agora estaro. E se voc for, eles sabem quem voc , e sabem que voc
me conhece, de modo que isso tambm no ia funcionar . -Podamos roubar
o aletmetro. Podamos ir at a casa dele e roubar o aletmetro. Sei
onde fica Headington, existe esse lugar na minha Oxford tambm. No 
longe. Podamos chegar l em uma hora a p, facilmente. -Voc  to
boba! -Iorek Byrnison iria l direto e arrancaria a cabea dele. Queria
que ele estivesse aqui. Ele iria... Lyra silenciou. Will simplesmente
olhava para ela, e ela se sentiu intimidada. Teria se intimidado do
mesmo modo se um urso de armadura tivesse olhado para ela desse jeito,
porque havia alguma coisa parecida com Iorek nos olhos de Will, por mais
jovem que ele fosse. -Nunca ouvi uma coisa to estpida -disse ele. -
Acha que podemos simplesmente ir at a casa dele, entrar #184 escondidos
e roubar o aletmetro? Voc tem que pensar, usar essa sua porcaria de
inteligncia. Se ele  assim to rico, deve ter todo tipo de alarmes
contra ladres e coisas assim, deve haver sirenes que disparam, trancas
especiais e luzes infravermelhas que acendem automaticamente... -Nunca
ouvi falar nestas coisas -disse Lyra. -No temos nada disso no meu
mundo. Eu no sabia, Will. -Est bem, ento pense no seguinte: ele tem a
casa inteira para esconder o aletmetro, e quanto tempo um ladro teria
para procurar em todos os armrios e gavetas e esconderijos da casa
inteira? Aqueles homens que entraram na minha casa tiveram horas para
procurar e no encontraram o que queriam, e aposto que a casa dele 
muito maior que a minha. E ele com certeza tem cofre, tambm. Ento,
mesmo conseguindo entrar na casa, ns no vamos ter tempo para encontrar
o aletmetro antes que a polcia chegue. Ela baixou a cabea.
Infelizmente aquilo tudo era verdade. -Ento, o que  que vamos fazer?
-perguntou. Ele no respondeu. Mas tratava-se de ns, sem dvida -
agora, gostando ou no, estava preso a ela. Caminhou at a beira d'gua
e de volta ao terrao, e novamente at a gua. Batia as mos uma na
outra, procurando em vo uma resposta, e sacudia a cabea com raiva. -Ir
at l -disse finalmente. -Ir at l falar com ele. No adianta pedir
ajuda  sua Catedrtica, tambm, se a polcia j chegou at ela. Ela
certamente vai acreditar neles e no em ns. Pelo menos, entrando na
casa dele, vamos ver onde ficam os aposentos principais. J  um comeo.
Sem outra palavra ele entrou na casa e guardou as cartas debaixo do
travesseiro no quarto onde estava dormindo. Assim, se fosse preso, eles
nunca teriam as cartas. #185 Lyra estava esperando no terrao, com
Pantalaimon empoleirado em seu ombro como andorinha. Ela parecia mais
animada. -Vamos pegar ele de volta -afirmou. -Eu sinto que vamos. Ele
no respondeu, e os dois partiram rumo  janela. Caminharam uma hora e
meia at chegarem a Headington. Lyra indicava o caminho, evitando o
centro da cidade, Will vigiava em volta, sem nada dizer. Para Lyra as
coisas estavam muito mais difceis agora do que at mesmo no rtico a
caminho de Bolvangar, pois naquela ocasio l estavam os gpcios e Iorek
Byrnison, e mesmo que a tundra estivesse cheia de perigos, era possvel
reconhecer o perigo quando ele surgia. Aqui, nesta cidade que era sua e
no era, o perigo podia ter aparncia amigvel, e a traio sorria e
cheirava bem; e mesml que no fossem mat-la ou separ-la de
Pantalaimon, tinham roubado dela o seu nico guia. Sem o aletmetro ela
era apenas uma menininha perdida. A Manso Limefield tinha a cor clida
do mel, e metade da fachada estava coberta de hera. Ficava num jardim
amplo e bem tratado, com uma cerca-viva a um lado e uma alameda de
cascalho para automveis que serpenteava at a porta principal. O Rolls
Royce estava parado diante de uma garagem dupla,  esquerda. Tudo que
Will enxergava cheirava a dinheiro e poder, o tipo de superioridade
informal e estabelecida que algumas pessoas da aristocracia inglesa
ainda achavam natural. Havia alguma coisa naquilo tudo que o fazia
cerrar os dentes, e ele no sabia por qu, at que de repente lembrou-se
de uma ocasio, quando era bem novinho -sua me o levara a uma casa
parecida com essa... Os dois usavam suas melhores roupas, e ele tinha
que se comportar o melhor possvel, e um #186 casal de velhos fez a me
dele chorar, e eles foram embora da casa, ela ainda chorando... Lyra viu
que ele tinha a respirao acelerada e os punhos cerrados, mas ela era
suficientemente sensvel para no fazer perguntas: era algo que dizia
respeito a ele, no a ela. Will respirou fundo. -Bom, no Custa tentar
-disse. Subiu a alameda, com Lyra logo atrs. Sentiam-se muito
vulnerveis. A porta tinha um puxador antiquado, como os do mundo de
Lyra, e Will no conseguiu descobrir como se tocava a campainha at que
Lyra lhe mostrou. Quando o pUxaram, a campainha tocou longe, dentro da
casa. O homem que abriu a porta era o motorista do carro, s que sem o
quepe. Primeiro ele olhou para Will, depois para Lyra, e sua expresso
modificou-se um pouco. -Queremos ver Sir Charles Latrom -Will anunciou.
Tinha o queixo erguido, como na vspera, ao enfrentar as crianas que
jogavam pedras junto  torre. O criado assentiu. -Esperem aqui -disse.
-Vou avisar Sir Charles. Ele fechou a slida porta de carvalho, com duas
trancas pesadas, e fechos em cima e embaixo -embora Will achasse que
nenhum ladro sensato iria tentar a porta da frente. E havia um alarme
contra ladres instalado em lugar bem visvel na fachada da casa, e um
grande holofote em cada esquina; nunca conseguiriam se aproximar da
casa, muito menos penetrar nela. Passos regulares vieram at a porta,
que tornou a se abrir . Will olhou para o rosto daquele homem que j
possua tanta coisa e ainda cobiava mais, e achou-o intrigantemente
tranqilo e seguro de si, nem um pouco culpado ou embaraado. #187
Sentindo que a seu lado Lyra se encontrava impaciente e zangada, Will
disse depressa: -Com sua licena, Lyra acha que quando pegou uma carona
com o senhor, hoje mais cedo, ela esqueceu um objeto dentro do carro.
-Lyra? No conheo nenhuma Lyra. Que nome incomum! Conheo uma menina
chamada Lizzie. Quem  voc? Amaldioando-se por ter esquecido, Will
disse: -Sou Mark, o irmo dela. -Entendo. Ol Lizzie, ou Lyra.  melhor
entrarem. Ele deu um passo para o lado. Nem Will nem Lyra esperavam por
isso, e entraram com hesitao. O vestbulo estava em penumbra e
cheirava a cera de abelha e flores. Todas as superfcies estavam limpas
e enceradas, e uma estante de mogno encostada  parede continha
delicadas figurinhas de porcelana. Will viu o criado de p  distncia,
como se esperasse ser chamado. -Vamos para o meu escritrio -disse Sir
Charles, abrindo outra porta do vestbulo. Ele estava se mostrando
corts, at mesmo acolhedor , mas havia em seus modos alguma coisa que
deixou Will em guarda. O escritrio era amplo e confortvel, um ambiente
de charutos e poltronas de couro, e parecia estar cheio de estantes,
quadros, trofus de caa. Havia trs ou quatro estantes com portas de
vidro contendo antigos instrumentos cientficos: microscpios de cobre,
telescpios encapados em couro verde, sextantes, bssolas; era bvio o
seu motivo para querer o aletmetro. -Sentem-se -disse Sir Charles,
indicando um sof de couro. Acomodou-se na cadeira atrs da escrivaninha
e continuou: -E ento? O que  que vocs tm a dizer? #188 -o senhor
roubou... -Lyra comeou, com raiva. Mas Will olhou para ela, e ela
silenciou. -Lyra acha que deixou uma coisa no seu carro - tornou a dizer
ele. -Viemos pegar de volta. -Est falando deste objeto? -disse, abrindo
uma gaveta da escrivaninha. Tirou de dentro um embrulho de veludo. Lyra
levantou-se. Ele a ignorou e desdobrou o pano, mostrando o esplendor
dourado do aletmetro descansando na palma da sua mo. -, sim!
-explodiu Lyra, estendendo a mo para o aletmetro. Mas o homem fechou a
mo. A escrivaninha era larga, e Lyra no conseguia ultrapass-la; e
antes que ela pudesse fazer alguma coisa ele girou e colocou o
aletmetro numa estante de porta de vidro, trancou-a e colocou a chave
no bolsinho do colete. -Mas isso no  seu, Lizzie -disse. -Ou Lyra, se
 este o seu nome. - meu, sim!  o meu aletmetro! Ele sacudiu a cabea
com ar triste, como se estivesse a repreend-la e isso lhe causasse dor,
mas era para o prprio bem dela. -Acho que no mnimo existem srias
dvidas quanto a isso -disse. -Mas  dela! -disse Will! -Eu juro! Ela
mostrou ele para mim! Sei que  dela! -Entendam, acho que vocs teriam
que provar isso - o homem retrucou. -Eu no preciso provar coisa alguma,
porque tenho a posse dele, ento parte-se do princpio de que ele  meu,
como todos os outros itens da minha coleo. Devo dizer, Lyra, que fico
surpreso ao perceber que voc  to desonesta... #189 -Eu no sou
desonesta nada! -Lyra gritou. -Ah, , sim. Voc me disse que o seu nome
era Lizzie; agora vejo que no . Francamente, voc no tem a menor
chance de convencer algum que uma pea preciosa como esta lhe pertence.
Vou lhe dizer o que vamos fazer: vamos chamar a polcia. Ele se virou
para chamar o criado. -No, espere- disse Will, antes que Sir Charles
abrisse a boca, mas Lyra correu em volta da mesa, e de repente
Pantalaimon estava nos braos dela, um feroz gato selvagem mostrando os
dentes e rosnando para o velho. Sir Charles pestanejou diante daquela
apario, mas no se perturbou. -O senhor nem sabe o que roubou! -Lyra
bradou. -Me viu usando ele e resolveu roubar ele, e roubou. Mas o
senhor, o senhor  pior do que a minha me, ela pelo menos sabe que o
aletmetro  importante, e o senhor vai colocar ele numa estante e no
vai fazer nada com ele! O senhor devia morrer! Se eu puder, vou fazer
algum matar o senhor. O senhor no merece ficar vivo. O senhor ... Ela
no conseguiu dizer mais nada; a nica coisa que podia fazer era cuspir
na cara dele -e foi o que fez, com toda fora. Will continuava sentado,
imvel, observando, olhando em volta, memorizando onde ficava cada
coisa. Sir Charles calmamente pegou um leno de seda e limpou-se. -No
sabe se controlar? -falou. -V se sentar, sua pivete imunda. Lyra sentiu
lgrimas saltando de seus olhos com a fora do tremor do seu corpo, e
jogou-se sobre o sof. Pantalaimon, com a cauda ereta, ficou no colo
dela, com os olhos em brasa fixos no homem. #190 Will continuou sentado,
confuso. Sir Charles poderia t-los expulsado muito tempo antes; o que
ele estava pretendendo? E ento ele viu algo to bizarro que achou que
tinha imaginado. Da manga do palet de linho de Sir Charles, junto ao
punho branco da camisa, assomou a cabea cor de esmeralda de uma cobra.
A lngua branca surgiu e vibrou para um lado e para outro, e a cabea
cheia de escamas, com seus olhos negros orlados de dourado, moveram-se
de Lyra para Will e de volta para a garota. Lyra estava zangada demais
para perceber essa cena, e Will viu-a apenas durante uns segundos, antes
que a cobra se retrasse novamente para dentro da manga do palet do
velho, mas foi o suficiente para que ele arregalasse os olhos de susto.
Sir Charles foi at a janela e calmamente sentou-se no banco sob ela,
ajeitando o vinco das calas. -Acho melhor me escutar, em vez de se
comportar deste modo descontrolado -declarou. -Voc no tem escolha. O
instrumento est comigo e vai continuar comigo. Eu o quero para mim. Sou
colecionador. Voc pode cuspir, bater p e gritar quanto quiser, mas
quando tiver conseguido convencer algum a escut-la, j terei muitos
documentos provando que eu o comprei. Posso fazer isso com a maior
facilidade. E ento voc nunca vai t-lo de volta. As crianas nada
disseram, pois ele ainda no tinha terminado. Uma enorme perplexidade
pesava no corao de Lyra, tornando o aposento muito quieto. Ele
continuou: -No entanto, existe uma coisa que eu desejo ainda mais. E no
consigo obt-la por mim mesmo, de modo que estou preparado para fazer um
trato com vocs. Vocs me trazem o objeto que eu quero, e eu lhes
devolverei esse... Como foi mesmo que voc chamou? #191 -Aletmetro
-disse Lyra em voz fraca. -Aletmetro... Que interessante! Aletheia,
verdade... Os smbolos... , estou entendendo. -Qual  essa coisa que o
senhor quer? -Will perguntou. -E onde  que ela est? -Num lugar aonde
eu no posso ir, mas vocs podem. Sei perfeitamente que vocs
encontraram uma porta em algum lugar. Acredito que no seja muito
distante de Summertown, onde eu deixei Lizzie, ou Lyra, esta manh. E do
outro lado da porta existe um outro mundo, sem pessoas adultas. Estou
certo at agora? Bem, o homem que fez aquela porta tem uma faca. Neste
momento ele est escondido nesse outro mundo, com muito medo. E tem
razo para ter medo. Se ele est onde eu penso que est,  numa velha
torre de pedra com anjos entalhados em volta da porta. A Torre degli
Angeli. E finalizou: -De modo que  l que vocs tm que ir, e no me
importo como vo fazer isso, mas quero aquela faca. Tragam-na para mim e
podero ficar com o aletmetro. Vai ser uma pena perd-lo, mas sou um
homem de palavra.  isto que vocs tm que fazer: me trazer a faca. #192
8 A TORRE DOS ANJOS -Quem  esse homem que est com a faca? -perguntou
Will. Estavam no Rolls Royce, atravessando OXford. Sir Charles estava
sentado na frente, virado para trs, e Will e Lyra sentavam-se no banco
traseiro, com Pantalaimon, agora um rato, acalmado pelas mos de Lyra.
-Uma pessoa que tem tanto direito  faca quanto eu ao aletmetro-
respondeu Sir Charles. -Infelizmente para todos ns, o aletmetro est
comigo e a faca est com ele. -Como  que o senhor sabe sobre o outro
mundo, afinal? -Sei de muitas coisas que vocs no sabem. Que mais
poderiam esperar? Afinal, sou bem mais velho que vocs, e
consideravelmente melhor informado. Existem vrias portas entre este
mundo e o outro; aqueles que sabem onde elas esto podem passar de um
lado a outro com facilidade. Em Cittgazze existe uma Liga de homens
eruditos, ou pretensamente eruditos, que costumavam fazer isso o tempo
todo. -O senhor no  deste mundo! -Lyra exclamou de repente. -
daquele, no ? #193 E novamente ela sentiu um estranho cutuco da
memria. Tinha quase certeza de que j o tinha visto. -No sou, no -ele
respondeu. Will interveio: -Se temos que tirar a faca desse homem,
precisamos saber mais sobre ele. Ele no vai simplesmente nos dar a
faca, vai. -Claro que no.  a nica coisa que faz os Espectros ficarem
longe. No vai ser uma coisa fcil, de jeito algum. -Os Espectros tm
medo da faca? -Muito medo. -Por que eles S atacam os adultos? -No 
necessrio saber isso agora. No faz diferena. -Sir Charles voltou-se
para a menina. -Lyra, fale-me sobre o seu notvel amigo. Ele estava se
referindo a Pantalaimon. E assim que ele falou isso, Will entendeu que a
cobra que ele vira escondida na manga do velho era tambm um daemon, e
que Sir Charles devia vir do mundo de Lyra. Estava perguntando por
Pantalaimon para disfarar; isso significava que ele no tinha percebido
que Will tinha visto o seu daemon. Lyra ergueu Pantalaimon junto ao
peito e ele tornou-se um rato negro, que enrolou a cauda em vrias
voltas em torno do pulso dela e encarou Sir Charles com dio em seus
olhos vermelhos. -No era para o senhor ver ele -ela disse. - o meu
daemon. O senhor acha que neste mundo aqui no tem daemons, mas tem,
sim. O seu seria um rola-bosta. Ele retrucou: #194 -Se os Faras do
Egito ficavam contentes por serem representados por um escaravelho, eu
tambm fico. Bem, voc vem de outro mundo ainda. Que interessante. Foi
de l que veio o aletmetro, ou voc o roubou durante as suas viagens?
-Eu ganhei ele -disse Lyra, furiosa. -O Reitor da U niversidade Jordan
na minha Oxford me deu ele.  meu por direito. E o senhor no saberia o
que fazer com ele, seu velho estpido e fedorento, o senhor nunca iria
conseguir ler ele, nem em mil anos. Para o senhor,  s um brinquedo.
Mas eu preciso dele, e Will tambm. Ns vamos pegar ele de volta, no se
engane. -Veremos -fez Sir Charles. -Bem, foi aqui que deixei voc da
outra vez. Querem ficar aqui mesmo? -No -respondeu Will, tendo avistado
um carro da polcia. -O senhor no pode ir a Ci'gazze por causa dos
Espectros, de modo que no faz diferena saber onde fica a janela. Vamos
mais para a frente, na direo da via de acesso. -Como quiser -disse Sir
Charles, e o carro seguiu em frente. -Quando, ou se, vocs pegarem a
faca, liguem para mim e Allan vir busc-los. Nada mais disseram at o
motorista parar o carro. Quando os dois iam saindo, Sir Charles baixou o
vidro da janela e disse a Will: -Se vocs no conseguirem pegar a faca,
nem se dem ao trabalho de voltar. Se forem  minha casa sem ela, vou
chamar a polcia. Imagino que eles vo correr para l, quando souberem o
seu verdadeiro nome.  William Parry, no ? Eu j imaginava. O jornal
de hoje traz uma boa fotografia sua. E o carro se afastou. Will estava
sem fala. Lyra sacudiu-lhe o brao. #195 -No tem problema, ele no vai
contar a ningum - disse ela. -Seno j teria feito isso. Vamos. Dez
minutos depois, estavam na pracinha no sop da Torre dos Anjos. Will
contou a ela sobre o daemon-cobra, e ela estancou no meio da rua,
novamente atormentada pelo vislumbre de uma lembrana. Quem era aquele
velho? Onde ela o tinha visto? No adiantava, a lembrana no ficava
ntida. -Eu no quis contar a ele, mas vi um homem l em cima ontem 
noite -ela contou. -Ele olhou para baixo quando as crianas estavam
fazendo aquela algazarra... -Como ele era? -Bem moo, de cabelos
cacheados. Nem um pouco velho. Mas s vi ele um instante, bem l no
alto, por cima do parapeito. Achei que ele podia ser o... Lembra-se de
Anglica e Paolo? Ele disse que tinham um irmo mais velho que tambm
tinha vindo para a cidade, e ela no deixou Paolo contar o resto, como
se fosse um segredo? Pois bem, achei que podia ser ele. Ele podia estar
atrs da faca, tambm. E imagino que todas as crianas esto sabendo.
Acho que foi por isso que elas voltaram para c. -Hum... Talvez- disse
ele, olhando para cima. Ela se lembrou da conversa das crianas: nenhuma
criana entrava na torre, elas disseram; havia coisas apavorantes l; e
ela se lembrou da sua prpria sensao de inquietao quando ela e
Pantalaimon olharam pela porta entreaberta. Talvez fosse por isso que
era preciso um adulto para entrar l. O daemon agora voejava em torno da
cabea dela, em forma de traa, sussurrando ansiosamente. -Quieto -ela
sussurrou de volta. -A culpa foi nossa. Temos que consertar as coisas, e
este  o nico jeito. #196 Will dirigiu-se para a direita, acompanhando
a parede da torre. Na esquina havia uma passagem estreita, com o piso de
pedras, entre a torre e o muro do prdio seguinte, e Will entrou por
ali, olhando para o alto, avaliando o lugar. Lyra seguiu-o. Ele parou
debaixo de uma janela na altura do segundo andar e perguntou a
Pantalaimon: -Consegue voar at l? Consegue olhar l dentro?
Pantalaimon imediatamente se transformou numa andorinha e alou vo. Mal
conseguiu alcanar a janela; Lyra engasgou e soltou um gemido quando ele
pousou na moldura da janela, e ele ficou ali durante um ou dois segundos
apenas, antes de tornar a descer. Ela suspirou e respirou fundo vrias
vezes, como uma pessoa que escapou de morrer afogada. Will, confuso,
franziu atesta. - ruim, quando o daemon se afasta da gente, isso di...
-ela explicou. -Sinto muito. Viu alguma coisa? -ele quis saber. -Uma
escada-disse Pantalaimon. -Uma escada e salas escuras. Havia espadas
penduradas na parede, e lanas e escudos, como um museu. E eu vi um
homem. Ele estava... danando. -Danando? -Indo de um lado para outro,
sacudindo a mo. Ou parecia que estava lutando contra alguma coisa
invisvel... Ele estava do Outro lado de uma porta aberta. No vi muito
bem. -Lutando com um Espectro? -Lyra adivinhou. Mas no conseguiriam
descobrir mais que isso, portanto seguiram caminho. Atrs da torre, um
alto muro de pedra com o topo coberto de cacos de vidro rodeava um
pequeno jardim com canteiros de ervas em volta de um chafariz (mais uma
vez Pantalaimon alou vo para olhar); e depois havia um beco do #197
outro lado, que os levou de volta  praa. As janelas nas paredes da
torre eram pequenas e fundas como olhos. -Ento vamos ter que entrar
pela frente -Will decidiu. Subiu os degraus e empurrou a porta,
escancarando-a. O sol entrou, e as pesadas dobradias rangeram. Ele deu
um ou dois passos para dentro e, no vendo ningum, avanou mais. Lyra
seguia-o de perto. O piso era feito de lajes de pedra desgastadas pelos
sculos, e o ar ali dentro era frio. Will rumou para a escada que levava
ao poro e desceu alguns degraus, o suficiente para ver que ela
desembocava num aposento comprido, de teto baixo, tendo numa extremidade
uma imensa fornalha apagada, com as paredes negras de fuligem; mas no
havia ningum, e ele voltou para o saguo da entrada, onde encontrou
Lyra olhando para o alto,com o dedo nos lbios. -Estou ouvindo ele
-cochichou ela. -Est falando sozinho, eu acho. Will prestou ateno, e
ouviu tambm: um murmrio baixo e cantado, interrompido ocasionalmente
por uma risada rspida ou uma exclamao de raiva. Parecia a voz de um
louco. Will respirou fundo e comeou a subir a escada. Ela era feita de
carvalho escurecido, imensa e larga, com degraus to gastos quanto as
pedras do piso e slidos demais para rangerem sob o peso de algum. A
luz diminua  medida que eles subiam, porque a nica iluminao era a
janelinha pequena e funda em cada patamar. Subiram um andar, pararam
para escutar, subiram o seguinte, e o som da voz masculina misturava-se
agora com o de passos ritmados. Vinha de um aposento que ficava no outro
lado do patamar e cuja porta estava entreaberta. #198 Will foi at l p
ante p e abriu-a mais alguns centmetros, para poder espiar . Era uma
sala ampla, com o teto cheio de teias de poeira. As paredes eram
cobertas por estantes com livros mal conservados, as encadernaes se
desmanchando ou deformadas pela umidade. Vrios volumes estavam jogados
no cho, abertos no assoalho ou sobre largas mesas empoeiradas, e outros
tinham sido enfiados no lugar de maneira brutal e desajeitada. No centro
da sala, um rapaz danava. Pantalaimon tinha razo: parecia estar
fazendo exatamente isso. Estava de costas para a porta, e ia para um
lado, depois para o outro, enquanto movia sem cessar a mo na frente do
corpo como se estivesse abrindo caminho atravs de obstculos
invisveis. Nessa mo havia uma faca -no uma faca de aparncia
especial, mas simplesmente uma lmina fosca de uns 25 centmetros de
comprimento, e ele lanava-a para a frente, golpeava para o lado,
tateava para a frente com ela, movia-a para cima e para baixo, tudo isso
no vazio. Fez meno de virar-se, e Will recuou. Levou um dedo aos
lbios e chamou Lyra com um gesto, depois subiu na frente dela para o
andar seguinte. -O que  que ele est fazendo? -ela cochichou. Ele
descreveu o melhor que pde. -Parece coisa de maluco -ela comentou. -Ele
 magro, de cabelos cacheados? -. Cabelos ruivos, como os de Anglica.
E parece mesmo maluco. No sei, no, acho isso mais esquisito do que o
que Sir Charles falou. Vamos investigar mais, antes de falarmos com ele.
Ela no questionou; seguiu-o por outra escada at o ltimo andar. Ali
era muito mais claro, porque um lance de #199 degraus pintados de branco
levava ao telhado -ou, melhor , a uma estrutura de madeira e vidro, como
uma pequena estufa. Mesmo no p dessa escada eles sentiam o calor que a
estufa estava absorvendo. Enquanto estavam ali parados, ouviram um
gemido vindo de cima. Os dois deram um pulo -tinham certeza de que s
havia aquele homem na Torre. Pantalaimon levou um susto to grande, que
na mesma hora mudou de gato para passarinho e voou para o peito de Lyra.
Will e Lyra perceberam ento que estavam de mos dadas, e soltaram as
mos lentamente. -Melhor ir ver -Will sussurrou. -Eu vou na frente. -Eu
devia ir na frente -ela sussurrou de volta. -J que a culpa  minha. -J
que a culpa  sua, voc tem que fazer o que eu mandar . Ela fez
beicinho, mas deixou-o ir primeiro. Ele subiu em direo ao sol. A luz
na estrutura de vidro era cegante. O ar tambm era quente como numa
estufa, e Will no conseguia ver nem respirar direito. Encontrou uma
maaneta, girou-a e saiu depressa, levantando a mo para tapar o sol nos
olhos. Encontrou-se num telhado de chumbo rodeado por um parapeito de
ameias. A estrutura de vidro ficava no centro, e em toda a volta o
chumbo tinha um ligeiro declive em direo a uma calha que corria
paralela ao lado interno do parapeito, com furos quadrados para escoar a
gua da chuva. Deitado no chumbo, em pleno sol, estava um homem de
cabelos brancos. Tinha o rosto machucado, um dos olhos estava fechado, e
ao se aproximarem os dois viram que ele tinha as mos amarradas nas
costas. #200 Ele ouviu-os chegar e tornou a gemer, tentando virar-se
para evitar o sol. -Est tudo bem, no vamos machucar o senhor -disse
Will baixinho. -O homem da faca fez isto com o senhor? -Mmm -fez o
velho. -Vamos tirar a corda. No est muito bem amarrada... O n tinha
sido feito de maneira desajeitada e apressada, e Will conseguiu
desat-lo com facilidade. Os dois ajudaram o ancio a se levantar e
levaram-no para a sombra do parapeito. -Quem  o senhor? -Will
perguntou. -No sabamos que havia duas pessoas aqui. Pensamos que era
s uma. -Giacomo Paradisi -o velho balbuciou entre os dentes quebrados.
-Sou o portador. Ninguem maIs. Aquele rapaz roubou a faca de mim. Sempre
existem uns tolos que se arriscam assim por causa dela. Mas esse a est
desesperado. Ele vai me matar... -No-vai, no -disse Lyra. -O que quer
dizer portador? O que significa? -Significa que a faca mgica fica
comigo, por ordem da Liga. Para onde ele foi? -Est l embaixo -disse
Will. -Ns passamos por ele. Ele no viu a gente. Estava sacudindo a
faca no ar... -Tentando cortar at o outro lado. No vai conseguir .
Quando ele... -Cuidado -avisou Lyra. Will virou-se. O rapaz estava
subindo para o pequeno abrigo de madeira. Ainda no os tinha visto, mas
no havia onde se esconder, e quando as crianas se levantaram ele
percebeu o movimento e girou para enfrent-los. Pantalaimon
imediatamente virou urso e ergueu-se nas patas traseiras. Somente Lyra
sabia que ele no conseguiria #201 tocar no outro homem, e este
pestanejou e encarou-o por um segundo, mas Will percebeu que na verdade
ele no tinha enxergado coisa alguma. Aquele homem estava louco. Tinha
os cabelos ruivos empapados, o queixo sujo de saliva, as pupilas dos
olhos rodeadas de branco por todos os lados. E tinha a faca, ao passo
que eles no tinham arma alguma. Will deu um passo para o centro do
telhado, afastando-se do ancio, e agachou-se, pronto para lutar ou
saltar de lado. O rapaz avanou e tentou atingi-lo com a faca, 
esquerda,  direita,  esquerda, cada vez mais perto, fazendo Will
recuar at ficar encurralado num canto onde dois lados da torre se
encontravam. Enquanto isso, Lyra se aproximava do homem por trs, com a
corda na mo. De sbito Will saltou para a frente, como tinha feito com
o intruso em sua casa, e com o mesmo efeito: seu antagonista tropeou
para trs inesperadamente, caindo por cima de Lyra e batendo no chumbo.
Tudo acontecia depressa demais para Will sentir medo. Mas ele teve tempo
de ver a faca voar da mo do homem e cair a poucos metros de distncia,
cravada no telhado de chumbo, enterrando-se at o punho, como se
estivesse cravada numa barra de manteiga. No mesmo instante o rapaz
girou e estendeu a mo para a faca, e Will jogou-se nas costas dele,
agarrando-o pelos cabelos. Tinha aprendido abrigar na escola: havia
muitas ocasies para isso, depois que as outras crianas sentiram que
havia alguma coisa diferente na me dele. E ele tinha aprendido que o
objetivo de uma briga na escola no era ganhar pontos pelo estilo, mas
forar o inimigo a desistir, o que significa machuc-lo mais do que
estava sendo machucado. Ele sabia que tinha que estar disposto a
machucar os outros, e tinha percebido que pouca gente estava, na hora H;
mas sabia que ele, sim, estava. #202 De modo que aquilo no lhe era
desconhecido, mas ele nunca tinha brigado com um rapaz quase adulto,
armado de faca, e precisava a todo custo impedir que o outro conseguisse
peg-Ia de volta, agora que a tinha deixado cair. Entrelaou os dedos
nos cabelos grossos e midos do rapaz e puxou com toda a fora. O rapaz
gemeu e jogou-se de lado, mas Will agarrou-se ainda mais, e seu oponente
rugiu de dor e raiva. Esticou-se e jogou-se para trs, esmagando Will
entre o seu corpo e o parapeito, e isso foi demais para Will, que perdeu
o flego com o choque e afrouxou os dedos. O homem desvencilhou-se. Will
caiu de joelhos na calha, sem ar, mas sabia que no podia ficar ali.
Conseguiu pr-se de joelhos e ento tentou ficar de p -e ao fazer isso
enfiou o p num dos furos de drenagem. Por um terrvel segundo ele achou
que tinha pisado no vazio; seus dedos rasparam desesperadamente o chumbo
quente. Mas nada aconteceu: sua perna esquerda projetava-se para o
vazio, mas o resto dele estava a salvo. Ele puxou o p de volta para
dentro do parapeito e se levantou. O rapaz tinha chegado at a faca, mas
no teve tempo de arranc-la do chumbo antes de Lyra saltar sobre suas
costas, arranhando, chutando, mordendo como um gato selvagem; mas a
menina no conseguiu agarrar os cabelos dele, e ele jogou-a longe. E
quando se levantou tinha a faca na mo. Lyra tinha cado para um lado,
com Pantalaimon, agora , como gato selvagem, dentes  mostra, plo
eriado. Will enfrentou o rapaz e pela primeira vez viu-o claramente.
No havia dvida, era mesmo o irmo de Anglica, e ele era mau. Toda a
sua mente estava concentrada em Will, e tinha a faca em sua mo. Mas
Will tambm no estava desarmado. Ele havia agarrado a corda quando Lyra
a soltou, e agora enrolou-a em volta da mo esquerda para proteger-se da
faca. #203 Moveu-se de lado entre o rapaz e o sol, para que seu
adversrio tivesse que piscar e apertar os olhos. Ainda melhor: a
estrutura de vidro lanava reflexos brilhantes nos olhos do rapaz, e
Will percebeu que por um instante o outro ficou quase cego. Saltou para
o lado esquerdo do seu oponente, o lado oposto  faca, erguendo a mo
esquerda, e chutou com fora o joelho do outro. Fizera pontaria com
cuidado, e o p acertou no alvo. O homem caiu com um gemido alto e rolou
para longe desajeitadamente. Will saltou atrs dele, golpeando-o com
ambas as mos e chutando inmeras vezes, acertando onde conseguia
alcanar, forando-o a recuar cada vez mais na direo da estufa. Se
conseguisse lev-lo at o alto da escada... Dessa vez o homem caiu com
mais fora, e sua mo direita, segurando a faca, bateu no chumbo aos ps
de Will. No mesmo instante Will pisou nela com fora, esmagando os dedos
do rapaz entre o cabo da faca e o telhado de chumbo, e depois enrolou a
corda com mais fora em torno da mo e pisoteou pela segunda vez. O
rapaz gritou e soltou a faca. De imediato Will chutou-a para longe,
tendo sorte por seu sapato ter pegado no cabo, e a faca saiu girando
sobre o chumbo at parar na calha, junto a um dos orifcios de drenagem.
A corda tinha se desenrolado de novo da sua mo, e parecia haver uma
surpreendente quantidade de sangue vindo de algum lugar sobre o chumbo e
em seus prprios sapatos. O homem estava se levantando... -Cuidado!
-Lyra gritou, mas Will pusera-se alerta. No momento em que o outro
estava desequilibrado, Will jogou-se em cima dele, batendo com toda
fora no abdmen do outro. O homem caiu de costas sobre o vidro, que se
estilhaou no mesmo instante, e a frgil estrutura de madeira #204
tambm no resistiu. Ele caiu sobre os destroos, metade do corpo
pendurado sobre o poo da escada; agarrou-se  moldura da porta, mas ela
j no estava presa e cedeu. Ele despencou no buraco, sob outra chuva de
vidro. E Will correu at a calha e pegou a faca; a luta terminara. O
rapaz, machucado e arranhado, subiu de novo os degraus e viu Will de p
acima dele, segurando a faca; encarou-o com uma raiva alucinada, depois
virou-se e fugiu. -Ai! -fez Will, sentando-se. -Ai... Alguma coisa
estava muito errada e ele no tinha percebido. Deixou cair a faca e
apertou a mo esquerda contra o corpo. A corda estava encharcada de
sangue, e quando ele a tIrou... -Os seus dedos! -Lyra suspirou. -Ah,
Will... O dedo mnimo e o anular caram junto com acorda. Ele sentiu uma
vertigem. O sangue jorrava com fora dos tocos que restaram dos dedos, e
ele tinha o jeans e os sapatos encharcados. Teve que recostar-se e
fechar os olhos por um instante. A dor no era to grande, e uma parte
do seu crebro registrou esse fato com uma surpresa sem emoo: era mais
como um estrondo baixo e persistente, em vez daquela sensao breve e
aguda que a pessoa sente quando se corta superficialmente. Ele nunca se
sentira to fraco. Achou at que tinha adormecido por um momento. Lyra
estava fazendo alguma coisa no seu brao. Ele endireitou-se para olhar o
estrago, e sentiu nuseas. O velho estava ali por perto, mas Will no
conseguia ver o que estava fazendo, e enquanto isso Lyra falava com ele.
-Se ao menos agente tivesse um pouco de musgo-de-sangue... -ela dizia.
- o que os ursos usam. Eu ia poder #205 curar isso, Will, ia mesmo.
Escuta, vou amarrar este pedao de corda em volta do seu brao para
segurar o sangue, porque no posso amarrar em volta de onde eram os
dedos, no tem onde prender... Fique quieto... Ele deixou que ela
fizesse isso, e olhou em volta  procura dos dedos. Ali estavam,
curvados como aspas sanguinolentas, sobre o chumbo. Ele riu. -Ei, pode
parar -disse ela. -Agora levante-se. O Sr . Paradisi tem um remdio, uma
pomada, sei l o que . Voc tem que descer. Aquele outro foi embora,
ns vimos ele sair correndo pela porta. J sumiu. Voc derrotou ele.
Vamos, Will, vamos... Com autoridade e um pouco de bajulao ela
conseguiu que ele descesse a escada, e eles atravessaram os cacos de
vidro e farpas de madeira at um quarto exguo e fresco que dava para o
patamar da escada. As paredes eram cobertas de estantes com garrafas,
frascos, potes, piles e almofarizes, e balanas de farmcia. Sob a
janela suja havia um tanque de pedra onde o ancio estava derramando
alguma coisa com as mos trmulas, de uma garrafa maior para um frasco
pequeno. -Sente-se aqui e beba isto -disse ele, e encheu um copinho com
um lquido escuro. Will sentou-se e pegou o copo. O primeiro gole desceu
por sua garganta como fogo. Lyra pegou o copo para que ele no casse
enquanto Will engasgava. -Beba tudo -ordenou o homem. -Que  isso?
-Conhaque de ameixa. Beba. Will bebericou com mais cautela. Sua mo
agora doa de verdade. #206 -Consegue curar ele? -Lyra perguntou com
desespero na voz. -Ah, sim, temos remdio para tudo. Voc, menina, abra
aquela gaveta e me traga uma gaze. Will viu a faca sobre a mesa no
centro do aposento, mas antes que pudesse peg-la o ancio veio mancando
em sua direo com uma jarra com gua. -Beba mais -disse. Will agarrou o
copo com fora e fechou os olhos enquanto o homem fazia alguma coisa na
sua mo. A ardncia foi horrvel, mas em seguida ele sentiu a frico
spera de uma toalha em seu pulso e alguma coisa enxugando a ferida com
mais suavidade. Ento houve uma sensao fria por um instante, depois
comeou a doer de novo. -Esta  uma pomada preciosa -disse o ancio. -
Muito difcil de obter. Muito boa para ferimentos. Era uma bisnaga velha
e empoeirada de pomada anti-sptica comum, que Will poderia comprar em
qualquer farmcia do seu mundo. O ancio segurava-a como se fosse feita
de mirra. Will desviou os olhos. E enquanto o homem fazia um curativo,
Lyra sentiu Pantalaimon chamando-a silenciosamente para ir espiar pela
janela. Ele era um gavio empoleirado na moldura da janela aberta, e
tinha percebido um movimento l embaixo. Ela juntou-se a ele e viu uma
figura conhecida: a menina Anglica corria para seu irmo mais velho,
Tullio, que estava parado com as costas apoiadas no muro do outro lado
da passagem lateral, mexendo os braos no ar como se tentasse manter
longe do rosto uma nuvem de morcegos. Ele ento se virou e comeou a
passar as mos pelas pedras do muro, examinando cada uma delas com
ateno, contando-as, tateando pelas #207 beiradas, curvando-se como se
fugisse de alguma coisa s suas costas, sacudindo a cabea. Anglica
estava desesperada, assim como o pequeno Paolo atrs dela; ambos
chegaram at o irmo, agarraram-no pelos braos e tentaram pux-lo para
longe do que quer que o estivesse perturbando. Com um espasmo de nusea,
Lyra compreendeu o que estava acontecendo: o rapaz estava sendo atacado
pelos Espectros. Anglica sabia disso, embora natUralmente no
conseguisse v-los, e o pequeno Paolo chorava e golpeava o ar, tentando
afast-los; mas no adiantava, Tullio estava perdido. Seus movimentos
ficaram cada vez mais letrgicos, e finalmente cessaram de todo.
Anglica agarrou-se ao irmo mais velho, estremecendo e sacudindo o
brao dele, mas nada o despertava; e Paolo gritava o nome do irmo sem
cessar, como se isso fosse traz-lo de volta. Ento foi como se Anglica
sentisse que Lyra a observava, e olhou para cima. Por um instante seus
olhos se encontraram. Lyra teve um estremecimento, como se a garota a
tivesse golpeado de verdade, to intenso era o dio nos olhos dela, e
ento Paolo viu-a olhando e olhou para cima tambm, e gritou com sua voz
de menino: -Ns vamos te matar! Voc fez isso com Tullio. Ns vamos te
matar! As duas crianas viraram-se e saram correndo, deixando para trs
o irmo ferido, e Lyra, sentindo-se assustada e culpada, afastou-se da
janela e fechou-a. Os outros nada tinham ouvido. Giacomo Paradisi estava
colocando mais pomada nos ferimentos, e Lyra tentou tirar da cabea
aquilo que tinha presenciado e concentrar-se em Will. -Tem que amarrar
alguma coisa em volta do brao dele para segurar o sangue. Seno no vai
parar . #208 -, , eu sei -disse o velho, mas com tristeza. Will
manteve os olhos desviados enquanto eles faziam um curativo e bebeu o
conhaque de ameixa aos golinhos. Finalmente sentiu-se aliviado e
distante, embora a mo agora lhe doesse insuportavelmente. -Agora, aqui
est, pegue a faca, ela  sua -disse Giacomo Paradisi. -Eu no quero
-disse Will. -No quero ter nada a ver com ela. -Voc no tem escolha
-afirmou o ancio. -Agora  o portador . -Pensei que fosse o senhor
-intrometeu-se Lyra. -O meu tempo acabou. A faca sabe quando deixar uma
mo e procurar outra, e eu sei distinguir. No acredita em mim. Ele
ergueu a mo esquerda. O dedo mnimo e o anular estavam faltando,
exatamente como os de Will. -, eu tambm -disse. -Lutei e perdi os
mesmos dedos.  o emblema do portador. E tambm no sabia de antemo.
Lyra sentou-se, de olhos arregalados. Will apoiou-se na mesa empoeirada
com a mo boa. Esforava-se para encontrar as palavras. -Mas eu... S
viemos aqui porque... Um homem roubou uma coisa de Lyra e ele queria a
faca, e disse que se a gente levasse a faca para ele, ento ele ia...
-Conheo esse homem. Ele  mentiroso, um vigarista. No ia lhes dar
coisa alguma, no se enganem. Ele quer a faca, e quando a tiver vai
trair vocs. Ele nunca ser o portador. A faca  sua por direito. #209
Com pesada relutncia Will virou-se para a prpria faca e puxou-a em sua
direo. Era uma adaga de aparncia comum: lmina de dois gumes, de
metal fosco, com uns 20 centmetros de comprimento, um travesso curto
do mesmo metal e cabo de pau-rosa. Ao examin-la com mais ateno, o
garoto percebeu que na madeira do cabo estavam encastoados fios dourados
formando um desenho que ele no reconheceu at virar a faca e ver do
outro lado um anjo de asas dobradas; no lado oposto havia um anjo
diferente, com as asas abertas. Os fios ressaltavam um pouco da madeira,
permitindo uma pegada firme, e ao segurar a faca na mo Will sentiu que
ela era leve, forte e tinha um equilbrio perfeito, e que a lmina
afinal no era fosca -alis, parecia que sob a superfcie do metal havia
um redemoinho de cores nubladas: os roxos de um hematoma, os azuis do
mar, os marrons da terra, os cinzentos das nuvens e os verde-escuros que
se encontram sob uma rvore de copa densa, as sombras que se agrupam na
boca de uma sepultura quando a tarde cai sobre um cemitrio deserto. Se
existe algo como sombras coloridas, era o que refletia a lmina da faca
sutil. Mas os gumes eram diferentes -alis, os dois gumes eram
diferentes entre si. Um era de ao claro e brilhante, que logo se fundia
quelas sutis sombras coloridas, mas um ao de agudeza incomparvel;
Will no conseguiu manter o olhar nele, to afiado ele parecia. O outro
gume era igualmente afiado, mas de cor prateada, e Lyra, que olhava por
cima do ombro de Will, exclamou: -J vi esta cor!  a mesma da lmina
que iam usar para me separar do Pan, a mesma! -Este gume corta qualquer
material no mundo -disse Giacomo Paradisi, tocando o ao com o cabo de
uma colher. -Vejam. #210 o ancio apertou a colher de prata contra a
lmina. Will, que segurava a faca, sentiu uma resistncia mnima
enquanto a ponta do cabo era cortada e caa sobre a mesa. Ele continuou:
-O outro gume  ainda mais sutil. Com ele voc consegue cortar uma
abertura para fora deste mundo. Experimente agora. Faa o que eu digo;
voc  o portador. Tem que saber. S eu posso lhe ensinar, e no tenho
muito tempo. Fique de p e escute. Will empurrou a cadeira para trs e
ficou de p, segurando a faca com dedos frouxos. Sentia-se tonto,
enjoado, revoltado. -Eu no quero... -comeou a dizer. Mas Giacomo
Paradisi sacudiu a cabea. -Silncio! -ordenou. -Ento no quer? Voc
no tem escolha! Escute o que eu digo, pois o tempo  curto. Agora
segure a faca na sua frente, assim. No  s a faca que tem que cortar,
 a sua mente tambm. Voc tem que pensar nisso. Portanto, faa o
seguinte: coloque sua mente na pontinha da faca. Concentre-se, garoto.
Enfoque a sua mente. No pense nesse ferimento; ele vai sarar. Pense na
ponta da faca.  onde voc est. Agora movimente-a devagar. Voc est
procurando uma fresta to pequena que nunca poderia enxerg-la com os
olhos, mas aponta da faca vai conseguir encontr-la, se voc colocar a
sua mente ali. V movimentando pelo ar at sentir uma minscula fenda no
mundo... Will tentou -mas sua cabea zunia, sua mo esquerda latejava
horrivelmente e ele tornou a ver seus dois dedos cados no telhado, e
ento pensou na me, coitada... O que ela iria dizer? Como ela iria
consol-lo? E como ele poderia consol-la? O menino colocou a faca sobre
a mesa e agachou-se, abraando a mo ferida; e ps-se a chorar. Tudo
aquilo era demais para ele. Os soluos arranhavam-lhe a garganta e o
peito, e as #211 lgrimas o cegavam, e ele deveria estar chorando por
ela, a pobre querida, assustada e infeliz, ele a tinha abandonado,
abandonado... Estava desconsolado. Mas ento sentiu a coisa mais
estranha, e enxugou os olhos com as costas da mo direita para ver a
cabea de Pantalaimon em seu joelho. O daemon, em forma de lobo, erguia
para ele os olhos cheios de tristeza e ternura, e ento ps-se a lamber
suavemente a mo ferida de Will, vrias vezes; depois tornou a descansar
a cabea no joelho do garoto. Will no tinha idia do tabu que no mundo
de Lyra impedia que uma pessoa tocasse no daemon de outra; se ele ainda
no tinha tocado em Pantalaimon, isso tinha sido por educao, no por
conhecimento da proibio. Lyra estava atnita. Seu daemon fizera isso
por iniciativa prpria, e agora recuava, voejava at o ombro dela como a
menor das vespas. O ancio observava com interesse, mas no com
incredulidade. J devia ter visto daemons; certamente viajara para
outros mundos. O gesto de Pantalaimon funcionou: Will suspirou fundo e
tornou a ficar de p enxugando as lgrimas dos olhos. -Est bem, vou
tentar outra vez -declarou. -O que  que eu tenho que fazer? Dessa vez
ele forou a mente a fazer o que Giacomo Paradisi dizia, rilhando os
dentes, tremendo com o esforo, suando. Lyra estava doida para
interromper, pois conhecia esse processo -assim como a Dra. Malone, e
como o poeta Keats, fosse ele quem fosse, todos eles sabiam que no
adiantava forar. Mas ficou calada, apertando as mos. -Pare- disse o
ancio com suavidade. -Relaxe. No force.  uma faca mgica, no uma
espada pesada. Voc est segurando a faca com muita fora. Afrouxe os
dedos. Deixe a mente descer pelo seu brao at a mo, depois para o cabo
da #212 faca, e depois seguir pela lmina, sem pressa, no force.
Devagar .Ento v at a pontinha, onde o gume  mais afiado. Voc se
torna a ponta da faca. Faa ISSO agora. V at l, sInta isso e ento
volte. Will tentou outra vez. Lyra via a Intensidade do corpo dele, a
mandbula contrada, e ento viu que uma autoridade descia sobre ele,
acalmando, relaxando e esclarecendo. A autoridade era do prpro Will-
ou do seu daemon, talvez. Como ele devia sentir falta de um daemon!
Tanta solido... No era de espantar que ele tivesse chorado; e
Pantalaimon estava certo em fazer o que fez, embora ela tivesse tido uma
sensao muito estranha. Estendeu os braos para seu amado daemon, e, em
forma de arminho, ele deslizou para o colo dela. Juntos observaram Will,
que tinha parado de tremer. Continuava concentrado, no menos
intensamente, porm de maneira diferente, e a faca tambm parecia
diferente. Talvez fossem aquelas cores nubladas ao longo da lmina,
talvez fosse o modo como ela assentava to naturalmente na mo de Will;
o fato  que o pequeno movimento que ele agora fazia com a ponta da faca
parecia cheio de propsito, e no mais casual. Ele tateou para um lado,
depois girou a faca e tateou para o outro, sempre usando o gume
prateado; e ento pareceu ter encontrado uma fenda no ar vazio. -O que 
isto?  a abertura? -perguntou com voz rouca. -, sim. No force. Volte
agora, volte para si mesmo. Lyra imaginou que via a alma de Will fluindo
de volta ao longo da lmina at a mo dele, e dali pelo brao at o
corao. Ele deu um passo para trs, baixou a mo, pestanejou. -Eu senti
uma coisa ali -disse a Giacomo Paradisi. -No princpio a faca estava s
passando pelo ar, e de repente eu senti... #213 -Muito bem. Agora faa
de novo. Desta vez, quando sentir a fenda, deslize a faca para dentro
dela e para o lado. Faa um corte. No hesite. No fique surpreso. No
deixe a faca cair. Will teve que agachar-se e respirar fundo duas ou
trs vezes e colocar a mo esquerda sob o brao direito antes de poder
continuar .Mas estava decidido; depois de alguns segundos tornou a
levantar-se, a faca apontada para a frente. Dessa vez foi mais fcil-
tendo experimentado uma vez, ele sabia o que devia procurar, e em menos
de um minuto tornou a sentir a curiosa fenda. Era como procurar
delicadamente o espao entre dois pontos cirrgicos com a ponta do
bisturi. Ele tocou, afastou aponta da faca e tornou a tocar para ter
certeza, e ento fez o que o ancio lhe ensinara e cortou para o lado
com o gume prateado. Ainda bem que Giacomo Paradisi tinha avisado para
ele no ficar surpreso. Will manteve a faca cuidadosamente segura na mo
e pousou-a sobre a mesa, antes de ceder  surpresa. Lyra j estava de
p, sem fala, pois no meio do quartinho empoeirado havia uma janela
exatamente como aquela sob os carpinos: um buraco no ar atravs do qual
eles podiam enxergar outro mundo. E como estavam no alto da torre,
estavam bem acima da parte norte de Oxford. Alis, acima de um
cemitrio, virado na direo da cidade. Pouco  frente deles l estavam
os carpinos; havia casas, rvores, estradas e,  distncia, as torres e
obeliscos da cidade. Se j no tivessem visto a primeira janela, teriam
pensado que se tratava de algum tipo de truque. Mas no era apenas
tico; por ali entrava ar e eles sentiam o cheiro dos veculos coisa que
no existia no mundo de Cittgazze. Pantalaimon #214 virou uma andorinha
e voou para o outro lado, adorando o ar livre, depois abocanhou um
inseto antes de voar de volta para o ombro de Lyra. Giacomo Paradisi
observava com um sorriso curioso e triste. Ento disse: -J aprendeu a
abrir. Agora precisa aprender a fechar. Lyra recuou para dar espao a
Will, e o ancio veio postar-se ao lado dele. -Para isso, vai precisar
dos dedos -explicou. -Basta uma das mos. Procure a borda como fez com a
faca antes de abrir. S vai conseguir encontrar se colocar a alma na
ponta dos dedos. Tateie com muita delicadeza, at encontrar as bordas.
Ento aperte uma contra a outra. S isso. Experimente. Mas Will tremia.
No conseguia levar a mente de volta ao delicado equilbrio que ele
sabia ser necessrio, e foi ficando cada vez mais frustrado. Lyra via o
que estava acontecendo. Levantou-se, pegou-o pelo brao direito e disse:
-Escute, Will, sente-se e vou lhe contar como se faz. Sente-se s um
minuto, porque sua mo est doendo e est distraindo a sua mente. 
natural. Vai melhorar daqui apouco. O ancio ergueu ambas as mos, ento
mudou de idia, deu de ombros e tornou a sentar-se. Will sentou-se
tambm e olhou para Lyra. -O que  que estou fazendo de errado?
-perguntou. Ele estava sujo de sangue, tremendo, com o olhar desvairado.
Estava uma pilha de nervos: tinha a mandbula contrada, ofegava e batia
o p no cho. - o seu ferimento -ela disse. -Voc no est errado. Est
fazendo tudo certo, mas a sua mo no deixa voc #215 se concentrar. No
conheo um jeito fcil de resolver isso, mas quem sabe, se voc no
tentasse reprimir... -Como assim? -Voc est tentando fazer duas coisas
com a mente, as duas ao mesmo tempo. Est tentando ignorar a dor e
fechar essa janela. Eu me lembro que uma vez estava lendo o aletmetro
quando estava com medo, e pode ser que eu j estivesse acostumada com
ele, no sei, mas ainda estava assustada o tempo todo enquanto lia ele.
Simplesmente relaxe os seus pensamentos e diga sim, est doendo, eu sei.
No tente abafar a dor. Ele fechou os olhos por um instante. Sua
respirao ficou um pouco mais lenta. -Est bem, vou tentar -ele disse.
E dessa vez foi muito mais fcil. Ele tateou  procura da borda,
encontrou-a num minuto e fez o que Giacomo Paradisi tinha ensinado:
apertou as bordas uma contra a outra. Era a coisa mais fcil do mundo.
Sentiu um entusiasmo breve e calmo, e a janela sumiu. O outro mundo
estava fechado. O ancio entregou-lhe uma bainha de couro com um
contraforte de chifre slido, com fivelas para manter a faca no lugar,
pois o menor movimento da lmina cortaria o couro mais grosso. Will
deslizou a faca para dentro da bainha e afivelou-a como podia, usando
desajeitadamente uma s mo. -Esta devia ser uma ocasio solene
-declarou Giacomo Paradisi. -Se ns dispusssemos de dias e semanas eu
poderia comear a contar-lhes a histria da faca sutil e da Liga da
Torre degli Angeli, e toda a triste histria deste mundo corrompido e
descuidado. Os Espectros so culpa nossa, s nossa. Eles vieram porque
os meus predecessores, alquimistas, filsofos, homens eruditos, estavam
pesquisando a natureza #216 mais profunda das coisas. Ficaram curiosos
sobre o aglutinante que mantinha unidas as mais nfimas partculas de
matria. Sabe o que eu quero dizer com aglutinante?  o mesmo que cola,
grude. Bem, esta era uma cidade comercial, uma cidade de mercadores e
banqueiros. Ns pensvamos que sabamos tudo sobre todas as coisas...
Mas sobre esse aglutinante ns estvamos enganados. Ns o desmanchamos e
deixamos os Espectros entrarem. -De onde vm os Espectros? -Will quis
saber. -Por que deixaram uma janela aberta debaixo daquelas rvores, a
janela por onde eu entrei? Existem outras janelas no mundo? -De onde os
Espectros vm  um mistrio. De outro mundo, da escurido do espao,
quem sabe? O que importa  que esto aqui, e nos destruram. Se existem
outras janelas para este mundo? Sim, umas poucas, porque de vez em
quando um portador da faca pode se descuidar ou esquecer, ou ento ficar
sem tempo para parar e fechar como deveria. E quanto  janela que voc
atravessou, sob os carpinos... Eu mesmo deixei aquela janela aberta, num
momento de tolice imperdovel. O homem que vocs mencionaram, pensei que
ele cairia na tentao de atravessar para c, onde seria vtima dos
Espectros. Mas acho que ele  inteligente demais para cair num truque
desses. Ele quer a faca. Por favor, nunca deixe que ele a tenha. Will e
Lyra se entreolharam. -Bem, tudo que posso fazer  entregar-lhe a faca e
ensinar-lhe como us-la -terminou o ancio, abrindo os braos. -Isso eu
j fiz; devo tambm contar-lhe quais costumavam ser as regras da Liga
antes que ela entrasse em decadncia. Primeira: nunca abrir sem fechar.
Segunda: nunca deixar outra pessoa usar a faca. Ela  s sua. Terceira:
nunca usar com propsito vil. Quarta: guardar segredo. Se existem #217
outras regras, eu as esqueci, e se as esqueci foi porque elas no eram
importantes. Voc tem a faca. Voc  o portador. No devia ser uma
criana. Mas o nossO mundo est se esfacelando, e a marca do portador 
inconfundvel. Nem sei o seu nome. Agora saiam. Vou morrer logo, pois
sei onde esto guardadas as drogas venenosas e no pretendo esperar a
chegada dos Espectros quando a faca tiver ido embora. -Mas, Sr.
Paradisi... -Lyra comeou. Mas ele sacudiu a cabea e continuou: -No h
tempo. Vocs vieram aqui com um propsito, e talvez no saibam qual 
esse propsito, mas os anjos que os trOuxeram at aqui sabem. Vo. Voc
 corajoso e a sua amiga  inteligente. E voc tem a faca. Saiam. -Ento
vai mesmo se envenenar? -Lyra quis saber, inconformada. -Vamos, Lyra
-Will chamou. -E que histria  essa de anjos? -ela insistiu. Will
puxou-a pelo brao. -Vamos embora -tornou a chamar. -Temos que ir.
Obrigado, Sr. Paradisi. Ele estendeu a mo direita, suja de sangue e
poeira, e o velho apertou-a delicadamente. Apertou a mo de Lyra tambm
e fez um aceno para Pantalaimon, que como resposta baixou a cabea de
arminho. Segurando a faca em sua bainha de couro, Will desceu na frente
pelos degraus largos e escuros que levavam ao trreo, e saiu da torre. A
luz do sol era quente na pracinha, e o silncio era profundo. Lyra olhou
em volta com imensa cautela, mas a rua estava deserta. E era melhor no
preocupar Will contando-lhe o que tinha visto; j havia problemas em
nmero suficiente. Ela o levou para longe da rua onde tinha visto as
#218 crianas e onde Tullio ainda estava parado, imvel, como se
estivesse morto. -Eu queria... -disse ela, quando estavam quase saindo
da praa e pararam para olhar para trs. - horrvel pensar em... E os
dentes dele, coitadinho, todos quebrados, e ele mal podia enxergar...
Vai simplesmente engolir veneno e morrer agora, e eu querIa... Ela
estava  beira das lgrimas. -Psiu -fez Will. -Ele no vai sentir dor.
Vai simplesmente adormecer.  melhor do que os Espectros, foi o que ele
disse. -Ah, o que  que ns vamos fazer, Will? O que  que ns vamos
fazer? Voc to machucado, e aquele pobre velhinho... Odeio este lugar,
odeio mesmo, tenho vontade de botar fogo em tudo. O que  que ns vamos
fazer agora? -Bom, isso  fcil -ele respondeu. -Temos que pegar o
aletmetro de volta, ento vamos ter que roubar ele.  isso que vamos
fazer. #219 9 O ROUBO Primeiro voltaram ao caf para descansar,
recuperar as foras e mudar de roupa. Era bvio que Will no poderia
sair por ali coberto de sangue, e o tempo em que ele se sentia
constrangido em pegar coisas nas lojas j tinha ficado para trs; de
modo que ele reuniu um conjunto completo de roupas e sapatos, e Lyra,
que exigira ajudar e vigiava em todas as direes a chegada das outras
crianas, carregou tudo de volta para o caf. Lyra ferveu gua, que
Willlevou consigo para o banheiro, onde despiu-se para lavar-se da
cabea aos ps. A dor era surda e ininterrupta, mas pelo menos os cortes
estavam limpos; tendo visto o que aquela faca podia fazer, ele sabia que
nenhum corte poderia ser mais limpo; mas os tocos dos dedos sangravam
abundantemente. Quando olhava para eles, Will sentia nusea e seu
corao disparava, o que, por sua vez, aumentava o sangramento. Ele se
sentou na borda da banheira, fechou os olhos e respirou profundamente
algumas vezes. Finalmente sentiu-se mais calmo e comeou o banho. Fez o
melhor que pde, enxugou-se nas toalhas cada vez mais sujas #220 de
sangue e depois vestiu as roupas novas, tentando no ensanguent-las
tambm. -Voc vai ter que refazer o meu curativo -ele pediu a Lyra.
-Pode apertar quanto quiser, contanto que pare o sangue. Ela rasgou um
lenol e envolveu a mo ferida, o mais apertado que pde. Ele trincou os
dentes, mas no conseguiu evitar as lgrimas. Enxugou-as sem uma
palavra, e ela nada disse. Quando ela terminou, Will agradeceu, e
continuou: -Escuta, quero que voc leve uma coisa para mim na sua
mochila, pois pode ser que a gente no consiga voltar para c. So s
umas cartas. Pode ler, se quiser. Ele pegou o escrnio de couro verde e
entregou-lhe as folhas de papel de carta. -No vou ler, no, a no ser
que... -No me importo. Seno no tinha falado nada. Ela dobrou as
cartas e ele estendeu-se na cama, empurrou a gata para o lado e
adormeceu. Muito mais tarde, na mesma noite, Will e Lyra estavam
agachados na alameda que corria ao longo do pequeno bosque de arbustos
no jardim de Sir Charles. No mundo de Cittgazze, estavam no gramado de
um parque que rodeava uma manso em estilo clssico, o vulto branco
brilhando ao luar. Tinham levado muito tempo para chegar at a casa de
Sir Charles, avanando a maior parte do tempo em Cittgazze, com
frequentes paradas para cortar uma janela e verificar sua posio no
mundo de Will; assim que se certificavam de onde estavam, Will fechava
cada janela. No exatamente junto com les, mas no muito atrs, vinha a
gata. Ela dormira desde que a tinham salvo das pedras lanadas pelas
crianas e, agora que estava novamente acordada, #221 relutava em
separar-se deles, como se pensasse que estaria segura onde quer que eles
estivessem. Will no tinha tanta certeza disso, mas j tinha problemas
suficientes sem a gata, portanto resolveu ignor-la. Ele ficava cada vez
mais familiarizado com a faca, mais seguro ao comand-la; mas o
ferimento doa mais do que antes, com um latejar profundo e incessante,
e o curativo novo que Lyra fizera j estava encharcado. Ele cortOU uma
janela no ar no muito longe da casa em estilo clssico e atravessaram
para a alameda silenciosa em Headington para planejar exatamente como
chegariam ao escritrio onde Sir Charles tinha guardado o aletmetro.
Havia dois holofotes iluminando o jardim, e todas as janelas da fachada
da casa estavam acesas, menOS a do escritrio. Naquele lado s o luar
clareava, e a janela do escritrio estava completamente s escuras. A
alameda seguia por entre rvores at desembocar em outra rua, e no era
iluminada. Seria fcil para um ladro comum entrar sem ser visto no
bosque de arbustos e dali para o jardim, se no fosse pela pesada cerca
de ferro, com duas vezes a altura de Will e com pontas aguadas, que
cercava todo o permetro da propriedade de Sir Charles. Mas isso no era
impedimento para a faca mgica. -Segure esta barra para eu cortar -Will
cochichou. -No deixe cair no cho. Lyra fez o que ele mandava, e ele
cortoU quatro barras, o suficiente para que passassem sem dificuldade.
Lyra enfileirou-as sobre o gramado, e os dois passaram, avanando por
entre os arbustos. U ma vez tendo uma boa viso da lateral da casa, com
a janela do escritrio, sombreada pela hera, de frente para eles do
outrO lado do gramado liso, Will disse baixinho: #222 -Vou abrir aqui um
buraco para Ci'gazze e deixar ele aberto, e avanar em Ci'gazze at onde
sei que fica o escritrio, e a abro outro buraco de volta para este
mundo. Ento pego o aletmetro naquela estante, torno a passar pelo
buraco, fecho ele e venho por Ci'gazze at este buraco. Voc fica me
esperando aqui neste mundo e vigiando. Assim que me ouvir chamar, passe
para Ci'gazze por este buraco, e eu torno a fechar ele. Entendeu?
-Entendi -ela cochichou. -Eu e Pan vamos vigiar. Seu daemon era uma
pequena coruja castanha, quase invisvel  luz mosqueada de sombras sob
as rvores. Seus olhos grandes e claros observavam cada movimento. Will
recuou um passo e estendeu a faca, procurando, tocando o ar com
movimentos muito delicados, at que, depois de cerca de um minuto,
encontrou um ponto onde poderia cortar .Fez isso depressa, abrindo uma
janela para dentro do parque enluarado de Ci'gazze, e ento calculou
quantos passos precisaria dar para chegar ao escritrio, memorizando a
direo. Ento, sem uma palavra, ele atravessou e desapareceu. Lyra
agachou-se ali perto. Pantalaimon estava empoleirado num galho acima da
cabea dela, virando-se de um lado para outro, em silncio. Ela ouvia o
trnsito de Headington atrs de si, e os passos abafados de algum que
descia a rua no final do beco, e at mesmo o movimento leve dos insetos
por entre as folhas a seus ps. Passou-se um minuto, e mais outro. Onde
estaria Will agora? Ela se esforou para enxergar pela janela do
escritrio, mas esta era apenas um quadrado escuro semi-encoberto pela
hera. Ainda nessa mesma manh Sir Charles tinha se sentado l dentro,
junto  janela, cruzara as pernas e ajeitara o vinco #223 das calas.
Onde ficava a estante em relao  janela? Will conseguiria entrar sem
chamar a ateno de algum dentro da casa? Lyra ouvia as batidas do
prprio corao. Ento Pantalaimon fez um rudo baixo, e no mesmo
momento veio um som diferente da frente da casa,  esquerda de Lyra. Ela
no conseguia enxergar a fachada, mas via uma luz varrendo as rvores e
ouviu o som de pneus no cascalho. No tinha ouvido o menor barulho de
motor de automvel. Procurou Pantalaimon, que j estava deslizando
silenciosamente pelo ar, o mais distante que conseguia ficar. Ele se
virou na escurido e foi pousar no pulso dela. -Sir Charles est
voltando -sussurrou. -E est com algum. Ele tornou a sair voando e
dessa vez Lyra foi atrs, p ante p pela terra fofa com o maior
cuidado, agachando-se atrs das moitas, finalmente pondo-se de quatro
para espiar por entre as folhas de um loureiro. O Rolls Royce estava
parado em frente  casa e o motorista rodeava o veculo para abrir a
porta do passageiro. Sir Charles esperava sorrindo e oferecendo o brao
 mulher que saltava do carro; quando ela surgiu  vista de Lyra, esta
sentiu um golpe no corao, pois a visitante de Sir Charles era sua me,
a Sra. Coulter. Will atravessou com cautela o gramado iluminado pela lua
em Cittgazze, contando os passos, mantendo na mente, com toda a clareza
que conseguia, a lembrana de onde ficava o escritrio, e tentando
localiz-lo em relao  casa em estilo clssico que se erguia ali perto
no mundo de Ci'gazze, caiada de branco e com colunas, no centro de um
jardim formal com esttuas e um chafariz. Ele tinha conscincia de como
estava exposto naquele jardim enluarado. #224 Quando achou que estava no
lugar correto, estacou e tornou a estender a faca, tateando
cuidadosamente  frente. Havia daquelas pequenas fendas invisveis em
vrios lugares, mas no em todos, caso contrrio qualquer golpe com a
faca abriria uma janela. A princpio ele abriu um orifcio pequeno, no
maior que a sua mo, e espiou por ele. Do outro lado, apenas a
escurido. Ele no conseguia enxergar onde estava. Fechou esse buraco,
fez uma volta de 90 graus e abriu outro. Dessa vez encontrou pano  sua
frente, um pesado veludo verde: as cortinas do escritrio. Mas onde elas
ficavam em relao  estante? Ele teria que fechar esse buraco tambm,
girar para o outro lado e tentar de novo. E o tempo estava passando. A
terceira vez foi melhor: ele conseguiu enxergar o escritrio inteiro 
luz fraca que entrava pela porta aberta para o vestbulo. L estavam a
escrivaninha, o sof, a estante! Ele conseguia vislumbrar um leve brilho
ao longo da lateral de um microscpio de cobre. E no havia ningum ali,
a casa estava em silncio. No podia ser melhor. Calculou cuidadosamente
a distncia, fechou a janela, deu quatro passos para a frente e tornou a
erguer a faca. Se estivesse correto, estaria exatamente no local
apropriado para estender a mo pelo buraco, cortar o vidro da estante,
pegar o aletmetro e fechar a janela atrs de si. Cortou uma janela na
altura certa: o vidro da porta da estante ficava logo  frente. Chegou o
rosto bem perto, estudando atentamente as prateleiras, da primeira 
ltima. O aletmetro no estava l. A princpio Will achou que tinha
escolhido a estante errada. Havia quatro delas no escritrio, ele tinha
contado de manh e decorado onde ficavam, estantes altas e quadradas,
#225 de madeira escura, com frente e laterais de vidro e prateleiras
forradas de veludo, feitas para exibir preciosos objetos de porcelana,
marfim ou ouro. Ele podia simplesmente ter aberto uma janela na frente
da estante errada? Mas na prateleira superior estava o instrumento
pesado, com anis de cobre; ele fizera questo de observ-lo. E na
prateleira do meio, onde Sir Charles tinha colocado o aletmetro, havia
um espao. Era a estante certa, e o aletmetro no estava l. Will
recuou por um momento e respirou fundo. Teria que atravessar totalmente
e procurar em volta; abrir janelas ao acaso iria levar a noite toda. Ele
fechou a janela na frente da estante, abriu outra para olhar para o
resto do aposento e, depois de um estudo cuidadoso, fechou essa outra e
abriu uma maior atrs do sof, por onde poderia facilmente fugir s
pressas se fosse necessrio. A essa altura sua mo latejava brutalmente,
e do curativo frouxo pendia uma tira de pano. Ele a enrolou o melhor que
conseguiu e enfiou aponta para dentro, depois atravessou para a casa de
Sir Charles e agachou-se atrs do sof de couro, a faca na mo direita,
e ficou  escuta. No ouvindo qualquer rudo, levantou-se devagar e
olhou em volta. A porta para o vestbulo estava entreaberta, e a luz que
entrava permitia-lhe enxergar bem. As estantes envidraadas, as
prateleiras, os livros, os quadros, tudo estava como naquela manh,
intocado. Pisando no tapete, ele esquadrinhou cada uma das estantes. O
aletmetro no estava ali. Nem estava na escrivaninha, no meio dos
livros e papis organizados em pilhas, nem sobre a lareira entre os
cartes convidando para estrias e recepes, nem no assento acolchoado
junto  janela, nem na mesa octogonal atrs da porta. #226 Ele voltou 
escrivaninha, pretendendo experimentar as gavetas, j com uma incmoda
expectativa de fracasso; e nesse momento escutou um rudo leve de pneus
no cascalho, to baixo que ele achou que tinha imaginado; mas mesmo
assim ficou imvel, esforando-se para ouvir. O rudo cessou. Ento ele
ouviu a porta se abrir . Voltou correndo para trs do sof, onde
agachou-se ao lado da janela que ele tinha aberto para o gramado
enluarado em Cittgazze. E mal tinha chegado ali quando ouviu passos
naquele outro mundo, passos leves correndo pelo gramado, e olhou atravs
da janela para ver Lyra vindo apressada em sua direo. S teve tempo de
acenar e pedir silncio com um dedo nos lbios; ela diminuiu a
velocidade, percebendo que ele j sabia que Sir Charles tinha voltado.
-No consegui -ele sussurrou quando ela se aproximou. -No estava l.
Provavelmente est com ele. Vou escutar e ver se ele coloca de volta no
lugar. Fique aqui. -No!  pior ainda! -ela exclamou, quase em pnico.
-Ela est com ele, a Sra. Coulter, a minha me, no sei como ela chegou
aqui, mas se me encontrar eu estou morta, Will, estou perdid. E agora
me lembrei quem  ele! J sei onde foi que eu o vi antes! Will, o nome
dele  Lorde Boreal! Eu conheci ele no coquetel da Sra. Coulter, quando
eu fugi! E ele devia saber quem eu era o tempo todo... -Psiu. No fique
aqui, se vai fazer barulho. Ela se controlou, engolindo em seco e
sacudindo a cabea. -Desculpe. Quero ficar com voc -cochichou. - Quero
ouvir o que eles vo dizer. -Agora fique quieta... Ele escutava vozes no
vestbulo. Os dois estavam ao alcance de um toque de mo, ele no mundo
dele, ela em #227 Cittgazze, e ao ver o curativo frouxo de Will, Lyra
bateu de leve no brao dele e com gestos mandou que ele o atasse de
novo. Ele estendeu o brao para que ela fizesse isso, agachado, com a
cabea de lado, escutando com ateno. Uma luz se acendeu no escritrio.
Ele ouviu Sir Charles falando com o criado, dispensando-o, entrando no
escritrio, fechando a porta. -Posso lhe oferecer uma taa de Tokay?
-ele perguntOU. U ma voz feminina, baixa e doce, respondeu: -Quanta
gentileza, Carlo. H muitos anos no provo Tokay. -Sente-se ali perto da
lareira. Ouviu-se o gorgolejar do vinho sendo servido, depois o tilintar
do frasco na borda da taa, um murmrio de agradecimento, e ento Sir
Charles foi sentar-se no sof, a centmetros de distncia de Will. -A
sua sade, Marisa -disse ele, bebendo um gole. -Agora, diga-me o que
deseja. -Quero saber onde voc conseguiu o aletmetro. -Por qu? -Porque
ele estava com Lyra, e eu quero encontr-la. -No imagino por que
motivo.  uma pirralha repelente. -Tenho que lhe lembrar que ela  minha
filha. -Ento  ainda mais repelente, porque deve ter resistido de
propsito  sua encantadora influncia. Ningum conseguiria fazer isso
sem querer. -Onde est ela? -Vou lhe contar, prometo. Mas primeiro voc
tem que me contar uma coisa. .. #228 -Se eu puder... -disse ela, em tom
diferente, que Will imaginou ser de advertncia. -O que  que voc quer
saber? A voz dela era embriagadora: calmante, doce, musical, e jovem,
tambm. Ele tinha uma vontade enorme de saber como ela era, porque Lyra
nunca tinha falado dela, e o rosto que acompanhava aquela voz devia ser
maravilhoso. -O que  que Asriel est pretendendo? Houve ento um
silncio, como se a mulher estivesse calculando o que iria dizer. Will
tornou a olhar para Lyra atravs da janela, e viu o rosto dela,
iluminado pelo luar, olhos arregalados de medo, mordendo os lbios para
ficar quieta e esforando-se para ouvir, como ele. Finalmente a Sra.
COulter disse: -Muito bem, vou lhe contar. Lorde Asriel est reunindo um
exrcito com o propsito de completar a guerra que houve no cu h
muitas eras. -Que coisa mais medieval. No entanto, parece que ele tem
alguns poderes bem modernos. O que foi que ele fez com o plo magntico?
-Ele descobriu um modo de explodir a barreira entre o nosso mundo e os
outros. Isso provocou srios distrbios no campo magntico da Terra, e
deve ter afetado este mundo aqui tambm... Mas como  que sabe disso?
Carlo, acho que voc devia responder a algumas perguntas minhas. Que
mundo  este? E como foi que me trouxe aqui? - um entre milhes.
Existem aberturas entre eles, mas no so fceis de achar. Conheo uma
dzia delas, mas os lugares para onde elas se abrem mudaram, deve ter
sido por causa do que Asriel fez. Parece que agora podemos passar
diretamente deste mundo para o nosso, e provavelmente para muitos Outros
tambm. Antes, havia um nico mundo que #229 servia como uma espcie de
encruzilhada, e todas as portas se abriam para l. De modo que voc pode
imaginar a minha surpresa quando a vi, quando atravessei hoje, e o meu
prazer em poder traz-la diretamente para c, sem correr o risco de
passar por Cittgazze. -Cittgazze? Que  isso? -A encruzilhada. Um
mundo em que tenho interesse, minha cara Marisa. Mas um mundo perigoso
demais para visitarmos no momento. -Perigoso por qu? -Perigoso para os
adultos. As crianas podem ir livremente. -Como assim? Preciso saber
disso, Carlo -disse a mulher, e Will sentia a sua apaixonada
impacincia. -Isto est no centro de tudo, essa diferena entre crianas
e adultos!  onde est guardado todo o mistrio do P!  por isso que
preciso encontrar aquela criana. E as bruxas lhe deram um nome. Quase
fiquei sabendo qual era, quase, de uma bruxa mesmo, mas ela morreu
depressa demais. Preciso encontrar a menina. Ela tem a resposta, seja
como for, e eu preciso dela... -E ter. Este instrumento vai traz-la
at aqui, no se preocupe. Uma vez que ela tenha me dado o que eu quero,
voc pode ficar com ela. Mas me fale dessa sua curiosa escolta, Marisa.
Nunca vi soldados como aqueles. Quem so? -So homens, simplesmente.
Mas... sofreram a interciso. No tm daemons, portanto no tm medo,
nem imaginao, nem vontade prpria, e lutaro at morrer. -No tm
daemons... Ora,  muito interessante. Fico imaginando se eu no poderia
sugerir uma pequena experincia, se voc puder dispor de um deles.
Gostaria de ver se os #230 Espectros esto interessados neles. Se no
estiverem, pode ser que possamos ir a Cittgazze afinal... -Os
Espectros? Quem so eles? -Mais tarde explico, minha cara. So o motivo
por que os adultos no podem entrar naquele mundo. P, crianas,
Espectros, daemons, interciso... , podia funcionar. Tome mais um pouco
de vinho. -Quero saber de tudo -ela declarou, enquanto o vinho era
servido. -Vou lhe cobrar isso. Agora diga-me: o que  que voc est
fazendo neste mundo? Era para c que voc vinha quando pensvamos que
estava no Brasil ou nas ndias? -Descobri o caminho para c h muito
tempo. Era um segredo bom demais para ser revelado, at mesmo para voc,
Marisa. Montei uma vida bastante confortvel, aqui, como voc pode ver.
Como em casa eu pertencia ao Conselho de Estado, tive facilidade em
avaliar onde estava o poder aqui. Na verdade tornei-me espio, embora
nunca tenha contado aos meus chefes tudo que sabia. Durante anos os
servios de espionagem neste mundo se preocuparam com a Unio Sovitica,
que ns chamamos de Moscvia. E, embora essa ameaa tenha diminudo,
ainda existem postos de escuta e instrumentos apontados naquela direo,
e ainda estou em contato com aqueles que chefiam os espies. Ele
continuou, depois de uma pausa: -E eu soube recentemente de um srio
distrbio no campo magntico da Terra. Todos os servios de segurana
esto alarmados. Todos os pases que pesquisam fsica fundamental, o que
ns chamamos de teologia experimental, esto colocando seus cientistas
em misso urgente a fim de descobrir o que est acontecendo. Porque eles
sabem que alguma coisa est acontecendo. E suspeitam que tenha algo a
ver com outros #231 mundos. Alis, eles j tm algumas pistas disso. H
uma pesquisa sobre o P em andamento. Ah, sim, eles aqui tambm sabem
sobre isso. Aqui mesmo nesta cidade h uma equipe trabalhando nisso. E
outra coisa: um homem desapareceu h 10 ou 12 anos, no norte, e os
servios de segurana acham que ele estava de posse de certa informao
de que eles precisavam demais, ou seja, a localizao de uma porta entre
os mundos, como essa que voc atravessou hoje. A porta que ele encontrou
 a nica que eles conhecem: voc pode imaginar que no lhes contei o
que sei. Quando comeou esse novo distrbio, eles saram em busca desse
homem. Ele arrematou: -Naturalmente, Marisa, estou curioso. E ansioso
para aumentar os meus conhecimentos. Will estava paralisado, o corao
batendo com tanta fora que ele temia que os adultos escutassem. Sir
Charles estava falando do seu pai! Ento era isso que aqueles homens
eram, e o que estavam procurando! Mas durante todo o tempo ele tinha
conscincia de mais alguma coisa no aposento alm das vozes de Sir
Charles e da mulher: havia uma sombra movendo-se pelo cho, ou pela
parte do cho que o menino conseguia enxergar alm da ponta do sof e
atrs das pernas da mesinha octogonal. Mas nem Sir Charles nem a mulher
se moviam. A sombra movimentava-se em passos rpidos e curtos, e
perturbava muito Will. A nica luz na sala era a de um abajur ao lado da
lareira, de modo que a sombra era ntida e definida, mas nunca se
imobilizava pelo tempo suficiente para Will distinguir o que era. Ento
duas coisas aconteceram. Primeiro, Sir Charles mencionou o aletmetro.
-Por exemplo, estou muito curioso sobre este instrumento -ele declarou.
-E se voc me contar como ele funciona? #232 E ele colocou o aletmetro
sobre a mesinha octogonal na ponta do sof. Will conseguia v-lo
claramente; quase podia tocar nele. A segunda coisa que aconteceu foi
que a sombra imobilizou-se. A criatura que a lanava devia estar
empoleirada no encosto da cadeira da Sra. Coulter, porque a luz que
jorrava sobre ela lanava a sua sombra na parede. E no momento em que
ela se imobilizou, ele tomou conscincia de que se tratava do daemon da
mulher: um macaco, agachado, girando a cabea de um lado para Outro,
procurando alguma coisa. Will escutou Lyra inspirar com fora atrs de
si, quando ela tambm o viu. Ele se virou sem rudo e murmurou: -Volte
para a outra janela e atravesse para este jardim. Pegue umas pedras e
jogue na janela do escritrio para desviar a ateno deles por um
instante e eu poder pegar o aletmetro. Depois corra de volta para a
outra janela e espere por mim. Ela assentiu, se virou e se afastou
correndo sem rudo pela grama. Will voltou-se para o escritrio. A
mulher dizia: -...o Reitor da Universidade Jordan  um velho tolo. No
posso imaginar por que deu o aletmetro a ela;  preciso um estudo
intensivo durante vrios anos para entender o instrumento. E agora voc
me deve umas informaes, Carlo. Como foi que encontrou o aletmetro? E
onde est a minha filha? -Vi quando ela o usava num museu da cidade.
Reconheci a garota,  claro, pois a conheci naquele seu coquetel h
tanto tempo, de modo que imaginei que ela tenha encontrado uma porta. E
ento percebi que poderia usar isso para um propsito meu. Ento, quando
esbarrei com ela pela segunda vez, eu o roubei. -Voc  bem franco. #233
-No h necessidade de melindres, somos ambos adultos. -E onde est ela
agora? O que foi que ela fez quando descobriu o roubo? -Ela veio at
aqui, o que deve ter exigido coragem, eu imagino. -Coragem no lhe
falta. E o que vai fazer com ela? Qual  esse seu propsito? -Eu disse a
ela que devolveria o aletmetro se ela me conseguisse uma coisa que eu
no posso conseguir sozinho. -E que coisa  essa? -No sei se voc... E
foi nesse instante que a primeira pedra atingiu a janela do escritrio.
A vidraa estilhaou-se num gratificante tilintar, e no mesmo instante o
macaco saltou do encosto da cadeira, enquanto os adultos ficavam
imveis, boquiabertos. Veio outra pedra, e mais outra, e Will sentiu o
sof mexer-se quando Sir Charles se levantou. Will inclinou-se para a
frente e pegou o aletmetro na mesinha, enfiou-o no bolso e saltou
atravs da janela. Assim que se viu no gramado em Cittgazze ele tateou
no ar em busca das bordas invisveis, acalmando a mente, respirando
devagar, consciente, durante todo o tempo, de que a poucos passos dele
havia um perigo terrvel. Ento ouviu um guincho que no era humano nem
animal, mas pior do que qualquer uma dessas coisas, e entendeu que vinha
do horrvel macaco. J tinha conseguido fechar quase toda a janela, mas
ainda restava uma fenda na altura do seu peito -e ento ele teve que
saltar para trs, porque por essa fenda passou uma pequena pata de plos
dourados e garras #234 negras, e depois uma cara: um focinho de
pesadelo. O macaco dourado tinha os dentes  mostra, os olhos brilhantes
de dio, e uma malevolncia to intensa emanava dele que Will sentia-a
quase como uma lana. Mais um segundo e o macaco teria atravessado, e
isso teria sido o fim; mas Will ainda segurava a faca; ergueu-a e
golpeou duas vezes o focinho do macaco -ou o lugar onde o focinho
estaria se o animal no tivesse recuado bem a tempo. Isso deu a Will o
tempo necessrio para ele agarrar as bordas da janela e apert-las uma
contra a outra, fechando-a. Seu prprio mundo desapareceu, e ele estava
sozinho no parque enluarado em Cittgazze, ofegando, tremendo -e muito
assustado. Mas agora tinha que ajudar Lyra. Correu de volta  primeira
janela que ele tinha aberto e que dava para o bosque de arbustos, e
espiou para o outro lado. As folhas escuras dos loureiros e dos
azevinhos atrapalhavam a viso, mas ele enfiou a mo e afastou a
folhagem para poder enxergar a lateral da casa, com a vidraa quebrada
da janela do escritrio destacando-se claramente ao luar . Enquanto
olhava, ele viu o macaco surgir aos saltos do canto da casa, disparando
pelo gramado com a velocidade de um gato, e ento viu Sir Charles e a
mulher seguindo-o de perto. Sir Charles segurava uma pistola. A mulher
era bela -Will ficou chocado com a beleza dela -, linda, ao luar, o
vulto esguio, leve e gracioso; mas quando ela estalou os dedos, o macaco
estacou imediatamente e saltou para os braos dela, e o menino viu que
aquela mulher de rosto doce e aquele macaco maligno eram um s ser. Mas
onde estava Lyra? Os adultos procuravam em volta, e ento a mulher
colocou o macaco no cho e o animal comeou a mover-se #235 pela grama
como se estivesse farejando ou procurando pegadas. O silncio reinava em
toda parte. Se Lyra j estava nos arbustos, no poderia movimentar-se
sem fazer algum rudo que a denunciaria no mesmo instante. Sir Charles
fez algo na pistola que provocou um estalido baixo: a trava de
segurana. Ele perscrutou os arbustos, parecendo olhar diretamente para
Will, e ento seus olhos seguiram adiante. Ento ambos os adultos
olharam para a esquerda, pois o macaco ouvira alguma coisa. E num
segundo ele tinha saltado para onde Lyra devia estar, e no instante
seguinte iria encontr-la... E nesse momento agata saltou dos arbustos
para a grama, sibilando. Ouvindo isso, o macaco girou em pleno ar, como
se tivesse levado um susto, embora no estivesse to assustado quanto o
prprio Will. O macaco caiu sobre as quatro patas, de frente para agata,
e esta arqueou o dorso, a cauda erguida, e postou-se de lado, sibilando,
rosnando, desafiando. O macaco saltou sobre ela. A gata ficou de p nas
patas traseiras, golpeando com as garras afiadas, movendo-se depressa
demais para avista, e nesse instante Lyra surgiu junto a Will rolando
atravs da janela, com Pantalaimon ao seu lado. A gata berrou, e o
macaco tambm berrou quando as garras da gata rasgaram-lhe o focinho; e
ento o macaco virou-se e saltou para os braos da Sra. Coulter, e a
gata, mergulhando nos arbustos do seu prprio mundo, desapareceu. Will e
Lyra tinham conseguido atravessar, e Will mais uma vez tateou em busca
das bordas quase intangveis no ar e apertou-as com rapidez, fechando o
orifcio em toda a sua extenso, enquanto ouvia, atravs do orifcio
cada vez menor o som de ps esmagando gravetos e mos afastando galhos.
#236 Sobrou apenas um furo do tamanho do punho de Will, que foi logo
fechado, e o mundo inteiro ficou silencioso. Ele caiu de joelhos na
grama orvalhada e tateou  procura do aletmetro. -Pegue -disse a Lyra.
Ela pegou o instrumento. Com as mos trmulas ele deslizou a faca de
volta na bainha. Depois se deitou, o corpo todo estremecendo, e fechou
os olhos, sentindo o luar banh-lo de prata, e sentindo Lyra desfazer o
curativo e tornar a prend-lo com movimentos delicados. E ouviu-a dizer:
-Ah, Will, obrigada pelo que voc fez, por tudo... -Espero que a gata
esteja bem -ele resmungou. - Parece a minha Moxie. Provavelmente foi
para casa. L no mundo dela. Agora ela vai ficar bem. -Sabe o que eu
pensei? Por um segundo pensei que ela era o seu daemon. De qualquer
maneira, ela fez o que um bom daemon teria feito. Ns salvamos ela e ela
nos salvou. Vamos, Will, no fique deitado na grama, est tudo molhado.
Voc tem que ir se deitar numa cama, seno vai ficar resfriado. Vamos
entrar naquela casa grande ali. Deve haver camas, comida, coisas. Vamos,
eu vou fazer um curativo novo, vou preparar caf, vou fazer um pouco de
omelete, o que voc quiser, e vamos dormir... Estaremos seguros, agora
que temos o aletmetro de volta, voc vai ver. No vou fazer outra coisa
a no ser ajudar voc a encontrar o seu pai, eu prometo... Ela o ajudou
a se levantar e os dois caminharam devagar atravs do jardim em direo
 casa branca que resplandecia ao luar. #237 10 O XAM Lee Scoresby
desembarcou no porto na foz do rio Yenisei e encontrou o lugar num caos,
com pescadores tentando vender seu parco produto da pesca -peixes at
ento desconhecidos -para as fabricas de peixe enlatado, donos de navio
furiosos com as taxas porturias que as autoridades tinham aumentado
para enfrentar as enchentes, caadores e peleiros chegando  cidade em
grande nmero, impossibilitados de trabalhar por causa do degelo precoce
na floresta e do comportamento inusitado e imprevisvel dos animais. Ia
ser difcil viajar para o interior pela estrada, isso era certo; em
pocas normais a estrada era simplesmente uma trilha de terra congelada,
e agora que at mesmo essa camada estava se derretendo, o leito da
estrada era um pntano de lama e gua. Portanto Lee colocou o balo e o
equipamento num depsito e com o seu suprimento de ouro -cada vez mais
minguado -ele alugou um barco com motor a gs, comprou vrios tanques de
combustvel e alguns suprimentos, e partiu corrente acima pelo rio
cheio. #238 A princpio seu progresso foi lento. No apenas a corrente
era forte, mas as guas carregavam todo tipo de detritos: troncos,
galhos, animais afogados, e at mesmo o corpo inchado de um homem. Ele
tinha que pilotar com cautela e manter o pequeno motor funcionando com
fora total, para conseguir avanar. Seu destino era a aldeia da tribo
de Grumman. Como orientao, ele tinha apenas a sua lembrana de ter
sobrevoado a regio alguns anos antes, mas essa lembrana era forte, e
ele teve pouca dificuldade em enCOntrar o rumo correto em meio aos
cursos d'gua, mesmo com parte das margens submersas sob a gua turva da
enchente. A temperatura tinha perturbado os insetos, e uma nuvem de
mosquitos deixava todos os contornos esmaecidos. Lee esfregou ungento
de estramnio no rosto e nas mos e fumou uma sucesso de charutos de
cheiro forte, para minorar um pouco o problema. Quanto a Hester, ela
ficou sentada na proa, taciturna, as orelhas compridas deitadas sobre o
dorso magro e os olhos apertados. Ele estava acostumado ao silncio dela
e ela ao dele; falavam-se quando havia necessidade. Na manh do terceiro
dia, Lee dirigiu a pequena embarcao contra a corrente de um regato que
se juntava ao rio, vindo de uma sucesso de mOntes baixos que deveriam
estar bem cobertos pela neve, mas agora estavam manchados de marrom.
Logo o regato passou acorrer entre pinheiros e abetos baixos, e depois
de alguns quilmetros chegaram a um rochedo grande e arredondado, com a
altura de uma casa, onde Lee atracou e amarrou o barco. -Havia um
atracadouro aqui -COntou a Hester. - Lembra-se do que aquele velho
caador de focas em Nova Zembla nos Contou? Deve estar dois metros
debaixo d'gua. #239 -Ento, espero que tenham tido o bom senso de
construir a aldeia no alto -ela respondeu, saltando para a margem. No
mais de meia hora depois ele colocou sua bagagem no cho diante da casa
de madeira do chefe da aldeia e se voltou para cumprimentar a pequena
multido que se juntara. Usou o gesto universal em direo ao norte para
significar amizade, e pousou o rifle no cho aos seus ps. Um velho
trtaro siberiano, os olhos quase perdidos em meio s rugas que o
rodeavam, colocou sua tigela no cho ao lado do rifle. Seu
daemon-carcaju sacudiu o focinho para Hester, que moveu uma orelha em
resposta, e ento o chefe falou. Lee respondeu, e os dois passaram por
meia dzia de linguagens antes de encontrarem uma em que pudessem
conversar. -Meus respeitos a voc e  sua tribo -disse Lee. - Tenho um
pouco de erva de fumar, que no vale muito, mas eu me sentiria honrado
em lhe dar de presente. O chefe assentiu, satisfeito, e uma das suas
mulheres recebeu a trouxa que Lee retIrou da bagagem. -Estou procurando
um homem chamado Grumman -Lee prosseguiu. -Ouvi dizer que ele  um de
vocs por adoo. Pode ser que ele tenha adotado outro nome, mas 
europeu. -Ah, estvamos esperando por voc -disse o chefe. O resto dos
habitantes, reunidos sob a luz fraca do sol no solo enlameado no meio
das casas, no conseguia entender as palavras, mas via a satisfao do
chefe -satisfao e alvio, foi o que Lee sentiu Hester pensar. O chefe
assentiu vrias vezes. #240 -Estvamos esperando por voc -repetiu.
-Voc veio para levar o Dr. Grumman para o outro mundo. Lee franziu a
testa, mas disse apenas: -Como quiser, senhor. Ele est aqui? -Siga-me
-disse o chefe. Os outros afastaram-se respeitosamente. Compreendendo o
desprazer de Hester em ter que atravessar a lama imunda, Lee colocou a
mochila nas costas e pegou-a nos braos, seguindo o chefe ao longo de
uma trilha na floresta at uma cabana situada a 10 longas flechadas da
aldeia, numa clareira entre os larios. O chefe parou do lado de fora da
cabana de estrutura de madeira e cobertura de couro. O local era
decorado com presas de javali e chifres de alces e veados, que no eram
apenas trofus de caa, pois deles pendiam flores secas e ramos de
pinheiro cuidadosamente dispostos, como se para algum ritual. -Tem que
falar com ele com respeito -disse o chefe em voz baixa. -Ele  um xam.
E tem o corao doente. De repente Lee sentiu um arrepio percorrer-lhe o
corpo, e Hester retesou-se em seus braos, pois os dois se deram conta
de que vinham sendo observados todo o tempo: por entre as flores secas e
os ramos de pinheiro, um olho amarelo e brilhante os vigiava. Era um
daemon, e Lee viu-o virar a cabea, tirar delicadamente um ramo de
pinheiro com seu bico poderoso e pass-lo pelo ar como se puxasse uma
cortina. O chefe chamou em sua prpria lngua, usando o nome que o velho
caador de focas mencionara a Lee: Jopari. No momento seguinte a porta
se abriu. Parado  soleira estava um homem magro, de olhos brilhantes,
vestindo couro e peles. Os cabelos negros eram manchados de cinzento, a
mandbula forte ressaltava, e seu #241 daemon, uma guia-pesqueira em
poleirada em seu punho, olhava com raiva para os visitantes. O chefe
curvou-se trs vezes e retrocedeu, deixando Lee sozinho com o
xam-acadmico que ele tinha vindo procurar. -Dr. Grumman, meu nome 
Lee Scoresby. Venho do pas do Texas, e sou aeronauta de profisso. Se
me deixar sentar e falar um pouco, vou lhe contar o que me trouxe aqui.
 isso mesmo, no ? O senhor  mesmo o Dr. Stanislaus Grumman da
Academia de Berlim? -Sou -disse o xam. -E voc diz que vem do Texas. Os
ventos o empurraram para bem longe da sua terra natal, Sr. Scoresby.
-Bem, agora existem ventos estranhos soprando pelo mundo, senhor.
-Realmente. O sol est morno, eu acho. Vai encontrar um banco dentro da
minha cabana; se me ajudar a traz-lo para fora, podemos nos sentar sob
essa luz to agradvel e conversar ao ar livre. Tenho um pouco de caf,
se lhe agrada. - muita gentileza, senhor- disse Lee. Ele carregou o
banco de madeira enquanto Grumman ia ao fogo e servia o caf quente em
duas canecas de lata. Aos ouvidos de Lee seu sotaque no era alemo, mas
ingls, da Inglaterra Diretor do Observatrio estava com a razo,
afinal. Depois que estavam sentados, Hester impassvel, de olhos
apertados, ao lado de Lee e a grande daemon-guia-pesqueira olhando
malevolamente para o sol, Lee ps-se a falar. Comeou com seu encontro
em Trollesund com John Faa, chefe dos gpcios, e relatou como tinham
recrutado Iorek Byrnison o urso, e viajado para Bolvangar, e resgatado
Lyra e as outras crianas; depois contou o que tinha ficado sabendo por
Lyra e Serafina Pekkala, no balo, enquanto voavam para Svalbard. #242
-Sabe, Dr. Grumman, pelo jeito que a menina descreveu, parece que Lorde
Asriel simplesmente brandiu diante dos Catedrticos aquela cabea
decepada embalada em gelo, assustando-os tanto que eles no quiseram
examinar de perto. Foi o que me fez suspeitar que o senhor poderia estar
vivo. E  bvio que o senhor tem um conhecimento especializado dessa
histria. Tenho OUVido falar no senhor em todo o litoral do Artico: da
perfurao em sua cabea, da sua pesquisa, que varia entre escavar o
leito do oceano e observar as luzes do norte, e o jeito como o senhor
apareceu de repente, saindo do nada, h uns 10 ou 12 anos, e tudo isso 
muito interessante. Mas algo mais que a simples curiosidade me atraiu
at aqui, Dr. Grumman. Estou preocupado com a menina. Acho que ela 
importante, e as bruxas tambm acham. Se existe alguma coisa que o
senhor saiba sobre ela e sobre o que est acontecendo, eu gostaria que
me contasse. Como eu disse, alguma coisa me deu a certeza de que o
senhor pode fazer isso, e  por isso que estou aqui. Ele fez uma pausa
antes de prosseguir: -Mas, se no estou enganado, senhor, ouvi o chefe
da aldeia dizer que eu tinha vindo para levar o senhor para outro mundo.
Entendi errado, ou foi isso mesmo que ele disse? E mais uma pergunta,
senhor: que nome foi aquele que ele usou?  algum tipo de nome tribal,
algum ttulo de magia? Grumman sorriu brevemente e respondeu: -O nome
que ele usou  o meu nome verdadeiro, John Parry .Sim, voc veio at
aqui para me levar para outro mundo. E quanto ao que o trouxe aqui, acho
que vai concluir que foi isto. Ele abriu a mo. Na palma havia uma coisa
que Lee viu, mas no entendeu. Ele viu um anel de prata e turquesa, um
desenho nvajo, que ele reconheceu como o anel de sua prpria #243 me:
conhecia o seu peso, a superfcie lisa da pedra e o modo como o ourives
tinha dobrado mais o metal no canto onde a pedra estava lascada -Lee
sabia que os contornos daquele canto lascado tinham se desgastado com o
uso, porque muitas e muitas vezes ele tinha passado os dedos ali, muitos
anos antes, em sua infncia nos campos de salva do seu pas natal.
Quando deu por si, estava de p. Hester tremia, ereta, orelhas em p.
Sem que Lee percebesse, a guia-pesqueira tinha se movido entre ele e
Grumman, defendendo o seu humano, mas Lee no ia atacar. Ele se sentia
atarantado; sentia-se criana outra vez, e tinha a voz tensa e trmula
quando perguntou: -Onde conseguiu isso? -Pegue -disse Grumman, ou Parry
.-Ele j cumpriu sua misso. Trouxe voc. Agora no preciso mais dele.
-Mas como... -fez Lee, pegando na palma da mo de Grumman aquele objeto
querido. -No compreendo como foi que o senhor... Ser que... Como
conseguiu isso? Eu no via esse anel h mais de 40 anos. -Sou um xam.
Posso fazer muitas coisas que voc no entende. Sente-se, Sr. Scoresby.
Fique calmo. Vou lhe contar tudo que precisa saber. Lee tornou a
sentar-se, segurando o anel, passando os dedos sobre ele vezes sem
conta. -Bem, estou perturbado, senhor. Acho que preciso ouvir o que o
senhor puder me contar. -Muito bem, vou comear. Meu nome, como j lhe
disse,  John Parry, e eu no nasci neste mundo. Lorde Asriel no  o
primeiro a viajar entre os mundos, embora seja o primeiro a abrir
caminho de maneira to espetacular. Em meu prprio mundo, fui soldado e
depois explorador. H 12 anos eu estava acompanhando uma expedio a um
lugar no meu #244 mundo que corresponde ao seu estreito de Bering; meus
companheiros tinham outros projetos, mas eu estava procurando uma coisa
que tinha ouvido nas velhas lendas: um rasgo no tecido do mundo, um
buraco que tinha aparecido entre o nosso universo e outro. Bem, alguns
dos meus companheiros se perderam. Procurando por eles, eu e dois outros
atravessamos esse buraco, essa porta, sem percebermos, e deixamos o
nosso mundo para trs. A princpio no compreendemos o que tinha
acontecido. Caminhamos at encontrarmos uma cidade, e a no tivemos
mais dvidas: estvamos em outro mundo. O xam prosseguiu: -Bem, por
mais que tentssemos, no conseguimos encontrar novamente aquela porta.
Tnhamos atravessado durante uma nevasca, e voc, que  um veterano do
rtico, sabe o que isso significa. De modo que no tivemos opo seno
continuarmos naquele mundo novo. E logo descobrimos que era um lugar
perigoso. Parece que havia um estranho avantesma ou uma apario
assombrando o lugar, alguma coisa implacvel e mortal. Meus dois
companheiros morreram logo depois, vtimas dos Espectros, como aquelas
coisas so chamadas. O resultado foi que achei o mundo deles um lugar
abominvel, e no via a hora de sair de l. O caminho de volta ao meu
prprio mundo estava barrado para sempre; mas havia outras portas para
outros mundos, e logo encontrei o caminho para este aqui. Ele continuou:
-E aqui estou. E assim que cheguei descobri uma coisa que me maravilhou,
Lee Scoresby, pois os mundos so muito diferentes uns dos outros, e
neste mundo vi meu daemon pela primeira vez. , eu no sabia da
existncia de Sayan Ktr at #245 entrar no seu mundo. As pessoas daqui
no conseguem conseber um mundo onde os daemons so uma voz cilenciosa
na mente, nada mais. Pode imaginar o meu pasmo ao descobrir que parte da
minha prpria natureza era feminina, tinha a forma de pssaro e era
linda? Assim, com Sayan Ktr ao meu lado, vaguei pelas terras do Norte
e aprendi muita coisa com os povos do Artico, como os meus bons amigos
nesta aldeia. O que eles me contaram sobre este mundo preencheu algumas
lacunas nas informaes que eu obtive no meu, e comecei a ver a resposta
de muitos mistrios. Fui para Berlim com o nome de Grumman. No contei a
ningum as minhas origens; era o meu segredo. Apresentei uma tese 
Academia e defendi-a num debate, que  o mtodo deles. Eu era melhor
informado do que os acadmicos, e no tive dificuldade em me tornar um
deles. O cientista prosseguiu: -Com as minhas novas credenciais eu
poderia comear a trabalhar neste mundo onde encontrei, de maneira geral
muito contentamento. Senti falta de algumas coisas do meu prprio mundo,
 claro.  casado, Sr. Scoresby? No? Bem, eu era; e amava muito a minha
esposa, como amava o meu filho, meu nico filho, um menino que ainda no
tinha um ano quando sa do meu mundo. Senti uma saudade terrvel deles.
Mas mesmo que procurasse durante mil anos nunca encontraria o caminho de
volta. Estvamos separados para sempre. Alm disso, o meu trabalho me
absorvia, e procurei outras formas de conhecimento: fui iniciado no
culto do crnio, tornei-me um xam. E tenho feito algumas descobertas
teis: descobri um modo de fazer um ungento com musgo-de-sangue, por
exemplo, que conserva todas as virtudes da planta viva. Ento o xam
contou: #246 -Conheo muita coisa deste mundo, Sr. Scoresby. Sei, por
exemplo, da existncia do P. Vejo pela sua expresso que j ouviu essa
palavra.  uma coisa que est matando de medo os seus telogos, mas so
eles que me amedrontam. Sei o que Lorde Asriel est fazendo, e sei por
qu, e foi por isso que chamei voc aqui. Quero ajudar Lorde Asriel,
entende, porque a misso que ele tomou para si  a maior na Histria
humana. A maior em 35 mil anos de Histria humana, Sr. Scoresby. Eu
mesmo no posso fazer grande coisa. Meu corao est doente de um mal
que ningum neste mundo conseguir curar. Ainda tenho, talvez, energia
suficiente para um grande esforo. Mas sei uma coisa que Lorde Asriel
no sabe e precisa saber para que seus esforos tenham sucesso. Fiquei
intrigado com aquele mundo mal-assombrado onde os Espectros se
alimentavam da conscincia humana; tinha vontade de saber o que eram,
como tinham surgido. Sendo um xam, consigo descobrir coisas atravs do
esprito quando no posso ir com o corpo, e passei muito tempo em transe
explorando aquele mundo. Descobri que os filsofos de l, h muitos
sculos, criaram uma ferramenta para a sua prpria destruio: uma
ferramenta que eles chamaram de faca sutil. Ela possua muitos poderes,
mais do que eles imaginavam quando a fabricaram, muito mais do que eles
sabem, mesmo hoje em dia. E ao us-la, eles deixaram os Espectros entrar
no mundo deles. E continuou: -Bem, sei a respeito da faca sutil e o que
ela pode fazer. E sei onde ela est, sei como reconhecer o indivduo que
deve us-la e sei o que ele tem que fazer para ajudar Lorde Asriel.
Espero que ele seja capaz de cumprir a tarefa. Portanto, chamei o senhor
at aqui para me levar pelo ar para o Norte, para dentro do mundo que
Asriel abriu, onde espero encontrar o portador #247 da faca sutil.  um
mundo perigoso, no se engane. Aqueles espectros so piores do que
qualquer coisa no seu mundo ou no meu. Teremos que ter cuidado e
coragem. No vou voltar de l, e o senhor ter que usar toda a sua
coragem, toda a sua esperteza, toda a sua sorte, se quiser ver o seu
mundo de novo.  esta a sua misso, Sr. Scoresby. Por isso o senhor me
procurou. Com essas palavras o xam silenciou. Tinha o rosto plido, com
um leve brilho de transpirao. - a coisa mais maluca que j ouvi na
minha vida - foi o comentrio de Lee. Em sua agitao, ele se ps de p
e ficou a caminhar de um lado para outro, enquanto Hester, impassvel,
observava. Grumman tinha os olhos semicerrados e seu daemon, no colo,
observava Lee com olhar desconfiado. -Quer dinheiro? -Grumman perguntou,
depois de alguns instantes. -Posso lhe arranjar ouro. No  difcil.
-Droga, no vim at aqui por dinheiro -Lee exclamou. -Vim porque... Vim
ver se o senhor estava vivo como eu pensava. Bem, a minha curiosidade
quanto a isso j foi satisfeita. -Que bom. -E h outra coisa -Lee
acrescentou. Ele relatou a Grumman sobre o Conselho de bruxas no Lago
Enara e a resoluo a que elas tinham chegado. E terminou: -Sabe, aquela
garotinha, Lyra... Bem, foi por causa dela que resolvi ajudar as bruxas.
O senhor diz que me trouxe at aqui com o anel nvajo; pode ser que
seja, pode ser que no. O que eu sei  que vim aqui porque achei que
estaria ajudando Lyra. Nunca vi uma criana como aquela. Se eu tivesse
uma filha, queria que ela fosse metade to forte, corajosa e boa quanto
ela . Ora, eu tinha ouvido falar que o senhor conhecia um objeto, #248
eu no sabia o que podia ser, que d proteo a qualquer pessoa que o
carregue. E pelo que o senhor diz, acho que deve ser essa tal de faca
sutil. De modo que este  o meu preo para levar o senhor at o outro
mundo, Dr. Grumman: nada de ouro, mas a faca sutil, e no a quero para
mim, mas para Lyra. O senhor ter que jurar que vai conseguir que ela
fique sob a proteo desse objeto, e ento eu o levo aonde o senhor
quiser ir. O xam escutou atentamente, e disse: -Muito bem, Sr.
Scoresby, eu juro. Acredita no meu juramento? -Vai jurar pelo qu? -Pelo
que o senhor quiser. Lee pensou um pouco e disse: -Jure por aquilo que
fez o senhor recusar o amor da bruxa. Acho que deve ser a coisa mais
importante que o senhor conhece. Grumman arregalou os olhos e disse:
-Tem toda razo, Sr. Scoresby. Jurarei com prazer. Dou-lhe a minha
palavra de que vou fazer com que essa menina Lyra Belacqua fique sob a
proteo da faca sutil. Mas vou lhe dar um aviso: o portador dessa faca
tem sua prpria misso a cumprir, e pode ser que essa misso coloque a
menina num perigo ainda pior . Lee assentiu com a fisionomia sria.
-Pode ser -concordou. -Mas, quero que ela tenha uma chance de segurana,
por menor que seja. -Eu lhe dou a minha palavra. E agora preciso ir para
o novo mundo, e o senhor precisa me levar. -E o vento? O senhor no est
doente demais para observar as condies meteorolgicas, est? -Deixe
que eu cuido do vento. #249 Lee assentiu. Tornou a sentar-se e ficou
passando a mo pelo anel de turquesa enquanto Grumman colocava dentro de
uma bolsa de pele de cervo as poucas coisas de que necessitaria, e ento
os dois voltaram para a aldeia pela trilha na floresta. O chefe falou
durante algum tempo. Cada vez mais pessoas vinham tocar na mo de
Grumman, murmurar algumas palavras e receber em troca algo que parecia
uma bno. Enquanto isso, Lee examinava as condies do tempo. O cu
estava claro para o sul, e uma brisa fresca sacudia de leve os ramos e o
topO dos pinheiros. Para o norte, a neblina ainda pairava sobre o rio
cheio, mas pela primeira vez em muitos dias parecia haver uma promessa
de tempo claro. Junto ao rochedo onde antes ficava o ancoradouro, ele
colocou a bolsa de Grumman dentro do bote e abasteceu o pequeno motor,
que pegou de imediato. Partiram; com o xam sentado na proa, o bote
desceu velozmente a correnteza, passando sob as rvores e entrando no
rio principal com tanta rapidez que Lee temeu por Hester, agachada junto
 amurada. Mas ela era uma viajante experiente, ele deveria saber disso;
por que estava to nervoso? Quando chegaram ao porto na foz do rio,
constataram que todos os hotis, penses e at quartos em casas
particulares tinham sido requisitados para os soldados. E no eram
quaisquer soldados: eram as tropas da Guarda Imperial de Moscvia, o
exrcito mais feroz, mais treinado e melhor equipado do mundo, dedicado
sob juramento a defender os poderes do Magisterium. Lee tinha pretendido
descansar uma noite antes de partirem, pois Grumman parecia estar
precisando, mas no havia chance de encontrarem um quarto. #250 -o que 
que est acontecendo? -ele perguntou ao barqueiro, quando devolveu o
barco alugado. -No sabemos. O regimento chegou ontem e requisitou todos
os leitos, toda a comida e todos os barcos da cidade. Este bote seria
deles, se no estivesse com o senhor . -Sabe para onde esto indo? -Para
o Norte- disse o barqueiro. -Vai haver uma guerra, a maior guerra que j
houve. -Para o Norte, para esse novo mundo? -Isso mesmo. E vo chegar
mais tropas, esta  s a tropa de vanguarda. Daqui a uma semana no
vamos ter um s pedao de po ou um galo de combustvel. O senhor me
fez um grande favor alugando este barco. O preo j dobrou... Agora no
havia sentido em descansar, mesmo se conseguissem encontrar um lugar.
Cheio de ansiedade por seu balo, Lee, acompanhado por Grumman, foi
direto ao depsito onde o tinha deixado. Grumman conseguia acompanhar
seu passo; parecia doente, mas era duro. O guardador do depsito,
ocupado contando algumas peas de motor para um sargento da Guarda,
ergueu os olhos rapidamente de sua prancheta. -Balo? Infelizmente foi
requisitado ontem -disse. -Est vendo como as coisas esto; no tive
escolha. Hester mexeu as orelhas e Lee entendeu o que ela queria dizer.
-J entregou o balo? -perguntou. -Viro busc-lo esta tarde. -Nada
disso -disse Lee. -Tenho uma autoridade que ultrapassa a da Guarda. E
mostrou ao guardador do depsito o anel que ele tinha tirado do dedo do
escraelingue morto em Nova Zembla. O #251 sargento, que estava ao seu
lado junto ao balco, parou o que estava fazendo e fez uma continncia
ao ver o smbolo da Igreja, mas, apesar de toda a sua disciplina, no
conseguiu conter uma breve expresso de espanto. -Portanto vamos levar o
balo agora mesmo, pode colocar alguns homens para trabalhar: quero o
balo cheio e abastecido. Isso inclui comida, gua e lastro. Eu disse
agora mesmo. O guardador do depsito olhou para o sargento, que deu de
ombros, e ento saiu apressado para ver o balo. Lee e Grumman foram
para o atracadouro onde ficavam os tanques de combustvel, para
supervisionar o abastecimento e conversar em voz baixa. -Onde conseguiu
esse anel? -Grumman quis saber. -Tirei do dedo de um morto.  meio
arriscado usar isso, mas no vi outra maneira de ter meu balo de volta.
Acha que aquele sargento suspeitou de alguma coisa? -Claro que
suspeitou. Mas  um homem disciplinado. No vai questionar a Igreja. Se
ele mencionar o que viu, ns estaremos longe quando resolverem fazer
alguma coisa. Bem, eu lhe prometi um vento, Sr. Scoresby; espero que
goste. O cu estava azul e o sol brilhava. Para o norte, a neblina ainda
parecia uma cordilheira de montanhas acima do mar, mas a brisa a
empurrava cada vez mais para trs, e Lee ficou impaciente para levantar
vo. Enquanto o balo enchia-se de ar, inchando e comeando a aparecer
por trs do telhado do depsito, Lee examinava a cesta e guardava o
equipamento com especial cuidado; quem poderia prever as turbulncias
que encontrariam no outro mundo? Tambm os instrumentos foram fixados 
estrutura com a mxima ateno -at mesmo a bssola, cujo ponteiro #252
girava em volta do mostrador. Para terminar, Lee amarrou vrios sacos de
areia como lastro em volta da cesta. Quando o balo j estava cheio,
pendendo para o norte e forando as cordas que o ancoravam por causa do
vento que aumentava, Lee pagou o guardador do depsito com o resto de
seu ouro e ajudou Grumman a entrar na cesta. Ento virou-se para os
homens que seguravam as cordas para ordenar que as soltassem. Antes,
porm, que pudesse dar a ordem, houve uma interrupo. Do beco ao lado
do depsito veio o rudo de botas pisando com fora, movendo-se
depressa, e um brado de comando: -Alto! Os homens das cordas ficaram
indecisos, alguns olhando para o beco, outros para Lee, que gritou com
veemncia: -Soltem as cordas! Dois deles obedeceram e o balo tentou
subir, mas os outros dois prestavam ateno nos soldados, que estavam
rodeando a esquina do depsito. Os dois homens seguravam as cordas ainda
em volta dos ganchos, e o balo estava inclinado para um lado. Lee
agarrou-se  borda da cesta; Grumman j estava agarrado a ela, e tambm
seu daemon tinha as garras em volta dela. Lee gritou: -Soltem as cordas,
seus idiotas! O balo j est no ar! O gs que enchia o balo tinha
muita fora, e os homens, por mais que resistissem, no conseguiam
segur-lo. Um deles soltou a corda, que se desenrolou do gancho de
amarrao; mas o outro, ao sentir a corda comeando a fugir, agarrou-se
instintivamente a ela, em vez de solt-la. Lee, que j tinha visto isso
acontecer uma vez, ficou horrorizado. O daemon do pobre #253 homem, uma
pesada cadela husky, uivava de medo e dor, l no solo, enquanto o balo
disparava para o cu. Depois de cinco interminveis segundos, estava
tudo acabado: o homem perdeu as foras e caiu, semimorto, batendo com
fora na gua. Mas os soldados j tinham os rifles apontados para cima.
U ma rajada de balas assobiou perto da cesta, uma delas tirando uma
fagulha de um anel de metal e fazendo as mos de Lee arderem com o
impacto, mas nenhuma causou algum estrago. Quando dispararam a segunda
rajada, o balo estava quase fora de alcance, erguendo-se no azul e
disparando na direo do mar. Lee sentia o corao erguer-se tambm.
Certa vez dissera a Serafina Pekkala que no fazia questo de voar e que
aquilo era apenas um trabalho, mas no tinha dito a verdade. Voar pelo
cu, com um bom vento a carreg-lo e um mundo novo a aguard-lo -alguma
coisa poderia ser melhor na vida? Soltou aborda da cesta e viu que
Hester estava agachada, de olhos semicerrados, no seu canto costumeiro.
L de baixo e de muito longe, outra rajada de balas foi disparada
inutilmente. A cidade distanciava-se rapidamente, e abaixo deles a
amplido da foz do rio cintilava ao sol. -Bem, Dr. Grumman, no sei
quanto ao senhor, mas eu me sinto melhor no ar -Lee comentou. -Mas
queria que aquele coitado tivesse soltado a corda.  to fcil, e se a
gente no soltar, no tem escapatria. -Obrigado, Sr. Scoresby, fez um
bom trabalho. Agora vamos nos acomodar para o vo. Eu ficaria muito
grato se me passasse essas peles; o ar ainda est frio. #254 11 O
BELVEDERE Na grande manso branca no centro do belo jardim, Will dormiu
um sono inquieto, perseguido por sonhos cheios de ansiedade e ternura em
igual medida, de modo que ele lutava para despertar mas ansiava por
tornar a dormir. Quando seus olhos abriram-se de vez, ele se sentia to
cansado, que mal podia se mover; ao se sentar, descobriu que o curativo
estava frouxo e a cama estava escarlate. Conseguiu sair da cama e
atravessar os aposentos cheios de poeira, luz do sol e silncio, at
chegar  cozinha. Ele e Lyra tinham dormido nos quartos dos criados, sob
o sto (pois no se sentiriam bem nas imponentes camas de dossel nos
quartos dos outros andares), e era umpercurso longo e difcil. -Will...
-fez ela imediatamente, a voz cheia de preocupao. Ela deixou o fogo
para ajud-lo a sentar-se. Ele se sentia tonto. Imaginava ter perdido
muito sangue; alis, nem precisava imaginar, pois as evidncias estavam
por toda parte. E os ferimentos ainda sangravam. #255 -Eu ia justamente
fazer caf -ela disse. -Quer caf primeiro, ou quer que eu faa outro
curativo? Como voc preferir. E temos ovos, mas no consigo encontrar
uma lata de salsichas. -Este no  o tipo de casa onde se come isso.
Primeiro o curativo. Tem gua quente na torneira? Quero me lavar. Odeio
ficar cheio de sangue... Ela abriu a torneira de gua quente e ele se
despiu, ficando s de cuecas. Estava fraco e tonto demais para se sentir
envergonhado, mas Lyra envergonhou-se por ele, e saiu. Ele se lavou o
melhor que conseguiu e depois se enxugou nos panos de prato pendurados
perto do fogo. Quando Lyra voltou, tinha arranjado roupas para ele -
uma camiseta, calas de lona e um cinto. Ele se vestiu e ela rasgou um
pano de prato em tiras, com as quais fez um curativo apertado. Estava
muito preocupada com a mo dele: no apenas os ferimentos ainda
sangravam em abundncia, como tambm o resto da mo estava vermelho e
inchado. Mas ele nada comentou, nem ela. Ento ela fez caf e torrou um
pouco de po velho; os dois levaram a comida para o salo que ficava na
parte fronteira da casa, com vista para a cidade. Depois de comer e
beber, ele se sentiu um pouco melhor. - melhor perguntar ao aletmetro
o que devemos fazer agora- ele sugeriu. -J fez alguma pergunta? -No.
De agora em diante s vou fazer o que voc pedir . Pensei em perguntar
ontem  noite, mas no fiz. E no vou fazer, a no ser que voc me pea.
-Bom, ento  melhor perguntar logo. Existe tanto perigo aqui quanto no
meu mundo, agora. Para comear, existe o irmo da Anglica. E se. ..
#256 Ele silenciou, pois ela ia comear a dizer alguma coisa, mas parou
assim que ele o fez. Ento ela se controlou e falou: -Will, tem uma
coisa que aconteceu ontem que eu no contei a voc. Devia ter contado,
mas estava acontecendo tanta coisa... Desculpe... Ela ento narrou tudo
que tinha visto pela janela da Torre enquanto Giacomo Paradisi estava
fazendo o curativo nele: Tullio sendo atacado pelos Espectros, Anglica
avistando-a na janela e seu olhar de dio, e mais a ameaa de Paolo. E
continuou: -Voc se lembra quando ela falou com a gente pela primeira
vez? O irmo pequeno disse alguma coisa sobre o que todos estavam
fazendo. Ele disse: "Ele vai pegar..." mas no terminou, porque ela lhe
deu um safano, lembra-se? Aposto que ele ia dizer que Tullio ia pegar a
faca, e foi por isso que todas as crianas vieram para c. Porque, se
elas tivessem a faca, poderiam fazer qualquer coisa, poderiam at
crescer sem medo dos Espectros. -Como era a aparncia dele quando estava
sendo atacado? -Will quis saber . Para surpresa dela, Will tinha se
sentado ereto, os olhos curiosos e interessados. Ela tentou se lembrar
exatamente: -Ele... Ele comeou a contar as pedras na parede. Parecia
estar se encostando em cada uma. Mas no conseguiu continuar. No final
ele perdeu o interesse e parou. Ento ficou imvel- ela completou. Ao
ver a expresso de Will, ela quis saber: -Por qu? -Porque... Acho que
talvez eles tenham vindo do meu mundo, os Espectros. Se eles fazem as
pessoas se comportarem assim, no seria estranho que eles tivessem vindo
do meu mundo. E quando os homens da Liga abriram a primeira janela, se
ela dava para o meu mundo, os Espectros poderiam ter entrado por ali.
#257 -Mas no existem Espectros no seu mundo! Voc nunca ouviu falar
deles l, ouviu? -Talvez eles no sejam chamados de Espectros. Talvez o
nome deles seja outro. Lyra no entendeu o que ele queria dizer, mas no
quis pressionar. Ele tinha o rosto vermelho e os olhos inchados. -De
qualquer maneira, o importante  que a Anglica me viu na janela da
Torre. E agora que sabe que a faca est com a gente, ela vai contar para
as outras crianas. Vai pensar que foi por nossa culpa que o irmo foi
atacado pelos EspectrOS. Sinto muito, Will, eu devia ter lhe contado
antes. Mas aconteceu tanta cOIsa... -Bom, acho que no ia fazer
diferena. Ele estava torturando o velho, e depois de aprender a usar a
faca ele teria matado ns dois, se pudesse. Tnhamos que lutar com ele.
-Eu me sinto mal por causa disso, Will. Quer dizer, ele era irmo dela.
E aposto que no lugar deles, amos querer a faca tambm. -, mas no
podemos voltar e mudar o que aconteceu. Tnhamos que pegar a faca para
poder ter o aletmetro de volta, e se pudssemos conseguir isso sem
lutar, ns teramos feito. -, teramos -ela concordou. Como Iorek
Byrnison, Will era um verdadeiro guerreiro, de modo que ela estava
preparada para concordar com ele quando ele dizia que melhor seria no
lutar: ela sabia que no era uma questo de covardia, mas de estratgia.
Ele agora parecia mais calmo e tinha o rosto outra vez plido; estava
olhando para longe, pensativo. Ento disse: -Com certeza  mais
importante agora pensar no que Sir Charles vai fazer, ou a Sra. Coulter.
Talvez, se ela tem essa escolta especial de que eles estavam falando,
esses soldados com #258 os daemons cortados, talvez Sir Charles tenha
razo e eles consigam ignorar os Espectros. Sabe o que eu acho? Acho que
o que eles comem, esses Espectros, so os daemons das pessoas. -Mas as
crianas tambm tm daemons. E eles no atacam crianas. No pode ser
isso. -Ento deve ser a diferena entre os daemons das crianas e os dos
adultos -Will insistiu. -Existe uma diferena, no ? Voc me disse que
os daemons dos adultos no mudam de forma. Deve ter alguma coisa a ver
com isso. Se aqueles soldados dela no tm daemon, pode ser que o efeito
seja o mesmo... -! -ela concordou. -Pode ser. E de qualquer maneira,
ela no teria medo dos Espectros. Ela no tem medo de nada. E  to
esperta, Will, eu juro, e to impiedosa e cruel, que ia acabar mandando
neles, eu aposto. Ela poderia mandar nos Espectros como faz com as
pessoas e eles teriam que obedecer, aposto. Lorde Boreal  forte e
inteligente, mas logo, logo vai fazer tudo que ela quiser. Ah, Will,
estou ficando assustada de novo, s de pensar no que ela pode fazer...
Vou perguntar ao aletmetro, como voc disse. Ainda bem que conseguimos
pegar ele de volta. Ela abriu o embrulho de veludo e passou as mos com
ternura sobre o pesado instrumento de ouro. -Vou perguntar sobre o seu
pai, e como podemos encontrar ele -disse. -Veja, eu coloco os ponteiros
em... -No. Pergunte primeiro pela minha me. Quero saber se ela est
bem. Lyra assentiu e girou os ponteiros antes de colocar o aletmetro no
colo, puxar os cabelos para trs das orelhas, baixar os olhos e se
concentrar. Will observou o ponteiro maior girar em volta do mostrador,
correndo e parando e correndo de novo com a rapidez de uma andorinha
ciscando, e observou os olhos de Lyra, to azuis, intensos e cheios de
compreenso. #259 Ela ento pestanejou e ergueu o olhar. -Ela ainda est
segura -disse. -Essa amiga que est tomando conta dela, ela  muito boa.
Ningum sabe onde sua me est, e a amiga no vai denunciar . Will no
tinha percebido a extenso da sua preocupao. Diante dessa boa notcia,
ele relaxou; ento, livre de uma pequena parte da tenso que o dominava,
sentiu com mais fora a dor dos ferimentos. -Obrigado. Muito bem, agora
pergunte sobre o meu paI... Antes, porm, que ela pudesse sequer
comear, ouviram um grito l fora. Imediatamente os dois olharam para a
janela. Na borda do jardim, em frente s primeiras casas da cidade,
havia um cinturo de rvores, e alguma coisa se movia ali. Pantalaimon
transformou-se num lince e foi at a porta aberta, com olhar feroz. -So
as crianas -disse. Ambos se levantaram. As crianas surgiam por entre
as rvores, uma a uma, talvez 40 ou 50 ao todo. Muitas levavam pedaos
de pau.  frente ia o garoto de camiseta listrada, e no era um pedao
de pau o que ele carregava: era uma pistola. -Ali est Anglica -Lyra
sussurrou, apontando. Anglica estava ao lado do menino lder, puxando-o
pelo brao, incentivando-o a continuar em frente. Logo atrs deles, seu
irmo Paolo gritava de entusiasmo, e tambm as outras crianas gritavam
e sacudiam os punhos no ar. Duas carregavam pesadas espingardas. Will j
tinha visto crianas dominadas por esse estado de esprito, mas nunca
tantas, e as crianas da sua cidade no carregavam armas. Elas gritavam,
e Will conseguiu distinguir a voz de Anglica acima das outras: #260
-Vocs mataram o meu irmo e roubaram a faca! Seus assassinos! Vocs
fizeram os Espectros pegarem ele! Vocs mataram ele e ns vamos matar
vocs! No vo conseguir fugir! Vamos matar vocs como vocs mataram
ele! -Will, voc podia abrir uma janela! -Lyra disse com urgncia,
agarrando o brao bom dele. -Podamos fugir facilmente... -, mas onde a
gente ia estar? Em Oxford, em plena luz do dia, a poucos metros da casa
de Sir Charles. Provavelmente no meio da rua, na frente de um nibus.
No posso simplesmente cortar em qualquer lugar e ter certeza de que
estaremos seguros. Primeiro tenho que espiar e ver onde vamos sair, e
isso ia demorar demais. Atrs desta casa tem uma floresta, um bosque ou
coisa assim. Se conseguirmos chegar at l, estaremos mais seguros entre
as rvores. Olhando pela janela, Lyra exclamou, furiosa: -Eu devia ter
acabado com ela ontem! Ela  to ruim como o irmo. Eu queria... -Pare
de falar e venha -disse Will. Ele se certificou de que tinha a faca
presa ao cinto, e Lyra colocou nas costas a mochila com o aletmetro e
as cartas do pai de Will. Os dois correram pelo vestbulo cheio de ecos,
desceram o corredor e entraram na cozinha, atravessaram a copa e saram
num ptio com piso de pedras; uma porta no muro dava para uma horta com
canteiros de hortalias e ervas expostos ao sol da manh. A borda do
bosque ficava a algumas centenas de metros, depois de um gramado em
subida, horrivelmente exposto  viso. Numa elevao  esquerda, mais
prxima do que as rvores, ficava uma pequena edificao, uma estrutura
circular parecendo um #261 templo, com um segundo andar aberto em arcos
como uma varanda, de onde se descortinava a vista da cidade. -Vamos
correr -Will comandou, embora sentisse menos vontade de correr do que de
se deitar e fechar os olhos. Com Pantalaimon em forma de pssaro, voando
acima dela para vigiar, os dois partiram atravs do gramado. Mas a grama
era alta e irregular, e Will no conseguiu correr mais do que alguns
passos sem ficar tonto demais para continuar. Passou a andar devagar.
Lyra olhou para trs. As crianas ainda no os tinham visto, ainda
estavam na frente da casa; talvez levassem algum tempo para revistar
todos os aposentos... Mas Pantalaimon piou em alarde. Havia um menino
parado perto de uma janela aberta no segundo andar da casa, apontando
para eles. Ouviu-se um grito. -Vamos, Will -fez Lyra. Ela o puxou pelo
brao sadio, ajudando-o, levantando-o. Ele tentou reagir, mas no tinha
foras. S conseguia andar bem devagar . -Est bem, no vamos conseguir
chegar at as rvores.  longe demais. Ento vamos para aquele templo
ali. Com a porta fechada, talvez a gente consiga segurar eles pelo tempo
suficiente para eu cortar uma porta... Pantalaimon adiantou-se, e Lyra
soltou um arquejo e chamou-o, sem flego, fazendo com que ele esperasse.
Will quase podia enxergar o elo entre eles, o daemon puxando e a menina
reagindo. Ele cambaleava atravs da grama alta, com Lyra correndo 
frente para enxergar e voltando para ajudar, depois novamente  frente,
at chegarem ao piso de pedra em volta do templo. A porta sob o pequeno
prtico estava destrancada, e ao entrarem eles encontraram um aposento
circular com vrias #262 esttuas de deusas em nichos na parede em
volta. Bem no centro, uma escada em espiral, feita de ferro forjado,
subia at uma abertura no andar de cima. No havia chave na porta, de
modo que os dois subiram a escada e passaram para o piso de tbuas do
que era na realidade um belvedere -um lugar onde as pessoas vinham
respirar o ar puro e contemplar a cidade; pois no havia janelas ou
paredes, mas simplesmente uma srie de arcos abertos em toda volta,
sustentando o telhado. Em cada arco havia um parapeito da altura da
cintura, onde se podia apoiar, e abaixo dele, pelo lado de fora, o
telhado de telhas curvas descia num aclive suave at a calha de chuva
que o circundava. Eles viam a floresta atrs do templo, a uma
proximidade tentadora, e a casa abaixo deles, e atrs dela o grande
jardim e os telhados marrom-avermelhados da cidade, com a Torre
erguendo-se  esquerda. Havia urubus girando no ar acima das ameias
cinzentas, e Will sentiu um espasmo de nusea ao tomar conscincia do
que os atrara at l. Mas no havia tempo para contemplar a paisagem;
primeiro precisavam lidar com as crianas, que vinham correndo em
direo ao templo, gritando de fria e de excitao. O garoto que ia 
frente diminuiu a velocidade e ergueu a pistola, e fez dois ou trs
disparos na direo do templo. Ento todos recomearam acorrer , aos
berros: -Ladres! -Assassinos! -Vamos matar vocs! -Vocs roubaram a
nossa faca! -Vocs no so daqui! -Vo morrer! Will no deu ateno. J
tinha a faca na mo, e rapidamente abriu uma janelinha para ver onde
estavam -e recuou #263 no mesmo instante. Lyra tambm olhou, e
retrocedeu, decepcionada. Estavam a uns 15 metros do cho, suspensos
sobre uma avenida bastante movimentada. -Claro -fez Will em tom
amargurado. -Ns subimos uma boa ladeira... Bom, estamos presos. Vamos
ter que tentar afastar eles, s isso. Poucos segundos depois, as
primeiras crianas entravam em bando pela porta. O som dos berros ecoava
dentro do templo e reforava a selvageria; e ento ouviu-se um tiro,
imensamente alto, e outro, e os gritos tomaram outra entonao, e ento
a escada ps-se a estremecer quando as primeiras crianas comearam a
subir . Lyra, paralisada, estava agachada contra a parede, mas Will
ainda tinha a faca na mo; correu para a abertura no cho, estendeu a
mo e cortou o ferro do degrau superior como se fosse papel. Sem ter o
que a segurasse, a escada comeou a dobrar sob o peso das crianas,
depois caiu com um enorme rudo. Mais gritos, mais confuso; e novamente
a arma disparou, mas parece ter sido acidental, pois algum se feriu, e
dessa vez o grito era de dor. Will olhou para baixo e viu uma confuso
de corpos a contorcerem-se, cobertos de cal, poeira e sangue. No eram
crianas individuais: eram uma massa nica, como uma onda que cresceu
abaixo deles quando as crianas saltaram para o ar em fria, mos
estendidas para agarr-los, ameaando, gritando, cuspindo, mas sem
conseguir alcan-los. Ento algum chamou, e elas olharam para a porta;
aquelas que conseguiam se mover saram naquela direo, deixando vrias
outras presas debaixo dos degraus de ferro, ou atordoadas, tentando se
levantar do cho cheio de entulho. Will logo percebeu por que elas
tinham corrido para fora. Houve um rudo no telhado abaixo dos arcos e
ao correr para #264 o parapeito ele viu o primeiro par de mos agarrando
a borda das telhas e alando o corpo para cima. Algum ajudava por
baixo, e logo surgiu outra cabea e outro par de mos,  medida que umas
subiam nos ombros das outras e alcanavam o telhado como formigas. Mas
era difcil caminhar sobre as telhas, e as primeiras crianas avanaram
de gatinhas, os olhares ferozes grudados no rosto de Will. Lyra
postou-se ao lado dele, e Pantalaimon, como leopardo, rosnava, as patas
no alto do parapeito, fazendo as primeiras crianas hesitarem. Mas mesmo
assim elas avanavam, cada vez em maior nmero. Algum gritava "Mata!
Mata! Mata!", e ento outras vozes se juntaram, cada vez mais alto, e as
crianas que estavam no telhado puseram-se a bater o p marcando o
ritmo, embora no ousassem se aproximar e enfrentar a fria do daemon.
Ento uma telha se partiu e o menino de p sobre ela escorregou e caiu,
mas o que estava ao lado dele pegou um caco e arremessou-o sobre Lyra.
Ela mergulhou e a telha espatifou-se na coluna ao seu lado; os pedaos
choveram sobre ela. Will tinha reparado na grade de ferro em volta da
abertura no cho, e cortou dois pedaos na forma de espada. Entregou um
a Lyra, que o girou com toda fora em direo  lateral da cabea do
primeiro menino. Ele caiu na mesma hora, mas logo surgiu outra criana
-Anglica, cabelos vermelhos, rosto branco, olhos enlouquecidos; ela
subiu de gatinhas at o parapeito, mas Lyra golpeou-a com o pedao de
grade e ela caiu. Will estava fazendo a mesma coisa. A faca estava na
bainha em sua cintura, e ele atacava e se defendia com o pedao de
ferro; embora muitas crianas tombassem, outras as substituam, e cada
vez mais crianas subiam para o telhado. #265 Ento apareceu o menino de
camiseta listrada, mas tinha perdido a pistola, ou talvez estivesse sem
munio. No entanto, ele e Will se encararam, e ambos tinham conscincia
do que iria acontecer: eles iam lutar, e ia ser uma luta violenta e
mortal. -Venha -disse Will, ansioso pelo combate. -Venha ento... Mais
um segundo e eles teriam lutado. Mas aconteceu uma coisa estranhssima:
um grande cisne branco veio voando baixo, as asas estendidas, grasnando
to alto que at as crianas no telhado, em meio quela selvageria,
viraram-se para olhar . -Kaisa! -Lyra chamou, cheia de alegria, pois era
mesmo o daemon de Serafina Pekkala. O ganso tornou a grasnar, um som
penetrante que encheu o cu, depois girou e passou a poucos centmetros
do menino de camiseta listrada. O garoto recuou, apavorado, e deslizou
para a borda do telhado, de onde desceu; as outras crianas puseram-se a
gritar de medo tambm, porque havia mais alguma coisa no cu; e quando
Lyra viu as pequenas figuras negras surgindo do azul, ps-se a gritar de
alegria. -Serafina Pekkala! Aqui! Socorro! Estamos aqui no templo... Com
um som sibilante, uma dzia de flechas, e mais uma dzia logo em
seguida, e mais outra dzia disparada to depressa, que todas estavam no
ar ao mesmo tempo, choveram sobre o telhado do templo, onde bateram como
marteladas. Atnitas e atordoadas, as crianas no telhado num instante
perderam toda a truculncia, que foi substituda pelo pavor: quem eram
aquelas mulheres vestidas de preto voando no ar? #266 Que coisa podia
ser aquilo? Seriam fantasmas? Um novo tipo de Espectros? Gemendo e
chorando, as crianas saltaram do telhado, algumas caindo de mau jeito e
arrastando-se ou mancando para longe, outras rolando ladeira abaixo e
correndo para um lugar seguro, no mais uma massa humana, mas apenas um
bando de crianas assustadas e envergonhadas. Um minuto depois do
aparecimento do ganso, a ltima das crianas fugiu do templo, e o nico
som era o ar passando pelos galhos nos quais as bruxas voavam em
crculos. Will olhou para cima, maravilhado, espantado demais para
falar, mas Lyra saltava e chamava, encantada: -Serafina Pekkala! Como
foi que nos encontrou? Obrigada, obrigada! Eles iam matar a gente! Desa
para c... Mas Serafina e as outras sacudiram a cabea e tornaram a
subir, para voar em crculos mais acima. O daemon-ganso girou e voou na
direo do telhado, batendo as grandes asas para dentro, para diminuir a
velocidade, e pousou ruidosamente nas telhas abaixo do arco. -Saudaes,
Lyra -disse. -Serafina Pekkala no pode vir ao solo, nem as outras. Este
lugar est cheio de Espectros, mais de 100 deles esto rodeando este
lugar, e vm vindo outros pelo gramado. No conseguem ver? -No! A gente
no v nada disso! -J perdemos uma bruxa. No podemos arriscar. Vocs
conseguem descer da? -Saltando do telhado, como as crianas fizeram.
Mas como nos encontrou? E onde... -Por agora chega. Vm mais problemas
por a, e maiores ainda. Desam como puderem e vo para as rvores. #267
Os dois passaram por cima do parapeito e desceram lateralmente atravs
das telhas quebradas at a calha. No era alto, e o solo era gramado,
com um ligeiro declive. Lyra saltou primeiro e Will seguiu-a, rolando no
cho e tentando proteger a mo, que j estava novamente sangrando muito
e doendo tambm. O curativo tinha se soltado e pendia numa tira;
enquanto ele tentava enrol-lo, o ganso pousou na grama ao lado dele.
-Lyra, quem  este? -Kaisa perguntou. -Will. Ele vem conosco... -Por que
os Espectros esto evitando voc? -o daemon-ganso perguntou diretamente
a Will. A essa altura nada mais surpreendia Will, que respondeu: -No
sei. A gente no consegue ver eles. No, espere! -E ele ficou de p,
quando uma idia lhe ocorreu. -Onde  que esto agora? -perguntou. -Onde
est o mais prximo? -A 10 passos de voc, ladeira abaixo -disse o
daemon. -Eles no querem chegar mais perto,  evidente. Will tirou a
faca e olhou naquela direo, e ouviu o daemon sibilar, surpreso. Mas
Will no conseguiu fazer o que pretendia porque no mesmo momento uma
bruxa pousou seu galho na grama ao lado dele. Ele ficou atnito, no
tanto pelo fato de v-la voar, mas pela espantosa graciosidade, a
claridade intensa, fria e amorosa do olhar dela, e pelos membros
plidos, despidos, to jovens, no entanto to distantes de serem jovens.
-Seu nome  Will? -ela perguntou. -, sim, mas... -Por que os Espectros
tm medo de voc? -Por causa da faca. Onde est o mais prximo? Diga!
Quero matar ele! #268 Mas Lyra veio correndo antes que a bruxa pudesse
responder. -Serafina Pekkala! -exclamou. E jogou os braos em volta da
bruxa, abraando-a com tanta fora que a bruxa riu e beijou-lhe o topo
da cabea. A menina continuou: -Ah, Serafina, de onde voc surgiu desse
jeito? Ns estvamos... aquelas crianas... Eram crianas, e iam matar a
gente... Voc viu? Pensamos que amos morrer, e... Ah, estou to feliz
por voc ter aparecido! Pensei que nunca mais ia ver voc! Serafina
Pekkala olhou por cima da cabea de Lyra, para onde os Espectros
obviamente estavam agrupados a certa distncia, depois olhou para Will.
-Agora escutem, h uma caverna neste bosque, no muito longe. Subam a
ladeira e ento acompanhem a crista do morro, para a esquerda.
Poderamos at tentar carregar Lyra uma parte do caminho, mas voc 
grande demais, vai ter que ir a p. Os Espectros no vo nos seguir;
eles no conseguem nos ver no ar, e tm medo de voc. Ns nos
encontraremos l;  uma caminhada de meia hora. E ela tornou a alar
vo. Will protegeu os olhos da luz para observar a bruxa e as outras
figuras elegantes girarem no ar e voarem cleres rumo s rvores. -Ah,
Will, estamos salvos agora! Vai dar tudo certo, agora que Serafina
Pekkala est aqui! -Lyra afirmou. -Nunca pensei que fosse ver a Serafina
de novo... Ela chegou bem na hora, no foi? Exatamente como na outra
vez, em Bolvangar... Tagarelando animadamente, como se j tivesse
esquecido a luta, ela subiu a ladeira em direo ao bosque. Will
acompanhava-a em silncio. A mo latejava com fora, e o sangue #269
escorria sem parar. Ele ergueu a mo junto ao peito e tentou no pensar
nisso. Demorou no meia hora, mas uma hora e trs quartos, porque por
vrias vezes Will teve que parar e descansar. Quando chegaram  caverna,
encontraram uma fogueira acesa, um coelho assando e Serafina Pekkala
mexendo alguma coisa num pequeno caldeiro de ferro. -Deixe eu ver a
ferida -foi a primeira coisa que ela disse a Will. Ele, como um zumbi,
estendeu a mo. Pantalaimon, em forma de gato, observava com
curiosidade, mas Will desviou o olhar. No gostava de ver seus dedos
mutilados. As bruxas cochicharam entre si, e ento Serafina Pekkala
perguntou: -Qual foi a arma que fez esse ferimento? Will pegou a faca e
estendeu-a para ela em silncio. As companheiras contemplaram a faca com
espanto e suspeita, pois nunca tinham visto uma lmina assim to afiada.
-Vai ser preciso mais do que ervas para curar isto. Vai ser preciso um
feitio -Serafina Pekkala declarou. -Muito bem, vamos preparar um. Vai
estar pronto quando a lua sair. Enquanto isso, vocs vo dormir. Ela deu
a ele uma pequena taa de chifre contendo uma poo quente cujo sabor
amargo era adoado com mel, e algum tempo depois ele se deitou e caiu em
sono profundo. A bruxa cobriu-o com folhas e voltou-se para Lyra, que
ainda comia coelho. -Agora, Lyra, me conte quem  este menino e o que
voc sabe sobre este mundo e esta faca -pediu. Ento Lyra respirou fundo
e comeou. #270 12 A LINGUAGEM DA TELA -Conte tudo outra vez- pediu o
Dr. Oliver Payne, no pequeno laboratrio com vista para o parque. -Ou
no entendi direito, ou voc est dizendo bobagens. Uma criana de outro
mundo? -Foi o que ela disse. Certo,  bobagem, mas pelo menos escute,
Oliver, por favor -disse a Dra. Mary Malone. -Ela sabia das Sombras, com
o nome de P, mas  a mesma coisa. So as nossas partculas de Sombra.
Estou lhe dizendo: quando ela estava ligada  Caverna atravs dos
eletrodos, houve uma extraordinria ocorrncia de figuras e smbolos na
tela... Alm disso ela possua um instrumento, uma espcie de bssola
feita de ouro, com vrios smbolos em volta do mostrador. Disse que
conseguia ler aquilo da mesma maneira, e sabia tambm sobre o estado de
esprito necessrio, ela o conhecia intimamente. Estavam no meio da
manh. A Dra. Malone, a Catedrtica de Lyra, tinha os olhos vermelhos
por causa do sono atrasado, e seu colega, que acabava de voltar de
Genebra, #271 mostrava-se preocupado, ctico e impaciente para ouvir
mais. A Dra. Malone prosseguiu: -E o importante, Oliver,  que ela se
comunicou com elas. Elas so conscientes, e conseguem reagir. E voc se
lembra dos crnios? Pois bem, ela me falou de uns crnios no Museu
Pitt-Rivers, descobriu por aquela coisa que eles eram muito mais antigos
do que o museu dizia, e havia Sombras... -Espere um minuto. Pelo menos
fale coisa com coisa. O que  que voc est dizendo, exatamente? A
garota confirmou o que j sabemos, ou revelou alguma novidade? -As duas
coisas. No sei. Mas vamos supor que tenha acontecido alguma coisa h 30
ou 40 mil anos. Antes disso j havia partculas de Sombra,  claro, elas
existem desde a Grande Exploso. Mas no havia um meio fsico de
amplificar seus efeitos no nosso nvel, no nvel antropolgico, no nvel
dos seres humanos. E ento aconteceu alguma coisa, no consigo imaginar
o qu, mas tinha a ver com a evoluo. Da os seus crnios, lembra-se?
Antes no havia Sombras, e depois havia um monte delas? E os crnios que
a menina viu no museu e testou com aquela espcie de bssola. Ela disse
a mesma coisa. O que estou dizendo  que por volta dessa poca o crebro
humano tornou-se o veculo ideal para esse processo de amplificao. De
repente adquirimos conscincia. O Dr. Payne virou a caneca de plstico e
bebeu o resto do caf. -Por que deveria ter acontecido exatamente nesse
perodo? -perguntou. -Por que de repente, h 35 mil anos? -Ah, quem
sabe? No somos paleontlogos. No sei, Oliver, s estou especulando.
No acha pelo menos que  possvel? -E esse policial, fale sobre ele.
#272 A Dra. Malone esfregou os olhos. -O nome dele  Walters. Disse que
era da Diviso Especial. Pensei que eles tratassem de poltica, ou coisa
assim. -Terrorismo, subverso, segurana, tudo isso... Continue. O que
ele queria? Por que veio at aqui? -Por causa da garota. Ele disse que
estava procurando um menino mais ou menos da mesma idade, mas no me
disse a razo. E esse menino tinha sido visto com a garota que veio
aqui. Mas ele tinha outra inteno tambm, Oliver, ele sabia sobre a
pesquisa, chegou at a perguntar... O telefone tocou. Ela se
interrompeu, dando de ombros, e o Dr. Payne atendeu. Falou rapidamente e
desligou, dizendo: -Temos visita. -Quem ? -No conheo o nome. Sir
Qualquer Coisa. Escute, Mary, voc sabe que vou me demitir, no sabe?
-Eles lhe ofereceram o emprego. -. Tenho que aceitar. Voc certamente
compreende. -Bom, ento  o fim de tudo isto. Ele espalmou as mos, num
gesto que indicava impotncia, e disse: -Para falar com franqueza, no
consigo entender o sentido de tudo isso que voc me contou. Crianas de
outro mundo e Sombras fsseis...  muita maluquice. Simplesmente no
posso me envolver. Tenho uma carreira, Mary . -E os crnios que voc
testou? E as Sombras em volta da pea de xadrs feita de marfim? O Dr.
Payne sacudiu a cabea e virou-se de costas. Antes que ele pudesse
responder, ouviram batidas  porta e ele abriu-a de imediato, com
alvio. Sir Charles cumprimentou: #273 -Bom dia a todos. Dr. Payne? Dra.
Malone? Meu nome  Charles Latrom.  muita gentileza me receberem sem
hora marcada. -Entre -convidou a Dra. Malone, perplexa. - Entendi bem? O
senhor  Sir Charles? Como  que podemos ajud-lo? -Talvez seja o caso
de eu poder ajud-los -ele respondeu. -Ouvi dizer que esto esperando o
resultado do seu pedido de verba. -Como sabe disso? -perguntou o Dr.
Payne. -J trabalhei para o Ministrio. Alis, eu trabalhava diretamente
com a poltica cientfica. Ainda tenho muitos contatos nesta rea, e
ouvi dizer que... Posso me sentar? -Ah, por favor -disse a Dra. Malone.
Ela puxou uma cadeira e ele se sentou como se estivesse dirigindo uma
reunio. -Obrigado. Soube por um amigo...  melhor no mencionar o nome
dele, os regulamentos de segurana so muito rigorosos... Enfim, eu
soube que o seu pedido estava sendo estudado, e o que ouvi me intrigou
tanto, que devo confessar que pedi para ver alguma coisa do trabalho de
vocs. Sei que no era da minha conta, mas ainda atuo como uma espcie
de conselheiro no-oficial, de modo que usei essa desculpa. E realmente,
o que vi era fascinante. -Isso significa que vamos conseguir? -quis
saber a Dra. Malone, inclinando-se para a frente, ansiosa para acreditar
nele. -Infelizmente, no. Tenho que ser sincero: eles no esto
dispostos a renovar a sua bolsa. A Dra. Malone curvou os ombros. O Dr.
Payne observava com curiosidade o visitante. -Ento, por que veio aqui?
-perguntou. #274 -Bem, sabe, eles ainda no decidiram oficialmente. No
parece que a resposta ser promissora, e vou ser franco com vocs: eles
no tm perspectiva de financiar esse tipo de trabalho no futuro. No
entanto, se algum defendesse o caso de vocs, eles poderiam mudar de
idia. -Um patrono? O senhor est dizendo que poderia fazer isso? Eu no
sabia que as coisas funcionavam assim -disse a Dra. Malone,
endireitando-se. -Pensei que eles consultassem outros cientistas e...
-Na teoria, sim, mas tambm ajuda saber como esses comits funcionam na
prtica. E saber quem faz parte deles. Bem, c estou: tenho imenso
interesse no seu trabalho, acho que ele pode ser muito importante e
certamente devia prosseguir. Vocs me deixariam fazer contatos informais
para isso? A Dra. Malone sentia-se como um marinheiro que est se
afogando, quando de repente lhe jogam um salva-vidas. -Ora! Claro que
sim! E muito obrigada... Quer dizer, o senhor acha mesmo que vai
adiantar? No estou querendo dizer que... Ah, no sei o que estou
querendo dizer.  claro que sim! -O que  que ns teramos que fazer?
-perguntou o Dr. Payne. A Dra. Malone olhou para ele, surpresa: Oliver
no tinha acabado de dizer que ia trabalhar em Genebra? Mas ele parecia
estar entendendo Sir Charles melhor do que ela estava, pois uma centelha
de cumplicidade passou entre os dois homens, e Oliver veio sentar-se
tambm. -Fico feliz por voc ter me entendido -disse o homem. -Tem toda
razo. Existe uma certa direo que me deixaria intensamente feliz se
vocs tomassem. E, se pudermos entrar num acordo, eu poderia at
arranjar mais dinheiro, de outra fonte. #275 -Espere, espere
-interrompeu a Dra. Malone. - Espere um minuto. O rumo desta pesquisa 
uma questo nossa. Estou inteiramente disposta a discutir os resultados,
mas no a meta. O senhor sem dvida deve entender que... Sir Charles
espalmou as mos num gesto que exprimia pesar e ficou de p. Oliver
Payne tambm se levantou, ansioso. -No, por favor, Sir Charles, tenho
certeza de que a Dra. Malone vai escutar o que o senhor tem a dizer.
Mary, escutar no faz mal, e pode fazer uma grande diferena. -Voc no
ia para Genebra? -Genebra? -interps Sir Charles. -Excelente lugar.
Muitos recursos. Muito dinheiro, tambm. No quero prend-lo aqui. -No,
no, ainda no est decidido -apressou-se a dizer o Dr. Payne. -Falta
discutir muita coisa, ainda est tudo muito no ar. Sente-se, Sir
Charles, por favor... Posso lhe oferecer um caf? - muita gentileza sua
-disse Sir Charles, tornando a sentar-se com ar de um gato satisfeito. A
Dra. Malone estudou-o com ateno pela primeira vez; Viu um homem de
quase 70 anos, prspero, confiante, vestido com elegncia, habituado ao
melhor, acostumado a conviver com pessoas poderosas e a sussurrar em
ouvidos importantes. Oliver tinha razo, ele queria mesmo alguma coisa
em troca -e s teriam o apoio dele se o satisfizessem. Ela cruzou os
braos. O Dr. Payne estendeu uma caneca ao visitante, dizendo: -Sinto
muito, a nossa loua  modesta... -De maneira nenhuma. Posso continuar o
que estava dizendo? -Sim, por favor -disse o Dr. Payne. #276 -Bem,
compreendo que vocs fizeram algumas descobertas fascinantes no campo da
conscincia. Sim, eu sei, vocs ainda no publicaram, e ainda falta
muita coisa, aparentemente, para o sucesso da sua pesquisa. No entanto,
as notcias se espalham. Estou especialmente interessado no assunto. Eu
ficaria muito feliz, por exemplo, se vocs concentrassem sua pesquisa na
manipulao da conscincia. Em segundo lugar, na hiptese dos mundos
diversos, de Everett, vocs se lembram, 1957 ou por a; acredito que
vocs esto na pista de alguma coisa que poderia expandir muito essa
teoria. E essa linha de pesquisa poderia at atrair verbas da Defesa,
que, como vocs devem saber, ainda  generosa, mesmo hoje em dia, e
certamente no est sujeita a esses cansativos processos de aprovao
dos pedidos de verbas. Ele ergueu a mo quando a Dra. Malone tentou
falar, e prosseguIu: -No me peam para revelar minhas fontes. Mencionei
as leis de segurana nacional;  uma legislao incmoda, mas no
podemos brincar com ela. Eu tenho confiana de que teremos alguns
progressos na rea dos mundos diversos. Acho que vocs so as pessoas
certas para isso. E, em terceiro lugar, existe um determinado assunto
relacionado a uma pessoa. Uma criana. Ele fez uma pausa e bebericou o
caf. A Dra. Malone no conseguia falar; ela empalidecera, embora no
tivesse conscincia disso, mas tinha conscincia de que se sentia zonza.
Sir Charles continuou: -Por diversos motivos estou em contato com os
servios de informaes. Eles esto interessados numa criana, uma
menina, que possui um instrumento pouco comum, um antigo instrumento
cientfico, certamente roubado, que deveria #277 estar em mos mais
seguras do que as dela. Existe tambm um menino mais ou menos da mesma
idade, uns 12 anos, que est sendo procurado por causa de um
assassinato. Muito se discute se uma criana desta idade  capaz de
assassinato, mas ele certamente matou uma pessoa. E foi visto com a
menina. Agora, Dra. Malone, pode ser que a senhora tenha conhecido uma
dessas crianas. E pode ser que a senhora, muito corretamente, esteja
inclinada a contar  polcia o que sabe. Mas estaria agindo melhor se me
contasse em particular. Posso dar um jeito para que as autoridades lidem
com o assuntO de maneira rpida e eficiente, sem sensacionalismo nos
jornais. Sei que o Inspetor Walters veio v-la ontem, e sei que a garota
apareceu. Percebe, sei do que estoU falando. E saberia, por exemplo, se
a senhora a visse de novo; e se no me contasse, eu saberia disso
tambm. Seria bom pensar bastante sobre isso, e tentar clarear a sua
lembrana do que ela disse e fez enquanto estava aqui.  um problema de
segurana nacional. Sei que a senhora est me entendendo. Ele suspirou e
em seguida continuou: -Bem, vou ficando por aqui. Tomem o meu carto,
para poderem me procurar. Se fosse eu, no perderia muito tempo; o
comit se rene amanh, como vocs sabem. Mas podem me encontrar neste
nmero a qualquer hora. Ele deu um carto a Oliver Payne e, ao ver que a
Dra. Malone continuava de braos cruzados, colocou um sobre a mesa para
ela. O Dr. Payne abriu a porta para ele. Sir Charles colocou na cabea o
chapu-panam, dando-lhe um tapinha, depois sorriu para ambos e partiu.
Depois de fechar a porta, o Dr. Payne perguntou: -Mary , voc ficou
maluca? Por que se comportou dessa maneira? #278 -Como assim? Voc no
caiu na conversa desse velho nojento, caiu? -Voc no pode recusar uma
oferta como essa! Quer ou no quer que o nosso projeto sobreviva? -No
foi uma oferta, foi um ultimato -ela retrucou com veemncia. -Ou fazemos
o que ele quer, ou fechamos. E Oliver, pelo amor de Deus, todas aquelas
ameaas e indiretas nada sutis sobre segurana nacional e coisas assim,
voc no consegue enxergar aonde isso iria levar? -Bem, acho que consigo
enxergar melhor do que voc. Se voc disser no, eles no vo fechar
este lugar; vo se apossar dele. Se esto to interessados quanto ele
diz, vo querer continuar com a pesquisa. S que nos termos deles. -Mas
os termos deles seriam... Ora, uma questo de defesa, pelo amor de Deus,
isto quer dizer que eles querem encontrar novos mtodos de matar. E voc
ouviu o que ele disse sobre conscincia: ele quer manipular
conscincias! No vou me envolver com esse tipo de coisa, Oliver,
jamais. -Eles vo fazer de qualquer maneira, e voc vai ficar sem
emprego. Se permanecer, poder orientar o trabalho, dirigir a pesquisa
para um rumo melhor. E ainda estar trabalhando no projeto! Ainda estar
envolvida! -Mas, de qualquer maneira, em que isso interessa a voc? O
trabalho em Genebra j no est decidido? Ele passou as mos pelos
cabelos e disse: -Decidido, no. Nada foi assinado. E seria uma coisa
completamente diferente, eu no gostaria de ir embora agora que acho que
estamos realmente conseguindo alguma coisa... -O que  que voc est
dizendo? -No estou dizendo... -Est insinuando. Aonde quer chegar? #279
-Bem... -Ele se ps a caminhar de um lado para outro no laboratrio,
espalmando as mos, dando de ombros, sacudindo a cabea. -Bom, se voc
no entrar em contato com ele, entro eu -disse finalmente. Ela ficou em
silncio por algum tempo. Depois disse: -Ah, estou entendendo. -Mary,
tenho que pensar na... -Claro. -No que... -No, no. -Voc no
compreende... -Compreendo, sim.  muito simples. Voc promete fazer o
que ele diz, voc consegue a verba, eu saio, voc assume como Diretor.
No  difcil entender. Voc teria um oramento maior. Muitas mquinas
novinhas. Meia dzia de Ph.D.s sob suas ordens. tima idia. Faa isso,
Oliver. V em frente. Mas para mim chega, estou fora. Isso fede. -Voc
no... Mas a expresso dela silenciou-o. A Dra. Malone despiu o jaleco
branco e pendurou-o na porta; juntou alguns papis numa sacola e saiu
sem uma palavra. Assim que ela partiu, ele pegou o carto de Sir Charles
e foi para o telefone. Vrias horas mais tarde, pouco antes da
meia-noite, a Dra. Malone estacionou o carro em frente ao prdio de
cincias e entrou por uma porta lateral. Mas, assim que se virou para
subir a escada, deparou com um homem que surgira de outro corredor,
assustando-a tanto que ela quase deixou cair a pasta. Ele estava
fardado. -Aonde vai? -quis saber . Ficou parado diante dela, corpulento,
os olhos quase invisveis sob a aba baixa do quepe. #280 -Vou para o meu
laboratrio. Eu trabalho aqui. Quem  voc? -Segurana. Posso ver sua
identidade? -Que segurana? Sa daqui hoje s trs da tarde e s havia
um porteiro trabalhando, como sempre. Sou eu quem devia estar pedindo a
sua identidade. Quem o contratou? E por qu? -Eis a minha identidade
-disse ele, mostrando-lhe um carto e tornando a guard-lo sem que ela
tivesse tempo de ler. -E onde est a sua? Ela notou que ele levava um
telefone celular num coldre  cintura. Ou seria uma arma? No, claro que
no, ela estava ficando paranica. E ele no tinha respondido. Mas se
ela insistisse, ele ficaria cheio de suspeitas, e o que interessava era
chegar ao laboratrio; ela pensou: tenho que acalm-lo, como a gente faz
com um cachorro. Remexeu na bolsa e encontrou a carteira. -Isto serve?
-perguntou, mostrando o carto que costumava usar para operar a porta
automtica do estacionamento. Ele estudou o carto rapidamente. -O que 
que est fazendo aqui a esta hora da noite? -perguntou. -Estou no meio
de uma experincia delicada. Preciso verificar periodicamente o
computador. Ele parecia estar procurando um motivo para impedi-la, ou
talvez estivesse apenas gostando de exercer poder. Finalmente assentiu e
ps-se de lado. Ela passou por ele, sorrindo, mas o rosto dele
permaneceu srio. Ela ainda estava tremendo quando chegou ao
laboratrio. Naquele prdio, a "segurana" sempre tinha se resumido a
#281 uma tranca na porta e um porteiro idoso, e ela sabia o motivo
daquela mudana. Mas isso significava que ela dispunha de pouco tempo:
seria preciso acertar de primeira, pois quando descobrissem o que estava
fazendo, ela no poderia voltar l. A cientista trancou a porta atrs de
si e baixou as persianas. Ligou o detector, pegou um disquete no bolso e
colocou-o no computador que controlava a Caverna, e um minuto depois j
estava manipulando os nmeros na tela, guiando-se metade pela lgica,
metade pela intuio e metade pelo programa que ela havia criado em
casa, tendo trabalhado at aquela hora; e a complexidade da tarefa a que
se propunha era to desconcertante quanto fazer trs metades somarem um
inteiro. Finalmente ela afastoU os cabelos dos olhos e colocou os
eletrodos na cabea, depois flexionou os dedos e comeou a digitar.
Sentia-se intensamente constrangida. 'Ol. No sei o que estou fazendo.
Talvez seja loucura.' As palavras se agruparam  esquerda da tela, o que
foi a primeira surpresa. Ela no estava usando um programa de
processamento de texto -na verdade, estava passando ao largo de grande
parte do sistema operacional- e a formatao das suas palavras no
estava sendo feita por ela. Ela sentiu um arrepio nas costas e tomou
conscincia de todo o prdio  sua volta, os corredores escuros, as
mquinas ociosas, as vrias experincias em curso, computadores
monitorando testes e registrando resultados, o ar-condicionado
analisando e ajustando a umIdade e a temperatura, todos os dutos,
encanamentoS e cabos, que eram as artrias e os nervos do prdio,
despertos e vigilantes... Na verdade, quase conscientes. Ela
experimentou de novo. *Nota do digitalizador: O dilogo entre a Dra.
Malone e a tela do computador  feito em uma formatao em que as
palavras digitadas pela Dra. Malone ficam  esquerda, enquanto as
respostas,  direita; sendo assim, o texto ficaria de difcil
compreeno para o deficiente-visual, de modo que optei por apenas
exp-las na orisontal, uma fala abaixo da outra, comeadas e terminadas
pelo cinal '.* #282 'Estou tentando fazer com palavras o que fiz antes
com um estado de esprito, mas' Antes que ela tivesse sequer terminado a
frase, o cursor correu para o lado direito da tela e escreveu: 'Faa uma
pergunta.' Foi quase instantneo. Ela sentiu como se tivesse tentado
descer um degrau que no existia: todo o seu corpo sofreu um impacto com
o choque. Foram necessrios vrios minutos para que ela se acalmasse o
suficiente para tentar de novo. Quando o fez, as respostas se
apresentavam no lado direito da tela praticamente antes que ela
terminasse. 'Vocs so as Sombras?' 'Sim.' 'Vocs so a mesma coisa que
o P de Lyra?' 'Sim.' 'E que a matria escura?' 'Sim.' 'A matria escura
tem conscincia?' 'Evidentemente.' 'O que eu disse hoje a Oliver, a
minha idia sobre a evoluo humana, est' 'Correta. Mas voc  precisa
fazer mais perguntas.' Ela parou, respirou fundo, empurrou a cadeira
para trs, flexionou os dedos. Sentia o corao disparado. Aquilo que
estava acontecendo era impossvel: toda a sua educao, todos os seus
hbitos mentais, todo o seu senso de si mesma como cientista berravam
com ela silenciosamente: isto est errado! No est acontecendo! Voc
est sonhando! No entanto, ali #283 estavam aquelas coisas na tela: as
suas perguntas e as respostas de alguma outra mente. Ela se controlou e
tornou a digitar, e novamente as respostas surgiram sem uma pausa
discernvel. 'A mente que est respondendo no  humana, ?' 'No. Mas
os humanos sempre souberam de ns.' 'Ns? Ento existe mais de um?'
'Milhes e milhes.' 'Mas quem so vocs? ' 'Anjos.' A Dra. Malone
sentiu a cabea girar. Ela fora educada como catlica -mais que isso:
como Lyra havia constatado, ela j tinha sido freira. Nada lhe restava
agora de sua f, mas ela j sabia dos anjos. Santo Agostinho disse:
"Anjo  o nome do trabalho deles, no da natureza deles. Se voc
procurar o nome da natureza deles, esse nome  esprito; se procurar o
nome do trabalho deles, esse nome  anjo; o que eles so, esprito; o
que eles fazem, anjo." Zonza, trmula, ela tornou a digitar: 'Os anjos
so criaturas de matria-de-Sombra?' 'Estruturas. Complexificaes.' 'De
P?' 'Sim.' 'E a matria-de-Sombra  o que chamamos de esprito?' 'Pelo
que somos, esprito. Pelo que fazemos, matria. Matria e esprito so
uma coisa s.' Ela estremeceu -estavam escutando os seus pensa-mentos!
#284 'E vocs interferiram na evoluo humana?' 'Sim.' 'Por qu? '
'Vingana.' 'Vingana de... Anjos rebeldes! Depois da guerra no Cu,
Satans e o jardim do den... Mas (...)' 'Ah, Encontre a menina e o
menino. No perca tempo. Voc precisa bancar a serpente.' '(...) isso
no  verdade, ?' '' 'isso que vocs... Mas por qu?' Ela tirou as
mos do teclado e esfregou os olhos. Quando tornou a olhar, as palavras
ainda estavam l. ' V a uma rua chamada Avenida Sunderland e procure
uma tenda. Engane o guardio e atravesse. Leve provises para uma longa
viagem. Voc estar protegida. Os espectros no lhe faro mal.' 'Onde
Mas eu' 'Antes de ir, destrua este equipamento.' 'No compreendo -por
que eu? Que viagem  essa?' 'Voc vem se preparando para isto desde que
nasceu. Seu trabalho aqui chegou ao fim. A ltima coisa que voc tem a
fazer neste mundo  impedir que os inimigos tomem o controle. Destrua
este equipamento. Faa isto agora mesmo e parta imediatamente.' Mary
Malone empurrou a cadeira para trs e levantou-se, trmula. Apertou as
tmporas com os dedos e descobriu os #285 eletrodos ainda presos  pele.
Tirou-os sem prestar ateno. Podia ter duvidado do que tinha feito e
daquilo que ainda podia ver na tela, mas na ltima meia hora ela havia
passado para alm da dvida e da credulidade. Alguma coisa tinha
acontecido, e ela estava eletrizada. Desligou o detector e o
amplificador. Ento anulou todos os cdigos de segurana e formatou o
disco rgido do computador, esvaziando-o por completo; depois removeu a
interface entre o detector e o amplificador, que era um carto
especialmente adaptado; colocou o carto sobre a mesa e destruiu-o com o
salto do sapato, pois nada havia de pesado  mo. Em seguida desligou a
fiao entre o escudo eletromagntico e o detector; encontrOU a planta
da fiao numa gaveta do arquivo e colocou fogo nela. Havia mais alguma
coisa que podia fazer? No podia fazer coisa alguma a respeito do
conhecimento que Oliver Payne tinha do programa, mas a aparelhagem
especial estava destruda. Enfiou alguns papis de uma gaveta dentro da
pasta e finalmente tirou da parede o cartaz com os hexagramas do I
Ching, que dobrou e guardou no bolso. Depois apagou a luz e saiu. O
segurana estava parado ao p da escada, falando ao telefone. Guardou o
aparelho assim que ela desceu e acompanhou-a em silncio at a entrada
lateral, observando atravs da porta de vidro at o carro dela
desaparecer. Uma hora e meia mais tarde, ela encostoU o carro numa rua
perto da Avenida Sunderland. Tinha sido necessrio procurar a rua num
mapa de Oxford, pois no conhecia essa parte da cidade. At esse momento
ela vinha agindo movida pela empolgao acumulada, mas ao sair do carro
na escurido da madrugada e sentir o ar noturno, frio e silencioso, e a
imobilidade  sua volta, ela teve um momento de apreenso. E se #286
estivesse sonhando? E se aquilo tudo fosse uma complicada brincadeira de
algum? Bem, era tarde demais para se preocupar com isso. Ela j estava
envolvida. Pegou a mochila que tantas vezes carregara em excurses na
Esccia e nos Alpes, e refletiu que pelo menos sabia sobreviver no mato;
se o pior acontecesse, podia sempre fugir correndo, ir para as
montanhas... Ridculo. Colocou a mochila nas costas, deixou o carro e
entrou na Rua Banbury, e caminhou 200 ou 300 metros pela Avenida
Sunderland, que comeava  esquerda do trevo. Nunca na vida ela havia se
sentido to tola. Mas ao virar a esquina e ver aquelas rvores
estranhas, com formato de criana, que Will tinha visto, ela constatou
que pelo menos alguma coisa era verdade: sob as rvores, na grama no
lado oposto da rua havia uma pequena tenda quadrada de nilon vermelho e
branco, do tipo que os eletricistas erguem para proteger-se da chuva
enquanto trabalham, e estacionado ali perto havia um caminho branco, do
departamento de transito, com vidros escuros nas Janelas. Melhor no
hesitar. Ela atravessou diretamente para a tenda. Quando estava quase
l, a porta traseira do furgo abriu-se e dali saiu um policial. Sem o
capacete ele parecia muito jovem, e a luz do poste brilhava em seu
rosto. -Posso saber aonde vai, senhora? -perguntou. -Entrar nesta tenda.
-Infelizmente no  possvel, senhora. Tenho ordens de no deixar
ningum entrar . -timo! -ela exclamou. -Que bom que mandaram proteger
este lugar. Mas sou do Departamento de Cincias Fsicas. Sir Charles
Latrom nos pediu para fazer uma avaliao preliminar #287 e redigir um
relatrio antes que comecem a pesquisa.  importante que isso seja feito
a esta hora, enquanto no h muita gente na rua. Tenho certeza de que
voc compreende os motIvos. -Bem, sim -disse ele. -Mas a senhora tem
alguma identificao? -Ah, claro -ela afirmou. E tirou a mochila das
costas, para pegar a bolsa. Entre as coisas que tinha tirado da gaveta
no laboratrio estava um carto da biblioteca, j vencido, de Oliver
Payne. Com 15 minutos de trabalho, sentada  mesa da sua cozinha, ela
havia utilizado a foto do seu prprio passaporte para produzir um
documento que ela esperava que passasse por genuno. O policial pegou o
carto de plstico e estudou-o atentamente. -Dra. Oliver Payne -leu.
-Por acaso a senhora conhece uma Dra. Mary Malone? -Ah, sim,  uma
colega. -Sabe onde ela est agora? -Em casa, na cama, se tiver juzo.
Por qu? -Bem, me disseram que ela no trabalha mais na sua organizao
e no tem permisso para passar por aqui. Na verdade, temos ordens para
prender a doutora se ela tentar. E, ao ver uma mulher, naturalmente
pensei que s podia ser ela, entende? Desculpe, Dra. Payne. -Ah, entendo
-disse Mary Malone. O policial tornou a examinar o carto. -Bem, isto
parece correto -disse, e devolveu-o. Nervoso, com vontade de falar, ele
continuou: -Sabe o que existe ali, dentro desta tenda? -Bem, s de ouvir
falar -ela respondeu. -Por isso estou aquI. #288 -Imagino que sim. Muito
bem, Dra. Payne. O guarda deu um passo para o lado e deixou que ela
desatasse a proteo que fechava a porta da tenda. Ela esperava que ele
no notasse o tremor de suas mos. Segurando a mochila contra o peito,
ela entrou. Engane o guardio -ela havia feito isso; mas no tinha idia
do que encontraria dentro da tenda. Estava preparada para algum tipo de
escavao arqueolgica, um cadver, um meteorito -mas nada em sua vida
ou em seus sonhos a tinha preparado para aquele quadrado de cerca de um
metro em pleno ar, ou para a cidade adormecida e silenciosa  beira-mar
que ela encontrou quando o atravessou. #289 13 SAHTTR QuandO a lua
nasceu, as bruxas deram incio ao feitio para curar os ferimentos de
Will: acordaram o menino e pediram-lhe para colocar a faca no cho, num
local onde ela pudesse pegar um raio de luz das estrelas. Lyra estava
sentada ali perto, mexendo um caldeiro de gua fervente com algumas
ervas sobre uma fogueira; Serafina agachou-se junto  faca e, enquanto
as suas companheiras batiam palmas, batiam com o p no cho e soltavam
gritos ritmados, comeou a cantar em tom alto e estridente: "Pequena
Faca! Arrancaram teu ferro das entranhas da me Terra, fizeram uma
fogueira e ferveram o minrio, fizeram-no chorar e sangrar e
transbordar, teu ferro foi martelado, foi temperado, mergulhado em gua
glida, aquecido dentro da forja at tua lmina ter a cor
vermelho-sangue, crestante! Ento fizeram-te ferir a gua outra vez, e
mais outra, #290 at o vapor tornar-se nvoa fervente e a gua clamar
por misericrdia. E quando tu cortaste uma nica sombra em 30 mil
sombras, ento souberam que estavas pronta, ento chamaram-te: a sutil.
Mas, pequena faca, que foi que fizeste? Abriste portais de sangue,
deixando-os escancarados! Pequena faca, tua me te chama, das entranhas
da Terra, de suas minas e cavernas mais profundas, de seu secreto ventre
de ferro. Escuta! E Serafina ps-se a bater o p no cho e a bater
palmas com as outras bruxas, que ululavam, suas vozes rascantes
arranhando o ar como garras. Will, sentado no meio delas, sentiu um
arrepio no cerne do seu corpo. Ento Serafina Pekkala virou-se para o
menino e tOmou a mo ferida entre as suas. Dessa vez, quando ela cantou
ele quase fez uma careta, to penetrante era a voz alta e clara, to
brilhantes eram os olhos dela; mas continuou sentado, imvel, deixando
que o feitio seguisse seu curso. Sangue! Obedece-me! Faz meia-volta,
sendo um lago e no um rio. Quando chegares ao ar livre, pra! E
constri uma parede coagulada, Que seja firme, para conter a enchente.
Sangue, teu cu  o domo do crnio, teu sol  o olho aberto, teu vento,
o ar dentro dos pulmes. Sangue, teu mundo  limitado; fica dentro dele!
#291 Will conseguia sentir todos os tomos do seu corpo respondendo ao
comando dela, e ento juntou-se a eles, forando o sangue que gotejava a
escutar e obedecer. Ela largou a mo de Will e se virou para o pequeno
caldeiro de ferro sobre o fogo. Dele subia um vapor acre - Will ouvia o
lquido borbulhando violentamente. Serafina cantou: "Casca de carvalho,
seda de aranha, musgo modo, erva-barrilheira: agarrem-se com firmeza,
unam-se com fora, tranquem a porta, travem o porto, reforcem a parede
de sangue, estanquem a enchente sangrenta. Ento a bruxa pegou um broto
de amieiro e, com sua prpria faca, partiu-o em dois no sentido do
comprimento. A alvura do cerne, exposta, brilhava ao luar .Ela colocou
um pOUCO do lquido quente em cada metade e tornou a junt-las,
pressionando um lado contra o outro em toda a extenso do corte. E o
raminho ficou inteiro de novo. Will ouviu um som vindo de Lyra e
virou-se, para ver outra bruxa segurando uma lebre, que se contorcia e
se debatia nas mos fortes da mulher. O animal ofegava, de olhos
arregalados, chutando furiosamente, mas as mos da bruxa eram
implacveis: uma delas segurava a lebre pelas patas da frente e a outra
pelas patas traseiras, mantendo o frentico animal estendido de barriga
para cima. A faca de Serafina deslizou sobre ele. Will sentiu uma
vertigem; Lyra, por sua vez, segurava Pantalaimon -em forma de lebre,
para mostrar-se solidrio -que tentava #292 desvencilhar-se de suas
mos. A verdadeira lebre imobilizou-se, os olhos saltados, o peito
ofegante, as entranhas brilhando. Mas Serafina deixou cair um pouco do
lquido do caldeiro dentro do corte aberto na barriga da lebre e ento
fechou-o com os dedos, alisando sobre ele os plos molhados at no
haver mais qualquer sinal do corte. A bruxa que segurava o animal
colocou-o no cho com delicadeza; ele se sacudiu, virou-se para lamber o
flanco, mexeu as orelhas e foi mordiscar um pedao de capim como se
estivesse sozinho. De repente pareceu perceber o crculo de humanos 
sua volta e como uma flecha fugiu dali, inteiramente refeito, saltando
velozmente para dentro da escurido. Lyra, acalmando Pantalaimon, olhou
de relance para Will e viu que ele sabia o que aquilo significava: o
remdio estava pronto. Ele estendeu a mo e Serafina passou a mistura
quente nos tocos sangrentos, enquanto ele desviava os olhos e respirava
fundo algumas vezes, mas sem se queixar. Depois que a carne viva estava
inteiramente encharcada, a bruxa pressionou sobre os ferimentos as ervas
tiradas do caldeiro e fechou tudo com uma faixa de seda. Pronto: o
feitio estava feito. Will dormiu profundamente pelo resto da noite.
Estava frio, mas as bruxas empilharam folhas sobre o seu corpo, e Lyra
dormiu aninhada junto s suas costas. Na manh seguinte, Serafina refez
o curativo; e ele tentou ler no rosto dela se o ferimento estava
melhorando, mas a bruxa se mostrava tranqila e impassvel. Depois que
comeram alguma coisa, Serafina contou-lhes: as bruxas tinham concordado
que, j que tinham vindo a esse mundo para encontrar Lyra e tomar conta
dela, iriam ajudar #293 a menina a fazer aquilo que ela agora sabia ser
a sua misso: levar Will at o pai dele. Assim, partiram; e a viagem foi
tranqila em sua maior parte. Para comear, Lyra consultou o aletmetro,
mas com cautela, e ficou sabendo que deveriam viajar na direo das
montanhas distantes, visveis do outrO lado da grande baa. Nunca tendo
chegado to alto acima da cidade, os dois no tinham conscincia do modo
como a costa se curvava e das montanhas que se encontravam abaixo do
horizonte; mas agora eles avistavam, onde as rvores escasseavam ou onde
um declive se abria aos ps dos viajantes, o mar deserto da baa, at as
altas montanhas azuis que eram o seu destino. Elas pareciam muito
distantes. Os dois no conversaram muito. Lyra ocupava-se em observar a
vida na floresta, desde pica-paus at esquilos e cobrinhas de losangos
nas costas, e Will precisava de toda a sua energia simplesmente para
continuar andando. Lyra e Pantalaimon falavam a respeito dele
incessantemente. -Bem que ns podamos consultar o aletmetro -disse
Pantalaimon, em certo momento em que os dois tinham ficado para trs
para ver at que pontO conseguiriam aproximar-se de um cervo antes que
este os visse. -No prometemos no fazer isso. E poderamos descobrir
todo tipo de coisas para ele. Seria por ele, no por ns. -No seja
estpido -retrucou Lyra. -Seria por ns, porque ele nunca perguntaria.
Voc  curioso e intrometido, Pan. -J  uma mudana. Normalmente  voc
quem  curiosa e intrometida, e sou eu quem tem que lhe dizer para no
fazer certas coisas. Como na Sala Privativa na Jordan. Eu no queria
entrar l. #294 -Se a gente no tivesse entrado, Pan, acha que tudo isso
teria acontecido? -No. Porque o Reitor teria envenenado Lorde Asriel, e
tudo ia acabar ali mesmo. -, talvez... Quem voc acha que  o pai do
Will? E por que ser que ele  importante? - isso que eu estava
dizendo! Podemos descobrir num instante! Ela pareceu hesitar.
-Antigamente, eu at faria isso. Mas estou mudando, eu acho, Pan. -No
est, no. -Vocpode no estar... Ei, Pan, quando eu mudar, voc vai
parar de mudar. O que  que vai ser? -Uma pulga, espero. -Voc no tem
nenhum pressentimento do que vai ser? -No, e nem quero ter. -Voc est
chateado porque eu no vou fazer o que voc quer. Ele se transformou num
porco e grunhiu, berrou e roncou at que ela risse, e ento mudou para
um esquilo e correu por entre os ramos ao lado dela. -E voc, quem voc
acha que o pai dele ? -Pantalaimon quis saber. -Acha que  algum que
ns j conhecemos? -Podia ser. Mas deve ser algum importante, quase to
importante quanto Lorde Asriel. Tem que ser. Sabemos que o que ns
estamos fazendo  importante, afinal. -No sabemos, no -retorquiu
Pantalaimon. - Achamos que sabemos, mas no temos certeza. Simplesmente
resolvemos procurar o P porque o Roger morreu. #295 -Ns sabemos que 
importante, sim! -Lyra exclamou com veemncia, chegando abater o p no
cho. -E as bruxas tambm sabem. Elas viajaram at aqui para nos
procurar, s para tomar conta de mim e me ajudar! E temos que ajudar
Will a encontrar o pai dele. Isso  importante mesmo. Voc sabe que ,
seno no teria dado aquelas lambidas nele quando ele se feriu. Alis,
por que voc fez aquilo? Nem me perguntou se podia! No consegui
acreditar quando vi. -Fiz porque ele no tem daemon e estava precisando
de um. E se voc tivesse metade do talento que pensa que tem para
perceber as coisas, saberia disso. -No fundo eu sabia. Pararam de falar
porque alcanaram Will, que estava sentado numa pedra ao lado da trilha.
Pantalaimon transformou-se num papa-moscas e passou a voar no meio dos
galhos. Lyra perguntou: -Will, que ser que as crianas vo fazer agora?
-No vo nos seguir. Esto com muito medo das bruxas. Talvez continuem
por a, andando sem rumo. -, talvez... Mas podem querer usar a faca.
Podem vir atrs de ns. -Que venham. No vo conseguir. No princpio eu
no queria ficar com a faca. Mas se ela mata Espectros... -Nunca confiei
na Anglica, desde o princpio -Lyra afirmou virtuosamente. -Confiou,
sim -ele rebateu. -. Confiei mesmo... No fim eu estava odiando aquela
cidade. -Eu pensei que era o paraso, quando cheguei l. No podia
imaginar coisa melhor. E o tempo todo aquele lugar estava cheio de
Espectros, e agente nem sabia... #296 -Bom, no vou mais confiar em
crianas -Lyra declarou. -L em Bolvangar eu pensava que, por mais
maldades que os adultos fizessem, as crianas eram diferentes, no eram
capazes de tanta crueldade. Mas agora no tenho certeza. Nunca tinha
visto crianas como essas,  verdade. -Eu j -disse Will. -Quando? No
seu mundo? - -fez ele, embaraado. Lyra esperou, imvel, at que ele
continuou: -Foi quando a minha me estava tendo outra fase ruim. Ela e
eu, agente era s, entende, porque obviamente o meu pai no estava l. E
de vez em quando ela comeava a dizer coisas que no eram verdade. E de
vez em quando comeava a pensar coisas que no eram verdade. E tinha que
fazer coisas que no faziam sentido, pelo menos para mim. Quer dizer,
ela precisava fazer essas coisas, seno ficava to perturbada, com medo
de tudo, ento eu ajudava ela. Como tocar em todas as ripas da grade em
volta do parque, ou contar as folhas de um arbusto, esse tipo de coisa.
Depois de algum tempo ela melhorava. Mas eu tinha medo de algum
descobrir, porque achava que podiam levar ela, de modo que eu tomava
conta dela e escondia isso de todo mundo. Nunca contei a ningum. Uma
vez ela ficou com medo quando eu no estava. Eu estava na escola. E
ento ela saiu, estava quase sem roupa, s que no sabia disso. E alguns
meninos da minha escola, eles viram e comearam... Will tinha o rosto
vermelho. Sem conseguir controlar-se, ele comeou a andar de um lado
para outro, desviando os olhos de Lyra, porque tinha a voz instvel e os
olhos cheios d'gua. Mas prosseguiu: -Estavam atormentando ela,
igualzinho queles meninos na Torre com agata... Acharam que ela era
louca e queriam #297 machucar ela, talvez at matar, isso no seria
surpresa. Simplesmente ela era diferente, e eles tinham dio disso. De
qualquer maneira, eu encontrei ela e levei para casa. E no dia seguinte
na escola briguei com o garoto que era o lder da turma. Lutei com ele,
quebrei o brao dele e acho que alguns dentes tambm, no sei. E ia
brigar com o resto da turma, mas comecei a pensar e vi que era melhor
parar, porque, se as autoridades ou os professores ficassem sabendo, iam
procurar minha me para fazer queixa, e ento iam descobrir como ela era
elevar ela embora. Ento fingi que estava arrependido e disse aos
professores que no ia fazer de novo, eles me castigaram por ter brigado
e eu no disse nada. Mas minha me ficou em segurana, entende? Ningum
sabia, alm daqueles meninos, e eles sabiam o que eu faria se dissessem
alguma coisa; sabiam que um dia eu ia matar eles todos, no ia s
machucar. E logo depois ela melhorou outra vez. Ningum nunca ficou
sabendo. Mas depois disso deixei de confiar mais nas crianas do que nos
adultos. So igualmente maus. De modo que no fiquei surpreso quando
aquelas crianas de Ci'gazze fizeram aquilo. Ele tornou a se sentar, de
costas para Lyra. -Mas gostei quando as bruxas vieram -arrematou. Sem
olhar para Lyra, ele enxugou os olhos com a mo. Ela fingiu no
perceber. -Will, o que voc contou sobre a sua me... E Tullio, quando
os Espectros pegaram ele... E ontem, quando voc disse que achava que os
Espectros vieram do seu mundo... -. Porque no faz sentido, o que
estava acontecendo com ela. Ela no  louca. Aqueles meninos podiam
achar que ela era louca, zombar e querer machucar ela, mas estavam
enganados; ela no  louca. S que tinha medo de umas coisas que eu no
conseguia enxergar. E tinha que fazer coisas que #298 pareciam malucas,
eu no conseguia entender o motivo, mas obviamente ela entendia. Como
contar todas as folhas, feito o Tullio, ontem, tocando nas pedras do
muro. Talvez seja um modo de tentar afastar os Espectros. Se a pessoa
desse as costas a alguma coisa que a amedrontava e tentasse se
interessar realmente pelas pedras ou pelo desenho delas, ou pelas folhas
da rvore, se conseguisse achar que aquilo era realmente importante,
estaria segura. No sei. Parece isso. Mame tinha medo de coisas reais,
como aqueles homens que nos roubaram, mas havia mais alguma coisa. De
modo que talvez agente tenha Espectros no meu mundo, s que ningum
consegue ver, e ns no demos nome a eles, mas eles esto l, e no
param de tentar atacar a minha me. Foi por isso que fiquei contente
ontem, quando o aletmetro disse que ela est bem. Ele tinha a
respirao acelerada, a mo direita agarrada ao cabo da faca em sua
bainha. Lyra nada disse, e Pantalaimon ficou imvel. -Quando foi que
soube que tinha que ir procurar o seu pai? -ela perguntou depois de um
momento. -H muito tempo -ele contou. -Eu costumava fingir que ele
estava prisioneiro e eu ia ajudar ele a fugir. Brincava sozinho durante
horas, durante dias. Ou ento ele estava numa ilha deserta e eu ia at
l de barco e levava ele para casa. E ele ia saber exatamente o que era
preciso fazer, especialmente com a minha me, e ela ia melhorar e ele ia
cuidar dela e de mim, e eu ia poder simplesmente ir  escola e ter
amigos, e ia ter um pai e uma me. Ento eu sempre dizia para mim mesmo
que, quando crescesse, ia sair para procurar meu pai... E a minha me
costumava me dizer que eu ia portar o manto do meu pai. Ela dizia isso
para me deixar feliz. Eu no sabia o que isso queria dizer, mas parecia
importante. #299 -Voc no tinha amigos? -Como  que eu podia ter
amigos? -ele perguntou, realmente sem saber. -Amigos... Eles entram na
casa da gente, ficam conhecendo os pais da gente e... s vezes um garoto
me convidava para ir  casa dele, e eu at podia aceitar, mas nunca
poderia retribuir o convite. Ento nunca tive amigos. Eu gostaria... Eu
tinha a minha gata- continuou. -Espero que ela esteja bem. Espero que
algum esteja tomando conta dela... -E o homem que voc matou? -Lyra
perguntou, o corao batendo com fora. -Quem era? -No sei. Se matei,
no me importo. Ele merecia. Eram dois. Iam l em casa atormentar a
minha me at ela ficar com medo de novo, cada vez pior. Eles queriam
saber tudo sobre o meu pai, e no deixavam ela em paz. No sei se eram
policiais ou o que eram. No princpio pensei que faziam parte de uma
quadrilha de bandidos, que achavam que meu pai tinha roubado um banco,
talvez, e escondido o dinheiro. Mas eles no queriam dinheiro, queriam
papis. Queriam algumas cartas que o meu pai tinha mandado. Um dia
arrombaram a casa, e ento eu vi que seria mais seguro se a minha me
fosse para outro lugar. Entende, eu no podia ir pedir ajuda  polcia,
porque iriam levar minha me embora. Eu no sabia o que fazer. Will
parou de falar por um instante. -Finalmente procurei uma senhora que
tinha sido minha professora de piano -retomou. -Na hora s me lembrei
dela. Perguntei se a minha me podia ficar, e deixei ela l. Acho que
ela vai cuidar dela direito. De qualquer maneira, voltei para casa para
procurar as tais cartas, porque eu sabia onde elas estavam. Peguei as
cartas e os homens chegaram e tornaram a invadir a casa. Era de noite,
ou de madrugada. Eu #300 estava escondido no sto, e Moxie, a minha
gata Moxie, ela saiu do quarto sem eu ver, nem o homem viu, e quando
pulei em cima dele ele tropeou nela e rolou escada abaixo... e eu fugi
correndo. Foi o que aconteceu. Eu no pretendia matar ele, mas no me
importo se ele morreu. Fugi e vim para Oxford e encontrei aquela janela.
E isso tudo s aconteceu porque eu vi a outra gata e parei para ficar
olhando, e ela encontrou a janela primeiro. Se eu no tivesse visto
aquela gata... ou se Moxie no tivesse sado do quarto naquele
instante... -, foi sorte -comentou Lyra. -E eu e Pan estvamos pensando
agora mesmo: se eu no tivesse entrado no armrio da Sala Privativa da
Jordan e visto o Reitor colocar veneno no vinho, nada disso teria
acontecido, tambm... Ficaram ambos sentados em silncio na pedra
coberta de musgo, sob os raios oblquos do sol atravs dos velhos
pinheiros, pensando em quantos acontecimentos casuais nfimos tinham
conspirado para levar os dois at esse lugar. Cada um desses
acontecimentos casuais poderia ter tido um desfecho diferente. Talvez
outro Will, em outro mundo, no percebesse a janela na Avenida
Sunderland e sasse a vagar em direo s Midlands, perdido e exausto,
at ser apanhado. E em outro mundo, talvez outro Pantalaimon tivesse
convencido outra Lyra a no entrar na Sala Privativa, e outro Lorde
Asriel tivesse sido envenenado, e outro Roger tivesse sobrevivido para
brincar para sempre com aquela Lyra sobre os telhados e pelos becos de
uma Oxford diferente e imutvel. Finalmente Will estava suficientemente
descansado para continuar caminhando, e os dois seguiram viagem,
rodeados pelo silncio profundo da floresta. Viajaram durante todo o
dia; descansavam, avanavam, tornavam a descansar, enquanto as rvores
iam ficando mais #301 escassas e o terreno, mais pedregoso. Lyra
consultoU o aletmetro, que instruiu: continuem, esta  a direo
correta. Ao meio-dia chegaram a uma aldeia que os Espectros no
pertUrbavam: cabras pastavam nas encostas, uma plantao de limoeiros
jogava sombras no solo e algumas crianas que brincavam num riacho
correram para suas mes ao verem a menina de roupas esfarrapadas e o
menino de rosto plido e feroz e com a camisa suja de sangue, e mais o
elegante galgo que os acompanhava. Os adultos mostraram-se cautelosos,
mas dispostoS a vender-lhes po, queijo e frutas em troca de uma das
moedas de ouro de Lyra. As bruxas ficaram fora de vista, embora as duas
crianas soubessem que num segundo elas estariam ali se surgisse algum
perigo. Lyra, depois de muito pechinchar , conseguiu que uma anci lhes
vendesse dois cantis de pele de cabra e uma bela camisa de linho, pela
qual Will trocou com alvio a sua camiseta imunda, depois de se lavar no
riacho gelado e se deitar ao sol quente para secar. Refeitos, os dois
seguiram viagem. O terreno agora era mais inspito; sombra, s a das
rochas, pois no havia rvores, e o calor do solo atravessava a sola dos
sapatos. O sol doa-lhes nos olhos.  medida que subiam, os dois
avanavam cada vez mais devagar; quando o sol tOCOU na crista das
montanhas e eles viram um pequeno vale abrir-se a seus ps, resolveram
no ir mais longe. Desceram a encosta s pressas, quase perdendo o
equilbrio mais de uma vez, e depois tiveram que atravessar um campo de
rododendros-anes, as folhas escuras e brilhantes e os cachos de flores
carmim pesados com o zumbido das abelhas, antes de sarem para uma
campina aberta ao crepsculo, ao longo de um riacho. O solo ali era de
um capim que #302 chegava aos joelhos, pontilhado de centureas azuis,
gencianas e qinqeflios. Will bebeu bastante gua no riacho e depois
deitou-se. No conseguia ficar acordado e tampouco conseguia dormir; a
cabea girava, uma aura de estranheza rodeava todas as coisas, sua mo
doa e latejava. E, pior, tinha recomeado a sangrar. Serafina examinou
sua mo, colocou mais ervas sobre os ferimentos e apertou a atadura de
seda com mais fora, mas dessa vez tinha a fisionomia perturbada. Ele
no quis fazer perguntas, de que adiantaria? Era evidente que o feitio
no tinha funcionado, e ele se dava conta de que ela sabia disso tambm.
Assim que escureceu, ele sentiu Lyra vir deitar-se perto dele, e logo
ouviu um ronronar suave: o daemon dela, em forma de gato, cochilava com
as patas dobradas a menos de um metro dele, e Will sussurrou:
-Pantalaimon? O daemon abriu os olhos. Lyra no se mexeu. Pantalaimon
murmurou: -Sim? -Pan, eu vou morrer? -As bruxas no vo deixar voc
morrer. Lyra tambm no vai. -Mas o feitio no funcionou. Eu no paro
de perder sangue. No deve ter sobrado muito. E continua sangrando, no
quer parar. Estou com medo... -Lyra acha que voc no est. -Acha? -Ela
acha que voc  o guerreiro mais corajoso que ela j viu, to corajoso
quanto Iorek Byrnison. #303 -Ento  melhor eu tentar no fazer cara de
assustado -Will declarou. Depois de ficar em silncio por um instante,
continuou: -Acho que Lyra  mais corajosa que eu. Acho que  a melhor
amiga que eu j tive. -Ela pensa a mesma coisa de voc -cochichou o
daemon. Finalmente Will fechou os olhos. Lyra estava imvel, mas tinha
os olhos abertos na escurido, e o seu corao batia com fora. Quando
Will tornou a dar por si, estava completamente escuro, e sua mo doa
mais que nunca. Ele se sentou com cuidado e viu uma fogueira acesa no
muito longe, onde Lyra estava tentando tostar po num galho em
forquilha. Havia tambm alguns pssaros assando num espeto, e quando
Will se aproximou Serafina Pekkala pousou. -Will, coma estas folhas
antes de comer qualquer outra coisa. Deu-lhe um punhado de folhas de
sabor levemente amargo, um pouco parecido com salva, que ele mastigou em
silncio e forou-se a engolir. Eram ligeiramente picantes, mas ele se
sentiu melhor, mais desperto e menos friorento. Comeram os pssaros
assados, temperando-os com suco de limo; uma bruxa trouxe algumas
cerejas que ela havia encontrado, e ento as bruxas reuniram-se em volta
do fogo. Conversavam em voz baixa; algumas delas tinham voado bem alto,
para espionar, e uma tinha visto um balo sobre o mar. Lyra
endireitou-se no mesmo instante. -O balo do Sr. Scoresby? -quis saber .
-Havia dois homens nele, mas estavam distantes demais para eu distinguir
quem eram. Atrs deles estava se formando uma tempestade. #304 Lyra
bateu palmas. -Se o Sr. Scoresby est chegando, vamos poder voar , Will!
Ah, tomara que seja ele! Eu nem me despedi dele, e ele foi to bacana...
Queria ver ele de novo, queria mesmo... A bruxa Juta Kamainen estava
prestando ateno, com seu daemon-tordo de peito vermelho e olhos
brilhantes empoleirado em seu ombro, porque a meno de Lee Scoresby lhe
lembrara a busca que ele tinha partido para fazer. Ela era a bruxa que
tinha se apaixonado por Stanislaus Grumman, que desdenhara o seu amor -a
bruxa que Serafina Pekkala tinha trazido para este mundo para impedir
que ela o matasse em seu prprio mundo. Serafina poderia ter percebido,
mas aconteceu alguma coisa; ela ergueu a mo e a cabea, assim como
todas as outras bruxas. Will e Lyra escutavam muito vagamente, vindo do
norte, o grito de um pssaro noturno. Mas no era um pssaro comum: as
bruxas reconheceram instantaneamente um daemon. Serafina Pekkala
levantou-se, olhando atentamente para o cu. -Acho que  Ruta Skadi
-disse. Ficaram imveis, as cabeas de lado, voltadas para o grande
silncio, esforando-se para ouvir . Veio ento outro grito, j mais
perto, e ento um terceiro; diante disso, todas as bruxas pegaram seus
galhos e saltaram para o ar -exceto duas, que ficaram bem prximas,
flechas preparadas nos arcos, protegendo Will e Lyra. Em algum lugar na
escurido l em cima havia uma batalha. E pareceu-lhes ter-se passado
apenas um instante quando ouviram sons de luta, assobios de flechas e
gritos de dor, de raiva ou de comando. E ento, com um estrondo to
sbito que eles no tiveram tempo de saltar para trs, uma criatura caiu
do cu a seus ps: #305 um animal de pele semelhante a couro e pelagem
encardida, que Lyra reconheceu como um avantesma-do-penhasco ou algo
semelhante. O animal tinha sofrido na queda, e tinha uma flecha enfiada
no flanco, mas virou-se e tentou atacar Lyra com malcia. As bruxas no
podiam atirar porque Lyra estava na linha de fogo; mas Will chegou
primeiro, e com a faca cortou fora a cabea da criatura, que rolou para
longe; o ar que ainda havia nos pulmes da fera escapou com um som
borbulhante, e ela caiu morta. Eles tornaram a olhar para o cu, pois a
batalha agora se desenrolava mais perto do solo, e a luz da fogueira
mostrava redemoinhos de seda negra, membros plidos, ramos verdes de
pinheiro-nubgeno, couro descamado, marrom-acinzentado. Como as bruxas
conseguiam manter o equilbrio durante as manobras sbitas, e ainda por
cima fazer pontaria e atirar, era algo acima da compreenso de Will.
Outro avantesma caiu, depois um terceiro caiu no riacho ou nas pedras
prximas; e ento o resto do bando fugiu ruidosamente para a escurido
em direo ao norte. Momentos depois, Serafina Pekkala pousou com suas
bruxas e com mais uma: uma linda mulher de olhos ferozes e cabelos
negros, as mas do rosto ruborizadas de raiva e excitao. Essa bruxa
viu o avantesma sem cabea e cuspiu. -No vem do nosso mundo, nem deste
-declarou. -Abominaes nojentas. Existem milhares delas,
reproduzindo-se como moscas... Quem  esta menina,  a Lyra? E o menino,
quem ? Lyra devolveu-lhe o olhar impassvel, embora sentisse o corao
bater mais depressa, pois os nervos de Ruta Skadi #306 vibravam to
intensamente que provocavam um frmito nos nervos de qualquer pessoa que
chegasse perto dela. Ento a bruxa voltou-se para Will, que sentiu o
mesmo frmito de intensidade, mas como Lyra ele controlou sua expresso.
Ainda tinha a faca na mo; a bruxa viu o que ele tinha feito usando a
faca, e sorriu. Ele a enfiou na terra para limp-la do sangue da
criatura imunda e depois lavou-a no riacho. Ruta Skadi dizia: -Serafina
Pekkala, estou aprendendo muito; todas as coisas antigas esto mudando,
ou morrendo, ou vazias. Estou com fome... Ela comeu como um animal,
roendo o que sobrara dos pssaros assados e enfiando punhados de po na
boca, com a ajuda de grandes goles de gua do riacho. Enquanto ela se
alimentava, algumas bruxas carregaram para longe o corpo do avantesma e
refizeram a fogueira, depois montaram turnos de vigia. As outras vieram
sentar-se perto de Ruta Skadi, para escutar o que ela ia comear a
contar. A bruxa narrou o que acontecera depois que ela partiu voando
atrs dos anjos e a sua viagem at a fortaleza de Lorde Asriel. -Irms,
 o maior castelo que se pode imaginar. Muralhas de basalto chegando at
o cu, estradas largas descendo de todas as direes, por onde chegam
carregamentos de plvora, comida, placas de armadura; como ele conseguiu
isso? Acho que deve ter passado vrios anos, vrias eras, fazendo
preparativos. Ele vem preparando isso tudo desde antes de ns termos
nascido, irms, embora seja to mais jovem... Mas como pode ser isso?
No sei. No consigo entender. Acho que ele comanda o tempo, faz o tempo
andar depressa ou devagar, conforme a sua vontade. Depois de um silncio
ela continuou: #307 -Nessa fortaleza esto chegando guerreiros de todo
tipo, de todos os mundos. Homens e mulheres, sim, e espritos guerreiros
tambm, e criaturas armadas que eu nunca tinha visto. Lagartos e
macacos, e grandes pssaros com esporas venenosas, criaturas estranhas
demais para ter um nome que eu conseguisse adivinhar. E outros mundos
tm bruxas, sabiam disso, irms? Falei com bruxas que vieram de um mundo
como o nosso, mas profundamente diferente, pois aquelas bruxas no vivem
mais do que os nossos vidas-curtas, e havia homens, tambm, bruxos que
voam como ns... As bruxas do cl de Serafina Pekkala ouviam esse relato
com assombro, medo e incredulidade. Mas Serafina acreditava, e insistiu
para que Ruta Skadi continuasse. -Viu Lorde Asriel, Ruta Skadi?
Conseguiu chegar at ele? -Sim, consegui, e no foi fcil, pois ele vive
no centro de muitos crculos de atividade, e dirige todos eles. Mas
fiquei invisvel e consegui chegar ao aposento privativo dele, onde ele
estava se preparando para dormir . Todas as bruxas sabiam o que tinha
acontecido em seguida, mas nem Will, nem Lyra sonhavam com isso. De modo
que Ruta Skadi no viu necessidade de contar, e continuou: -Ento eu lhe
perguntei por que estava reunindo todas aquelas foras, e se era verdade
o que ouvimos sobre o seu desafio  Autoridade, e ele riu. Ele me
perguntou: ento falam disso na Sibria? E eu disse que sim, e em
Svalbard e em todas as regies do Norte, o nosso Norte; e contei sobre o
nosso pacto, e que eu tinha deixado o nosso mundo para procurar por ele.
E ento nos convidou para nos juntarmos a ele, irms. Para integrarmos o
seu exrcito contra a Autoridade. Eu desejava de todo o corao poder
nos comprometer a todas naquele momento; teria jogado o meu cl na
guerra com o corao satisfeito. #308 Ele me mostrou que a rebelio era
certa e justa, diante das coisas que os agentes da Autoridade fizeram em
nome dela... E pensei nas crianas de Bolvangar, e nas outras mutilaes
terrveis que vi nas nossas prprias terras meridionais; ele me contou
muitas outras crueldades feitas em nome da Autoridade. Em alguns mundos
eles capturam as bruxas e as queimam vivas, irms, sim, bruxas como
ns... Ela olhou em volta e prosseguiu: -Ah, irms, eu queria me lanar
nessa guerra com todo o meu cl! Mas sabia que devia consult-la
primeiro, Serafina Pekkala, e depois voar de volta ao nosso mundo e
conversar com Ieva Kasku, Reina Miti e as outras bruxas-rainhas. Ento
fiquei invisvel, peguei meu pinheiro-nubgeno e parti. Mas, antes de ir
muito longe, surgiu um grande vento que me jogou para o alto das
montanhas, e tive que me refugiar no topo de um penhasco. Conhecendo o
tipo de criaturas que vivem nos penhascos, tornei a ficar invisvel, e
escutei vozes na escurido. Parece que eu tinha ido parar no lugar onde
ficava o ninho do mais velho de todos os avantesmas-dos-penhascos. Ele
era cego, e os outros lhe traziam comida, carnia fedorenta, l do vale.
E lhe pediam orientao. Perguntavam e ele respondia: "Vov, at onde
vai a sua memria?" "At bem longe. Muito antes dos humanos", ele
respondeu. Tinha a voz baixa, frgil e alquebrada. " verdade que a
maior batalha de todas est para acontecer, vov?" ", sim, crianas.
Uma batalha maior do que a ltima. Um belo banquete para todos ns.
Sero dias de prazer e abundncia para todos os avantesmas de todos os
mundos." "E quem vai vencer, vov? Lorde Asriel vai derrotar a
Autoridade?" #309 "O exrcito de Lorde Asriel tem milhes de soldados,
vindos de todos os mundos", contou o velho avantesma. " um exrcto
maior do que aquele que lutou contra a Autoridade da ltima vez, e 
melhor dirigido. Quanto s foras da Autoridade, ora, elas so 100 vezes
maiores. Mas a Autoridade  muito velha, at muito mais velha do que eu,
crianas, e seus soldados esto assustados, ou ento complacentes. Seria
uma luta difcil, mas Lorde Asriel venceria, pois  apaixonado e
corajoso, e acredita que sua causa seja justa. Mas h uma coisa,
crianas. Ele no tem sahttr. Sem sahttr, ele e os seus exrcitos
sero derrotados. E ento vamos nos banquetear durante anos, minhas
crianas!". Ele riu e comeou a roer o osso fedorento que os outros
tinham levado, e todos guincharam de alegria. Ora, vocs podem imaginar
como eu me esforcei para escutar mais coisas sobre esse tal sahttr,
mas s conseguia ouvir o uivo do vento e um avantesma novinho
perguntando: "Se Lorde Asriel precisa de sahttr, por que no chama?".
E o velho avantesma respondeu: "Lorde Asriel sabe tanto quanto voc
sobre sahttr, criana! Esta  a piada! Pode rir bastante!" Ruta Skadi
mais uma vez olhou em volta. -Mas quando tentei chegar mais perto
daquelas coisas imundas, meu poder falhou, irms, no consegui ficar
invisvel por mais tempo. Os mais jovens me viram e deram o alarme, e
tive que fugir de volta para este mundo atravs da porta invisvel no
cu. Um bando deles veio atrs de mim, e aqueles corpos ali so os
ltimos. Mas  evidente que Lorde Asriel precisa de ns, irms. Seja
quem for esse sahttr, Lorde Asriel precisa de ns! Eu gostaria de
voltar a Lorde Asriel agora e dizer: no se preocupe, ns estamos
chegando, ns, as bruxas do Norte, vamos ajud-lo a vencer... Vamos
resolver isso agora, #310 Serafina Pekkala, vamos convocar um grande
conselho de todas as bruxas, de todos os cls, e guerrear! Serafina
Pekkala olhou para Will, que sentiu que ela lhe pedia permisso para
alguma coisa. Mas no sabia o que responder, e ela olhou de volta para
Ruta Skadi. -Ns, no-afirmou.-A nossa misso agora  ajudar Lyra, e a
misso dela  guiar Will at o pai dele. Voc deve voltar para l,
concordo, mas ns devemos ficar com Lyra. Ruta Skadi fez um gesto de
impacincia com a cabea. -Bom, se  preciso... -resmungou. Will
deitou-se, porque o ferimento estava doendo, muito mais do que no
incio. A mo inteira estava inchada. Lyra deitou-se tambm, com
Pantalaimon enrodilhado junto ao seu pescoo, e ficou contemplando o
fogo atravs das plpebras semicerradas, escutando, sonolenta, o
murmrio das bruxas. Ruta Skadi avanou um pouco riacho acima, e
Serafina Pekkala acompanhou-a. -Ah, Serafina Pekkala, voc devia ver
Lorde Asriel - disse baixinho a rainha da Ltvia. - o maior comandante
que j existiu. Tem cada detalhe bem ntido no crebro. Imagine quanta
ousadia, entrar em guerra contra o criador? Mas quem voc acha que pode
ser esse sahttr? Como  que nunca ouvimos falar dele? E como podemos
convenc-lo a se juntar a Lorde Asriel? -Talvez no seja "ele", irm.
Sabemos to pouco quanto o avantesma novinho. Talvez o av estivesse
zombando da ignorncia dele. Essa palavra parece significar
destruidor-de-deus, sabia disso? -Ento pode ser que sejamos ns,
Serafina Pekkala! E se formos, ento o exrcito dele ficar muito mais
forte com a nossa presena. Ah, que vontade de ver minhas flechas
matando #311 aqueles malvados de Bolvangar e de todas as Bolvangares em
todos os mundos! Irm, por que fazem isso? Em todos os mundos os agentes
da Autoridade esto sacrificando crianas ao seu deus cruel! Por qu?
Por qu? -Tm medo do P -disse Serafina Pekkala. -Mas no sei o que 
isso. -E esse menino que voc encontrou, quem ? De que mundo ele veio?
Serafina Pekkala contou-lhe tudo que sabia sobre Will. -No sei por que
ele  importante -concluiu. -Mas ns servimos a Lyra. E o instrumento
dela lhe diz que a misso dela  esta. E, irm, tentamos curar o
ferimento dele, mas fracassamos. Tentamos o feitio da coagulao, e no
funcionou. Talvez as ervas neste mundo sejam menos potentes do que as
nossas. Aqui  quente demais para o musgo-de-sangue crescer... -Ele 
estranho -Ruta Skadi comentou. - do mesmo tipo de Lorde Asriel. J
olhou bem nos olhos dele? -Para falar a verdade, no tive coragem
-confessou Serafina Pekkala. As duas rainhas sentaram-se em silncio
junto ao riacho. O tempo passou; algumas estrelas desapareceram, outras
nasceram. Algum soltou um gritinho enquanto dormia: era Lyra, sonhando.
As bruxas ouviram o ronco de uma tempestade e viram os raios sobre o mar
e o sop das montanhas, porm muito distante. Mais tarde Ruta skadi
perguntou: -E a menina Lyra, qual  o papel dela?  s esse? Ela 
importante porque pode levar o garoto at o pai?  mais que isso, no ?
-Isso  o que ela tem que fazer agora. Mas depois, sim, muito mais que
isso. O que ns, bruxas, dissemos sobre a #312 criana  que ela deveria
colocar um fim no destino. Bem, ns conhecemos o nome que iria torn-la
importante para a Sra. Coulter, e sabemos que a mulher no o conhece. A
bruxa que ela estava torturando no navio perto de Svalbard quase disse
qual era, mas Yambe-Akka chegou a tempo. Mas agora estou achando que
Lyra pode ser aquilo que voc ouviu os avantesmas falando, esse tal
sahttr. Nem as bruxas, nem aqueles seres-anjos, mas esta criana
adormecida: a arma definitiva numa guerra contra a Autoridade. Por que
mais a Sra. Coulter ficaria to ansiosa para encontr-la? -A Sra.
Coulter foi amante de Lorde Asriel -informou Ruta Skadi. -Claro, Lyra 
filha deles... Serafina Pekkala, se eu tivesse uma filha com ele, que
bruxa seria ela! A rainha das rainhas! -Psiu, irm -fez Serafina.
-Escute... E que luz  aquela? Elas ficaram de p, alarmadas, imaginando
se alguma coisa teria passado despercebida por elas, e viram um brilho
de luz vindo do local do acampamento: no era a fogueira, no tinha a
menor semelhana com a luz do fogo. Correram de volta sem fazer rudo,
as flechas j preparadas nos arcos, e estacaram derrepente. Todas as
bruxas dormiam na relva, assim como Will e Lyra. Mas em volta das duas
crianas havia mais de uma dzia de anjos, olhos baixos, a
contempl-las. E ento Serafina entendeu algo para o qual as bruxas no
tinham uma palavra: era a idia de uma peregrinao. Ela compreendeu por
que aqueles seres esperavam milhares de anos e viajavam longas
distncias para ficarem perto de alguma coisa importante, e que da em
diante seus sentimentos seriam diferentes at o final dos tempos, por
terem estado por um #313 instante na presena dessa coisa. Era o que
aquelas criaturas agora simbolizavam, aqueles belos peregrinos de luz
rarefeita, postados em volta da menina de rosto sujo e saia escocesa e o
menino de mo machucada que franzia a testa enquanto dormia. Algo se
mexeu junto ao pescoo de Lyra: Pantalaimon, um arminho branco como a
neve, abriu os olhos negros sonolentamente e olhou em volta sem medo.
Mais tarde Lyra iria lembrar-se disso como se fosse um sonho.
Pantalaimon pareceu aceitar aquela ateno como algo a que Lyra tinha
direito; depois de algum tempo, enrodilhou-se e fechou os olhos
novamente. Finalmente uma das criaturas abriu as asas. As outras, embora
bem prximas umas das outras, fizeram a mesma coisa, e suas asas se
interpenetravam sem resistncia, passando uma pela outra como luz
passando atravs de outra luz, at que havia um crculo radiante em
volta das crianas adormecidas na relva. Ento os seres alaram vo, um
de cada vez, erguendo-se como labaredas no cu e aumentando de tamanho,
at ficarem imensos; mas ento j estavam distantes, movendo-se como
estrelas cadentes em direo ao Norte. Serafina e Ruta Skadi saltaram
sobre seus galhos de pinheiro-nubgeno e seguiram-nos para o alto, mas
ficaram para trs. -Eram como as criaturas que voc viu, Ruta Skadi? -
Serafina perguntou, tendo as duas diminudo a velocidade do vo para
contemplar as labaredas brilhantes diminurem em direo ao horizonte.
-Maiores, eu acho, mas da mesma espcie. No tm carne, voc viu? So
feitos s de luz. Seus sentidos devem ser #314 to diferentes dos
nossos... Serafina Pekkala, vou deix-la agora, para reunir todas as
bruxas do nosso norte. Quando nos encontrarmos outra vez, ser tempo de
guerra. Fique bem, minha querida... Abraaram-se em pleno ar, e Ruta
Skadi virou e partiu clere para o Sul. Serafina ficou a observ-la,
depois virou-se para ver os anjos cintilantes desaparecerem de vez na
distncia. Sentia apenas compaixo por aqueles imensos vigilantes.
Quanta coisa eles deviam perder, nunca sentir aterra sob os ps ou o
vento nos cabelos ou o arrepio que a luz das estrelas provocava na pele
nUa! E ela partiu um raminho do galho de pinheiro-nubgeno no qual voava
e aspirou com guloso prazer o aroma acre da resina, antes de baixar
lentamente para juntar-se s companheiras adormecidas na relva. #315 14
A RAVINA DO LAMO Lee Scoresby baixou os olhos para o plcido oceano 
sua esquerda, a costa verde  sua direita, e protegeu os olhos da luz
para procurar sinais de vida humana. Tinham se passado um dia e uma
noite desde que eles deixaram o Yenisei. -E este  um novo mundo?
-perguntou. -Novo para aqueles que no nasceram nele -respondeu
Stanislaus Grumman. -To velho quanto o seu ou o meu. O que Asriel fez
bagunou tudo, Sr. Scoresby, mais profundamente do que jamais aconteceu
antes. Essas portas e janelas de que falei, elas agora se abrem para
locais inesperados. A orientao  difcil, mas o vento est bom. -Novo
ou velho, este mundo a embaixo  estranho - tornou Lee. -, sim.  um
mundo estranho, embora sem dvida certas pessoas se sintam em casa aqui.
-Parece deserto -Lee comentou. -Mas no . Atrs daquela ponta de terra
existe uma cidade que j foi rica e poderosa. E ainda  habitada pelos
#316 descendentes dos mercadores e nobres que a construram, embora ela
tenha entrado em decadncia h 300 anos... Minutos depois,  medida que
o balo avanava, Lee avistou primeiro um farol, depois a curva de um
quebra-mar de pedra, depois as torres, os domos e os telhados
marrom-avermelhados de uma linda cidade em torno de um porto, um prdio
suntuoso, como um teatro, e belos jardins e avenidas largas, com hotis
elegantes e ruelas onde rvores carregadas orlavam sacadas sombreadas. E
Grumman tinha razo: havia gente ali. Mas ao se aproximarem, Lee
surpreendeu-se ao constatar que se tratava de crianas. No havia um s
adulto  vista. As crianas estavam brincando na praia ou entrando e
saindo de cafs e bares, ou comendo e bebendo, ou recolhendo sacolas de
objetos das casas e das lojas. E havia um grupo de meninos brigando, e
uma menina ruiva incentivando abriga, e um menininho jogando pedras,
tentando quebrar todas as vidraas de um prdio prximo. Era como um
playground do tamanho de uma cidade, sem um nico professor  vista -um
mundo infantil. Mas aquelas no eram as nicas presenas ali. Lee teve
que esfregar os olhos quando os viu, mas no havia dvida: colunas de
nvoa, ou algo mais tnue do que a nvoa, um espessamento do ar...
Fossem o que fossem, a cidade estava cheia deles; deslizavam ao longo
das avenidas, entravam nas casas, juntavam-se nas praas. As crianas
andavam entre eles sem os ver . Mas no sem serem vistas. Quanto mais
voavam para o centro da cidade, mais Lee podia observar o comportamento
daquelas figuras. E era evidente que elas se interessavam por algumas
crianas, e seguiam algumas por toda parte: as mais #317 velhas, aquelas
que (pelo que Lee podia ver atravs do telescpio) estavam s portas da
adolescncia. Havia um menino, alto, magro, de cabelos negros, que
estava to rodeado pelos seres transparentes que seu prprio contorno
parecia desfocado. Eram como moscas em volta da carne. E o menino no
tinha idia disso, embora de vez em quando esfregasse os olhos ou
sacudisse a cabea como se quisesse clarear a viso. -Que coisas so
aquelas? -Lee quis saber. -As pessoas as chamam de Espectros. -O que 
que eles fazem, exatamente? -J ouviu falar de vampiros? -Ah, as lendas.
-Assim como os vampiros se alimentam de sangue, os Espectros se
alimentam de ateno, de um interesse consciente e informado. A
imaturidade das crianas no os atrai tanto. -Ento so o oposto
daqueles demnios em Bolvangar. -Pelo contrrio. Tanto o Conselho de
Oblao quanto os Espectros da Indiferena esto enfeitiados por esta
verdade a respeito dos seres humanos: a inocncia  diferente da
experincia. O Conselho da Oblao teme e odeia o P, e os Espectros se
alimentam dele, mas ambos so obcecados por ele. -Esto cercando aquele
menino ali... -Ele est crescendo. Logo ser atacado, e a sua vida ser
transformada num sofrimento vazio e indiferente. Ele est condenado.
-Pelo amor de Deus! No podemos fazer nada? -No. Os Espectros nos
agarrariam na mesma hora. Aqui em cima no podem nos alcanar; tudo que
podemos fazer  observar e seguir viagem. -Mas onde esto os adultos?
No me diga que este mundo inteiro est cheio s de crianas? #318
-Estas crianas so rfs, seus pais foram atacados pelos Espectros.
Existem muitos bandos delas neste mundo. Elas vagueiam por a, vivendo
daquilo que encontram quando os adultos fogem. E, como voc pode ver,
existe muita coisa  disposio delas. Elas no passam fome. Parece que
um bando de Espectros invadiu esta cidade, e os adultos fugiram para
algum lugar seguro; percebeu como h poucos barcos no porto? As crianas
no correm perigo. -A no ser as mais velhas. Como aquele menino ali
embaixo, coitado. -Sr. Scoresby,  assim que este mundo funciona. E se
quiser acabar com a crueldade e a injustia, precisa me levar mais
longe. Tenho um trabalho afazer . -Me parece... -comeou Lee, procurando
as palavras. -Me parece que o lugar de combater a crueldade  onde ela
est, e...o lugar onde se presta socorro  onde ele  necessrio. Ou
estou enganado, Dr. Grumman? Sou apenas um aeronauta ignorante. Sou to
ignorante que acreditei quando me disseram que os xams tm o dom de
voar, por exemplo. No entanto, aqui est um xam que no tem esse dom.
-Ah, mas eu tenho, sim. -Como assim? -Eu precisava voar, de modo que
convoquei voc e aqui estou, voando -disse Grumman. O balo voava mais
baixo, o solo estava mais perto. Uma torre de pedra erguia-se
diretamente no caminho deles, e Lee parecia no ter percebido. Grumman
estava inteiramente consciente do perigo que corriam, mas evitou
insinuar que o aeronauta no estava. E, no momento apropriado, Lee
Scoresby inclinou-se por cima da borda da cesta e puxou acorda de um dos
sacos de lastro. A areia escorreu, e o balo ergueu-se #319 suavemente,
passando por cima da torre a uns dois metros de distncia. Algumas
gralhas, alvoroadas, revoaram aos guinchos em volta deles. -, est
mesmo -disse Lee. -O senhor tem um jeito estranho, Dr. Grumman. J teve
contato com as bruxas? -J, sim -disse Grumman. -E com Catedrticos, e
com espritos. Encontrei loucura em toda parte, mas havia gros de
sabedoria em todos os casos de loucura. Sem dvida havia muito mais
sabedoria do que eu consegui reconhecer. A vida  dura, Sr. Scoresby,
mas mesmo assim nos agarramos a ela. -E esta viagem,  loucura ou
sabedoria? -A maior sabedoria que conheo. -Conte-me outra vez qual  o
seu propsito: vai encontrar o portador da faca mgica, e depois?
-Revelar-lhe qual  a sua tarefa. -Uma tarefa que inclui proteger Lyra-
o aeronauta lembrou. -Vai proteger ns todos. O vo prosseguia, e logo a
cidade tinha ficado para trs. Lee verificou seus instrumentos. A
bssola ainda girava sem parar, mas o altmetro estava funcionando
corretamente, pelo que ele podia julgar, e mostrava que estavam
flutuando cerca de 300 metros acima da costa, paralelos a ela.  frente,
uma cadeia de altas montanhas verdes erguia-se para dentro da nvoa, e
Lee sentiu alvio por ter providenciado bastante lastro. Mas quando
examinou o horizonte ele sentiu o corao dar um salto. Hester sentiu o
mesmo e sacudiu as orelhas, girando a cabea para olhar para o rosto
dele com um olho castanho-dourado. Ele a pegou e a enfiou dentro do
casaco, e tornou a abrir o telescpio. #320 No. no tinha se enganado.
Ao sul (se a direo de onde vinham era realmente o sul) outro balo
flutuava na neblina. A distncia e a distoro do calor impossibilitavam
que ele distinguisse qualquer detalhe, mas o outro balo era maior e
voava mais alto. Grumman tambm o vira. -Inimigos, Sr. Scoresby?
-perguntou, protegendo os olhos para perscrutar a luz nacarada. -Sem
dvida. No sei se solto lastro e subo, para pegar um vento mais rpido,
ou continuo voando baixo e fico menos visvel. Ainda bem que aquela
coisa no  um zepelim, seno poderia nos alcanar em poucas horas. No.
droga, Dr. Grumman. vou subir, porque se eu estivesse naquele balo j
teria visto este aqui. e aposto que eles enxergam bem. Ele tornou a
colocar Hester no cho e inclinou-se para soltar trs sacos de lastro. O
balo subiu imediatamente, e Lee manteve o telescpio pregado no olho. E
no minuto seguinte ele teve certeza de ter sido avistado, pois houve um
movimento na nvoa que se transformou numa linha de fumaa subindo e se
afastando em diagonal do outro balo; e quando chegou a certa altura, a
fumaa explodiu em luz. Durante um instante ela brilhou em vermelho,
depois diminuiu para uma fumaa cinzenta, mas era um sinal to claro
quanto um sino de alarme tocando na noite. -Pode invocar uma brisa mais
forte, Dr. Grumman? Eu gostaria de chegar quelas montanhas antes de
escurecer -pediu Lee. Pois agora afastavam-se da costa, e seu curso os
levava sobre uma grande baa, de uns 50 quilmetros de extenso. As
montanhas erguiam-se do outro lado, e agora que tinha ganho altura, Lee
viu que eram realmente imensas. #321 Virou-se para Grumman, mas este
estava em transe profundo. O xam tinha os olhos fechados, e gotas de
suor surgiam em sua testa, enquanto ele se balanava suavemente para a
frente e para trs. Da garganta saa-lhe um gemido baixo e ritmado, e
seu daemon, igualmente em transe, agarrava-se  borda da cesta. Fosse
resultado da maior altura, fosse resultado do feitio do xam, uma brisa
alcanou o rosto de Lee. Ele ergueu os olhos para verificar o balo
propriamente dito e viu que se inclinava um ou dois graus na direo das
montanhas. Mas a brisa que os impulsionava estava impulsionando o outro
balo tambm. Ele no estava mais perto, porm tambm no estava mais
longe. E quando Lee virou o telescpio naquela direo, avistou atrs
dele formas menores e mais escuras. Estavam agrupadas de maneira
organizada, e a cada minuto ficavam mais slidas e ntidas. -Zepelins
-ele identificou. -Bem, no temos onde nos esconder. Ele tentou calcular
a distncia dos zepelins e das montanhas para onde estavam voando. Sua
velocidade certamente era maior agora, e a brisa erguia franjas brancas
l embaixo nas ondas do mar . Grumman descansava num canto da cesta,
enquanto seu daemon penteava as penas com o bico. Ele tinha os olhos
fechados, mas Lee sabia que estava acordado. -A situao  a seguinte,
Dr. Grumman: no quero ser apanhado no ar por aqueles zepelins. No h
defesa; eles nos derrubariam num minuto. Tambm no quero pousar na
gua, por escolha ou no; poderamos flutuar por algum tempo, mas eles
nos pegariam com granadas como quem pesca um peixe. De modo que quero
chegar at aqueles montes e pousar l. Estou vendo uma floresta; podemos
nos esconder entre as #322 rvores por algum tempo, talvez por muito
tempo. Enquanto isso, o sol est descendo. Faltam umas trs horas para o
pr-do-sol, pelos meus clculos.  difcil dizer, mas acho que a essa
hora os zepelins j tero diminudo pela metade a distncia entre ns, e
j deveremos ter chegado ao outro lado desta baa. Portanto, entenda o
que estou querendo dizer: vou nos levar para aquelas montanhas e ento
pousar, pois qualquer outra coisa ser morte certa. Eles j devem ter
feito a ligao entre o anel que eu mostrei e o escraelingue que matei
em Nova Zembla, e no esto atrs de ns com tanto empenho s para nos
dizer que esquecemos a carteira em cima do balco. De modo que este vo
termina hoje, no sei quando. J pousou de balo? -No, mas confio na
sua habilidade -afirmou o xam. -Vou tentar chegar o mais alto possvel.
 uma questo de equilbrio, pois quanto mais voarmos, mais perto eles
estaro de ns. Se eu pousar com eles muito perto, eles podero ver onde
pousamos, mas se eu pousar cedo demais, no conseguiremos nos abrigar
nas rvores. De qualquer maneira, no vai demorar para haver tiroteio.
Grumman, impassvel, jogava de uma mo para a outra um instrumento de
magia feito de penas e contas, de um determinado jeito no qual Lee
distinguia um certo propsito. Os olhos de seu daemon no abandonavam os
zepelins que os perseguiam. Passou-se uma hora, e mais outra. Lee
mastigava um charuto apagado e bebericava caf frio de um frasco de
lata. O sol baixou no cu atrs deles, e Lee via a longa sombra da noite
avanar pela praia da baa e subir as encostas mais baixas das montanhas
 frente, enquanto o prprio balo e o topo das montanhas estavam
banhados de dourado. E atrs deles, quase perdidas no brilho do poente,
as manchinhas dos zepelins ficavam maiores e mais ntidas. Eles #323 j
tinham ultrapassado o outro balo, e podiam ser vistos a olho nu: quatro
zepelins, lado a lado. E atravs do amplo silncio da baa veio o som
dos seus motores, baixo, porm ntido -um insistente zumbido de
mosquito. Quando faltavam alguns minutos para chegarem acima da praia no
sop das montanhas, Lee percebeu uma novidade no cu, atrs dos
zepelins: um banco de nuvens vinha crescendo e uma imensa nuvem de
tempestade subia milhares de metros no cu, ainda claro l em cima. Como
ele pde no ter percebido? Se uma tempestade era iminente, quanto mais
cedo pousassem, melhor seria. Ento uma cortina verde-escura de chuva
desabou da nuvem, e a tempestade parecia estar perseguindo os zepelins
como estes perseguiam o balo de Lee, pois a chuva vinha do mar em sua
direo; quando o sol finalmente desapareceu, veio das nuvens um
fortssimo claro e, segundos depois, o estrondo de um trovo to alto
que sacudiu por inteiro o balo de Lee e ecoou durante longo tempo nas
montanhas. Houve ento outro relmpago, que dessa vez desceu das nuvens
diretamente sobre um dos zepelins. No mesmo instante o gs incendiou-se:
uma brilhante flor de fogo desabrochou contra as nuvens escuras, e a
embarcao comeou a cair lentamente, em chamas, como uma rocha, e ficou
flutUando no mar. Lee soltou a respirao. Grumman estava de p a seu
lado, uma das mos na borda da cesta, o rosto marcado de rugas de
cansao. -Foi o senhor quem trouxe a tempestade? -Lee perguntou. Grumman
assentiu. O cu agora tinha o colorido de um tigre: listras douradas
alternavam-se com manchas e mais listras marrom-escuras, e #324 o
desenho mudava a cada minuto, pois o dourado desaparecia rapidamente,
engolido pelo marrom. O mar era uma colcha de retalhos de gua escura e
espuma fosforescente, e as derradeiras labaredas do zepelim em chamas
minguavam, para finalmente desaparecerem quando ele afundou. No entanto,
os outros trs continuavam a perseguio, maltratados pela tempestade,
porm mantendo o rumo. Em volta deles os relmpagos se multiplicaram, e,
 medida que a tempestade se aproximava, Lee comeou a temer pelo gs de
seu prprio balo: um raio iria derrub-lo no solo, em chamas, e ele no
imaginava que o xam teria tanto controle sobre a tempestade aponto de
evitar isso. -Certo, Dr. Grumman, por enquanto vou ignorar aqueles
zepelins e me concentrar em nos levar em segurana para as montanhas e
pousar por l. Quero que o senhor se sente e se segure bem, e fique
preparado para saltar quando eu mandar. Vou dar um aviso e vou tentar
pousar o mais suavemente possvel, mas o pouso nessas condies  tanto
uma questo de sorte quanto de habilidade. -Confio em voc, Sr.
Scoresby- afirmou o xam. Ele foi se recostar num canto da cesta
enquanto seu daemon empoleirou-se na borda, as garras enfiadas nas
cordas de couro. O vento agora soprava forte sobre eles, e o grande
balo sacudia-se e se inclinava. Os cabos estalavam, forados, mas Lee
no temia que eles cedessem. Soltou um pouco mais de lastro, observando
atentamente o altmetro. Numa tempestade, quando a presso do ar caa,
era preciso levar em conta essa queda ao fazer a leitura do altmetro,
que muitas vezes permitia apenas um clculo aproximado. Lee verificou e
tornOU a verificar as cifras, e ento soltou seu ltimo lastro. #325 o
nico controle que tinha agora era a vlvula do gs. No poderia subir
mais; poderia apenas descer . Perscrutou atentamente o ar tempestuoso e
distinguiu o vulto das grandes montanhas escuras contra o cu nublado.
De baixo vinha um som como ondas batendo numa praia de pedras, mas ele
sabia que era o vento passando com fora pela folhagem das rvores.
Ento j estavam ali! Viajavam mais depressa do que ele tInha ImagInado.
E ele no devia demorar muito para pousar. Lee era tranqilo demais por
natureza para vociferar contra o destino; sua reao era erguer uma
sobrancelha e aceit-lo laconicamente. Mas agora no conseguia deixar de
sentir uma fagulha de desespero, pois a nica coisa afazer -isto , voar
 frente da tempestade, esperando at que ela acabasse -era a nica
coisa que garantiria que eles seriam derrubados a tiros. Pegou Hester e
enfiou-a dentro do casaco de lona, abotoando-o at o pescoo para
mant-la presa. Grumman estava quieto e imvel; seu daemon, aoitado
pelo vento, a plumagem eriada, agarrava-se firmemente  borda da cesta.
-Vou descer agora, Dr. Grumman -Lee gritou acima do rudo do vento. -O
senhor deve ficar de p, pronto para saltar. Agarre aborda e pule para
fora quando eu mandar . Grumman obedeceu. Lee olhou para baixo, para a
frente, para baixo, para a frente, tentando enxergar alguma diferena de
uma olhada para outra, pestanejando para tirar a chuva dos olhos -pois
uma chuvarada sbita desabou sobre eles como punhados de cascalho, e o
tamborilar dos pingos sobre o balo juntava-se ao uivo do vento e ao
rudo da folhagem l embaixo, at que Lee mal conseguia ouvir at mesmo
o trovo. -L vamos ns! -gritou. -O senhor preparou uma bela
tempestade, Sr. Xam. #326 Ele puxou a corda da vlvula de gs e
enrolou-a numa haste, para manter a vlvula aberta.  medida que o gs
saa pelo topo, invisvel l em cima, a curva inferior do balo comeou
a encolher, formando uma prega, depois mais outra, onde antes havia
apenas uma esfera. A cesta sacudia-se com tanta violncia que era
difcil dizer se eles estavam descendo, e as rajadas de vento eram to
sbitas e fortes que eles poderiam muito bem ter sido soprados para o
alto sem perceberem; mas depois de mais ou menos um minuto, Lee sentiu
um puxo e verificou que a pequena ncora tinha ficado presa num galho.
A freada foi apenas temporria -o galho que os segurava partiu-se -, mas
serviu para demonstrar como estavam perto do solo. Ele gritou: -Quinze
metros acima das rvores! O xam assentiu. Houve ento outro puxo, mais
violento, e os dois homens foram jogados de encontro  parede da cesta.
Lee estava acostumado, e logo recuperou o equilbrio, mas o Dr. Grumman
foi pego de surpresa. No entanto, no largou aborda da cesta, e Lee viu
que ele estava seguro, pronto para saltar. No instante seguinte houve um
choque violento, quando a ncora prendeu-se a um galho que no se
partiu. Imediatamente a cesta tombou de lado, e no segundo seguinte ela
batia contra o topo das rvores, e, em meio s chicotadas da folhagem
molhada e dos ramos partidos e o estalo dos galhos que suportaram o
choque, a cesta conseguiu uma precria imobilidade. -Ainda est a, Dr.
Grumman? -Lee chamou, pois era impossvel ver qualquer coisa. -Ainda
estou aqui, Sr. Scoresby. - melhor ficarmos parados um minuto at eu
entender claramente a situao -disse Lee. #327 Estavam a sacudir-se
ferozmente ao vento, e ele sentia a cesta vencer, com pequenos puxes, a
resistncia do que quer que os estava segurando no ar. O balo, agora
quase vazio, operava como uma vela ao vento, puxando-os para um lado.
Lee pensou em cortar os cabos que o prendiam, mas se fizesse isso, e o
balo no fosse soprado para longe, ficaria sobre as rvores como uma
bandeira indicando onde eles se encontravam; era melhor recolh-lo, se
conseguissem. Houve o claro de outro relmpago, e no segundo seguinte o
estrondo do trovo: a tempestade estava quase em cima deles. O claro
permitiu que Lee visse o tronco de um carvalho, com uma grande cicatriz
branca onde um galho tinha sido quase totalmente arrancado -a cesta
descansava sobre ele, perto do lugar onde ele ainda estava precariamente
preso ao tronco. -Vou jogar uma corda e descer -ele gritou. -Assim que
estivermos com os ps no cho, poderemos planejar o passo seguInte. -Vou
atrs do senhor -Grumman declarou. -Meu daemon me disse que o solo fica
a pouco mais de 10 metros. E Lee tomou conscincia do bater de asas
poderosas, enquanto o daemon-guia pousava novamente na borda da cesta.
-Ela consegue afastar-se tanto assim? -perguntou, surpreso. Mas afastou
isso da mente e prendeu a corda com segurana, primeiro  cesta e depois
ao galho, de modo que, mesmo se este cedesse e a cesta casse, a queda
no seria grande. Ento, com Hester em segurana junto ao seu peito, ele
jogou o resto da corda pela borda e desceu por ela at sentir o cho
debaixo dos ps. Os ramos cresciam grossos em volta do tronco; era uma
rvore imensa, um carvalho gigante, e Lee #328 murmurou um obrigado
enquanto dava um puxo na corda para avisar a Grumman que ele podia
descer. Mas havia por acaso outro som no meio do barulho? Lee escutou
com ateno. Sim, o motor de um zepelim, talvez mais de um. Impossvel
dizer sua altitude ou direo; mas o som perdurou por um minuto ou mais,
e depois desapareceu. O xam chegou ao solo. -O senhor escutou? -Lee
perguntou. -Escutei. Subindo e se aproximando das montanhas, eu acho.
Parabns por ter pousado em segurana, Sr. Scoresby. -Ainda no acabou.
Quero puxar aquele balo para debaixo das rvores antes do amanhecer,
seno ele vai revelar a nossa posio a quilmetros de distncia. Est
disposto a um trabalho braal, Dr. Grumman? -Diga-me o que tenho que
fazer. -Est bem. Vou tornar a subir e baixar algumas coisas para o
senhor. Uma delas  uma barraca. O senhor pode ir montando a barraca
enquanto eu vejo o que posso fazer para esconder o balo. Trabalharam
por longo tempo, e correram perigo em certo momento, quando o galho que
segurava a cesta finalmente se partiu e Lee caiu com ele; mas no caiu
muito, j que o balo, ainda preso ao topo das rvores, segurou a cesta
no ar. Na verdade, aqueda facilitou esconder o balo, pois a parte
inferior foi puxada para baixo, atravessando a ramagem das rvores;
trabalhando  luz dos relmpagos, puxando, torcendo e cortando, Lee
conseguiu que todo o corpo do balo descesse por entre os galhos at
descansar sobre os ramos inferiores, fora de vista. #329 o vento ainda
aoitava o topo das rvores, mas o pior da tempestade tinha passado
quando ele concluiu que aquilo era o mximo que podia fazer. Quando
finalmente desceu, constatou que o xam no apenas tinha montado a
barraca como tambm acendido uma fogueira, e estava fazendo caf. -Fez
isso com magia? -ele perguntou ao entrar na barraca, dolorido e
encharcado, e pegar a caneca que Grumman lhe estendeu. -No, pode
agradecer aos escoteiros -Grumman respondeu. -Existem escoteiros no seu
mundo? Um escoteiro prevenido vale por dois. De todas as maneiras de
fazer fogo, a melhor delas  usar fsforos secos, e eu nunca viajo sem
eles. Podamos estar menos confortveis num camping, Sr. Scoresby.
-Ouviu aqueles zepelins de novo? Grumman ergueu a mo. Lee escutou, e
realmente l estava o rudo de motor, mais discernvel agora que a chuva
tinha diminudo. -J passaram duas vezes -disse Grumman. -No sabem onde
estamos, mas sabem que estamos em algum lugar por aqui. E no minuto
seguinte um brilho bruxuleante veio da direo em que o zepelim voara.
Era menos brilhante do que um relmpago, mas era duradouro, e Lee tomou
conscincia de que era um foguete de iluminao. - melhor apagar o
fogo, Dr. Grumman -ele disse. -Por mais pena que me d ficar sem ele.
Acho que a cobertura das rvores nos esconde, mas nunca se sabe. Vou
dormir agora, molhado ou no. -De manh o senhor estar seco -o xam
afirmou. #330 Pegou um punhado de terra molhada e pressionou-o sobre a
chama, e Lee estendeu-se com esforo na pequena barraca e fechou os
olhos. Teve sonhos fortes e estranhos. Em certo momento, teve certeza de
ter despertado e visto o xam sentado de pernas cruzadas, envolto em
chamas, e as chamas consumiram rapidamente o seu corpo, deixando apenas
um esqueleto branco, ainda sentado num montinho de cinzas ardentes.
Assustado, Lee procurou por Hester e encontrou-a adormecida, coisa que
nunca tinha acontecido, pois quando ele estava acordado, ela tambm
estava; assim, ao encontr-la dormindo, sua daemon lacnica, porm de
lngua ferina, pareceu-lhe to boazinha e vulnervel, que ele se comoveu
com a estranheza daquilo, e deixou-se ficar, inquieto, ao lado dela,
acordado dentro do sonho, mas na realidade dormindo, sonhando que ficara
longo tempo acordado. Outro sonho tambm enfocava Grumman. Lee parecia
ver o xam sacudindo um chocalho enfeitado de penas e dando ordens a
alguma coisa, exigindo obedincia. Lee viu, com um espasmo de nusea,
que essa coisa era um Espectro como aqueles que eles tinham visto do
balo. Era alto e quase invisvel, e provocava uma repulsa to profunda
em Lee que ele quase despertou de terror. Mas Grumman dava ordens sem
ter medo, e no parecia ter problemas, pois a coisa escutou-o com
ateno e depois ergueu-se no ar como uma bolha de sabo at perder-se
no topo da barraca. Ento a exaustiva noite de Lee deu outra
reviravolta, pois ele estava na cabine de um zepelim, observando o
piloto - alis, estava sentado no lugar do co-piloto, e voavam acima da
floresta, perscrutando a superfcie revolta do topo das rvores, um mar
bravio de galhos e folhas. Ento viu aquele Espectro na cabine com eles.
#331 Preso no sonho, Lee no conseguia mexer-se ou gritar, e sofreu o
terror do piloto quando este comeou a tomar conscincia daquilo que
estava lhe acontecendo. O EspeCtro estava inclinado sobre o piloto,
pressionando aquilo que seria o seu rosto contra o dele. O daemon do
piloto -uma fmea de tentilho -bateu asas, grasnou e tentou afastar-se,
para cair, quase desmaiado, sobre o painel de instrumentos. O piloto
virou o rosto para Lee e estendeu a mo, mas Lee no tinha poder de
movimento. A angstia nos olhos do outro era dilacerante. Alguma coisa
viva e verdadeira estava a escoar-se dele, e seu daemon bateu as asas e
soltou um grasnido alto e selvagem: ele estava morrendo. Ento o daemon
desapareceu. Mas o piloto ainda estava vivo; seus olhos tornaram-se
opacos e a mo estendida caiu flacidamente sobre o manete. Ele parecia
vivo, mas no estava vivo: estava indiferente a tudo. E Lee ficou ali
sentado, vendo, sem nada poder fazer, o zepelim voar diretamente para a
encosta de uma das montanhas que se erguiam  frente. O piloto
contemplava a montanha crescer sobre eles, mas nada poderia despertar o
seu interesse. Lee apertou-se contra o encosto da cadeira, horrorizado,
mas nada aconteceu, e no momento do impaCto ele apenas gritou: -Hester!
E despertou. Estava na barraca, em segurana, e Hester mordiscava o seu
queixo. Ele estava coberto de suor. O xam permanecia sentado de pernas
cruzadas, mas Lee sentiu um estremecimento ao ver que o daemon-guia no
estava por perto. Obviamente aquela floresta era um lugar ruim,
assombrado por fantasmas. Ele ento tomou conscincia da luz pela qual
estava conseguindo enxergar o xam, pois o fogo continuava apagado #332
e a escurido da floresta era total. Um claro distante mostrava os
troncos e a parte inferior da copa das rvores, com as folhas pingando
gua, e Lee de imediato soube do que se tratava: seu sonho tinha sido
realidade e um piloto de zepelim havia voado contra a encosta da
montanha. -Droga, Lee, est tremendo como uma folha de faia. Qual  o
problema com voc? -Hester resmungou, movendo as grandes orelhas. -Voc
no est sonhando tambm, Hester? -ele resmungou em resposta. -No est
sonhando, Lee, est vendo. Se eu soubesse que voc  um vidente, j o
teria curado h muito tempo. Agora v se sossega, est ouvindo? Ele
esfregou a cabea do daemon com o polegar e as orelhas dele
estremeceram. E sem a menor transio ele estava flutuando no ar ao lado
do daemon do xam, a guia-pesqueira Sayan Ktr. O fato de estar na
presena do daemon de outro homem e distante do seu prprio provocava em
Lee um forte sentimento de culpa e um estranho prazer. Estavam planando,
como se ele tambm fosse um pssaro, nas turbulentas correntes
ascendentes acima da floresta, e Lee olhou em volta para a escurido,
agora permeada pelo brilho plido da lua cheia que ocasionalmente surgia
atravs de uma breve fenda nas nuvens e coloria de prateado as copas das
rvores. A guia-daemon soltou um guincho forte e de baixo vieram, em
mil vozes diferentes, os sonidos de mil pssaros: o pio das corujas, o
grito de alarme das pequenas andorinhas, a msica lquida do rouxinol:
Sayan Ktr estava chamando os pssaros. E eles acorreram, todos os
pssaros da floresta -os que estavam deslizando pelo ar com asas
silenciosas, os que #333 estavam em plena caa, os que dormiam
empoleirados, todos alaram vo aos milhares. E Lee sentiu a natureza de
pssaro que o dominava reagir com alegria ao comando da guia-rainha, e
a humanidade que ele possua sentiu o mais estranho dos prazeres: aquele
de oferecer obedincia a um poder mais forte e inteiramente correto. Ele
girava e volteava com o resto do enorme bando, cem espcies diferentes
voando em formao, em obedincia  vontade poderosa da guia, e
avistou, contra a capa prateada das nuvens, o odioso vulto escuro de um
zepelim. Todos sabiam exatamente o que deviam fazer. E avanaram para a
aeronave, os mais rpidos chegando primeiro, mas nenhum to rpido
quanto Sayan Ktr; as minsculas cambaxirras, os tentilhes, os
andorinhes de vo rpido, as corujas de VO silencioso -em um minuto o
zepelim estava rodeado deles, as garras procurando apoio na seda oleada,
perfurando-a. Os pssaros evitavam o motor, embora alguns tenham sido
atrados por ele, sendo feitos em pedaos pelas hlices. A maioria
simplesmente empoleirou-se no corpo do zepelim, e os que chegavam depois
agarravam-se aos primeiros, at cobrirem no apenas todo o balo da
aeronave (agora perdendo hidrognio atravs de milhares de pequenos
orifcios feitos pelas garras) mas as janelas da cabine tambm, e os
espeques e cabos -cada centmetro quadrado de espao tinha um pssaro,
dois pssaros, trs ou mais, agarrado a ele. O piloto nada podia fazer.
Sob o peso dos pssaros, o zepelim comeou a perder cada vez mais
altura, e ento surgiu outra escarpa, crescendo na noite e naturalmente
invisvel aos homens dentro da embarcao, que movimentavam as armas sem
direo e atiravam a esmo. #334 No ltimo instante Sayan Ktr gritou, e
o estrondo do ruflar de asas abafou at mesmo o ronco do motor, quando
todos os pssaros alaram vo e se distanciaram. E os homens na cabine
tiveram quatro ou cinco segundos de constatao e terror antes que o
zepelim batesse na rocha e explodisse em chamas. Fogo, calor,
labaredas... Lee acordou novamente, o corpo quente, como se estivesse
deitado ao sol do deserto. Do lado de fora da barraca ainda havia o som
incessante dos pingos que caam das folhas sobre a lona da barraca, mas
a tempestade passara. Uma luz cinzenta e fraca filtrava-se no interior
da barraca, e Lee ergueu-se um pouco e viu Hester a seu lado,
pestanejando, e o xam enrolado numa coberta, dormindo to profundamente
que poderia estar morto, se sua daemon-guia-pesqueira Sayan Ktr no
estivesse dormindo empoleirada num galho cado do lado de fora. O nico
som alm dos pingos era o cantar dos pssaros na floresta. Nenhum motor
no cu, nenhuma voz inimiga; portanto, Lee achou que seria seguro
acender o fogo e fazer caf -e conseguiu, depois de certo esforo. -E
agora, Hester? -perguntou. -Depende. Havia quatro zepelins, e ele s
destruiu trs. -O que estou querendo saber : j cumprimos a nossa
obrigao? Ela moveu as orelhas e disse: -No me lembro de contrato
nenhum. -No  questo de contrato,  uma questo moral. -Ainda temos
que nos preocupar com mais um zepelim, antes de voc comear a inventar
essa coisa de moral, Lee. So 30 a 40 homens armados querendo nos pegar
. Soldados imperiais, ainda por cima. Primeiro a sobrevivncia, depois a
moral. #335 Ela estava com a razo, naturalmente, e enquanto bebericava
o caf quente e fumava um charuto, contemplando a luz do dia que
aumentava gradualmente, ele ficou pensando no que faria se estivesse no
comando do nico zepelim restante. Retroceder e esperar o dia clarear,
sem dvida, e voar suficientemente alto para esquadrinhar aborda da
floresta numa grande extenso e avistar Lee e Grumman quando eles
deixassem seu esconderijo. O daemon-guia-pesqueira Sayan Ktr
despertou e estendeu as longas asas acima de onde Lee estava sentado.
Hester ergueu os olhos e girou a cabea para um lado e para outro,
encarando o poderoso daemon com um olho dourado de cada vez, e no
momento seguinte o prprio xam saiu da barraca. -Que noite cheia! -Lee
comentou. -E um dia cheio por vir. Temos que sair imediatamente da
floresta, Sr. Scoresby. Eles vo botar fogo nela. Lee, incrdulo, deu
uma olhada para a vegetao encharcada  sua volta e perguntou: -Como?
-Eles tm um motor que lana uma espcie de nafta misturada com potassa,
que se incendeia em contato com a gua. Foi desenvolvido pela Marinha
Imperial para ser usado na guerra contra os nipnicos. Se a floresta
est molhada, vai pegar fogo ainda mais depressa. -O senhor consegue ver
isso? -Assim como o senhor viu o que aconteceu com os zepelins durante a
noite. Prepare o que vai querer levar, e vamos embora agora. Lee
esfregou o queixo. As coisas mais valiosas que ele possua eram tambm
as mais portteis -os instrumentos do balo, que ele recolheu da cesta e
guardou cuidadosamente numa mochila; em seguida, certificou-se de que o
rifle estava #336 seco e carregado. Deixou a cesta, os cabos e o balo
vazio onde estavam, retorcidos e emaranhados nos galhos. Da em diante
ele no era mais um aeronauta, a no ser que por algum milagre
conseguisse escapar com vida e conseguisse dinheiro suficiente para
comprar outro balo. Agora tinha que mover-se como um inseto, ao longo
da superfcie da Terra. Sentiram o cheiro da fumaa antes de ouvirem o
fogo, pois uma brisa vindo do mar levava-a para o interior. Quando
alcanaram a borda da floresta, escutaram o fogo, um rugido profundo e
voraz. -Por que no fizeram isto  noite? -Lee quis saber. -Podiam
ter-nos assado enquanto dormamos. -Acho que querem nos pegar vivos
-Grumman respondeu, enquanto preparava um galho para servir de bengala.
-E esto esperando sairmos da floresta. De fato, o zumbido do zepelim
logo se fez ouvir acima at mesmo do som do fogo e da sua prpria
respirao ofegante, pois agora estavam correndo, trepando sobre razes,
rochedos e troncos cados, parando apenas para recuperar o flego. Sayan
Ktr , voando alto, dava rasantes para informar o progresso que eles
tinham feito e a distncia das labaredas; mas no demorou at que eles
prprios pudessem ver a fumaa acima das rvores atrs deles, e depois
uma faixa ondulante de fogo. Pequenas criaturas da floresta, esquilos,
pssaros, javalis fugiam com eles, e um coro de guinchos, berros, sons
de alarme de todo tipo erguia-se  volta deles. Os dois homens avanavam
com esforo para aborda da floresta, no muito distante; e ento a
alcanaram, enquanto chegavam cada vez mais perto as ondas de calor das
gigantescas labaredas que agora alcanavam 15 metros no ar. As rvores
ardiam como tochas; a seiva em suas veias fervia e partia-as em pedaos,
a resina nas conferas #337 prendiam fogo como nafta, os ramos pareciam
florescer de um momento para o outro com ferozes flores alaranjadas.
Ofegantes, Lee e Grumman encontraram-se junto  ngreme encosta de
rochedos e cascalho. Metade do cu estava obscurecida pela fumaa e pela
reverberao do calor, mas acima flutuava a forma atarracada do nico
zepelim que restava -longe demais para avist-los, mesmo atravs de
binculos, Lee pensou esperanosamente. Vertical e intransponvel, a
encosta da montanha erguia-se  frente deles. S havia um caminho para
escapar da armadilha em que se encontravam: uma garganta estreita mais 
frente, onde um leito seco de rio emergia de uma reentrncia na rocha.
Lee apontou, e Grumman disse: -Exatamente o que eu estava pensando, Sr.
Scoresby. Seu daemon, voando em crculos, balanou as asas e voou para a
ravina aproveitando uma corrente ascendente. Os homens no pararam,
subindo o mais depressa que podiam, mas Lee disse: -Desculpe a minha
pergunta, se ela for impertinente, mas nunca conheci algum cujo daemon
conseguisse se afastar assim, a no ser as bruxas. Mas o senhor no 
bruxo. Isso foi uma coisa que o senhor aprendeu, ou veio naturalmente?
-Para um ser humano, nada vem naturalmente -disse Grumman. -Temos que
aprender tudo que fazemos. Sayan Ktr est me dizendo que a ravina leva
a uma passagem. Se chegarmos at l antes que eles nos vejam, ainda
poderemos escapar . A guia tornou a voar baixo, e os homens continuaram
a subida. Hester preferia encontrar seu prprio caminho por sobre as
rochas, de modo que Lee a seguiu, evitando as pedras soltas e movendo-se
o mais depressa que podia por cima das pedras maiores, sempre em direo
 pequena ravina. #338 Lee ficou preocupado com Grumman, pois este
estava plido e abatido, e respirava com dificuldade. Suas atividades
noturnas tinham consumido muito da sua energia. At quando conseguiriam
prosseguir era algo em que Lee no queria pensar; mas quando estavam
quase perto da en trada da ravina, na margem do leito seco do rio, ele
escutou uma mudana no som do zepelim. -Eles nos viram -disse. Isso era
como receber uma sentena de morte. Hester tropeou -at Hester, de
passos to seguros, tropeou e vacilou. Grumman apoiou-se na bengala que
levava e protegeu os olhos para olhar para trs, e Lee virou-se para
olhar tambm. O zepelim descia depressa, rumo  encosta diretamente
abaixo de onde eles estavam. Era bvio que os perseguidores pretendiam
captur-los vivos, pois uma rajada de balas teria acabado com os dois
num segundo. Em vez disso, o piloto trouxe habilidosamente a nave para
pairar logo acima do solo no ponto mais alto da encosta abaixo deles; da
porta da cabine saltaram muitos homens de farda azul, com seus
daemons-lobos ao lado, e puseram-se a subir a encosta. Lee e Grumman
estavam quase 600 metros acima deles, e no muito distantes da entrada
da ravina. Uma vez chegando l, poderiam rechaar os soldados enquanto
tivessem munio: mas s tinham um nico rifle. -Esto atrs de mim, Sr.
Scoresby- disse Grumman. -Se me der o rifle e se entregar, vai
sobreviver. So soldados disciplinados. O senhor ser prisioneiro de
guerra. Lee ignorou isso, e disse: -Mexa-se. V at a ravina e se
adiante at o outro lado, enquanto eu fico na boca da ravina e seguro os
soldados. Trouxe o senhor at aqui e no vou deixar que o peguem agora.
#339 Os homens l embaixo subiam com rapidez, pois eram fortes e estavam
descansados. Grumman assentiu. -No tive foras para derrubar o quarto
zepelim -foi tudo o que disse. Os dois se apressaram para atingir o
abrigo da ravina. -Diga-me s uma coisa antes de ir, porque no terei
sossego enquanto no souber -Lee pediu. -No sei dizer de que lado estou
lutando, e no me importo muito com isso. S quero saber o seguinte:
isso que vou fazer agora vai ajudar ou vai prejudicar aquela garota,
Lyra? -Vai ajudar -Grumman afirmou. -E o seu juramento, no vai esquecer
o que jurou? -No vou esquecer. -Porque, Dr. Grumman, ou John Parry, ou
seja l o nome que o senhor arranjar no mundo em que for parar, o senhor
fique sabendo de uma coisa: eu amo aquela menininha como uma filha. Se
eu tivesse uma filha, no a amaria tanto. E se o senhor quebrar seu
juramento, o que quer que sobre de mim ir procurar o que quer que sobre
do senhor, e o senhor vai passar o resto da eternidade desejando nunca
ter existido. Isto mostra a importncia que tem o seu juramento.
-Compreendo. E j dei a minha palavra. -Ento  s o que eu preciso
saber. Boa sorte. O xam estendeu a mo, que Lee apertou. Ento Grumman
se virou e seguiu em direo  ravina, e Lee olhou em volta  procura do
melhor lugar para assumir sua posio. -No o rochedo grande, Lee-
aconselhou Hester. - De l no d para enxergar  direita, e eles
poderiam atacar por ali. V para o menor. Havia nos ouvidos de Lee um
rugido que nada tinha a ver com o incndio da floresta abaixo dele, ou
com o zumbido #340 forado do motor do zepelim tentando elevar-se outra
vez. Tinha a ver com a sua infncia e o lamo. Quantas vezes ele e seus
amiguinhos tinham encenado de brincadeira aquela batalha herica, nas
runas do velho forte, alternando a vez de serem franceses ou
dinamarqueses! A sua infncia lhe voltava agora, com fora redobrada.
Ele pegou o anel navajo da me e colocou-o na pedra ao seu lado. Nas
velhas brincadeiras de lamo, Hester muitas vezes se transformava em
puma ou lobo, e uma ou duas vezes em cascavel, mas em geral em tordo.
Agora, porm... -Pare de sonhar acordado e faa pontaria -ela instruiu.
-Isto no  uma brincadeira, Lee. Os homens que subiam a encosta tinham
se espalhado e avanavam mais devagar, porque entendiam a situao to
bem quanto ele. Sabiam que teriam que invadir a ravina e sabiam que um
homem com um rifle poderia det-los por muito tempo. Atrs deles, para
surpresa de Lee, o zepelim ainda tentava subir. Talvez estivesse
perdendo a flutuao, ou talvez o combustvel estivesse baixo, mas,
fosse o que fosse, ele ainda no tinha levantado vo, e isso lhe deu uma
idia. Ele ajustou a posio e fez pontaria com o velho Winchester at
ter o suporte do motor de bombordo bem na mira; ento atirou. Ouvindo o
disparo, os soldados que subiam a encosta ergueram a cabea, mas no
segundo seguinte o motor de repente roncou e tambm de repente morreu. O
zepelim tombou de lado. Lee ouvia o outro motor roncando, mas a aeronave
agora estava no solo. Os soldados tinham estacado, tentando proteger-se
como podiam. Lee conseguiria contar quantos eram, e fez isso: 25. E ele
tinha trinta balas. Hester aproximou-se do seu ombro esquerdo. #341 -Vou
vigiar deste lado -disse. Agachada no rochedo cinzento, as orelhas
esticadas sobre as costas, ela parecia uma pequena rocha,
marrom-acinzentada e quase invisvel, a no ser os olhos. Hester no era
nenhuma beleza; era sem graa e magrela como uma lebre pode ser, mas
tinha os olhos maravilhosamente coloridos, dourados, com raios de um
marrom profundo e um verde vivo. E agora esses olhos contemplavam a
ltima paisagem que veriam: uma encosta rida, de brutais pedras
roladas, e atrs dela uma floresta em chamas. Nem uma folha de capim,
nem uma manchinha verde para descansar seus olhos. Ela mexeu de leve as
orelhas. -Esto conversando -disse. -Consigo escutar, mas no consigo
entender. - russo -ele explicou. -Vo atacar todos juntos e correndo.
Seria o pior para ns, portanto  o que eles vo fazer. -Mire direito
-ela recomendou. -Vou mirar. Mas, que droga, no gosto de matar, Hester.
-Eles ou ns. -No,  mais que isso -ele corrigiu. -So eles ou Lyra.
No entendo como, mas estamos ligados quela garota, e isso me faz
feliz. -Um homem  esquerda vai atirar- disse Hester. Enquanto ela
falava, ouviu-se o disparo, e a bala veio arrancar lascas da pedra a 30
centmetros de onde ela estava agachada. A bala ricocheteou para dentro
da ravina, mas ela no moveu um s msculo. -Bom, isso faz eu me sentir
melhor -disse Lee, fazendo pontaria com cuidado. #342 Ele atirou. Havia
apenas um pedacinho de azul para acertar, e ele acertou. Com um grito de
surpresa o homem caiu para trs e morreu. E ento comeou o tiroteio.
Dentro de um minuto, o estalido dos tiros e o zumbido das balas que
ricocheteavam ecoavam ao longo do flanco da montanha e da ravina atrs
de Lee. O cheiro de cordite e de queimado que vinha da pedra pulverizada
que as balas atingiam era apenas uma variao do cheiro de queimado que
vinha da floresta, at parecer que o mundo inteiro estava em chamas.
Logo o rochedo de Lee estava marcado de balas; ele sentia o impacto
quando elas atingiam a pedra. Uma vez ele viu a pelagem das costas de
Hester ondular com o deslocamento de ar provocado por uma bala, mas ela
no se mexeu; e ele no parou de atirar. O primeiro minuto foi feroz. E
depois, na pausa que se seguiu, Lee constatou que estava ferido: havia
sangue na pedra debaixo do seu rosto, e a mo direita -e o ferrolho do
fuzil estavam vermelhos. Hester virou-se para olhar . -Nada de grave.
Uma bala arranhou o seu couro cabeludo -declarou. -Voc contou quantos
caram, Hester? -No, estava ocupada demais me desviando das balas.
Recarregue a arma enquanto pode, rapaz. Ele rolou para baixo atrs do
rochedo e moveu o ferrolho para a frente e para trs. O ferrolho estava
quente, e o sangue do ferimento que o encharcava estava coagulando,
emperrando o mecanismo. Lee cuspiu sobre ele e soltou-o. Ento
colocou-se novamente em posio e, antes mesmo que pudesse fazer
pontaria, levou um tiro. #343 Pareceu uma exploso no seu ombro
esquerdo. Durante alguns segundos ele ficou atordoado, e quando
recuperou o sangue-frio tinha o brao esquerdo dormente e intil. Havia
uma dor imensa esperando para dar o bote sobre ele, mas ela ainda no
tinha reunido coragem para isso, e essa idia deu-lhe foras para firmar
o pensamento em voltar a atirar. Apoiou o rifle no brao intil, que um
minuto antes era to cheio de vida, e fez pontaria com estica
concentrao: um tiro, dois, trs, e cada um deles encontrou o seu alvo.
-Como vamos indo? -resmungou. -Bom trabalho -ela cochichou de volta, bem
perto do rosto dele. -No pare. Em cima daquela pedra preta... Ele
olhou, mirou, atirou. A figura caiu. -Droga, so homens como eu
-desabafou. -No faz sentido. Mas atire assim mesmo -ela disse. -Voc
acredita nele? Em Grumman? -Claro. Mande chumbo, Lee. Um tiro: outro
homem caiu, e seu daemon apagou-se como uma vela. Houve ento um longo
silncio. Lee remexeu no bolso e encontrou mais algumas balas. Enquanto
recarregava, sentiu algo to raro que seu corao quase parou; sentiu o
rosto de Hester pressionado contra o seu, e ela estava chorando. -Lee, a
culpa foi minha -ela disse. -Como assim? -O escraelingue. Eu aconselhei
voc a trazer o anel dele. Sem ele, no estaramos nesta situao. -Voc
acha que alguma vez segui um conselho seu? Peguei o anel porque a
bruxa... No terminou, porque outra bala o atingiu. Dessa vez na perna
esquerda, e antes que ele pudesse sequer piscar, uma #344 terceira bala
raspou por sua cabea, como um ferro quente encostado no couro cabeludo.
-Agora est por pouco, Hester -ele murmurou, tentando ficar firme. -A
bruxa, Lee! Voc falou na bruxa! Lembra-se? Pobre Hester, agora ela
estava deitada, no agachada em postura tensa e vigilante, como estivera
em toda a sua vida adulta. E os lindos olhos dourados estavam ficando
embaados. -Ainda lindos -ele disse. -Ah, Hester, sim, a bruxa. Ela me
deu... -Isso mesmo. A flor... -No bolso da camisa. Pegue, Hester, eu no
consigo me mexer . Foi um esforo grande, mas com seus dentes fortes ela
conseguiu puxar para fora a pequena flor escarlate, e colocou-a junto 
mo direita dele. Com enorme esforo ele fechou os dedos em volta da
flor e disse: -Serafina Pekkala! Socorro, por favor... Um movimen to l
embaixo: ele soltou a flor, fez pontaria, atirou. O movimento cessou.
Hester estava enfraquecendo. -Hester, no v antes de mim -Lee
sussurrou. -Lee, eu no conseguiria ficar longe de voc nem por um
segundo -ela sussurrou em resposta. -Acha que a bruxa vir? -Claro que
sim. Devamos ter chamado ela antes. -Devamos ter feito um monte de
coisas. -Pode ser... Outro estampido, e dessa vez a bala penetrou fundo,
procurando o centro da vida dele. Ele pensou: ela no vai encontrar isso
aqui dentro, o meu centro  Hester. Avistou #345 uma centelha azul l
embaixo e esforou-se para virar o rifle naquela direo. - ele -Hester
murmurou. Lee achou difcil puxar o gatilho. Tudo era difcil. Teve que
tentar trs vezes, mas finalmente conseguiu; a farda azul rolou encosta
abaixo. Outro longo silncio. A dor que se avizinhava estava deixando de
ter medo dele. Era como um bando de chacais, andando em crculos,
farejando, aproximando-se, e ele sabia que no iam deix-lo agora at
que o tivessem devorado. -Ainda falta um -Hester murmurou. -Est indo
para o zepelim. Lee viu-o mal e mal: um soldado da Guarda Imperial
afastando-se da derrota da sua companhia. -No posso matar um homem
pelas costas -Lee protestou. -Mais vergonhoso  morrer com uma bala na
arma. Ento ele apontou para o prprio zepelim, que ainda se esforava
para subir com um s motor, e disparou a sua ltima bala, que devia
estar em brasa -ou talvez um galho em chamas da floresta l embaixo
tenha subido at a aeronave numa corrente ascendente, pois o gs
subitamente transformou-se numa bola cor de laranja, e o zepelim
ergueu-se um pouco e depois tombou e saiu rolando, devagar, suavemente,
mas repleto de morte feroz. E o homem que fugia, mais os seis ou sete
que eram o restante da Guarda e que no tinham ousado chegar mais perto
do homem que defendia a ravina, foram envolvidos pelo fogo que caa
sobre eles. Lee viu a bola de fogo e escutou, acima do rugido nos
ouvidos, a voz de Hester: #346 -J foram todos, Lee. Ele disse, ou
pensou: -Esses coitados no precisavam chegar a isso, nem ns. -Ns os
rechaamos. Ns conseguimos. Estamos ajudando Lyra. Ela ento apertou
seu corpo orgulhoso e alquebrado contra o rosto dele, o mais prximo que
conseguiu, e os dois morreram. #347 15 MUSGO-SANGNEO "A diante",
instruiu o aletmetro. "Para frente, para cima". De modo que eles
continuaram a subir. As bruxas voavam acima para escolher o melhor
caminho, pois o terreno cheio de colinas logo deu lugar a aclives mais
ngremes e solo pedregoso, e enquanto o sol subia em direo ao meio
dia, os viajantes se embrenhavam numa regio inspita de solo seco e
desbarrancado, grandes rochedos e vales pontilhados de grandes pedras,
onde no crescia uma nica folha verde e onde o estrdulo dos insetos
era o nico som. Seguiram em frente, conversando pouco, parando somente
para beber uns goles da gua de seus cantis de pele de cabra. Por algum
tempo Pantalaimon voou acima da cabea de Lyra, at que se cansou e
transformou-se num pequenino cabrito monts de ps firmes e orgulhoso de
seus chifres, saltando por entre as rochas enquanto Lyra subia
trabalhosamente. Will seguia, melanclico, apertando os olhos por causa
da claridade, ignorando a dor que aumentava em sua mo, e #348
finalmente chegando a um estado em que mover-se era bom e ficar parado
era ruim, de modo que ele sofria mais descansando do que em marcha. E,
desde que o feitio das bruxas para estancar a hemorragia tinha
fracassado, ele achava que elas estavam olhando para ele com medo,
tambm, como se ele fosse marcado por alguma maldio mais forte do que
o poder delas. Em certo momento, chegaram a um laguinho, um pedao de
azul intenso com pouco mais de 25 metros de dimetro, em meio s rochas
vermelhas. Pararam ali por algum tempo para beber e encher os cantis, e
para banhar os ps doloridos na gua gelada. Ficaram alguns minutos e
seguiram em frente, e logo depois, quando o sol estava mais quente e
mais alto, Serafina Pekkala deu um rasante para falar com eles. Estava
nervosa. -Tenho que deixar vocs por algum tempo -declarou. -Lee
Scoresby precisa de mim. No sei por qu. Mas ele no me chamaria se no
precisasse de ajuda. Vo em frente, eu os encontro... -O Sr. Scoresby?
-fez Lyra, agitada e ansiosa. -Mas onde... Serafina, porm, j tinha
partido, sumindo de vista antes que Lyra conseguisse completar a
pergunta. Automaticamente Lyra ia pegar o aletmetro para perguntar o
que tinha acontecido com Lee Scoresby, mas desistiu, pois tinha
prometido no fazer coisa alguma alm de guiar Will. A menina olhou para
ele. Will estava sentado por perto, a mo descansando sobre o joelho,
ainda pingando sangue devagar, o rosto crestado de sol e plido sob o
bronzeado. -Will, sabe por que voc tem que encontrar o seu pai? -ela
quis saber. #349 - o que eu sempre quis saber. Minha me disse que eu
ia levar o manto do meu pai.  s isso que eu sei. -Que significa isso,
levar o manto dele? O que ser esse manto? -U ma misso, eu acho. Seja o
que for que ele anda fazendo, tenho que continuar por ele. No faz o
menor sentido. Ele enxugou o suor dos olhos com a mo direita. O que o
menino no podia dizer era que ansiava pelo pai como uma criana perdida
anseia pelo lar. Essa comparao no teria lhe ocorrido, pois o lar era
para ele o lugar onde ele tomava conta da me, no o lugar onde outras
pessoas tomavam conta dele; mas j fazia cinco anos desde aquela manh
de sbado no supermercado quando a brincadeira de se esconder dos
inimigos tornara-se desesperadamente real; cinco anos era muito tempo em
sua vida, e seu corao ansiava por ouvir as palavras: "Muito bem, muito
bem, meu filho; ningum no mundo teria feito melhor; estou orgulhoso de
voc. Agora venha descansar...". Will ansiava tanto por isso que mal
sabia que ansiava; aquilo simplesmente fazia parte do modo como as
coisas eram. Portanto, no conseguia expressar isso para Lyra agora,
embora ela conseguisse ler tudo nos olhos dele -e isso era novidade
nela, tambm: ser to perceptiva. O fato era que em relao a Will ela
estava desenvolvendo outro sentido, como se ele simplesmente estivesse
mais ntido do que qualquer outra pessoa que ela conhecia. Tudo nele era
claro, prximo e imediato. E teria at dito isso a ele, mas nesse
momento uma bruxa pousou. -Vem vindo gente atrs de ns -informou.
-Esto bem longe, mas avanando depressa. Devo chegar mais perto e
espiar? #350 -Sim, faa isso -disse Lyra. -Mas voe baixo, e se esconda,
no deixe que vejam voc. Will e Lyra ficaram de p com esforo e
seguiram em frente com dificuldade. -J senti frio muitas vezes, mas
nunca tinha sentido tanto calor. Faz calor assim no seu mundo?
-perguntou ela, para afastar o pensamento dos perseguidores. -No onde
eu morava. Normalmente, no. Mas o clima est mudando. O vero tem sido
mais quente do que costumava ser. Dizem que as pessoas interferiram na
atmosfera colocando nela produtos qumicos, e o clima est ficando fora
de controle. -, colocaram mesmo, e est ficando mesmo -Lyra concordou.
-E ns aqui bem no meio disso tudo. Ele estava com calor e sede demais
para responder, e ambos continuaram a subir, ofegantes. Pantalaimon
agora era um grilo, sentado no ombro de Lyra, cansado demais para saltar
ou voar. De vez em quando, as bruxas avistavam do alto uma nascente
distante demais para Lyra e Will atingirem, e voavam at l para encher
os cantis deles. As crianas teriam morrido sem gua, e onde estavam era
tudo seco; qualquer nascente que conseguisse aflorar logo afundava outra
vez entre as rochas. E assim seguiram, enquanto a tarde findava. A bruxa
que voltou para espionar chamava-se Lena Feldt. Ela voava baixo, de um
penhasco a outro, e quando o sol se punha, tingindo de vermelho-sangue
as rochas, chegou ao laguinho azul e encontrou uma tropa de soldados
acampados. Mas ao primeiro olhar ela ficou sabendo mais do que gostaria:
aqueles soldados no tinham daemons. E no eram do mundo de Will, nem do
mundo de Cittgazze, onde os #351 daemons das pessoas ficavam dentro
delas, e onde elas mesmo assim pareciam vivas: aqueles homens eram do
mundo dela mesma, e v-los sem daemons era um horror grosseiro e
nojento. Ento, de uma barraca na margem do lago veio a explicao. Lena
Feldt viu uma mulher, uma vida-curta, graciosa em suas roupas cqui de
caadora e to cheia de vida quanto o macaco dourado que ao seu lado
dava cabriolas ao longo da margem. Lena Feldt escondeu-se entre os
rochedos acima do lago e ficou observando enquanto a Sra. Coulter
conversava com o oficial comandante, e os homens montavam barracas,
faziam fogueiras, ferviam gua. A bruxa estivera com Serafina Pekkala
resgatando as crianas em Bolvangar, e sentiu uma vontade imensa de
atirar na Sra. Coulter ali mesmo; mas alguma boa sorte estava protegendo
a mulher, pois a distncia era um pouco grande demais para uma flechada,
e a bruxa no poderia chegar mais perto- a no ser que se tornasse
invisvel. Ela ento comeou a fazer o feitio para isso. Foram precisos
10 minutos de profunda concentrao. Finalmente confiante, Lena Feldt
desceu a encosta rochosa em direo ao lago, e quando atravessou o
acampamento, um ou dois soldados de olhar vazio ergueram os olhos de
relance para ela. A bruxa parou do lado de fora da barraca onde a Sra.
Coulter tinha entrado e colocou a flecha no arco. Escutou a voz baixa da
mulher atravs da lona e ento avanou cautelosamente at a abertura da
barraca, que era virada para o lago. Dentro, a Sra. Coulter conversava
com um homem que Lena Feldt nunca tinha visto: um homem mais velho,
grisalho #352 e corpulento, com uma daemon-serpente enrolada no pulso.
Estavam sentados em cadeiras de lona colocadas lado a lado, e ela falava
em voz baixa, inclinada para ele: -Claro que sim, Carlo -dizia. -Vou lhe
contar o que quiser. O que  que voc deseja saber? -Como  que voc
comanda os Espectros? -ele perguntou. -Pensei que fosse impossvel, mas
eles seguem voc como cachorrinhos... Eles tm medo da sua escolta? O
que ? -Simples. Eles sabem que posso lhes dar mais alimento se me
deixarem viva do que se me consumirem. Posso lev-los a todas as vtimas
que seus coraes fantasmagricos desejarem. Assim que voc os descreveu
para mim, eu soube que poderia domin-los, e foi o que aconteceu. E um
mundo inteiro estremece sob o poder dessas coisas plidas! Mas, Carlo,
posso contentar voc tambm, sabe? -ela sussurrou. - Gostaria disso?
-Marisa, j  prazer suficiente estar perto de voc... -No , no,
Carlo; voc sabe que no . Sabe que posso lhe dar ainda mais prazer .
As mozinhas negras e calosas do daemon dela acariciavam o
daemon-serpente. Aos poucos a serpente desenrolou-se e comeou a
deslizar ao longo do brao do homem em direo ao macaco. O homem e a
mulher seguravam taas de vinho dourado, e ela deu um gole na sua e
inclinou-se para ele um pouco maIs. -Ah... -fez o homem, enquanto seu
daemon deslizava lentamente do seu brao para as mos do macaco dourado.
O macaco ergueu-a devagar at o rosto e passou a face de leve ao longo
da pele cor de esmeralda da serpente. Esta dardejou a lngua, e o homem
suspirou. #353 -Carlo, me conte por que est perseguindo o menino -a
Sra. Coulter pediu, com a voz to suave quanto a carcia do macaco. -Por
que precisa encontr-lo? -Ele tem uma coisa que eu quero. Ah, Marisa...
-O que , Carlo? O que  que ele tem? Ele sacudiu a cabea. Mas estava
achando difcil resistir; seu daemon enrolara-se em volta do trax do
macaco e deslizava a cabea pela pelagem longa e lustrosa, enquanto o
macaco corria as mos ao longo do corpo fluido da serpente. Lena Feldt
observava, parada, invisvel, a dois passos de onde eles estavam
sentados. Mantinha a corda do arco tensa, a flecha preparada: em menos
de um segundo a Sra. Coulter poderia estar morta. Mas a bruxa estava
curiosa; ficou parada, imvel, silenciosa, de olhos bem abertos. Mas
enquanto ela observava a Sra. Coulter, no olhou para o laguinho azul
atrs de si. Na margem oposta, na escurido, parecia ter nascido um
bosque de rvores fantasmagricas, um bosque que de vez em quando
estremecia como se com uma inteno consciente. Mas no eram rvores,
naturalmente; e, enquanto Lena Feldt e seu daemon dedicavam toda a sua
ateno  Sra. Coulter, uma das figuras plidas afastou-se das outras e
deslizou sobre a superfcie do lago gelado sem provocar uma nica
ondulao na gua, at parar a cerca de um metro da pedra onde o daemon
de Lena Feldt estava empoleirado. -Voc podia muito bem me contar ,
Carlo -murmurava a Sra. Coulter. -Voc podia sussurrar. Podia fingir que
estava falando dormindo, quem poderia culp-lo por isso? Conte
simplesmente o que  que o garoto tem e por que voc quer essa coisa. Eu
poderia consegui-la para voc... Gostaria que eu fizesse isso?  s me
contar, Carlo. No quero essa coisa para mim; eu quero a garota. O que
? Diga-me, e eu lhe trago. #354 Ele estremeceu de leve. Tinha os olhos
fechados. Ento disse: - uma faca. A faca sutil de Cittgazze. Nunca
ouviu falar dela, Marisa? Algumas pessoas a chamam de teleutaia
makhaira, a ltima de todas as facas. Outras pessoas chamam de
sahttr... -O que  que ela faz, Carlo? Por que  to especial? -Ah...
a faca que corta qualquer coisa... Nem os seus fabricantes sabiam o que
ela pode fazer... Nada, ningum, matria, esprito, anjo, ar, nada 
invulnervel para a faca sutil. Marisa, ela  minha, voc entende?
-Claro, Carlo. Eu prometo. Deixe-me encher a sua taa... E enquanto o
macaco dourado percorria com as mos o corpo da serpente esmeralda,
apertando de leve, erguendo, acariciando, enquanto Sir Charles suspirava
de prazer, Lena Feldt viu o que estava realmente acontecendo: como o
homem tinha os olhos fechados, a Sra. Coulter secretamente colocou na
taa dele algumas gotas de um pequeno frasco antes de tornar a ench-la
com vinho. -Tome, querido -ela sussurrou. -Vamos brindar um ao outro...
Ele j estava embriagado; pegou a taa e bebeu gulosamente, gole aps
gole. E ento, sem qualquer aviso, a Sra. Coulter levantou-se, virou-se
e ficou cara a cara com Lena Feldt. -Ora, bruxa, pensou que eu no sabia
como  que vocs ficam invisveis? -falou. Lena Feldt estava atnita
demais para se mover. Atrs da Sra. Coulter o homem lutava para
respirar. O peito ofegava, o rosto estava vermelho e o daemon pendia
#355 flacidamente das mos do macaco, que jogou-o longe com desprezo.
Lena Feldt tentou erguer o arco, mas uma paralisia fatal lhe dominava o
ombro; no conseguia se mexer. Isso nunca tinha acontecido antes; ela
soltou um gritinho. -Ah,  tarde demais para isso -disse a Sra. Coulter.
-Olhe para o lago, bruxa. Lena Feldt virou-se e viu seu daemon-calhandra
batendo as asas e guinchando como se estivesse numa cmara de vidro
sendo esvaziada de ar; o daemon debateu-se e caiu, o bico aberto, em
pnico, tentando respirar. O Espectro o tinha envolvido. -No! -ela
gritou. Tentou ir at ele, mas foi impedida por um espasmo de nusea.
Mesmo naquele estado terrvel, Lena Feldt via que a Sra. Coulter tinha
mais fora na alma do que qualquer outra pessoa que ela conhecia. No
ficou surpresa ao perceber que o Espectro estava sob o poder da Sra.
Coulter: ningum conseguia resistir  sua autoridade. Lena Feldt,
angustiada, voltou-se para ela. -Solte ele! Por favor, solte ele!
-implorou. -Veremos. A criana est com vocs? A menina, Lyra? -Est! -E
um garoto, tambm? Um menino com uma faca? -... Eu lhe imploro... -E
quantas bruxas so? -Vinte. Solte ele, solte ele! -Todas no ar? Ou
algumas ficam no cho com as crianas? -A maioria no ar, trs ou quatro
sempre no cho...  horrvel... Solte ele, ou me mate agora! #356 -A que
distncia da montanha eles esto? Esto avanando, ou pararam para
descansar? Lena Feldt contou-lhe tudo. Teria resistido a qualquer
tortura, exceto o que estava agora acontecendo com o seu daemon. Quando
a Sra. Coulter ficou sabendo tudo que desejava, dIsse: -E agora me conte
uma coisa. Vocs, bruxas, sabem alguma coisa sobre essa menina. Eu quase
fiquei sabendo por uma das suas irms, mas ela morreu antes que eu
pudesse completar a tortura. Bem, no h ningum para salvar voc agora.
Diga-me a verdade sobre a minha filha. Lena Feldt disse, ofegante: -Ela
ser a me... Ela ser a vida... a me... Vai desobedecer... vai...
-Diga o nome dela! Voc est contando tudo, menos a coisa mais
importante! O nome dela! -gritou a Sra. Coulter . -Eva! A me de todos!
Eva, outra vez! A Me Eva! - balbuciou Lena Feldt, soluando. -Ah! -fez
a Sra. Coulter . E soltou um grande suspiro, como se finalmente o
propsito de sua vida estivesse claro. A bruxa percebeu vagamente o que
tinha feito, e, vencendo o horror que a envolvia, tentou gritar: -O que
 que vai fazer com ela? O que  que vai fazer? -Ora, vou ter que
destru-la -respondeu a Sra. Coulter. -Para impedir outra Queda... Por
que no vi isso antes? Era grandioso demais para ser percebido... Ela
bateu palmas de leve, como uma criana, de olhos arregalados. Lena
Feldt, gemendo, ouviu-a prosseguir: #357 -Claro que sim. Asriel vai
guerrear contra a Autoridade, e ento... Claro, claro... Como antes, de
novo. E Lyra  Eva. E desta vez ela no vai cair. Vou cuidar disso. No
vai haver Queda... E a Sra. Coulter endireitou o corpo e estalou os
dedos para o Espectro que se alimentava do daemon da bruxa. O pequeno
daemon-calhandra ficou cado sobre a pedra, em espasmos, enquanto o
Espectro avanava para a prpria bruxa; e ento, o que quer que Lena
Feldt tenha suportado foi duplicado e triplicado e multiplicado 100
vezes. Ela sentiu nuseas na alma, um desespero terrvel e repugnante,
melancolia e cansao, um cansao to profundo que ela pensou que fosse
morrer. Seu ltimo pensamento consciente foi nojo da vida: seus sentidos
tinham-lhe mentido, o mundo no era feito de energia e delcia, mas de
sujeira, traio e lassitude. Viver era horrvel e morrer no era
melhor, e de um lado a outro do universo essa era a primeira e ltima e
nica verdade. Assim ficou ela, o arco na mo, indiferente, morta em
vida. De modo que Lena Feldt deixou de ver ou de se importar com o que a
Sra. Coulter fez em seguida. Ignorando o homem grisalho derreado,
inconsciente, na cadeira de lona, e o daemon-serpente de pele opaca
enrodilhada no cho, ela chamou o capito dos soldados e ordenou que se
preparassem para uma marcha noturna montanha acima. Ento foi at a
beirada do lago e chamou os Espectros. Eles vieram ao seu comando,
deslizando como colunas de nvoa por cima da gua. Ela ergueu os braos
e fez com que se esquecessem de que eram presos  terra, de modo que um
por um eles se ergueram no ar e flutuaram, como sombras malvolas
deslizando na noite, levados pelas correntes de ar #358 em direo a
Will, Lyra e as outras bruxas; mas Lena Feldt nada enxergou disso tudo.
Depois que escureceu, a temperatura caiu rapidamente; Will e Lyra
comeram o restante do po seco e foram deitar-se na reentrncia formada
por um rochedo que assomava, para ficarem aquecidos e tentarem dormir.
Lyra, pelo menos, no precisou tentar; em apenas um minuto estava
dormindo, enrodilhada em volta de Pantalaimon. Mas Will no conseguia
dormir, por mais que tentasse -em parte por causa da mo, que agora
latejava at o cotovelo e estava incomodamente inchada, em parte por
causa do solo duro, em parte pelo frio, em parte por pura exausto e em
parte por saudade da me. Estava preocupado com ela, naturalmente, e
achava que estaria mais segura se ele estivesse l, tomando conta dela;
mas queria que ela tomasse conta dele, tambm, como quando ele era
pequeno; queria que lhe fizesse um curativo, cantasse para ele dormir e
levasse embora todos os problemas, que o rodeasse de todo o carinho,
suavidade e amor maternal de que ele tanto precisava; e isso nunca iria
acontecer. Parte dele ainda era um menininho. De modo que ele chorou,
mas sem se mexer, para no acordar Lyra. Mas mesmo assim no conseguia
dormir. Estava mais desperto que nunca. Finalmente estendeu as pernas
doloridas e levantou-se cautelosamente, estremecendo, e com a faca na
cintura ps-se a subir a montanha, para acalmar a sua inquietao. Atrs
dele, o daemon-tordo da bruxa de sentinela inclinou a cabea e a bruxa
virou-se em seu posto de vigia para ver Will subindo pelas pedras. Ela
pegou seu ramo de pinheiro-nubgeno e alou vo silenciosamente, no
para incomod-lo, mas para proteg-lo e evitar que ele se machucasse.
#359 Ele no percebeu. Sentia tal necessidade de se movimentar que j
quase no sentia a dor na mo. Tinha a sensao de que deveria caminhar
a noite inteira, o dia inteiro, para sempre, porque nada mais acalmaria
aquela febre em seu peito. Ento, como se solidrio com ele, o vento
comeara a soprar. No havia folhas que pudessem ser sacudidas, mas o
vento golpeava o corpo de Will, soprando seus cabelos para trs; havia
turbulncia dentro e fora dele. Ele subiu cada vez mais alto, mal se
lembrando de que precisaria encontrar o caminho de volta para Lyra, at
chegar a um pequeno plat que parecia estar quase no topO do mundo; em
volta dele, em todos os horizontes, no havia montanha mais alta. Ao
luar brilhante, as nicas cores eram o negro total e o branco puro; os
contornos eram serrilhados e as superfcies eram nuas. O vento selvagem
devia estar trazendo nuvens, pois de repente a lua foi encoberta e a
escurido cobriu toda a paisagem; e eram nuvens espessas, pois nem um
raio de luar brilhava atravs delas. Em menos de um minuto Will
encontrou-se em escurido quase total. E no mesmo momento sentiu que lhe
agarravam o brao direito. Ele gritou com o choque e tentou
desvencilhar-se, mas foi em vo. E Will tornou-se selvagem. Tinha a
sensao de ter chegado ao fim do mundo; se ali fosse tambm o fim da
sua vida, ele iria lutar e lutar at cair. De modo que ps-se a girar e
chutar, mas a mo no o soltava; como era o brao direito que estava
preso, ele no conseguia pegar a faca. Tentou fazer isso com a mo
esquerda, mas estava sendo to sacudido, e sua mo estava to inchada
#360 e dolorida, que no conseguiu; tinha que lutar com uma s mo,
machucada, contra um homem adulto. Enterrou os dentes na mo que lhe
prendia o brao, mas o que aconteceu foi que o homem lhe deu um soco
estonteante na nuca. Ento Will tornou a chutar, alguns dos chutes
atingiram o alvo e outros no, e durante todo o tempo ele saltava,
girava, empurrava e se debatIa- mas no conseguia desvencilhar-se. Ouvia
vagamente a sua prpria respirao ofegante junto com os grunhidos e a
respirao rascante do homem; ento, por puro acaso, conseguiu passar a
perna por trs do outro e jogou-se contra o peito dele, e o homem caiu
com Will por cima; mas nem por um instante o aperto no brao de Will
diminuiu. E Will, rolando com violncia no solo pedregoso, sentiu um
grande medo apertar-lhe o corao: aquele homem jamais iria solt-lo;
mesmo que o menino conseguisse mat-lo, o cadaver continuaria preso ao
seu brao. Mas Will sentia-se enfraquecendo, e agora estava chorando,
tambm, soluando amargamente enquanto chutava, empurrava e batia no
homem com a cabea e os ps, e sabia que seus msculos logo cederiam. E
ento percebeu que o homem estava imvel, embora a mo continuasse
agarrando firmemente o brao de Will. Estava deitado, deixando que Will
o surrasse com a cabea e os joelhos, e assim que percebeu isso Will
perdeu o resto das suas foras e caiu ao lado do seu oponente,
atordoado, cada nervo em seu corpo retesado e latejante. Will ergueu o
tronco com dificuldade e perscrutou a profunda escurido, distinguindo
um borro branco no cho ao lado do homem. Era o peito e a cabea
brancos de um grande pssaro, uma guia-pesqueira, um daemon, que estava
deitado, imvel. Will tentou soltar o brao, e o fraco puxo provocou
uma reao do homem, cuja mo no tinha afrouxado. #361 Mas ele estava
se mexendo: estava tateando a mo direita de Will com sua mo livre.
Will arrepiou-se. Ento o homem disse: -Me d a sua outra mo. -Tome
cuidado -Will pediu. A mo livre tateou ao longo do brao esquerdo de
Will, e as pontas dos dedos deslizaram pelo pulso at a palma inchada e,
com enorme delicadeza, pelos dois tocos dos dedos de Will. No mesmo
instante a outra mo soltou o menino e ele se sentou. -Voc tem a faca-
afirmou. -Voc  o portador da faca. A voz era ressonante, spera, porm
ofegante. Will sentia que o outro estava seriamente ferido. Ele teria
machucado aquele adversrio oculto? Will ainda estava deitado nas
pedras, inteiramente exausto. Tudo que via era o vulto do homem agachado
ao seu lado, mas no conseguia ver-lhe o rosto. O homem estava
procurando alguma coisa, e depois de um instante uma sensao
maravilhosa e calmante espalhou-se pela mo de Will, partindo dos tocos
dos dedos, enquanto o homem massageava sua pele com um ungento. -O que
est fazendo? -Will perguntou. -Curando o seu machucado. Fique quieto.
-Quem  voc? -Sou o nico homem que sabe para que serve a faca. Segure
a mo assim. No se mexa. O vento soprava mais forte que nunca, e um
pingo de chuva bateu no rosto de Will. Ele tremia violentamente, mas
apoiou a mo esquerda com a direita enquanto o homem espalhava mais
pomada sobre os tocos e enrolava uma faixa de linho em volta da mo.
#362 Assim que o curativo ficou pronto, o homem deixou-se cair de lado e
deitou-se. Will, ainda pasmo com a abenoada insensibilidade na mo,
tentou sentar-se e olhar para ele. Mas estava mais escuro do que nunca.
Ele estendeu a mo direita e tocou no peito do homem, onde o corao
batia como um pssaro contra as grades de uma gaiola. -Sim -disse o
homem em voz rouca. -Tente curar isto. -Est doente? -Vou melhorar logo.
Voc tem a faca, no? -Sim. -E sabe us-la? -Sei, sei. Mas o senhor 
deste mundo? Como  que sabe dela? O homem sentou-se com esforo.
-Escute -disse. -No me interrompa. Se voc  o portador da faca, tem
uma misso maior do que pode imaginar. Um menino... Como  que eles
deixaram isto acontecer? Bem, j que tem que ser... Vem a uma guerra,
garoto. A maior que j existiu. J aconteceu uma coisa parecida, e desta
vez o lado certo tem que vencer... Durante todos os milhares de anos da
Histria humana, s tivemos mentiras, propaganda, crueldade e
hipocrisia. Est na hora de comear de novo, mas desta vez da maneira
certa... Ele parou de falar para respirar vrias vezes, ruidosamente.
Depois de um minuto, continuou: -E a faca... Eles no sabiam o que
estavam fazendo, aqueles filsofos antigos. Inventaram uma coisa que
podia partir as menores partculas de matria, e usaram isso para roubar
caramelos. No tinham idia de que haviam feito a nica arma em todos os
universos que poderia derrotar o #363 tirano. A Autoridade. Deus. Os
anjos rebeldes fracassaram porque no tinham uma coisa assim; mas
agora... -Eu no queria a faca! E ainda no quero! -Will exclamou. -Se o
senhor quer, pode ficar com ela! Eu odeio esta faca e odeio o que ela
faz... -Tarde demais. Voc no tem escolha:  o portador . A faca o
escolheu. E alm disso, eles sabem que voc est com ela, e se no
us-la contra eles, vo arranc-la de voc e us-la contra o resto de
ns, para sempre. -Mas por que eu devo lutar contra eles? J lutei
demais, no posso continuar lutando, eu quero... -Voc venceu as suas
lutas? Will ficou em silncio. Depois disse: -, acho que sim. -Lutou
pela faca? -Sim, mas... -Ento  um guerreiro.  o que voc ; conteste
qualquer coisa, menos a sua prpria natureza. Will sabia que o homem
estava falando a verdade. Mas no era uma verdade agradvel; era pesada
e dolorosa. O homem parecia saber disso, pois deixou Will baixar a
cabea antes de tornar a falar. -Existem dois grandes poderes, e eles
lutam desde o incio dos tempos. Eles disputam, arrancando dos dentes um
do outro, cada progresso na vida humana, cada passo nosso no
conhecimento, na sabedoria e na decncia. Cada pequeno avano na
liberdade humana foi disputado ferozmente entre aqueles que querem
aumentar o nosso conhecimento para que sejamos mais sbios e mais
fortes, e aqueles que nos querem obedientes, humildes e submissos. E
agora esses dois poderes #364 esto se preparando para a guerra. E cada
um deles quer essa sua faca mais do que qualquer outra coisa. Voc tem
que escolher, garoto. Ns dois fomos guiados at aqui: voc com a faca e
eu para lhe falar dela. -No! Voc est enganado! -Will exclamou. -Eu
no estava procurando nada disso! No  nada disso que eu estava
procurando! -Voc pode achar que no , mas foi isso que encontrou
-disse o homem na escurido. -Mas o que devo fazer? E ento Stanislaus
Grumman, Jopari, John Parry, hesitOU. Tinha plena conscincia do
juramento que fizera a Lee Scoresby, e hesitou antes de romp-lo; mas
foi o que fez. -Voc deve ir at Lorde Asriel e dizer-lhe que Stanislaus
Grumman mandou voc e que voc tem a arma de que ele precisa mais do que
todas. Gostando ou no, rapaz, voc tem um trabalho afazer .Ignore todo
o resto, por mais importante que parea ser, ev fazer isso. Vai
aparecer algum para gui-lo; a noite est cheia de anjos. Agora a sua
ferida vai cicatrizar. Espere. Antes de ir, quero ver voc direito. Ele
tateou  procura do pacote que estava carregando, tirou alguma coisa,
desdobrou vrias camadas de lona e depois acendeu um fsforo e com ele
acendeu uma pequena lamparina de lata. A essa luz, atravs do ar ventoso
e denso de chuva, os dois se entreolharam. Will viu olhos ardentes num
rosto abatido, dominado pela dor, o queixo forte coberto por uma barba
de vrios dias, cabelos grisalhos, um corpo curvado e magro envolto numa
capa pesada, uma espcie de manto orlado de penas de pssaros diversos.
#365 O xam viu um garoto ainda mais jovem do que ele tinha imaginado, o
corpo magro e trmulo numa camisa de linho rasgada, e expresso exausta,
selvagem e desconfiada, mas iluminada por uma curiosidade feroz, os
olhos arregalados sob as sobrancelhas negras e retas, to parecidas com
as da me... E ento aconteceu entre ambos a primeira fagulha de outra
coisa mais. Mas nesse mesmo momento, enquanto a luz da lamparina
iluminava o rosto deJohn Parry, alguma coisa desceu do cu encoberto e
ele caiu morto antes de poder dizer uma palavra, com uma flecha cravada
no corao doente. O daemon-guia-pesqueira desapareceu. Will conseguia
apenas olhar, estupefato. U ma fasca cruzou seu campo de viso, e sua
mo direita moveu-se como um raio; ele viu que estava segurando um
daemon, um tordo de peito vermelho, em pnico. -No! No! -gritou a
bruxa Juta Kamainen, e caiu tambm, apertando o peito, batendo no solo
pedregoso e levantando-se outra vez com esforo. Mas Will aproximou-se
antes que ela conseguisse se equilibrar, e colocou a faca sutil na
garganta dela. -Por que fez isso? -gritou. -Por que matou ele? -Porque
eu o amava e ele me desprezou! Sou uma bruxa! Eu no perdo! E por ser
uma bruxa, normalmente ela no teria medo de um menino; mas teve medo de
Will. Aquela jovem figura machucada tinha mais fora e representava um
perigo maior do que ela jamais encontrara num humano, e ela se
intimidou. Deu um passo para trs; ele avanou e agarrou-lhe os cabelos
com a mo esquerda, sem sentir dor, sentindo apenas um desespero enorme
e esmagador. #366 -Voc no sabe quem ele era! -gritou. -Era o meu pai.
Ela sacudiu a cabea e sussurrou: -No, no! No pode ser verdade!
Impossvel! -Voc acha que as coisas tm que ser possveis? As coisas
tm que ser verdadeiras! Ele era o meu pai, e nenhum dos dois sabia, at
o segundo em que voc o matou! Bruxa, eu espero a minha vida inteira e
venho at aqui e finalmente encontro o meu pai, e voc mata ele... Ele
sacudiu a cabea dela como a de uma boneca, e jogou-a sobre o solo,
deixando-a quase inconsciente. O pasmo dela era quase maior do que o
medo que tinha dele, que era bem grande, e ela se levantou, atordoada, e
agarrou a camisa dele, em splica. Ele afastou a mo dela com
brutalidade. -Que foi que ele lhe fez, para precisar matar ele? -
gritou. -Diga-me, se puder! E ela olhou para o morto. Depois olhou outra
vez para Will e sacudiu a cabea com tristeza. -No consigo explicar
-disse. -Voc  novo demais. No iria entender. Eu o amava. S isso.
Isso basta. E antes que Will pudesse impedi-la, caiu de lado, com a mo
no punho da faca que acabara de tirar de seu prprio cinto e enfiar no
peito. Will no sentiu horror; apenas desolao e perplexidade.
Levantou-se devagar e olhou para a bruxa morta, para os cabelos negros,
a face corada, os membros macios e plidos molhados de chuva, os lbios
entreabertos como os de uma amante. -No compreendo.  estranho demais
-disse em voz alta. Will virou-se para o homem morto, seu pai. #367 Mil
coisas lutavam em sua garganta, e s a chuva forte esfriava o fogo em
seus olhos. A pequena lamparina ainda tremeluzia ao vento, e  sua luz
Will ajoelhou-se e colocou as mos no corpo do homem, tocando em seu
rosto, seus ombros, seu peito, fechando os seus olhos, afastando da sua
testa os cabelos grisalhos e molhados, apertando as mos contra suas
faces speras, fechando a boca de seu pai, segurando as suas mos.
-Pai... Papai, paizinho... Meu pai... No entendo por que ela fez isso.
 estranho demais para mim. Mas o que o senhor queria que eu fizesse,
prometo, juro que vou fazer. Vou lutar. Vou ser um guerreiro, vou. Esta
faca, vou lev-la para Lorde Asriel, onde quer que ele esteja, e vou
ajudar ele a lutar contra o inimigo. Vou fazer isso. Pode descansar
agora. Est tudo bem. Pode dormir agora. Ao lado do morto estava a bolsa
de pele de cervo, com a lona dobrada, a lamparina e a pequena caixinha
de chifre cheia de ungento de musgo-sangneo. Will recolheu essas
coisas, e ento viu o manto orlado de penas, sujo e encharcado, mas
ainda assim um agasalho. No teria mais utilidade para o pai, e Will
estava tremendo de frio. Desabotoou afivela de bronze que prendia o
manto na garganta do homem morto e colocou a bolsa de lona sobre o ombro
antes de enrolar-se nele. Apagou a lamparina e olhou para trs, para as
figuras desfocadas do pai, da bruxa e novamente do pai, antes de
virar-se e descer a montanha. O ar tempestuoso estava eltrico com
sussurros, e no fragor do vento Will ouvia outros sons tambm: ecos
confusos de gritos e cnticos, o clangor de metal contra metal, um
poderoso ruflar de asas que em certo momento soou to prximo que
poderia at estar dentro da cabea dele, e no momento seguinte parecia
to distante que poderia estar em #368 outro planeta. As pedras no cho
eram soltas e escorregadias, e foi muito mais difcil descer do que
tinha sido subir; mas ele no vacilou. E quando desceu o ltimo pequeno
barranco antes de chegar ao lugar onde Lyra estava dormindo, ele estacou
de repente. Havia dois homens simplesmente parados ali, no escuro, como
se estivessem esperando. Willlevou a mo  faca. Ento um deles falou:
-Voc  o menino da faca? Sua voz tinha a mesma qualidade estranha do
ruflar de asas. Fosse quem fosse, no era um ser humano. -Quem so
vocs? -Will perguntou. -So homens, ou... -No somos homens, no. Somos
os Vigilantes. Bene elim. Em sua lngua, anjos. Will ficou em silncio.
O homem continuou. -Outros anjos tm outras funes e outros poderes. A
nossa misso  simples: precisamos de voc. Viemos seguindo o xam por
todo o caminho, na esperana de que ele nos levasse a voc, e ele fez
isso. E agora viemos para levar voc a Lorde Asriel. -Vocs estiveram
com meu pai todo o tempo? -Cada minuto. -Ele sabia? -No tinha a menor
idia. -Ento por que no detiveram a bruxa? Por que deixaram ela matar
o meu pai? -Antes ns teramos feito isso; mas a misso dele estava
cumprida, depois que ele nos levou at voc. Will no respondeu. Sua
cabea retinia; aquilo no era menos difcil de entender do que todo o
resto. Finalmente falou: #369 -Est bem, eu vou com vocs. Mas primeiro
tenho que acordar Lyra. Eles se afastaram para deix-lo passar, e ele
sentiu uma vibrao no ar ao passar perto das duas figuras, mas ignorou
isso e concentrou-se em descer a encosta na direo do pequeno abrigo
onde Lyra estava dormindo. Mas alguma coisa fez com que estacasse. Na
penumbra, ele viu que as bruxas que protegiam Lyra estavam todas
sentadas ou de p, imveis. Pareciam esttuas; respiravam, mas mal
estavam vivas. Havia tambm vrios corpos vestidos de seda negra cados
no cho, e enquanto contemplava a cena, horrorizado, Will entendeu o que
devia ter acontecido: elas tinham sido atacadas no ar pelos Espectros e
morrido na queda, indiferentes. Mas... -Onde est Lyra? -ele bradou. A
pequena reentrncia sob o rochedo estava vazia. Lyra tinha desaparecido.
Havia alguma coisa onde Lyra estivera deitada. Era a pequena mochila de
brim, e pelo peso ele soube, sem precisar olhar, que o aletmetro ainda
estava ali dentro. Will sacudiu a cabea. No podia ser verdade, mas
era: Lyra tinha sumido, Lyra tinha sido capturada, Lyra estava perdida.
As duas figuras escuras dos bene elim no tinham se movido. Mas
disseram: -Agora tem que vir conosco. Lorde Asriel precisa de voc
imediatamente. O poder do inimigo cresce a cada minuto. O xam lhe disse
qual  a sua misso. Siga-nos e nos ajude a vencer. Venha conosco. Venha
por aqui. Venha agora. Will olhou para eles, depois para a mochila de
Lyra e de novo para eles, e no escutou uma s palavra do que eles
disseram. #370

--- Referncias desta pgina ---
Nota do digitalizador: Este livro foi digitalizado e corrigido por Lucas
Maia, para uso exclusivo de deficientes-visuais, de acordo com a lei
brasileira de direitos autorais, que segue abaixo: "Lei 9.610, de 19 de
fevereiro de 1998, sobre "Direitos autorais. Alteracao, atualizacao e
consolidacao da legislacao". TITULO III - Dos direitos do autor.
Capitulo IV - Das limitacoes aos direitos autorais. Art. 46 - Nao
constitui ofensa aos direitos autorais: I - A reproducao: d)  De obras
literarias, artisticas ou cientificas, para uso exclusivo de deficientes
visuais, sempre que a reproducao, sem fins comerciais, seja feita
mediante o sistema BRAILLE ou outro procedimento em qualquer suporte
para esses destinatarios;" *Para a correo deste texto, foi usado o
editor de textos do sistema DOSVOX; de modo que o texto pode conter
erros de diagramao e outros. *O nmero das pginas  acompanhado pelo
sinal #, para facilitar a leitura. Maro de 2003.   Fim da nota **** O
mundo dos daemons e das aventuras assombrosas est de volta. Dessa vez,
tudo comea quando o jovem Will mata um homem. Com apenas 12 anos, Will
est sozinho e precisa fugir. Decidido, ele s tem uma coisa em mente
-descobrir toda a verdade que encobre o desaparecimento de seu pai. Num
pace de mgica, Will atravessa uma janela no ar e penetra em outro mundo
onde conhece Lyra -uma garota estranha e selvagem. Lyra tambm tem uma
misso e juntos eles vo fazer de tudo para cumprir seus objetivos. S
que Cittgazze, o mundo onde Will e Lyra se encontram,  assustador.
Espectros letais, devoradores de almas, percorrem as ruas, enquanto o
rufar de asas de anjos distantes ecoa no cu.  a, escondida na torre
dos anjos, que se encontra a Faca Sutil -um poderoso talism, capaz de
cortar o nada e abrir brechas para outros mundos. Seres de todo o
universo so capazes de qualquer coisa para conseguir essa arma.
Qualquer coisa... At mesmo matar. Anciosamente esperado pelos leitores
de A Bssola Dourada, este  o segundo volume da trilogia Fronteiras do
Universo. Se voc gosta de aventuras aterrorizantes... Se voc suporta
emoes fortes... Se voc est disposto a enfrentar um mundo
terrivelmente perigoso, respire fundo e acompanhe Lyra e Will. Os
espectros de Cittgazze aguardam voc. Ansiosamente... Philip Pullman 
considerado um dos mais importantes escritores para jovens da
atualidade. Os dois primeiros livros da trilogia Fronteiras do Universo,
grande sucesso de pblico e crtica, foram traduzidos para 18 lnguas, e
j so um clssico da literatura. A Bssola Dourada recebeu a medalha
Carnegie, o Prmio de Fico do Guardian e foi eleito o livro do ano na
Gr-Bretanha em 1997. A Faca Sutil foi escolido como livro do ano no
Reino Unido em 1997. FRONTEIRAS DO UNIVERSO II A FACA SUTIL "Mais do que
cumprir a promessa de A Bssola Dourada, este segundo volume da trilogia
Fronteiras do Universo comea com um ritmo de acelerar o corao e em
momento algum diminui esta velocidade (...) a grandiosa e exuberante
narrao da histria com certeza ir fascinar leitores de todas as
idades." Publishers Weekly "Em cada poca, apenas uma vez surge um altor
to estraordinrio, que  capaz de mexer com o imaginrio de todas as
geraes que vm depois dele. Lewis Carrol, E. Nesbit, C. S. Lewis e
Tolkien fazem parte deste elenco. Philip Pullman, com essa fantstica
trilogia, vem juntar-se a esse grupo." The New Statesman "A Faca Sutil 
pura fantasia neste final do milnio -fantasia no sentido mais ambicioso
e srio. Uma rara histria contada por um grande mestre da
criatividade." Times Educational Supplement "Anjos, bruxas e magia ficam
lado a lado com a fsica, religio e filosofia nesta aventura de tirar o
flego." The Guardian "Pullman deveria ser acorrentado ao seu teclado
para terminar logo o volume trs." New Stateman & Society Aguarde o
prximo livro da srie. **** PHILIP PULLMAN FRONTEIRAS DO UNIVERSO
VOLUME DOIS A FACA SUTIL Traduo Eliana Sabino OBJETIVA (C) 1997 by
Philip pullman Ttulo original THE SUBTLE KNIFE Todos os direitos desta
edio reservados  EDITORA OBJETIVA LTDA., rua Cosme Velho,103 Rio de
Janeiro -RJ -CEP: 22241-090 Tel.: (021) 556-7824 -Fax: (021) 556-3322
INTERNET: http:www.objetiva.com Capa Ps Imagem Design Reviso Tereza de
Ftima da Rocha Henrique Tarnapolsky Neusa Peanha 1999 1098765432 A
faca sutil  a segunda parte de uma histria em trs volumes que teve
incio com A bssola dourada. Este volume movimenta-se entre trs
universos: o universo de A bssola dourada, que  semelhante ao nosso,
porm com vrias diferenas; o universo que conhecemos; e um terceiro
universo, que apresenta ainda outras diferenas em relao ao nosso.
Sumrio 1. A Gata e os Carpinos 9 2. Entre as Bruxas 40 3. Um Mundo
Infantil 69 4. A Trepanao 88 5. Papel de Carta Via Area 121 6. Os
Voadores Luminosos 136 7. O Rolls Royce 168 8. A Torre dos Anjos 193 9.
O Roubo 220 10. O Xam 238 11. O Belvedere 255 12.A Linguagem da Tela
271 13. Sahttr 290 14. A Ravina do lamo 316 15.Musgo-Sangneo 348
**** 1 A GATA E OS CARPINOS Will puxou a me pela mo, dizendo: -Vamos,
vamos... Mas a me relutava; ainda estava com medo.  luz do entardecer,
Will perscrutou os dois lados da ruela estreita -um quarteiro pequeno,
cada casa atrs de seu jardinzinho minsculo e sua cerca-viva, com o sol
a refletir-se nas janelas de um lado, deixando o outro lado na sombra.
No tinham muito tempo; a essa hora, as pessoas certamente estariam 
mesa, mas logo haveria outras crianas por ali, para prestar ateno,
perceber, comentar. Era perigoso esperar- mas, como sempre, a nica
coisa que ele podia fazer era tentar convenc-la. -Me, vamos entrar e
ver a Sra. Cooper -disse ele. -Olhe,  logo ali. -A Sra. Cooper? -ela
repetiu, em tom de dvida. Mas ele j estava tocando a sineta. Para isso
teve que deixar a mala no cho, pois a outra mo ainda segurava a da
me. Com 12 anos de idade, ele poderia at ficar envergonhado de ser
vistO segurando a mo da mame, mas sabia o #9 que aconteceria se no
fizesse isso. A porta abriu-se e surgiu a figura idosa e encurvada da
professora de piano, exalando cheiro de lavanda, como ele se lembrava.
-Quem ?  William? -perguntOU a anci. -No vejo voc h mais de um
ano. Que  que voc quer, meU filho? -Quero entrar, por favor. Eu e a
minha me- ele disse em tOm firme. A Sra. Cooper olhou para a mulher de
cabelos despenteados e um meio-sorriso aturdido, e para o menino com um
brilho forte e infeliz nOS olhos, lbios contrados, queixO saliente. E
percebeu ento que a Sra. Parry, a me de Will, distraidamente colocara
maquilagem nUm dos olhos, mas no nO oUtro. E Will no tinha vistO isso?
Alguma coisa estava errada. -Bem... -fez ela, pondo-se de lado para
dar-lhes passagem no corredor estreito. William olhou para os dois lados
da rua antes de fechar a porta; a Sra. Cooper percebeu a fora com que a
Sra. Parry agarrava-se  mo do filho, e o carinho com que ele a levou
para dentrO da sala de estar onde ficava o piano (naturalmente, era o
nico aposentO que ele conhecia); e ela percebeu tambm que as roupas da
Sra. Parry tinham um leve odor de mofo, como se tivessem ficado tempo
demais na mquina de lavar antes de serem postas a secar; e que OS dois
se pareciam muito, sentados no sof, o sol vespertino caindo em cheio no
rostO deles: as mas salientes, oS olhos largoS, as sobrancelhas retas
e negras. -Que foi, William? -perguntOU a anci. -Qual  o problema? #10
-Mame precisa de um lugar para ficar alguns dias - ele explicou. -No
momento est muito difcil cuidar dela em casa. No que ela esteja
doente; est s meio confusa, e fica um pouco preocupada. No  difcil
tomar conta dela. Ela s precisa de algum que a trate com carinho, e
acho que a senhora poderia fazer isso facilmente, com certeza. A mulher
olhava para o filho parecendo no entender, e a Sra. Cooper viu um
arranho no rosto dela. Will no tirara os olhos da Sra. Cooper, e sua
expresso era de desespero. -Ela no vai lhe dar despesa -ele
prosseguiu. -Eu trouxe alguns pacotes de comida, acho que ser
suficiente.  para a senhora, tambm. Ela no vai se importar em
dividir. -Mas... No sei se devo... Ela no precisa de um mdico? -No!
Ela no est doente. -Mas deve haver algum que possa... Quer dizer, no
h um vizinho, ou algum da famlia... -Ns no temos famlia. Somos s
ns dois. E os vizinhos so ocupados demais. -E o servio social? No
estou querendo enxotar voc, filho, mas... -No, no. Ela s precisa de
um pouco de cuidado. No vou mais poder fazer isso, mas s por pouco
tempo, no vou demorar. Tenho que... Tenho algumas coisas a fazer. Mas
logo estarei de volta, e vou levar mame de novo para casa, prometo. A
senhora no vai precisar cuidar dela por muito tempo. A me olhava para
o filho com tanta confiana, e ele voltou-se e sorriu para ela com tanto
amor, transmitindo-lhe tanta segurana, que a Sra. Cooper no conseguiu
negar. -Bem, com certeza no ser ruim, por um dia ou dois. -Voltou-se
para a Sra. Parry: -Minha cara, pode ficar no #11 quarto da minha filha,
ela est na Austrlia e no vai precisar dele. -Obrigado -disse Will,
pondo-se de p como se estivesse com pressa de partir. -Mas onde voc
estar? -perguntou a Sra. Cooper. -Vou ficar com um amigo- ele disse.
-Vou telefonar sempre que puder. Tenho o seu nmero. Vai dar tudo certo.
A me olhava para ele, confusa; Will inclinou-se para ela e beijou-a
desajeitadamente. -No se preocupe -disse. -A Sra. Cooper vai cuidar da
senhora melhor que eu, acredite. E amanh eu telefono e falo com a
senhora. Os dois se abraaram com fora, e ento Will beijou-a novamente
e com ternura retirou os braos dela de seu pescoo, antes de se
encaminhar para a porta da rua. A Sra. Cooper notava que ele estava
perturbado, pois tinha os olhos brilhantes, mas ele virou-se,
lembrando-se das boas maneiras, e estendeu a mo. -Adeus, e muito
obrigado -disse. -William, eu queria que voc me contasse qual  o
problema... -ela pediu. - um pouco complicado, mas ela no vai dar
trabalho, eu prometo. No fora isso que ela perguntara, e ambos sabiam;
mas, de um modo ou de outro, Will estava cuidando dos seus assuntos,
fossem eles quais fossem. A anci nunca tinha visto uma criana to
determinada. Ele virou-se, j pensando na casa vazia. O beco onde Will e
a me moravam era uma curva de estrada num loteamento moderno, com uma
dzia de casas #12 idnticas, das quais a deles era, de longe, a mais
modesta. O jardim da frente era apenas um gramado cheio de ervas; no
incio do ano, a me tinha plantado algumas flores, mas elas secaram e
morreram por falta de gua. Quando Will dobrou a esquina, a gata Moxie
saiu de seu local favorito, sob a nica hortnsia que ainda vivia, e
espreguiou-se antes de cumpriment-lo com um miado baixo e esfregar a
cabea contra a perna dele. Ele pegou-a no colo e cochichou: -Eles
voltaram, Moxie? Voc viu algum deles? A casa estava silenciosa.
Aproveitando os resqucios de luz do dia, o morador da casa em frente
estava lavando o carro, mas no prestou ateno em Will, e o garoto no
olhou para ele. Quanto menos as pessoas o percebessem, melhor. Segurando
Moxie junto ao peito, Will destrancou a porta e entrou rapidamente.
Ento ficou escutando com ateno, antes de soltar o animal. No havia
rudo algum; a casa estava vazia. Abriu uma lata de comida para agata e
deixou-a comendo na cozinha. Quanto tempo at o homem voltar? Will no
sabia, de modo que era melhor agir depressa. Subiu a escada e comeou a
busca. Estava procurando um escrnio de couro verde, pudo pelo tempo.
Havia uma quantidade surpreendente de locais para esconder uma coisa
daquele tamanho, mesmo numa casa moderna comum -no  preciso haver
painis secretos e pores enormes para dificultar a busca de alguma
coisa. Will procurou primeiro no quarto da me, constrangido ao revistar
as gavetas onde ela guardava as roupas ntimas, e depois vasculhou
sistematicamente o resto dos quartos no andar de cima, inclusive o seu
prprio. Moxie veio ver o que ele estava #13 ; fazendo; sentou-se a um
canto e ps-se a lamber-se, fazendo-lhe companhia. Mas ele no teve
sucesso. Quando escureceu, Will sentiu fome. Preparou uma poro de
ervilhas com torradas e sentou-se  mesa da cozinha, estudando a melhor
ordem para revistar os aposentos do andar trreo. Estava terminando de
comer quando o telefone tocou. Ele ficou imvel, o corao disparado.
Contou: 26 toques at parar. Colocou o prato na pia e recomeou a busca.
Quatro horas depois, ainda no tinha encontrado o escrnio de couro
verde. Era uma e meia da manh, e ele estava exausto. Deixou-se cair na
cama vestido e adormeceu de imediato; teve sonhos tumultuados e cheios
de gente, o rosto infeliz e assustado da me sempre presente, mas fora
do seu alcance. E quase no mesmo instante, ao que parecia (embora
tivesse dormido quase trs horas), ele despertou tomando conscincia de
duas coisas ao mesmo tempo. A primeira: sabia onde o escrnio estava
escondido. A segunda: sabia que os homens estavam l embaixo, abrindo a
porta da cozinha. Ergueu Moxie para fora do seu caminho e com delicadeza
silenciou seu protesto sonolento. Depois sentou-se na cama e calou os
sapatos, forando cada nervo para ouvir os rudos do trreo -rudos
bastante abafados: uma cadeira ergui da e recolocada no cho, um
cochicho breve, o ranger de uma tbua do assoalho. Movendo-se com menos
rudo do que eles, o menino saiu do quarto e foi p ante p at o quarto
de guardados no alto da escada. A escurido no era total e,  luz
cinzenta e #14 fantasmagrica de antes do amanhecer, ele avistou a velha
mquina de costura de pedal. Tinha revistado o quarto algumas horas
antes, mas esquecera-se do compartimento na lateral da mquina, onde
ficavam guardadas agulhas e carretilhas. Tateou cuidadosamente, sem
deixar de escutar. Os homens moviam-se no andar trreo, e Will via, pela
fresta da porta, uma luz fraca que poderia ser uma lanterna. Ento
encontrou o fecho do compartimento e abriu-o com um estalido; l dentro,
como ele sabia, estava o escrnio de couro. E agora, que poderia fazer?
No momento, nada. Agachou-se na penumbra, o corao disparado, escutando
atentamente. Os dois homens estavam no corredor de entrada. Ele ouviu um
deles dizer baixinho: -Vamos, estou ouvindo o leiteiro entrar na outra
rua. -Mas o negcio no est aqui, vamos ter que procurar l em cima
-disse a outra voz. -Ento v logo. No perca tempo. Will retesou-se ao
ouvir o estalido baixo do degrau superior. O homem procurava no fazer
rudo, mas no pde evitar o estalido porque no sabia dele. Ento houve
uma pausa. Will viu por baixo da porta o facho muito estreito da
lanterna varrer o cho do lado de fora. Ento a porta comeou a
mover-se. Will esperou at o homem estar emoldurado pela porta aberta, e
ento saltou da escurido e jogou-se contra o estmago do intruso. Mas
nenhum dos dois viu agata. Quando o homem chegara ao ltimo degrau,
Moxie sara silenciosamente do quarto e ficara parada, com a cauda
erguida, logo atrs das pernas dele, pronta para esfregar-se nelas. #15
O homem poderia ter dado cabo de Will, pois era grande, forte e
treinado, mas a gata estava no seu caminho e ele tropeou no animal
quando tentou retroceder; e com um grito abafado caiu de costas escada
abaixo, batendo a cabea brutalmente contra a mesa do saguo. Will
escutou um estalo horrvel mas no parou para pensar nisso: desceu a
escada num salto, passando por cima do corpo que se contorcia, agarrou a
sacola de compras que estava sobre a mesa e saiu pela porta da frente,
fugindo antes que o outro homem pudesse fazer algo mais do que surgir 
porta da sala de estar . Mesmo com medo e pressa Will ficou pensando por
que o outro homem no gritara ou sara atrs dele. Mas logo estariam 
sua procura com seus carros e seus telefones celulares. A nica coisa a
fazer era correr . Viu o leiteiro entrar no beco, os faris de seu carro
eltrico plidos ao brilho da aurora que j enchia o cu. Will pulou o
muro para o jardim vizinho, desceu o corredor ao lado da casa, pulou o
muro oposto, cruzou um gramado molhado de orvalho, atravessou a
cerca-viva e entrou no emaranhado de rvores e moitas que ficava entre o
loteamento e a rua principal; l, rastejou para debaixo de uma touceira
e ficou deitado, ofegante e trmulo. Era cedo demais para ir para a rua:
melhor esperar at mais tarde, quando comeasse o movimento matinal. No
conseguia tirar do pensamento o estalo produzido pela cabea do homem
batendo na mesa, e o modo como o pescoo dele estava torcido, to
estranho, e os horrendos espasmos das pernas. O homem estava morto. Ele
o tinha matado. No conseguia tirar isso da cabea, mas precisava. Havia
muita coisa em que pensar. Sua me: ela estaria realmente #16 segura
onde estava? A Sra. Cooper no iria contar, iria? Mesmo se Will no
voltasse como tinha prometido? Porque poderia no voltar, agora que
tinha matado algum. E Moxie. Quem daria comida a ela? Moxie ficaria
preocupada com ele e a me? Tentaria ir atrs dele? Estava ficando mais
claro a cada minuto. J havia luz suficiente para ele verificar as
coisas na sacola de compras: a bolsa da me, a ltima carta do advogado,
o mapa do Sul da Inglaterra, barras de chocolate, pasta de dente, meias
e calas. E o escrnio de couro verde. Estava tudo ali. Na realidade,
estava tudo saindo conforme planejado. A no ser uma coisa: ele tinha
matado uma pessoa. Will tinha sete anos de idade quando percebeu que sua
me era diferente e que ele tinha que tomar conta dela. Estavam num
supermercado, e faziam uma brincadeira: s podiam colocar alguma coisa
no carrinho quando ningum estivesse olhando. A funo de Will era olhar
em volta e cochichar "Agora!", e ela ento pegava depressa uma lata ou
um pacote na prateleira e colocava no carro. Com a mercadoria dentro do
carrinho, eles estavam seguros, porque ficavam invisveis. Era uma boa
brincadeira, e durou um bom tempo, pois era uma manh de sbado e o
mercado estava cheio, mas eles eram bons nisso e juntos trabalhavam bem.
Confiavam um no outro. Will amava muito a me e sempre lhe dizia isso, e
ela dizia a mesma coisa a ele. De modo que quando chegaram  caixa
registradora Will estava excitado e feliz porque quase tinham vencido. E
quando a me no conseguiu encontrar a bolsa, isso tambm fazia parte da
brincadeira, mesmo quando ela disse que os inimigos a tinham roubado;
mas a essa altura Will estava ficando cansado, #17 e faminto tambm, e a
me j no estava to feliz -ela estava realmente assustada, e os dois
ficaram dando voltas no mercado,recolocando todas as mercadorias nas
prateleiras, mas dessa vez tiveram que ter ainda mais cuidado, porque os
inimigos estavam no rastro dela atravs dos nmeros do carto de
crdito, que eles conheciam, pois estavam com a bolsa dela... E Will
ficava cada vez mais amedrontado. Percebia a esperteza da me ao fazer
do perigo real uma brincadeira, para que ele no ficasse assustado, e
via tambm que, agora que sabia a verdade, precisava fingir no estar
com medo, para que ela ficasse tranqila. De modo que o menininho fingiu
que ainda era uma brincadeira, para que ela no tivesse que se preocupar
com o medo dele, e os dois foram para casa sem as compras, mas a salvo
dos inimigos; e ento Will encontrou a bolsa na mesa do corredor de
entrada. Na segunda-feira foram ao banco e fecharam a conta dela, e
abriram uma nova em outro lugar, s para terem certeza. E assim o perigo
passou. Mas ao longo dos meses seguintes Will percebeu, lentamente e a
contragosto, que aqueles inimigos de sua me no estavam no mundo l
fora, mas dentro da mente dela: Isso no os tornava menos reais, nem
menos assustadores ou perigosos; significava apenas que ele teria que
proteg-la ainda mais. E desde o instante, no supermercado, em que ele
percebeu que devia fingir para no preocup-la, parte da sua mente
estava sempre alerta  ansiedade dela. Will amava tanto a me, que
morreria para proteg-la. Quanto ao seu pai, ele desaparecera muito
antes de Will ter capacidade para lembrar-se dele. Will tinha a respeito
do pai uma curiosidade apaixonada, e costumava encher a me de perguntas
que na maioria ela no sabia responder. #18 -Ele era rico? -Para onde
ele foi? -Por que ele foi? -Ele est morto? -Ele vai voltar? -Como ele
era? Essa ltima era a nica pergunta a que ela sabia responder. John
Parry tinha sido um homem bonito, um oficial da Marinha Real corajoso e
inteligente, que deixou a carreira militar para tornar-se explorador e
guiar expedies a regies remotaS do mundo. Will adorou saber disso:
nenhum pai poderia ser mais empolgante do que um explorador. Da em
diante, em todas as suas brincadeiras ele tinha um companheiro
invisvel: ele e o pai estavam juntos abrindo uma picada na mata, ou no
convs de sua escuna protegendo os olhos com a mo para observar o mar
revolto, ou erguendo uma lanterna para decifrar inscries misteriosas
numa caverna infestada de morcegos... Eram os melhores amigos, salvaram
a vida um do outro inmeras vezes, riam e conversavam junto  fogueira
at tarde da noite. Mas ao ficar mais velho Will comeou a questionar.
Por que no havia retratos de seu pai nessa ou naquela parte do mundo,
com homens de barba de gelo em trens no rtico ou estudando runas
cobertas pelo mato na selva? Nada sobrevivera dos trofus e das
curiosidades que ele certamente tinha trazido para casa? No havia um s
livro que falasse dele? A me no sabia. Mas uma coisa que ela costumava
dizer ficou guardada para sempre na mente dele: -Um dia voc vai seguir
os passos do seu pai. Voc tambm vai ser um grande homem. Vai levar o
manto dele. E embora Will no soubesse o que isso significava, entendia
o sentido, e sentia-se cheio de orgulho e propsito: todas #19 as suas
brincadeiras iam se tornar realidade. O pai estava vivo, perdido em
algum lugar, e ele ia salv-lo e levar o manto dele... Valia a pena
viver uma vida difcil, quando se tinha um propsito grandioso como
esse. De modo que ele guardou em segredo o problema da me. Havia
ocasies em que ela ficava mais calma e mais lcida, e ele tratava de
aprender com ela como fazer compras, cozinhar e manter a casa limpa,
para poder fazer essas coisas nos perodos em que ela estava confusa e
assustada. E aprendeu tambm a esconder-se, passar despercebido na
escola; no atrair a ateno dos vizinhos, mesmo quando a me se
encontrava num tal estado de medo e loucura que mal conseguia falar. O
que o prprio Will temia mais do que tudo era que as autoridades
descobrissem sobre ela e a levassem embora, e o colocassem num lar
adotivo entre pessoas desconhecidas. Qualquer dificuldade era melhor que
isso. Porque havia ocasies em que as trevas abandonavam a mente da Sra.
Parry e ela ficava outra vez feliz, ria dos prprios temores e o
abenoava por cuidar dela to bem; e era to cheia de amor e carinho que
ele no podia imaginar uma companhia melhor, e nada mais desejava seno
viver s com ela para sempre. Mas ento apareceram aqueles homens. No
eram da polcia, no eram do servio social e no eram criminosos -pelo
menos pelo que Will podia julgar. No lhe disseram o que queriam, apesar
dos esforos dele para afast-los; s falariam com a me dele. E nessa
ocasio o estado dela era de fragilidade. Mas o garoto escutou atrs da
porta e ouviu-os perguntar pelo pai dele, e sentiu a respirao
acelerar-se. Os homens queriam saber aonde John Parry tinha ido, e se
tinha mandado alguma coisa para ela, e quando ela tivera notcias dele
pela ltima vez, e se ele fizera algum contato com #20 qualquer
embaixada estrangeira. Will percebeu que a me ficava cada vez mais
perturbada, e finalmente ele irrompeu na sala e mandou-os embora. Will
parecia to feroz que nenhum dos dois homens riu, embora ele fosse to
jovem. Podiam simplesmente t-lo derrubado, ou prendido seu corpo no
cho com uma das mos, mas ele era destemido e sua raiva era ardente e
mortal. Eles foram embora. Naturalmente esse episdio fortaleceu a
convico de Will: seu pai estava com problemas, e s ele poderia
ajudar. Suas brincadeiras j no eram infantis, e ele no brincava to
s claras. A fantasia estava virando realidade, e ele teria que se
mostrar  altura. No muito depois, os homens voltaram, insistindo que a
me de Will tinha algo a revelar. Vieram quando Will estava na escola, e
um deles ficou conversando com ela no andar trreo enquanto o outro
revistava os quartos de dormir. Ela no percebeu o que estavam fazendo.
Mas Will voltou para casa mais cedo e os encontrou l, e mais uma vez
brigou com eles, e mais uma vez eles partiram. Pareciam saber que ele
no procuraria a polcia, por medo de perder a me para as autoridades,
e ficaram cada vez mais insistentes. Finalmente arrombaram a porta e
entraram na casa quando Will tinha sado para buscar a me no parque:
ela estava pior agora, e acreditava que tinha que tocar em cada tbua de
cada banco junto ao laguinho. Will resolveu ajud-la, para acabar logo
com aquilo. Quando chegavam perto de casa, avistaram a traseira do carro
dos homens saindo do beco, e ao entrar ele viu que tinham revistado a
casa toda, remexendo na maioria das gavetas e dos armrios. Sabia o que
eles estavam procurando. O escrnio de couro verde era o objeto mais
precioso que sua me possua e ele #21 jamais sonharia em abri-lo, nem
sequer sabia onde ela o guardava, mas sabia que ele continha cartas, e
sabia que ela as lia s vezes, e chorava, e era ento que ela falava
sobre o pai dele. De modo que Will imaginava que era isso que os homens
procuravam, e concluiu que tinha que fazer alguma coisa. Decidiu que
primeiro encontraria um lugar seguro para a me ficar. Pensou e tornou a
pensar, mas no tinha amigos a quem pedir, e os vizinhos j suspeitavam;
a nica pessoa que ele achava digna de confiana era a Sra. Cooper. U ma
vez que a me estivesse em segurana l, ele iria encontrar o escrnio
de couro verde, ver o que ele continha, e depois iria para Oxford, onde
encontraria resposta para algumas das suas perguntas. Mas os homens
voltaram cedo demais. E agora ele tinha matado um deles. De modo que a
polcia tambm estaria atrs dele. Ora, Will sabia como passar
despercebido. Teria que passar mais despercebido do que jamais passara
em toda a sua vida, e continuar assim pelo tempo que fosse possvel, at
encontrar o pai ou at que eles o encontrassem. E se o encontrassem
antes, ele no se importaria em matar quantos fosse necessrio. No final
desse mesmo dia, j perto da meia-noite, Will estava saindo a p da
cidade de Oxford, a 65 quilmetros de distncia da sua casa. Estava
exausto; tinha viajado de carona, de nibus (dois) e a p, e eram seis
da tarde quando chegara a Oxford, tarde demais para fazer o que ele
precisava fazer; ento comeu no Burger King e foi refugiar-se num cinema
(embora no tivesse conseguido prestar a menor ateno ao filme) , e
agora estava caminhando por uma rua infindvel, atravessando os
subrbios na direo norte. At ento ningum o tinha notado. Mas ele
sabia que era melhor encontrar logo um lugar para dormir, pois quanto
mais #22 tarde ficasse, mais conspcuo ele se tornaria. O problema era
que no havia onde se esconder nos jardins das casas confortveis ao
longo dessa rua, e ainda no havia sinal do campo aberto. Chegou a um
trevo largo, um grande entroncamento onde a rua que ele percorria rumo
ao norte cruzava com avia de acesso a Oxford, esta na direo
leste-oeste. A essa hora da noite havia pouco trfego, e a rua onde ele
se encontrava era tranqila, com casas confortveis, cercadas de
arbustos e separadas da calada, nos dois lados da rua, por um extenso
gramado. Plantadas ao longo do gramado, quase na beira da calada, havia
duas fileiras de carpinos, rvores de aparncia estranha, de copas muito
densas e perfeitamente simtricas, mais parecidas com desenhos infantis
do que com rvores de verdade; a luz dos postes da rua dava-lhes uma
aparncia artificial, como um cenrio montado. Will estava entorpecido
de cansao, e poderia ter seguido para o norte ou se deitado no gramado
para dormir sob uma daquelas rvores; mas enquanto estava parado,
tentando clarear a mente, ele viu um gato. Era uma fmea, como Moxie;
surgiu de um jardim na calada onde Will estava. Will colocou a sacola
no cho e estendeu a mo, e agata aproximou-se e esfregou a cabea nos
dedos dele, exatamente como Moxie fazia. Naturalmente todos os gatos
faziam isso, mas mesmo assim Will sentiu uma vontade to grande de
voltar para casa que seus olhos encheram-se de lgrimas. Finalmente
agata deu-lhe as costas; era noite, e havia um territrio para
patrulhar, ratos para caar. Ela atravessou a rua e o gramado at chegar
aos carpinos, e ali estacou. Will, ainda a observ-la, viu que o animal
se comportava de maneira curiosa. A gata estendeu uma pata para tatear
alguma coisa no ar  sua frente, algo invisvel para Will. Depois saltou
para trs, #23 as costas arqueadas e os plos eriados, a cauda rgida
no ar. Will conhecia o comportamento felino; observou com mais ateno
enquanto a gata tornava a se aproximar do local - um trecho de gramado
entre as rvores e oS arbustOS de uma cerca de jardim -e mais uma vez
tateOU no ar. Novamente saltou para trs, mas dessa vez com muito menoS
sobressalto. Depois de mais alguns segundoS farejando, tateando e
fremindo os bigodes, a curiosidade venceu o medo. A gata avanou alguns
passos e desapareceu. Will pestanejou. Ento ficou imvel, grudado ao
tronco da rvore mais prxima, enquantO um caminho virava a esquina e
seUS faris deslizavam sobre ele. Depois que o caminho passou, ele
atravessou a rua, olhos postOS no local onde a gata estivera. No era
fcil, pois nada havia para marcar o lugar, mas quando chegou l e olhou
em volta com ateno ele viu. Pelo menOS de alguns ngulos. Era como se
algum tivesse cortado um pedao do ar a uns dois metrOS da calada, um
pedao que formava um quadrado grosseiro com menoS de um metrO de lado.
Para quem estivesse vendo pelo lado, ele ficava quase invisvel, e por
trs era totalmente invisvel; s podia ser visto pelo lado mais perto
da calada, e mesmo assim com dificuldade, pois tudo que se podia ver
atravs dele era exatamente o mesmo tipo de coisa que havia na frente
dele deste lado: um trecho de gramado iluminado por um poste de rua. Mas
Will sabia, sem sombra de dvida, que aquele gramado do outrO lado
ficava em outrO mundo. No sabia por que, mas sabia, como sabia que o
fogo queimava e que a bondade era boa: estava olhando para alguma coisa
inteiramente aliengena. E apenas por esse motivo ele se inclinou e
olhou mais para dentro. O que viu fez sua cabea girar e o corao bater
#24 com mais fora, mas ele no hesitou: jogou para dentro a sacola e
passou ele mesmo atravs do buraco no tecido deste mundo, para dentro de
outro mundo. Encontrou-se sob uma fileira de rvores. Mas no eram
carpinos: eram palmeiras altas, que, como as rvores em Oxford, cresciam
numa fileira ao longo do gramado. Mas a rua ali era uma avenida larga,
tendo num dos lados uma fileira de cafs e lojinhas, portas abertas,
tudo muito iluminado, e tudo inteiramente silencioso e deserto sob um
cu pesado de estrelas. A noite quente trazia o perfume de flores e o
cheiro salgado do mar. Will olhou em volta cuidadosamente. Atrs dele
alua cheia brilhava sobre uma paisagem distante de grandes montes
verdes, e nas encostas dos morros havia casas com ricos jardins e um
parque aberto, com pequenos bosques e o brilho alvo de um templo
clssico. Logo atrs dele ficava o recorte no ar, to difcil de
distinguir deste lado quanto do outro, mas definitivamente real. Ele se
inclinou para olhar atravs dele e viu a rua em Oxford, no seu prprio
mundo. Virou-se com um estremecimento: fosse o que fosse esse outro
mundo, tinha que ser melhor do que aquele que ele acabava de deixar. Com
um incio de vertigem, uma sensao de estar sonhando e estar acordado
ao mesmo tempo, ele se endireitou e olhou em volta  procura da gata, a
sua guia. Ela no estava  vista. Sem dvida j estava explorando
aquelas ruelas e os jardins atrs dos cafs de luzes to convidativas.
Will pegou sua velha sacola de compras e atravessou lentamente a rua
naquela direo, movendo-se com cuidado para o caso de tudo desaparecer
. O ar daquele lugar tinha algo de mediterrneo, ou talvez de caribenho.
Will nunca estivera fora da Inglaterra, de modo #25 que no podia
compar-lo com qualquer coisa que conhecesse, mas era o tipo de lugar
para onde as pessoas iam tarde da noite para comer e beber, danar e
ouvir msica. No entanto, ali no havia vivalma, e o silncio era
imenso. Na primeira esquina havia um caf com mesinhas verdes na
calada, um balco com tampo de zinco e uma mquina de caf expresso.
Havia copos cheios pela metade, em algumas das mesas; numa delas, um
cigarro queimara at o filtro; um prato de riso to estava ao lado de uma
cestinha de pes velhos, duros como papelo. Ele pegou uma garrafa de
refrigerante na geladeira atrs do bar e pensou por um instante antes de
deixar uma moeda de uma libra na caixa registradora. Assim que a fechou,
tornou a abri-la, imaginando que o dinheiro ali guardado pudesse
mostrar-lhe que lugar era aquele. O dinheiro se chamava corona, mas alm
disso ele nada mais conseguiu descobrir . Guardou de volta o dinheiro e
abriu a garrafa com o abridor preso ao balco antes de sair do caf e
descer a rua que se afastava da avenida. Pequenas quitandas e padarias
ficavam entre joalherias e floristas, e portas com cortinas de contas
levavam a casas particulares onde sacadas de ferro trabalhado, cobertas
de flores, abriam-se acima da calada estreita, e onde o silncio
enclausurado parecia ainda mais profundo. As ruas eram em declive, e
logo terminavam numa avenida larga, onde outras palmeiras erguiam-se no
ar, aparte inferior das folhas brilhando  luz dos postes. Do outro lado
da avenida estava o mar. Will encontrou-se diante de um porto fechado 
esquerda por um molhe de pedra e  direita por um promontrio onde,
entre rvores e arbustos em flor, um prdio grande, com colunas de
pedra, larga escadaria e balces ornamentados, #26 estava iluminado por
holofotes. No porto, um ou dois botes a remo estavam ancorados, e para
alm do molhe o brilho das estrelas refletia-se no mar parado. A essa
altura o cansao de Will desaparecera: ele estava inteiramente acordado
e possudo pelo pasmo. De vez em quando, enquanto caminhava pelas ruas
estreitas, ele estendia a mo para tocar numa parede, numa porta, nas
flores de uma jardineira sob uma janela, e tudo era slido e
convincente; agora ele queria tocar em toda a paisagem  sua frente,
porque ela era ampla demais para ser apreendida somente atravs dos
olhos. Ficou ali parado, respirando profundamente, quase que com medo.
Constatou que ainda estava segurando a garrafa trazida do caf, e provou
o lquido, que tinha sabor daquilo que realmente era: soda limonada
gelada -e muito bem-vinda, porque a noite estava quente. Virou para a
direita e seguiu pela avenida  beira-mar, passando por hotis com
toldos acima das entradas brilhantemente iluminadas, ladeadas de
buganvlias floridas. O prdio entre as rvores, com sua fachada
enfeitada, iluminada por holofotes, poderia ser um cassino, ou at mesmo
um teatro lrico. No jardim que o circundava, por entre as espirradeiras
floridas de cujos ramos pendiam lmpadas, havia alamedas que levavam a
vrias direes. Mas nem um som de vida se ouvia: nenhum pssaro
noturno, nenhum inseto, nada alm do rudo dos passos do prprio Will. O
nico som que ele ouvia, abafado e regular, vinha das marolas que
quebravam mansamente na praia, alm das palmeiras que orlavam o jardim.
Will encaminhou-se para l. A mar estava a meio, e alguns pedalinhos
tinham sido puxados para acima do alcance #27 da gua e formavam uma
fileira na areia branca e macia. A cada poucos segundos, uma onda
minscula dobrava-se na areia antes de deslizar de volta,
harmoniosamente, sob a ondulao seguinte. A uns 50 metros mar adentro,
uma plataforma de mergulho flutuava na gua calma. Will sentou-se na
lateral de um dos pedalinhos e arrancou os sapatos -seus tnis baratos,
que j estavam se desmanchando e apertavam seus ps em brasa. Deixou as
meias junto aos sapatos e enfiou os dedos dos ps na areia. Segundos
depois, tinha arrancado o resto das roupas e entrava no mar. A gua
estava deliciosa, entre fresca e morna. Ele nadou at a plataforma de
mergulho, alou-se para sentar-se nas tbuas alisadas pelo tempo e
voltou o olhar para a cidade. A sua direita, o porto limitado pelo seu
molhe. Atrs dele, distante cerca de dois quilmetros, ficava um farol
listrado de vermelho e branco. Atrs do farol viam-se vagamente penedos
distantes, e mais alm deles, aquelas grandiosas montanhas que ele
avistara assim que atravessou o buraco no ar. Mais prximas ficavam as
rvores luminosas dos jardins do cassino, as ruas da cidade, e a avenida
ao longo da praia, com seus hotis, cafs e lojas acolhedoramente
iluminados - tudo silencioso, tudo deserto. E tudo seguro. Ningum
poderia segui-lo at ali; o homem que revistara a casa jamais saberia; a
polcia nunca o encontraria. Ele tinha um mundo inteiro onde se
esconder. Pela primeira vez desde que sara correndo pela porta de sua
casa, naquela manh, Will comeou a se sentir a salvo. Estava novamente
com sede, e com fome tambm, pois, afinal de contas, alimentara-se pela
ltima vez em outro mundo. #28 Deslizou de volta para a gua e nadou
devagar para a praia, onde vestiu a cueca e recolheu o resto das roupas
e a sacola de compras. Deixou cair a garrafa vazia na primeira lixeira
que encontrou e saiu caminhando descalo pela avenida na direo do
porto. Quando seu corpo secou um pouco ele vestiu o jeans e procurou um
lugar onde arranjar comida. Os hotis eram chiques demais; Will olhou
para dentro do primeiro que apareceu, mas era tudo to grandioso que ele
se sentiu desconfortvel, portanto continuou ao longo da praia at
encontrar um pequeno caf que parecia ser o lugar certo. No saberia
dizer por qu; era um lugar muito parecido com uma dzia de outros,
mesas e cadeiras na calada ao ar livre e uma sacada no primeiro andar
carregada de flores, mas lhe pareceu acolhedor . Havia um balco de bar
com fotografias de lutadores de boxe na parede e um pster autografado
de um homem de sorriso largo tocando acordeom. Havia uma cozinha, e ao
lado dela uma porta que se abria para uma escada estreita atapetada por
um estampado floral de cores vivas. Ele subiu sem rudo at o pequeno
patamar do segundo andar e abriu a primeira porta que encontrou. Era uma
sala de visitas; l dentro estava quente e abafado, e Will abriu a porta
de vidro da sacada, para deixar entrar o ar vespertino. A sala em si era
acanhada, com mveis grandes demais para ela, e modesta, mas era limpa e
confortvel- ali moravam pessoas hospitaleiras. Havia uma pequena
estante de livros, uma revista sobre a mesa, algumas fotos emolduradas.
Will saiu e olhou os outros aposentos: um banheiro pequeno, um quarto
com cama de casal. Alguma coisa fez sua pele arrepiar-se antes de abrir
a ltima porta. Seu corao disparou. Ele no tinha certeza de #29 ter
ouvido um som vindo de dentro, mas alguma coisa lhe dizia que aquele
quarto no estava vazio. Pensou na estranheza desse dia, que tinha
comeado com algum do lado de fora de um quarto escuro, ele esperando
l dentro, e agora as posies eram Inversas. Enquanto ele pensava nisso
a porta escancarou-se de chofre e alguma coisa arremessou-se sobre ele
como um animal feroz. Mas sua memria lhe dera o aviso, e ele no estava
suficientemente perto para ser derrubado. E reagiu comtruculncia:
joelhos, cabea, punhos e a fora dos seus braos contra aquela coisa,
aquele homem, aquela mulher... U ma garota mais ou menos da idade dele,
feroz, a rosnar, roupas sujas e esfarrapadas, membros despidos e magros.
No mesmo momento ela percebeu o que ele era, e desvencilhou-se do peito
nu dele para ir agachar-se no canto do patamar escuro, como um gato
encurralado. E havia mesmo um gato ao lado dela, para espanto de Will:
um enorme gato selvagem cuja altura chegava aos joelhos dele, plo
eriado, dentes  mostra, cauda ereta. Ela colocou a mo no dorso do
animal e lambeu os lbios secos, vigiando cada movimento de Will. O
garoto levantou-se devagar. -Quem  voc? -perguntou. -Lyra da Lngua
Mgica -disse ela. -Voc mora aqui? -No! -fez ela com veemncia. -Ento
o que  este lugar? Esta cidade? -No sei. -De onde voc veio? -Do meu
mundo. Eles esto grudados. Onde est o seu daemon? #30 Os olhos dele se
arregalaram. Ento ele viu uma coisa extraordinria acontecer com o
gato: ele saltou para os braos dela e ali se transformou num arminho
castanho com garganta e barriga creme, que olhava para ele com raiva,
feroz como a prpria garota. Mas ento ocorreu outra mudana, porque ele
percebeu que ambos, a garota e o arminho, tinham um medo profundo dele,
como se ele fosse um fantasma. -No tenho daemon -ele respondeu. -No
sei o que isso quer dizer. -Ento: -Ah, esse a  o seu daemon? Ela se
ergueu devagar. O arminho enrodilhou-se no pescoo dela, e seus olhos
escuros no deixaram o rosto de Will. -Mas voc est vivo! -ela
exclamou, sem acreditar. -Voc no... voc no foi... -Meu nome  Will
Parry -ele disse. -No sei o que voc quer dizer com essa histria de
daemons. No meu mundo, demnio significa... significa diabo, alguma
coisa ruim. -No seu mundo? Quer dizer que este aqui no  o seu mundo?
-No. Acabei de descobrir uma... uma maneira de entrar aqui. Como o seu
mundo, eu acho. Eles devem estar grudados. Ela relaxou um pouco, mas
continuava a vigi-lo atentamente, e ele permaneceu calmo e quieto, como
se ela fosse um gato desconhecido com quem estivesse fazendo amizade.
-J viu mais algum nesta cidade? -ele continuou. -No. -H quanto tempo
est aqui? -Sei l. Alguns dias. No consigo me lembrar. -Ento por que
veio para c? -Estou procurando P -ela explicou. #31 -Procurando p?
Qual p, p de ouro? Que tipo de p? Ela entrecerrou os olhos e no
respondeu. Ele se virou para descer a escada. -Estou com fome -declarou.
-Tem comida na cozinha? -Sei l... -disse ela, e seguiu-o  distncia.
Na cozinha Will encontrou os ingredientes para um ensopado de frango com
cebola e pimento, mas naquele calor as coisas estavam cheirando mal.
Ele jogou tudo na lata de lixo. -Voc no comeu? -perguntou, abrindo a
geladeira. Lyra veio olhar. -No sabia que isto estava a -disse. -Uh,
que frio! O daemon dela tinha se transformado novamente, tornando-se uma
enorme borboleta multicor que esvoaou para dentro da geladeira por um
instante e logo saiu, indo acomodar-se no ombro dela. A borboleta erguia
e baixava lentamente as asas. Will sentiu que no devia ficar olhando,
embora sua cabea girasse com a estranheza daquilo. -Nunca tinha visto
uma geladeira? -quis saber. Encontrou uma lata de refrigerante e
entregou-a a ela antes de tirar uma caixa de ovos. Ela apertou a lata
entre as mos comprazer. -Pode beber -ele disse. Ela ficou olhando para
a lata, de testa franzida, sem saber como se abria aquilo. Ele abriu a
lata para ela e o lquido espumou para fora. Ela lambeu-o com suspeita,
e ento arregalou os olhos. -Isto  bom? -perguntou, a voz meio
esperanosa, meio temerosa. #32 -. Obviamente eles tm Coca-Cola neste
mundo. Escute, vou beber um pouco para mostrar que no  veneno. Abriu
outra lata. Ao v-lo beber, ela seguiu o exemplo. Era evidente que
estava com sede: bebeu to depressa que as bolhas subiram-lhe at o
nariz. Ela espirrou e arrotou ruidosamente, e fez uma careta quando ele
olhou para ela. -Vou fazer uma omelete -ele disse. -Quer um pouco? -No
sei o que  uma omelete. -Bem, fique olhando e saber. Temos tambm uma
lata de salsichas, se preferir. -No sei o que  isso. Ele lhe mostrou a
lata. Ela procurou a lingeta de abrir, como a da lata de refrigerante.
-No.  preciso usar um abridor de lata- ele explicou. -No existe
abridor de lata no seu mundo? -No meu mundo os criados cozinham -ela
disse em tom de desprezo. -Procure naquela gaveta ali. Ela remexeu por
entre os talheres de cozinha enquanto ele quebrava seis ovos numa tigela
e batia-os com um garfo. - isto a -disse, observando-a. -Com o cabo
vermelho. Pode me trazer? Ele perfurou a lata e mostrou-lhe como
abri-la. -Agora pegue aquela panelinha no gancho e despeje isto dentro
dela. Ela cheirou as salsichas e mais uma vez seus olhos assumiram uma
expresso de prazer e suspeita. Virou a lata na panela e lambeu um dedo,
observando Will colocar sal e pimenta nos ovos e cortar um pedao de
manteiga de um pacote na geladeira, jogando-o numa frigideira de ferro.
Ele foi at o bar #33 para procurar fsforos, e ao voltar encontrou-a
enfiando o dedo sujo na tigela com os ovos batidos, para depois lamb-lo
gulosamente. Seu daemon, novamente um gato, estava prestes a enfiar a
pata tambm, mas recuou quando Will se aproximou. -Ainda no est pronto
-disse, retirando a tigela. - Quando foi que fez uma refeio pela
ltima vez? -Na casa do meu pai em Svalbard -ela disse. -Faz dias e mais
dias e mais dias. No sei. Encontrei po e umas COISas aqui e comi. Ele
acendeu o gs, derreteu a manteiga, derramou os ovos e espalhou-os na
frigideira. Os olhos dela acompanhavam tudo gulosamente, vendo-o puxar
para o centro a parte j cozida e inclinar a frigideira para que aparte
crua escorresse, preenchendo o espao vazio. Observava Will, tambm: o
rosto dele, as mos ocupadas, os ombros nus e os ps descalos. Quando a
omelete ficou pronta, ele dobrou-a e cortou-a em dois com a esptula.
-Procure uns pratos -ele disse. Lyra obedeceu. Parecia disposta a
aceitar ordens se as achasse sensatas, de modo que ele mandou que ela
fosse preparar uma mesa na calada em frente ao caf. Ele mesmo levou a
comida e talheres que achou numa gaveta, e os dois se sentaram, um pouco
constrangidos. Ela comeu sua parte em menos de um minuto, e depois ficou
a se mexer com impacincia, balanando a cadeira para frente e para trs
e arrancando pedacinhos de plstico do assento, enquanto ele acabava de
comer. O daemon transformou-se de novo, tornando-se um pintassilgo,
bicando migalhas invisveis sobre a mesa. Will comia devagar .Dera a ela
a maior parte das salsichas, mas mesmo assim demorou muito mais que ela.
O porto #34 diante deles, as luzes ao longo da avenida deserta, as
estrelas no cu escuro, tudo isso estava suspenso no silncio imenso,
como se nada mais existisse. E durante todo o tempo ele esteve
intensamente cnscio da garota. Ela era pequena e leve, mas rija, e
tinha lutado como um tigre; o soco dele lhe causara uma equimose no
rosto, que ela simplesmente ignorava. Sua expresso era uma mistura de
criancice -quando provou o refrigerante -e uma desconfiana triste e
profunda. Os olhos eram azuis e os cabelos seriam de um louro escuro
quando fossem lavados -pois ela estava imunda e cheirava como se no se
banhasse havia dias. -Laura? Lara? -fez Will. -Lyra. -Lyra... da Lngua
Mgica? -. -Onde  o seu mundo? Como voc chegou aqui? Ela deu de
ombros. -Andando. Estava tudo enevoado. Eu no sabia onde estava indo.
Quer dizer, sabia que estava saindo do meu mundo. Mas no conseguia ver
este aqui, at a neblina clarear. Ento me encontrei aqui. -Que foi que
falou sobre p? -P, isso mesmo. Vou descobrir. Mas este mundo parece
estar deserto. No encontrei ningum para perguntar. J estou aqui h...
sei l, trs dias, talvez quatro. E no vi ningum aqui. -Mas por que
quer descobrir p? - um P especial- ela disse em tom seco. -No  p
comum, obviamente. O daemon tornou a mudar. Fez isso num piscar de
olhos, e de pintassilgo transformou-se em um rato, um enorme rato #35
negro de olhos vermelhos. Will encarou-o com olhos arregalados e
assustados, e a garota viu seu olhar. -Voc tambm tem um daemon- disse
em tom firme. -Dentro de voc. Ele no soube o que dizer. -Tem, sim -ela
continuou. Seno no seria humano. Voc seria... um morto-vivo. J vimos
um garoto com o daemon cortado. Voc no  assim. Mesmo que no saiba
que tem um daemon, voc tem. No princpio ficamos com medo quando vimos
voc. Como se fosse uma assombrao ou coisa assim. Mas ento vimos que
voc no era isso. -Ns quem? -Eu e Pantalaimon. Ns. O daemon de uma
pessoa no  uma coisa separada dela.  ela. U ma parte dela. Um faz
parte do outro. No seu mundo no existe ningum como ns? So todos como
voc, com os daemons escondidos? Will contemplou aquele par -a menina
magricela, de olhos claros, e seu daemon-rato, agora acomodado em seus
braos -e sentiu-se profundamente solitrio. -Estou cansado. Vou para a
cama- disse. -Voc vai ficar nesta cidade? -Sei l. Tenho que saber mais
sobre o que estou procurando. Deve haver alguns catedrticos neste
mundo. Tem que haver algum que saiba sobre isso. -Talvez no neste
mundo. Mas eu vim de uma cidade chamada Oxford. L est cheio de
catedrticos, se  o que voc quer. -Oxford? -ela exclamou. - de onde
eu vim! -Ento no seu mundo tambm existe uma Oxford? Voc no veio do
meu mundo. #36 -No mesmo -disse ela. -So mundos diferentes. Mas no meu
mundo existe uma Oxford tambm. Ns dois estamos falando ingls, no
estamos?  bvio que outras coisas so iguais. Como foi que voc passou?
Existe uma ponte, ou o qu? -S uma espcie de janela no ar . -Me mostre
-fez ela. Era uma ordem, no um pedido. Ele sacudiu a cabea. -Agora
no. Quero dormir. De qualquer maneira, estamos no meio da noite. -Ento
me mostre de manh. -Est bem, vou mostrar. Mas tenho minhas prprias
coisas a fazer. Voc vai ter que encontrar sozinha os seus catedrticos.
-Fcil- ela afirmou. -Conheo tudo sobre catedrticos. Ele juntou os
pratos e se levantou. -Eu cozinhei, de modo que voc pode lavar os
pratos. Ela olhou para ele incrdula. -Lavar os pratos? -zombou.
-Existem milhes de pratos limpos por a! Alm disso, no sou uma
criada. No vou lavar os pratos. -Ento no vou lhe mostrar a passagem.
-Eu encontro sozinha. -No encontra, no. Ela est escondida. Voc nunca
vai encontrar. Escute. Eu no sei quanto tempo podemos ficar neste
lugar. Temos que comer, portanto vamos comer o que houver aqui, mas
depois vamos arrumar tudo e manter o lugar limpo, porque temos a
obrigao de fazer isso. Temos que tratar direito este lugar. Agora vou
para a cama. Vou ficar no outro quarto. Vejo voc de manh. #37 Ele
entrou, limpou os dentes com o dedo e um pouco do dentifrcio que trazia
na sacola, caiu na cama de casal e adormeceu num instante. Lyra esperou
at ter certeza de que ele estava dormindo e ento levou os pratos para
a cozinha, colocando-os sob a gua da torneira, e esfregou-os com fora
com um pano at parecerem limpos. Fez o mesmo com garfos e facas, mas
esse mtodo no funcionou com a frigideira, de modo que ela tentou com
uma barra de sabo amarelo, e foi arrancando a sujeira at a frigideira
ficar to limpa quanto ela achava possvel. Ento secou tudo com outro
pano e arrumou direitinho no secador de loua. Como ainda estava com
sede e queria experimentar abrir outra lata, ela fez isso e levou o
refrigerante para cima. Escutou do lado de fora da porta de Will e, nada
ouvindo, foi p ante p at o outro quarto e tirou o aletmetro de sob o
travesseiro. No precisava estar perto de Will para perguntar sobre ele,
mas queria v-lo; moveu a maaneta do quarto dele com o mnimo de rudo,
e entrou. Havia uma luz na praia l fora que brilhava diretamente dentro
do quarto, e sob o brilho refletido do teto ela olhou para o rapaz
adormecido. Ele tinha a testa franzida e o rosto brilhante de suor. Era
forte e parrudo, no como um homem adulto, naturalmente, porque no era
muito mais velho que ela, mas um dia seria muito forte. Como seria mais
fcil se o daemon dele estivesse visvel! Ela se perguntou que forma ele
teria, e se j estava fixo. Fosse qual fosse a forma, ele mostraria uma
natureza selvagem, corts e infeliz. Foi p ante p at a janela. A luz
do poste da rua, ela moveu cuidadosamente os ponteiros do instrumento e
relaxou a mente na forma de uma pergunta. O ponteiro comeou a #38 girar
em torno do mostrador numa srie de pausas e arranques quase rpidos
demais para os olhos. Ela tinha perguntado: O que ele , amigo ou
inimigo? A bssola respondeu: Ele  um assassino. Ao ver a resposta, ela
relaxou imediatamente. Ele conseguia encontrar comida e poderia
mostrar-lhe como chegar a Oxford- talentos que eram teis -, mas podia
ser ao mesmo tempo covarde ou indigno de confiana. Um assassino era um
bom companheiro. Ela se sentiu to segura ao lado dele quanto com Iorek
Byrnison, o urso de armadura. Puxou a persiana da janela para que o sol
matinal no casse sobre o rosto dele e saiu do quarto p ante p. #39 2
ENTRE AS BRUXAS A bruxa Serafina Pekkala, que tinha resgatado Lyra e as
outras crianas da estao experimental de Bolvangar e voado com ela
para a ilha de Svalbard, estava profundamente preocupada. Nas
perturbaes atmosfricas que se seguiram  fuga de Lorde Asriel do
exlio em Svalbard, ela e suas companheiras foram lanadas  grande
distncia da ilha, percorrendo muitos quilmetros por cima do mar
congelado. Algumas delas conseguiram permanecer junto ao balo
danificado de Lee Scoresby, o aeronauta texano, mas Serafina foi lanada
para o alto, para dentro da neblina que logo veio escoando pelo buraco
que a experincia de Lorde Asriel rasgara no cu. Ao encontrar-se
novamente capaz de controlar seu vo, o seu primeiro pensamento foi para
Lyra, pois Serafina no sabia coisa alguma da luta entre o falso
urso-rei e o verdadeiro, Iorek Byrnison, nem do que acontecera a Lyra
depois disso. Ento ps-se a procur-la, voando em seu galho de
pinheiro-nubgeno pelo ar nevoento e tingido de dourado, acompanhada por
seu daemon Kaisa, o ganso cinzento. Voltaram #40 um pouco para o sul, na
direo de Svalbard, viajando durante vrias horas sob um cu
turbulento, com luzes e sombras estranhas. Serafina Pekkala sabia, pela
sensao perturbadora da luz em sua pele, que aquilo vinha de outro
mundo. Depois de algum tempo Kaisa disse: -Veja,  o daemon de uma
bruxa, extraviado... Serafina Pekkala olhou atravs das nuvens de
neblina e viu uma andorinha-do-mar voando em crculos nos abismos de luz
brumosa, aos gritos; ento fez uma curva e voou naquela direo. Vendo
isso, a andorinha-do-mar ganhou altura, assustada, mas Serafina Pekkala
sinalisou amizade e ela desceu para perto deles. Serafina Pekkala
perguntou: -De que cl voc ? -Taymyr -disse ela. -Minha bruxa foi
capturada. Nossos companheiros foram afastados! Estou perdida... -Quem
capturou a sua bruxa? -A mulher do daemon-macaco de Bolvangar...
Ajude-me! Ajude-nos! Estou com tanto medo! -O seu cl era aliado dos
cortadores de crianas? -Sim, at descobrirmos o que eles estavam
fazendo... Depois da luta em Bolvangar eles nos expulsaram, mas a minha
bruxa ficou prisioneira... Ela est num navio... Que  que eu posso
fazer? Ela est me chamando e no consigo encontr-la! Ah, ajude,
ajude-me! -Silncio -pediu Kaisa, o daemon-ganso. -Escutem l embaixo.
Desceram mais, escutando com ouvidos aguados, e Serafina Pekkala logo
distinguiu o rudo, que a nvoa abafava, de um motor a gs. -No
conseguiriam dirigir um barco numa nvoa como esta- disse Kaisa. -Que 
que esto fazendo? #41 - um motor menor do que o de um barco -disse
Serafina Pekkala. Enquanto ela falava, veio um novo som de outra
direo: um urro bestial, baixo e fremente, como alguma imensa criatura
martima clamando das profundezas. O rugido durou vrios segundos,
depois parou abruptamente. -A sirene de neblina do navio -identificou
Serafina Pekkala. Voando baixo, em crculos acima da gua, eles tentaram
ouvir de novo o som do motor. De sbito o encontraram, pois a neblina
parecia ter trechos de densidades diferentes, e a bruxa subiu como um
dardo, bem a tempo de esconder-se de uma lancha que vinha se aproximando
devagar atravs do envoltrio de ar mido. Sua esteira era baixa e
oleosa, como se a gua relutasse em subir. Ficaram voando em crculos, o
daemon-andorinha-do- mar bem perto, como uma criana agarrada  me, e
observaram o timoneiro ajustar ligeiramente o curso enquanto a sirene de
neblina tornava a se fazer ouvir. Havia uma luz na proa, mas s
iluminava a neblina alguns metros  frente. Serafina Pekkala perguntou
ao daemon desgarrado: -Voc disse que algumas bruxas ainda esto
ajudando esta gente? -Acho que sim... Algumas bruxas revoltadas de
Volgorsk... A no ser que elas tenham fugido tambm -disse ele. -Que 
que voc vai fazer? Vai procurar a minha bruxa? -Vou. Mas por enquanto
fique aqui com Kaisa. Serafina Pekkala voou na direo da lancha,
deixando os daemons l no alto, fora de vista, e pousou logo atrs do
timoneiro. A daemon-gaivota dele grasnou, e o homem virou-se para olhar
. #42 -Demorou, hein? -disse ele. -V l para a frente e nos guie para
encostarmos a bombordo. Ela decolou imediatamente. Tinha funcionado:
eles ainda tinham algumas bruxas a ajud-los, e o homem pensou que ela
fosse uma delas. O bombordo ficava  esquerda, ela se lembrava, e sua
luz era vermelha. Ela procurou na neblina at encontrar a luz baa do
bombordo do navio a menos de cem metros. Voltou correndo e pairou acima
da lancha, gritando instrues ao timoneiro, que diminuiu a velocidade e
atracou junto  escada que descia do convs do navio at logo acima da
gua. O timoneiro gritou e um marinheiro jogou uma corda, enquanto outro
descia depressa pela escada para prender acorda na embarcao. Serafina
Pekkala voou para a amurada do navio e abrigou-se nas sombras junto aos
botes salva-vidas. No via outra bruxa, mas elas provavelmente estariam
patrulhando os cus; Kaisa saberia o que fazer. Abaixo, um passageiro
deixava a lancha e subia pela escada. Afigura estava envolta em peles,
encapuzada, annima; mas assim que ela chegou ao convs, um
macaco-dourado subiu agilmente para a amurada e olhou em volta com olhar
feroz, os olhos azuis irradiando malevolncia. Serafina sentiu-se sem
flego: afigura era a Sra. Coulter . Um homem de traje escuro correu
para o convs para receb-la, e olhou em volta como se esperasse mais
algum. -Lorde Boreal... -comeou a dizer. -Ele seguiu para outro local.
J comearam a tortura? -Sim, Sra. Coulter- foi a resposta. -Mas... -Mas
eu mandei que esperassem! -ela interrompeu. -Agora vo me desobedecer?
Talvez este navio esteja precisando de mais disciplina. #43 Ela empurrou
o capuz para trs. Serafina Pekkala viu claramente o rosto dela  luz
amarelada: orgulhosa, passional e, para a bruxa, bem jovem. -Onde esto
as outras bruxas? -quis saber. O homem do navio explicou: -Partiram
todas, senhora. Voltaram voando para casa. -Mas uma bruxa nos guiou para
atracarmos -disse a Sra. Coulter. -Para onde ela foi? Serafina
encolheu-se; obviamente o marinheiro da lancha no tinha conhecimento do
novo estado de coisas. O clrigo olhou em volta, confuso, mas a Sra.
Coulter estava impaciente demais, e depois de um olhar apressado acima e
ao longo do convs ela sacudiu a cabea e, com seu daemon, cruzou a
porta aberta que criava um nimbo amarelado no ar. O homem seguiu-a.
Serafina Pekkala olhou em volta de si para determinar a sua posio.
Estava escondida atrs de um canal de ventilao na rea estreita de
convs entre a amurada e a super estrutura central do navio; e nesse
nvel, de frente para a proa e abaixo da ponte e da chamin, havia um
salo com janelas -no escotilhas -dando para trs lados. Era onde as
pessoas tinham entrado. A luz jorrava das janelas sobre a amurada
perolada pela neblina, permitindo entrever vagamente o mastro de proa e
a escotilha do poro coberta por uma lona. Tudo estava encharcado e
comeando a congelar. Ningum conseguiria enxergar Serafina Pekkala onde
ela estava; mas se ela quisesse ver mais coisas teria que deixar seu
esconderijo. Isso era ruim. Com seu ramo de pinheiro-nubgeno ela podia
fugir, e com sua faca e seu arco podia lutar. Escondeu o ramo atrs do
tubo de ventilao e esgueirou-se pelo convs at chegar  primeira
janela. O vidro estava embaado e era #44 impossvel ver atravs dele, e
Serafina tampouco conseguia ouvir vozes. Tornou a voltar para as
sombras. Havia uma nica coisa a fazer; ela relutava, pois era algo
desesperadamente arriscado e a deixaria exausta; mas parecia que no
havia escolha. Era um tipo de magia que ela podia fazer para tornar-se
invisvel. Naturalmente, a verdadeira invisibilidade era impossvel:
tratava-se de magia mental, um tipo de discrio sustentada com
intensidade que podia fazer a pessoa ficar, no invisvel, mas
simplesmente despercebida. Mantendo o grau de intensidade correto, ela
poderia atravessar uma sala cheia de gente, ou andar ao lado de um
caminhante solitrio, sem ser vista. De modo que agora ela preparou a
mente e levou toda a sua concentrao para o trabalho de alterar o modo
como se postava para desviar completamente a ateno. Precisou de alguns
minutos at adquirir confiana. Fez um teste saindo do esconderijo no
caminho de um marinheiro que vinha pelo convs com uma sacola de
ferramentas; ele deu um passo de lado para evit-la, sem olhar para ela
um instante sequer. Ela estava preparada. Foi at a porta do salo
profusamente iluminado e abriu-a, encontrando o aposento deserto. Deixou
a porta externa apenas encostada, para que pudesse fugir por ela se
fosse preciso, e viu uma porta no outro extremo abrindo-se para uma
escada que descia para as entranhas do navio. Ela desceu e se encontrou
num corredor estreito, iluminado por lmpadas ambricas, com canos 
mostra pintados de branco, que seguia ao longo do comprimento do casco,
com portas nos dois lados. Ela avanou sem rudo, escutando, at que
ouviu vozes. Parecia que havia uma reunio. Abriu a porta e entrou. #45
Havia cerca de uma dzia de pessoas sentadas em volta de uma grande
mesa. U ma ou duas ergueram os olhos por um instante, fitaram-na
distraidamente e esqueceram-na no mesmo instante. Ela ficou quieta perto
da porta, observando. A reunio era presidida por um ancio em trajes de
cardeal, e os outros pareciam clrigos,  exceo da Sra. Coulter, que
era a nica mulher presente. A Sra. Coulter colocara suas peles sobre as
costas da cadeira e tinha as faces rubras pelo calor do interior do
navio. Serafina Pekkala olhou em volta com cuidado e viu mais uma
pessoa: um homem de rosto magro, com um daemon-sapo, sentado a uma mesa
num canto coberta de livros com encadernao de couro e folhas soltas de
papel amarelado. A princpio ela pensou que se tratasse de um
secretrio, at ver o que ele estava fazendo: tinha os olhos fixos num
instrumento dourado, como um relgio grande ou uma bssola, e a cada
instante anotava o que via. Depois abria um dos livros, percorria
trabalhosamente o ndice e procurava um trecho, antes de escrever tambm
isso e voltar para o instrumento. Serafina tornou a prestar ateno na
discusso ao ouvir a palavra "bruxa". -Ela sabe alguma coisa sobre a
criana -disse um dos clrigos. -J confessou que sabe. Todas as bruxas
sabem alguma coisa sobre ela. -No sei o que a Sra. Coulter sabe -disse
o Cardeal. -Ser que h alguma coisa que ela deveria ter nos contado
antes? -Vai ter que falar mais claro -disse a Sra. Coulter em tom
gelado. -Esquece-se de que sou uma mulher, Eminncia, portanto no to
sutil quanto um prncipe da Igreja. Qual  essa verdade que eu deveria
saber sobre a criana? #46 A expresso do Cardeal era muito
significativa, mas ele nada disse. Houve uma pausa, e ento outro
clrigo disse, em tom quase de desculpas: -Parece que existe uma
profecia. Diz respeito  criana, entende, Sra. Coulter? Todos os sinais
se cumpriram. As circunstncias do nascimento dela, para comear. Os
gpcios tambm sabem alguma coisa sobre ela, falam dela em termos de
leo-de-bruxa e fogo-ftuo, sobrenatural, entende? Da ela ter
conseguido levar os homens gpcios para Bolvangar. E alm disso houve a
faanha extraordinria de depor o urso-rei Iofur Raknison. No  uma
criana comum. Frei Pavel talvez possa nos contar mais... Ele olhou de
relance para o homem de rosto magro que lia o aletmetro; ele
pestanejou, esfregou os olhos e olhou para a Sra. Coulter. -A senhora
deve estar sabendo que este  o nico aletmetro que sobrou, alm
daquele que est com a criana -disse. -Todos os outros foram adquiridos
e destrudos por ordem do Magisterium. Fiquei sabendo por este
instrumento que a criana gnhou o dela do Reitor da Universidade
Jordan, e que aprendeu sozinha a decifr-lo, e que consegue us-lo sem
os livros. Se fosse possvel duvidar do aletmetro eu o faria, pois acho
simplesmente inconcebvel algum usar o instrumento sem os livros. So
dcadas de estudo diligente para uma pessoa alcanar algum tipo de
compreenso; ela comeou a ler o instrumento poucos dias depois de
ganh-lo, e agora tem um domnio quase completo. No se compara a nenhum
sbio humano que eu possa lembrar . -Onde ela est agora, Frei Pavel?
-perguntou o Cardeal. #47 -No outro mundo -disse Frei Pavel. - tarde
demais. -A bruxa sabe! -bradou outro homem, cujo daemon-almiscareiro
mastigava incessantemente um lpis. -Est tudo no lugar, exceto o
depoimento da bruxa! Digo que devemos tortur-la outra vez! -Que
profecia  essa? -perguntou a Sra. Coulter, que estava ficando cada vez
mais furiosa. -Como ousam esconder isso de mim? Era visvel o poder que
ela exercia sobre eles. O olhar raivoso do macaco dourado percorreu a
mesa e ningum o encarou. S o Cardeal no se perturbou. Seu daemon, uma
arara, ergueu uma pata e coou a cabea. -A bruxa insinuou uma coisa
extraordinria -disse o Cardeal. -No ouso crer no que acho que
significa. Se for verdade, isso nos traz a mais terrvel
responsabilidade j tomada por homens e mulheres. Mas torno a perguntar,
Sra. Coulter, o que  que a senhora sabe sobre a criana e o pai dela? A
Sra. Coulter tinha o rosto plido de fria. -Como ousa me interrogar?
-cuspiu. -E como ousa esconder de mim o que descobriu com a bruxa? E,
finalmente, como ousa imaginar que estou escondendo alguma coisa? Pensa
que estou do lado dela? Ou acha talvez que estou do lado do pai dela?
Talvez pense que eu deveria ser torturada como a bruxa. Bem, estamos
todos sob o seu comando, Eminncia. Basta estalar os dedos e pode mandar
me matar. Mas mesmo procurando em cada pedacinho da minha carne no iria
encontrar uma resposta, porque nada sei dessa profecia, nada mesmo. E
exijo que me conte o que o senhor sabe. A minha filha, a minha prpria
filha, concebida em pecado e nascida em desonra, mas ainda assim minha
filha, e o senhor esconde de mim aquilo que tenho todo o direito de
saber . #48 -Por favor! -fez outro clrigo, nervoso. -Por favor, Sra.
Coulter... A bruxa ainda no falou; ela nos dir mais coisas. O prprio
Cardeal Sturrock disse que ela s insinuou. -E se ela no revelar?
-retorquiu a Sra. Coulter. - E ento? Ns adivinhamos,  isso? Ns nos
intimidamos, desistimos e tentamos adivinhar? Frei Pavel respondeu:
-No, porque  esta a pergunta que estou preparando para fazer ao
aletmetro. Havemos de encontrar a resposta, seja pela bruxa, seja pelos
livros de smbolos. -E quanto tempo isso vai levar? Ele franziu a testa
com uma expresso de cansao e disse: -Um tempo considervel.  uma
pergunta imensamente complexa. -Mas a bruxa poderia nos dizer
imediatamente -disse a Sra. Coulter. E ps-se de p. Como se a temessem,
quase todos os homens a imitaram. Apenas o Cardeal e Frei Pavel
continuaram sentados. Serafina Pekkala recuou, fazendo uma fora imensa
para manter-se invisvel. O macaco dourado rangia os dentes, e seu plo
brilhante estava todo arrepiado. A Sra. Coulter colocou-o em seu ombro.
-Ento vamos perguntar a ela -comandou. Virou-se e saiu para o corredor.
Os homens seguiram-na apressados, empurrando-se, e passaram por Serafina
Pekkala, que s teve tempo de dar um passo rpido para o lado, a mente
num torvelinho. O ltimo a sair foi o Cardeal. Serafina demorou alguns
segundos para acalmar-se, pois sua agitao estava comeando a deix-la
visvel. Ela ento seguiu os clrigos pelo corredor at um aposento
menor, nu, branco e quente, onde todos estavam agrupados em torno de #49
uma figura terrvel: uma bruxa firmemente amarrada a uma cadeira de ao,
com agonia espelhando-se no rosto cinzento e as pernas retorcidas e
quebradas. A Sra. Coulter postou-se junto a ela. Serafina ficou perto da
porta, sabendo que no conseguiria ficar invisvel por muito tempo mais;
aquilo era demasiado difcil. -Fale-nos da garota, bruxa- disse a Sra.
Coulter. -No! -Voc vai sofrer . -J sofri o suficiente. -Ah, ainda
vir mais sofrimento. Temos mil anos de experincia, nessa nossa Igreja.
Podemos prolongar seu sofrimento infinitamente. Fale-nos da garota
-disse a Sra. Coulter, estendendo a mo para quebrar um dedo da bruxa. O
dedo partiu-se facilmente, com um estalido. A bruxa gritou, e por um
segundo Serafina Pekkala ficou visvel a todos, e um ou dois clrigos
olharam para ela, confusos e assustados; mas ela tornou a recuperar o
controle e eles voltaram aprestar ateno na tortura. A Sra. Coulter
estava dizendo: -Se no responder, vou quebrar outro dedo seu, depois
outro. Que  que sabe sobre a criana? Diga! -Est bem! Por favor, por
favor, chega! -Ento responda. Houve outro estalido e dessa vez a bruxa
irrompeu em soluos. Serafina Pekkala mal conseguiaconter-se. Ento
vieram as palavras, num grito: -No, no! Chega, eu lhe imploro! A
criana que viria... As bruxas sabiam quem ela era antes de vocs...
Descobrimos o nome dela... #50 -Sabemos o nome dela. Que nome  este que
voc est dizendo? -O nome verdadeiro dela! O nome do destino dela!
-Qual  esse nome? Fale! -ordenou a Sra. Coulter. -No... no... -E
como? Vocs descobriram como? -Havia um teste... Se ela conseguisse
pegar um determinado galho de pinheiro-nubgeno entre muitos outros, ela
seria a criana que viria, e aconteceu na casa do nosso Cnsul em
Trollesund, quando a criana chegou com os gpcios... A criana com o
urso... A voz dela falhou. A Sra. Coulter soltou uma pequena exclamao
de impacincia, e ouviu-se outro estalido alto, e um gemido. -Mas qual
era a profecia a respeito dessa criana? - continuou a Sra. Coulter, a
voz agora metlica e fremente de nsia. -E que nome  esse que vai
esclarecer o destino dela? Serafina Pekkala aproximou-se do grupo de
homens que rodeavam a bruxa, e nenhum deles sentiu a presena dela junto
a seus cotovelos. Ela precisava dar um fim ao sofrimento daquela bruxa,
e logo, mas o esforo de manter-se invisvel era enorme. Ela tremia ao
tirar a faca da cintura. A bruxa soluava: -Ela  aquela que veio antes,
e desde ento vocs a odiaram e temeram! Bem, agora ela voltou, e vocs
no conseguiram encontr-la... Ela esteve l em Svalbard, estava com
Lorde Asriel, e vocs a perderam. Ela escapou, e ser... Antes, porm,
que ela pudesse terminar, houve uma interrupo. Atravs da porta aberta
uma andorinha-do-mar entrou voando, enlouquecida de terror, e ps-se
abater as asas ao cair #51 com fora no cho; ergueu-se com esforo e
voou para o peito da bruxa torturada, apertando-se contra ela,
acariciando-a, piando, guinchando, e a bruxa gritou: -Yambe-Akka! Venha
a mim, venha a mim! Ningum entendeu, alm de Serafina Pekkala.
Yambe-Akka era a deusa que aparecia para uma bruxa quando ela estava
prestes a morrer. E Serafina estava preparada. Tornou-se visvel e deu
um passo para a frente sorrindo alegremente, porqueYambe-Akka era alegre
e feliz, e sua visita era um presente de alegria. A bruxa avistou-a e
ergueu para ela o rosto manchado de lgrimas, e Serafina inclinou-se
para beij-lo enquanto enfiava suavemente sua faca no corao da bruxa.
O daemon-andorinha-do-mar ergueu os olhos baos e desapareceu. E agora
Serafina Pekkala teria que abrir caminho lutando. Os homens ainda
estavam chocados, incrdulos, mas a Sra. Coulter recuperou o sangue-frio
quase de imediato. -Agarrem-na! No a deixem fugir! -gritou. Mas
Serafina j estava junto  porta, com uma flecha preparada em seu arco.
Ergueu o arco e soltou a flecha em menos de um segundo, e o Cardeal caiu
no cho em espasmos. Ela chegou ao corredor, virou-se, fez pontaria,
disparou outra flecha; outro homem caiu, enquanto o rudo alto de um
sino enchia o navio. Ela subiu a escada e saiu para o convs. Dois
marinheiros barraram-lhe a passagem e ela disse: -L embaixo! A
prisioneira est solta! Ajudem! Isso foi suficiente para deix-los
confusos, e eles estacaram, indecisos, dando-lhe tempo para passar por
eles e pegar o pinheiro-nubgeno escondido atrs do tubo de ventilao.
#52 -Atirem nela! -fez a voz da Sra. Coulter . No mesmo instante trs
rifles dispararam. As balas bateram no metal e ricochetearam para dentro
da neblina, e Serafina saltou sobre o galho e f-lo subir como uma de
suas flechas. Segundos depois ela estava no cu, em segurana no meio da
neblina, e ento um grande ganso surgiu do meio dos bancos de nvoa
cinzenta e chegou ao seu lado. -Para onde? -perguntou. -Para longe,
Kaisa, para longe -ela disse. -Quero tirar o fedor dessa gente do meu
nariz. Na realidade ela no sabia aonde ir ou o que fazer em seguida.
Mas uma coisa ela sabia com certeza: havia uma flecha em sua aljava que
encontraria o alvo na garganta da Sra. Coulter . Viraram para o sul,
distanciando-se daquela neblina com seu perturbador brilho de outro
mundo, e enquanto voavam uma pergunta comeou a formular-se com mais
clareza na mente de Serafina: o que era que Lorde Asriel estava fazendo?
Porque todos os acontecimentos que tinham revirado o mundo tinham sua
origem nas misteriosas atividades de Lorde Asriel. O problema era que as
costumeiras fontes de conhecimento da bruxa eram naturais. Ela conseguia
seguir qualquer animal, pegar qualquer peixe, encontrar as cerejas mais
raras; e conseguia ler os sinais nas entranhas da marta-do-pinheiro, ou
decifrar a sabedoria nas escamas de uma perca, ou interpretar os avisos
no plen do aafro; mas todos esses eram filhos da natureza e lhe
revelavam suas verdades naturais. Para conseguir saber sobre Lorde
Asriel ela teria que ir a outro lugar . No porto de Trollesund, o cnsul
das bruxas, Dr. Lanselius, mantinha contato com o mundo de homens e
mulheres, #53 e Serafina Pekkala voou rapidamente para l atravs da
neblina, para ver o que ele poderia lhe contar. Antes de ir  casa dele,
ela voou em crculos sobre o porto, onde restos de nvoa deslizavam
fantasmagoricamente sobre a gua gelada, e observou um rebocador guiar
para o porto um grande navio com bandeira africana. Havia muitos outros
navios ancorados do lado de fora do porto -ela nunca vira tantos navios
juntos. Quando o curto dia findava, ela aterrissou no jardim dos fundos
da casa do cnsul. Bateu na vidraa e o prprio Dr. Lanselius abriu a
porta com um dedo nos lbios. -Serafina Pekkala, saudaes- disse.
-Entre depressa, e seja bem-vinda. Mas  melhor no ficar muito tempo.
Ofereceu-lhe uma cadeira junto  lareira, olhou de relance atravs das
cortinas de uma janela que dava para a rua e perguntou: -Toma um pouco
de vinho? Enquanto bebericava o Tokay dourado, ela contou o que tinha
visto e ouvido a bordo do navio. -Acha que eles compreenderam o que ela
falou sobre a criana? -ele perguntou. -No completamente, eu acho. Mas
sabem que ela  importante. Quanto quela mulher, tenho medo dela, Dr.
Lanselius. Vou mat-la, eu acho, mas mesmo assim tenho medo dela. -Eu
tambm -fez ele. E Serafina escutou o que ele lhe contou dos boatos que
tinham varrido a cidade. No meio da confuso de boatos alguns fatos
comearam a emergir com clareza. -Dizem que o Magisterium est reunindo
o maior exrcito j visto, e esta  a vanguarda. E h boatos
desagradveis sobre alguns dos soldados, Serafina Pekkala. Ouvi contar
de #54 Bolvangar, e o que estavam fazendo l, cortando os daemons das
crianas, a maior maldade que j ouvi. Bem, parece que existe um
regimento de guerreiros que foram tratados da mesma maneira. Conhece a
palavra "zumbi"? Eles nada temem porque no tm mente. H alguns aqui na
cidade agora. As autoridades os mantm escondidos, mas os boatos correm,
e os habitantes esto apavorados. -E as bruxas dos outros cls, que
notcias h delas? - perguntou Serafina Pekkala. -A maioria voltou para
suas casas. Todas as bruxas esto esperando, Serafina Pekkala, com medo
no corao, o que acontecer em seguida. -E o que ouviu sobre a Igreja?
-Esto inteiramente confusos. Eles no sabem o que Lorde Asriel pretende
fazer . -Nem eu -disse ela. -E no consigo nem imaginar o que seja. O
que  que o senhor pensa que ele est pretendendo, Dr. Lanselius? Ele
esfregou delicadamente a cabea da sua daemon-serpente com o polegar .
-Ele  um Catedrtico -disse, depois de um momento. -Mas a ctedra no 
a sua maior paixo. Tampouco ser estadista  a sua paixo. Conheci-o uma
vez, e achei que ele tinha uma natureza ardente e poderosa, mas no
desptica. No acredito que ele queira governar... No sei, Serafina
Pekkala. Imagino que o criado dele poderia lhe dizer.  um homem chamado
Thorold, e foi aprisionado com Lorde Asriel na casa em Svalbard. Pode
valer a pena uma visita at l para ver se ele pode lhe dizer alguma
coisa; mas naturalmente ele pode ter ido para o outro mundo com seu amo.
-Obrigada.  uma boa idia... Vou fazer isso. E agora. #55 Ela
despediu-se do cnsul e saiu voando atravs da escurido crescente para
encontrar-se com Kaisa nas nuvens. A viagem de Serafina para o Norte foi
dificultada pela confuso no mundo  sua volta. Todos os povos do Artico
estavam em pnico, assim como os animais, no apenas por causa da
neblina e das variaes magnticas mas tambm pelos estranhos estalidos
no gelo e movimentos do solo. Era como se a prpria Terra estivesse
despertando lentamente de um longo sonho de estar congelada. Nessa
confuso -em que sbitos raios de misterioso brilho vazavam atravs de
rasges nas torres de neblina e ento desapareciam com a mesma rapidez,
em que rebanhos do boi-almiscarado tpico do Artico eram tomados pelo
impulso de galopar para o sul e ento virar repentinamente para o oeste
ou novamente para o norte, em que rgidas formaes de gansos
desintegravam-se num tumulto de grasnidos quando os campos magnticos
que orientavam seu vo oscilavam e partiam-se em todas as direes
-Serafina Pekkala voava para o norte, para a casa no promontrio nas
terras desertas de Svalbard. Ali ela encontrou Thorold, o criado de
Lorde Asriel, lutando contra um grupo de avantesmas-dos-penhascos. Ela
percebeu o movimento antes de se aproximar o suficiente para ver o que
estava acontecendo: asas como de couro e um malvolo grasnar ressoando
no ptio coberto de neve, e uma figura solitria, envolta em peles,
disparando um rifle no meio da confuso, tendo a seu lado um esqulido
daemon-co rosnando e tentando morder cada vez que uma daquelas coisas
nojentas voava suficientemente baixo. Serafina no conhecia o homem, mas
um avantesma-dos-penhascos era sempre um inimigo. Ela fez um crculo
alto e #56 disparou uma dzia de flechas no grupo em tumulto. Com
guinchos e muita algazarra o bando -desorganizado demais para ser
considerado uma tropa -virou-se, viu o novo adversrio e fugiu em
confuso. No minuto seguinte os cus estavam novamente desertos, e os
guinchos assustados ecoavam nas montanhas distantes at desaparecerem no
silncio. Serafina pousou no ptio e saltou sobre a neve pisoteada e
manchada de sangue. O homem empurrou o capuz para trs, ainda segurando
o rifle cautelosamente, porque S vezes uma bruxa era inimiga, e ela viu
um homem idoso, de rosto comprido, cabelos grisalhos e olhar firme. -Sou
amiga de Lyra -ela disse. -Espero que possamos conversar. Veja, baixei
meu arco. -Onde est a criana? -ele perguntou. -Em outro mundo. Estou
preocupada com a segurana dela. E preciso saber o que Lorde Asriel est
fazendo. Ele baixou o rifle. -Ento entre -convidou. -Veja, baixei meu
rifle. Depois da troca de formalidades, eles entraram na casa. Kaisa
deslizava pelos cus, vigiando, enquanto Thorold fazia caf e Serafina
lhe contava o seu envolvimento com Lyra. -Ela sempre foi uma criana com
fora de vontade - ele disse, quando estavam sentados  mesa de carvalho
 luz de um lampio de nafta. -Eu avia todo ano, quando Lorde Asriel
visitava a universidade dele. Eu gostava dela, sabe, no conseguia
evitar. Mas o lugar dela no esquema geral das coisas eu no sei. -O que
Lorde Asriel estava planejando fazer? -No acha que ele me contou, acha,
Serafina Pekkala? Sou s o criado dele. Lavo as roupas dele, preparo
suas refeies, cuido da casa. Posso ter ficado sabendo de uma ou #57
duas coisinhas durante os anos que passei com Lorde Asriel, mas s
acidentalmente. Ele no confiava em mim mais do que confiava no seu pote
de sabo de barba. -Ento me conte essas uma ou duas coisinhas que soube
acidentalmente -ela insistiu. Thorold era um homem velho, mas saudvel e
vigoroso, e sentia-se lisonjeado com a ateno dessa bruxa jovem e bela,
como qualquer homem ficaria. Mas era tambm esperto, e sabia que a
ateno no era realmente para ele, mas para o que ele sabia; e era
honesto, de modo que no adiou indevidamente aquilo que tinha a dizer.
-No sei exatamente o que ele est fazendo, porque os detalhes
filosficos esto alm do meu alcance. Mas posso lhe dizer o que  que
move Lorde Asriel, embora ele no saiba que eu sei. Percebi isso em uma
centena de pequenos sinais. Corrija-me se eu estiver enganado, mas as
bruxas tm deuses diferentes dos nossos, no  verdade? -Sim,  verdade.
-Mas sabe alguma coisa sobre o nosso Deus? O Deus da Igreja, aquele que
chamam de Autoridade? -Conheo, sim. -Bem, Lorde Asriel nunca se sentiu
 vontade, por assim dizer, com as doutrinas da Igreja. J vi um ar de
desagrado no rosto dele quando falam de sacramentos, penitncia,
redeno e coisas assim. Entre o nosso povo, desafiar a Igreja significa
a morte, mas no peito de Lorde Asriel vem crescendo uma revolta desde
que comecei a trabalhar para ele,  isso que eu sei. -Uma revolta contra
a Igreja? -Em parte, sim. Houve uma poca em que ele pensou em usar a
fora, mas desistiu disso. #58 -Por qu? A Igreja era forte demais?
-No, isso no deteria o meu amo -disse o velho criado. -Olhe, isso pode
lhe parecer estranho, Serafina Pekkala, mas conheo aquele homem melhor
do que qualquer esposa, melhor do que uma me poderia conhecer. Ele tem
sido meu amo e meu objeto de estudo h 40 anos. No consigo acompanh-lo
nas alturas do seu pensamento assim como no consigo voar, mas posso ver
aonde ele est indo, mesmo que no possa segui-lo. No. Acredito que ele
desistiu de uma revolta contra a Igreja no porque a Igreja fosse forte
demais, mas porque ela  fraca demais para valer a pena lutar. -Ento...
o que  que ele est fazendo? -Acho que est iniciando uma guerra mais
elevada. Acho que est pretendendo uma revolta contra o poder mais alto
de todos. Ele foi procurar a morada da prpria Autoridade, e vai
destru-la.  o que eu penso. Meu corao estremece quando digo isso,
senhora. Mal ouso pensar sobre isso. Mas no consigo imaginar outra
coisa que faa sentido para o que ele est fazendo. Serafina ficou
quieta por um momento, absorvendo o que Thorold lhe contara. Antes que
ela dissesse alguma coisa, ele continuou: - claro que qualquer pessoa
disposta a uma faanha grandiosa como essa seria alvo da ira da Igreja.
Nem  preciso dizer. Seria a mais gigantesca das blasfmias,  o que
diriam. Ele seria levado a um Tribunal Consistorial e condenado  morte
num piscar de olhos. Nunca falei sobre isso antes, e no tornarei a
falar; at com a senhora eu teria medo de falar, se a senhora no fosse
uma bruxa, fora do alcance do poder da Igreja; nenhuma outra coisa faz
sentido, e isso faz. Ele vai encontrar e matar a prpria Autoridade! #59
-Isso  possvel? -Serafina quis saber. -A vida de Lorde Asriel sempre
foi cheia de coisas que eram impossveis. Eu no gostaria de dizer que
existe alguma coisa que ele no conseguiria fazer, porm, diante disto
tudo, Serafina Pekkala, eu diria que sim, ele est louco. Se os anjos
no conseguiram, como um homem pode ousar pensar nisso? -Anjos? Quem
so? -Seres de puro esprito, diz a Igreja. A Igreja ensina que alguns
anjos se rebelaram antes da criao do mundo, e foram expulsos do
paraso para o inferno. Eles fracassaram, entende? No conseguiram o que
queriam. E tinham o poder dos anjos. Lorde Asriel  apenas um homem, com
poderes humanos, nada mais que isso. Mas a sua ambio  ilimitada. Ele
ousa fazer o que homens e mulheres sequer ousam pensar. E veja o que ele
j fez: rasgou o cu, abriu caminho para outro mundo. Quem mais j fez
isso? Quem mais poderia pensar nisso? De modo que uma parte de mim,
Serafina Pekkala, diz que ele  louco, mau, perturbado. Mas outra parte
pensa: ele  Lorde Asriel, no  como os outros homens. Quem sabe... Se
isso algum dia fosse possvel, seria feito por ele e por ningum mais.
-E o que voc vai fazer, Thorold? -Vou ficar esperando aqui. Vou cuidar
desta casa at ele voltar e me dar outra ordem, ou at eu morrer. E
agora vou lhe fazer a mesma pergunta, senhora. -Vou me certificar de que
a criana est segura -ela revelou. -Pode ser que eu tenha que passar
por esta regio outra vez, Thorold. Fico feliz em saber que voc ainda
estar por aqui. -No vou arredar p daqui -ele assegurou. Ela recusou a
comida que ele ofereceu e despediu-se. Dentro de um minuto ela reuniu-se
ao seu daemon-ganso, e o daemon manteve silncio ao lado dela enquanto
voavam #60 num curso sinuoso acima das montanhas enevoadas. Ela estava
profundamente perturbada, e no havia necessidade de explicar isso: cada
folha de erva, cada poa gelada, cada mosquitinho de sua terra natal
vibrava em seus nervos chamando-a de volta. Ela temia por eles, mas
temia por si prpria tambm, pois estava tendo que mudar; eram problemas
humanos que ela estava investigando, aquilo era um assunto humano; o
deus de Lorde Asriel no era o dela. Ser que estava se tornando humana?
Ser que estava perdendo sua condio de bruxa? Se estava, no poderia
fazer isso sozinha. -Vamos para casa -disse. -Precisamos conversar com
as nossas irms, Kaisa. Esses acontecimentos so grandes demais para
ns. E ambos atravessaram velozmente as nuvens de neblina em direo ao
lago Enara e ao seu lar. Nas cavernas das florestas ao lado do lago,
encontraram as outras do seu cl, e Lee Scoresby tambm. O aeronauta
tinha lutado para manter sua embarcao flutuando depois da queda de
Svalbard, e as bruxas o guiaram para aterra delas, onde ele havia
comeado a consertar o estrago na cesta e no balo de gs. -Senhora,
fico muito feliz em v-la -saudou ele. - Alguma notcia da menininha?
-Nenhuma, Sr. Scoresby. Gostaria de juntar-se a ns no Conselho esta
noite, para nos ajudar a debater o que fazer? O texano pestanejou
surpreso, pois jamais se soubera que um homem tivesse participado de um
conselho de bruxas. -Ser uma grande honra -respondeu. -Pode ser que eu
tenha uma ou duas sugestes. Durante todo o dia chegaram bruxas, como
flocos de neve negra nas asas de uma tempestade, enchendo os cus com o
fremir da sua seda e o cicio do ar atravs das agulhas de seus #61
galhos de pinheiro-nubgeno. Os homens que caavam nas florestas
gotejantes ou pescavam entre os pedaos de gelo a se derreter ouviram
atravs da neblina o sussurro espalhado pelo cu, e se o cu estivesse
claro eles ergueriam os olhos para ver as bruxas voando como farrapos de
escurido na correnteza de uma mar secreta.  noite os pinheiros em
volta do lago estavam iluminados por uma centena de fogueiras, e a maior
fogueira de todas estava montada na frente da caverna de reunies. Ali,
depois que se alimentaram, as bruxas se reuniram. Serafina Pekkala
sentava-se no centro, com uma coroa de pequenas flores vermelhas
aninhada em seus cabelos louros.  sua esquerda, sentava-se Lee Scoresby
e,  sua direita, uma visitante: a Rainha das bruxas de Latvia, cujo
nome era Ruta Skadi. Ela chegara apenas uma hora antes, para surpresa de
Serafina. Serafina achava que a Sra. Coulter era bonita, para uma
vida-curta; mas Ruta Skadi era to linda quanto a Sra. Coulter, com uma
dimenso extra- o mistrio, o sobrenatural. Ela fizera transaes com
espritos, e isso era visvel. Era viva e apaixonada, com grandes olhos
negros; dizia-se que o prprio Lorde Asriel tinha sido seu amante. Usava
pesados brincos de ouro e, nos cabelos negros e cacheados, uma coroa
ornamentada com um anel de presas de tigres-da-neve. Kaisa, daemon de
Serafina, tinha ouvido do daemon de Ruta Skadi que ela prpria matara os
tigres para castigar a tribo trtara que os adorava, porque os homens
dessa tribo tinham deixado de honr-la quando ela visitou o territrio
deles. Sem seus deuses-tigres, a tribo decaiu, por medo e melancolia, e
implorou a ela que lhes permitisse ador-la em lugar dos tigres, mas
foram recusados com desprezo; ela lhes perguntou: que benefcio poderia
trazer a ela a adorao deles? Afinal de contas, isso no #62 tinha
ajudado os tigres. Assim era Ruta Skadi: linda, orgulhosa e impiedosa.
Serafina no tinha certeza do motivo da vinda dela, mas deu-lhe boa
acolhida, e a etiqueta exigia que ela se sentasse  direita de Serafina.
Quando estavam todas reunidas, Serafina comeou a falar: -Irms! Vocs
sabem por que nos reunimos: precisamos decidir o que fazer a respeito
desses novos acontecimentos. O universo est partido, e Lorde Asriel
abriu o caminho deste mundo para outro. Devemos nos preocupar com isso,
ou viver nossa vida como fizemos at agora, cuidando dos nossos prprios
assuntos? Alm disso h a questo da menina Lyra Belacqua, chamada Lyra
da Lngua Mgica pelo Rei Iorek Byrnison. Ela escolheu o galho de
pinheiro-nubgeno correto, na casa do Dr. Lanselius:  a criana que
sempre esperamos, e agora ela desapareceu. Temos dois convidados, que
iro nos oferecer suas idias. Primeiro ouviremos a Rainha Ruta Skadi.
Ruta Skadi ficou de p. Seus braos brancos brilhavam  luz do fogo, os
olhos cintilavam com tanta intensidade que at a bruxa mais distante
distinguia as expresses em seu rosto vvido. -Irms! -ela comeou. -Vou
lhes dizer o que est acontecendo, e contra quem devemos lutar. Pois h
uma guerra iminente. No sei quem vai ficar do nosso lado, mas sei
contra quem devemos lutar.  o Magisterium, a Igreja: durante toda a sua
Histria, que para ns no  muito tempo, mas para os vidas-curtas
significa muitas e muitas geraes, ela tentou reprimir e controlar
todos os impulsos naturais. Quando no consegue control-los, ela os
corta. Algumas de vocs tm conhecimento do que fizeram em Bolvangar.
Aquilo foi horrvel, mas no  o nico lugar, nem a nica prtica deles.
Irms, #63 vocs s conhecem o norte; eu viajei pelas terras do sul. L
existem Igrejas, acreditem, que cortam crianas tambm, no de igual
maneira, mas de uma forma igualmente horrvel: cortam fora os rgos
sexuais, sim, de meninas e meninos, para que no possam sentir prazer. 
isso que a Igreja faz, e toda a Igreja  igual: quer controlar,
destruir, obliterar cada sensao agradvel. Se vier uma guerra e a
Igreja estiver de um lado, ns temos que estar do outro lado, por mais
estranhos que sejam os aliados com quem tivermos que nos envolver . -O
que proponho  que os nossos cls se unam e sigam para o norte para
explorar este novo mundo e ver o que podemos descobrir l. Se no se
consegue encontrar a criana no nosso mundo,  porque ela j ter ido
atrs de Lorde Asriel. E Lorde Asriel  a chave de tudo, acreditem. Ele
j foi meu amante, e eu de boa vontade uniria minhas foras s dele,
porque ele odeia a Igreja e tudo que ela faz.  isso o que tenho a
dizer. Ruta Skadi falou apaixonadamente, e Serafina admirou seu poder e
sua beleza. Quando a rainha latviana se sentou, Serafina voltou-se para
Lee Scoresby. -O Sr. Scoresby  amigo da criana, portanto amigo nosso
tambm -disse. -Gostaria de nos oferecer suas idias, senhor? O texano
ficou de p, magro como um chicote e muito corts. Parecia no ter
conscincia da estranheza da ocasio, mas tinha. Seu daemon-lebre Hester
estava agachado ao lado dele, orelhas estiradas para trs, coladas nas
costas, os olhos dourados entrecerrados. -Senhora, primeiro tenho que
agradecer a todas vocs pela bondade com que me trataram, e pela ajuda
que deram a um aeronauta castigado pelos ventos que sopraram de outro
mundo. No vou abusar muito da sua pacincia. Quando eu #64 estava indo
para o norte, para Bolvangar, com os gpcios, a menina Lyra me falou de
uma coisa que tinha acontecido na universidade onde ela morava em
Oxford: Lorde Asriel mostrou aos outros Catedrticos a cabea cortada de
um homem chamado Stanislaus Grumman, e com isso convenceu-os a lhe dar
algum dinheiro para voltar para o Norte e investigar o que tinha
acontecido. Ele continuou: -Ora, a criana tinha tanta certeza do que
tinha visto, que eu no quis question-la demais. Mas o que ela disse me
trouxe  memria alguma coisa, porm no conseguia lembrar exatamente o
que era. Sabia que era sobre esse tal Dr. Grumman. E s na viagem de
Svalbard para c eu me lembrei o que era. Foi um velho caador de
Tungusk quem me contou. Parece que Grumman conhecia o paradeiro de um
objeto que d proteo a quem quer que o carregue. No quero fazer pouco
da magia que vocs, bruxas, dominam, mas essa coisa, fosse o que fosse,
tinha um tipo de poder que ultrapassa qualquer coisa de que eu j tenha
ouvido falar. E fiquei pensando que poderia adiar a minha volta para o
Texas e procurar o Dr. Grumman, pois estou preocupado com aquela menina.
Acho que ele no est morto, entendem? Acho que Lorde Asriel estava
enganando aqueles Catedrticos. Fez uma pausa antes de prosseguir. -De
modo que vou procurar por ele em Nova Zembla, que  o ltimo lugar onde
ouvi falar dele vivo. No consigo ver o futuro, mas consigo ver muito
bem o presente. E estou com vocs nessa guerra, se  que as minhas balas
valem alguma coisa. Mas  esta a tarefa que vou empreender, senhora
-concluiu ele, virando-se mais uma vez para Serafina Pekkala: -Vou
procurar Stanislaus Grumman, descobrir o que ele #65 sabe e, se
conseguir encontrar o tal objeto, vou lev-lo para Lyra. Serafina
perguntou: -O senhor j foi casado, Sr. Scoresby? Tem filhos? -No,
senhora, no tenho filhos, embora gostasse de ser pai. Mas entendo a sua
pergunta, e a senhora tem razo: aquela garotinha teve m sorte com os
pais verdadeiros, e talvez eu possa compensar. Algum tem que fazer
isso, e eu estou disposto a faz-lo. -Obrigada, Sr. Scoresby- ela disse.
Serafina Pekkala retirou a coroa e desprendeu dela uma das pequenas
flores vermelhas, que permaneciam frescas, como se fossem
recm-colhidas, enquanto ela as usasse. -Leve isto com voc -disse. -E
sempre que precisar da minha ajuda, segure-a e me chame; vou escutar,
no importa onde o senhor esteja. -Ora, obrigado, senhora -disse ele,
surpreso. Pegou a florzinha e guardou-a com cuidado no bolso da camisa.
-E vamos chamar um vento para ajud-lo achegar a Nova Zembla -disse-lhe
Serafina Pekkala. -Agora, irms, quem gostaria de falar? iniciou-se o
conselho propriamente dito. As bruxas eram democratas at certo ponto;
todas as bruxas, at mesmo as mais jovens, tinham o direito de falar,
mas s a rainha tinha o direito de decidir. O debate durou a noite toda,
com muitas vozes veementes a favor da guerra declarada imediatamente, e
outras pedindo cautela -e algumas poucas, as mais sbias, sugerindo que
se enviasse uma misso a todos os outros cls para cham-los a unir-se
pela primeira vez. Ruta Skadi concordava com isso, e Serafina mandou
imediatamente as mensageiras. Quanto ao que ela prpria #66 deveria
fazer, Serafina escolheu vinte das suas melhores guerreiras e ordenou
que se preparassem para voar para o norte com ela, para aquele mundo
novo que Lorde Asriel tinha aberto, para procurar Lyra. -E voc, Rainha
Ruta Skadi? -Serafina perguntou finalmente. -Quais so os seus planos?
-Vou procurar Lorde Asriel, e ouvir dos lbios dele o que ele est
fazendo. E parece que ele tambm foi para o norte. Posso fazer a
primeira parte da viagem com voc, irm? -Pode, e ser bem-vinda -disse
Serafina, feliz em ter a companhia dela. Assim ficou decidido. Logo
depois que o conselho terminou, porm, uma bruxa idosa procurou Serafina
Pekkala e disse: - melhor conversar com Juta Kamainen, Rainha. Ela 
cabea-dura, mas pode ter alguma coisa importante a dizer. A jovem bruxa
Juta Kamainen -isto , jovem pelos padres das bruxas, pois tinha pouco
mais de cem anos de idade -mostrava-se embaraada e de m vontade, e seu
daemon-tordo estava agitado, voando do ombro para a mo dela e em
crculos acima de sua cabea antes de voltar a pousar por um breve
instante em seu ombro. As bochechas da bruxa eram gorduchas e vermelhas:
ela possua uma natureza viva e passional. Serafina no a conhecia muito
bem. -Rainha, conheo o humano Stanislaus Grumman - disse a jovem bruxa,
incapaz de permanecer em silncio sob o olhar de Serafina. -J o amei.
Mas agora o odeio com tanto fervor, que se o encontrar vou mat-lo. No
ia contar, mas a minha irm me obrigou. Olhou com raiva para a bruxa
idosa, que retribuiu com um olhar de compaixo: conhecia o amor . #67
-Bem, se ele ainda estiver vivo, vai ter que ficar vivo at o Sr.
Scoresby o encontrar -declarou Serafina. - melhor vir conosco para o
novo mundo, assim no haver perigo de voc mat-lo antes. Esquea, Juta
Kamainen. O amor nos faz sofrer. Mas a nossa misso  maior do que a
vingana. Lembre-se disso. -Sim, Rainha- fez a jovem bruxa com
humildade. E Serafina Pekkala, suas 21 companheiras e a Rainha Ruta
Skadi da LatVia prepararam-se para voar para o novo mundo, onde bruxa
alguma jamais estivera. #68 3 UM MUNDO INFANTIL Lyra acordou cedo. Tinha
tido um sonho horrvel: algum lhe dera a caixa trmica que ela vIra o
pai, Lorde Asriel, mostrar ao Reitor e aos Catedrticos da Universidade
Jordan. Quando aquilo aconteceu na vida real, Lyra estava escondida no
armrio, e vira Lorde Asriel abrir a caixa e mostrar aos Catedrticos a
cabea cortada de Stanislaus Grumman, o explorador desaparecido; mas no
sonho Lyra tinha que abrir ela mesma a caixa, e no queria fazer isso.
Na verdade, estava apavorada. Mas tinha que abrir, querendo ou no, e
sentia as mos fracas de terror ao soltar o fecho da tampa e ouvir o ar
entrando no vcuo da caixa trmica. Ento retirou a tampa, quase
engasgada de terror, mas sabendo que era preciso, tinha que fazer isso.
E dentro no havia coisa alguma. A cabea sumira. No havia o que temer.
Mas mesmo assim ela despertou chorando e transpirando no quartinho de
frente para o porto, com o luar entrando pela janela, e ficou deitada na
cama de outra pessoa, agarrada ao travesseiro de outra pessoa, com
Pantalaimon na forma de um #69 arminho acariciando-a com o focinho e
murmurando que se acalmasse. Ah, ela estava com tanto medo! E como era
estranho que ela ficasse to apavorada no sonho -logo ela, que na vida
real tivera tanta vontade de ver a cabea de Stanislaus Grumman,
chegando a pedir a Lorde Asriel para abrir de novo a caixa para ela
olhar . Quando amanheceu, ela perguntou ao aletmetro o que o sonho
significava, mas ele respondeu apenas: Foi um sonho a respeito de uma
cabea. Ela pensou em acordar o garoto desconhecido, mas ele dormia to
profundamente, que ela desistiu. Em vez disso, desceu para a cozinha e
tentou fazer uma omelete; 20 minutos depois ela se sentou a uma mesa na
calada e comeu com grande orgulho a mixrdia escura e crocante,
enquanto Pantalaimon, agora um pardal, bicava os pedacinhos de casca de
ovo. Ela ouviu um rudo atrs de si e l estava Will, com os olhos
pesados de sono. -Sei fazer omelete -ela anunciou. -Posso fazer para
voc, se quiser. Ele olhou para o prato dela. -No, obrigado. Vou comer
flocos de milho. Achei na geladeira um pouco de leite que ainda est
bom. Eles no devem ter ido embora h muito tempo, o pessoal que mora
aqui. Ela o observou colocar flocos de milho numa tigela e derramar
leite em cima -mais uma coisa que ela nunca tinha vIStO. Ele levou a
tigela para a rua e perguntou: -Se voc no  deste mundo, onde  o seu
mundo? Como chegou at aqui? -Atravessando uma ponte. Meu pai fez essa
ponte e... eu atravessei atrs dele. Mas ele foi para outro lugar, no
sei #70 onde. No me importo. Mas, enquanto eu estava atravessando,
havia tanta neblina que me perdi, eu acho. Fiquei andando no meio da
neblina durante dias, comendo s cerejas e coisas que eu encontrava.
Ento um dia a neblina sumiu e a gente estava no alto daquele rochedo l
atrs... Fez um gesto para trs de si. Will olhou ao longo da praia,
para alm do farol, e verificou que a costa se erguia numa grande
fileira de rochedos que desapareciam na neblina  distncia. -E vimos a
cidade aqui, e descemos, mas no tinha ningum aqui. Pelo menos tinha
coisas para comer e cama para dormir. No sabamos o que amos fazer
depois. -Tem certeza de que isto aqui no  outra parte do seu mundo?
-Claro. Este no  o meu mundo, disto eu tenho certeza. Willlembrava-se
da sua certeza absoluta, quando viu o trecho de gramado atravs da
janela no ar, de que aquilo no ficava no seu mundo, e ento fez um
gesto de assentimento. -Ento existem pelo menos trs mundos ligados -
disse. -Existem milhes e milhes -disse Lyra. -Aquele outro daemon me
contou. Era o daemon de uma bruxa. Ningum consegue calcular quantos
mundos existem, todos no mesmo espao, mas ningum conseguia ir de um
para outro antes do meu pai fazer essa ponte. -E a janela que eu
encontrei? -Isso eu no sei. Talvez os mundos estejam comeando a entrar
uns nos outros. -E por que voc est procurando p? Ela o encarou
friamente. #71 -Pode ser que um dia eu lhe conte -declarou. -Est bem.
Mas como  que vai procurar esse p? -Vou encontrar um Catedrtico que
saiba sobre ele. -Como assim? Qualquer Catedrtico? -No. Um telogo
experimental- ela esclareceu. - L na minha Oxford, eram eles que sabiam
dessas coisas.  lgico que deve ser o mesmo na sua Oxford. Vou primeiro
 Universidade Jordan, porque a Jordan tinha os melhores telogos.
-Nunca ouvi falar em teologia experimental -ele duvidou. -Eles sabem
tudo sobre partculas elementares e foras fundamentais -ela explicou.
-E ambaromagnetismo, coisas assim. Naves atmicas. -Magnetismo o qu?
-Ambaromagnetismo. Vem de ambrico. Essas luzes -disse, apontando para
os postes ornamentais. -Elas so ambricas. -Ns chamamos de eltricas.
-Eltricas... Parece electrum.  um tipo de pedra, uma jia, feita de
resina de rvore. s vezes tem um inseto dentro delas. -Ah, voc est
falando de mbar- disse ele. Ambos falaram ao mesmo tempo: -Ambrico! E
ambos viram a expresso no rosto do outro. Durante muito tempo
Willlembrou-se desse momento. -Bom, eletromagnetismo -disse ele,
desviando os olhos. -Parece o que agente chama de fsica, essa sua
teologia experimental. Voc vai precisar de cientistas, no de telogos.
#72 -Ah, vou conseguir encontrar -disse ela em tom cauteloso. Estavam
sentados ao ar livre naquela manh sem nuvens, e qualquer um dos dois
poderia ter falado a seguir, porque ambos estavam cheios de perguntas;
mas nesse momento ouviram uma voz que vinha de mais longe ao longo da
calada da praia, da direo dos jardins do cassino. Ambos olharam para
l, espantados. Era uma voz infantil, mas no havia ningum  vista.
Will perguntou baixinho a Lyra: -Hquanto tempo mesmo voc est aqui?
-Trs, quatro dias, perdi a conta. Nunca vi ningum. No tem ningum
aquI. ProcureI em quase toda parte. Mas havia. Duas crianas, uma delas
uma garota da idade de Lyra e a outra um menino mais jovem, saram de
uma das ruas que levavam ao porto. Carregavam cestas, e ambos tinham
cabelos ruivos. Estavam a menos de 100 metros quando avistaram Will e
Lyra  mesa do pequeno restaurante. Pantalaimon mudou de pintassilgo
para camundongo e subiu correndo pelo brao de Lyra para o bolso da
camisa dela. Ele reparou que aquelas novas crianas eram como Will:
nenhuma das duas tinha um daemon visvel. As duas crianas
aproximaram-se e ocuparam uma mesa prxima. -Vocs so de Ci'gazze? -a
menina perguntou. Will sacudiu a cabea. -De Sant'Elia? -No. Somos de
outro lugar -Lyra respondeu. A menina assentiu; era uma resposta
razovel. -O que  que est acontecendo? -Will perguntou. - Onde esto
os adultos? #73 A menina franziu a testa. -Os Espectros no vieram  sua
cidade? -quis saber . -No -disse Will. -Acabamos de chegar. No sabemos
nada sobre Espectros. Qual  o nome desta cidade? -Ci'gazze -a menina
informou, cheia de suspeita. - Quer dizer, Cittgazze. -Cittgazze...
-Lyra repetiu. -Ci'gazze. Por que os adultos tiveram que ir embora? -Por
causa dos Espectros -a menina explicou com enorme sarcasmo. -Qual  o
seu nome? -Lyra. E ele  Will. Qual  o seu? -Anglica. O meu irmo 
Paolo. -De onde vocs vieram? -Dos morros. Houve uma grande tempestade e
muita neblina, e todo mundo ficou assustado, de modo que corremos para o
alto dos morros. Ento, quando a neblina clareou, os adultos viram pelos
telescpios que a cidade estava cheia de Espectros, de modo que eles no
podiam voltar .Mas as crianas, a gente no tem medo de Espectros, ora.
Mais crianas esto vindo a. Vo chegar mais tarde, mas ns fomos os
primeiros. -Ns e o Tullio -disse o pequeno Paolo com orgulho. -Quem 
Tullio? Anglica ficou zangada: Paolo no devia ter mencionado o outro
irmo. Agora j no era segredo. -O nosso irmo mais velho -explicou.
-Ele no est conosco. Est escondido at conseguir... Est escondido,
s isso. -Ele vai pegar... -Paolo comeou, mas Anglica deu-lhe um tapa
com fora e ele calou a boca, apertando os lbios trmulos. #74 -Que foi
que voc disse sobre a cidade? -quis saber Will. -Que est cheia de
Espectros? -, Ci'gazze, Sant'Elia, todas as cidades, os Espectros vo
aonde as pessoas esto. De onde voc vem? -De Winchester -Will informou.
-Nunca ouvi falar. L no tem Espectros? -No. Tambm no estou vendo
nenhum aqui. -Claro que no! -ela exclamou. -Voc no  adulto! Quando a
gente fica adulto, v Espectros. -Eu no tenho medo de Espectros -disse
o garotinho, erguendo o queixo sujo. -Mato todos eles. -Os adultos no
vo mais voltar? -Lyra perguntou. -Vo, daqui a alguns dias -disse
Anglica. -Quando os Espectros forem para outro lugar. Ns gostamos
quando os Espectros vm para c, porque podemos correr pela cidade,
fazer tudo que queremos. -Mas o que os adultos acham que os Espectros
vo fazer com eles? -Will perguntou. -Bom, quando um Espectro agarra um
adulto, a coisa  feia de se ver. Eles comem a vida dele ali, na hora.
No quero ser adulta, eu juro. No princpio eles sabem o que est
acontecendo e ficam com medo, e gritam e gritam, tentam olhar para outro
lado e fingir que no est acontecendo, mas est.  tarde demais. E
ningum chega perto deles, eles ficam sozinhos. Ento ficam plidos e
param de se mexer. Ainda esto vivos, mas  como se tivessem sido
comidos por dentro. A gente olha nos olhos deles e v o fundo da cabea.
No tem nada l dentro. A menina virou-se para o irmo e limpou o nariz
dele na manga da camisa. #75 -Eu e Paolo vamos procurar sorvete
-informou. - Querem vir tambm? -No -disse Will. -Temos uma coisa a
fazer. -Ento at logo -disse ela. -Morte aos Espectros! -Paolo
completou. -At logo -fez Lyra. Assim que Anglica e o menininho
desapareceram, Pantalaimon surgiu do bolso de Lyra, olhos brilhantes, os
plos da cabecinha de camundongo eriados. Disse a Will: -Eles no sabem
da janela que voc encontrou. Era a primeira vez que Will o ouvia falar,
e isso quase o deixou mais espantado do que tudo que ele vira at ento.
Lyra riu do seu espanto. -Mas... ele falou... Todos os daemons falam?
-quis saber. -Claro que sim! -disse Lyra. -Achou que ele era s um
bichinho de estimao? Will passou a mo pelos cabelos e pestanejou.
Depois sacudiu a cabea e voltou-se para Pantalaimon: -No, voc tem
razo, eu acho. Eles no sabem da janela. -Ento  melhor termos cuidado
com isso -Pantalaimon continuou. Durou um instante a estranheza de
conversar com um camundongo, e logo passou a ser to normal quanto falar
ao telefone, porque na verdade ele estava falando com Lyra. Mas o
camundongo era um ser independente; tinha alguma coisa de Lyra em sua
expresso, mas alguma outra coisa tambm. Era difcil raciocinar, com
tantas coisas esquisitas acontecendo ao mesmo tempo. Will tentou
organizar os pensamentos. #76 -Primeiro voc tem que arrumar algumas
roupas, Lyra, antes de entrar na minha Oxford -afirmou. -Por qu? -ela
perguntou, rebelde. -Porque no meu mundo voc no pode ir falar com as
pessoas vestida assim, elas no iam deixar voc chegar perto. Tem que
parecer que faz parte delas. Tem que andar camuflada. Eu sei, entende?
Fao isso h anos.  melhor voc me escutar, seno vai ser apanhada, e
se descobrirem de onde voc veio, a Janela, e tudo... Ora, este mundo 
um bom esconderIJo. Sabe, eu... Preciso me esconder de certas pessoas.
Este  o melhor esconderijo que eu poderia sonhar, e no quero que seja
descoberto. Portanto, no quero que voc estrague tudo com sua aparncia
de quem no faz parte de l. Tenho minhas coisas a fazer em Oxford, e se
me descobrirem por sua causa eu mato voc. Ela engoliu em seco. O
aletmetro nunca mentia: aquele garoto era um assassino -e, se tinha
matado antes, podia mat-la tambm. Ela assentiu com ar srio. -Est bem
-disse, e era verdade. Pantalaimon tinha virado um lmure e o encarava
com um olhar desconcertante. Will encarou-o de volta, e o daemon virou
camundongo outra vez, entrando para o bolso dela. -timo -ele disse.
-Agora, enquanto estivermos aqui, vamos fingir para as outras crianas
que viemos de algum lugar do mundo delas.  bom no haver adultos.
Podemos ficar  vontade, ningum vai perceber. Mas no meu mundo voc vai
ter que me obedecer. E a primeira coisa  tomar um banho. Voc vai
precisar parecer limpa, seno vai ser notada. Temos que estar camuflados
em toda parte. Temos que parecer que fazemos parte dali, com tanta
naturalidade que as pessoas nem nos percebam. Ento, para comear, v
lavar os #77 cabelos. Eu vi um xampu no banheiro. Depois vamos procurar
algumas roupas. -No sei fazer isso -ela admitiu. -Nunca lavei meus
cabelos. A governanta fazia isso na Jordan, e depois de l eu nunca mais
precIseI. -Bom, vai ter que dar um jeito -ele insistiu. -Tome logo um
banho completo. No meu mundo as pessoas so limpas. -Hum... -fez Lyra, e
foi para o segundo andar. O olhar de um camundongo feroz fixou-se nele
por cima do ombro dela, mas ele retribuiu o olhar com frieza. Parte dele
queria passear nessa manh ensolarada, explorar a cidade, mas outra
parte tremia de ansiedade pela me, e mais outra parte estava ainda
dopada pelo choque da morte que ele provocara. E acima de tudo havia a
misso que ele tinha que cumprir. Mas era bom manter-se ocupado, de modo
que enquanto esperava por Lyra ele limpou a cozinha, lavou o cho e
esvaziou a lata de lixo no recipiente que encontrou no beco nos fundos.
Depois pegou dentro da sacola o escrnio de couro verde e contemplou-o
com anseio. Assim que tivesse mostrado a Lyra como atravessar a janela
para dentro da Oxford dele, ia voltar e examinar o seu contedo; mas at
ento ele o enfiou sob o colcho da cama onde havia dormido. Neste mundo
ele estava em segurana. Quando Lyra desceu, limpa e molhada, os dois
saram em busca de roupas para ela. Encontraram uma loja de
departamentos, modesta como tudo mais, com roupas que aos olhos de Will
pareciam um pouco fora de moda, mas acharam para Lyra uma saia escocesa
e uma blusa verde sem mangas, com um bolso para Pantalaimon. Ela
recusou-se a usar jeans: recusou-se at a acreditar quando Will lhe
disse que a maioria das garotas usava. #78 -So calas! -protestou. -Eu
sou mulher. No seja burro. Ele deu de ombros; a saia escocesa era
discreta, isso era o principal. Antes de partirem, Will deixou algumas
moedas na caixa atrs do balco. -O que  que voc est fazendo? -ela
quis saber. -Pagando. Voc tem que pagar pelas coisas. No seu mundo no
se paga pelas coisas? -No neste aqui! Aposto que aquelas outras
crianas no esto pagando por nada! -Elas podem no pagar, mas eu pago.
-Se comear a se comportar como adulto, os Espectros vo lhe pegar -ela
avisou, embora ainda no soubesse se podia brincar com ele ou se devia
continuar tendo medo dele.  luz do dia Will via como eram antigos os
prdios no centro da cidade, e o estado de runa a que alguns deles
tinham chegado. A rua estava cheia de buracos no consertados; havia
janelas quebradas, rebocos caindo. No entanto, j houvera nesse lugar
beleza e esplendor: atravs de arcos entalhados viam-se ptios
espaosos, cheios de plantas, e havia grandes construes que pareciam
palcios, embora as escadarias estivessem rachadas, e as molduras das
portas, soltas das paredes. Parecia que, em vez de derrubar um prdio e
construir um novo, os cidados de Ci'gazze preferiam remend-lo
indefinidamente. A certa altura chegaram a uma torre solitria numa
pracinha. Era a construo mais antiga que tinham visto: uma torre
simples, de quatro andares, com amei as no topo. Alguma coisa na sua
imobilidade  luz forte do sol era intrigante, e tanto Will quanto Lyra
sentiram-se atrados para a meia-porta aberta no topo da escadaria
larga; mas no falaram sobre isso, e com certa relutncia seguiram seu
caminho. #79 Quando chegaram  alameda larga, com as palmeiras, ele
mandou-a procurar um pequeno caf de esquina, com mesas de metal
pintadas de verde na calada. Ela encontrOU-o num minutO. Parecia menor
e mais pobre  luz do dia, mas era o mesmo lugar, com o balco de tampo
de zinco, a mquina de caf expresso, o pratO de risotO pela metade,
agora comeando a cheirar mal no ar quente. - aqui? -Lyra perguntOu.
-No. Fica no meio da rua. Veja se no h outras crianas por pertO...
Mas estavam sozinhos. Will levou-a para o canteiro central sob as
palmeiras e olhou em volta para se orientar. -Acho que era por aqui
-disse. -Quando atravessei, via muitO mal aquele morro altO atrs da
casa branca l em cima, e olhando para este lado eu vi o caf, e. ..
-Como  essa coisa? No estOU vendo nada. -Voc no vai confundir. No
parece nada que voc j tenha vistO. Ele caminhava de um lado para
outro. A janela teria desaparecido? Teria fechado? Ele no conseguia
encontr-la. E de repente encontrOU-a. Estivera observando aborda do
canteiro enquantO caminhava; assim como na noite anterior, no lado de
Oxford, ela s podia ser vista de um lado; quando se passava para trs
dela, ela ficava invisvel. E o sol no gramado do outrO lado era
exatamente como o sol no gramado deste lado, a no ser por alguma coisa
indizivelmente diferente. -Achei! -exclamou, quando teve certeza. -Ah!
EstOu vendo! Ela estava alvoroada. Parecia to atnita quantO ele ao
escutar Pantalaimon falar. O daemon, incapaz de continuar dentro do
bolso, tinha sado como uma vespa, e voou zumbindo #80 at o buraco
algumas vezes, recuando sempre, enquanto ela enrolava entre os dedos os
cabelos ainda molhados. -Fique de lado -ele instruiu. -Se ficar na
frente dele, as pessoas vo ver s um par de pernas, e isso ia causar
sensao. No quero que ningum perceba. -Que barulho  este? -Trnsito.
Vamos sair no trevo de Oxford. Deve estar muito movimentado. Abaixe-se e
d uma olhada por este lado. Na verdade, no  uma hora boa para a gente
atravessar, muitas pessoas passando. Mas vai ser difcil encontrar um
lugar para ir se atravessarmos no meio da noite. Pelo menos, depois de
atravessarmos poderemos nos misturar com facilidade. Voc passa
primeiro. Mergulhe depressa e depois afaste-se da janela. Desde que
saram do caf, ela vinha carregando uma pequena mochila azul e, antes
de agachar-se e olhar para o outro lado, ela tirou a mochila das costas
e segurou-a nos braos. -Ah! -exclamou. -Este a  o seu mundo? No est
parecendo ser Oxford. Tem certeza que estava em Oxford? -Claro que
tenho. Quando atravessar, vai ver uma rua bem na sua frente. V para a
esquerda, e depois, um pouco  frente, pegue a rua que vai para a
direita. Ela leva ao centro da cidade. No deixe de marcar bem esta
janela e no se esquea de onde ela est, certo?  a nica maneira de
voltar . -Certo, no me esquecerei. Com a mochila nos braos, ela
mergulhou no ar atravs das janela e desapareceu. Will agachou-se para
ver aonde ela ia. E l estava ela, parada no gramado na Oxford dele, com
Pan ainda como vespa no ombro dela, e ningum, pelo que ele podia dizer,
a tinha visto surgir do nada. A poucos passos, carros e caminhes
voavam, e nesse cruzamento movimentado #81 nenhum motorista teria tempo
de olhar para o lado e reparar num pequeno trecho de ar esquisito, mesmo
se conseguisse v-lo, e o trnsito escondia a janela de qualquer pessoa
que olhasse da outra calada. Houve o guinchar de freios, um grito, uma
batida. Ele jogou-se no cho para olhar. Lyra estava cada na grama. Um
carro tinha freado to subitamente, que foi atingido pelo furgo que
vinha atrs, sendo empurrado alguns metros para a frente, e l estava
Lyra, imvel... Willlanou-se atrs dela. Ningum o viu surgir; todos os
olhos estavam no carro, no pra-choque amassado, no motorista do furgo-
que saltava do veculo -e na menina. -No consegui impedir... Ela entrou
correndo na frente... -disse a mulher de meia-idade que estava ao
volante do carro. -E voc estava perto demais -acrescentou, voltando-se
para o motorista do furgo. -Depois a gente v isso -ele retrucou. -Como
est a menina? O motorista do furgo estava falando com Will, de joelhos
ao lado de Lyra. Will ergueu os olhos e olhou em volta, mas no havia
outro jeito, ele era responsvel por ela. No cho, Lyra mexia a cabea,
pestanejando. Will viu Pantalaimon em forma de vespa arrastando-se por
um talo de grama ao lado dela. -Voc est bem? -ele perguntou. -Mexa os
braos e as pernas. -U ma estupidez! -dizia a mulher dentro do carro. -
Correu na minha frente. Nem olhou. Que  que eu podia fazer? -Voc est
bem, querida? -perguntou o motorista do furgo. #82 -Estou -balbuciou
Lyra. -Tudo no lugar? -Mexa os ps e as mos -Will insistiu. Ela
obedeceu. No havia fratura. -Ela est bem -Will assegurou. -Vou tomar
conta dela. Ela est tima. -Voc conhece esta menina? -quis saber o
motorista do furgo. - minha irm -disse Will. -Est tudo bem. Moramos
logo ali, dobrando a esquina. Vou levar ela para casa. Lyra agora estava
sentada, e, como era evidente que ela no estava gravemente ferida, a
mulher voltou sua ateno para o carro. O resto do trnsito passava ao
largo dos dois veculos parados, e ao passarem olhavam para a cena com
curiosidade, como sempre acontece. Will ajudou Lyra a se levantar;
quanto mais depressa sassem dali, melhor. A mulher e o motorista do
furgo tinham chegado  concluso de que o problema deveria ser
resolvido pelas respectivas companhias de seguros, e estavam trocando
endereos quando a mulher viu Will afastando-se, ajudando Lyra, que
mancava. -Esperem! -gritou. -Vocs vo ser testemunhas. Preciso do seu
nome e endereo. -Sou Mark Ransom -disse Will, virando-se. - Minha irm
se chama Lisa. Moramos na Travessa Bourne 26. -Cdigo postal? -Nunca me
lembro -ele disse. -Escute, quero levar minha irm para casa. -Entrem
aqui, vou lhes dar uma carona -ofereceu o motorista do furgo. -No 
preciso,  mais rpido a p. #83 Lyra no estava mancando muito.
Afastou-se caminhando com Will ao longo do gramado sob os carpinos; os
dois viraram na primeira esquina que encontraram. Sentaram-se num muro
baixo de praa. -Est machucada? -Will perguntou. -Minha perna bateu. E
quando eu ca, a minha cabea tremeu -ela respondeu. Mas estava mais
preocupada com o que havia dentro da mochila. TateOU l dentro e pegou
um embrulhinho pesado, envolvido em veludo negro, que ela desdobrou.
Will arregalou os olhos ao ver o aletmetro: os minsculos smbolos
pintados em volta do mostrador, os ponteiros dourados, o ponteiro maior
em movimento, a pesada opulncia do envoltrio de metal- tudo isso
deixou-o sem flego. -Que  isso? -quis saber. - o meu aletmetro.  um
contador de verdade. Um leitor de smbolos. Espero que no esteja
quebrado... Mas o artefato estava intacto. Mesmo nas mos trmulas de
Lyra o ponteiro maior girava regularmente. Ela guardou o aletmetro e
disse: -Nunca vi tantas carroas e coisas... Nunca pensei que andassem
to depressa... -A sua Oxford no tem carros e furges? -No tantOS
assim. E no como esses. Eu no estOU acostumada. Mas j estOU bem.
-Bom, de agora em diante tome cuidado. Se for parar debaixo de um
nibus, ou se se perder ou coisa assim, vo perceber que voc no 
deste mundo e vo comear a procurar a passagem... Ele estava muito mais
zangado do que precisava. Finalmente declarou: #84 -Est certo. Escute:
se fingir que  minha irm, isso vai ser um bom disfarce para mim, pois
o menino que eles esto procurando  filho nico. E se eu estiver com
voc, posso lhe ensinar a atravessar a rua sem ser atropelada. -Est bem
-ela concordou com humildade. -E dinheiro. Aposto que voc no tem...
Ora, como poderia ter dinheiro? Como vai se movimentar, comer e tudo
mais? -Eu tenho dinheiro -ela contestou, e pescou algumas moedas de ouro
na bolsa. Will estudou-as com expresso incrdula. - ouro? , sim, no
? Bom, isto ia fazer todo mundo ficar curioso, se ia. Voc no est
segura. Vou lhe dar algum dinheiro. Guarde estas moedas bem escondidas.
E lembre-se: voc  a minha irm e o seu nome  Lisa Ransom. -Lizzie. U
ma vez fingi que meu nome era Lizzie. Posso me lembrar disso. -Est bem,
Lizzie. E eu sou Mark. No esquea. -Est certo -ela concordou. A perna
ia ficar muito dolorida; estava vermelha e inchada onde o carro tinha
batido, e uma grande mancha escura j estava se formando. Com a equimose
no rosto, onde ele a golpeara na vspera, ela parecia maltratada, e isso
tambm preocupava o garoto: e se um policial ficasse curioso? Tentou
tirar isso da cabea e os dois partiram, atravessando a rua no sinal e
lanando um ltimo olhar  janela sob os carpinos. No conseguiam v-la.
Ela estava invisvel, e o trnsito retomara seu fluxo. Em Summertown,
depois de dez minutos de caminhada pela Rua Banbury, Will parou na
frente de um banco. -O que  que voc vai fazer? #85 -Vou tirar algum
dinheiro.  melhor no fazer isso muitas vezes, mas eles s vo
registrar o saque no final do expediente, eu imagino. Colocou o carto
bancrio da me na caixa automtica e digitou a senha. Pelo jeito estava
tudo certo, portanto ele retirou 100 libras, que a mquina entregou sem
um seno. Lyra observava, boquiaberta. Ele deu a ela uma nota de 20
libras. -Para usar depois -disse. -Compre uma coisa qualquer para trocar
o dinheiro. Vamos procurar um nibus para a cidade. No nibus, Lyra
deixou que ele cuidasse das coisas e ficou sentada, muito quieta,
observando as casas e os jardins da cidade que era dela e no era. Ela
se sentia como se estivesse dentro do sonho de outra pessoa. Saltaram no
centro da cidade, junto a uma antiga igreja de pedra, que ela conhecia,
na frente de uma grande loja de departamentos que ela no conhecia.
-Est tudo mudado! -disse. -Como... Ali no  o Mercado de Milho? E esta
aqui  a Broad. Ali, o Balliol. E a Biblioteca Bodley's, ali embaixo.
Mas onde est a Jordan? Ela agora tremia com fora. Podia ser uma reao
retardada por causa do acidente, ou um choque atual por encontrar um
prdio inteiramente diferente no lugar da Universidade Jordan, que era o
seu lar. -No est certo -disse. Falava baixinho, porque Will lhe
ordenara que parasse de apontar e comentar em voz to alta as coisas que
estavam erradas. - uma outra Oxford. -Bom, agente sabia disso. Ele no
estava preparado para o espanto e a confuso de Lyra. No tinha como
saber at que ponto a infncia dela havia #86 transcorrido em correrias
por ruas quase idnticas a essas, e o orgulho que ela sentia por
pertencer  Universidade Jordan, cujos Catedrticos eram os mais
inteligentes, cujos cofres eram os mais ricos, cuja beleza era a mais
esplndida; e tudo isso agora simplesmente no estava ali, e ela no era
mais a Lyra da Jordan; era uma menininha perdida num mundo estranho, que
no fazia parte de nenhum lugar. -Bem, se no est a... -disse em voz
trmula. Ia apenas demorar um pouco mais do que ela havia pensado -s
isso. #87 4 A TREPANAO Assim que Lyra seguiu seu caminho, Will
procurou um telefone pblico e discou o nmero que constava na carta do
advogado que ele tinha na mo. -Al? Quero falar com o Sr. Perkins.
-Quem est falando, por favor? - a respeito do Sr. John Parry. Sou o
filho dele. -Um momento, por favor... Passou-se um minuto e uma voz
masculina disse: -Al? Sou Alan Perkins. Quem est falando? -William
Parry. Desculpe-me incomodar.  sobre o meu pai, John Parry. De trs em
trs meses o senhor manda dinheiro do meu pai para a conta bancria da
minha me. -Sim... -Bem, quero saber onde meu pai est, por favor. Ele
est vivo ou morto? -Quantos anos voc tem, William? -Doze. Quero saber
sobre o meu pai. #88 -Sim... A sua me, ela... A sua me sabe deste
telefonema? Will pensou cuidadosamente. -No -disse afinal. -Mas ela no
est muito bem de sade. No pode me contar muita coisa, e eu quero
saber. -Certo, entendo. Onde  que voc est? Em casa? -No. Estou...
Estou em Oxford. -Sozinho? -. -E a sua me no est bem, foi o que voc
disse? -Isso mesmo. -Ela est no hospital, ou coisa assim? -Algo
parecido. Escute, o senhor pode me contar ou no? -Bem, posso lhe contar
alguma coisa, mas no muita, e no neste momento, e eu prefiro no fazer
isso por telefone. Tenho um cliente daqui a cinco minutos... Voc
poderia vir ao meu escritrio s duas e meia? -No -fez Will. Seria
arriscado demais: o advogado poderia estar sabendo que ele estava sendo
procurado pela polcia. Pensou depressa e prosseguiu: -Tenho que pegar
um nibus para Nottingham. Mas o que eu quero saber o senhor pode me
contar pelo telefone, no pode? S quero saber se o meu pai est vivo,
e, se estiver, onde  que ele est. O senhor pode me contar isso, no
pode? -No  to simples assim. No posso fornecer informaes pessoais
sobre um cliente sem ter certeza de que o cliente deseja isso. E de
qualquer maneira preciso de uma prova de quem voc . -Est certo, eu
compreendo, mas pode me dizer s se ele est vivo? #89 -Bem... Isso no
seria confidencial, mas infelizmente no posso lhe informar, porque
tambm no sei. -Hein? -O dinheiro vem de um legado de famlia. Ele
deixou instrues para que o pagamento seja feito at que ele me d
outra ordem. Desde esse dia no tive mais notcias dele. O que isso quer
dizer  que... Bem, acho que ele desapareceu.  por isso que no posso
responder  sua pergunta. -Desapareceu? Sumiu? -Essa informao  de
domnio pblico. Escute, por que no vem ao meu escritrio e... -No
posso. Vou para Nottingham. -Bem, ento me escreva ou pea  sua me
para me escrever, e vou informar o que eu puder. Mas tem que entender
que no posso fazer isso pelo telefone. -, entendo. Est bem. Mas pode
me dizer onde foi que ele sumiu? -Como j lhe disse, isso  de domnio
pblico. Na poca muitos jornais publicaram. Voc sabe que ele era um
explorador? -Mame me contou algumas coisas... -Bem, ele estava
trabalhando como guia para uma expedio que desapareceu. H uns 10
anos. -Onde? -No extremo norte. No Alasca, eu acho. Voc pode procurar
na biblioteca pblica. Por que voc no... Mas nesse ponto acabou o
dinheiro que Will colocara no telefone pblico, e ele no tinha mais
trocado. O sinal de discar zumbia em seu ouvido. Ele baixou o fone e
olhou em volta. O que queria acima de tudo era falar com a me. Teve que
fazer fora para no discar o nmero da Sra. Cooper, #90 porque se
ouvisse a voz da me seria muito difcil no voltar para perto dela, e
isso colocaria os dois em perigo. Mas podia mandar-lhe um carto-postal.
Escolheu uma foto da cidade e escreveu: "Mame querida, estou bem e logo
estarei de volta. Espero que esteja tudo certo. Eu te amo. Will." Ento
endereou-o e comprou um selo, e segurou o carto junto ao peito por um
instante antes de deix-lo cair na caixa de coleta. Era o meio da manh
e ele estava na principal rua de comrcio, onde os nibus abriam caminho
por entre a massa de pedestres. Ele comeou a perceber como estava
exposto; era um dia de semana, e uma criana da sua idade deveria estar
na escola. Aonde poderia ir? No demorou a se esconder. Will conseguia
desaparecer com facilidade, pois era bom nisso; tinha at orgulho da sua
habilidade. O modo como fazia isso foi parecido com o modo como Serafina
Pekkala ficou invisvel no navio: ele se fazia intensamente discreto.
Tornava-se parte da paisagem. Agora, conhecendo o tipo de mundo em que
vivia, ele entrou numa papelaria e comprou uma caneta esferogrfica, um
bloco de notas e uma prancheta. Muitas vezes as escolas enviavam grupos
de alunos para fazer pesquisas de compras, ou algo assim, e, se desse a
impresso de estar envolvido num projeto desse tipo, no causaria
estranheza. E assim ele vagou, fingindo tomar notas, olhos atentos 
procura da biblioteca pblica. Lyra, enquanto isso, estava procurando um
lugar sossegado para consultar o aletmetro. Na sua Oxford haveria uma
dzia de lugares a menos de cinco minutos a p, mas essa Oxford era to
desconcertante, to diferente, com trechos de pungente familiaridade
vizinhos a trechos inteiramente disparatados. #91 Por que tinham pintado
aquelas linhas amarelas na rua? Que eram aqueles crculos brancos
pontilhando as caladas? (No seu mundo nunca se ouvira falar de goma de
mascar.) Que poderiam ser aquelas luzes vermelhas e verdes em cada
esquina? Era tudo muito mais difcil de decifrar do que o aletmetro.
Mas ali estavam os portes da Universidade St. John's, que ela e Roger
uma vez saltaram depois que escureceu para plantar fogos de artifcio
nos canteiros de flores; e aquela pedra no muro, na esquina da Rua Catte
-l estavam as iniciais SP que Simon Parslow tinha feito, as prprias!
Ela tinha visto Simon fazer aquilo! Algum neste mundo, com as mesmas
iniciais, parou ali e fez exatamente a mesma coisa. Talvez houvesse um
Simon Parslow neste mundo. Talvez houvesse uma Lyra! Aquela Oxford
diferia da dela tambm em outra coisa: a enorme quantidade de pessoas
enchendo todas as caladas, entrando e saindo de todos os prdios; havia
gente de todo tipo- mulheres vestidas como homens, africanos, at mesmo
um grupo de trtaros pacificamente seguindo seu lder, todos bem
vestidos, levando caixinhas pretas penduradas no pescoo. Ela os
contemplou a princpio com medo, porque eles no tinham daemons, e no
mundo dela seriam considerados avantesmas, ou coisa pior . Mas o mais
estranho era que pareciam inteiramente vivos. Aquelas criaturas
demonstravam vivacidade, exatamente como se fossem humanos, e Lyra teve
que admitir que provavelmente eram mesmo humanos, e que seus daemons
estavam dentro deles, como o de Will. Depois de vagar por uma hora
observando aquela falsa Oxford, ela sentiu fome e comprou uma barra de
chocolate #92 com sua nota de 20 libras. O vendedor olhou para ela com
estranheza, mas vinha das ndias e com certeza no entendia o sotaque
dela, embora ela tivesse pronunciado com clareza. Com o troco ela
comprou uma ma no Mercado Coberto, que era muito mais parecido com a
Oxford de verdade, e se encaminhou para o parque. Ali encontrou-se
diante de um prdio grandioso, um prdio do tipo Oxford de verdade, mas
que no existia no mundo dela, embora no fosse parecer deslocado l.
Ela sentou-se na grama do lado de fora para comer, e ficou contemplando
o prdio com olhar de aprovao. Descobriu que era um museu. As portas
estavam abertas, e l dentro ela encontrou animais empalhados,
esqueletos de fsseis e caixas de minerais, exatamente como o Museu
Geolgico Real que ela visitara com a Sra. Coulter na sua Londres. Atrs
do grande saguo de ferro e vidro, ficava a entrada para outra parte do
museu, e como ali parecia quase deserto, ela entrou e olhou em volta. O
aletmetro ainda era a coisa mais urgente em sua mente, mas naquele
segundo salo ela se viu rodeada de coisas que conhecia bem: trajes
rticos iguaizinhos ao dela, trens, objetos entalhados em presas de
lees-marinhos, arpes para a caa s focas, uma mistura de mil e um
trofus, relquias, objetos -mgicos, ferramentas e armas, no apenas do
Artico -ela percebeu -mas de todas as partes daquele mundo. Ora, que
coisa estranha! As peles de caribu eram exatamente iguais s delas, mas
tinham atado as tiras do tren de modo inteiramente errado! Mas ali
estava um fotograma mostrando alguns caadores samoiedes, a imagem exata
dos que tinham raptado Lyra para vend-la para Bolvangar. Veja s! So
os mesmos homens! E aquela corda tinha se esgarado exatamente no mesmo
lugar, que ela conhecia intimamente, #93 tendo passado vrias horas de
sofrimento amarrada naquele mesmo tren... O que eram esses mistrios?
Haveria, afinal, um nico mundo, que passava o tempo sonhando com outros
mundos? E ento ela encontrou uma coisa que lhe lembrou novamente o
aletmetro. Numa antiga estante de vidro com moldura de madeira pintada
de preto havia alguns crnios humanos, e alguns tinham buracos; alguns
na frente, outros do lado, outros no topo. O do centro tinha dois. Uma
caligrafia ornamentada, num carto, informava que aquele processo se
chamava "trepanao". O carto afirmava tambm que todos os orifcios
tinham sido feitos durante a vida das pessoas porque o tecido
cicatrizara em volta da borda. Um deles, no entanto, era diferente: o
orifcio tinha sido feito por uma flecha de ponta de bronze que ainda
estava l dentro, e a borda era aguada e irregular, de modo que era
bvio que aquele era outro caso. Era exatamente o que os trtaros do
Norte faziam. E o que Stanislaus Grumman tinha feito a si mesmo, segundo
os Catedrticos da Jordan que o conheceram. Lyra olhou em volta, no viu
ningum e ento pegou o aletmetro. Focalizou a mente no crnio central
e perguntou: a que tipo de pessoa esse crnio pertenceu, e por que ela
mandou fazer esses buracos? Enquanto estava concentrada,  luz
empoeirada que se filtrava pelo telhado de vidro e passava pelas
galerias superiores, ela no percebeu que estava sendo observada. Um
homem corpulento, de 60 e poucos anos, usando um terno de linho muito
bem cortado e segurando um chapu panam, estava parado na galeria
superior, junto ao parapeito de grade de ferro, olhando para ela. #94
Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trs, desnudando a testa
lisa, bronzeada, com pouqussimas rugas. Ele tinha os olhos grandes,
escuros e profundos, clios longos, e a cada minuto sua lngua pontuda,
de ponta escura, assomava no canto da boca e dardejava umidamente sobre
os lbios. O leno no bolso do palet, branco como neve, era perfumado
com algum perfume forte, como aquelas plantas de estufa to ricas que se
pode sen tir o cheiro da sua degenerescncia exalado pelas razes. Ele
estava observando Lyra havia alguns minutos. Tinha acompanhado da
galeria superior o percurso da menina no andar abaixo e, quando ela
parou junto  estante de crnios, ele ficou a observ-la atentamente,
estudando todos os detalhes: os cabelos despenteados, a equimose no
rosto, as roupas novas, o pescoo nu curvado sobre o aletmetro, as
pernas nuas. Ele tirou o leno do bolso e enxugou a testa, depois se
dirigiu para a escada. Lyra, absorta, estava aprendendo coisas
estranhas. Aqueles crnios eram inimaginavelmente velhos; os cartes na
estante diziam simplesmente "Idade do Bronze", mas o aletmetro, que
nunca mentia, disse que o homem a quem aquele crnio pertencera tinha
vivido 33.254 anos antes, e que tinha sido um feiticeiro, e que o
orifcio tinha sido feito para que os deuses entrassem em sua cabea. E
ento o aletmetro, na maneira casual com que s vezes respondia a uma
pergunta que Lyra no tinha formulado, acrescentou que havia muito mais
P em volta dos crnios trepanados do que daquele com a flecha. O que
aquilo poderia significar? Lyra saiu da tranqilidade forada que
compartilhava com o aletmetro e voltou para o momento presente, onde
constatou que j no estava sozinha: contemplando a estante seguinte
estava um homem #95 idoso de terno claro e cheiro bom. Ele lembrava-lhe
algum que ela no conseguiu identificar. Ele percebeu que ela o
observava e ergueu os olhos com um sorrIso. -Voc est olhando para os
crnios trepanados? Que coisas estranhas as pessoas fazem a si mesmas!
-Hum -fez ela, sem expresso. -Sabe que as pessoas ainda fazem isso? -?
-Os hippies, sabe, gente assim. Alis, voc  jovem demais para se
lembrar dos hippies. Dizem que  mais eficaz do que usar drogas. Lyra
tinha guardado o aletmetro na mochila, e estava pensando em como sair
dali; ainda no tinha feito a pergunta principal, e agora aquele velho
estava puxando assunto com ela. Ele parecia bonzinho, e certamente
cheirava bem. Ele chegou mais perto. Sua mo roou a dela quando ele se
inclinou para a estante. -No d para acreditar, no  mesmo? Nada de
anestesia, nem desinfetante. Provavelmente feito com ferramentas de
pedra. Eles devem ter sido dures, no concorda? Acho que nunca vi voc
por aqui antes. Venho sempre aqui. Qual  o seu nome? -Lizzie -ela
respondeu, muito naturalmente. -Lizzie. Oi, Lizzie, eu sou Charles. Voc
estuda em Oxford? Ela no sabia como responder. -No -disse finalmente.
-Est de visita? Bom, escolheu um lugar maravilhoso para visitar. Em que
tipo de coisa voc est especialmente interessada? #96 Aquele homem
deixava-a mais confusa do que qualquer outra pessoa que ela tivesse
conhecido durante muito tempo. Por um lado ele era bonzinho e simptico,
muito limpo e bem vestido, mas por outro lado Pantalaimon, dentro do
bolso dela, estava pedindo sua ateno e implorando que ela tomasse
cuidado, porque ele tambm estava quase recordando alguma coisa; e ela
sentia, vindo de algum lugar, no um cheiro, mas a idia de um cheiro, e
era cheiro de esterco, de putrefao. Isso lhe lembrou o palcio de
Iofur Raknison, onde o ar era perfumado mas o cho era coberto de
imundcie. -Em que estou interessada? Ah, em tudo, na verdade. Acabei de
ficar interessada nesses crnios; no sei como algum ia querer fazer
isso.  horrvel. -No, eu tambm no ia gostar, mas juro a voc que
isso acontece mesmo. Eu poderia levar voc para conhecer algum que fez
-ele ofereceu, com ar to simptico e prestativo que ela quase ficou
tentada a aceitar. Mas nesse instante ele dardejou a ponta escura da
lngua pelos lbios com a rapidez de uma serpente, e ela sacudiu a
cabea. -Preciso ir -disse. -Obrigada pelo oferecimento, mas no vou
poder. E tenho que ir agora porque vou me encontrar com uma pessoa. A
minha amiga -acrescentou. -Com quem estou morando. -Ah, claro -ele
respondeu em tom bondoso. -Bem, foi um prazer conversar com voc. At
logo, Lizzie. -At -fez ela. -Ah! S para garantir, eis meu nome e
endereo -ele disse, estendendo-lhe um cartozinho. -Para o caso de voc
querer saber mais sobre coisas como esta. -Obrigada -ela respondeu
inexpressivamente. #97 Guardou o carto no bolso traseiro da mochila,
antes de sair, e sentiu que ele a observava durante todo o percurso at
a porta. Uma vez fora do museu, ela entrou no parque, que conhecia como
um campo de crquete e outros jogos, e encontrou um lugar sossegado sob
algumas rvores, onde tentou novamente o aletmetro. Dessa vez perguntou
onde poderia achar um Catedrtico que soubesse do P. A resposta que
recebeu foi simples: mandava que ela fosse a um certo aposento no prdio
alto e quadrado atrs dela. Na verdade, a resposta foi to direta e veio
to abruptamente que Lyra teve certeza de que o aletmetro tinha mais
alguma coisa a dizer; ela agora estava comeando a sentir que ele tinha
diferentes estados de esprito, como uma pessoa, e a distinguir quando
ele queria lhe contar mais alguma coisa. E ele queria mesmo. O que disse
foi: Voc tem que se preocupar com o garoto. A sua tarefa  ajud-lo a
encontrar o pai. Concentre-se nisto. Ela pestanejou. Estava realmente
atnita. Will surgira do nada para ajud-la; certamente isso era bvio.
A idia de que ela havia ido at ali para ajud-lo deixou-a sem flego.
Mas o aletmetro ainda no terminara. O ponteiro estremeceu, e ela leu:
No minta para a pessoa que voc vai procurar. Ela embrulhou o
aletmetro no veludo e escondeu-o dentro da mochila. Depois ficou de p
e olhou em volta  procura do prdio onde o seu Catedrtico seria
encontrado, e encaminhou-se para l sentindo-se insegura, mas decidida.
Will encontrou a biblioteca com facilidade. A bibliotecria estava
perfeitamente preparada para acreditar que ele estava pesquisando para
um dever de geografia e ajudou-o a encontrar os exemplares do ndice do
Times para o ano do nascimento #98 dele, que foi quando o pai tinha
desaparecido. Will sentou-se para procurar. Sem dvida havia vrias
referncias a John Parry em relao a uma expedio arqueolgica. Cada
ms ficava num rolo de microfilme separado; ele colocou um por um no
projetor, localizou os artigos e leu-os com grande ateno. O primeiro
deles contava a partida de uma expedio para o Norte do Alasca. A
expedio era patrocinada pelo Instituto de Arqueologia da Universidade
de Oxford, e ia estudar uma regio onde esperavam encontrar evidncias
de habitao humana em outras eras. John Parry, um explorador
profissional que tinha pertencido  Marinha Real, guiava a expedio. O
segundo artigo era de seis semanas mais tarde. Relatava concisamente que
a expedio tinha chegado  Estao de Pesquisa Norte-Americana em
Noatak, no Alasca. O terceiro datava de dois meses depois do segundo.
Dizia que os sinais enviados pela Estao de Pesquisa no estavam
recebendo resposta e que se presumia que John Parry e os companheIrOS
estavam mortos. Depois disso houve uma curta srie de reportagens
descrevendo as expedies que tinham partido em vo  procura deles, os
vos de busca acima do Mar Bhering, a reao do InstItuto de
ArqueologIa, entrevIstas com parentes. Seu corao bateu forte, porque
havia um retrato da sua prpria me. Segurando um beb: ele. O reprter
tinha escrito um artigo padro -a esposa chorosa esperando angustiada
notcias do marido -que Will achou decepcionantemente carente de fatos
reais. Havia um breve pargrafo dizendo que John Parry fizera uma
carreira de sucesso na Marinha Real e tinha partido para especializar-se
em organizar expedies geogrficas e cientficas -e isso era tudo. #99
No ndice no havia outra meno, e Will sentia-se confuso ao
levantar-se do leitor de microfilmes. Devia haver mais informaes em
algum outro lugar; mas aonde ele poderia ir? E se levasse tempo demais
nessa busca, acabaria sendo descoberto... Devolveu os rolos de
microfilme e perguntou  bibliotecria: -Sabe o endereo do Instituto de
Arqueologia, por favor? -Posso descobrir... De que escola voc ? -St.
Peter's -Will respondeu. -Isto no fica em Oxford, fica? -No,  em
Hampshire. A minha classe est fazendo uma espcie de pesquisa de campo.
Uma espcie de desenvolvimento dos instrumentos de pesquisa ambiental...
-Ah, entendo. O que voc queria mesmo... Arqueologia... Pronto, aqui
est. Will copiou o endereo e o telefone; como era seguro admitir que
no conhecia Oxford, ele perguntou onde encontrar esse lugar. No era
longe. Ele agradeceu  funcionria e partIu. Dentro do prdio, Lyra
encontrou uma grande escrivaninha ao p de uma escadaria, e atrs dela
um porteiro. -Aonde voc vai? -ele quis saber. Era como estar em casa de
novo. Ela sentiu que Pan, dentro do seu bolso, estava se divertindo.
-Tenho um recado para uma pessoa no segundo andar -ela disse. -Para
quem? -O Dr. Lister. -O Dr. Lister fica no terceiro andar. Se tem alguma
coisa para ele, pode deixar aqui, que eu aviso a ele. #100 -Ah, mas 
uma coisa de que ele precisa agora mesmo. Acabou de mandar buscar .No 
um objeto, na verdade,  uma coisa que preciso contar a ele. Ele a
estudou atentamente, mas no era preo para a docilidade humilde que
Lyra conseguia afetar quando queria; e finalmente assentiu e voltou ao
seu jornal. O aletmetro no contava a Lyra o nome das pessoas,  claro.
Ela lera o nome do Dr. Lister num escaninho na parede atrs do porteiro,
pois  mais fcil conseguir entrar quando a gente finge que conhece
algum. De certo modo Lyra conhecia o mundo de Will melhor que ele. No
segundo andar ela encontrou um corredor comprido onde havia uma porta
aberta que dava para um auditrio deserto, e outra dando para um
aposento menor, onde dois Catedrticos discutiam algo junto a um
quadro-negro. Essa sala e as paredes daquele corredor eram vazias e sem
adornos, de um modo que Lyra associava  pobreza, no  erudio e ao
esplendor de Oxford; no entanto, as paredes de tijolos eram bem
pintadas, e as portas eram de madeira pesada e os corrimes de ao
polido, de modo que eram caros. Essa era apenas mais uma coisa estranha
daquele mundo. Ela logo encontrou a porta mencionada pelo aletmetro. O
cartaz preso a ela dizia: "Unidade de Pesquisa de Matria Escura", e sob
ela algum rabiscara Descanse em Paz. Outra mo acrescentara a lpis:
"Diretor: Lzaro". Lyra no entendeu nada daquilo. Bateu  porta e uma
voz feminina respondeu: -Entre! Era uma sala pequena, atulhada de pilhas
instveis de livros e papis, e os quadros-negros nas paredes estavam
cobertos de algarismos e equaes. Preso nas costas da porta #101 aberta
Lyra entrevia outro aposento, onde havia uma complicada mquina ambrica
desligada. Lyra, por seu lado, ficou um pouco surpresa ao constatar que
o Catedrtico que procurava era mulher, mas o aletmetro no tinha
mencionado um homem, e aquele era um mundo estranho, afinal. A mulher
estava sentada diante de um mecanismo que mostrava nmeros e formas numa
pequena tela de vidro diante da qual todas as letras do alfabeto estavam
dispostas em bloquinhos numa bandeja de marfim. A Catedrtica tocou num
deles e a tela escureceu. -Quem  voc? -perguntou. Lyra fechou a porta
atrs de si. Pensando no que o aletmetro lhe dissera, ela tentou no
fazer o que normalmente faria, e falou a verdade. -Lyra da Lngua Mgica
-respondeu. -Qual  o seu nome? A mulher pestanejou. Tinha seus 30 e
tantos anos, Lyra imaginava, talvez um pouco mais velha que a Sra.
Coulter, com cabelos negros curtos e faces vermelhas. Usava um jaleco
branco aberto sobre uma camisa verde e aquelas calas de lona azul que
tanta gente usava neste mundo. Diante da pergunta de Lyra, a mulher
passou a mo pelos cabelos e disse: -Bem, voc  a segunda coisa
inesperada que me acontece hoje. Sou a Doutora Mary Malone. O que  que
voc quer? -Quero que me fale do P -disse Lyra, depois de olhar em
volta para ver se estavam sozinhas. -Sei que a senhora sabe sobre ele.
Posso provar. A senhora tem que nos contar. -P? De que  que voc est
falando? #102 -Pode ser que a senhora no chame assim. So partculas
elementares. No meu mundo os Catedrticos chamam de Partculas de
Rusakov, mas normalmente chamam de P. Elas no aparecem facilmente, mas
vm do espao e se fixam nas pessoas. No tanto nas crianas. Mais nos
adultos. E uma coisa que s descobri hoje: eu estava no museu no fim
desta rua e havia uns crnios com buracos, como os trtaros fazem, e
havia muito mais P em volta deles do que em volta de um que no tinha o
mesmo tipo de buraco. Quando foi a Idade do Bronze? A mulher encarava-a
de olhos arregalados. -A Idade do Bronze? Meu Deus, no sei. Talvez h
uns 5 mil anos -disse. -Ah, bom, ento eles erraram quando escreveram
aquilo. Aquele crnio com os dois buracos tem 33 mil anos de idade. Ela
ento silenciou, porque a Dra. Malone parecia prestes a desmaiar. A cor
das faces tinha desaparecido completamente; ela levou uma das mos ao
peito enquanto com a outra agarrava-se ao brao da poltrona, e tinha o
queixo cado. Lyra, firme e sem saber o que pensar, ficou esperando que
ela se recuperasse. -Quem  voc? -a mulher perguntou finalmente. -Lyra
da Lngua... -No, de onde voc vem? O que voc ? Como  que sabe
dessas coisas? Lyra suspirou de cansao; tinha se esquecido de como os
Catedrticos so complicados. Era difcil contar-lhes a verdade quando
eles entenderiam muito mais facilmente uma mentira. -Eu venho de outro
mundo -comeou a garota. - E nesse mundo existe uma Oxford como esta
aqui, s que diferente, e foi de l que eu vim. E... #103 -Espere,
espere, espere. Voc vem de onde? -De outro lugar -disse Lyra, com mais
cuidado. - No sou daqui. -Ah, de outro lugar- repetiu a mulher. -Estou
entendendo. Quer dizer, acho que estou. -E tenho que descobrir o que 
esse P -Lyra explicou. -Porque as pessoas da Igreja no meu mundo, sabe,
elas tm medo do P porque acham que  o pecado original. Ento  muito
importante. E o meu pai... No! -exclamou com veemncia, chegando a
bater o p no cho. -No era isso que eu ia dizer. Estou fazendo tudo
errado! A Dra. Malone olhou para a expresso de desespero da menina, os
punhos cerrados, os machucados na face e na perna, e disse: -Meu Deus,
menina, acalme-se e... Parou de falar e esfregou os olhos, que estavam
vermelhos de cansao. -Mas por que estou escutando tudo isso? Acho que
estou ficando doida. O caso  que este  o nico lugar no mundo onde
voc conseguiria a resposta que deseja, e esto prestes a fechar isto
aqui... O que voc est mencionando, o seu P, parece uma coisa que
estamos estudando j h algum tempo, e o que voc diz sobre os crnios
no museu me deu um susto, porque... Ah, no,  demais. Estou cansada
demais. Quero escutar o que voc tem a dizer, acredite, mas no agora,
por favor. Eu j lhe contei que vo fechar isso aqui? Tenho uma semana
para montar uma proposta para o comit de financiamento, mas no temos a
menor esperana... Ela bocejou longamente. -Qual foi a outra coisa
inesperada que aconteceu hoje? -Lyra perguntou. #104 -Ah, sim, uma
pessoa que eu esperava que nos apoiasse retirou seu apoio. Afinal,
talvez isso no fosse to inesperado assim. Ela tornou a bocejar. -Vou
fazer um caf -disse. -Seno vou dormir em p. Quer tambm? Encheu de
gua uma chaleira eltrica e, enquanto ela colocava caf solvel em duas
xcaras, Lyra estudava o desenho chins nas costas da porta. -O que 
aquilo? -quis saber. - chins. Os smbolos do I Ching. Sabe o que 
isso? Vocs tm I Ching no seu mundo? Lyra olhou para ela de olhos
apertados, sem saber se a outra estava sendo sarcstica. Respondeu:
-Algumas coisas so iguais e outras so diferentes, s isso. No sei
tudo sobre o meu mundo. Talvez eles tenham essa coisa Ching l tambm.
-Desculpe -disse a Dra. Malone. -, pode ser que tenham. -O que 
matria escura? -Lyra perguntou. - o que diz no cartaz, no ? A Dra.
Malone tornou a se sentar e com o p puxou outra cadeira para Lyra.
-Matria escura  o que a minha equipe de pesquisa est procurando.
Ningum sabe o que . Existem mais coisas no universo do que ns podemos
ver, o caso  esse. Vemos as estrelas e as galxias e as coisas que
brilham, mas para que tudo isso fique coeso e no se espalhe, precisa
haver mais outra coisa. Para fazer a gravidade funcionar, entende? Mas
ningum consegue descobrir essa coisa. De modo que existem muitos
projetos de pesquisa tentando descobrir do que se trata, e o nosso  um
deles. #105 Lyra prestava a maior ateno. Finalmente a mulher estava
falando srio. -E o que a senhora pensa que ? -perguntou. -Bem, o que
ns pensamos... -comeou a Dra. Malone, mas a gua ferveu e ela se
levantou para fazer o caf. Continuou: -Achamos que  alguma espcie de
partcula elementar. Algo completamente diferente de qualquer coisa que
foi descoberta at agora. Mas  muito difcil de detectar. Onde  que
voc estuda? Est estudando fsica? Lyra sentiu Pantalaimon
mordiscar-lhe a mo, advertindo-a para no ficar zangada. Tudo bem que o
aletmetro lhe mandasse falar a verdade, mas ela sabia o que aconteceria
se contasse a verdade inteira. Tinha que pisar com cuidado e evitar as
mentiras diretas. -Sim, sei um pouquinho. Mas no sobre a matria
escura. -Bem, estamos tentando detectar essa coisa quase imperceptvel
no meio do rudo de todas as outras partculas em coliso. Normalmente
colocam detectores a centenas de metros abaixo do solo, mas o que ns
fizemos foi criar um campo eletromagntico em volta do detector para
filtrar as coisas que no queremos e deixar passar as que queremos.
Ento amplificamos o sinal e o passamos pelo computador . Ela estendeu
uma xcara de caf. No havia leite nem acar, mas ela encontrou alguns
biscoitos de gengibre numa gaveta, e Lyra comeu um com avidez. A Dra.
Malone continuou: -E encontramos uma partcula que combina. Achamos que
combina. Mas  to estranho... Porque estou lhe contando isso? No
devia. No est publicado. No tem referncias, no est sequer escrito.
Estou meio doida, hoje. Bem... -continuou, #106 e bocejou durante tanto
tempo que Lyra pensou que ela no iria mais parar. -As nossas partculas
so figurinhas esquisitas, sem dvida. Ns as chamamos de partculas de
sombra. Sombras. Sabe o que quase me derrubou da cadeira? Quando voc
mencionou os crnios no museu. Porque um membro da nossa equipe,
entende,  arquelogo amador. E ele um dia descobriu uma coisa em que
no conseguimos acreditar. Mas no podamos ignorar, porque combinava
com a coisa mais louca de todas a respeito dessas Sombras. Sabe o que ?
Elas tm conscincia. Isso mesmo. As Sombras so partculas de
conscincia. J ouviu alguma coisa to idiota? No  de estranhar que
no queIram renovar o nosso financiamento. Ela bebericou seu caf. Lyra
bebia cada palavra como se fosse uma florzinha sedenta. -Sim, elas sabem
que estamos aqui -continuou a Dra. Malone. -Elas respondem. E a vem
aparte louca: voc s as enxerga se quiser. Se colocar a mente em certo
estado. Tem que estar confiante e relaxada ao mesmo tempo. Tem que ser
capaz de... Onde est aquela citao? Ela remexeu nos papis sobre a
escrivaninha e encontrou um pedao de papel no qual algum escrevera com
tinta verde. Ela leu: -"... capaz de passar por incertezas, mistrios,
dvidas, sem qualquer gesto impaciente de procurar o fato e a razo...".
Tem que estar nesse estado de esprito. Alis, isso  do poeta Keats.
Encontrei outro dia. A pessoa fica no estado de esprito correto e ento
olha para a Caverna... -Caverna? -estranhou Lyra. -Ah, desculpe, o
computador. Ns o chamamos de Caverna. Sombras nas paredes da Caverna,
entende, de Plato. #107 Coisa do nosso arquelogo, tambm.  um
intelectual. Mas ele foi a Genebra para candidatar-se a um emprego, e
acho que no voltar... Onde  que eu estava? Certo, a Caverna, isso
mesmo. U ma vez ligada ao computador, se a pessoa pensar , as Sombras
reagem. No h a menor dvida quanto a isso. As Sombras acorrem para o
seu pensamento como pssaros... -E os crnios? -J vou chegar a eles.
Oliver Payne, o meu colega, um dia estava passando tempo testando coisas
com a Caverna. E foi muito estranho. No fazia sentido, do jeito que um
fsico esperaria. Ele pegou um pedao de marfim, um pedao qualquer, e
ele no reagiu, no havia Sombras nele; mas uma pea de jogo de xadrez
feita de marfim reagiu. Um pedao de pau no reagiu, mas uma rgua de
madeira reagiu. E uma estatueta de madeira entalhada tinha mais... Estou
falando de partculas elementares, ora bolas! Como pedacinhos minsculos
de quase nada. Elas sabiam o que eram aqueles objetos. Qualquer coisa
associada  manufatura humana e ao pensamento humano era rodeada de
Sombras... E ento Oliver, o Dr. Payn, conseguiu alguns crnios de
fsseis com um amigo no museu e testou-os para ver at onde no passado o
efeito alcanava. Encontrou um limite em uns 30 a 40 mil anos atrs.
Antes disso no havia Sombras; depois disso, muitas. E foi mais ou menos
ento, parece, que surgiram os primeiros seres humanos modernos. Os
nossos ancestrais remotos, entende, gente no muito diferente de ns, na
verdade... - P -Lyra afirmou com veemncia. - isso o que . -Mas eu
no posso dizer esse tipo de coisa num pedido de financiamento, se
quiser ser levada a srio. No faz sentido. No pode existir. 
impossvel, e se no for impossvel  #108 irrelevante, e se no for
qualquer dessas coisas, ento  embaraoso. -Quero ver a Caverna -disse
Lyra. Ela ficou de p. A Dra. Malone passava as mos pelos cabelos e
pestanejava com fora para clarear os olhos cansados. -Bem, no vejo por
que no -disse. -Amanh pode ser que a gente no tenha mais um
computador. Venha comigo. Ela levou Lyra para a outra sala. Era maior, e
estava repleta de equipamento eletrnico. -Ali -disse, apontando para
uma tela que brilhava em cinza. - ali que fica o detector, atrs de
todos esses fios. Para ver as Sombras voc tem que estar ligada a alguns
eletrodos. Como os que a gente usa para medir as ondas cerebrais. -Quero
experimentar -Lyra pediu. -Voc no vai conseguir enxergar. De qualquer
maneira, estou cansada.  complicado demais. -Por favor! Sei o que estou
fazendo! -Ah, sabe? Eu gostaria de saber. No, pelo amor de Deus!  uma
experincia difcil e cara. Voc no pode aparecer assim e se
intrometer, como se isto fosse um joguinho eletrnico... Alis, de onde
 que voc vem? No deveria estar na escola? Como foi que chegou at
aqui? Lyra estava tremendo. Diga a verdade, pensou. -Fui guiada por isto
aqui -disse, pegando o aletmetro. -Que coisa  esta? Uma bssola? Lyra
deixou que ela o pegasse. A Dra. Malone arregalou os olhos ao sentir o
peso dele. #109 -Meu Deus,  feito de ouro. Mas onde... -Acho que ele
faz o que a sua Caverna faz.  o que eu quero descobrir. Se eu descobrir
a resposta a uma pergunta, alguma coisa que a senhora saiba a resposta e
eu no saiba, ento posso experimentar a sua Caverna? -continuou,
desesperada. -Como ? Agora vamos ler a sorte? Que coisa  esta? -Por
favor! Faa-me uma pergunta, s isso! A Dra. Malone deu de ombros. -Ora,
est bem. Diga-me... Diga-me o que eu fazia antes. Ansiosa, Lyra pegou o
aletmetro e girou os ponteiros. Sentia a mente procurar as figuras
certas antes mesmo que os ponteiros estivessem apontando para elas, e
sentia o ponteiro maior estremecendo, pronto para reagir. Quando ele
comeou a girar em volta do mostrador, Lyra seguiu-o com os olhos,
observando, calculando, acompanhando as longas cadeias de significado
at o nvel onde estava a verdade. Ento pestanejou, suspirou e saiu do
transe temporrio. -A senhora era freira -disse. -Eu nunca teria
adivinhado. As freiras costumam ficar para sempre no convento. Mas a
senhora parou de acreditar nas coisas da Igreja e eles deixaram que
fosse embora. No  como no meu mundo, nem um pouco. A Dra. Malone
deixou-se cair na nica cadeira, os olhos fixos em Lyra. A menina disse:
-Isto  verdade, no ? -, sim. E voc descobriu nesse... -No meu
aletmetro. Ele funciona pelo P, eu acho. Vim at aqui para saber mais
sobre o P, e ele me disse para vir procurar a senhora. Ento acho que a
sua matria escura #110 deve ser a mesma coisa. Agora posso experimentar
a sua Caverna? A Dra. Malone sacudiu a cabea, mas no para recusar o
pedido -apenas por espanto. Estendeu as mos espalmadas. -Muito bem.
Acho que estou sonhando. Sendo assim, no faz mal irmos at o fim. Ela
girou a cadeira e apertou vrios botes, provocando um zumbido eltrico
e o rudo do ventilador do computador; e ouvindo esse som, Lyra soltou
uma exclamao de espanto: o som naquela sala era o mesmo que ela ouvira
naquela horrvel sala brilhante em Bolvangar, onde a guilhotina de prata
quase a separara de seu Pantalaimon. Sentiu-o estremecer em seu bolso e
acariciou-o para acalm-lo. Mas a Dra. Malone no percebeu; estava
entretida demais ajustando botes e apertando as letras em outra
daquelas bandejas de marfim.  medida que ela fazia isso, a tela mudava
de cor e algumas letras e nmeros apareceram. -Agora voc se senta
-disse, cedendo a cadeira a Lyra. Depois abriu um vidro e explicou:
-Preciso colocar um gel na sua pele para ajudar o contato eltrico. Sai
facilmente com gua. Agora fique imvel. A Dra. Malone pegou seis fios,
cada um deles terminando numa ponta achatada, e prendeu-os a vrios
lugares na cabea de Lyra. A menina estava decidida a ficar imvel, mas
tinha a respirao acelerada e seu corao batia com fora. -Pronto,
voc est ligada -disse a Dra. Malone. - A sala est cheia de Sombras.
Alis, o universo est cheio de Sombras. Mas esta  a nica maneira de
poder v-las: quando agente esvazia a mente e olha para a tela. L vai.
Lyra olhou. A tela estava escura e vazia. Ela via seu prprio reflexo,
mas s. A ttulo de experincia, ela fingiu que estava #111 lendo o
aletmetro, e imaginou-se perguntando: O que  que esta mulher sabe
sobre o P? Que perguntas ela est fazendo? Moveu mentalmente os
ponteiros do aletmetro em volta do mostrador, e a tela comeou a
piscar. Atnita, ela perdeu a concentrao e a tela escureceu. No
percebeu que a Dra. Malone se endireitava, curiosa; ela chegou para a
frente e comeou de novo a se concentrar . Dessa vez a resposta veio
instantaneamente. Um jorro de luzes danantes, parecendo a cortina
tremeluzente da aurora boreal, atravessou a tela. Elas formavam desenhos
que se mantinham por alguns segundos, antes de se desmancharem e se
juntarem em formas diferentes, ou cores diferentes; faziam arcos e
volteios, espalhavam-se, irrompiam em chuveiros de luz que de repente
mudavam de direo como um bando de pssaros mudando de rumo no cu. E
Lyra sentia a mesma sensao de estar  beira da compreenso que se
lembrava de ter sentido quando estava comeando a ler o aletmetro. Fez
outra pergunta: Isto  o P? A mesma coisa que est fazendo estes
desenhos move o ponteiro do aletmetro? A resposta veio em mais arcos de
luz. Ela imaginou que isso queria dizer sim. Ento outra idia lhe
ocorreu, e ela virou-se para falar com a Dra. Malone; esta estava
boquiaberta, a mo na cabea. -O que... -comeou. A tela escureceu. A
Dra. Malone pestanejou. -O que foi? -Lyra completou a pergunta. -Ah,
voc conseguiu a maior amostra que j vi, s isso -disse a Dra. Malone.
-O que  que voc estava fazendo? Em que estava pensando? -Estava
pensando que a senhora podia conseguir fazer isto ficar mais claro
-disse Lyra. #112 -Mais claro! Nunca foi to claro quanto agora! -Mas o
que significa? A senhora consegue ler? -Bem, no se l como se l uma
carta, no funciona assim. O que est acontecendo  que as Sombras esto
reagindo  ateno que voc dedica a elas. Isso por si s j  bastante
revolucionrio:   nossa conscincia que elas reagem, entende? -No, o
que eu quero dizer  o seguinte: essas cores e formas a dentro, elas
poderiam fazer outras coisas, essas Sombras. Poderiam fazer a forma que
a senhora quisesse. Poderiam formar figuras, se a senhora quisesse.
Olhe. Ela se virou e tornou a focalizar a mente, mas dessa vez fingiu
que a tela era o aletmetro, com todos os 36 smbolos dispostos ao longo
da borda. Conhecia-os to bem que agora seus dedos automaticamente
moviam-se no colo como se ela movimentasse os ponteiros imaginrios para
apontar para a vela (para compreenso), o alfa e mega (para linguagem)
e a formiga (para trabalho), e fez a pergunta: O que aquelas pessoas
precisavam fazer para compreender a linguagem das Sombras? A tela reagiu
com a mesma rapidez do pensamento, e da confuso de linhas e clares
formou-se uma srie de figuras com perfeita nitidez: bssola, alfa e
mega outra vez, raio, anjo. Cada figura surgia um nmero diferente de
vezes, e depois vieram outras trs: camelo, jardim, lua. Lyra via
claramente o significado delas, e saiu do transe para explicar. Dessa
vez, quando se voltou, viu que a Dra. Malone estava recostada na
cadeira, plida, agarrando aborda da mesa. -Ele est falando a minha
linguagem, entende, a linguagem das figuras. Como o aletmetro. Mas o
que ele diz  que poderia usar a linguagem comum tambm, palavras, se a
senhora o preparasse para isso. Podia fazer com que ele pusesse #113
palavras na tela. Mas ia precisar de muito raciocnio com os nmeros,
isso era a bssola, entende, e o raio significa energia ambrica, quer
dizer, energia eltrica, mais disso. E o anjo,  sobre as mensagens. H
coisas que ele quer dizer. Mas quando foi para o segundo pedao... Era a
sia, quase o Extremo Oriente, mas no tanto. Sei l que pas seria. A
China, talvez...  um modo que eles tm l de falar com o P, quer
dizer, com as Sombras, a mesma coisa que a senhora tem aqui e eu tenho
com... Eu tenho com figuras, s que eles usam pauzinhos. Acho que ele
estava falando daquela figura na porta, mas no entendi direito. No
princpio, quando vi aquilo, achei que era importante, mas no sabia por
qu. Ento deve haver muitas maneiras de falar com as Sombras. A Dra.
Malone estava sem flego. -O I Ching- disse. -Ele  chins, sim. Uma
espcie de adivinhao. E eles usam pauzinhos. Aquele cartaz s est ali
para enfeitar -disse, como se quisesse assegurar a Lyra que ela na
verdade no acreditava em I Ching. -Voc est me dizendo que quando as
pessoas consultam o I Ching elas esto entrando em contato com as
partculas de Sombra? Com a matria escura? - -Lyra respondeu. -Existem
muitas maneiras, como eu j disse. Eu no sabia disso. Pensei que s
havia uma. -Aquelas figuras na tela... -comeou a Dra. Malone. Lyra
sentiu um lampejo de pensamento no fundo da mente, e voltou-se para a
tela. Mal tinha comeado a formular uma pergunta quando mais figuras
apareceram, passando to depressa que a Dra. Malone mal conseguia
acompanh-las; mas Lyra sabia o que elas estavam dizendo, e virou-se
para ela. -Diz que a senhora tambm  importante -revelou  cientista.
-Diz que a senhora tem uma coisa importante para fazer. Sei l o que ,
mas ele no diria se no fosse verdade. #114 Ento a senhora
provavelmente deveria fazer ele usar palavras, para poder entender o que
ele diz. A Dra. Malone ficou em silncio por um instante, depois
perguntou: -Muito bem. De onde voc veio? Lyra fez uma careta. Sabia que
a Dra. Malone, que at agora tinha agido influenciada pela exausto e
pelo desespero, normalmente jamais teria mostrado o seu trabalho para
uma criana desconhecida que apareceu do nada, e estava comeando a se
arrepender. Mas Lyra tinha que dizer a verdade. -Venho de outro mundo
-disse. - verdade. Atravessei para este aqui. Eu estava... tive que
fugir, porque pessoas no meu mundo estavam me caando, para me matar . E
o aletmetro vem... do mesmo lugar. Foi o Mestre da Universidade Jordan
quem me deu. Na minha Oxford existe uma Universidade Jordan, mas aqui
no. Eu procurei. E aprendi a ler o aletmetro sozinha. Consigo fazer a
minha mente ficar vazia, e ento simplesmente vejo o que elas
significam. Conforme a senhora falou sobre... dvidas e mistrios e
tudo. Ento, quando olhei para a Caverna, fiz a mesma coisa, e funciona
do mesmo jeito, ento o meu P e as suas Sombras so a mesma coisa,
tambm. Ento... Agora a Dra. Malone estava inteiramente desperta. Lyra
pegou o aletmetro e embrulhou-o no veludo, como uma me agasalhando o
filho, antes de guard-lo na mochila. -Quer dizer, a senhora pode fazer
esta tela falar com palavras, se quiser. Ento poderia falar com as
Sombras como eu falo com o aletmetro. Mas o que eu quero saber : por
que as pessoas no meu mundo odeiam ele? O P, quer dizer, as Sombras.
Matria escura. Querem destruir ele. Acham que  mau. Ento o que 
isso, as Sombras?  bom ou ruim? #115 A Dra. Malone esfregou o rosto,
deixando as faces ainda mais vermelhas. - tudo to constrangedor...
-disse. -Sabe como  embaraoso falar em Bem e Mal num laboratrio
cientfico? Tem idia disso? Uma das razes de me tornar cientista foi
para no ter que pensar nesse tipo de coisa. -Mas a senhora tem que
pensar nisso -disse Lyra em tom severo. -No pode estudar as Sombras, o
P, seja l o que for, sem pensar nesse tipo de coisa, o Bem, o Mal,
coisas assim. E ele disse que a senhora tem que fazer isso, lembre-se.
No pode recusar. Quando  que vo fechar isto aqui? -O comit de
financiamento vai decidir no final da semana... Por que. -Porque ento a
senhora tem esta noite -disse Lyra. - Poderia ajeitar esta mquina para
colocar palavras na tela em vez de figuras, como eu fiz. Ia ser fcil
fazer isso. Ento a senhora poderia mostrar para eles e eles teriam que
lhe dar o dinheiro para continuar. E a senhora poderia descobrir tudo
sobre o P, as Sombras, e me contar. Sabe, o aletmetro no me diz tudo
que preciso saber -continuou, com certo desdm, como uma duquesa
descrevendo uma criada insatisfatria. -Mas a senhora poderia descobrir
para mim. Ou ento eu provavelmente conseguiria com esse tal Ching, com
os pauzinhos. Mas  mais fcil trabalhar com figuras. Pelo menos, eu
acho. Vou tirar isto agora -acrescentou, retirando os eletrodos da
cabea. A Dra. Malone deu-lhe um leno de papel para limpar o gel, e
guardou os fios. -Ento j vai embora? -perguntou. -Bem, voc me
proporcionou momentos estranhos, sem dvida. -Vai fazer ele usar
palavras? -Lyra perguntou, pegando a mochila. #116 -Acho que  to
intil quanto completar o pedido de verba- suspirou a Dra. Malone. -No,
escute, quero que volte aqui amanh. Voc vai poder? Mais ou menos a
esta hora? Quero que voc demonstre para outra pessoa. Lyra franziu a
testa. Seria uma armadilha? -Bom, est certo -concordou. -Mas no se
esquea que eu preciso saber umas coisas. -Sim,  claro. Voc vir?
-Sim. Se digo que venho, venho mesmo. Acho que posso ajudar a senhora. E
partiu. O porteiro ergueu os olhos e logo voltou ao seu jornal. -A
escavao de Nuniatak? -disse o arquelogo, girando a cadeira. -Voc  a
segunda pessoa em um ms que quer saber sobre isso. -Quem foi a outra?
-Will perguntou, imediatamente em guarda. -Acho que ele era jornalista,
no tenho certeza. -Por que ele queria saber sobre isso? -Tinha ligao
com um dos homens que desapareceram naquela viagem. Foi no auge da
Guerra Fria que a expedio desapareceu. Guerra nas Estrelas. Voc
provavelmente  jovem demais para se lembrar. Os americanos e os russos
estavam construindo enormes instalaes de radar em todo o Artico...
Mas, afinal, em que posso ajudar? -Bem, na verdade estou s tentando
saber coisas sobre aquela expedio -disse Will, tentando ficar calmo.
- para um trabalho da escola sobre o homem pr-histrico. Li sobre essa
expedio que desapareceu, e fiquei curioso. -Bem, voc no  o nico.
Na poca houve grande repercusso. Eu pesquisei para o jornalista.
Tratava-se de uma #117 investigao preliminar, no exatamente
escavaes. No se pode escavar at saber se vale a pena, de modo que
aquele grupo foi examinar alguns stios para fazer um relatrio. Era uma
meia dzia de sujeitos. As vezes, nesse tipo de expedio, juntam-se
pessoas de outros campos, sabe, gelogos ou coisa assim, para rachar o
custo. Eles estudam as coisas deles, e ns, as nossas. Nesse caso havia
um fsico no grupo. Acho que ele estava estudando partculas
atmosfricas. A aurora boreal, entende, as luzes do Norte. Parece que
ele tinha bales com radiotransmissores. O homem fez uma pausa, depois
continuou: -E havia outro homem com eles. Um ex-militar da Marinha Real,
uma espcie de explorador profissional. Iam entrar num territrio
bastante selvagem, e os ursos polares so sempre um perigo no rtico. Os
arquelogos podem lidar com algumas coisas, mas no somos treinados para
atirar, e  muito til ter algum que saiba atirar, montar um
acampamento, que entenda de navegao e de todo tipo de necessidades de
sobrevivncia. Mas todos sumiram. Ficaram em contato pelo rdio com uma
estao de pesquisa local, mas um dia no responderam ao sinal e nunca
mais houve notcias deles. Tinha havido uma tempestade de neve, mas isso
era comum. A expedio de busca encontrou o ltimo acampamento deles
mais ou menos intacto, embora os ursos tivessem devorado o estoque de
comida, mas no havia qualquer sinal de gente. Infelizmente  tudo que
tenho para lhe contar. -Sim... -fez Will. -Muito obrigado. -Fez meno
de sair, mas parou  porta. -Hum... Aquele jornalista, o senhor disse
que ele estava interessado num dos homens. Qual deles era? -O
explorador. Um homem chamado Parry . -Como era ele? Quer dizer, o
jornalista? -Por que voc quer saber? #118 -Porque... -Will no
conseguiu pensar numa razo plausvel. No deveria ter perguntado.
-Perguntei  toa. S curiosidade. -Pelo que me lembro, era um homem
grande e louro. De cabelos muito claros. -Certo, obrigado- repetiu Will,
e voltou-se para sair . O homem observou-o partir sem nada dizer, a
testa franzida. Will viu-o estender a mo para o telefone e saiu
depressa do prdio. Will percebeu que estava tremendo. O jornalista era
um dos homens que tinham ido  sua casa: um homem alto, de cabelos to
louros que parecia no ter sobrancelhas ou clios. No era aquele que
Will tinha derrubado na escada: era o que tinha aparecido  porta da
sala enquanto Will descia correndo e saltava por cima do cadver. Mas
no era jornalista. Havia um grande museu ali perto. Will entrou,
segurando a prancheta como se estivesse fazendo um trabalho escolar, e
sentou-se numa galeria cheia de quadros. Tremia muito e sentia nuseas,
oprimido pelo conhecimento de ter matado algum, de ser um assassino.
At agora tinha mantido o controle, mas estava ficando difcil. Ele
tinha tirado a vida de um ser humano. Ficou meia hora sentado ali, e foi
a meia hora mais difcil da sua vida. As pessoas entravam e saam,
contemplavam os quadros, falando em voz baixa, ignorando-o; um
funcionrio do museu ficou parado  porta durante alguns minutos, mos
atrs das costas, e depois afastou-se devagar; e Will, s voltas com o
horror daquilo que tinha feito, no movia um msculo. Gradualmente foi
ficando mais calmo. Afinal, tinha agido para defender a me. Eles a
estavam assustando; nas condies #119 dela, eles a estavam perseguindo.
Ele tinha o direito de defender o seu lar. O pai iria querer que ele
agisse assim. Tinha feito aquilo porque era a coisa certa a fazer. Fez
para impedir que roubassem o escrnio de couro verde. Fez para que
pudesse encontrar o pai; e no tinha o direito de fazer isso? Todas as
suas brincadeiras infantis lhe voltavam agora: ele e o pai, um salvando
o outro de avalanches ou combatendo piratas. Bom, agora era de verdade.
"Vou achar voc", prometeu em pensamento. " s me ajudar, e eu vou
achar voc, e vamos tomar conta da mame, e tudo vai ficar bem..."
Afinal, ele agora tinha um lugar onde se esconder, um lugar to seguro
que ningum jamais o encontraria l. E os papis dentro do escrnio (que
ele ainda no tivera tempo de ler) tambm estavam em segurana debaixo
do colcho em Citgazze. Finalmente percebeu que todas as pessoas
tomavam a mesma direo. Estavam saindo, pois o funcionrio avisava que
o museu fecharia dali a 10 minutos. Will reuniu foras e partiu.
Conseguiu encontrar a rua onde ficava o escritrio do advogado e pensou
em ir v-lo, apesar do que tinha dito antes. O homem parecia amigvel...
Mas ao decidir atravessar a rua e entrar, ele estacou de repente. O
homem alto de sobrancelhas claras estava saindo de um carro. Will
virou-se imediatamente e ficou olhando de modo casual para a vitrine de
uma joalheria. Viu o reflexo do homem olhar em volta, ajeitar o n da
gravata e entrar no escritrio do advogado. Assim que ele entrou, Will
afastou-se, o corao novamente disparado: nenhum lugar era seguro.
Tomou a direo da biblioteca da universidade para esperar por Lyra.
#120 5 PAPEL DE CARTA VIA AREA -Will! -Lyra chamou. Ela falou em tom
baixo, mas mesmo assim ele levou um susto: a menina estava sentada no
banco ao lado dele, e ele nem percebera! -De onde voc surgiu?
-Encontrei o meu Catedrtico! Na verdade,  uma Catedrtica. Ela se
chama Dra. Malone. E tem uma mquina que consegue enxergar o P e ela
vai fazer a mquina falar... -Nem vi voc chegar! -Porque no estava
prestando ateno -ela explicou. -Devia estar pensando em outra coisa.
Ainda bem que eu vi voc. Escute,  fcil enganar as pessoas. Veja...
Dois policiais em patrulha vinham na direo deles: um homem e uma
mulher, com as camisas brancas da farda de vero, com seus rdios, seus
cassetetes e seus olhos cheios de suspeitas. Antes que chegassem perto,
Lyra estava de p falando com eles. -Por favor, pode me dizer onde fica
o museu? -pediu. -Meu irmo e eu ficamos de encontrar nossos pais l, e
nos perdemos. #121 o policial olhou para Will, e o menino, controlando a
raiva, deu de ombros como se dissesse: ela tem razo, ns nos perdemos,
no foi uma tolice? O homem sorriu. A mulher perguntou: -Qual museu? O
Ashmoleano? -Esse mesmo -disse Lyra, e fingiu escutar cuidadosamente as
instrues que a mulher lhe dava. Willlevantou-se e agradeceu, e
afastou-se com Lyra. No olharam para trs, mas os policiais j tinham
perdido o interesse neles. -Viu s? Se estavam procurando voc, eu
atrapalhei - disse Lyra. -Porque eles no esto procurando algum com
uma irm.  melhor eu ficar com voc de agora em diante - continuou, em
tom de reprimenda, depois de virarem a esquina. -No est seguro
sozinho. Ele no respondeu. Seu corao batia forte, de raiva. Seguiram
em frente, na direo de um prdio redondo com um grande domo de chumbo,
situado numa praa rodeada de prdios universitrios cor de mel, uma
igreja e rvores de grandes copas acima de altos muros. O sol da tarde
realava os tons mais quentes, e o ar estava repleto disso tudo, quase
da cor de vinho dourado. Todas as folhas estavam imveis, e naquela
pracinha at mesmo o rudo do trnsito era abafado. Ela finalmente tomou
conscincia do estado de esprito de Will e perguntou: -Qual  o
problema? -Se falar com as pessoas, voc atrai a ateno delas - disse
ele, em voz trmula. -Devia ter ficado quieta, parada, e eles no iam
prestar ateno. Fiz isso a minha vida inteira. Sei fazer isso. Do seu
jeito, voc s consegue... se fazer visvel. No devia fazer isso. No
devia brincar com isso. Voc no est sendo sria. #122 -Voc acha? -fez
ela, e sua raiva explodiu. -Acha que no sei mentir? Sou a melhor
mentirosa que j existiu. Mas no minto para voc, e nunca mentirei, eu
juro. Voc est em perigo, e se eu no tivesse feito aquilo naquela hora
voc teria sido preso. No viu que estavm olhando para voc? Estavam,
sim. Voc no  cuidadoso. Se quer a minha opinio,  voc que no 
srio. -Se eu no sou srio, que  que estava fazendo, esperando voc,
quando podia estar a quilmetros de distncia? Ou escondido, em
segurana, naquela cidade? Tenho as minhas coisas para resolver, mas
estou plantado aqui para poder ajudar voc. No me diga que no sou
srio. -Voc tinha que atravessar -ela retrucou, furiosa. Ningum podia
falar com ela assim; era uma aristocrata. Era Lyra. -Voc precisava,
seno no ia descobrir nada sobre o seu pai. Voc fez isso por sua
causa, no por mim. Estavam discutindo apaixonadamente, mas em voz
baixa, por causa do silncio da praa e das pessoas que passavam. Quando
ela disse isso, porm, Will estacou. Teve que se encostar no muro atrs
de si. Tinha o rosto plido. -O que  que voc sabe do meu pai?
-perguntou baixinho. Ela respondeu no mesmo tom: -No sei nada de nada.
Tudo que sei  que voc est procurando por ele. Foi s isso que eu
perguntei. -Perguntou? A quem? -Ao aletmetro,  claro. Ele levou um
instante para se lembrar. E ento pareceu to zangado e desconfiado que
ela pegou o aletmetro na mochila e disse: -Est bem, vou lhe mostrar .
#123 Sentou-se no muro de pedra em volta ao gramado no meio da praa,
inclinou a cabea sobre seu instrumento dourado e ps-se a girar os
ponteiros, movendo os dedos quase depressa demais para a vista, e fez
uma pausa de alguns segundos enquanto o ponteiro mais fino girava no
mostrador, parando aqui e ali; ela ento tornou a mover os ponteiros com
a mesma rapidez para uma nova posio. Will olhou em volta
cautelosamente, mas no havia ningum perto para ver; um grupo de
tUristas olhava para o domo no alto do prdio, um sorveteiro empurrava
seu carrinho ao longo da calada, mas ningum prestava ateno neles.
Lyra pestanejou e suspirou, como se despertasse. -A sua me est doen
te, mas est em segurana -disse em voz baixa. -U ma mulher est tomando
conta dela. E voc pegou umas cartas e fugiu. E um homem, acho que era
um ladro, voc matou ele. E est procurando o seu pai, e... -Est bem,
cale a boca -disse Will. -Chega. Voc no tem o direito de revistar a
minha vida desse jeito. Nunca mais faa isso. Isso  espionagem. -Eu sei
a hora de parar de perguntar -ela retrucou. -Sabe, o aletmetro  quase
como uma pessoa. Eu sei mais ou menos quando ele vai ficar zangado ou
quando no quer que eu saiba de alguma coisa. Eu sinto. Mas quando voc
surgiu do nada ontem, eu tinha que perguntar quem voc era, para saber
se eu estava segura. Tinha que fazer isso. E ele disse... -Ela baixou
mais ainda a voz. -Ele disse que voc era um assassino, e eu pensei: que
bom, isto  timo, posso confiar nele. Mas no perguntei mais nada at
agora, e se voc no quiser que eu pergunte, prometo que no vou fazer
isso, O aletmetro no  um aparelho de bisbilhotice. Se eu simplesmente
espionasse os outros, ele pararia de funcionar. Sei disso to bem quanto
conheo a minha Oxford. #124 -Voc poderia ter perguntado a mim, em vez
de perguntar a essa coisa. Ele disse se o meu pai est vivo ou mortO?
-No, porque eu no perguntei. Estavam ambos sentados. Will, exaustO,
descansou a cabea nas mos. -Bem, acho que vamos ter que confiar um no
outro - disse finalmente. -Tudo bem. Eu confio em voc. Will assentiu
desanimado. Estava muitO cansado, e no havia a menor possibilidade de
dormir naquele mundo. Lyra no costumava ser to perceptiva, mas alguma
coisa no jeitO dele a fez pensar: ele est com medo, mas est dominando
o medo, como Iorek Byrnison disse que temos que fazer; como eu fiz na
peixaria juntO ao lago congelado. -Will, no vou contar seu segredo a
ningum. PrometO -ela acrescentOu. -timo. -U ma vez eu fiz isso. Tra
uma pessoa. E foi a pior coisa que j fiz. Na verdade, pensei que estava
salvando a vida dele, s que estava levando ele diretO para o lugar mais
perigoso que poderia existir. Fiquei com dio de mim mesma por isso, por
ter sido to idiota. De modo que vou tentar com tOdas as minhas foras
no ser descuidada, nem me distrair e denunciar voc sem querer. Ele no
respondeu; esfregou os olhos e pestanejou vrias vezes, para tentar
manter-se acordado. -No podemos atravessar a janela to cedo -disse. -
Foi imprudncia termos atravessado durante o dia. No podemos arriscar
que algum veja. E agora temos que esperar horas... #125 -Estou faminta
-Lyra declarou. -J sei! -exclamou ele ento. -Podemos ir ao cinema! -Ao
qu? -Vou lhe mostrar. L poderemos comer alguma coisa, tambm. Havia um
cinema perto do centro da cidade, a 10 minutos de distncia. Will pagou
a entrada de ambos e comprou cachorros-quentes, pipocas e Coca-Cola. Os
dois se acomodaram na platia bem na hora em que o filme ia comear.
Lyra ficou maravilhada. J tinha visto fotogramas projetados, mas nada
no mundo dela a tinha preparado para o cinema. Ela engoliu o
cachorro-quente e as pipocas, bebeu de uma vez a Coca-Cola e ficou a
exclamar e rir de prazer diante das personagens na tela. Felizmente a
platia era ruidosa, cheia de crianas, e a empolgao dela no chamou
ateno. Will logo fechou os olhos e adormeceu. Acordou ao ouvir o rudo
das pessoas saindo, e pestanejou por causa da luz acesa. Seu relgio
mostrava 20h15. Lyra saiu do cinema com relutncia. -Foi a melhor coisa
que j vi em toda a minha vida - disse ela. -Sei l por que nunca
inventaram isso no meu mundo. L algumas coisas so melhores do que
aqui, mas isto  melhor do que qualquer coisa que a gente tenha l. Will
sequer conseguia lembrar o nome do filme. Do lado de fora ainda estava
claro, e as ruas estavam movimentadas. -Quer ver outro? -Claro! Ento
foram ao cinema seguinte, a poucas centenas de metros virando a esquina,
e fizeram a mesma coisa. Lyra #126 acomodou-se com os ps sobre o
assento, abraada ao joelho, e Will deixou a mente vagar. Quando saram,
dessa vez, eram quase 23h, muito melhor. Lyra estava com fome novamente,
ento compraram hambrgueres numa carrocinha e comeram enquanto
caminhavam -outra novidade para ela. -Ns sempre nos sentamos para
comer. Nunca vi algum comer andando- ela contou. -Este lugar aqui 
diferente em muitas coisas. O trnsito, por exemplo. No gosto. Gostei
do cinema e de hambrguer. Gostei muito. E aquela Catedrtica, a Dra.
Malone, ela vai fazer aquela mquina usar palavras. Sei que vai. Amanh
vou voltar l e ver como ela est indo. Aposto que posso ajudar. Eu
poderia provavelmente fazer os Catedrticos lhe darem o dinheiro que ela
quer, tambm. Sabe como o meu pai fez isso? O Lorde Asriel? Ele os
enganou... Enquanto seguiam pela Rua Banbury, ela contou sobre a noite
em que se escondeu no armrio e viu Lorde Asriel mostrar aos
Catedrticos da Jordan a cabea decepada de Stanislaus Grumman na caixa
trmica. Como Will era um timo ouvinte, Lyra foi em frente e contou-lhe
o resto da sua histria, desde a fuga do apartamento da Sra. Coulter at
o momento horrvel em que ela percebeu que tinha levado Roger para a
morte nos penhascos gelados de Svalbard. Will escutou sem fazer
comentrios, mas prestando ateno, solidrio. A narrativa da viagem num
balo, de bruxas e ursos de armadura, de um brao vingativo da Igreja,
tudo parecia combinar com seu prprio sonho fantstico de uma linda
cidade  beira-mar, deserta, silenciosa e segura: no podia ser verdade,
simplesmente. Mas finalmente chegaram ao trevo e aos carpinos. Havia
pouco trnsito: um carro a cada minuto, no mais que isso. E l estava a
janela no ar. Will sorriu: ia dar tudo certo. #127 -Espere at no vir
carro -instruiu. -Vou atravessar agora. E no instante seguinte ele
estava no gramado sob as palmeiras, e logo em seguida Lyra veio atrs.
Sentiam-se como se estivessem em casa. A noite clida, o cheiro de
flores e do mar, o silncio -tudo isso os engolfava como um banho de
gua calmante. Lyra espreguiou-se e bocejou, e Will sentiu-se livre de
um grande peso. Passara o dia inteiro carregando esse peso, e no tinha
percebido o esforo que vinha fazendo; mas agora sentia-se leve, livre e
em paz. E ento Lyra agarrou-lhe o brao com fora. No mesmo segundo ele
ouviu o motivo desse gesto. Em algum lugar, numa das ruelas atrs do
caf, alguma coisa berrava. Will partiu de imediato naquela direo e
Lyra seguiu-o por um beco escuro, escondido do luar. Depois de vrias
curvas e voltas, eles surgiram na praa diante da torre de pedra que
tinham visto pela manh. Cerca de 20 crianas faziam um semicrculo na
base da torre, e algumas seguravam pedaos de pau, outras jogavam pedras
no que quer que estava encurralado contra a parede da torre. A princpio
Lyra achou que era outra criana, mas de dentro do semicrculo vinha um
ganido horrvel que no era humano. E as crianas tambm gritavam de
medo e de dio. Will correu at l e puxou uma delas pelo ombro. Era um
menino mais ou menos da sua idade, usando uma camiseta listrada. Quando
ele se virou, Lyra viu as estranhas bordas brancas em volta das pupilas
dele; ento as outras crianas perceberam o que estava acontecendo e
pararam para olhar. Anglica e seu irmozinho tambm estavam l, com
pedras #128 nas mos, e os olhos de todas as crianas brilhavam
ferozmente ao luar. Ficaram todos em silncio. S o ganido continuava, e
ento Will e Lyra viram o que era: uma gata encolhida contra a parede da
torre, a orelha rasgada e a cauda torcida. Era agata que Will tinha
visto na Avenida Sunderland, aquela que se parecia com Moxie, aquela que
o levara  janela. Assim que ele a viu, jogou para o lado o menino que
estava segurando pelo ombro. O garoto caiu no cho mas levantou-se em
seguida, furioso; mas os outros o contiveram. Will j estava ajoelhado
junto  gata. E logo ela estava em seus braos. Quando ela saltou para o
peito dele, ele a segurou junto ao corpo e ergueu-se para enfrentar as
crianas; por um segundo Lyra teve a idia louca de que o daemon dele
tinha finalmente aparecido. -Por que esto machucando esta gata? -ele
perguntOU. Ningum soube responder. Todos tremiam diante da raiva de
Will, ofegantes, segurando seus paus e pedras, e no conseguiam falar .
Mas ento a voz de Anglica soou com clareza: -Voc no  daqui! No 
de Ci'gazze! No sabia dos Espectros, no sabe dos gatos tambm. No 
como ns! O menino de camiseta listrada que Will tinha derrubado estava
cheio de vontade de lutar, e se no fosse pelo gato nos braos de Will
ele o teria atacado com punhos, dentes e ps, e Will adoraria entrar
nessa briga: havia uma corrente eltrica de dio entre os dois que
apenas a violncia conseguiria dissipar. Mas o menino tinha medo da
gata. -De onde voc veio? -ele perguntou em tom de desprezo. #129 -No
importa de onde ns viemos. Se esto com medo desta gata, eu vou levar
ela para longe de vocs. Se ela para vocs  sinal de azar, para ns
ser de sorte. Agora saiam da frente. Por um instante Will pensou que o
dio deles seria maior do que o medo, e estava prestes a colocar a gata
no cho e lutar, mas ento ouviu-se um rosnado baixo e forte vindo de
trs das crianas; elas se viraram e viram Lyra de p com a mo no ombro
de um enorme leopardo pintado, cujos dentes brilhavam quando ele
rosnava. At mesmo Will, que reconheceu Pantalaimon, ficou assustado por
um segundo. O efeito nas crianas foi drstico: elas fugiram
imediatamente. Segundos depois a praa estava deserta. Mas antes de se
afastar de l, Lyra olhou para o alto da torre. Um rosnado de
Pantalaimon a fez fazer isso, e por um segundo ela viu algum l bem no
alto, olhando por cima das ameias, e no era uma criana, mas um rapaz
de cabelos cacheados. Meia hora depois, estavam no apartamento em cima
do caf. Will tinha encontrado uma lata de leite condensado, que a gata
bebeu com ar faminto, pondo-se depois a lamber suas feridas. Pantalaimon
tinha se tornado um gato, por curiosidade, e a princpio a gata tinha se
arrepiado, cheia de suspeitas, mas logo percebeu que, fosse o que fosse
Pantalaimon, no era um gato de verdade nem uma ameaa, e passou a
ignor-lo. Lyra observou com fascinao Will cuidar da gata. Os nicos
animais que ela vira de perto em seu mundo (alm dos ursos de armadura)
eram animais de trabalho: os gatos serviam para manter a Jordan livre
dos ratos, no para animais de estimao. -Acho que a cauda dela est
quebrada -disse Will. - No sei o que fazer. Talvez se cure sozinha. Vou
colocar um pouco de mel na orelha dela. Li em algum lugar que 
anti-sptico... #130 Foi uma operao melada, mas pelo menos aquilo ia
manter a gata ocupada lambendo o mel, e a ferida ia ficando cada vez
mais limpa. -Tem certeza que foi esta que voc viu? -Lyra perguntou.
-Ah, tenho, sim. E alm disso, se todos aqui tm tanto medo, no deve
haver gatos neste mundo. Ela com certeza no conseguiu encontrar o
caminho de volta. -Pareciam loucos -Lyra comentou. -Iam matar a
coItadInha. Nunca VI crIanas agIndo assIm. -Eu j -disse Will. Mas sua
expresso era sombria: era evidente que ele no queria falar sobre
aquilo, e ela achou melhor no perguntar. Sabia que no devia perguntar
sequer ao aletmetro. Estava muito cansada, de modo que logo foi para a
cama e adormeceu. Pouco mais tarde, quando agata enrodilhou-se para
dormir, Will pegou uma xcara de caf e o escrnio de couro verde, e foi
sentar-se na sacada. Havia luz suficiente entrando pela janela e ele
queria ler os papis. No havia muitos. Como ele pensava, eram cartas,
escritas em papel de via area com tinta preta. Aquelas letras tinham
sido feitas pela mo do homem que ele tanto queria encontrar; passou os
dedos sobre elas muitas vezes e apertou-as contra o rosto, tentando
chegar mais perto da essncia do seu pai. Ento ps-se a ler. Fairbanks,
Alasca Quarta-feira, 19 de junho de 1985 Minha querida; a costumeira
mistura de eficincia e caos -todas as provises j chegaram, mas o
fsico, um idiota genial #131 chamado Nelson, no tomou nenhuma
providncia para levar seus malditos bales para o alto das montanhas
-temos que ficar ociosos enquanto ele procura um transporte. Mas isso
serviu para me dar a oportunidade de conversar com um velhote que
conheci na expedio passada, um minerador de ouro chamado Jake Petersen
-segui o rastro dele at um bar modesto e sob o som de uma partida de
beisebol na TV eu lhe perguntei sobre a anomalia. Ele no queria
conversar ali. Me levou ao seu apartamento. Com a ajuda de uma garrafa
de Jack Daniels, ele falou durante muito tempo. Ele mesmo no tinha
visto, mas tinha conhecido um esquim que viu, e o cara disse a ele que
era uma porta para o mundo dos espritos, que eles sabem disso h
sculos e que faz parte da iniciao de um xam esquim atravessar e
trazer de volta um trofu qualquer, mas muitos no voltaram. De qualquer
maneira, o velho Jake tinha um mapa da regio e marcou nele o lugar onde
o companheiro disse que a coisa ficava. (S para garantir:  6902'11"N,
15712'19"0, num contraforte da Serra Lookout, a uns dois ou trs
quilmetros ao norte do Rio Colville.) Ento passamos a conversar sobre
outras lendas do rtico -o navio noruegus que est vagando sem
tripulao h 60 anos, coisas assim. Os arquelogos so uma turma legal,
esto ansiosos para comear o trabalho, contendo a impacincia com
Nelson e seus bales. Nenhum deles jamais ouviu falar na anomalia, e
pode acreditar que vou deixar que isso continue assim. Muito amor e
carinho para vocs dois. Johnny. Umiat, Alasca Sbado, 22 de junho de
1985 Minha querida: e eu que chamei o homem de idiota genial -o fsico
Nelson no  nada disso, e se no estou enganado ele tambm est
procurando a anomalia. O atraso em Fairbanks foi #132 planejado por ele,
d para acreditar? Sabendo que o resto da equipe no iria querer esperar
por qualquer coisa abaixo de um argumento irrespondvel como o
transporte, ele pessoalmente mandou cancelar os veculos que tinham sido
alugados. Descobri isso por acidente, e ia perguntar que diabos ele
estava planejando, mas ouvi quando ele falava com algum pelo rdio
-descrevendo a anomalia, s que ele no sabia a localisao. Mais tarde
paguei-lhe uma bebida, banquei o soldado meio tapado, o veterano no
rtico, tipo existem mais coisas entre o cu e a terra do que podemos
explicar, coisas desse tipo, fingi brincar com ele a respeito das
limitaes da cincia ( aposto que voc no consegue explicar o
Abominvel Homem das Neves etc.). Fiquei s observando. Ento falei da
anomalia -uma lenda esquim de uma porta para o mundo dos espritos,
invisvel, em algum lugar perto da Serra Lookout, d para acreditar, 
para onde estamos indo, imagine s. E voc sabe que ele teve um choque?
Sabia exatamente do que eu estava falando. Fingi que no percebi e
passei a falar em bruxaria, contei a histria do leopardo do Zaire-
espero que ele tenha me tomado por um milico supersticioso. Mas estou
certo, Elaine, que ele tambm est procurando a mesma coisa. A questo
: devo contar a ele ou no? Tenho que descobrir qual  o jogo dele.
Todo o meu amor e carinho para vocs dois -Johnny. Collvile Bar, Alasca
24 de junho de 1985 Querida: no terei oportunidade de enviar outra
carta durante algum tempo -esta  a ltima cidade antes de subirmos para
as montanhas, a Serra Brooks. Os arquelogos esto doidos para chegar l
em cima. Um sujeito est convencido de que vai encontrar provas de
habitao humana de perodo muito anterior ao que se imagina -perguntei
de quanto tempo atrs e por que #133 ele estava convencido disso, ele
falou de uns entalhes em marfim de narval que ele encontrou numa
escavao; pelo carbono 14, eles tinham uma idade inacreditvel, muito
superior ao que se imaginava antes -uma anomalia, na verdade. No seria
estranho se esses entalhes tivessem vindo de outro mundo atravs da
minha anomalia. Por falar nisso, o fisico Nelson agora  o meu maior
amigo, brinca comigo, insinua que sabe que eu sei que ele sabe etc. Eu
finjo ser o Major Parry, um sujeito confivel durante uma crise, mas no
muito dotado de miolos, ora -mas sei que ele est procurando. Para
comear, embora ele seja um acadmico de verdade, sua verba vem do
Ministrio da Defesa, conheo os cdigos financeiros que eles usam. Alm
disso, os seus bales meteorolgicos no so nada disso- espiei dentro
do caixote: tem um traje anti-radiao, se  que conheo essas coisas.
Muito esquisito, minha querida. Vou manter o meu plano: levar os
arquelogos para o destino deles e tirar alguns dias para ir sozinho
procurar a anomalia. Se eu esbarrar com Nelson vagando pela Serra
Lookout, vou agir segundo as circunstncias. Mais tarde- um lance de
sorte. Encontrei o esquim amigo de Jake Petersen, Matt Kigalik. Jake
tinha me dito onde encontr-lo, mas no ousei ter esperana de que ele
estivesse l. Ele me contou que os soviticos tambm andaram procurando
a anomalia -no incio do ano ele encontrou um homem no alto da serra e
observou-o por alguns dias sem ser visto, porque adivinhou o que o outro
estava fazendo, e tinha razo, e o homem era russo, um espio; ele s me
contou isso. Tive a impresso que ele liquidou com o sujeito. Mas ele me
descreveu a coisa.  como um buraco no ar, uma espcie de janela. A
gente olha por ela e v o outro mundo. Mas no  fcil de encontrar,
porque aquela parte do outro mundo  parecida com a nossa -pedras, musgo
etc. Fica na margem norte de um regato, uns 50 passos a oeste de uma
pedra #134 alta que tem a forma de um urso de p, e a posio que Jake
me forneceu no est correta - mais 12"N do que 11. Tora por mim,
minha querida. Vou levar para voc um trofu do mundo dos espritos. Te
amo eternamente. Um beijo no garoto. Johnny. Os ouvidos de Will zumbiam.
Seu pai estava descrevendo exatamente o que ele prprio tinha descoberto
sob os carpinos. Ele tambm tinha encontrado uma janela -tinha at usado
o mesmo nome para ela! Ento devia estar no caminho certo. E era isso
que os homens haviam procurado... Ento era perigoso, tambm. Will tinha
um ano de idade quando aquela carta foi escrita. Seis anos depois disso,
acontecera aquela manh no supermercado, quando ele ficou sabendo que a
me corria um perigo terrvel e ele tinha que proteg-la; e ento, nos
meses seguintes, aos poucos ele percebeu que o perigo estava na mente
dela, e por isso tinha que proteg-la mais ainda. E ento, de maneira
brutal, a revelao de que afinal nem todo o perigo estava na mente
dela. Havia mesmo algum atrs dela. Depois, essas cartas, essa
informao. Mas ele no tinha idia do que isso significava. Sentia-se
profundamente feliz por compartilhar com o pai uma coisa to importante;
por John Parry e seu filho Will terem, separadamente, descoberto aquela
coisa extraordinria. Quando se encontrassem, poderiam conversar sobre
isso, e o pai teria orgulho por Will ter seguido seus passos. A noite
estava quieta, e o mar, parado. Ele guardou as cartas e adormeceu. #135
6 OS VOADORES LUMINOSOS -Grumman? -repetiu o barbudo mercador de peles.
-Da Academia de Berlim? Um insensato! Eu o conheci h cinco anos, l no
extremo norte dos Urais. Pensei que tivesse morrido. Sentado no bar,
enfumaado e recendendo a nafta, do Samirsky Hotel, Sam Cansino, um
velho conhecido e texano como Lee Scoresby, bebeu de um s gole a vodca
estupidamente gelada. Depois empurrou o prato de peixe em conserva e po
preto na direo de Lee, que comeu um bocado e assentiu para que Sam lhe
contasse mais coisas. -Ele pisou numa armadilha montada por aquele
idiota do Yakovlev e cortou a perna at o osso -continuou o mercador.
-Em vez de usar remdio normal, ele cismou de passar um negcio que os
ursos usam, chamado musgo-sangneo, musgo-de-sangue, uma espcie de
lquen, no  um musgo de verdade; de qualquer maneira, ele ficava
deitado no tren, alternando rugidos de dor com instrues para os
homens que trabalhavam para ele. Estavam fazendo medies das estrelas,
e tinham que fazer direito, seno ele dava uma #136 grande bronca, e,
pode acreditar, a lngua dele era igual a arame farpado. Um homem magro,
duro, forte, curioso, queria saber tudo. Sabia que ele havia sido
iniciado como trtaro? -No diga! -fez Lee Scoresby. Enquanto falava,
vertia mais vodca no copo de Sam. Seu daemon Hester estava deitado no
balco junto ao seu cotovelo, os olhos semicerrados como de costume, as
orelhas estendidas ao longo das costas. Lee havia chegado naquela tarde,
trazido a Nova Zembla pelo vento que as bruxas tinham chamado, e depois
de guardar o equipamento ele se dirigiu diretamente para o Samirsky
Hotel, perto do posto de embalagem de pescado. Aquele era um lugar onde
os andarilhos do rtico paravam para trocar notcias, procurar trabalho
ou deixar recados, e Lee Scoresby no passado tinha ficado muitos dias
por l, esperando um contrato ou um passageiro ou um vento bom, de modo
que nada havia de estranho em seu comportamento atual. E com as grandes
mudanas que eles intuam estarem acontecendo no mundo  sua volta, era
natural que as pessoas se reunissem e conversassem. A cada dia que
passava, surgiam mais notcias: o rio Yenisei estava degelado -e nessa
poca do ano! -; parte do oceano tinha esvaziado, expondo estranhas
formaes regulares de pedra em seu leito; um polvo de 30 metros de
comprimento tinha arrancado trs pescadores de um barco e despedaado
todos os trs... E a nvoa continuava a chegar do norte, densa e fria,
ocasionalmente encharcada da luz mais estranha que se poderia imaginar,
na qual podiam-se ver vagamente formas enormes, e ouvir vozes
misteriosas. De maneira geral, era um tempo ruim para trabalhar, por
isso o bar do Samirsky Hotel estava repleto. #137 -Voc disse Grumman?
-quis saber a pessoa sentada ao lado dele junto ao balco do bar, um
homem de idade, usando trajes de caador de foca, cujo daemon-lmure
espiava solenemente de dentro do bolso do seu casaco. -Ele era mesmo
trtaro. Eu estava l quando ele entrou para aquela tribo. Vi quando
furaram o crnio dele. Ele ganhou outro nome, tambm. Um nome trtaro.
Daqui a pouco me lembro qual era. -Ora, quem diria! -fez Lee Scoresby.
-Deixe-me pagar-lhe uma bebida, amigo. Estou procurando notcias desse
homem. Para qual tribo ele entrou? -Os pakhtars de Yenisei. No sop da
Serra Semyonov. Perto da confluncia do Yenisei com o rio... Esqueci o
nome. Um rio que desce dos morros. Existe uma pedra do tamanho de uma
casa no local de pouso. -Ah, certo, agora me lembro -disse Lee. -J voei
por cima dela. E Grumman teve o crnio perfurado?  mesmo? E por qu?
-Ele era um xam -disse o velho caador de focas. - Acho que, antes da
adoo, a tribo reconheceu que ele era um xam. Foi uma cerimnia e
tanto, aquela perfurao. O ritual dura dois dias e uma noite. Usam uma
broca de arco, como se faz para acender fogo. -Ah, isso explica o modo
como a equipe dele obedecia -Sam Cansino comentou. -Era a turma de
velhacos mais braba que j vi, mas corriam para cumprir as ordens dele
como meninos amedrontados. Pensei que eram os palavres dele que tinham
esse efeito. Se eles pensavam que ele era um xam, faz at mais sentido.
Mas, sabe, a curiosidade daquele sujeito era forte como os dentes de um
lobo; ele simplesmente no desistia. Me fez contar tudo que eu sabia
sobre o terreno das #138 vizinhanas, e os hbitos dos lobos e das
raposas. Estava sentindo bastante dor por causa da maldita armadilha de
Yakovlev; a perna aberta, e ele anotando os efeitos daquele
musgo-sangneo, musgo-de-sangue, medindo a temperatura, vendo a
cicatriz se formar, anotando tudinho... Um homem estranho. Havia uma
bruxa que queria ser amante dele, mas ele recusou. - mesmo? -fez Lee,
pensando na beleza de Serafina Pekkala. -Ele no devia ter feito isso
-disse o caador de focas. -Se uma bruxa nos oferece seu amor, temos que
aceitar. Se no, a culpa  nossa se coisas ruins nos acontecerem.  como
ter que escolher entre uma bno e uma maldio. A nica coisa que no
podemos fazer  deixar de escolher uma das duas. -Ele podia ter seus
motivos -disse Lee. -Se ele tinha algum juzo, o motivo tinha que ser
muito bom. -Ele era cabea-dura -disse Sam Cansino. -Talvez por
fidelidade a outra mulher -Lee sugeriu. - Ouvi contar outra coisa sobre
ele; que ele conhecia o paradeiro de um objeto mgico, no sei o que
poderia ser, que protegia qualquer pessoa que o tivesse. J ouviram essa
histria? -J ouvi isso, sim -disse o caador de focas. -Ele no tinha
essa coisa, mas sabia onde estava. Um homem tentou fazer ele contar, mas
Grumman matou o sujeito. -O daemon dele, isso  curioso -interps Sam
Cansino -, era uma guia, uma guia preta com cabea e peito brancos, um
tipo que eu nunca tinha visto, no sei que bicho era aquele. -Era uma
guia-pesqueira- disse o barman. -Vocs esto falando do Stan Grumman? O
daemon dele era uma guia-pesqueira. Um gavio-pescador . #139 -Que foi
que aconteceu com ele? -perguntou Lee Scoresby. -Ah, ele se envolveu nas
guerras dos escraelingues em Beringland. A ltima notcia que tive foi
que atiraram nele - disse o caador de focas. -Morreu na hora. -Pois eu
soube que eles cortaram a cabea dele -disse Lee Scoresby. -No, vocs
dois esto errados -contestou o barman. -E eu sei, porque quem me contou
foi um esquim que estava com ele na ocasio. Parece que estavam
acampados em algum lugar de Sakhalin e houve uma avalanche. Grumman
ficou soterrado por toneladas de pedra. O esquim viu isso acontecer .
-O que eu no entendo  o que o sujeito estava fazendo -Lee Scoresby
comentou, oferecendo a garrafa em roda. - Procurando leo ptreo,
talvez? Ou ele era militar? Ou era alguma coisa filosfica? Voc falou
em medidas, Sam. Que seria isso? -Estava medindo a luz das estrelas. E a
aurora boreal Ele tinha paixo pela aurora boreal. Mas seu maior
interesse eram runas, eu acho. Coisas antigas. -Sei quem poderia lhe
contar mais coisas -disse o caador de focas. -No alto da montanha
existe um observatrio que pertence  Real Academia Moscovita. L eles
sabero informar. Sei que ele subiu at l mais de uma vez. -Afinal, por
que voc quer saber, Lee? -Sam Cansino perguntou. -Ele me deve dinheiro
-Lee Scoresby respondeu. Essa explicao era to satisfatria, que a
curiosidade dos outros cessou na mesma hora. A conversa mudou para o
#140 assunto na boca de todos: as mudanas catastrficas que estavam
ocorrendo e que ningum conseguia ver. -Os pescadores, eles dizem que se
pode navegar direto at esse mundo novo -declarou o caador de focas.
-Existe um mundo novo? -Lee perguntou. -Assim que essa maldita neblina
clarear, vamos enxergar esse tal mundo -contou-lhes em tom confidencial
o caador de focas. -Quando aconteceu, eu estava no meu caiaque olhando
para o norte, por acaso. Nunca vou esquecer o que vi. Em vez da terra se
curvar no horizonte, ela continuava reta. Eu enxergava longe, e s via
terra e costa, montanhas, portos, rvores verdes e campos de milho,
infindavelmente, no cu. Eu lhes digo, amigos, valeu a pena trabalhar 50
anos para ver aquilo. Eu teria remado para o cu naquele mar calmo, sem
olhar para trs; mas ento veio a neblina... -Nunca vi uma nvoa como
esta -resmungou Sam Cansino. -Parece que vai ficar um ms inteiro,
talvez mais. Mas voc est sem sorte se quer receber dinheiro de
Stanislaus Grumman, Lee; o cara morreu. -Ah, lembrei o nome trtaro
dele! -exclamou o caador de focas. -Acabei de me lembrar como ele era
chamado durante a perfurao. Qualquer coisa como "Jopari". -Jopari?
Nunca ouvi esse tipo de nome -Lee comentou. -Deve ser nipnico, imagino.
Bom, se quero meu dinheiro, talvez eu possa procurar os herdeiros dele.
Ou talvez a Academia de Berlim possa pagar a dvida. Vou perguntar no
observatrio, ver se eles tm um endereo que eu possa procurar. O
observatrio ficava a alguma distncia para o norte, e Lee Scoresby
alugou um tren puxado por ces e um guia. No foi fcil encontrar
algum disposto a arriscar-se a viajar na neblina, mas Lee era
convincente, ou o seu dinheiro o era, e #141 finalmente, depois de uma
prolongada negociao, um velho trtaro da regio do Ob concordou em
lev-lo. Felizmente o guia no se orientava pela bssola, pois seria
impossvel us-la. Ele navegava por outros sinais -seu daemon-raposa
polar, por exemplo, que ficava sentado na frente do tren farejando
atentamente o caminho. Lee, que levava sua bssola consigo para toda
parte, j tinha constatado que o campo magntico da Terra estava to
perturbado quanto tudo mais. Quando pararam para fazer um caf, o velho
guia disse: -J aconteceu antes, esta coisa. -O qu? O cu se abrir?
Isso j aconteceu antes? -H muitos milhares de geraes. Meu povo se
lembra. Muito tempo atrs, muitos milhares de geraes. -O que  que
falam? -O cu abre e os espritos passam entre este mundo e o outro.
Todas as terras se movem. O gelo derrete, depois torna a congelar. Os
espritos fecham o buraco depois de um tempo. E selam. Mas as bruxas
dizem que l o cu  fino, atrs das luzes do Norte. -O que  que vai
acontecer, Umaq? -A mesma coisa que antes. Tudo igual outra vez. Mas s
depois de grande perturbao, grande guerra. Guerra de espritos. O guia
no quis dizer mais, e logo seguiram viagem, percorrendo lentamente as
ondulaes, crateras e erupes de pedra escura na nvoa clara, at que
o velho disse: -Observatrio l em cima. Agora voc anda. Caminho ruim
para tren. Se quer voltar, espero aqui. -, vou querer voltar quando
terminar, Umaq. Faa uma fogueira, amigo, sente-se e descanse um pouco.
Vou levar trs, quatro horas, talvez. #142 Lee Scoresby partiu, com
Hester dentro do casaco, e depois de meia hora de rdua subida deparou
com um conjunto de edificaes que pareciam ter sido colocadas ali pela
mo de um gigante. Mas o efeito devia-se apenas a uma clareira
momentnea na neblina, e depois de um minuto ela tornou a fechar-se. Ele
viu o grande domo do observatrio principal, um domo menor ali perto e,
entre eles, um grupo de prdios de administrao e alojamento de
empregados. No havia luz alguma, pois as janelas eram permanentemente
vedadas para no atrapalhar a escurido necessria aos seus telescpios.
Alguns minutos depois de sua chegada, Lee estava conversando com um
grupo de astrnomos ansiosos por qualquer notcia que ele pudesse lhes
trazer, e poucos filsofos naturais ficam to frustrados quanto um
astrnomo durante uma neblina. Ele contou-lhes tudo que tinha visto e,
esgotado o assunto, pediu notcias de Stanislaus Grumman. Havia semanas
que os astrnomos no recebiam uma visita, e falaram de bom grado.
-Grumman? Ah, sim, vou lhe contar uma coisa sobre ele- disse o Diretor.
-Ele era ingls, apesar do nome. Eu me lembro... -Claro que no
-contestou o Vice-Diretor. -Ele era membro da Academia Imperial Alem.
Eu o conheci em Berlim. Estava certo de que ele era alemo. -No. Acho
que voc vai constatar que ele era ingls. Seu domnio desse idioma era
impecvel- replicou o Diretor . -Mas concordo, ele certamente era membro
da Academia de Berlim. Era um gelogo... -No, est enganado -disse
outra pessoa. -Ele de fato estudava aTerra, mas no como gelogo. Tive
uma longa conversa com ele, certa vez. Acho que se poderia cham-lo de
paleoarquelogo. #143 Os cinco estavam sentados em volta de uma mesa no
aposentO que servia de salo, refeitrio, bar, sala de recreao e mais
ou menos todo o resto. Dois eram moscovitas, um era polons, um era
iorub e o outro, escraelingue. Lee Scoresby sentia que a pequena
comunidade ficava feliz ao receber uma visita, quanto mais no fosse
porque isso proporcionava uma mudana na conversa. O polons tinha sido
o ltimo a falar, e ento o iorub perguntou: -Que quer dizer
paleoarquelogo? Os arquelogos j estudam o que  velho; por que 
preciso colocar um prefixo que tambm significa "velho"? -O campo de
estudos dele recuava muito mais do que seria de se esperar,  isso. Ele
estava procurando vestgios de civilizaes de 20 a 30 mil anos atrs .-
respondeu o polons. -Besteira! -exclamou o Diretor. -Total idiotice! O
camarada estava brincando com voc. Civilizaes h 30 mil anos? Ora!
Onde esto as provas? -Debaixo do gelo -disse o polons. -O problema 
esse. Segundo Grumman, o campo magntico da Terra mudou drasticamente
vrias vezes no passado, e at o eixo da Terra moveu-se, de modo que
regies temperadas ficaram cobertas de gelo. -Como assim? -quis saber o
iorub. -Ah, ele tinha uma teoria complicada. O caso  que qualquer
evidncia que possa haver de antigas civilizaes est h muito tempo
coberta pelo gelo. Ele dizia ter fotogramas de formaes rochosas
incomuns... -Bah! Isso  tudo? -fez o Diretor. -S estou relatando, no
estou defendendo o sujeito -disse o polons. -H quanto tempo vocs
conhecem Grumman? -Lee Scoresby perguntou. #144 -Bem, deixe-me ver...
Faz sete anos que eu o conheo -disse o Diretor . -Ele criou fama um ou
dois anos antes disso, com seu trabalho sobre as variaes do plo
magntico -contou o iorub. -Mas veio do nada. Quero dizer, ningum o
conheceu quando estudante ou viu qualquer trabalho seu anterior a
esse... Conversaram durante algum tempo, trocando reminiscncias e
oferecendo sugestes sobre o paradeiro de Grumman, embora a maioria
deles achasse que ele estava morto. Enquanto o polons foi fazer mais
caf, Hester, o daemon-lebre de Lee, cochichou: -Examine o escraelingue,
Lee. O escraelingue tinha falado pouco. Lee imaginara que ele era
naturalmente taciturno, mas, levado por Hester, no primeiro intervalo da
conversa, ele olhou de modo casual e viu o daemon do sujeito, uma coruja
branca, dardejando-lhe um olhar malvolo com seus olhos de um alaranjado
vivo. Bem, essa era mesmo a aparncia das corujas, elas realmente
encaravam as pessoas -mas Hester tinha razo, havia no daemon
hostilidade e suspeita, que no transpareciam no rosto do homem. E ento
Lee percebeu outra coisa: o escraelingue usava um anel com o smbolo da
Igreja. De repente ele entendeu a razo do silncio do outro. Ouvira
dizer que todo estabelecimento de pesquisa filosfica tinha que incluir
na equipe um representante do Magisterium para atuar como censor e
reprimir as notcias de qualquer descoberta hertica. Percebendo isso, e
recordando algo que ele tinha ouvido Lyra dizer, Lee perguntou:
-Digam-me, senhores, por acaso sabem se Grumman alguma vez estudou a
questo do P? #145 E imediatamente fez-se silncio no aposento abafado,
e a ateno de todos voltou-se para o escraelingue, embora ningum tenha
olhado diretamente para ele. Lee sabia que Hester ficaria impassvel,
com os olhos semicerrados e as orelhas estendidas ao longo das costas. E
ele prprio fez uma expresso de jovialidade inocente enquanto olhava de
um rosto para outro. Finalmente fixou o olhar no escraelingue e
perguntou: -Perdo. Ser que perguntei alguma coisa proibida? O
escraelingue perguntou de volta: -Onde ouviu mencionarem esse assunto,
Sr. Scoresby? -Foram uns passageiros que transportei h algum tempo -Lee
respondeu com naturalidade. -Eles nunca disseram o que era, mas pelo
modo como falavam parecia o tipo de coisa que o Dr. Grumman poderia ter
estudado. Entendi que era alguma coisa celestial, como a aurora boreal.
Mas achei estranho, porque como aerstata conheo muito bem os cus, e
nunca vi essa coisa. O que , afinal? -Como voc disse, um fenmeno
celestial -respondeu o escraelingue. -No tem a menor importncia
prtica. Finalmente Lee achou que era hora de partir; no descobrira
mais nada, e no queria deixar Umaq esperando. Deixou os astrnomos em
seu observatrio cercado de nvoa e ps-se a descer a trilha invisvel,
acompanhando Hester, cujos olhos estavam mais perto do cho. E depois de
10 minutos na trilha, alguma coisa passou pela cabea dele na neblina e
mergulhou sobre Hester. Era o daemon-coruja do escraelingue. Mas Hester
pressentiu o ataque e atirou-se ao solo bem na hora, escapando por pouco
s garras da coruja. Hester sabia lutar: tambm tinha garras afiadas, e
era forte e corajosa. Lee #146 sabia que o escraelingue devia estar por
perto, e pegou o revlver no cinto. -Atrs de voc, Lee -disse Hester, e
ele girou, mergulhando; uma flecha assobiou perto do seu ombro. Atirou
imediatamente. O escraelingue caiu, gemendo, quando a bala cravou-se em
sua perna. No momento seguinte, o daemon-coruja, girando no ar com suas
asas silenciosas, mergulhou e caiu ao lado dele, e ficou cado na neve,
lutando para fechar as asas. Lee Scoresby armou a pistola e segurou-a
junto  testa do outro. -Certo, seu maldito idiota- disse. -Por que
tentou isso? No v que estamos todos com o mesmo problema, agora que
aconteceu essa coisa no cu? - tarde demais -declarou o escraelingue.
-Tarde demais para qu? -Tarde demais para impedir. J mandei um pssaro
mensageiro. O Magisterium vai ficar sabendo das suas perguntas, e vo
ficar contentes em saber sobre Grumman... -Que  que tem ele? -Saber que
outras pessoas esto procurando por ele. Isso confirma o que pensvamos.
E que outras pessoas sabem do P. Voc  um inimigo da Igreja, Lee
Scoresby. Pelos frutos os conhecereis. Por suas perguntas vereis a
serpente devorando o corao deles. .. A coruja gemia fracamente,
erguendo e baixando as asas. Seus olhos brilhantes estavam nublados de
dor. Havia uma poa vermelha na neve em volta do escraelingue: mesmo no
meio da nvoa Lee via que o outro ia morrer. -Pelo jeito, a bala deve
ter atingido uma artria -disse. -Solte o meu brao para eu fazer um
torniquete. #147 -No! -bradou o escraelingue. -Estou feliz por morrer!
Terei a palma do manrio! Voc no vai me privar disso! -Ento morra, se
quiser. S me diga uma coisa... Mas Lee Scoresby no teve tempo de
completar a pergunta, porque com um leve estremecimento a coruja
desapareceu: a alma do escraelingue tinha partido. Lee vira certa vez um
quadro em que um santo da Igreja estava sendo atacado por assassinos.
Enquanto eles espancavam seu corpo moribundo, o daemon do santo era
levado para o cu por querubins, recebendo uma palma, o smbolo do
martrio. O rosto do escraelingue tinha agora a mesma expresso do santo
naquele quadro: um xtase intenso, uma nsia pelo esquecimento. Lee
soltou-o com desagrado. Hester fez um muxoxo. -Devia ter imaginado que
ele mandaria uma mensagem -disse. -Pegue o anel dele. -Para qu, droga?
No somos ladres; ou somos? -No, somos renegados -disse ela. -No por
escolha nossa, mas por causa da maldade dele. De qualquer maneira
estaremos perdidos quando a Igreja tomar conhecimento do que houve.
Enquanto isso, vamos obter todas as vantagens que pudermos. Ande logo,
pegue o anel e esconda, pode ser que nos seja til. Lee compreendeu que
ela estava com a razo e retirou o anel do dedo do cadver. Perscrutando
a neblina, ele viu que a trilha tinha de um lado um precipcio, e rolou
para l o corpo do escraelingue. Demorou algum tempo at ouvir o impacto
do corpo no solo l embaixo. Lee nunca gostara de violncia e odiava
matar, embora por trs vezes j tivesse sido obrigado a isso. -No
adianta pensar nisso -Hester interveio. -Ele no nos deu uma chance, e
no atiramos para matar. Droga, Lee, ele queria morrer. Essa gente 
louca. #148 -Acho que tem razo -concordou ele, guardando a pistola. No
final da trilha encontraram o guia com os cachorros j arreados e
prontos para a partida. Enquanto partiam de volta para o posto de
embalagem de pescado, Lee perguntou: -Diga-me, Umaq, voc j ouviu falar
de um homem chamado Grumman? -Ah, claro -disse o guia. -Todo mundo
conhece o Dr. Grumman. -Sabia que ele tinha um nome trtaro? -Trtaro,
no. Est falando de Jopari? No  trtaro. -Que foi que aconteceu com
ele? Morreu? -Se o senhor me pergunta isso, eu tenho que dizer que no
sei. Portanto nunca vai saber a verdade por mim. -Entendo. Ento a quem
posso perguntar? -Melhor perguntar na tribo dele. Melhor ir at o
Yenisei, perguntar a eles. -A tribo dele... Est falando dos que o
iniciaram? Que perfuraram o crnio dele? -. Melhor perguntar a eles.
Talvez no morreu, talvez morreu. Talvez nem morto, nem vivo. -Como 
que ele pode estar nem morto nem vivo? -No mundo dos espritos. Talvez
esteja no mundo dos espritos. J falei demais. Agora no falo mais. E
no falou. Mas quando voltaram ao posto, Lee foi logo s docas procurar
um barco que pudesse lev-lo  foz do Yenisei. Enquanto isso, as bruxas
tambm estavam procurando. A Rainha Ruta Skadi da Latvia voou na
companhia de Serafina Pekkala durante muitos dias e noites, atravs da
nvoa e dos #149 redemoinhos, sobrevoando regies devastadas por
enchentes e avalanches. O certo era que estavam num mundo que nenhuma
delas conhecera antes, com ventos estranhos, perfumes estranhos no ar,
grandes pssaros desconhecidos que as atacavam ao v-las e tinham que
ser repelidos com rajadas de flechas; e quando encontravam terra para
fazerem um descanso, as prprias plantas eram estranhas. Mesmo assim
algumas dessas plantas eram comestveis, e havia pequenas criaturas, no
muito diferentes de coelhos, que forneciam uma refeio saborosa, e no
havia carncia de gua. Poderia ser um bom lugar para se morar, se no
fossem as formas espectrais que vagavam como nvoa acima das campinas e
se reuniam perto de regatos ou lagos. Em certas condies de luz elas
quase no apareciam, visveis apenas como uma qualidade da luz, uma
evanescncia rtmica, como vus de transparncia girando diante de um
espelho. As bruxas nunca tinham visto algo assim, e encheram-se de
suspeitas. -Acha que esto vivas, Serafina Pekkala? -perguntou Ruta
Skadi enquanto voavam em crculo nas alturas acima de um grupo daquelas
coisas, que estavam imveis na borda de um trecho de floresta. -Vivas ou
mortas, so cheias de maldade- respondeu Serafina. -Sinto isso daqui. E
no quero chegar mais perto sem saber qual tipo de arma pode acabar com
elas. Os Espectros pareciam presos ao cho, sem o poder de voar, para
sorte das bruxas. Mais tarde, nesse mesmo dia, elas viram o que os
Espectros podiam fazer. Aconteceu junto a um local de travessia de um
rio, onde uma estrada empoeirada cruzava uma ponte baixa de pedra ao
lado de um grupo de rvores. O sol do final da tarde caa em raios
oblquos sobre a campina, realando a cor verde intensa do cho #150 e
um dourado embaciado no ar, e quela rica luz oblqua, as bruxas
avistaram um bando de viajantes demandando a ponte, alguns a p, alguns
em carroas puxadas por cavalos, dois deles cavalgando. No tinham visto
as bruxas, pois no tinham motivo para olhar para cima, mas eram as
primeiras pessoas que as bruxas viam naquele mundo, e Serafina estava
prestes a descer para falar com eles quando se ouviu um grito de alarme.
Veio do cavaleiro que ia  frente. Ele apontava para as rvores, onde as
bruxas viram uma torrente dessas formas espectrais espalhando-se pela
campina, parecendo fluir sem esforo na direo das suas presas -os
viajantes. Todos debandaram. Serafina ficou chocada ao ver o lder dar
meia-volta e fugir galopando, sem ficar para ajudar os companheiros, e o
segundo cavaleiro o imitou, fugindo com toda rapidez em outra direo.
-Voem mais baixo e observem, irms -instruiu Serafina Pekkala. -Mas no
interfiram at eu mandar. Viram que o pequeno bando continha crianas
tambm, algumas viajando nas carroas, outras caminhando ao lado delas.
E estava claro que as crianas no conseguiam ver os Espectros, e os
Espectros no estavam interessados nelas: em vez disso, dirigiam-se para
os adultos. Uma mulher idosa sentada numa carroa segurava duas crianas
no colo, e Ruta Skadi ficou furiosa com a covardia: a mulher tentava
esconder-se atrs delas, empurrando-as para a frente, na direo do
Espectro que se aproximara, como se as oferecesse para salvar a prpria
pele. As crianas desvencilharam-se da mulher e saltaram da carroa, e
agora, como as outras crianas, corriam, assustadas, de um lado para
outro, ou juntavam-se em grupos, chorando, #151 enquanto os Espectros
atacavam os adultos. A anci na carroa logo foi envolvida por um brilho
transparente que se mexia sem parar, alimentando-se de alguma maneira
invisvel que deixou Ruta Skadi doente s de ver. O mesmo destino coube
a todos os adultos do grupo, com exceo dos dois que tinham fugido a
cavalo. Fascinada e horrorizada, Serafina Pekkala desceu ainda mais.
Havia um pai com o filho que tentara atravessar o rio para fugir, mas um
Espectro os alcanara e, enquanto a criana agarrava-se s costas do
pai, chorando, o homem parou, com gua at a cintura, indefeso. O que
estava acontecendo com ele? Serafina pairou acima da gua a poucos
metros de distncia, observando, horrorizada. Ouvira de viajantes de seu
prprio mundo a lenda do vampiro, e pensou nela enquanto observava o
Espectro alimentando-se de... alguma coisa, alguma qualidade que aquele
homem tinha, sua alma, talvez seu daemon; pois naquele mundo,
evidentemente, os daemons ficavam dentro das pessoas. Os braos do homem
perderam as foras e a criana caiu na gua ao lado dele; em vo tentava
segurar a mo do pai, engasgando-se, chorando, mas o homem simplesmente
girou a cabea devagar e ficou olhando, com absoluta indiferena,
enquanto seu filho se afogava ao seu lado. Aquilo era demais para
Serafina. Ela baixou ainda mais e tirou a criana da gua; nisso Ruta
Skadi gritou: -Cuidado, irm! Atrs de voc... E Serafina sentiu por um
instante uma terrvel apatia no corao e estendeu a mo para a mo de
Ruta Skadi, que a puxou para fora do perigo. Voaram mais alto, a criana
gritando, agarrada  sua cintura com dedos fortes, e Serafina viu o
Espectro atrs de si, uma lufada de nvoa girando sobre a #152 gua, sem
dvida procurando sua presa perdida. Ruta Skadi desfechou uma flecha
para o meio daquela coisa, sem qualquer efeito. Serafina colocou a
criana na margem do rio, certificando-se de que ela no corria perigo,
e tornaram a levantar vo. O pequeno bando de viajantes no mais iria
prosseguir viagem; os cavalos pastavam na grama ou sacudiam a cabea por
causa das moscas, as crianas choravam e agarravam-se umas s outras,
observando de longe, e todos os adultos estavam imveis. Tinham os olhos
abertos; alguns estavam de p, embora a maioria tivesse se sentado; e
sobre eles pairava uma terrvel imobilidade. Quando o ltimo dos
Espectros deslizou para longe, saciado, Serafina veio pousar diante de
uma mulher sentada na grama, uma jovem forte e de aparncia saudvel, de
faces vermelhas e cabelos louros brilhantes. -Mulher, est me ouvindo?
-Serafina chamou. No houve resposta -Est me vendo? Sacudiu a mulher
pelo ombro. Com um esforo imenso a mulher ergueu o olhar. Mal parecia
perceber. Tinha os olhos vagos, e quando Serafina beliscou-lhe o brao,
ela simplesmente baixou os olhos devagar e depois desviou-os. As outras
bruxas andavam pelas carroas dispersas, contemplando as vtimas.
Enquanto isso, as crianas reuniam-se numa pequena elevao a certa
distncia, observando as bruxas e cochichando, temerosas. -O cavaleiro
est vigiando -disse uma bruxa. Ela apontou para o lugar onde a estrada
passava por um desfiladeiro entre dois morros. O cavaleiro que fugira
tinha parado ali para olhar para trs, protegendo os olhos com as mos
para melhor enxergar . -Vamos falar com ele- disse Serafina, e lanou-se
ao ar. #153 Apesar do comportamento do homem diante dos Espectros, ele
no era covarde: ao ver as bruxas se aproximando, pegou o rifle e
cutucou o cavalo para que o animal avanasse para a campina onde ele
podia enfrent-las em terreno aberto. Mas Serafina Pekkala pousou
devagar e estendeu o arco  frente antes de coloc-lo no solo diante de
si. Mesmo que esse gesto no existisse ali, seu significado era
inconfundvel. O homem baixou o rifle e esperou, olhando de Serafina
para as outras bruxas, e para os daemons delas, que voavam em crculos
no cu l em cima. Mulheres jovens, de aparncia feroz, vestidas de
farrapos de seda negra e cavalgando ramos de pinheiro pelo cu -no
havia coisa assim no mundo dele, mas ele as enfrentou com uma cautelosa
tranqilidade. Ao chegar mais perto, Serafina viu tambm dor no rosto
dele, e fora. Era difcil conciliar isso com a lembrana da fuga
enquanto os companheiros pereciam. -Quem so vocs? -ele perguntou. -Meu
nome  Serafina Pekkala. Sou a rainha das bruxas do Lago Enara, que fica
em outro mundo. Qual  o seu nome? -Joachim Lorenz. A senhora disse
bruxas? Ento tm trato com o diabo? -Se tivssemos, isso faria de ns
inimigas suas? Ele meditou por alguns instantes e acomodou o rifle sobre
o colo. -Podia ser que sim, h mais tempo, mas os tempos mudaram- disse.
-Por que vieram para este mundo? -Porque os tempos mudaram. Que
criaturas so aquelas que atacaram o seu grupo? -Bem, os Espectros...
-disse ele, dando de ombros, espantado. -No conhecem os Espectros? #154
-Nunca vimos no nosso mundo. Presenciamos a sua fuga, e ficamos sem
saber o que pensar. Agora entendo. -No h defesa contra eles -disse
Joachim Lorenz. -S as crianas esto a salvo. Diz a lei que cada grupo
de viajantes tem que incluir um homem e uma mulher a cavalo, e eles tm
que fazer o que fizemos, seno as crianas no tero quem cuide delas.
Mas os tempos esto difceis agora; as cidades esto repletas de
Espectros, e antes no havia mais que uma dzia em cada lugar. Ruta
Skadi estava olhando em volta. Viu o outro cavaleiro voltando na direo
das carroas, e viu que se tratava, realmente, de uma mulher. As
crianas correram ao encontro dela. -Mas diga-me o que esto procurando
-prosseguiu Joachim Lorenz. -No me respondeu antes. No teriam vindo
sem motivo. Responda agora. -Estamos procurando uma criana, uma menina
do nosso mundo -contou Serafina. -O nome dela  Lyra Belacqua, chamada
tambm Lyra da Lngua Mgica. Mas no fazemos idia de onde ela pode
estar. No viu uma menina desconhecida, sozinha? -No. Mas na outra
noite vimos anjos indo para o Plo. -Anjos? -Batalhes de anjos no ar,
com armaduras brilhantes. Nestes ltimos anos eles no tm sido to
comuns, embora costumassem passar com freqncia atravs deste mundo, no
tempo do meu av; pelo menos era o que ele costumava contar . Protegeu
os olhos com a mo e olhou na direo das carroas. A mulher a cavalo
tinha desmontado e estava consolando algumas crianas. Serafina seguiu o
olhar dele e perguntou: #155 -Se acamparmos com vocs esta noite e
ficarmos montando guarda contra os Espectros, voc nos contar mais
sobre este mundo e os anjos que viu? -Certamente. Venha comigo. As
bruxas ajudaram a levar as carroas para mais adiante na estrada, do
outro lado da ponte e longe das rvores de onde os Espectros tinham
sado. Os adultos atacados tinham que ficar onde estavam, embora fosse
doloroso ver as criancinhas agarradas  me que no mais lhes respondia,
ou puxando a manga do pai que nada dizia e olhava para nada com olhos
vazios. As crianas mais novas no conseguiam entender por que tinham
que abandonar seus pais; as mais velhas, algumas das quais j tinham
perdido os pais e j tinham presenciado esse tipo de coisa, estavam
simplesmente chocadas e emudecidas. Serafina pegou no colo o menininho
que tinha cado no rio e que chamava pelo pai, estendendo a mo por cima
do ombro de Serafina na direo da figura silenciosa ainda parada dentro
da gua, indiferente. Serafina sentia as lgrimas dele na sua pele nua.
A mulher a cavalo, que usava grosseiras calas de lona e cavalgava como
homem, no se dirigiu s bruxas. Tinha uma expresso soturna no rosto.
Levava as crianas, falando-lhes com severidade, ignorando suas
lgrimas. O sol da tarde enchia o ar de uma luz dourada na qual cada
detalhe era claro e nada era ofuscante, e o rosto das crianas, do homem
e da mulher pareciam tambm imortais, fortes e belos. Mais tarde,
enquanto as brasas de uma fogueira brilhavam num crculo de pedras sujas
de cinza e os grandes montes eram tranqilos ao luar, Joachim Lorenz
contou a Serafina e Ruta Skadi a histria do seu mundo. #156 J tinha
sido um mundo feliz. As cidades eram espaosas e elegantes, os campos
eram frteis e bem cuidados. Navios mercantes percorriam os mares azuis
e pescadores traziam redes repletas de bacalhau e atum, perca e tainha;
nas florestas a caa abundava, e nenhuma criana passava fome. Nas
alamedas e praas das grandes cidades, embaixadores do Brasil e de
Benin, da Irlanda e da Coria misturavam-se a vendedores de tabaco, a
atores de comdia de Brgamo, a vendedores de bilhetes da sorte. A
noite, amantes mascarados encontravam-se sob os caramanches de rosas ou
nos jardins iluminados por lamparinas, e o ar recendia a jasmim e
vibrava com a msica das cordas do mandarone.* As bruxas escutavam de
olhos arregalados aquela histria de um mundo to parecido com o seu, no
entanto to diferente. -Mas no deu certo -ele continuou. -H 300 anos
alguma coisa saiu errada. Algumas pessoas acham que a Liga dos filsofos
da Torre degli Angeli, a Torre dos Anjos, na cidade que acabamos de
deixar,  a culpada. Outros dizem que foi um castigo por algum grande
pecado, embora eu nunca tenha encontrado concordncia a respeito de qual
seria esse pecado. Mas de repente, do nada, surgiram os Espectros, e
desde ento somos caados. Vocs viram o que eles podem fazer; agora
imaginem o que  viver num mundo com Espectros. Como podemos prosperar,
quando no podemos confiar que alguma coIsa contInue como era? A
qualquer momento um pai pode ser atacado, ou uma me, e a famlia se
desagrega; um mercador pode ser atacado, e sua empresa fracassa, e todos
os seus funcionrios perdem o emprego; e *Mandarone -instrumento
provavelmente imaginrio; nenhuma referncia foi encontrada. [N.T.] #157
como os amantes podem confiar em seus votos de amor? Toda a confiana e
toda a virtude abandonaram o nosso mundo quando os Espectros chegaram.
-Quem so esses filsofos? -Serafina quis saber. - E onde fica essa
Torre? -Na cidade que acabamos de deixar, Cittgazze. A cidade das
gralhas. Sabe por que tem esse nome? Porque as gralhas roubam, e  s
isso que podemos fazer agora. Nada criamos, nada construmos h centenas
de anos, tudo que podemos fazer  roubar de outros mundos. Ah, sim,
temos conhecimento dos outros mundos. Aqueles filsofos da Torre degli
Angeli descobriram tudo que precisamos saber sobre o assunto. Eles tm
um feitio que, quando algum o pronuncia, consegue atravessar uma porta
que no existe, e passa para outro mundo. Alguns dizem que no  um
feitio, mas uma chave que consegue abrir at mesmo quando no h
fechadura. Quem sabe? Seja como for, isso deixou os Espectros entrarem.
E os filsofos ainda o usam, pelo que sei. Eles passam para outros
mundos, roubam deles e trazem de volta o que encontram. Ouro e jias, 
claro, mas outras coisas tambm, como idias, sacos de milho, lpis. So
a fonte de toda a nossa riqueza, essa Liga de ladres -arrematou com
amargura. -Por que os Espectros no fazem mal s crianas? - quis saber
Ruta Skadi. -Este  o maior mistrio de todos. Na inocncia das crianas
existe algum poder que repele os Espectros da Indiferena. Mas  mais
que isso. As crianas simplesmente no os enxergam, embora no possamos
entender por qu. Nunca conseguimos. Mas so comuns os rfos dos
Espectros, como vocs podem imaginar; crianas cujos pais foram
atacados. Elas se juntam e andam por a em bandos, e s vezes alugam-se
para #158 os adultos, para procurar comida e suprimentos em reas cheias
de Espectros, e s vezes simplesmente vagueiam sem rumo, saqueando. Ele
fez uma pausa, depois continuou: -Assim  o nosso mundo. Ah, ns
conseguimos viver com essa maldio. Eles so verdadeiros parasitas: no
matam a sua presa, embora retirem dela quase toda a vida. Mas havia um
certo equilbrio at recentemente, at a grande tempestade. Foi uma
fortssima tempestade; parecia que o mundo inteiro estava rachando e se
esfacelando; ningum se lembra de ter visto uma igual. Depois veio a
nvoa que durou muitos dias e cobriu todo o mundo que conhecemos, e
ningum podia viajar; e quando a nvoa clareou, as cidades estavam
cheias de Espectros, centenas e milhares deles. Ento fugimos para as
montanhas e para o mar, mas desta vez no h como escapar deles, onde
quer que agente v. Como vocs mesmas viram. Agora  a sua vez:
contem-me como  o seu mundo e por que o deixaram para vir para este.
Serafina contou-lhe toda a verdade -ele era um homem honesto, e no era
necessrio esconder qualquer coisa dele. Ele escutou com ateno,
sacudindo a cabea de espanto, e disse, quando ela terminou: -Eu lhes
falei do poder que dizem que tm os nossos filsofos de abrir o caminho
para outros mundos; bem, algumas pessoas acham que eles ocasionalmente
deixam uma porta aberta, por esquecimento; eu no ficaria surpreso se de
tempos em tempos viajantes de outros mundos encontrassem o caminho para
c. Sabemos que os anjos passam, afinal. -Anjos? -repetiu Serafina
Pekkala. -Voc j os mencionou. Nunca ouvimos falar em anjos. Quem so
eles? -Quer saber sobre anjos? Muito bem. Eles se do o nome de bene
elim, segundo eu soube. Algumas pessoas os #159 chamam de Vigilantes.
No so seres de carne como ns, so seres de esprito; ou talvez a
carne deles seja mais etrea que a nossa, mais leve e mais clara, no
sei dizer; mas no so como ns. Transportam mensagens dos cus, esta 
a misso deles. As vezes os vemos no cu, passando atravs deste mundo a
caminho de outro, brilhando como vaga-lumes bem l no alto. Numa noite
sossegada, pode-se at ouvir o ruflar das asas deles. Eles tm
preocupaes diferentes das nossas, embora nos tempos antigos eles
descessem e tratassem com homens e mulheres, e tambm se acasalassem
conosco, dizem alguns. Joachim Lorenz respirou fundo e continuou: -E
quando veio a nvoa, depois da grande tempestade, eu estava encurralado
nas montanhas atrs da cidade de Sant'Elia, a caminho da minha casa.
Refugiei-me na choupana de um pastor junto a uma nascente ao lado de um
bosque de btulas, e durante toda a noite ouvi vozes acima de mim na
neblina, gritos de susto e raiva, e batidas de asas, tambm, mais perto
do que eu jamais tinha ouvido antes; e perto do amanhecer ouvi o som de
combate, o silvar de flechas e o clangor de espadas. Mas no ousei sair
para investigar, pois tive medo, embora estivesse muito curioso. Eu
estava inteiramente apavorado, se querem saber. Quando o cu ficou to
claro quanto poderia ficar naquela nvoa, aventurei-me a olhar para fora
e vi uma figura enorme cada, ferida, perto da nascente. Sentia que eu
estava vendo coisas que no tinha o direito de ver: coisas sagradas.
Tive que desviar os olhos, e quando tornei a olhar, a figura tinha
sumido. Em seguida, ele continuou: -Foi o mais perto que j estive de um
anjo. Mas como lhes contei, ns os vimos outra noite, bem no alto, entre
as estrelas, indo para o Plo, como uma frota de poderosos navios #160
de guerra... Alguma coisa est acontecendo, e aqui embaixo no sabemos o
que pode ser. Poderia ser uma guerra prestes a explodir. Certa vez houve
uma guerra no cu, h milhares de anos, mas no sei qual foi o desfecho
dela. No seria impossvel haver outra. Mas a destruio seria enorme, e
as conseqncias para ns... No consigo sequer imaginar. Ele se ergueu
para avivar o fogo. -Embora esse desfecho possa ser melhor do que eu
imagino -continuou. -Pode ser que uma guerra no cu leve os Espectros
deste mundo de volta para o fosso de onde saram. Que bno seria, ah,
como viveramos felizes, livres dessa praga terrvel! No entanto,
Joachim Lorenz, a contemplar as chamas, parecia tudo, menos esperanoso.
A luz tremeluzente lanava sombras que se moviam em seu rosto, mas no
modificavam a expresso de suas feies; ele parecia triste e soturno.
Ruta Skadi perguntou ento: -O Plo, senhor. Disse que esses anjos iam
para o Plo; sabe por que fariam isso?  l que fica o cu? -No sei.
No sou um homem erudito, isso se percebe facilmente. Mas o Norte do
nosso mundo, bem, dizem que l  a morada dos espritos. Se os anjos
estivessem se reunindo,  para l que iriam, e se pretendessem atacar o
cu, acho que  l que construiriam sua fortaleza, de onde partiriam
para o ataque. Ele ergueu os olhos e as bruxas seguiram o seu olhar. As
estrelas neste mundo eram as mesmas do mundo delas: a Via Lctea
brilhava cruzando o domo do cu, e inmeros pontos de luz empoeiravam a
escurido, e seu brilho quase se igualava ao da lua... -Senhor, j ouviu
falar no P? -Serafina quis saber. #161 -P? Imagino que est falando
outra coisa, no da poeira das estradas. No, nunca ouvi. Mas vejam, l
vai uma tropa de anjos... Ele apontou para a constelao de Ofico. E
realmente, alguma coisa se movia atravs dela -um pequeno grupo de seres
iluminados. E eles no vagavam a esmo, mas moviam-se com o vo
determinado dos gansos ou dos cisnes. Ruta Skadi ficou de p. -Irm, 
hora de me separar de voc -disse ela a Serafina. -Vou subir l e falar
com esses anjos, seja l o que forem eles. Se vo at Lorde Asriel, irei
com eles. Se no, vou continuar procurando sozinha. Obrigada pela sua
companhia, e boa sorte. Beijaram-se, e Ruta Skadi pegou seu ramo de
pinheiro-nubgeno e saltou para o ar. Seu daemon Sergi, um rouxinol
acompanhou-a. -Vamos voar alto? -ele perguntou. -At a altura daqueles
voadores luminosos em Ofico. Eles esto indo depressa, Sergi. Vamos
alcan-los! Ela e o daemon subiram velozmente, voando mais depressa do
que fagulhas de uma fogueira, o ar soprando atravs dos raminhos do seu
galho de pinheiro-nubgeno e seus cabelos negros como uma esteira atrs
dela. Ela no tornou a olhar para a pequena fogueira na imensa
escurido, para as crianas adormecidas e para as bruxas suas
companheiras; aquela etapa da viagem estava encerrada e, de mais a mais,
aquelas criaturas brilhantes  frente dela ainda no estavam mais
prximas, e no mantivesse os olhos fixos nelas, poderia facilmente
perd-las naquele enorme cenrio de estrelas reluzentes. De modo que ela
continuou voando sem perder os anjos de vista, e,  medida que se
aproximava deles, passou a v-los mais claramente. #162 Eles brilhavam,
no como se estivessem ardendo, mas como se, onde quer que estivessem e
por mais escura que fosse a noite, a luz do sol brilhasse neles. Eram
como os humanos, porm com asas, e muito mais altos; como estavam nus, a
bruxa conseguia ver que trs deles eram do sexo masculino e dois do sexo
feminino. As asas nasciam nas omoplatas, e tinham o trax bastante
musculoso. Ruta Skadi ficou atrs deles por algum tempo, observando,
avaliando a fora deles, caso fosse necessrio combat-los. No estavam
armados, mas por outro lado estavam voando com facilidade por seu
prprio poder, e poderiam at voar mais depressa que ela se houvesse uma
perseguio. Preparando o arco por via das dvidas, ela avanou e passou
a voar ao lado deles, gritando: -Anjos! Parem e me escutem! Sou a bruxa
Ruta Skadi, e quero falar com vocs. Eles se viraram. Suas grandes asas
bateram para dentro, diminuindo a velocidade, e os corpos tomaram a
posio vertical at ficarem em p no ar, mantendo a posio atravs de
curtos movimentos das asas. Rodearam-na, cinco figuras enormes brilhando
no ar escuro, acesas por um sol invisvel. Ela olhou em volta, sentada
em seu galho de pinheiro-nubgeno, orgulhosa e destemida, embora seu
corao batesse forte com a estranheza de tudo aquilo, e seu daemon
aproximou-se e sentou-se perto do calor do seu corpo. Cada anjo era um
indivduo em separado, no entanto tinha mais coisas em comum com os
outros anjos do que com qualquer humano que ela tivesse conhecido. O que
tinham em comum era uma manifestao brilhante e dinmica de
inteligncia e sentimento, que parecia dominar todos eles
simultaneamente. Estavam nus, mas ela se sentiu nua sob o olhar deles,
to penetrante, indo to fundo. #163 Mesmo assim ela no se envergonhava
do que era, de modo que retribuiu de cabea ergui da o olhar deles.
-Ento vocs so anjos -disse. -Ou Vigilantes, ou bene elim. Aonde vo?
-Estamos atendendo a um chamado -disse um. Ela no tinha certeza de qual
deles tinha falado. Poderia ter sido qualquer um, ou todos ao mesmo
tempo. -Chamado de quem? -ela perguntou. -De um homem. -De Lorde Asriel?
-Poderia ser. -Por que esto fazendo isso? -Porque queremos -foi a
resposta. -Ento, onde quer que ele esteja, vocs podem me levar at ele
-ela ordenou. Ruta Skadi tinha 416 anos e todo o orgulho e o
conhecimento de uma bruxa-rainha adulta. Era muito mais sbia do que
qualquer humano vida-curta, mas no tinha a menor idia de como parecia
infantil ao lado daqueles seres imemoriais. Tampouco imaginava at que
ponto a conscincia deles se espalhava alm dela como tentculos at os
cantos mais remotos de universos nunca sonhados por ela; e tampouco que
os enxergava como formas humanas simplesmente porque seus olhos
esperavam isso; se fosse perceb-los em sua forma verdadeira, eles
pareceriam mais uma arquitetura do que um organismo, como imensas
estruturas compostas de inteligncia e sentimento. Mas eles esperavam
isso mesmo -afinal, ela era muito Jovem. Imediatamente bateram as asas e
saltaram para a frente, e ela disparou com eles, surfando na turbulncia
que essas asas #164 causavam no ar e adorando a velocidade e a fora que
isso conferia ao seu vo. Voaram durante toda a noite. As estrelas
giravam ao seu redor, e desmaiavam e desapareciam  medida que a aurora
subia do leste. O mundo explodiu em luz quando a borda do sol apareceu,
e ento passaram a voar atravs de um cu azul e um ar claro, fresco,
doce e mido. A luz do dia, os anjos eram menos visveis, embora a sua
singularidade ficasse bvia para qualquer um. A luz que permitia que
Ruta Skadi os visse ainda no era a do sol que agora se erguia no cu,
mas alguma outra luz, vinda de outro lugar. Incansavelmente voaram, e
incansavelmente ela os acompanhava. Sentia uma alegria intensa possu-la
por poder ter  sua disposio aquelas presenas imortais. E alegrava-se
por seu sangue e sua carne, pela spera casca de pinheiro-nubgeno que
ela sentia perto da pele, alegrava-se porque seu corao batia e pela
vida de todos os seus sentidos, pela fome que agora estava sentindo e
pela presena de seu daemon rouxinol de voz to doce, e pela terra l
embaixo e pela vida de cada criatura, tanto planta quanto animal; e
deliciava-se em ser da mesma substncia daquilo tudo, e em saber que,
quando morresse, sua carne iria nutrir outras vidas como elas a tinham
nutrido. E alegrava-se, tambm, por estar indo ver novamente Lorde
Asriel. Outra noite chegou, e os anjos continuavam a voar. E em certo
momento a qualidade do ar mudou, no para pior ou melhor, mas mudou, e
Ruta Skadi percebeu que tinham sado daquele mundo e entrado em outro.
Como isso acontecera, ela no tinha a menor idia. -Anjos! -chamou,
quando sentiu a mudana. - Como foi que deixamos o mundo onde os
encontrei? Onde fica a fronteira? #165 -Existem no ar lugares
invisveis, portas para outros mundos -foi a resposta. -Podemos v-los,
voc no. Ruta Skadi no conseguiu enxergar a porta invisvel, e nem era
necessrio: as bruxas conseguiam orientar-se melhor que os pssaros.
Assim que o anjo falou, ela fixou sua ateno em trs picos pontiagudos
l embaixo, memorizando sua configurao exata. Agora poderia encontrar
de novo a porta, se precisasse, apesar do que os anjos pudessem pensar.
Continuaram voando, e finalmente ela ouviu uma voz de anjo: -Lorde
Asriel est neste mundo, e ali vemos a fortaleza que ele est
construindo... Estavam voando mais devagar, fazendo crculos no cu como
guias. Ruta Skadi olhou para onde um anjo apontava. O primeiro albor
tingia o leste, embora todas as estrelas acima brilhassem com a
intensidade de sempre contra o veludo profundamente negro dos cus. E na
prpria borda do mundo, onde a luz aumentava a cada momento, uma grande
serra erguia seus picos -aguados picos de pedra negra, poderosas lajes
irregulares e cristas serrilhadas empilhadas caoticamente, como runas
de uma catstrofe universal. Mas no ponto mais alto, que enquanto ela
olhava foi tocado e delineado pelos primeiros raios do sol matinal,
havia uma estrutura: uma imensa fortaleza cujas amei as eram formadas
por lajes do basalto com a metade da altura de um monte, e cuja extenso
s podia ser medida em termos de tempo de vo. Sob essa fortaleza
colossal, ardiam fogueiras e chamins soltavam fumaa na escurido do
incio do amanhecer e, a muitos quilmetros de distncia, Ruta Skadi
ouviu o clangor de martelos e o rudo de grandes oficinas. E de todas as
direes ela via grupos de anjos voando para l, e no apenas anjos, mas
#166 mquinas tambm; naves com asas de ao deslizando como albatrozes,
cabines de vidro sob tremeluzentes asas de liblulas, zepelins que
zumbiam como enormes abelhas -todos na direo da fortaleza que Lorde
Asriel estava construindo nas montanhas no fim do mundo. -Lorde Asriel
est l? -ela perguntou. -Est, sim -responderam os anjos. -Ento vamos
voar ao encontro dele. Vocs precisam ser minha guarda de honra.
Obedientemente eles abriram as asas e partiram na direo da fortaleza
orlada de dourado, com a ansiosa bruxa voando  frente. #167 7 O ROLLS
ROYCE Lyra acordou cedo; a manh era clida e quieta, como se a cidade
nunca tivesse tido outra estao alm daquele calmo vero. Ela saltou da
cama, desceu a escada e, ao ouvir vozes de crianas na praia, saiu para
ver o que elas estavam fazendo. Em frente ao porto ensolarado, trs
meninos e uma menina em dois pedalinhos apostavam corrida na gua em
direo aos degraus. Ao verem Lyra, interromperam acorrida, mas logo
voltaram a ela. Os vencedores bateram nos degraus com tanta fora, que
um deles caiu na gua, e depois tentou subir para o outro pedalinho,
virando-o; ficaram todos brincando dentro d'gua como se o terror da
noite anterior nunca tivesse acontecido. Pareciam mais novas do que a
maioria das crianas que estavam junto  torre. Lyra juntou-se a elas na
gua, com Pantalaimon a seu lado na forma de peixinho brilhante. Ela
nunca tivera dificuldades em se relacionar com outras crianas, e logo
estavam todas reunidas em volta dela, sentadas em poas d'gua na pedra
quentinha, suas camisas secando rapidamente sob o sol. O pobre
Pantalaimon #168 teve que voltar para o bolso dela, em forma de sapo,
por causa do pano molhado e frio. -Que  que vocs vo fazer com aquela
gata? -Vocs conseguem mesmo tirar o azar? -De onde vocs vieram? -O seu
amigo, ele no tem medo dos Espectros? -O Will no tem medo de nada
-Lyra afirmou. - Nem eu. Por que vocs tm medo de gatos? -No sabe?
-perguntou o menino mais velho em tom incrdulo. -Os gatos, eles tm o
diabo dentro, tm mesmo.  preciso matar todo gato que aparecer. Eles
mordem, colocam o diabo dentro da gente, tambm. E o que voc estava
fazendo com aquele bicho enorme? Ela compreendeu que ele estava falando
de Pantalaimon em forma de leopardo, e sacudiu a cabea inocentemente.
-Voc deve ter sonhado -disse. -As coisas ficam diferentes ao luar. Mas
eu e Will, de onde a gente vem no tem Espectros, de modo que no
sabemos muita coisa sobre eles. -Se voc no consegue ver os Espectros,
tudo bem, voc est segura -explicou um garoto. -Mas se vir, pode ficar
sabendo que eles vo te pegar. Foi o que papai disse, e depois pegaram
ele. Daquela vez ele nem viu eles. -E eles esto aqui em volta de ns
agora? - -disse a menina. Ela estendeu a mo e agarrou um punhado de
ar, bradando: -Peguei um! -Eles no conseguem nos machucar -disse um dos
garotos. -E ns no podemos machucar eles, tambm. -E sempre teve
Espectros neste mundo? -Lyra quis saber . -- disse um dos meninos. Mas
o outro o desmentiu: #169 -Nada disso! -retrucou a menina. -Minha av
disse que eles vieram porque as pessoas eram ms e Deus mandou eles para
nos castigar . -A sua av no sabe de nada -disse um menino. - Ela tem
barba, a sua av. Igual a um bode. -Que negcio  esse de Liga? -Lyra
insistiu. -Sabe a Torre degli Angeli, a torre de pedra? Certo, ela
pertence  Liga, e tem um lugar secreto l. A Liga, eles l sabem todo
tipo de coisa. Filosofia, alquimia, todo tipo de coisa eles sabem. E
foram eles que deixaram os Espectros entrarem. -Isso no  verdade
-disse outro menino. -Eles vieram das estrelas. -, sim! Foi isso mesmo
que aconteceu: um sujeito da Liga, h muitos sculos, estava separando
um metal. Chumbo. Ele ia transformar em ouro. Cortou, cortou cada vez
menor at que ficou o menor pedao que ele conseguiu fazer. No existe
nada menor. To pequeno que a gente nem consegue enchergar. Mas ele
cortou esse pedao tambm, e dentro do pedacinho mais pequenininho era
onde estavam todos os Espectros juntos, enrolados e dobrados, to
apertados que quase no ocupavam lugar. Mas depois que ele cortou, bum!
Eles saram todos, e esto por a at hoje. Foi o que o meu pai me
contou. -Tem algum homem da Liga na torre agora? -Lyra perguntou. -No!
Eles fugiram como todo mundo -contou a menIna. -No tem ningum na
torre.  mal-assombrado, aquele lugar- declarou um menino. -Foi por isso
que a gata veio #170 de l. A gente no entra l, de jeito nenhum.
Nenhuma criana vai l. D medo. -Os homens da Liga no tm medo de
entrar l - comentou outro. -Eles devem ter uma mgica especial, ou
coisa assim. So ambiciosos, vivem s custas dos pobres -disse a menina.
-Os pobres trabalham e os homens da Liga vivem l de graa. -Mas no tem
ningum na torre agora? -Lyra perguntou. -Nenhum adulto? -No tem nenhum
adulto na cidade inteira! -Eles no tm coragem, de jeito nenhum. Mas
ela havia visto um rapaz l em cima. Tinha certeza. E havia alguma coisa
no jeito daquelas crianas falarem: como mentirosa experiente, Lyra
reconhecia outros mentirosos, e sabia que aquelas crianas estavam
escondendo alguma coisa. E de repente ela se lembrou: o pequeno Paolo
tinha dito que ele e Anglica tinham um irmo mais velho, Tullio, que
tambm estava na cidade, e Anglica tinha mandado o menino se calar... O
rapaz que ela viu poderia ser esse irmo? As crianas foram buscar os
pedalinhos para traz-los de volta  praia, e Lyra voltou a entrar para
fazer caf e verificar se Will estava acordado. Mas ele ainda dormia,
com agata enrodilhada a seus ps, e Lyra estava impaciente para visitar
novamente a sua Catedrtica; portanto, escreveu um bilhete e deixou-o no
cho junto  cama dele, depois pegou a mochila e saiu para procurar a
janela. O caminho que tomou levou-a atravs da pracinha que tinham visto
na vspera. Estava vazia agora, e o sol batia na fachada da torre,
ressaltando os entalhes ao lado da porta: figuras humanas com asas
dobradas, as feies erodidas por sculos de exposio ao tempo, mas de
alguma forma, em sua #171 imobilidade, exprimindo poder, compaixo e
fora intelectual. -Anjos -fez Pantalaimon, um grilo no ombro dela.
-Talvez Espectros -retrucou ela. -No! Eles disseram que isto a 
alguma coisa "angeli" -ele insistiu. -Aposto que quer dizer anjos.
-Vamos entrar? - Olharam para a grande porta de carvalho com suas
ferragens negras; a meia dzia de degraus que levavam a ela estavam
muito gastos, e a prpria porta estava ligeiramente aberta. Nada havia
para impedir que Lyra entrasse, a no ser seu prprio medo. Ela subiu os
degraus p ante p e espiou pela abertura. Tudo que conseguia enxergar
era um saguo escuro, com piso de pedra, e s uma parte dele; mas
Pantalaimon esvoaava ansiosamente em seu ombro, exatamente como tinha
feito quando ela trocara os crnios na cripta da Universidade Jordan, e
agora ela era um pouco mais esperta. Aquele era um lugar ruim. Lyra
desceu correndo os degraus e saiu da praa rumando para o sol brilhante
da avenida de palmeiras. E, assin que se certificou de que ningum
estava olhando, atravessou a janela e entrou na Oxford de Will. Quarenta
minutos depois, Lyra estava mais uma vez dentro do prdio da Fsica,
discutindo com o porteiro; mas dessa vez tinha um trunfo. -Pergunte 
Dra. Malone -disse em voz doce. - Basta fazer isso. Pergunte a ela. O
porteiro pegou o telefone, apertou alguns botes e falou, enquanto Lyra
observava com pena: ele no tinha sequer uma guarita para ficar, como
qualquer universidade na Oxford #172 de verdade; s um grande balco de
madeira, como se aquilo fosse uma loja. -Est certo -disse o porteiro,
virando-se para Lyra. -Ela disse para subir. No v para outro lugar.
-No vou, no -disse ela em tom obediente, como uma menina boazinha
fazendo o que lhe mandavam. No alto da escada, porm, ela teve uma
surpresa, pois, quando estava passando por uma porta com um desenho de
uma mulher, a porta se abriu e ali estava a Dra. Malone, chamando-a com
gestos. Ela entrou, intrigada. Ali no era o laboratrio, era um
banheiro, e a Dra. Malone estava nervosa. -Lyra, tem gente l no
laboratrio, policiais ou coisa assim, eles sabem que voc veio me
visitar ontem, no sei o que esto procurando, mas no gostei. O que 
que est acontecendo? -Como  que eles sabem que eu vim? -No sei! Eles
no sabem o seu nome, mas eu compreendi de quem eles estavam falando...
-Ah, bom, a gente pode mentir para eles.  fcil. Uma voz de mulher
chamou do corredor: -Dra. Malone, viu a menina? -Vi, sim -respondeu a
Dra. Malone. -Eu estava mostrando a ela onde era o banheiro... Lyra
achou que no havia necessidade de ficar to nervosa, mas talvez a
mulher no estivesse acostumada com o perigo. A mulher no corredor era
jovem e estava muito bem vestida, e tentou sorrir quando Lyra saiu, mas
seus olhos continuaram hostis e cheios de suspeita. -Ol! Voc  a Lyra,
no ? -Sou, sim. Qual  o seu nome? #173 -Sou a sargento Clifford.
Entre aqui. Lyra achou que a outra era muito cara-de-pau, agindo como se
o laboratrio fosse seu, mas assentiu humildemente. Foi o momento em que
sentiu o primeiro espasmo de arrependimentO. Sabia que no devia estar
ali; sabia o que o aletmetro queria que ela fizesse, e no era aquilo.
Indecisa, ficou parada  porta. No aposento j estava um homem alto e
corpulento, de sobrancelhas brancas. Lyra conhecia a aparncia de um
Catedrtico, e nenhum daqueles dois se parecia com um. -Entre, Lyra-
disse a Sargento Clifford. -Est tudo bem. Este  o Inspetor Walters.
-Ol, Lyra- fez o homem. -A Dra. Malone j me falou muito de voc.
Gostaria de lhe fazer umas perguntas, se voc no se importa. -Que tipo
de perguntas? -Nada difcil- disse ele, sorrindo. -Entre e sente-se
Lyra. Ele empurrou uma cadeira na direo dela; a menina sentou-se
cautelosamente e ouviu a porta se fechar. A Dra. Malone estava de p
perto dela. Pantalaimon, em forma de grilo no bolso de Lyra, estava
agitado: ela o sentia de encontro ao seu peito, e esperava que o tremor
dele no fosse visvel. Mandou-lhe um pensamento para ficar quieto. -De
onde voc vem, Lyra? -perguntou o Inspetor Walters. Se ela respondesse
"de Oxford", eles poderiam checar facilmente. Mas no poderia dizer "de
outro mundo"; aquelas pessoas eram perigosas, iam querer saber mais.
Lyra pensou no nico nome que conhecia nesse mundo: o lugar de onde Will
tinha vindo. .. #174 -De Winchester -respondeu. -Voc esteve brigando,
no esteve, Lyra? -perguntou o inspetor. -Onde arranjou esses
machucados? Tem uma equimose no rosto, outra na perna... Algum andou
batendo em voc? -No -disse Lyra. -Voc estuda, Lyra? -Estudo, sim. De
vez em quando -acrescentou. -No devia estar na escola hoje? Ela no
respondeu. Sentia-se cada vez mais inquieta. Olhou para a Dra. Malone,
cujo rosto estava tenso e infeliz. -Vim visitar a Dra. Malone -disse
Lyra. -Est hospedada em Oxford, Lyra? Onde est hospedada? -Com umas
pessoas -disse ela. -Uns amigos. -Qual  o endereo deles? -No sei
exatamente como se chama o lugar. Sei chegar l, mas no me lembro do
nome da rua. -Quem so essas pessoas? -Uns amigos do meu pai, s isso.
-Ah, entendo. Como foi que conheceu a Dra. Malone? -Porque meu pai 
fsico e conhece ela. Ela achava que as coisas estavam ficando mais
fceis; comeou a relaxar e a mentir com mais fluncia. -E ela lhe
mostrou o que estava fazendo, no foi? -Foi. O motor com a tela... ,
isso tudo. -Voc est interessada nesse tipo de coisa? Cincia, coisas
assim? -. Especialmente a fsica. -Vai ser cientista quando crescer?
#175 Aquele tipo de pergunta merecia como resposta um olhar
inexpressivo, e foi o que recebeu. O homem no se perturbou: com seus
olhos claros olhou de relance para a outra mulher, depois para Lyra. -E
ficou surpresa com o que a Dra. Malone lhe mostrou? -Bem, mais ou menos,
eu j esperava. -Por causa do seu pai? -. Porque ele est fazendo o
mesmo tipo de trabalho. -Ah, sei. Voc compreende esse trabalho? -S uma
parte. -Ento seu pai est estudando a matria escura? -. -Est to
adiantado quanto a Dra. Malone? -No do mesmo jeito. Algumas coisas ele
faz melhor, mas o motor com as palavras na tela, isso ele no tem. -Will
tambm est hospedado com os seus amigos? -, ele... Ela se calou,
sabendo que tinha acabado de cometer um erro terrvel. Eles tambm
perceberam, e no mesmo instante ficaram de p para impedir que ela
fugisse, mas a Dra. Malone estava no caminho e a sargento tropeou e
caiu, bloqueando a passagem do inspetor. Isso deu a Lyra tempo para sair
correndo, bater a porta atrs de si e disparar para a escada. Dois
homens de jaleco branco saram de uma porta e ela trombou com eles, e de
repente Pantalaimon era um corvo a grasnar e bater asas, assustando
tanto os dois que eles recuaram; ela desvencilhou-se das mos deles e
disparou escada abaixo, chegando  portaria no mesmo instante em que o
porteiro desligava o telefone e saa em sua direo chamando: #176 -Ei!
Pare a! Ei, voc! Mas o pedao do tampo do balco que ele tinha que
levantar para sair ficava na outra extremidade, e ela chegou  porta
giratria antes que ele conseguisse peg-la. Atrs dela, as portas do
elevador se abriram, e delas irrompeu o homem de cabelos claros, to
forte e to veloz... E a porta no girava! Pantalaimon grasnou para ela:
estava empurrando para o lado errado! Ela soltou um grito de medo e
virou-se para a outra parede divisria, jogando seu corpinho leve contra
o vidro pesado, querendo com todas as suas foras que ela girasse;
conseguiu mov-la bem a tempo de evitar que o porteiro a agarrasse. O
porteiro estava no caminho do homem de cabelos claros, de modo que Lyra
conseguiu sair e afastar-se antes que este sasse pela porta. Ela
atravessou a rua -ignorando os carros, as freadas e os pneus cantando -e
entrou num beco entre prdios altos, depois virou em outra rua com
carros indo em ambas as direes, mas ela foi rpida, desviando-se das
bicicletas, sempre com o homem de cabelos claros logo atrs dela -to
apavorante! Entrou num jardim, saltou uma cerca e atravessou um
bosquezinho de arbustos, com Pantalaimon, em forma de pssaro,
esvoaando acima da sua cabea, indicando-lhe o caminho; depois Lyra
agachou-se atrs de um recipiente de guardar carvo enquanto ouvia o
homem de cabelos claros passar correndo -ele nem sequer estava ofegando,
era muito veloz e estava em tima forma! Pantalaimon instruiu: -Agora
volte para aquela rua... Ela esgueirou-se para fora de seu esconderijo e
atravessou de volta o gramado do jardim, saiu pelo mesmo porto e #177
encontrou-se outra vez na amplido da Rua Banbury; mais uma vez
atravessou a rua e mais uma vez OUVIU pneus cantando; e ento entrou
correndo na Norham Gardens, uma rua tranqila, orlada de rvores, com
altas casas vitorianas, perto do Parque. Ela parou para recuperar o
flego. Havia uma cerca-viva alta diante de um dos jardins, tendo 
frente uma mureta, e ali ela se sentou, enfiando-se o mais que pde sob
os alfeneiros. -Ela nos ajudou! -disse Pantalaimon. -A Dra. Malone
atrapalhou eles! Ela est do nosso lado, no do deles! -Ah, Pan, eu no
devia ter dito aquilo do Will... Eu devia ter sido mais cuidadosa...
-No devia ter vindo -disse ele severamente. -Eu sei. Isso, tambm...
Mas no teve tempo de se lamentar, pois Pantalaimon esvoaou para seu
ombro, dizendo: -Cuidado, atrs de voc... E imediatamente
transformou-se outra vez em grilo e mergulhou no bolso dela. Ela
levantou-se, pronta para correr, e viu um sed azul-escuro deslizando
silenciosamente para junto da calada. A menina preparou-se para fugir,
mas a janela traseira do carro desceu e por ela assomou um rosto que ela
reconheceu. -Lizzie! -fez o velho do museu. -Que bom ver voc de novo!
Posso lhe dar uma carona? Ele abriu a porta e recuou para dar lugar a
ela ao seu lado. Pantalaimon mordiscou-lhe a pele atravs do pano fino,
mas ela entrou imediatamente, agarrada  mochila, e o homem,
inclinando-se sobre ela, fechou a porta do carro. -Parece que voc est
com pressa -disse. -Aonde quer ir? #178 -Para Summertown, por favor. O
motorista usava um quepe pontudo. Tudo naquele carro era bonito, macio e
poderoso, e o cheiro da gua-de-colnia do homem era forte naquele
espao fechado. O carro afastou-se da calada sem o menor rudo. -Ento,
que foi que voc andou fazendo, Lizzie? - perguntOU o velho. -Descobriu
mais alguma coisa sobre aqueles crnios? - -disse ela, virando-se para
olhar para a janela traseira. No havia sinal do homem de cabelos
claros. Ela conseguira escapar! E ele nunca a encontraria, agora que ela
estava em segurana num carro poderoso, com um homem rico como aquele.
Lyra teve uma breve sensao de triunfo. -Eu tambm fiz algumas
pesquisas -ele disse. -Um antroplogo meu amigo me disse que eles tm
muitos outros alm dos que esto em exibio. Alguns so realmente muito
antigos. De Neandertal, sabia? -. foi o que eu soube tambm -disse
Lyra, sem ter a menor idia do que ele estava falando. -E como vai o seu
amigo? -Qual amigo? -perguntou Lyra, assustada; tinha contado a ele
tambm sobre Will? -Onde voc est hospedada. -Ah, a minha amiga. Ela
vai muito bem, obrigada. -O que  que ela faz?  arqueloga? -No, ...
fsica. Estuda a matria escura -disse Lyra, ainda um pouco
descontrolada. Naquele mundo era mais difcil contar mentiras do que ela
havia imaginado que seria. E alguma coisa a estava #179 incomodando:
aquele velho lhe parecia familiar de alguma maneira, e ela no conseguia
localizar de onde era. -Matria escura? -ele repetiu. -Que coisa
fascinante! Ainda hoje de manh li alguma coisa sobre isso no Times. O
universo est repleto dessa coisa misteriosa, que ningum sabe o que !
E a sua amiga est estudando isso? -. Ela sabe um monte de coisas sobre
esse assunto. -E o que voc vai fazer depois, Lizzie? Vai estudar fsica
tambm? -Pode ser -disse ela. -Depende. O motorista pigarreou
discretamente e diminuiu a velocidade do carro. -Bem, chegamos a
Summertown -disse o velho. - Onde quer ficar? -Ah, logo depois dessas
lojas. Daqui posso ir caminhando -disse Lyra. -Obrigada. -Vire 
esquerda no Passeio Pblico e encoste do lado direito, Allan -ele
instruiu. -Sim, senhor -fez o motorista. No minuto seguinte estavam
parados diante de uma biblioteca pblica. O velho abriu a porta do seu
prprio lado, de modo que Lyra, para sair, teve que passar por cima dos
joelhos dele. Havia bastante espao, mas por um motivo qualquer aquilo
era constrangedor, e ela no queria ter contato fsico com ele, por mais
bonzinho que ele fosse. -No esquea a mochila -ele disse,
estendendo-lhe o objeto. -Obrigada. -Vamos nos ver de novo, espero,
Lizzie. D minhas lembranas  sua amiga. -Adeus -fez Lyra. #180
Deixou-se ficar parada na calada at o carro virar a esquina e sumir de
vista; s ento saiu na direo dos carpinos. Tinha uma sensao
estranha em relao quele homem de cabelos claros, e queria consultar o
aletmetro. Will estava outra vez lendo as cartas do pai. Sentado no
terrao, ouvindo os gritos distantes das crianas que mergulhavam da
borda do porto, lia a caligrafia firme nas finas folhas de papel de
carta via area, tentando visualizar o homem a quem ela pertencia,
voltando vrias vezes  referncia ao beb -que era ele prprio. Ouviu
os passos de Lyra correndo ainda  distncia; guardou as cartas no bolso
e levantou-se, e quase no mesmo instante Lyra apareceu, com olhos
assustados e Pantalaimon rosnando como um gato selvagem, perturbado
demais para pensar em esconder-se. Ela, que nunca chorava, estava
soluando de dor; tinha o peito ofegante, rilhava os dentes, e jogou-se
sobre ele, agarrando-lhe os braos, gritando: -Eu mato ele! Eu mato ele!
Quero que ele morra! Ah, se Iorek estivesse aqui... Ah, Will, eu agi
mal. Sinto muito... -O que foi? Qual  o problema? -Aquele velho... no
passa de um ladro sujo... ele me roubou, Will! Ele roubou o meu
aletmetro! Aquele velho podre, com suas roupas de rico, seu carro com
motorista... Ah, fiz tanta coisa errada hoje... Ah, eu... E ps-se a
soluar to desesperadamente que ele pensou: um corao pode se
despedaar de verdade, e o dela est se despedaando agora -pois ela
caiu no cho, tremendo, gemendo alto. Ao lado dela, Pantalaimon
transformou-se em lobo e ps-se a uivar com amargo sofrimento. Longe, na
sada do porto, as crianas interromperam o que estavam fazendo e
sombrearam os olhos com as mos para #181 ver melhor. Will sentou-se ao
lado de Lyra e sacudiu-a pelo ombro. -Pare! Pare de chorar! Conte-me do
princpio. Que velho  esse? O que foi que aconteceu? -Voc vai ficar
to zangado... Prometi que no ia fazer isso, denunciar voc, eu
prometi, e agora... -ela soluou. Pantalaimon tornou-se um cozinho
jovem e desajeitado, de orelhas cadas e rabo encolhido, rastejando de
vergonha; e Will compreendeu que Lyra tinha feito alguma coisa da qual
se envergonhava demais para conseguir lhe contar, e ento falou com o
daemon: -O que foi que aconteceu? Conte-me. Pantalaimon contou: -Fomos
at a Catedrtica, e tinha mais gente l, um homem e uma mulher, e eles
nos prepararam uma armadilha, fizeram muitas perguntas e depois
perguntaram sobre voc, e antes que agente percebesse, agente j tinha
revelado que conhecia voc, e ento fugimos... Lyra tinha o rosto
escondido nas mos, a cabea apertada contra a calada. Pantalaimon, em
sua agitao, mudava de uma forma para outra: co, pssaro, gato,
arminho branco como a neve. -Como era o homem? -Will quis saber.
-Grando -fez a voz abafada de Lyra. -E muito forte, de olhos claros...
-Ele viu voc voltar pela janela? -No, mas... -Bom, ento ele no vai
saber onde estamos. -Mas o aletmetro! -ela exclamou, sentando-se com
deciso, as feies rgidas de emoo como uma mscara grega. -, fale
sobre isso -Will pediu. #182 Entre soluos e ranger de dentes ela lhe
contou o que acontecera: que o velho a tinha visto usar o aletmetro no
museu no dia anterior, e que ele hoje tinha parado o carro e ela entrou
para escapar do homem louro, e o carro tinha estacionado do outro lado,
de modo que ela precisou pular por cima dele para sair, e ele deve ter
agido depressa, roupando o aletmetro quando lhe passou a mochila...
Will percebia como ela estava desesperada, mas no entendia por que
deveria se sentir culpada. E ento ela disse: -Will, ah, Will, fiz uma
coisa horrvel. Porque o aletmetro me disse que eu tinha que parar de
procurar o P e tratar de ajudar voc. Eu tinha que ajudar voc a
encontrar o seu pai. E eu podia mesmo, podia levar voc onde ele
estiver, se eu tivesse o aletmetro. Mas eu no quis ouvir. Simplesmente
fiz o que queria fazer, mas no devia... Ele j a tinha visto usar o
aletmetro, e sabia que o instrumento podia mesmo contar-lhe a verdade.
Ento deu-lhe as costas. Ela agarrou o pulso dele, mas ele
desvencilhou-se e caminhou at a beira d'gua. As crianas brincavam
novamente no outro extremo do porto. Lyra correu at ele, e disse:
-Will, estou to arrependida... -De que adianta isso? No quero saber se
est arrependida ou no. Voc errou. -Mas Will, ns temos que ajudar um
ao outro, voc e eu, porque no temos mais ningum. -No vejo como. -Nem
eu, mas... Ela cortou a frase no meio, e seus olhos brilharam. Virou-se
e saiu correndo de volta  mochila abandonada na calada, pondo-se a
remexer febrilmente dentro dela. #183 -Sei quem ele ! E onde mora!
Veja! -disse, estendendo o pequeno carto de visita. -Ele me deu isso no
museu! Podemos ir l pegar o aletmetro de volta! Will pegou o carto e
leu: Sir Charles Latrom Comandante da Ordem do Imprio Britnico Manso
Limefield Old Headington Oxford -Ele  importante -comentou. - um
Cavalheiro. Isso quer dizer que as pessoas vo automaticamente acreditar
nele e no em ns. De qualquer maneira, o que  que voc quer que eu
faa? Chame a polcia? A polcia est me caando! Se no estavam ontem,
agora estaro. E se voc for, eles sabem quem voc , e sabem que voc
me conhece, de modo que isso tambm no ia funcionar . -Podamos roubar
o aletmetro. Podamos ir at a casa dele e roubar o aletmetro. Sei
onde fica Headington, existe esse lugar na minha Oxford tambm. No 
longe. Podamos chegar l em uma hora a p, facilmente. -Voc  to
boba! -Iorek Byrnison iria l direto e arrancaria a cabea dele. Queria
que ele estivesse aqui. Ele iria... Lyra silenciou. Will simplesmente
olhava para ela, e ela se sentiu intimidada. Teria se intimidado do
mesmo modo se um urso de armadura tivesse olhado para ela desse jeito,
porque havia alguma coisa parecida com Iorek nos olhos de Will, por mais
jovem que ele fosse. -Nunca ouvi uma coisa to estpida -disse ele. -
Acha que podemos simplesmente ir at a casa dele, entrar #184 escondidos
e roubar o aletmetro? Voc tem que pensar, usar essa sua porcaria de
inteligncia. Se ele  assim to rico, deve ter todo tipo de alarmes
contra ladres e coisas assim, deve haver sirenes que disparam, trancas
especiais e luzes infravermelhas que acendem automaticamente... -Nunca
ouvi falar nestas coisas -disse Lyra. -No temos nada disso no meu
mundo. Eu no sabia, Will. -Est bem, ento pense no seguinte: ele tem a
casa inteira para esconder o aletmetro, e quanto tempo um ladro teria
para procurar em todos os armrios e gavetas e esconderijos da casa
inteira? Aqueles homens que entraram na minha casa tiveram horas para
procurar e no encontraram o que queriam, e aposto que a casa dele 
muito maior que a minha. E ele com certeza tem cofre, tambm. Ento,
mesmo conseguindo entrar na casa, ns no vamos ter tempo para encontrar
o aletmetro antes que a polcia chegue. Ela baixou a cabea.
Infelizmente aquilo tudo era verdade. -Ento, o que  que vamos fazer?
-perguntou. Ele no respondeu. Mas tratava-se de ns, sem dvida -
agora, gostando ou no, estava preso a ela. Caminhou at a beira d'gua
e de volta ao terrao, e novamente at a gua. Batia as mos uma na
outra, procurando em vo uma resposta, e sacudia a cabea com raiva. -Ir
at l -disse finalmente. -Ir at l falar com ele. No adianta pedir
ajuda  sua Catedrtica, tambm, se a polcia j chegou at ela. Ela
certamente vai acreditar neles e no em ns. Pelo menos, entrando na
casa dele, vamos ver onde ficam os aposentos principais. J  um comeo.
Sem outra palavra ele entrou na casa e guardou as cartas debaixo do
travesseiro no quarto onde estava dormindo. Assim, se fosse preso, eles
nunca teriam as cartas. #185 Lyra estava esperando no terrao, com
Pantalaimon empoleirado em seu ombro como andorinha. Ela parecia mais
animada. -Vamos pegar ele de volta -afirmou. -Eu sinto que vamos. Ele
no respondeu, e os dois partiram rumo  janela. Caminharam uma hora e
meia at chegarem a Headington. Lyra indicava o caminho, evitando o
centro da cidade, Will vigiava em volta, sem nada dizer. Para Lyra as
coisas estavam muito mais difceis agora do que at mesmo no rtico a
caminho de Bolvangar, pois naquela ocasio l estavam os gpcios e Iorek
Byrnison, e mesmo que a tundra estivesse cheia de perigos, era possvel
reconhecer o perigo quando ele surgia. Aqui, nesta cidade que era sua e
no era, o perigo podia ter aparncia amigvel, e a traio sorria e
cheirava bem; e mesml que no fossem mat-la ou separ-la de
Pantalaimon, tinham roubado dela o seu nico guia. Sem o aletmetro ela
era apenas uma menininha perdida. A Manso Limefield tinha a cor clida
do mel, e metade da fachada estava coberta de hera. Ficava num jardim
amplo e bem tratado, com uma cerca-viva a um lado e uma alameda de
cascalho para automveis que serpenteava at a porta principal. O Rolls
Royce estava parado diante de uma garagem dupla,  esquerda. Tudo que
Will enxergava cheirava a dinheiro e poder, o tipo de superioridade
informal e estabelecida que algumas pessoas da aristocracia inglesa
ainda achavam natural. Havia alguma coisa naquilo tudo que o fazia
cerrar os dentes, e ele no sabia por qu, at que de repente lembrou-se
de uma ocasio, quando era bem novinho -sua me o levara a uma casa
parecida com essa... Os dois usavam suas melhores roupas, e ele tinha
que se comportar o melhor possvel, e um #186 casal de velhos fez a me
dele chorar, e eles foram embora da casa, ela ainda chorando... Lyra viu
que ele tinha a respirao acelerada e os punhos cerrados, mas ela era
suficientemente sensvel para no fazer perguntas: era algo que dizia
respeito a ele, no a ela. Will respirou fundo. -Bom, no Custa tentar
-disse. Subiu a alameda, com Lyra logo atrs. Sentiam-se muito
vulnerveis. A porta tinha um puxador antiquado, como os do mundo de
Lyra, e Will no conseguiu descobrir como se tocava a campainha at que
Lyra lhe mostrou. Quando o pUxaram, a campainha tocou longe, dentro da
casa. O homem que abriu a porta era o motorista do carro, s que sem o
quepe. Primeiro ele olhou para Will, depois para Lyra, e sua expresso
modificou-se um pouco. -Queremos ver Sir Charles Latrom -Will anunciou.
Tinha o queixo erguido, como na vspera, ao enfrentar as crianas que
jogavam pedras junto  torre. O criado assentiu. -Esperem aqui -disse.
-Vou avisar Sir Charles. Ele fechou a slida porta de carvalho, com duas
trancas pesadas, e fechos em cima e embaixo -embora Will achasse que
nenhum ladro sensato iria tentar a porta da frente. E havia um alarme
contra ladres instalado em lugar bem visvel na fachada da casa, e um
grande holofote em cada esquina; nunca conseguiriam se aproximar da
casa, muito menos penetrar nela. Passos regulares vieram at a porta,
que tornou a se abrir . Will olhou para o rosto daquele homem que j
possua tanta coisa e ainda cobiava mais, e achou-o intrigantemente
tranqilo e seguro de si, nem um pouco culpado ou embaraado. #187
Sentindo que a seu lado Lyra se encontrava impaciente e zangada, Will
disse depressa: -Com sua licena, Lyra acha que quando pegou uma carona
com o senhor, hoje mais cedo, ela esqueceu um objeto dentro do carro.
-Lyra? No conheo nenhuma Lyra. Que nome incomum! Conheo uma menina
chamada Lizzie. Quem  voc? Amaldioando-se por ter esquecido, Will
disse: -Sou Mark, o irmo dela. -Entendo. Ol Lizzie, ou Lyra.  melhor
entrarem. Ele deu um passo para o lado. Nem Will nem Lyra esperavam por
isso, e entraram com hesitao. O vestbulo estava em penumbra e
cheirava a cera de abelha e flores. Todas as superfcies estavam limpas
e enceradas, e uma estante de mogno encostada  parede continha
delicadas figurinhas de porcelana. Will viu o criado de p  distncia,
como se esperasse ser chamado. -Vamos para o meu escritrio -disse Sir
Charles, abrindo outra porta do vestbulo. Ele estava se mostrando
corts, at mesmo acolhedor , mas havia em seus modos alguma coisa que
deixou Will em guarda. O escritrio era amplo e confortvel, um ambiente
de charutos e poltronas de couro, e parecia estar cheio de estantes,
quadros, trofus de caa. Havia trs ou quatro estantes com portas de
vidro contendo antigos instrumentos cientficos: microscpios de cobre,
telescpios encapados em couro verde, sextantes, bssolas; era bvio o
seu motivo para querer o aletmetro. -Sentem-se -disse Sir Charles,
indicando um sof de couro. Acomodou-se na cadeira atrs da escrivaninha
e continuou: -E ento? O que  que vocs tm a dizer? #188 -o senhor
roubou... -Lyra comeou, com raiva. Mas Will olhou para ela, e ela
silenciou. -Lyra acha que deixou uma coisa no seu carro - tornou a dizer
ele. -Viemos pegar de volta. -Est falando deste objeto? -disse, abrindo
uma gaveta da escrivaninha. Tirou de dentro um embrulho de veludo. Lyra
levantou-se. Ele a ignorou e desdobrou o pano, mostrando o esplendor
dourado do aletmetro descansando na palma da sua mo. -, sim!
-explodiu Lyra, estendendo a mo para o aletmetro. Mas o homem fechou a
mo. A escrivaninha era larga, e Lyra no conseguia ultrapass-la; e
antes que ela pudesse fazer alguma coisa ele girou e colocou o
aletmetro numa estante de porta de vidro, trancou-a e colocou a chave
no bolsinho do colete. -Mas isso no  seu, Lizzie -disse. -Ou Lyra, se
 este o seu nome. - meu, sim!  o meu aletmetro! Ele sacudiu a cabea
com ar triste, como se estivesse a repreend-la e isso lhe causasse dor,
mas era para o prprio bem dela. -Acho que no mnimo existem srias
dvidas quanto a isso -disse. -Mas  dela! -disse Will! -Eu juro! Ela
mostrou ele para mim! Sei que  dela! -Entendam, acho que vocs teriam
que provar isso - o homem retrucou. -Eu no preciso provar coisa alguma,
porque tenho a posse dele, ento parte-se do princpio de que ele  meu,
como todos os outros itens da minha coleo. Devo dizer, Lyra, que fico
surpreso ao perceber que voc  to desonesta... #189 -Eu no sou
desonesta nada! -Lyra gritou. -Ah, , sim. Voc me disse que o seu nome
era Lizzie; agora vejo que no . Francamente, voc no tem a menor
chance de convencer algum que uma pea preciosa como esta lhe pertence.
Vou lhe dizer o que vamos fazer: vamos chamar a polcia. Ele se virou
para chamar o criado. -No, espere- disse Will, antes que Sir Charles
abrisse a boca, mas Lyra correu em volta da mesa, e de repente
Pantalaimon estava nos braos dela, um feroz gato selvagem mostrando os
dentes e rosnando para o velho. Sir Charles pestanejou diante daquela
apario, mas no se perturbou. -O senhor nem sabe o que roubou! -Lyra
bradou. -Me viu usando ele e resolveu roubar ele, e roubou. Mas o
senhor, o senhor  pior do que a minha me, ela pelo menos sabe que o
aletmetro  importante, e o senhor vai colocar ele numa estante e no
vai fazer nada com ele! O senhor devia morrer! Se eu puder, vou fazer
algum matar o senhor. O senhor no merece ficar vivo. O senhor ... Ela
no conseguiu dizer mais nada; a nica coisa que podia fazer era cuspir
na cara dele -e foi o que fez, com toda fora. Will continuava sentado,
imvel, observando, olhando em volta, memorizando onde ficava cada
coisa. Sir Charles calmamente pegou um leno de seda e limpou-se. -No
sabe se controlar? -falou. -V se sentar, sua pivete imunda. Lyra sentiu
lgrimas saltando de seus olhos com a fora do tremor do seu corpo, e
jogou-se sobre o sof. Pantalaimon, com a cauda ereta, ficou no colo
dela, com os olhos em brasa fixos no homem. #190 Will continuou sentado,
confuso. Sir Charles poderia t-los expulsado muito tempo antes; o que
ele estava pretendendo? E ento ele viu algo to bizarro que achou que
tinha imaginado. Da manga do palet de linho de Sir Charles, junto ao
punho branco da camisa, assomou a cabea cor de esmeralda de uma cobra.
A lngua branca surgiu e vibrou para um lado e para outro, e a cabea
cheia de escamas, com seus olhos negros orlados de dourado, moveram-se
de Lyra para Will e de volta para a garota. Lyra estava zangada demais
para perceber essa cena, e Will viu-a apenas durante uns segundos, antes
que a cobra se retrasse novamente para dentro da manga do palet do
velho, mas foi o suficiente para que ele arregalasse os olhos de susto.
Sir Charles foi at a janela e calmamente sentou-se no banco sob ela,
ajeitando o vinco das calas. -Acho melhor me escutar, em vez de se
comportar deste modo descontrolado -declarou. -Voc no tem escolha. O
instrumento est comigo e vai continuar comigo. Eu o quero para mim. Sou
colecionador. Voc pode cuspir, bater p e gritar quanto quiser, mas
quando tiver conseguido convencer algum a escut-la, j terei muitos
documentos provando que eu o comprei. Posso fazer isso com a maior
facilidade. E ento voc nunca vai t-lo de volta. As crianas nada
disseram, pois ele ainda no tinha terminado. Uma enorme perplexidade
pesava no corao de Lyra, tornando o aposento muito quieto. Ele
continuou: -No entanto, existe uma coisa que eu desejo ainda mais. E no
consigo obt-la por mim mesmo, de modo que estou preparado para fazer um
trato com vocs. Vocs me trazem o objeto que eu quero, e eu lhes
devolverei esse... Como foi mesmo que voc chamou? #191 -Aletmetro
-disse Lyra em voz fraca. -Aletmetro... Que interessante! Aletheia,
verdade... Os smbolos... , estou entendendo. -Qual  essa coisa que o
senhor quer? -Will perguntou. -E onde  que ela est? -Num lugar aonde
eu no posso ir, mas vocs podem. Sei perfeitamente que vocs
encontraram uma porta em algum lugar. Acredito que no seja muito
distante de Summertown, onde eu deixei Lizzie, ou Lyra, esta manh. E do
outro lado da porta existe um outro mundo, sem pessoas adultas. Estou
certo at agora? Bem, o homem que fez aquela porta tem uma faca. Neste
momento ele est escondido nesse outro mundo, com muito medo. E tem
razo para ter medo. Se ele est onde eu penso que est,  numa velha
torre de pedra com anjos entalhados em volta da porta. A Torre degli
Angeli. E finalizou: -De modo que  l que vocs tm que ir, e no me
importo como vo fazer isso, mas quero aquela faca. Tragam-na para mim e
podero ficar com o aletmetro. Vai ser uma pena perd-lo, mas sou um
homem de palavra.  isto que vocs tm que fazer: me trazer a faca. #192
8 A TORRE DOS ANJOS -Quem  esse homem que est com a faca? -perguntou
Will. Estavam no Rolls Royce, atravessando OXford. Sir Charles estava
sentado na frente, virado para trs, e Will e Lyra sentavam-se no banco
traseiro, com Pantalaimon, agora um rato, acalmado pelas mos de Lyra.
-Uma pessoa que tem tanto direito  faca quanto eu ao aletmetro-
respondeu Sir Charles. -Infelizmente para todos ns, o aletmetro est
comigo e a faca est com ele. -Como  que o senhor sabe sobre o outro
mundo, afinal? -Sei de muitas coisas que vocs no sabem. Que mais
poderiam esperar? Afinal, sou bem mais velho que vocs, e
consideravelmente melhor informado. Existem vrias portas entre este
mundo e o outro; aqueles que sabem onde elas esto podem passar de um
lado a outro com facilidade. Em Cittgazze existe uma Liga de homens
eruditos, ou pretensamente eruditos, que costumavam fazer isso o tempo
todo. -O senhor no  deste mundo! -Lyra exclamou de repente. -
daquele, no ? #193 E novamente ela sentiu um estranho cutuco da
memria. Tinha quase certeza de que j o tinha visto. -No sou, no -ele
respondeu. Will interveio: -Se temos que tirar a faca desse homem,
precisamos saber mais sobre ele. Ele no vai simplesmente nos dar a
faca, vai. -Claro que no.  a nica coisa que faz os Espectros ficarem
longe. No vai ser uma coisa fcil, de jeito algum. -Os Espectros tm
medo da faca? -Muito medo. -Por que eles S atacam os adultos? -No 
necessrio saber isso agora. No faz diferena. -Sir Charles voltou-se
para a menina. -Lyra, fale-me sobre o seu notvel amigo. Ele estava se
referindo a Pantalaimon. E assim que ele falou isso, Will entendeu que a
cobra que ele vira escondida na manga do velho era tambm um daemon, e
que Sir Charles devia vir do mundo de Lyra. Estava perguntando por
Pantalaimon para disfarar; isso significava que ele no tinha percebido
que Will tinha visto o seu daemon. Lyra ergueu Pantalaimon junto ao
peito e ele tornou-se um rato negro, que enrolou a cauda em vrias
voltas em torno do pulso dela e encarou Sir Charles com dio em seus
olhos vermelhos. -No era para o senhor ver ele -ela disse. - o meu
daemon. O senhor acha que neste mundo aqui no tem daemons, mas tem,
sim. O seu seria um rola-bosta. Ele retrucou: #194 -Se os Faras do
Egito ficavam contentes por serem representados por um escaravelho, eu
tambm fico. Bem, voc vem de outro mundo ainda. Que interessante. Foi
de l que veio o aletmetro, ou voc o roubou durante as suas viagens?
-Eu ganhei ele -disse Lyra, furiosa. -O Reitor da U niversidade Jordan
na minha Oxford me deu ele.  meu por direito. E o senhor no saberia o
que fazer com ele, seu velho estpido e fedorento, o senhor nunca iria
conseguir ler ele, nem em mil anos. Para o senhor,  s um brinquedo.
Mas eu preciso dele, e Will tambm. Ns vamos pegar ele de volta, no se
engane. -Veremos -fez Sir Charles. -Bem, foi aqui que deixei voc da
outra vez. Querem ficar aqui mesmo? -No -respondeu Will, tendo avistado
um carro da polcia. -O senhor no pode ir a Ci'gazze por causa dos
Espectros, de modo que no faz diferena saber onde fica a janela. Vamos
mais para a frente, na direo da via de acesso. -Como quiser -disse Sir
Charles, e o carro seguiu em frente. -Quando, ou se, vocs pegarem a
faca, liguem para mim e Allan vir busc-los. Nada mais disseram at o
motorista parar o carro. Quando os dois iam saindo, Sir Charles baixou o
vidro da janela e disse a Will: -Se vocs no conseguirem pegar a faca,
nem se dem ao trabalho de voltar. Se forem  minha casa sem ela, vou
chamar a polcia. Imagino que eles vo correr para l, quando souberem o
seu verdadeiro nome.  William Parry, no ? Eu j imaginava. O jornal
de hoje traz uma boa fotografia sua. E o carro se afastou. Will estava
sem fala. Lyra sacudiu-lhe o brao. #195 -No tem problema, ele no vai
contar a ningum - disse ela. -Seno j teria feito isso. Vamos. Dez
minutos depois, estavam na pracinha no sop da Torre dos Anjos. Will
contou a ela sobre o daemon-cobra, e ela estancou no meio da rua,
novamente atormentada pelo vislumbre de uma lembrana. Quem era aquele
velho? Onde ela o tinha visto? No adiantava, a lembrana no ficava
ntida. -Eu no quis contar a ele, mas vi um homem l em cima ontem 
noite -ela contou. -Ele olhou para baixo quando as crianas estavam
fazendo aquela algazarra... -Como ele era? -Bem moo, de cabelos
cacheados. Nem um pouco velho. Mas s vi ele um instante, bem l no
alto, por cima do parapeito. Achei que ele podia ser o... Lembra-se de
Anglica e Paolo? Ele disse que tinham um irmo mais velho que tambm
tinha vindo para a cidade, e ela no deixou Paolo contar o resto, como
se fosse um segredo? Pois bem, achei que podia ser ele. Ele podia estar
atrs da faca, tambm. E imagino que todas as crianas esto sabendo.
Acho que foi por isso que elas voltaram para c. -Hum... Talvez- disse
ele, olhando para cima. Ela se lembrou da conversa das crianas: nenhuma
criana entrava na torre, elas disseram; havia coisas apavorantes l; e
ela se lembrou da sua prpria sensao de inquietao quando ela e
Pantalaimon olharam pela porta entreaberta. Talvez fosse por isso que
era preciso um adulto para entrar l. O daemon agora voejava em torno da
cabea dela, em forma de traa, sussurrando ansiosamente. -Quieto -ela
sussurrou de volta. -A culpa foi nossa. Temos que consertar as coisas, e
este  o nico jeito. #196 Will dirigiu-se para a direita, acompanhando
a parede da torre. Na esquina havia uma passagem estreita, com o piso de
pedras, entre a torre e o muro do prdio seguinte, e Will entrou por
ali, olhando para o alto, avaliando o lugar. Lyra seguiu-o. Ele parou
debaixo de uma janela na altura do segundo andar e perguntou a
Pantalaimon: -Consegue voar at l? Consegue olhar l dentro?
Pantalaimon imediatamente se transformou numa andorinha e alou vo. Mal
conseguiu alcanar a janela; Lyra engasgou e soltou um gemido quando ele
pousou na moldura da janela, e ele ficou ali durante um ou dois segundos
apenas, antes de tornar a descer. Ela suspirou e respirou fundo vrias
vezes, como uma pessoa que escapou de morrer afogada. Will, confuso,
franziu atesta. - ruim, quando o daemon se afasta da gente, isso di...
-ela explicou. -Sinto muito. Viu alguma coisa? -ele quis saber. -Uma
escada-disse Pantalaimon. -Uma escada e salas escuras. Havia espadas
penduradas na parede, e lanas e escudos, como um museu. E eu vi um
homem. Ele estava... danando. -Danando? -Indo de um lado para outro,
sacudindo a mo. Ou parecia que estava lutando contra alguma coisa
invisvel... Ele estava do Outro lado de uma porta aberta. No vi muito
bem. -Lutando com um Espectro? -Lyra adivinhou. Mas no conseguiriam
descobrir mais que isso, portanto seguiram caminho. Atrs da torre, um
alto muro de pedra com o topo coberto de cacos de vidro rodeava um
pequeno jardim com canteiros de ervas em volta de um chafariz (mais uma
vez Pantalaimon alou vo para olhar); e depois havia um beco do #197
outro lado, que os levou de volta  praa. As janelas nas paredes da
torre eram pequenas e fundas como olhos. -Ento vamos ter que entrar
pela frente -Will decidiu. Subiu os degraus e empurrou a porta,
escancarando-a. O sol entrou, e as pesadas dobradias rangeram. Ele deu
um ou dois passos para dentro e, no vendo ningum, avanou mais. Lyra
seguia-o de perto. O piso era feito de lajes de pedra desgastadas pelos
sculos, e o ar ali dentro era frio. Will rumou para a escada que levava
ao poro e desceu alguns degraus, o suficiente para ver que ela
desembocava num aposento comprido, de teto baixo, tendo numa extremidade
uma imensa fornalha apagada, com as paredes negras de fuligem; mas no
havia ningum, e ele voltou para o saguo da entrada, onde encontrou
Lyra olhando para o alto,com o dedo nos lbios. -Estou ouvindo ele
-cochichou ela. -Est falando sozinho, eu acho. Will prestou ateno, e
ouviu tambm: um murmrio baixo e cantado, interrompido ocasionalmente
por uma risada rspida ou uma exclamao de raiva. Parecia a voz de um
louco. Will respirou fundo e comeou a subir a escada. Ela era feita de
carvalho escurecido, imensa e larga, com degraus to gastos quanto as
pedras do piso e slidos demais para rangerem sob o peso de algum. A
luz diminua  medida que eles subiam, porque a nica iluminao era a
janelinha pequena e funda em cada patamar. Subiram um andar, pararam
para escutar, subiram o seguinte, e o som da voz masculina misturava-se
agora com o de passos ritmados. Vinha de um aposento que ficava no outro
lado do patamar e cuja porta estava entreaberta. #198 Will foi at l p
ante p e abriu-a mais alguns centmetros, para poder espiar . Era uma
sala ampla, com o teto cheio de teias de poeira. As paredes eram
cobertas por estantes com livros mal conservados, as encadernaes se
desmanchando ou deformadas pela umidade. Vrios volumes estavam jogados
no cho, abertos no assoalho ou sobre largas mesas empoeiradas, e outros
tinham sido enfiados no lugar de maneira brutal e desajeitada. No centro
da sala, um rapaz danava. Pantalaimon tinha razo: parecia estar
fazendo exatamente isso. Estava de costas para a porta, e ia para um
lado, depois para o outro, enquanto movia sem cessar a mo na frente do
corpo como se estivesse abrindo caminho atravs de obstculos
invisveis. Nessa mo havia uma faca -no uma faca de aparncia
especial, mas simplesmente uma lmina fosca de uns 25 centmetros de
comprimento, e ele lanava-a para a frente, golpeava para o lado,
tateava para a frente com ela, movia-a para cima e para baixo, tudo isso
no vazio. Fez meno de virar-se, e Will recuou. Levou um dedo aos
lbios e chamou Lyra com um gesto, depois subiu na frente dela para o
andar seguinte. -O que  que ele est fazendo? -ela cochichou. Ele
descreveu o melhor que pde. -Parece coisa de maluco -ela comentou. -Ele
 magro, de cabelos cacheados? -. Cabelos ruivos, como os de Anglica.
E parece mesmo maluco. No sei, no, acho isso mais esquisito do que o
que Sir Charles falou. Vamos investigar mais, antes de falarmos com ele.
Ela no questionou; seguiu-o por outra escada at o ltimo andar. Ali
era muito mais claro, porque um lance de #199 degraus pintados de branco
levava ao telhado -ou, melhor , a uma estrutura de madeira e vidro, como
uma pequena estufa. Mesmo no p dessa escada eles sentiam o calor que a
estufa estava absorvendo. Enquanto estavam ali parados, ouviram um
gemido vindo de cima. Os dois deram um pulo -tinham certeza de que s
havia aquele homem na Torre. Pantalaimon levou um susto to grande, que
na mesma hora mudou de gato para passarinho e voou para o peito de Lyra.
Will e Lyra perceberam ento que estavam de mos dadas, e soltaram as
mos lentamente. -Melhor ir ver -Will sussurrou. -Eu vou na frente. -Eu
devia ir na frente -ela sussurrou de volta. -J que a culpa  minha. -J
que a culpa  sua, voc tem que fazer o que eu mandar . Ela fez
beicinho, mas deixou-o ir primeiro. Ele subiu em direo ao sol. A luz
na estrutura de vidro era cegante. O ar tambm era quente como numa
estufa, e Will no conseguia ver nem respirar direito. Encontrou uma
maaneta, girou-a e saiu depressa, levantando a mo para tapar o sol nos
olhos. Encontrou-se num telhado de chumbo rodeado por um parapeito de
ameias. A estrutura de vidro ficava no centro, e em toda a volta o
chumbo tinha um ligeiro declive em direo a uma calha que corria
paralela ao lado interno do parapeito, com furos quadrados para escoar a
gua da chuva. Deitado no chumbo, em pleno sol, estava um homem de
cabelos brancos. Tinha o rosto machucado, um dos olhos estava fechado, e
ao se aproximarem os dois viram que ele tinha as mos amarradas nas
costas. #200 Ele ouviu-os chegar e tornou a gemer, tentando virar-se
para evitar o sol. -Est tudo bem, no vamos machucar o senhor -disse
Will baixinho. -O homem da faca fez isto com o senhor? -Mmm -fez o
velho. -Vamos tirar a corda. No est muito bem amarrada... O n tinha
sido feito de maneira desajeitada e apressada, e Will conseguiu
desat-lo com facilidade. Os dois ajudaram o ancio a se levantar e
levaram-no para a sombra do parapeito. -Quem  o senhor? -Will
perguntou. -No sabamos que havia duas pessoas aqui. Pensamos que era
s uma. -Giacomo Paradisi -o velho balbuciou entre os dentes quebrados.
-Sou o portador. Ninguem maIs. Aquele rapaz roubou a faca de mim. Sempre
existem uns tolos que se arriscam assim por causa dela. Mas esse a est
desesperado. Ele vai me matar... -No-vai, no -disse Lyra. -O que quer
dizer portador? O que significa? -Significa que a faca mgica fica
comigo, por ordem da Liga. Para onde ele foi? -Est l embaixo -disse
Will. -Ns passamos por ele. Ele no viu a gente. Estava sacudindo a
faca no ar... -Tentando cortar at o outro lado. No vai conseguir .
Quando ele... -Cuidado -avisou Lyra. Will virou-se. O rapaz estava
subindo para o pequeno abrigo de madeira. Ainda no os tinha visto, mas
no havia onde se esconder, e quando as crianas se levantaram ele
percebeu o movimento e girou para enfrent-los. Pantalaimon
imediatamente virou urso e ergueu-se nas patas traseiras. Somente Lyra
sabia que ele no conseguiria #201 tocar no outro homem, e este
pestanejou e encarou-o por um segundo, mas Will percebeu que na verdade
ele no tinha enxergado coisa alguma. Aquele homem estava louco. Tinha
os cabelos ruivos empapados, o queixo sujo de saliva, as pupilas dos
olhos rodeadas de branco por todos os lados. E tinha a faca, ao passo
que eles no tinham arma alguma. Will deu um passo para o centro do
telhado, afastando-se do ancio, e agachou-se, pronto para lutar ou
saltar de lado. O rapaz avanou e tentou atingi-lo com a faca, 
esquerda,  direita,  esquerda, cada vez mais perto, fazendo Will
recuar at ficar encurralado num canto onde dois lados da torre se
encontravam. Enquanto isso, Lyra se aproximava do homem por trs, com a
corda na mo. De sbito Will saltou para a frente, como tinha feito com
o intruso em sua casa, e com o mesmo efeito: seu antagonista tropeou
para trs inesperadamente, caindo por cima de Lyra e batendo no chumbo.
Tudo acontecia depressa demais para Will sentir medo. Mas ele teve tempo
de ver a faca voar da mo do homem e cair a poucos metros de distncia,
cravada no telhado de chumbo, enterrando-se at o punho, como se
estivesse cravada numa barra de manteiga. No mesmo instante o rapaz
girou e estendeu a mo para a faca, e Will jogou-se nas costas dele,
agarrando-o pelos cabelos. Tinha aprendido abrigar na escola: havia
muitas ocasies para isso, depois que as outras crianas sentiram que
havia alguma coisa diferente na me dele. E ele tinha aprendido que o
objetivo de uma briga na escola no era ganhar pontos pelo estilo, mas
forar o inimigo a desistir, o que significa machuc-lo mais do que
estava sendo machucado. Ele sabia que tinha que estar disposto a
machucar os outros, e tinha percebido que pouca gente estava, na hora H;
mas sabia que ele, sim, estava. #202 De modo que aquilo no lhe era
desconhecido, mas ele nunca tinha brigado com um rapaz quase adulto,
armado de faca, e precisava a todo custo impedir que o outro conseguisse
peg-Ia de volta, agora que a tinha deixado cair. Entrelaou os dedos
nos cabelos grossos e midos do rapaz e puxou com toda a fora. O rapaz
gemeu e jogou-se de lado, mas Will agarrou-se ainda mais, e seu oponente
rugiu de dor e raiva. Esticou-se e jogou-se para trs, esmagando Will
entre o seu corpo e o parapeito, e isso foi demais para Will, que perdeu
o flego com o choque e afrouxou os dedos. O homem desvencilhou-se. Will
caiu de joelhos na calha, sem ar, mas sabia que no podia ficar ali.
Conseguiu pr-se de joelhos e ento tentou ficar de p -e ao fazer isso
enfiou o p num dos furos de drenagem. Por um terrvel segundo ele achou
que tinha pisado no vazio; seus dedos rasparam desesperadamente o chumbo
quente. Mas nada aconteceu: sua perna esquerda projetava-se para o
vazio, mas o resto dele estava a salvo. Ele puxou o p de volta para
dentro do parapeito e se levantou. O rapaz tinha chegado at a faca, mas
no teve tempo de arranc-la do chumbo antes de Lyra saltar sobre suas
costas, arranhando, chutando, mordendo como um gato selvagem; mas a
menina no conseguiu agarrar os cabelos dele, e ele jogou-a longe. E
quando se levantou tinha a faca na mo. Lyra tinha cado para um lado,
com Pantalaimon, agora , como gato selvagem, dentes  mostra, plo
eriado. Will enfrentou o rapaz e pela primeira vez viu-o claramente.
No havia dvida, era mesmo o irmo de Anglica, e ele era mau. Toda a
sua mente estava concentrada em Will, e tinha a faca em sua mo. Mas
Will tambm no estava desarmado. Ele havia agarrado a corda quando Lyra
a soltou, e agora enrolou-a em volta da mo esquerda para proteger-se da
faca. #203 Moveu-se de lado entre o rapaz e o sol, para que seu
adversrio tivesse que piscar e apertar os olhos. Ainda melhor: a
estrutura de vidro lanava reflexos brilhantes nos olhos do rapaz, e
Will percebeu que por um instante o outro ficou quase cego. Saltou para
o lado esquerdo do seu oponente, o lado oposto  faca, erguendo a mo
esquerda, e chutou com fora o joelho do outro. Fizera pontaria com
cuidado, e o p acertou no alvo. O homem caiu com um gemido alto e rolou
para longe desajeitadamente. Will saltou atrs dele, golpeando-o com
ambas as mos e chutando inmeras vezes, acertando onde conseguia
alcanar, forando-o a recuar cada vez mais na direo da estufa. Se
conseguisse lev-lo at o alto da escada... Dessa vez o homem caiu com
mais fora, e sua mo direita, segurando a faca, bateu no chumbo aos ps
de Will. No mesmo instante Will pisou nela com fora, esmagando os dedos
do rapaz entre o cabo da faca e o telhado de chumbo, e depois enrolou a
corda com mais fora em torno da mo e pisoteou pela segunda vez. O
rapaz gritou e soltou a faca. De imediato Will chutou-a para longe,
tendo sorte por seu sapato ter pegado no cabo, e a faca saiu girando
sobre o chumbo at parar na calha, junto a um dos orifcios de drenagem.
A corda tinha se desenrolado de novo da sua mo, e parecia haver uma
surpreendente quantidade de sangue vindo de algum lugar sobre o chumbo e
em seus prprios sapatos. O homem estava se levantando... -Cuidado!
-Lyra gritou, mas Will pusera-se alerta. No momento em que o outro
estava desequilibrado, Will jogou-se em cima dele, batendo com toda
fora no abdmen do outro. O homem caiu de costas sobre o vidro, que se
estilhaou no mesmo instante, e a frgil estrutura de madeira #204
tambm no resistiu. Ele caiu sobre os destroos, metade do corpo
pendurado sobre o poo da escada; agarrou-se  moldura da porta, mas ela
j no estava presa e cedeu. Ele despencou no buraco, sob outra chuva de
vidro. E Will correu at a calha e pegou a faca; a luta terminara. O
rapaz, machucado e arranhado, subiu de novo os degraus e viu Will de p
acima dele, segurando a faca; encarou-o com uma raiva alucinada, depois
virou-se e fugiu. -Ai! -fez Will, sentando-se. -Ai... Alguma coisa
estava muito errada e ele no tinha percebido. Deixou cair a faca e
apertou a mo esquerda contra o corpo. A corda estava encharcada de
sangue, e quando ele a tIrou... -Os seus dedos! -Lyra suspirou. -Ah,
Will... O dedo mnimo e o anular caram junto com acorda. Ele sentiu uma
vertigem. O sangue jorrava com fora dos tocos que restaram dos dedos, e
ele tinha o jeans e os sapatos encharcados. Teve que recostar-se e
fechar os olhos por um instante. A dor no era to grande, e uma parte
do seu crebro registrou esse fato com uma surpresa sem emoo: era mais
como um estrondo baixo e persistente, em vez daquela sensao breve e
aguda que a pessoa sente quando se corta superficialmente. Ele nunca se
sentira to fraco. Achou at que tinha adormecido por um momento. Lyra
estava fazendo alguma coisa no seu brao. Ele endireitou-se para olhar o
estrago, e sentiu nuseas. O velho estava ali por perto, mas Will no
conseguia ver o que estava fazendo, e enquanto isso Lyra falava com ele.
-Se ao menos agente tivesse um pouco de musgo-de-sangue... -ela dizia.
- o que os ursos usam. Eu ia poder #205 curar isso, Will, ia mesmo.
Escuta, vou amarrar este pedao de corda em volta do seu brao para
segurar o sangue, porque no posso amarrar em volta de onde eram os
dedos, no tem onde prender... Fique quieto... Ele deixou que ela
fizesse isso, e olhou em volta  procura dos dedos. Ali estavam,
curvados como aspas sanguinolentas, sobre o chumbo. Ele riu. -Ei, pode
parar -disse ela. -Agora levante-se. O Sr . Paradisi tem um remdio, uma
pomada, sei l o que . Voc tem que descer. Aquele outro foi embora,
ns vimos ele sair correndo pela porta. J sumiu. Voc derrotou ele.
Vamos, Will, vamos... Com autoridade e um pouco de bajulao ela
conseguiu que ele descesse a escada, e eles atravessaram os cacos de
vidro e farpas de madeira at um quarto exguo e fresco que dava para o
patamar da escada. As paredes eram cobertas de estantes com garrafas,
frascos, potes, piles e almofarizes, e balanas de farmcia. Sob a
janela suja havia um tanque de pedra onde o ancio estava derramando
alguma coisa com as mos trmulas, de uma garrafa maior para um frasco
pequeno. -Sente-se aqui e beba isto -disse ele, e encheu um copinho com
um lquido escuro. Will sentou-se e pegou o copo. O primeiro gole desceu
por sua garganta como fogo. Lyra pegou o copo para que ele no casse
enquanto Will engasgava. -Beba tudo -ordenou o homem. -Que  isso?
-Conhaque de ameixa. Beba. Will bebericou com mais cautela. Sua mo
agora doa de verdade. #206 -Consegue curar ele? -Lyra perguntou com
desespero na voz. -Ah, sim, temos remdio para tudo. Voc, menina, abra
aquela gaveta e me traga uma gaze. Will viu a faca sobre a mesa no
centro do aposento, mas antes que pudesse peg-la o ancio veio mancando
em sua direo com uma jarra com gua. -Beba mais -disse. Will agarrou o
copo com fora e fechou os olhos enquanto o homem fazia alguma coisa na
sua mo. A ardncia foi horrvel, mas em seguida ele sentiu a frico
spera de uma toalha em seu pulso e alguma coisa enxugando a ferida com
mais suavidade. Ento houve uma sensao fria por um instante, depois
comeou a doer de novo. -Esta  uma pomada preciosa -disse o ancio. -
Muito difcil de obter. Muito boa para ferimentos. Era uma bisnaga velha
e empoeirada de pomada anti-sptica comum, que Will poderia comprar em
qualquer farmcia do seu mundo. O ancio segurava-a como se fosse feita
de mirra. Will desviou os olhos. E enquanto o homem fazia um curativo,
Lyra sentiu Pantalaimon chamando-a silenciosamente para ir espiar pela
janela. Ele era um gavio empoleirado na moldura da janela aberta, e
tinha percebido um movimento l embaixo. Ela juntou-se a ele e viu uma
figura conhecida: a menina Anglica corria para seu irmo mais velho,
Tullio, que estava parado com as costas apoiadas no muro do outro lado
da passagem lateral, mexendo os braos no ar como se tentasse manter
longe do rosto uma nuvem de morcegos. Ele ento se virou e comeou a
passar as mos pelas pedras do muro, examinando cada uma delas com
ateno, contando-as, tateando pelas #207 beiradas, curvando-se como se
fugisse de alguma coisa s suas costas, sacudindo a cabea. Anglica
estava desesperada, assim como o pequeno Paolo atrs dela; ambos
chegaram at o irmo, agarraram-no pelos braos e tentaram pux-lo para
longe do que quer que o estivesse perturbando. Com um espasmo de nusea,
Lyra compreendeu o que estava acontecendo: o rapaz estava sendo atacado
pelos Espectros. Anglica sabia disso, embora natUralmente no
conseguisse v-los, e o pequeno Paolo chorava e golpeava o ar, tentando
afast-los; mas no adiantava, Tullio estava perdido. Seus movimentos
ficaram cada vez mais letrgicos, e finalmente cessaram de todo.
Anglica agarrou-se ao irmo mais velho, estremecendo e sacudindo o
brao dele, mas nada o despertava; e Paolo gritava o nome do irmo sem
cessar, como se isso fosse traz-lo de volta. Ento foi como se Anglica
sentisse que Lyra a observava, e olhou para cima. Por um instante seus
olhos se encontraram. Lyra teve um estremecimento, como se a garota a
tivesse golpeado de verdade, to intenso era o dio nos olhos dela, e
ento Paolo viu-a olhando e olhou para cima tambm, e gritou com sua voz
de menino: -Ns vamos te matar! Voc fez isso com Tullio. Ns vamos te
matar! As duas crianas viraram-se e saram correndo, deixando para trs
o irmo ferido, e Lyra, sentindo-se assustada e culpada, afastou-se da
janela e fechou-a. Os outros nada tinham ouvido. Giacomo Paradisi estava
colocando mais pomada nos ferimentos, e Lyra tentou tirar da cabea
aquilo que tinha presenciado e concentrar-se em Will. -Tem que amarrar
alguma coisa em volta do brao dele para segurar o sangue. Seno no vai
parar . #208 -, , eu sei -disse o velho, mas com tristeza. Will
manteve os olhos desviados enquanto eles faziam um curativo e bebeu o
conhaque de ameixa aos golinhos. Finalmente sentiu-se aliviado e
distante, embora a mo agora lhe doesse insuportavelmente. -Agora, aqui
est, pegue a faca, ela  sua -disse Giacomo Paradisi. -Eu no quero
-disse Will. -No quero ter nada a ver com ela. -Voc no tem escolha
-afirmou o ancio. -Agora  o portador . -Pensei que fosse o senhor
-intrometeu-se Lyra. -O meu tempo acabou. A faca sabe quando deixar uma
mo e procurar outra, e eu sei distinguir. No acredita em mim. Ele
ergueu a mo esquerda. O dedo mnimo e o anular estavam faltando,
exatamente como os de Will. -, eu tambm -disse. -Lutei e perdi os
mesmos dedos.  o emblema do portador. E tambm no sabia de antemo.
Lyra sentou-se, de olhos arregalados. Will apoiou-se na mesa empoeirada
com a mo boa. Esforava-se para encontrar as palavras. -Mas eu... S
viemos aqui porque... Um homem roubou uma coisa de Lyra e ele queria a
faca, e disse que se a gente levasse a faca para ele, ento ele ia...
-Conheo esse homem. Ele  mentiroso, um vigarista. No ia lhes dar
coisa alguma, no se enganem. Ele quer a faca, e quando a tiver vai
trair vocs. Ele nunca ser o portador. A faca  sua por direito. #209
Com pesada relutncia Will virou-se para a prpria faca e puxou-a em sua
direo. Era uma adaga de aparncia comum: lmina de dois gumes, de
metal fosco, com uns 20 centmetros de comprimento, um travesso curto
do mesmo metal e cabo de pau-rosa. Ao examin-la com mais ateno, o
garoto percebeu que na madeira do cabo estavam encastoados fios dourados
formando um desenho que ele no reconheceu at virar a faca e ver do
outro lado um anjo de asas dobradas; no lado oposto havia um anjo
diferente, com as asas abertas. Os fios ressaltavam um pouco da madeira,
permitindo uma pegada firme, e ao segurar a faca na mo Will sentiu que
ela era leve, forte e tinha um equilbrio perfeito, e que a lmina
afinal no era fosca -alis, parecia que sob a superfcie do metal havia
um redemoinho de cores nubladas: os roxos de um hematoma, os azuis do
mar, os marrons da terra, os cinzentos das nuvens e os verde-escuros que
se encontram sob uma rvore de copa densa, as sombras que se agrupam na
boca de uma sepultura quando a tarde cai sobre um cemitrio deserto. Se
existe algo como sombras coloridas, era o que refletia a lmina da faca
sutil. Mas os gumes eram diferentes -alis, os dois gumes eram
diferentes entre si. Um era de ao claro e brilhante, que logo se fundia
quelas sutis sombras coloridas, mas um ao de agudeza incomparvel;
Will no conseguiu manter o olhar nele, to afiado ele parecia. O outro
gume era igualmente afiado, mas de cor prateada, e Lyra, que olhava por
cima do ombro de Will, exclamou: -J vi esta cor!  a mesma da lmina
que iam usar para me separar do Pan, a mesma! -Este gume corta qualquer
material no mundo -disse Giacomo Paradisi, tocando o ao com o cabo de
uma colher. -Vejam. #210 o ancio apertou a colher de prata contra a
lmina. Will, que segurava a faca, sentiu uma resistncia mnima
enquanto a ponta do cabo era cortada e caa sobre a mesa. Ele continuou:
-O outro gume  ainda mais sutil. Com ele voc consegue cortar uma
abertura para fora deste mundo. Experimente agora. Faa o que eu digo;
voc  o portador. Tem que saber. S eu posso lhe ensinar, e no tenho
muito tempo. Fique de p e escute. Will empurrou a cadeira para trs e
ficou de p, segurando a faca com dedos frouxos. Sentia-se tonto,
enjoado, revoltado. -Eu no quero... -comeou a dizer. Mas Giacomo
Paradisi sacudiu a cabea. -Silncio! -ordenou. -Ento no quer? Voc
no tem escolha! Escute o que eu digo, pois o tempo  curto. Agora
segure a faca na sua frente, assim. No  s a faca que tem que cortar,
 a sua mente tambm. Voc tem que pensar nisso. Portanto, faa o
seguinte: coloque sua mente na pontinha da faca. Concentre-se, garoto.
Enfoque a sua mente. No pense nesse ferimento; ele vai sarar. Pense na
ponta da faca.  onde voc est. Agora movimente-a devagar. Voc est
procurando uma fresta to pequena que nunca poderia enxerg-la com os
olhos, mas aponta da faca vai conseguir encontr-la, se voc colocar a
sua mente ali. V movimentando pelo ar at sentir uma minscula fenda no
mundo... Will tentou -mas sua cabea zunia, sua mo esquerda latejava
horrivelmente e ele tornou a ver seus dois dedos cados no telhado, e
ento pensou na me, coitada... O que ela iria dizer? Como ela iria
consol-lo? E como ele poderia consol-la? O menino colocou a faca sobre
a mesa e agachou-se, abraando a mo ferida; e ps-se a chorar. Tudo
aquilo era demais para ele. Os soluos arranhavam-lhe a garganta e o
peito, e as #211 lgrimas o cegavam, e ele deveria estar chorando por
ela, a pobre querida, assustada e infeliz, ele a tinha abandonado,
abandonado... Estava desconsolado. Mas ento sentiu a coisa mais
estranha, e enxugou os olhos com as costas da mo direita para ver a
cabea de Pantalaimon em seu joelho. O daemon, em forma de lobo, erguia
para ele os olhos cheios de tristeza e ternura, e ento ps-se a lamber
suavemente a mo ferida de Will, vrias vezes; depois tornou a descansar
a cabea no joelho do garoto. Will no tinha idia do tabu que no mundo
de Lyra impedia que uma pessoa tocasse no daemon de outra; se ele ainda
no tinha tocado em Pantalaimon, isso tinha sido por educao, no por
conhecimento da proibio. Lyra estava atnita. Seu daemon fizera isso
por iniciativa prpria, e agora recuava, voejava at o ombro dela como a
menor das vespas. O ancio observava com interesse, mas no com
incredulidade. J devia ter visto daemons; certamente viajara para
outros mundos. O gesto de Pantalaimon funcionou: Will suspirou fundo e
tornou a ficar de p enxugando as lgrimas dos olhos. -Est bem, vou
tentar outra vez -declarou. -O que  que eu tenho que fazer? Dessa vez
ele forou a mente a fazer o que Giacomo Paradisi dizia, rilhando os
dentes, tremendo com o esforo, suando. Lyra estava doida para
interromper, pois conhecia esse processo -assim como a Dra. Malone, e
como o poeta Keats, fosse ele quem fosse, todos eles sabiam que no
adiantava forar. Mas ficou calada, apertando as mos. -Pare- disse o
ancio com suavidade. -Relaxe. No force.  uma faca mgica, no uma
espada pesada. Voc est segurando a faca com muita fora. Afrouxe os
dedos. Deixe a mente descer pelo seu brao at a mo, depois para o cabo
da #212 faca, e depois seguir pela lmina, sem pressa, no force.
Devagar .Ento v at a pontinha, onde o gume  mais afiado. Voc se
torna a ponta da faca. Faa ISSO agora. V at l, sInta isso e ento
volte. Will tentou outra vez. Lyra via a Intensidade do corpo dele, a
mandbula contrada, e ento viu que uma autoridade descia sobre ele,
acalmando, relaxando e esclarecendo. A autoridade era do prpro Will-
ou do seu daemon, talvez. Como ele devia sentir falta de um daemon!
Tanta solido... No era de espantar que ele tivesse chorado; e
Pantalaimon estava certo em fazer o que fez, embora ela tivesse tido uma
sensao muito estranha. Estendeu os braos para seu amado daemon, e, em
forma de arminho, ele deslizou para o colo dela. Juntos observaram Will,
que tinha parado de tremer. Continuava concentrado, no menos
intensamente, porm de maneira diferente, e a faca tambm parecia
diferente. Talvez fossem aquelas cores nubladas ao longo da lmina,
talvez fosse o modo como ela assentava to naturalmente na mo de Will;
o fato  que o pequeno movimento que ele agora fazia com a ponta da faca
parecia cheio de propsito, e no mais casual. Ele tateou para um lado,
depois girou a faca e tateou para o outro, sempre usando o gume
prateado; e ento pareceu ter encontrado uma fenda no ar vazio. -O que 
isto?  a abertura? -perguntou com voz rouca. -, sim. No force. Volte
agora, volte para si mesmo. Lyra imaginou que via a alma de Will fluindo
de volta ao longo da lmina at a mo dele, e dali pelo brao at o
corao. Ele deu um passo para trs, baixou a mo, pestanejou. -Eu senti
uma coisa ali -disse a Giacomo Paradisi. -No princpio a faca estava s
passando pelo ar, e de repente eu senti... #213 -Muito bem. Agora faa
de novo. Desta vez, quando sentir a fenda, deslize a faca para dentro
dela e para o lado. Faa um corte. No hesite. No fique surpreso. No
deixe a faca cair. Will teve que agachar-se e respirar fundo duas ou
trs vezes e colocar a mo esquerda sob o brao direito antes de poder
continuar .Mas estava decidido; depois de alguns segundos tornou a
levantar-se, a faca apontada para a frente. Dessa vez foi mais fcil-
tendo experimentado uma vez, ele sabia o que devia procurar, e em menos
de um minuto tornou a sentir a curiosa fenda. Era como procurar
delicadamente o espao entre dois pontos cirrgicos com a ponta do
bisturi. Ele tocou, afastou aponta da faca e tornou a tocar para ter
certeza, e ento fez o que o ancio lhe ensinara e cortou para o lado
com o gume prateado. Ainda bem que Giacomo Paradisi tinha avisado para
ele no ficar surpreso. Will manteve a faca cuidadosamente segura na mo
e pousou-a sobre a mesa, antes de ceder  surpresa. Lyra j estava de
p, sem fala, pois no meio do quartinho empoeirado havia uma janela
exatamente como aquela sob os carpinos: um buraco no ar atravs do qual
eles podiam enxergar outro mundo. E como estavam no alto da torre,
estavam bem acima da parte norte de Oxford. Alis, acima de um
cemitrio, virado na direo da cidade. Pouco  frente deles l estavam
os carpinos; havia casas, rvores, estradas e,  distncia, as torres e
obeliscos da cidade. Se j no tivessem visto a primeira janela, teriam
pensado que se tratava de algum tipo de truque. Mas no era apenas
tico; por ali entrava ar e eles sentiam o cheiro dos veculos coisa que
no existia no mundo de Cittgazze. Pantalaimon #214 virou uma andorinha
e voou para o outro lado, adorando o ar livre, depois abocanhou um
inseto antes de voar de volta para o ombro de Lyra. Giacomo Paradisi
observava com um sorriso curioso e triste. Ento disse: -J aprendeu a
abrir. Agora precisa aprender a fechar. Lyra recuou para dar espao a
Will, e o ancio veio postar-se ao lado dele. -Para isso, vai precisar
dos dedos -explicou. -Basta uma das mos. Procure a borda como fez com a
faca antes de abrir. S vai conseguir encontrar se colocar a alma na
ponta dos dedos. Tateie com muita delicadeza, at encontrar as bordas.
Ento aperte uma contra a outra. S isso. Experimente. Mas Will tremia.
No conseguia levar a mente de volta ao delicado equilbrio que ele
sabia ser necessrio, e foi ficando cada vez mais frustrado. Lyra via o
que estava acontecendo. Levantou-se, pegou-o pelo brao direito e disse:
-Escute, Will, sente-se e vou lhe contar como se faz. Sente-se s um
minuto, porque sua mo est doendo e est distraindo a sua mente. 
natural. Vai melhorar daqui apouco. O ancio ergueu ambas as mos, ento
mudou de idia, deu de ombros e tornou a sentar-se. Will sentou-se
tambm e olhou para Lyra. -O que  que estou fazendo de errado?
-perguntou. Ele estava sujo de sangue, tremendo, com o olhar desvairado.
Estava uma pilha de nervos: tinha a mandbula contrada, ofegava e batia
o p no cho. - o seu ferimento -ela disse. -Voc no est errado. Est
fazendo tudo certo, mas a sua mo no deixa voc #215 se concentrar. No
conheo um jeito fcil de resolver isso, mas quem sabe, se voc no
tentasse reprimir... -Como assim? -Voc est tentando fazer duas coisas
com a mente, as duas ao mesmo tempo. Est tentando ignorar a dor e
fechar essa janela. Eu me lembro que uma vez estava lendo o aletmetro
quando estava com medo, e pode ser que eu j estivesse acostumada com
ele, no sei, mas ainda estava assustada o tempo todo enquanto lia ele.
Simplesmente relaxe os seus pensamentos e diga sim, est doendo, eu sei.
No tente abafar a dor. Ele fechou os olhos por um instante. Sua
respirao ficou um pouco mais lenta. -Est bem, vou tentar -ele disse.
E dessa vez foi muito mais fcil. Ele tateou  procura da borda,
encontrou-a num minuto e fez o que Giacomo Paradisi tinha ensinado:
apertou as bordas uma contra a outra. Era a coisa mais fcil do mundo.
Sentiu um entusiasmo breve e calmo, e a janela sumiu. O outro mundo
estava fechado. O ancio entregou-lhe uma bainha de couro com um
contraforte de chifre slido, com fivelas para manter a faca no lugar,
pois o menor movimento da lmina cortaria o couro mais grosso. Will
deslizou a faca para dentro da bainha e afivelou-a como podia, usando
desajeitadamente uma s mo. -Esta devia ser uma ocasio solene
-declarou Giacomo Paradisi. -Se ns dispusssemos de dias e semanas eu
poderia comear a contar-lhes a histria da faca sutil e da Liga da
Torre degli Angeli, e toda a triste histria deste mundo corrompido e
descuidado. Os Espectros so culpa nossa, s nossa. Eles vieram porque
os meus predecessores, alquimistas, filsofos, homens eruditos, estavam
pesquisando a natureza #216 mais profunda das coisas. Ficaram curiosos
sobre o aglutinante que mantinha unidas as mais nfimas partculas de
matria. Sabe o que eu quero dizer com aglutinante?  o mesmo que cola,
grude. Bem, esta era uma cidade comercial, uma cidade de mercadores e
banqueiros. Ns pensvamos que sabamos tudo sobre todas as coisas...
Mas sobre esse aglutinante ns estvamos enganados. Ns o desmanchamos e
deixamos os Espectros entrarem. -De onde vm os Espectros? -Will quis
saber. -Por que deixaram uma janela aberta debaixo daquelas rvores, a
janela por onde eu entrei? Existem outras janelas no mundo? -De onde os
Espectros vm  um mistrio. De outro mundo, da escurido do espao,
quem sabe? O que importa  que esto aqui, e nos destruram. Se existem
outras janelas para este mundo? Sim, umas poucas, porque de vez em
quando um portador da faca pode se descuidar ou esquecer, ou ento ficar
sem tempo para parar e fechar como deveria. E quanto  janela que voc
atravessou, sob os carpinos... Eu mesmo deixei aquela janela aberta, num
momento de tolice imperdovel. O homem que vocs mencionaram, pensei que
ele cairia na tentao de atravessar para c, onde seria vtima dos
Espectros. Mas acho que ele  inteligente demais para cair num truque
desses. Ele quer a faca. Por favor, nunca deixe que ele a tenha. Will e
Lyra se entreolharam. -Bem, tudo que posso fazer  entregar-lhe a faca e
ensinar-lhe como us-la -terminou o ancio, abrindo os braos. -Isso eu
j fiz; devo tambm contar-lhe quais costumavam ser as regras da Liga
antes que ela entrasse em decadncia. Primeira: nunca abrir sem fechar.
Segunda: nunca deixar outra pessoa usar a faca. Ela  s sua. Terceira:
nunca usar com propsito vil. Quarta: guardar segredo. Se existem #217
outras regras, eu as esqueci, e se as esqueci foi porque elas no eram
importantes. Voc tem a faca. Voc  o portador. No devia ser uma
criana. Mas o nossO mundo est se esfacelando, e a marca do portador 
inconfundvel. Nem sei o seu nome. Agora saiam. Vou morrer logo, pois
sei onde esto guardadas as drogas venenosas e no pretendo esperar a
chegada dos Espectros quando a faca tiver ido embora. -Mas, Sr.
Paradisi... -Lyra comeou. Mas ele sacudiu a cabea e continuou: -No h
tempo. Vocs vieram aqui com um propsito, e talvez no saibam qual 
esse propsito, mas os anjos que os trOuxeram at aqui sabem. Vo. Voc
 corajoso e a sua amiga  inteligente. E voc tem a faca. Saiam. -Ento
vai mesmo se envenenar? -Lyra quis saber, inconformada. -Vamos, Lyra
-Will chamou. -E que histria  essa de anjos? -ela insistiu. Will
puxou-a pelo brao. -Vamos embora -tornou a chamar. -Temos que ir.
Obrigado, Sr. Paradisi. Ele estendeu a mo direita, suja de sangue e
poeira, e o velho apertou-a delicadamente. Apertou a mo de Lyra tambm
e fez um aceno para Pantalaimon, que como resposta baixou a cabea de
arminho. Segurando a faca em sua bainha de couro, Will desceu na frente
pelos degraus largos e escuros que levavam ao trreo, e saiu da torre. A
luz do sol era quente na pracinha, e o silncio era profundo. Lyra olhou
em volta com imensa cautela, mas a rua estava deserta. E era melhor no
preocupar Will contando-lhe o que tinha visto; j havia problemas em
nmero suficiente. Ela o levou para longe da rua onde tinha visto as
#218 crianas e onde Tullio ainda estava parado, imvel, como se
estivesse morto. -Eu queria... -disse ela, quando estavam quase saindo
da praa e pararam para olhar para trs. - horrvel pensar em... E os
dentes dele, coitadinho, todos quebrados, e ele mal podia enxergar...
Vai simplesmente engolir veneno e morrer agora, e eu querIa... Ela
estava  beira das lgrimas. -Psiu -fez Will. -Ele no vai sentir dor.
Vai simplesmente adormecer.  melhor do que os Espectros, foi o que ele
disse. -Ah, o que  que ns vamos fazer, Will? O que  que ns vamos
fazer? Voc to machucado, e aquele pobre velhinho... Odeio este lugar,
odeio mesmo, tenho vontade de botar fogo em tudo. O que  que ns vamos
fazer agora? -Bom, isso  fcil -ele respondeu. -Temos que pegar o
aletmetro de volta, ento vamos ter que roubar ele.  isso que vamos
fazer. #219 9 O ROUBO Primeiro voltaram ao caf para descansar,
recuperar as foras e mudar de roupa. Era bvio que Will no poderia
sair por ali coberto de sangue, e o tempo em que ele se sentia
constrangido em pegar coisas nas lojas j tinha ficado para trs; de
modo que ele reuniu um conjunto completo de roupas e sapatos, e Lyra,
que exigira ajudar e vigiava em todas as direes a chegada das outras
crianas, carregou tudo de volta para o caf. Lyra ferveu gua, que
Willlevou consigo para o banheiro, onde despiu-se para lavar-se da
cabea aos ps. A dor era surda e ininterrupta, mas pelo menos os cortes
estavam limpos; tendo visto o que aquela faca podia fazer, ele sabia que
nenhum corte poderia ser mais limpo; mas os tocos dos dedos sangravam
abundantemente. Quando olhava para eles, Will sentia nusea e seu
corao disparava, o que, por sua vez, aumentava o sangramento. Ele se
sentou na borda da banheira, fechou os olhos e respirou profundamente
algumas vezes. Finalmente sentiu-se mais calmo e comeou o banho. Fez o
melhor que pde, enxugou-se nas toalhas cada vez mais sujas #220 de
sangue e depois vestiu as roupas novas, tentando no ensanguent-las
tambm. -Voc vai ter que refazer o meu curativo -ele pediu a Lyra.
-Pode apertar quanto quiser, contanto que pare o sangue. Ela rasgou um
lenol e envolveu a mo ferida, o mais apertado que pde. Ele trincou os
dentes, mas no conseguiu evitar as lgrimas. Enxugou-as sem uma
palavra, e ela nada disse. Quando ela terminou, Will agradeceu, e
continuou: -Escuta, quero que voc leve uma coisa para mim na sua
mochila, pois pode ser que a gente no consiga voltar para c. So s
umas cartas. Pode ler, se quiser. Ele pegou o escrnio de couro verde e
entregou-lhe as folhas de papel de carta. -No vou ler, no, a no ser
que... -No me importo. Seno no tinha falado nada. Ela dobrou as
cartas e ele estendeu-se na cama, empurrou a gata para o lado e
adormeceu. Muito mais tarde, na mesma noite, Will e Lyra estavam
agachados na alameda que corria ao longo do pequeno bosque de arbustos
no jardim de Sir Charles. No mundo de Cittgazze, estavam no gramado de
um parque que rodeava uma manso em estilo clssico, o vulto branco
brilhando ao luar. Tinham levado muito tempo para chegar at a casa de
Sir Charles, avanando a maior parte do tempo em Cittgazze, com
frequentes paradas para cortar uma janela e verificar sua posio no
mundo de Will; assim que se certificavam de onde estavam, Will fechava
cada janela. No exatamente junto com les, mas no muito atrs, vinha a
gata. Ela dormira desde que a tinham salvo das pedras lanadas pelas
crianas e, agora que estava novamente acordada, #221 relutava em
separar-se deles, como se pensasse que estaria segura onde quer que eles
estivessem. Will no tinha tanta certeza disso, mas j tinha problemas
suficientes sem a gata, portanto resolveu ignor-la. Ele ficava cada vez
mais familiarizado com a faca, mais seguro ao comand-la; mas o
ferimento doa mais do que antes, com um latejar profundo e incessante,
e o curativo novo que Lyra fizera j estava encharcado. Ele cortOU uma
janela no ar no muito longe da casa em estilo clssico e atravessaram
para a alameda silenciosa em Headington para planejar exatamente como
chegariam ao escritrio onde Sir Charles tinha guardado o aletmetro.
Havia dois holofotes iluminando o jardim, e todas as janelas da fachada
da casa estavam acesas, menOS a do escritrio. Naquele lado s o luar
clareava, e a janela do escritrio estava completamente s escuras. A
alameda seguia por entre rvores at desembocar em outra rua, e no era
iluminada. Seria fcil para um ladro comum entrar sem ser visto no
bosque de arbustos e dali para o jardim, se no fosse pela pesada cerca
de ferro, com duas vezes a altura de Will e com pontas aguadas, que
cercava todo o permetro da propriedade de Sir Charles. Mas isso no era
impedimento para a faca mgica. -Segure esta barra para eu cortar -Will
cochichou. -No deixe cair no cho. Lyra fez o que ele mandava, e ele
cortoU quatro barras, o suficiente para que passassem sem dificuldade.
Lyra enfileirou-as sobre o gramado, e os dois passaram, avanando por
entre os arbustos. U ma vez tendo uma boa viso da lateral da casa, com
a janela do escritrio, sombreada pela hera, de frente para eles do
outrO lado do gramado liso, Will disse baixinho: #222 -Vou abrir aqui um
buraco para Ci'gazze e deixar ele aberto, e avanar em Ci'gazze at onde
sei que fica o escritrio, e a abro outro buraco de volta para este
mundo. Ento pego o aletmetro naquela estante, torno a passar pelo
buraco, fecho ele e venho por Ci'gazze at este buraco. Voc fica me
esperando aqui neste mundo e vigiando. Assim que me ouvir chamar, passe
para Ci'gazze por este buraco, e eu torno a fechar ele. Entendeu?
-Entendi -ela cochichou. -Eu e Pan vamos vigiar. Seu daemon era uma
pequena coruja castanha, quase invisvel  luz mosqueada de sombras sob
as rvores. Seus olhos grandes e claros observavam cada movimento. Will
recuou um passo e estendeu a faca, procurando, tocando o ar com
movimentos muito delicados, at que, depois de cerca de um minuto,
encontrou um ponto onde poderia cortar .Fez isso depressa, abrindo uma
janela para dentro do parque enluarado de Ci'gazze, e ento calculou
quantos passos precisaria dar para chegar ao escritrio, memorizando a
direo. Ento, sem uma palavra, ele atravessou e desapareceu. Lyra
agachou-se ali perto. Pantalaimon estava empoleirado num galho acima da
cabea dela, virando-se de um lado para outro, em silncio. Ela ouvia o
trnsito de Headington atrs de si, e os passos abafados de algum que
descia a rua no final do beco, e at mesmo o movimento leve dos insetos
por entre as folhas a seus ps. Passou-se um minuto, e mais outro. Onde
estaria Will agora? Ela se esforou para enxergar pela janela do
escritrio, mas esta era apenas um quadrado escuro semi-encoberto pela
hera. Ainda nessa mesma manh Sir Charles tinha se sentado l dentro,
junto  janela, cruzara as pernas e ajeitara o vinco #223 das calas.
Onde ficava a estante em relao  janela? Will conseguiria entrar sem
chamar a ateno de algum dentro da casa? Lyra ouvia as batidas do
prprio corao. Ento Pantalaimon fez um rudo baixo, e no mesmo
momento veio um som diferente da frente da casa,  esquerda de Lyra. Ela
no conseguia enxergar a fachada, mas via uma luz varrendo as rvores e
ouviu o som de pneus no cascalho. No tinha ouvido o menor barulho de
motor de automvel. Procurou Pantalaimon, que j estava deslizando
silenciosamente pelo ar, o mais distante que conseguia ficar. Ele se
virou na escurido e foi pousar no pulso dela. -Sir Charles est
voltando -sussurrou. -E est com algum. Ele tornou a sair voando e
dessa vez Lyra foi atrs, p ante p pela terra fofa com o maior
cuidado, agachando-se atrs das moitas, finalmente pondo-se de quatro
para espiar por entre as folhas de um loureiro. O Rolls Royce estava
parado em frente  casa e o motorista rodeava o veculo para abrir a
porta do passageiro. Sir Charles esperava sorrindo e oferecendo o brao
 mulher que saltava do carro; quando ela surgiu  vista de Lyra, esta
sentiu um golpe no corao, pois a visitante de Sir Charles era sua me,
a Sra. Coulter. Will atravessou com cautela o gramado iluminado pela lua
em Cittgazze, contando os passos, mantendo na mente, com toda a clareza
que conseguia, a lembrana de onde ficava o escritrio, e tentando
localiz-lo em relao  casa em estilo clssico que se erguia ali perto
no mundo de Ci'gazze, caiada de branco e com colunas, no centro de um
jardim formal com esttuas e um chafariz. Ele tinha conscincia de como
estava exposto naquele jardim enluarado. #224 Quando achou que estava no
lugar correto, estacou e tornou a estender a faca, tateando
cuidadosamente  frente. Havia daquelas pequenas fendas invisveis em
vrios lugares, mas no em todos, caso contrrio qualquer golpe com a
faca abriria uma janela. A princpio ele abriu um orifcio pequeno, no
maior que a sua mo, e espiou por ele. Do outro lado, apenas a
escurido. Ele no conseguia enxergar onde estava. Fechou esse buraco,
fez uma volta de 90 graus e abriu outro. Dessa vez encontrou pano  sua
frente, um pesado veludo verde: as cortinas do escritrio. Mas onde elas
ficavam em relao  estante? Ele teria que fechar esse buraco tambm,
girar para o outro lado e tentar de novo. E o tempo estava passando. A
terceira vez foi melhor: ele conseguiu enxergar o escritrio inteiro 
luz fraca que entrava pela porta aberta para o vestbulo. L estavam a
escrivaninha, o sof, a estante! Ele conseguia vislumbrar um leve brilho
ao longo da lateral de um microscpio de cobre. E no havia ningum ali,
a casa estava em silncio. No podia ser melhor. Calculou cuidadosamente
a distncia, fechou a janela, deu quatro passos para a frente e tornou a
erguer a faca. Se estivesse correto, estaria exatamente no local
apropriado para estender a mo pelo buraco, cortar o vidro da estante,
pegar o aletmetro e fechar a janela atrs de si. Cortou uma janela na
altura certa: o vidro da porta da estante ficava logo  frente. Chegou o
rosto bem perto, estudando atentamente as prateleiras, da primeira 
ltima. O aletmetro no estava l. A princpio Will achou que tinha
escolhido a estante errada. Havia quatro delas no escritrio, ele tinha
contado de manh e decorado onde ficavam, estantes altas e quadradas,
#225 de madeira escura, com frente e laterais de vidro e prateleiras
forradas de veludo, feitas para exibir preciosos objetos de porcelana,
marfim ou ouro. Ele podia simplesmente ter aberto uma janela na frente
da estante errada? Mas na prateleira superior estava o instrumento
pesado, com anis de cobre; ele fizera questo de observ-lo. E na
prateleira do meio, onde Sir Charles tinha colocado o aletmetro, havia
um espao. Era a estante certa, e o aletmetro no estava l. Will
recuou por um momento e respirou fundo. Teria que atravessar totalmente
e procurar em volta; abrir janelas ao acaso iria levar a noite toda. Ele
fechou a janela na frente da estante, abriu outra para olhar para o
resto do aposento e, depois de um estudo cuidadoso, fechou essa outra e
abriu uma maior atrs do sof, por onde poderia facilmente fugir s
pressas se fosse necessrio. A essa altura sua mo latejava brutalmente,
e do curativo frouxo pendia uma tira de pano. Ele a enrolou o melhor que
conseguiu e enfiou aponta para dentro, depois atravessou para a casa de
Sir Charles e agachou-se atrs do sof de couro, a faca na mo direita,
e ficou  escuta. No ouvindo qualquer rudo, levantou-se devagar e
olhou em volta. A porta para o vestbulo estava entreaberta, e a luz que
entrava permitia-lhe enxergar bem. As estantes envidraadas, as
prateleiras, os livros, os quadros, tudo estava como naquela manh,
intocado. Pisando no tapete, ele esquadrinhou cada uma das estantes. O
aletmetro no estava ali. Nem estava na escrivaninha, no meio dos
livros e papis organizados em pilhas, nem sobre a lareira entre os
cartes convidando para estrias e recepes, nem no assento acolchoado
junto  janela, nem na mesa octogonal atrs da porta. #226 Ele voltou 
escrivaninha, pretendendo experimentar as gavetas, j com uma incmoda
expectativa de fracasso; e nesse momento escutou um rudo leve de pneus
no cascalho, to baixo que ele achou que tinha imaginado; mas mesmo
assim ficou imvel, esforando-se para ouvir. O rudo cessou. Ento ele
ouviu a porta se abrir . Voltou correndo para trs do sof, onde
agachou-se ao lado da janela que ele tinha aberto para o gramado
enluarado em Cittgazze. E mal tinha chegado ali quando ouviu passos
naquele outro mundo, passos leves correndo pelo gramado, e olhou atravs
da janela para ver Lyra vindo apressada em sua direo. S teve tempo de
acenar e pedir silncio com um dedo nos lbios; ela diminuiu a
velocidade, percebendo que ele j sabia que Sir Charles tinha voltado.
-No consegui -ele sussurrou quando ela se aproximou. -No estava l.
Provavelmente est com ele. Vou escutar e ver se ele coloca de volta no
lugar. Fique aqui. -No!  pior ainda! -ela exclamou, quase em pnico.
-Ela est com ele, a Sra. Coulter, a minha me, no sei como ela chegou
aqui, mas se me encontrar eu estou morta, Will, estou perdid. E agora
me lembrei quem  ele! J sei onde foi que eu o vi antes! Will, o nome
dele  Lorde Boreal! Eu conheci ele no coquetel da Sra. Coulter, quando
eu fugi! E ele devia saber quem eu era o tempo todo... -Psiu. No fique
aqui, se vai fazer barulho. Ela se controlou, engolindo em seco e
sacudindo a cabea. -Desculpe. Quero ficar com voc -cochichou. - Quero
ouvir o que eles vo dizer. -Agora fique quieta... Ele escutava vozes no
vestbulo. Os dois estavam ao alcance de um toque de mo, ele no mundo
dele, ela em #227 Cittgazze, e ao ver o curativo frouxo de Will, Lyra
bateu de leve no brao dele e com gestos mandou que ele o atasse de
novo. Ele estendeu o brao para que ela fizesse isso, agachado, com a
cabea de lado, escutando com ateno. Uma luz se acendeu no escritrio.
Ele ouviu Sir Charles falando com o criado, dispensando-o, entrando no
escritrio, fechando a porta. -Posso lhe oferecer uma taa de Tokay?
-ele perguntOU. U ma voz feminina, baixa e doce, respondeu: -Quanta
gentileza, Carlo. H muitos anos no provo Tokay. -Sente-se ali perto da
lareira. Ouviu-se o gorgolejar do vinho sendo servido, depois o tilintar
do frasco na borda da taa, um murmrio de agradecimento, e ento Sir
Charles foi sentar-se no sof, a centmetros de distncia de Will. -A
sua sade, Marisa -disse ele, bebendo um gole. -Agora, diga-me o que
deseja. -Quero saber onde voc conseguiu o aletmetro. -Por qu? -Porque
ele estava com Lyra, e eu quero encontr-la. -No imagino por que
motivo.  uma pirralha repelente. -Tenho que lhe lembrar que ela  minha
filha. -Ento  ainda mais repelente, porque deve ter resistido de
propsito  sua encantadora influncia. Ningum conseguiria fazer isso
sem querer. -Onde est ela? -Vou lhe contar, prometo. Mas primeiro voc
tem que me contar uma coisa. .. #228 -Se eu puder... -disse ela, em tom
diferente, que Will imaginou ser de advertncia. -O que  que voc quer
saber? A voz dela era embriagadora: calmante, doce, musical, e jovem,
tambm. Ele tinha uma vontade enorme de saber como ela era, porque Lyra
nunca tinha falado dela, e o rosto que acompanhava aquela voz devia ser
maravilhoso. -O que  que Asriel est pretendendo? Houve ento um
silncio, como se a mulher estivesse calculando o que iria dizer. Will
tornou a olhar para Lyra atravs da janela, e viu o rosto dela,
iluminado pelo luar, olhos arregalados de medo, mordendo os lbios para
ficar quieta e esforando-se para ouvir, como ele. Finalmente a Sra.
COulter disse: -Muito bem, vou lhe contar. Lorde Asriel est reunindo um
exrcito com o propsito de completar a guerra que houve no cu h
muitas eras. -Que coisa mais medieval. No entanto, parece que ele tem
alguns poderes bem modernos. O que foi que ele fez com o plo magntico?
-Ele descobriu um modo de explodir a barreira entre o nosso mundo e os
outros. Isso provocou srios distrbios no campo magntico da Terra, e
deve ter afetado este mundo aqui tambm... Mas como  que sabe disso?
Carlo, acho que voc devia responder a algumas perguntas minhas. Que
mundo  este? E como foi que me trouxe aqui? - um entre milhes.
Existem aberturas entre eles, mas no so fceis de achar. Conheo uma
dzia delas, mas os lugares para onde elas se abrem mudaram, deve ter
sido por causa do que Asriel fez. Parece que agora podemos passar
diretamente deste mundo para o nosso, e provavelmente para muitos Outros
tambm. Antes, havia um nico mundo que #229 servia como uma espcie de
encruzilhada, e todas as portas se abriam para l. De modo que voc pode
imaginar a minha surpresa quando a vi, quando atravessei hoje, e o meu
prazer em poder traz-la diretamente para c, sem correr o risco de
passar por Cittgazze. -Cittgazze? Que  isso? -A encruzilhada. Um
mundo em que tenho interesse, minha cara Marisa. Mas um mundo perigoso
demais para visitarmos no momento. -Perigoso por qu? -Perigoso para os
adultos. As crianas podem ir livremente. -Como assim? Preciso saber
disso, Carlo -disse a mulher, e Will sentia a sua apaixonada
impacincia. -Isto est no centro de tudo, essa diferena entre crianas
e adultos!  onde est guardado todo o mistrio do P!  por isso que
preciso encontrar aquela criana. E as bruxas lhe deram um nome. Quase
fiquei sabendo qual era, quase, de uma bruxa mesmo, mas ela morreu
depressa demais. Preciso encontrar a menina. Ela tem a resposta, seja
como for, e eu preciso dela... -E ter. Este instrumento vai traz-la
at aqui, no se preocupe. Uma vez que ela tenha me dado o que eu quero,
voc pode ficar com ela. Mas me fale dessa sua curiosa escolta, Marisa.
Nunca vi soldados como aqueles. Quem so? -So homens, simplesmente.
Mas... sofreram a interciso. No tm daemons, portanto no tm medo,
nem imaginao, nem vontade prpria, e lutaro at morrer. -No tm
daemons... Ora,  muito interessante. Fico imaginando se eu no poderia
sugerir uma pequena experincia, se voc puder dispor de um deles.
Gostaria de ver se os #230 Espectros esto interessados neles. Se no
estiverem, pode ser que possamos ir a Cittgazze afinal... -Os
Espectros? Quem so eles? -Mais tarde explico, minha cara. So o motivo
por que os adultos no podem entrar naquele mundo. P, crianas,
Espectros, daemons, interciso... , podia funcionar. Tome mais um pouco
de vinho. -Quero saber de tudo -ela declarou, enquanto o vinho era
servido. -Vou lhe cobrar isso. Agora diga-me: o que  que voc est
fazendo neste mundo? Era para c que voc vinha quando pensvamos que
estava no Brasil ou nas ndias? -Descobri o caminho para c h muito
tempo. Era um segredo bom demais para ser revelado, at mesmo para voc,
Marisa. Montei uma vida bastante confortvel, aqui, como voc pode ver.
Como em casa eu pertencia ao Conselho de Estado, tive facilidade em
avaliar onde estava o poder aqui. Na verdade tornei-me espio, embora
nunca tenha contado aos meus chefes tudo que sabia. Durante anos os
servios de espionagem neste mundo se preocuparam com a Unio Sovitica,
que ns chamamos de Moscvia. E, embora essa ameaa tenha diminudo,
ainda existem postos de escuta e instrumentos apontados naquela direo,
e ainda estou em contato com aqueles que chefiam os espies. Ele
continuou, depois de uma pausa: -E eu soube recentemente de um srio
distrbio no campo magntico da Terra. Todos os servios de segurana
esto alarmados. Todos os pases que pesquisam fsica fundamental, o que
ns chamamos de teologia experimental, esto colocando seus cientistas
em misso urgente a fim de descobrir o que est acontecendo. Porque eles
sabem que alguma coisa est acontecendo. E suspeitam que tenha algo a
ver com outros #231 mundos. Alis, eles j tm algumas pistas disso. H
uma pesquisa sobre o P em andamento. Ah, sim, eles aqui tambm sabem
sobre isso. Aqui mesmo nesta cidade h uma equipe trabalhando nisso. E
outra coisa: um homem desapareceu h 10 ou 12 anos, no norte, e os
servios de segurana acham que ele estava de posse de certa informao
de que eles precisavam demais, ou seja, a localizao de uma porta entre
os mundos, como essa que voc atravessou hoje. A porta que ele encontrou
 a nica que eles conhecem: voc pode imaginar que no lhes contei o
que sei. Quando comeou esse novo distrbio, eles saram em busca desse
homem. Ele arrematou: -Naturalmente, Marisa, estou curioso. E ansioso
para aumentar os meus conhecimentos. Will estava paralisado, o corao
batendo com tanta fora que ele temia que os adultos escutassem. Sir
Charles estava falando do seu pai! Ento era isso que aqueles homens
eram, e o que estavam procurando! Mas durante todo o tempo ele tinha
conscincia de mais alguma coisa no aposento alm das vozes de Sir
Charles e da mulher: havia uma sombra movendo-se pelo cho, ou pela
parte do cho que o menino conseguia enxergar alm da ponta do sof e
atrs das pernas da mesinha octogonal. Mas nem Sir Charles nem a mulher
se moviam. A sombra movimentava-se em passos rpidos e curtos, e
perturbava muito Will. A nica luz na sala era a de um abajur ao lado da
lareira, de modo que a sombra era ntida e definida, mas nunca se
imobilizava pelo tempo suficiente para Will distinguir o que era. Ento
duas coisas aconteceram. Primeiro, Sir Charles mencionou o aletmetro.
-Por exemplo, estou muito curioso sobre este instrumento -ele declarou.
-E se voc me contar como ele funciona? #232 E ele colocou o aletmetro
sobre a mesinha octogonal na ponta do sof. Will conseguia v-lo
claramente; quase podia tocar nele. A segunda coisa que aconteceu foi
que a sombra imobilizou-se. A criatura que a lanava devia estar
empoleirada no encosto da cadeira da Sra. Coulter, porque a luz que
jorrava sobre ela lanava a sua sombra na parede. E no momento em que
ela se imobilizou, ele tomou conscincia de que se tratava do daemon da
mulher: um macaco, agachado, girando a cabea de um lado para Outro,
procurando alguma coisa. Will escutou Lyra inspirar com fora atrs de
si, quando ela tambm o viu. Ele se virou sem rudo e murmurou: -Volte
para a outra janela e atravesse para este jardim. Pegue umas pedras e
jogue na janela do escritrio para desviar a ateno deles por um
instante e eu poder pegar o aletmetro. Depois corra de volta para a
outra janela e espere por mim. Ela assentiu, se virou e se afastou
correndo sem rudo pela grama. Will voltou-se para o escritrio. A
mulher dizia: -...o Reitor da Universidade Jordan  um velho tolo. No
posso imaginar por que deu o aletmetro a ela;  preciso um estudo
intensivo durante vrios anos para entender o instrumento. E agora voc
me deve umas informaes, Carlo. Como foi que encontrou o aletmetro? E
onde est a minha filha? -Vi quando ela o usava num museu da cidade.
Reconheci a garota,  claro, pois a conheci naquele seu coquetel h
tanto tempo, de modo que imaginei que ela tenha encontrado uma porta. E
ento percebi que poderia usar isso para um propsito meu. Ento, quando
esbarrei com ela pela segunda vez, eu o roubei. -Voc  bem franco. #233
-No h necessidade de melindres, somos ambos adultos. -E onde est ela
agora? O que foi que ela fez quando descobriu o roubo? -Ela veio at
aqui, o que deve ter exigido coragem, eu imagino. -Coragem no lhe
falta. E o que vai fazer com ela? Qual  esse seu propsito? -Eu disse a
ela que devolveria o aletmetro se ela me conseguisse uma coisa que eu
no posso conseguir sozinho. -E que coisa  essa? -No sei se voc... E
foi nesse instante que a primeira pedra atingiu a janela do escritrio.
A vidraa estilhaou-se num gratificante tilintar, e no mesmo instante o
macaco saltou do encosto da cadeira, enquanto os adultos ficavam
imveis, boquiabertos. Veio outra pedra, e mais outra, e Will sentiu o
sof mexer-se quando Sir Charles se levantou. Will inclinou-se para a
frente e pegou o aletmetro na mesinha, enfiou-o no bolso e saltou
atravs da janela. Assim que se viu no gramado em Cittgazze ele tateou
no ar em busca das bordas invisveis, acalmando a mente, respirando
devagar, consciente, durante todo o tempo, de que a poucos passos dele
havia um perigo terrvel. Ento ouviu um guincho que no era humano nem
animal, mas pior do que qualquer uma dessas coisas, e entendeu que vinha
do horrvel macaco. J tinha conseguido fechar quase toda a janela, mas
ainda restava uma fenda na altura do seu peito -e ento ele teve que
saltar para trs, porque por essa fenda passou uma pequena pata de plos
dourados e garras #234 negras, e depois uma cara: um focinho de
pesadelo. O macaco dourado tinha os dentes  mostra, os olhos brilhantes
de dio, e uma malevolncia to intensa emanava dele que Will sentia-a
quase como uma lana. Mais um segundo e o macaco teria atravessado, e
isso teria sido o fim; mas Will ainda segurava a faca; ergueu-a e
golpeou duas vezes o focinho do macaco -ou o lugar onde o focinho
estaria se o animal no tivesse recuado bem a tempo. Isso deu a Will o
tempo necessrio para ele agarrar as bordas da janela e apert-las uma
contra a outra, fechando-a. Seu prprio mundo desapareceu, e ele estava
sozinho no parque enluarado em Cittgazze, ofegando, tremendo -e muito
assustado. Mas agora tinha que ajudar Lyra. Correu de volta  primeira
janela que ele tinha aberto e que dava para o bosque de arbustos, e
espiou para o outro lado. As folhas escuras dos loureiros e dos
azevinhos atrapalhavam a viso, mas ele enfiou a mo e afastou a
folhagem para poder enxergar a lateral da casa, com a vidraa quebrada
da janela do escritrio destacando-se claramente ao luar . Enquanto
olhava, ele viu o macaco surgir aos saltos do canto da casa, disparando
pelo gramado com a velocidade de um gato, e ento viu Sir Charles e a
mulher seguindo-o de perto. Sir Charles segurava uma pistola. A mulher
era bela -Will ficou chocado com a beleza dela -, linda, ao luar, o
vulto esguio, leve e gracioso; mas quando ela estalou os dedos, o macaco
estacou imediatamente e saltou para os braos dela, e o menino viu que
aquela mulher de rosto doce e aquele macaco maligno eram um s ser. Mas
onde estava Lyra? Os adultos procuravam em volta, e ento a mulher
colocou o macaco no cho e o animal comeou a mover-se #235 pela grama
como se estivesse farejando ou procurando pegadas. O silncio reinava em
toda parte. Se Lyra j estava nos arbustos, no poderia movimentar-se
sem fazer algum rudo que a denunciaria no mesmo instante. Sir Charles
fez algo na pistola que provocou um estalido baixo: a trava de
segurana. Ele perscrutou os arbustos, parecendo olhar diretamente para
Will, e ento seus olhos seguiram adiante. Ento ambos os adultos
olharam para a esquerda, pois o macaco ouvira alguma coisa. E num
segundo ele tinha saltado para onde Lyra devia estar, e no instante
seguinte iria encontr-la... E nesse momento agata saltou dos arbustos
para a grama, sibilando. Ouvindo isso, o macaco girou em pleno ar, como
se tivesse levado um susto, embora no estivesse to assustado quanto o
prprio Will. O macaco caiu sobre as quatro patas, de frente para agata,
e esta arqueou o dorso, a cauda erguida, e postou-se de lado, sibilando,
rosnando, desafiando. O macaco saltou sobre ela. A gata ficou de p nas
patas traseiras, golpeando com as garras afiadas, movendo-se depressa
demais para avista, e nesse instante Lyra surgiu junto a Will rolando
atravs da janela, com Pantalaimon ao seu lado. A gata berrou, e o
macaco tambm berrou quando as garras da gata rasgaram-lhe o focinho; e
ento o macaco virou-se e saltou para os braos da Sra. Coulter, e a
gata, mergulhando nos arbustos do seu prprio mundo, desapareceu. Will e
Lyra tinham conseguido atravessar, e Will mais uma vez tateou em busca
das bordas quase intangveis no ar e apertou-as com rapidez, fechando o
orifcio em toda a sua extenso, enquanto ouvia, atravs do orifcio
cada vez menor o som de ps esmagando gravetos e mos afastando galhos.
#236 Sobrou apenas um furo do tamanho do punho de Will, que foi logo
fechado, e o mundo inteiro ficou silencioso. Ele caiu de joelhos na
grama orvalhada e tateou  procura do aletmetro. -Pegue -disse a Lyra.
Ela pegou o instrumento. Com as mos trmulas ele deslizou a faca de
volta na bainha. Depois se deitou, o corpo todo estremecendo, e fechou
os olhos, sentindo o luar banh-lo de prata, e sentindo Lyra desfazer o
curativo e tornar a prend-lo com movimentos delicados. E ouviu-a dizer:
-Ah, Will, obrigada pelo que voc fez, por tudo... -Espero que a gata
esteja bem -ele resmungou. - Parece a minha Moxie. Provavelmente foi
para casa. L no mundo dela. Agora ela vai ficar bem. -Sabe o que eu
pensei? Por um segundo pensei que ela era o seu daemon. De qualquer
maneira, ela fez o que um bom daemon teria feito. Ns salvamos ela e ela
nos salvou. Vamos, Will, no fique deitado na grama, est tudo molhado.
Voc tem que ir se deitar numa cama, seno vai ficar resfriado. Vamos
entrar naquela casa grande ali. Deve haver camas, comida, coisas. Vamos,
eu vou fazer um curativo novo, vou preparar caf, vou fazer um pouco de
omelete, o que voc quiser, e vamos dormir... Estaremos seguros, agora
que temos o aletmetro de volta, voc vai ver. No vou fazer outra coisa
a no ser ajudar voc a encontrar o seu pai, eu prometo... Ela o ajudou
a se levantar e os dois caminharam devagar atravs do jardim em direo
 casa branca que resplandecia ao luar. #237 10 O XAM Lee Scoresby
desembarcou no porto na foz do rio Yenisei e encontrou o lugar num caos,
com pescadores tentando vender seu parco produto da pesca -peixes at
ento desconhecidos -para as fabricas de peixe enlatado, donos de navio
furiosos com as taxas porturias que as autoridades tinham aumentado
para enfrentar as enchentes, caadores e peleiros chegando  cidade em
grande nmero, impossibilitados de trabalhar por causa do degelo precoce
na floresta e do comportamento inusitado e imprevisvel dos animais. Ia
ser difcil viajar para o interior pela estrada, isso era certo; em
pocas normais a estrada era simplesmente uma trilha de terra congelada,
e agora que at mesmo essa camada estava se derretendo, o leito da
estrada era um pntano de lama e gua. Portanto Lee colocou o balo e o
equipamento num depsito e com o seu suprimento de ouro -cada vez mais
minguado -ele alugou um barco com motor a gs, comprou vrios tanques de
combustvel e alguns suprimentos, e partiu corrente acima pelo rio
cheio. #238 A princpio seu progresso foi lento. No apenas a corrente
era forte, mas as guas carregavam todo tipo de detritos: troncos,
galhos, animais afogados, e at mesmo o corpo inchado de um homem. Ele
tinha que pilotar com cautela e manter o pequeno motor funcionando com
fora total, para conseguir avanar. Seu destino era a aldeia da tribo
de Grumman. Como orientao, ele tinha apenas a sua lembrana de ter
sobrevoado a regio alguns anos antes, mas essa lembrana era forte, e
ele teve pouca dificuldade em enCOntrar o rumo correto em meio aos
cursos d'gua, mesmo com parte das margens submersas sob a gua turva da
enchente. A temperatura tinha perturbado os insetos, e uma nuvem de
mosquitos deixava todos os contornos esmaecidos. Lee esfregou ungento
de estramnio no rosto e nas mos e fumou uma sucesso de charutos de
cheiro forte, para minorar um pouco o problema. Quanto a Hester, ela
ficou sentada na proa, taciturna, as orelhas compridas deitadas sobre o
dorso magro e os olhos apertados. Ele estava acostumado ao silncio dela
e ela ao dele; falavam-se quando havia necessidade. Na manh do terceiro
dia, Lee dirigiu a pequena embarcao contra a corrente de um regato que
se juntava ao rio, vindo de uma sucesso de mOntes baixos que deveriam
estar bem cobertos pela neve, mas agora estavam manchados de marrom.
Logo o regato passou acorrer entre pinheiros e abetos baixos, e depois
de alguns quilmetros chegaram a um rochedo grande e arredondado, com a
altura de uma casa, onde Lee atracou e amarrou o barco. -Havia um
atracadouro aqui -COntou a Hester. - Lembra-se do que aquele velho
caador de focas em Nova Zembla nos Contou? Deve estar dois metros
debaixo d'gua. #239 -Ento, espero que tenham tido o bom senso de
construir a aldeia no alto -ela respondeu, saltando para a margem. No
mais de meia hora depois ele colocou sua bagagem no cho diante da casa
de madeira do chefe da aldeia e se voltou para cumprimentar a pequena
multido que se juntara. Usou o gesto universal em direo ao norte para
significar amizade, e pousou o rifle no cho aos seus ps. Um velho
trtaro siberiano, os olhos quase perdidos em meio s rugas que o
rodeavam, colocou sua tigela no cho ao lado do rifle. Seu
daemon-carcaju sacudiu o focinho para Hester, que moveu uma orelha em
resposta, e ento o chefe falou. Lee respondeu, e os dois passaram por
meia dzia de linguagens antes de encontrarem uma em que pudessem
conversar. -Meus respeitos a voc e  sua tribo -disse Lee. - Tenho um
pouco de erva de fumar, que no vale muito, mas eu me sentiria honrado
em lhe dar de presente. O chefe assentiu, satisfeito, e uma das suas
mulheres recebeu a trouxa que Lee retIrou da bagagem. -Estou procurando
um homem chamado Grumman -Lee prosseguiu. -Ouvi dizer que ele  um de
vocs por adoo. Pode ser que ele tenha adotado outro nome, mas 
europeu. -Ah, estvamos esperando por voc -disse o chefe. O resto dos
habitantes, reunidos sob a luz fraca do sol no solo enlameado no meio
das casas, no conseguia entender as palavras, mas via a satisfao do
chefe -satisfao e alvio, foi o que Lee sentiu Hester pensar. O chefe
assentiu vrias vezes. #240 -Estvamos esperando por voc -repetiu.
-Voc veio para levar o Dr. Grumman para o outro mundo. Lee franziu a
testa, mas disse apenas: -Como quiser, senhor. Ele est aqui? -Siga-me
-disse o chefe. Os outros afastaram-se respeitosamente. Compreendendo o
desprazer de Hester em ter que atravessar a lama imunda, Lee colocou a
mochila nas costas e pegou-a nos braos, seguindo o chefe ao longo de
uma trilha na floresta at uma cabana situada a 10 longas flechadas da
aldeia, numa clareira entre os larios. O chefe parou do lado de fora da
cabana de estrutura de madeira e cobertura de couro. O local era
decorado com presas de javali e chifres de alces e veados, que no eram
apenas trofus de caa, pois deles pendiam flores secas e ramos de
pinheiro cuidadosamente dispostos, como se para algum ritual. -Tem que
falar com ele com respeito -disse o chefe em voz baixa. -Ele  um xam.
E tem o corao doente. De repente Lee sentiu um arrepio percorrer-lhe o
corpo, e Hester retesou-se em seus braos, pois os dois se deram conta
de que vinham sendo observados todo o tempo: por entre as flores secas e
os ramos de pinheiro, um olho amarelo e brilhante os vigiava. Era um
daemon, e Lee viu-o virar a cabea, tirar delicadamente um ramo de
pinheiro com seu bico poderoso e pass-lo pelo ar como se puxasse uma
cortina. O chefe chamou em sua prpria lngua, usando o nome que o velho
caador de focas mencionara a Lee: Jopari. No momento seguinte a porta
se abriu. Parado  soleira estava um homem magro, de olhos brilhantes,
vestindo couro e peles. Os cabelos negros eram manchados de cinzento, a
mandbula forte ressaltava, e seu #241 daemon, uma guia-pesqueira em
poleirada em seu punho, olhava com raiva para os visitantes. O chefe
curvou-se trs vezes e retrocedeu, deixando Lee sozinho com o
xam-acadmico que ele tinha vindo procurar. -Dr. Grumman, meu nome 
Lee Scoresby. Venho do pas do Texas, e sou aeronauta de profisso. Se
me deixar sentar e falar um pouco, vou lhe contar o que me trouxe aqui.
 isso mesmo, no ? O senhor  mesmo o Dr. Stanislaus Grumman da
Academia de Berlim? -Sou -disse o xam. -E voc diz que vem do Texas. Os
ventos o empurraram para bem longe da sua terra natal, Sr. Scoresby.
-Bem, agora existem ventos estranhos soprando pelo mundo, senhor.
-Realmente. O sol est morno, eu acho. Vai encontrar um banco dentro da
minha cabana; se me ajudar a traz-lo para fora, podemos nos sentar sob
essa luz to agradvel e conversar ao ar livre. Tenho um pouco de caf,
se lhe agrada. - muita gentileza, senhor- disse Lee. Ele carregou o
banco de madeira enquanto Grumman ia ao fogo e servia o caf quente em
duas canecas de lata. Aos ouvidos de Lee seu sotaque no era alemo, mas
ingls, da Inglaterra Diretor do Observatrio estava com a razo,
afinal. Depois que estavam sentados, Hester impassvel, de olhos
apertados, ao lado de Lee e a grande daemon-guia-pesqueira olhando
malevolamente para o sol, Lee ps-se a falar. Comeou com seu encontro
em Trollesund com John Faa, chefe dos gpcios, e relatou como tinham
recrutado Iorek Byrnison o urso, e viajado para Bolvangar, e resgatado
Lyra e as outras crianas; depois contou o que tinha ficado sabendo por
Lyra e Serafina Pekkala, no balo, enquanto voavam para Svalbard. #242
-Sabe, Dr. Grumman, pelo jeito que a menina descreveu, parece que Lorde
Asriel simplesmente brandiu diante dos Catedrticos aquela cabea
decepada embalada em gelo, assustando-os tanto que eles no quiseram
examinar de perto. Foi o que me fez suspeitar que o senhor poderia estar
vivo. E  bvio que o senhor tem um conhecimento especializado dessa
histria. Tenho OUVido falar no senhor em todo o litoral do Artico: da
perfurao em sua cabea, da sua pesquisa, que varia entre escavar o
leito do oceano e observar as luzes do norte, e o jeito como o senhor
apareceu de repente, saindo do nada, h uns 10 ou 12 anos, e tudo isso 
muito interessante. Mas algo mais que a simples curiosidade me atraiu
at aqui, Dr. Grumman. Estou preocupado com a menina. Acho que ela 
importante, e as bruxas tambm acham. Se existe alguma coisa que o
senhor saiba sobre ela e sobre o que est acontecendo, eu gostaria que
me contasse. Como eu disse, alguma coisa me deu a certeza de que o
senhor pode fazer isso, e  por isso que estou aqui. Ele fez uma pausa
antes de prosseguir: -Mas, se no estou enganado, senhor, ouvi o chefe
da aldeia dizer que eu tinha vindo para levar o senhor para outro mundo.
Entendi errado, ou foi isso mesmo que ele disse? E mais uma pergunta,
senhor: que nome foi aquele que ele usou?  algum tipo de nome tribal,
algum ttulo de magia? Grumman sorriu brevemente e respondeu: -O nome
que ele usou  o meu nome verdadeiro, John Parry .Sim, voc veio at
aqui para me levar para outro mundo. E quanto ao que o trouxe aqui, acho
que vai concluir que foi isto. Ele abriu a mo. Na palma havia uma coisa
que Lee viu, mas no entendeu. Ele viu um anel de prata e turquesa, um
desenho nvajo, que ele reconheceu como o anel de sua prpria #243 me:
conhecia o seu peso, a superfcie lisa da pedra e o modo como o ourives
tinha dobrado mais o metal no canto onde a pedra estava lascada -Lee
sabia que os contornos daquele canto lascado tinham se desgastado com o
uso, porque muitas e muitas vezes ele tinha passado os dedos ali, muitos
anos antes, em sua infncia nos campos de salva do seu pas natal.
Quando deu por si, estava de p. Hester tremia, ereta, orelhas em p.
Sem que Lee percebesse, a guia-pesqueira tinha se movido entre ele e
Grumman, defendendo o seu humano, mas Lee no ia atacar. Ele se sentia
atarantado; sentia-se criana outra vez, e tinha a voz tensa e trmula
quando perguntou: -Onde conseguiu isso? -Pegue -disse Grumman, ou Parry
.-Ele j cumpriu sua misso. Trouxe voc. Agora no preciso mais dele.
-Mas como... -fez Lee, pegando na palma da mo de Grumman aquele objeto
querido. -No compreendo como foi que o senhor... Ser que... Como
conseguiu isso? Eu no via esse anel h mais de 40 anos. -Sou um xam.
Posso fazer muitas coisas que voc no entende. Sente-se, Sr. Scoresby.
Fique calmo. Vou lhe contar tudo que precisa saber. Lee tornou a
sentar-se, segurando o anel, passando os dedos sobre ele vezes sem
conta. -Bem, estou perturbado, senhor. Acho que preciso ouvir o que o
senhor puder me contar. -Muito bem, vou comear. Meu nome, como j lhe
disse,  John Parry, e eu no nasci neste mundo. Lorde Asriel no  o
primeiro a viajar entre os mundos, embora seja o primeiro a abrir
caminho de maneira to espetacular. Em meu prprio mundo, fui soldado e
depois explorador. H 12 anos eu estava acompanhando uma expedio a um
lugar no meu #244 mundo que corresponde ao seu estreito de Bering; meus
companheiros tinham outros projetos, mas eu estava procurando uma coisa
que tinha ouvido nas velhas lendas: um rasgo no tecido do mundo, um
buraco que tinha aparecido entre o nosso universo e outro. Bem, alguns
dos meus companheiros se perderam. Procurando por eles, eu e dois outros
atravessamos esse buraco, essa porta, sem percebermos, e deixamos o
nosso mundo para trs. A princpio no compreendemos o que tinha
acontecido. Caminhamos at encontrarmos uma cidade, e a no tivemos
mais dvidas: estvamos em outro mundo. O xam prosseguiu: -Bem, por
mais que tentssemos, no conseguimos encontrar novamente aquela porta.
Tnhamos atravessado durante uma nevasca, e voc, que  um veterano do
rtico, sabe o que isso significa. De modo que no tivemos opo seno
continuarmos naquele mundo novo. E logo descobrimos que era um lugar
perigoso. Parece que havia um estranho avantesma ou uma apario
assombrando o lugar, alguma coisa implacvel e mortal. Meus dois
companheiros morreram logo depois, vtimas dos Espectros, como aquelas
coisas so chamadas. O resultado foi que achei o mundo deles um lugar
abominvel, e no via a hora de sair de l. O caminho de volta ao meu
prprio mundo estava barrado para sempre; mas havia outras portas para
outros mundos, e logo encontrei o caminho para este aqui. Ele continuou:
-E aqui estou. E assim que cheguei descobri uma coisa que me maravilhou,
Lee Scoresby, pois os mundos so muito diferentes uns dos outros, e
neste mundo vi meu daemon pela primeira vez. , eu no sabia da
existncia de Sayan Ktr at #245 entrar no seu mundo. As pessoas daqui
no conseguem conseber um mundo onde os daemons so uma voz cilenciosa
na mente, nada mais. Pode imaginar o meu pasmo ao descobrir que parte da
minha prpria natureza era feminina, tinha a forma de pssaro e era
linda? Assim, com Sayan Ktr ao meu lado, vaguei pelas terras do Norte
e aprendi muita coisa com os povos do Artico, como os meus bons amigos
nesta aldeia. O que eles me contaram sobre este mundo preencheu algumas
lacunas nas informaes que eu obtive no meu, e comecei a ver a resposta
de muitos mistrios. Fui para Berlim com o nome de Grumman. No contei a
ningum as minhas origens; era o meu segredo. Apresentei uma tese 
Academia e defendi-a num debate, que  o mtodo deles. Eu era melhor
informado do que os acadmicos, e no tive dificuldade em me tornar um
deles. O cientista prosseguiu: -Com as minhas novas credenciais eu
poderia comear a trabalhar neste mundo onde encontrei, de maneira geral
muito contentamento. Senti falta de algumas coisas do meu prprio mundo,
 claro.  casado, Sr. Scoresby? No? Bem, eu era; e amava muito a minha
esposa, como amava o meu filho, meu nico filho, um menino que ainda no
tinha um ano quando sa do meu mundo. Senti uma saudade terrvel deles.
Mas mesmo que procurasse durante mil anos nunca encontraria o caminho de
volta. Estvamos separados para sempre. Alm disso, o meu trabalho me
absorvia, e procurei outras formas de conhecimento: fui iniciado no
culto do crnio, tornei-me um xam. E tenho feito algumas descobertas
teis: descobri um modo de fazer um ungento com musgo-de-sangue, por
exemplo, que conserva todas as virtudes da planta viva. Ento o xam
contou: #246 -Conheo muita coisa deste mundo, Sr. Scoresby. Sei, por
exemplo, da existncia do P. Vejo pela sua expresso que j ouviu essa
palavra.  uma coisa que est matando de medo os seus telogos, mas so
eles que me amedrontam. Sei o que Lorde Asriel est fazendo, e sei por
qu, e foi por isso que chamei voc aqui. Quero ajudar Lorde Asriel,
entende, porque a misso que ele tomou para si  a maior na Histria
humana. A maior em 35 mil anos de Histria humana, Sr. Scoresby. Eu
mesmo no posso fazer grande coisa. Meu corao est doente de um mal
que ningum neste mundo conseguir curar. Ainda tenho, talvez, energia
suficiente para um grande esforo. Mas sei uma coisa que Lorde Asriel
no sabe e precisa saber para que seus esforos tenham sucesso. Fiquei
intrigado com aquele mundo mal-assombrado onde os Espectros se
alimentavam da conscincia humana; tinha vontade de saber o que eram,
como tinham surgido. Sendo um xam, consigo descobrir coisas atravs do
esprito quando no posso ir com o corpo, e passei muito tempo em transe
explorando aquele mundo. Descobri que os filsofos de l, h muitos
sculos, criaram uma ferramenta para a sua prpria destruio: uma
ferramenta que eles chamaram de faca sutil. Ela possua muitos poderes,
mais do que eles imaginavam quando a fabricaram, muito mais do que eles
sabem, mesmo hoje em dia. E ao us-la, eles deixaram os Espectros entrar
no mundo deles. E continuou: -Bem, sei a respeito da faca sutil e o que
ela pode fazer. E sei onde ela est, sei como reconhecer o indivduo que
deve us-la e sei o que ele tem que fazer para ajudar Lorde Asriel.
Espero que ele seja capaz de cumprir a tarefa. Portanto, chamei o senhor
at aqui para me levar pelo ar para o Norte, para dentro do mundo que
Asriel abriu, onde espero encontrar o portador #247 da faca sutil.  um
mundo perigoso, no se engane. Aqueles espectros so piores do que
qualquer coisa no seu mundo ou no meu. Teremos que ter cuidado e
coragem. No vou voltar de l, e o senhor ter que usar toda a sua
coragem, toda a sua esperteza, toda a sua sorte, se quiser ver o seu
mundo de novo.  esta a sua misso, Sr. Scoresby. Por isso o senhor me
procurou. Com essas palavras o xam silenciou. Tinha o rosto plido, com
um leve brilho de transpirao. - a coisa mais maluca que j ouvi na
minha vida - foi o comentrio de Lee. Em sua agitao, ele se ps de p
e ficou a caminhar de um lado para outro, enquanto Hester, impassvel,
observava. Grumman tinha os olhos semicerrados e seu daemon, no colo,
observava Lee com olhar desconfiado. -Quer dinheiro? -Grumman perguntou,
depois de alguns instantes. -Posso lhe arranjar ouro. No  difcil.
-Droga, no vim at aqui por dinheiro -Lee exclamou. -Vim porque... Vim
ver se o senhor estava vivo como eu pensava. Bem, a minha curiosidade
quanto a isso j foi satisfeita. -Que bom. -E h outra coisa -Lee
acrescentou. Ele relatou a Grumman sobre o Conselho de bruxas no Lago
Enara e a resoluo a que elas tinham chegado. E terminou: -Sabe, aquela
garotinha, Lyra... Bem, foi por causa dela que resolvi ajudar as bruxas.
O senhor diz que me trouxe at aqui com o anel nvajo; pode ser que
seja, pode ser que no. O que eu sei  que vim aqui porque achei que
estaria ajudando Lyra. Nunca vi uma criana como aquela. Se eu tivesse
uma filha, queria que ela fosse metade to forte, corajosa e boa quanto
ela . Ora, eu tinha ouvido falar que o senhor conhecia um objeto, #248
eu no sabia o que podia ser, que d proteo a qualquer pessoa que o
carregue. E pelo que o senhor diz, acho que deve ser essa tal de faca
sutil. De modo que este  o meu preo para levar o senhor at o outro
mundo, Dr. Grumman: nada de ouro, mas a faca sutil, e no a quero para
mim, mas para Lyra. O senhor ter que jurar que vai conseguir que ela
fique sob a proteo desse objeto, e ento eu o levo aonde o senhor
quiser ir. O xam escutou atentamente, e disse: -Muito bem, Sr.
Scoresby, eu juro. Acredita no meu juramento? -Vai jurar pelo qu? -Pelo
que o senhor quiser. Lee pensou um pouco e disse: -Jure por aquilo que
fez o senhor recusar o amor da bruxa. Acho que deve ser a coisa mais
importante que o senhor conhece. Grumman arregalou os olhos e disse:
-Tem toda razo, Sr. Scoresby. Jurarei com prazer. Dou-lhe a minha
palavra de que vou fazer com que essa menina Lyra Belacqua fique sob a
proteo da faca sutil. Mas vou lhe dar um aviso: o portador dessa faca
tem sua prpria misso a cumprir, e pode ser que essa misso coloque a
menina num perigo ainda pior . Lee assentiu com a fisionomia sria.
-Pode ser -concordou. -Mas, quero que ela tenha uma chance de segurana,
por menor que seja. -Eu lhe dou a minha palavra. E agora preciso ir para
o novo mundo, e o senhor precisa me levar. -E o vento? O senhor no est
doente demais para observar as condies meteorolgicas, est? -Deixe
que eu cuido do vento. #249 Lee assentiu. Tornou a sentar-se e ficou
passando a mo pelo anel de turquesa enquanto Grumman colocava dentro de
uma bolsa de pele de cervo as poucas coisas de que necessitaria, e ento
os dois voltaram para a aldeia pela trilha na floresta. O chefe falou
durante algum tempo. Cada vez mais pessoas vinham tocar na mo de
Grumman, murmurar algumas palavras e receber em troca algo que parecia
uma bno. Enquanto isso, Lee examinava as condies do tempo. O cu
estava claro para o sul, e uma brisa fresca sacudia de leve os ramos e o
topO dos pinheiros. Para o norte, a neblina ainda pairava sobre o rio
cheio, mas pela primeira vez em muitos dias parecia haver uma promessa
de tempo claro. Junto ao rochedo onde antes ficava o ancoradouro, ele
colocou a bolsa de Grumman dentro do bote e abasteceu o pequeno motor,
que pegou de imediato. Partiram; com o xam sentado na proa, o bote
desceu velozmente a correnteza, passando sob as rvores e entrando no
rio principal com tanta rapidez que Lee temeu por Hester, agachada junto
 amurada. Mas ela era uma viajante experiente, ele deveria saber disso;
por que estava to nervoso? Quando chegaram ao porto na foz do rio,
constataram que todos os hotis, penses e at quartos em casas
particulares tinham sido requisitados para os soldados. E no eram
quaisquer soldados: eram as tropas da Guarda Imperial de Moscvia, o
exrcito mais feroz, mais treinado e melhor equipado do mundo, dedicado
sob juramento a defender os poderes do Magisterium. Lee tinha pretendido
descansar uma noite antes de partirem, pois Grumman parecia estar
precisando, mas no havia chance de encontrarem um quarto. #250 -o que 
que est acontecendo? -ele perguntou ao barqueiro, quando devolveu o
barco alugado. -No sabemos. O regimento chegou ontem e requisitou todos
os leitos, toda a comida e todos os barcos da cidade. Este bote seria
deles, se no estivesse com o senhor . -Sabe para onde esto indo? -Para
o Norte- disse o barqueiro. -Vai haver uma guerra, a maior guerra que j
houve. -Para o Norte, para esse novo mundo? -Isso mesmo. E vo chegar
mais tropas, esta  s a tropa de vanguarda. Daqui a uma semana no
vamos ter um s pedao de po ou um galo de combustvel. O senhor me
fez um grande favor alugando este barco. O preo j dobrou... Agora no
havia sentido em descansar, mesmo se conseguissem encontrar um lugar.
Cheio de ansiedade por seu balo, Lee, acompanhado por Grumman, foi
direto ao depsito onde o tinha deixado. Grumman conseguia acompanhar
seu passo; parecia doente, mas era duro. O guardador do depsito,
ocupado contando algumas peas de motor para um sargento da Guarda,
ergueu os olhos rapidamente de sua prancheta. -Balo? Infelizmente foi
requisitado ontem -disse. -Est vendo como as coisas esto; no tive
escolha. Hester mexeu as orelhas e Lee entendeu o que ela queria dizer.
-J entregou o balo? -perguntou. -Viro busc-lo esta tarde. -Nada
disso -disse Lee. -Tenho uma autoridade que ultrapassa a da Guarda. E
mostrou ao guardador do depsito o anel que ele tinha tirado do dedo do
escraelingue morto em Nova Zembla. O #251 sargento, que estava ao seu
lado junto ao balco, parou o que estava fazendo e fez uma continncia
ao ver o smbolo da Igreja, mas, apesar de toda a sua disciplina, no
conseguiu conter uma breve expresso de espanto. -Portanto vamos levar o
balo agora mesmo, pode colocar alguns homens para trabalhar: quero o
balo cheio e abastecido. Isso inclui comida, gua e lastro. Eu disse
agora mesmo. O guardador do depsito olhou para o sargento, que deu de
ombros, e ento saiu apressado para ver o balo. Lee e Grumman foram
para o atracadouro onde ficavam os tanques de combustvel, para
supervisionar o abastecimento e conversar em voz baixa. -Onde conseguiu
esse anel? -Grumman quis saber. -Tirei do dedo de um morto.  meio
arriscado usar isso, mas no vi outra maneira de ter meu balo de volta.
Acha que aquele sargento suspeitou de alguma coisa? -Claro que
suspeitou. Mas  um homem disciplinado. No vai questionar a Igreja. Se
ele mencionar o que viu, ns estaremos longe quando resolverem fazer
alguma coisa. Bem, eu lhe prometi um vento, Sr. Scoresby; espero que
goste. O cu estava azul e o sol brilhava. Para o norte, a neblina ainda
parecia uma cordilheira de montanhas acima do mar, mas a brisa a
empurrava cada vez mais para trs, e Lee ficou impaciente para levantar
vo. Enquanto o balo enchia-se de ar, inchando e comeando a aparecer
por trs do telhado do depsito, Lee examinava a cesta e guardava o
equipamento com especial cuidado; quem poderia prever as turbulncias
que encontrariam no outro mundo? Tambm os instrumentos foram fixados 
estrutura com a mxima ateno -at mesmo a bssola, cujo ponteiro #252
girava em volta do mostrador. Para terminar, Lee amarrou vrios sacos de
areia como lastro em volta da cesta. Quando o balo j estava cheio,
pendendo para o norte e forando as cordas que o ancoravam por causa do
vento que aumentava, Lee pagou o guardador do depsito com o resto de
seu ouro e ajudou Grumman a entrar na cesta. Ento virou-se para os
homens que seguravam as cordas para ordenar que as soltassem. Antes,
porm, que pudesse dar a ordem, houve uma interrupo. Do beco ao lado
do depsito veio o rudo de botas pisando com fora, movendo-se
depressa, e um brado de comando: -Alto! Os homens das cordas ficaram
indecisos, alguns olhando para o beco, outros para Lee, que gritou com
veemncia: -Soltem as cordas! Dois deles obedeceram e o balo tentou
subir, mas os outros dois prestavam ateno nos soldados, que estavam
rodeando a esquina do depsito. Os dois homens seguravam as cordas ainda
em volta dos ganchos, e o balo estava inclinado para um lado. Lee
agarrou-se  borda da cesta; Grumman j estava agarrado a ela, e tambm
seu daemon tinha as garras em volta dela. Lee gritou: -Soltem as cordas,
seus idiotas! O balo j est no ar! O gs que enchia o balo tinha
muita fora, e os homens, por mais que resistissem, no conseguiam
segur-lo. Um deles soltou a corda, que se desenrolou do gancho de
amarrao; mas o outro, ao sentir a corda comeando a fugir, agarrou-se
instintivamente a ela, em vez de solt-la. Lee, que j tinha visto isso
acontecer uma vez, ficou horrorizado. O daemon do pobre #253 homem, uma
pesada cadela husky, uivava de medo e dor, l no solo, enquanto o balo
disparava para o cu. Depois de cinco interminveis segundos, estava
tudo acabado: o homem perdeu as foras e caiu, semimorto, batendo com
fora na gua. Mas os soldados j tinham os rifles apontados para cima.
U ma rajada de balas assobiou perto da cesta, uma delas tirando uma
fagulha de um anel de metal e fazendo as mos de Lee arderem com o
impacto, mas nenhuma causou algum estrago. Quando dispararam a segunda
rajada, o balo estava quase fora de alcance, erguendo-se no azul e
disparando na direo do mar. Lee sentia o corao erguer-se tambm.
Certa vez dissera a Serafina Pekkala que no fazia questo de voar e que
aquilo era apenas um trabalho, mas no tinha dito a verdade. Voar pelo
cu, com um bom vento a carreg-lo e um mundo novo a aguard-lo -alguma
coisa poderia ser melhor na vida? Soltou aborda da cesta e viu que
Hester estava agachada, de olhos semicerrados, no seu canto costumeiro.
L de baixo e de muito longe, outra rajada de balas foi disparada
inutilmente. A cidade distanciava-se rapidamente, e abaixo deles a
amplido da foz do rio cintilava ao sol. -Bem, Dr. Grumman, no sei
quanto ao senhor, mas eu me sinto melhor no ar -Lee comentou. -Mas
queria que aquele coitado tivesse soltado a corda.  to fcil, e se a
gente no soltar, no tem escapatria. -Obrigado, Sr. Scoresby, fez um
bom trabalho. Agora vamos nos acomodar para o vo. Eu ficaria muito
grato se me passasse essas peles; o ar ainda est frio. #254 11 O
BELVEDERE Na grande manso branca no centro do belo jardim, Will dormiu
um sono inquieto, perseguido por sonhos cheios de ansiedade e ternura em
igual medida, de modo que ele lutava para despertar mas ansiava por
tornar a dormir. Quando seus olhos abriram-se de vez, ele se sentia to
cansado, que mal podia se mover; ao se sentar, descobriu que o curativo
estava frouxo e a cama estava escarlate. Conseguiu sair da cama e
atravessar os aposentos cheios de poeira, luz do sol e silncio, at
chegar  cozinha. Ele e Lyra tinham dormido nos quartos dos criados, sob
o sto (pois no se sentiriam bem nas imponentes camas de dossel nos
quartos dos outros andares), e era umpercurso longo e difcil. -Will...
-fez ela imediatamente, a voz cheia de preocupao. Ela deixou o fogo
para ajud-lo a sentar-se. Ele se sentia tonto. Imaginava ter perdido
muito sangue; alis, nem precisava imaginar, pois as evidncias estavam
por toda parte. E os ferimentos ainda sangravam. #255 -Eu ia justamente
fazer caf -ela disse. -Quer caf primeiro, ou quer que eu faa outro
curativo? Como voc preferir. E temos ovos, mas no consigo encontrar
uma lata de salsichas. -Este no  o tipo de casa onde se come isso.
Primeiro o curativo. Tem gua quente na torneira? Quero me lavar. Odeio
ficar cheio de sangue... Ela abriu a torneira de gua quente e ele se
despiu, ficando s de cuecas. Estava fraco e tonto demais para se sentir
envergonhado, mas Lyra envergonhou-se por ele, e saiu. Ele se lavou o
melhor que conseguiu e depois se enxugou nos panos de prato pendurados
perto do fogo. Quando Lyra voltou, tinha arranjado roupas para ele -
uma camiseta, calas de lona e um cinto. Ele se vestiu e ela rasgou um
pano de prato em tiras, com as quais fez um curativo apertado. Estava
muito preocupada com a mo dele: no apenas os ferimentos ainda
sangravam em abundncia, como tambm o resto da mo estava vermelho e
inchado. Mas ele nada comentou, nem ela. Ento ela fez caf e torrou um
pouco de po velho; os dois levaram a comida para o salo que ficava na
parte fronteira da casa, com vista para a cidade. Depois de comer e
beber, ele se sentiu um pouco melhor. - melhor perguntar ao aletmetro
o que devemos fazer agora- ele sugeriu. -J fez alguma pergunta? -No.
De agora em diante s vou fazer o que voc pedir . Pensei em perguntar
ontem  noite, mas no fiz. E no vou fazer, a no ser que voc me pea.
-Bom, ento  melhor perguntar logo. Existe tanto perigo aqui quanto no
meu mundo, agora. Para comear, existe o irmo da Anglica. E se. ..
#256 Ele silenciou, pois ela ia comear a dizer alguma coisa, mas parou
assim que ele o fez. Ento ela se controlou e falou: -Will, tem uma
coisa que aconteceu ontem que eu no contei a voc. Devia ter contado,
mas estava acontecendo tanta coisa... Desculpe... Ela ento narrou tudo
que tinha visto pela janela da Torre enquanto Giacomo Paradisi estava
fazendo o curativo nele: Tullio sendo atacado pelos Espectros, Anglica
avistando-a na janela e seu olhar de dio, e mais a ameaa de Paolo. E
continuou: -Voc se lembra quando ela falou com a gente pela primeira
vez? O irmo pequeno disse alguma coisa sobre o que todos estavam
fazendo. Ele disse: "Ele vai pegar..." mas no terminou, porque ela lhe
deu um safano, lembra-se? Aposto que ele ia dizer que Tullio ia pegar a
faca, e foi por isso que todas as crianas vieram para c. Porque, se
elas tivessem a faca, poderiam fazer qualquer coisa, poderiam at
crescer sem medo dos Espectros. -Como era a aparncia dele quando estava
sendo atacado? -Will quis saber . Para surpresa dela, Will tinha se
sentado ereto, os olhos curiosos e interessados. Ela tentou se lembrar
exatamente: -Ele... Ele comeou a contar as pedras na parede. Parecia
estar se encostando em cada uma. Mas no conseguiu continuar. No final
ele perdeu o interesse e parou. Ento ficou imvel- ela completou. Ao
ver a expresso de Will, ela quis saber: -Por qu? -Porque... Acho que
talvez eles tenham vindo do meu mundo, os Espectros. Se eles fazem as
pessoas se comportarem assim, no seria estranho que eles tivessem vindo
do meu mundo. E quando os homens da Liga abriram a primeira janela, se
ela dava para o meu mundo, os Espectros poderiam ter entrado por ali.
#257 -Mas no existem Espectros no seu mundo! Voc nunca ouviu falar
deles l, ouviu? -Talvez eles no sejam chamados de Espectros. Talvez o
nome deles seja outro. Lyra no entendeu o que ele queria dizer, mas no
quis pressionar. Ele tinha o rosto vermelho e os olhos inchados. -De
qualquer maneira, o importante  que a Anglica me viu na janela da
Torre. E agora que sabe que a faca est com a gente, ela vai contar para
as outras crianas. Vai pensar que foi por nossa culpa que o irmo foi
atacado pelos EspectrOS. Sinto muito, Will, eu devia ter lhe contado
antes. Mas aconteceu tanta cOIsa... -Bom, acho que no ia fazer
diferena. Ele estava torturando o velho, e depois de aprender a usar a
faca ele teria matado ns dois, se pudesse. Tnhamos que lutar com ele.
-Eu me sinto mal por causa disso, Will. Quer dizer, ele era irmo dela.
E aposto que no lugar deles, amos querer a faca tambm. -, mas no
podemos voltar e mudar o que aconteceu. Tnhamos que pegar a faca para
poder ter o aletmetro de volta, e se pudssemos conseguir isso sem
lutar, ns teramos feito. -, teramos -ela concordou. Como Iorek
Byrnison, Will era um verdadeiro guerreiro, de modo que ela estava
preparada para concordar com ele quando ele dizia que melhor seria no
lutar: ela sabia que no era uma questo de covardia, mas de estratgia.
Ele agora parecia mais calmo e tinha o rosto outra vez plido; estava
olhando para longe, pensativo. Ento disse: -Com certeza  mais
importante agora pensar no que Sir Charles vai fazer, ou a Sra. Coulter.
Talvez, se ela tem essa escolta especial de que eles estavam falando,
esses soldados com #258 os daemons cortados, talvez Sir Charles tenha
razo e eles consigam ignorar os Espectros. Sabe o que eu acho? Acho que
o que eles comem, esses Espectros, so os daemons das pessoas. -Mas as
crianas tambm tm daemons. E eles no atacam crianas. No pode ser
isso. -Ento deve ser a diferena entre os daemons das crianas e os dos
adultos -Will insistiu. -Existe uma diferena, no ? Voc me disse que
os daemons dos adultos no mudam de forma. Deve ter alguma coisa a ver
com isso. Se aqueles soldados dela no tm daemon, pode ser que o efeito
seja o mesmo... -! -ela concordou. -Pode ser. E de qualquer maneira,
ela no teria medo dos Espectros. Ela no tem medo de nada. E  to
esperta, Will, eu juro, e to impiedosa e cruel, que ia acabar mandando
neles, eu aposto. Ela poderia mandar nos Espectros como faz com as
pessoas e eles teriam que obedecer, aposto. Lorde Boreal  forte e
inteligente, mas logo, logo vai fazer tudo que ela quiser. Ah, Will,
estou ficando assustada de novo, s de pensar no que ela pode fazer...
Vou perguntar ao aletmetro, como voc disse. Ainda bem que conseguimos
pegar ele de volta. Ela abriu o embrulho de veludo e passou as mos com
ternura sobre o pesado instrumento de ouro. -Vou perguntar sobre o seu
pai, e como podemos encontrar ele -disse. -Veja, eu coloco os ponteiros
em... -No. Pergunte primeiro pela minha me. Quero saber se ela est
bem. Lyra assentiu e girou os ponteiros antes de colocar o aletmetro no
colo, puxar os cabelos para trs das orelhas, baixar os olhos e se
concentrar. Will observou o ponteiro maior girar em volta do mostrador,
correndo e parando e correndo de novo com a rapidez de uma andorinha
ciscando, e observou os olhos de Lyra, to azuis, intensos e cheios de
compreenso. #259 Ela ento pestanejou e ergueu o olhar. -Ela ainda est
segura -disse. -Essa amiga que est tomando conta dela, ela  muito boa.
Ningum sabe onde sua me est, e a amiga no vai denunciar . Will no
tinha percebido a extenso da sua preocupao. Diante dessa boa notcia,
ele relaxou; ento, livre de uma pequena parte da tenso que o dominava,
sentiu com mais fora a dor dos ferimentos. -Obrigado. Muito bem, agora
pergunte sobre o meu paI... Antes, porm, que ela pudesse sequer
comear, ouviram um grito l fora. Imediatamente os dois olharam para a
janela. Na borda do jardim, em frente s primeiras casas da cidade,
havia um cinturo de rvores, e alguma coisa se movia ali. Pantalaimon
transformou-se num lince e foi at a porta aberta, com olhar feroz. -So
as crianas -disse. Ambos se levantaram. As crianas surgiam por entre
as rvores, uma a uma, talvez 40 ou 50 ao todo. Muitas levavam pedaos
de pau.  frente ia o garoto de camiseta listrada, e no era um pedao
de pau o que ele carregava: era uma pistola. -Ali est Anglica -Lyra
sussurrou, apontando. Anglica estava ao lado do menino lder, puxando-o
pelo brao, incentivando-o a continuar em frente. Logo atrs deles, seu
irmo Paolo gritava de entusiasmo, e tambm as outras crianas gritavam
e sacudiam os punhos no ar. Duas carregavam pesadas espingardas. Will j
tinha visto crianas dominadas por esse estado de esprito, mas nunca
tantas, e as crianas da sua cidade no carregavam armas. Elas gritavam,
e Will conseguiu distinguir a voz de Anglica acima das outras: #260
-Vocs mataram o meu irmo e roubaram a faca! Seus assassinos! Vocs
fizeram os Espectros pegarem ele! Vocs mataram ele e ns vamos matar
vocs! No vo conseguir fugir! Vamos matar vocs como vocs mataram
ele! -Will, voc podia abrir uma janela! -Lyra disse com urgncia,
agarrando o brao bom dele. -Podamos fugir facilmente... -, mas onde a
gente ia estar? Em Oxford, em plena luz do dia, a poucos metros da casa
de Sir Charles. Provavelmente no meio da rua, na frente de um nibus.
No posso simplesmente cortar em qualquer lugar e ter certeza de que
estaremos seguros. Primeiro tenho que espiar e ver onde vamos sair, e
isso ia demorar demais. Atrs desta casa tem uma floresta, um bosque ou
coisa assim. Se conseguirmos chegar at l, estaremos mais seguros entre
as rvores. Olhando pela janela, Lyra exclamou, furiosa: -Eu devia ter
acabado com ela ontem! Ela  to ruim como o irmo. Eu queria... -Pare
de falar e venha -disse Will. Ele se certificou de que tinha a faca
presa ao cinto, e Lyra colocou nas costas a mochila com o aletmetro e
as cartas do pai de Will. Os dois correram pelo vestbulo cheio de ecos,
desceram o corredor e entraram na cozinha, atravessaram a copa e saram
num ptio com piso de pedras; uma porta no muro dava para uma horta com
canteiros de hortalias e ervas expostos ao sol da manh. A borda do
bosque ficava a algumas centenas de metros, depois de um gramado em
subida, horrivelmente exposto  viso. Numa elevao  esquerda, mais
prxima do que as rvores, ficava uma pequena edificao, uma estrutura
circular parecendo um #261 templo, com um segundo andar aberto em arcos
como uma varanda, de onde se descortinava a vista da cidade. -Vamos
correr -Will comandou, embora sentisse menos vontade de correr do que de
se deitar e fechar os olhos. Com Pantalaimon em forma de pssaro, voando
acima dela para vigiar, os dois partiram atravs do gramado. Mas a grama
era alta e irregular, e Will no conseguiu correr mais do que alguns
passos sem ficar tonto demais para continuar. Passou a andar devagar.
Lyra olhou para trs. As crianas ainda no os tinham visto, ainda
estavam na frente da casa; talvez levassem algum tempo para revistar
todos os aposentos... Mas Pantalaimon piou em alarde. Havia um menino
parado perto de uma janela aberta no segundo andar da casa, apontando
para eles. Ouviu-se um grito. -Vamos, Will -fez Lyra. Ela o puxou pelo
brao sadio, ajudando-o, levantando-o. Ele tentou reagir, mas no tinha
foras. S conseguia andar bem devagar . -Est bem, no vamos conseguir
chegar at as rvores.  longe demais. Ento vamos para aquele templo
ali. Com a porta fechada, talvez a gente consiga segurar eles pelo tempo
suficiente para eu cortar uma porta... Pantalaimon adiantou-se, e Lyra
soltou um arquejo e chamou-o, sem flego, fazendo com que ele esperasse.
Will quase podia enxergar o elo entre eles, o daemon puxando e a menina
reagindo. Ele cambaleava atravs da grama alta, com Lyra correndo 
frente para enxergar e voltando para ajudar, depois novamente  frente,
at chegarem ao piso de pedra em volta do templo. A porta sob o pequeno
prtico estava destrancada, e ao entrarem eles encontraram um aposento
circular com vrias #262 esttuas de deusas em nichos na parede em
volta. Bem no centro, uma escada em espiral, feita de ferro forjado,
subia at uma abertura no andar de cima. No havia chave na porta, de
modo que os dois subiram a escada e passaram para o piso de tbuas do
que era na realidade um belvedere -um lugar onde as pessoas vinham
respirar o ar puro e contemplar a cidade; pois no havia janelas ou
paredes, mas simplesmente uma srie de arcos abertos em toda volta,
sustentando o telhado. Em cada arco havia um parapeito da altura da
cintura, onde se podia apoiar, e abaixo dele, pelo lado de fora, o
telhado de telhas curvas descia num aclive suave at a calha de chuva
que o circundava. Eles viam a floresta atrs do templo, a uma
proximidade tentadora, e a casa abaixo deles, e atrs dela o grande
jardim e os telhados marrom-avermelhados da cidade, com a Torre
erguendo-se  esquerda. Havia urubus girando no ar acima das ameias
cinzentas, e Will sentiu um espasmo de nusea ao tomar conscincia do
que os atrara at l. Mas no havia tempo para contemplar a paisagem;
primeiro precisavam lidar com as crianas, que vinham correndo em
direo ao templo, gritando de fria e de excitao. O garoto que ia 
frente diminuiu a velocidade e ergueu a pistola, e fez dois ou trs
disparos na direo do templo. Ento todos recomearam acorrer , aos
berros: -Ladres! -Assassinos! -Vamos matar vocs! -Vocs roubaram a
nossa faca! -Vocs no so daqui! -Vo morrer! Will no deu ateno. J
tinha a faca na mo, e rapidamente abriu uma janelinha para ver onde
estavam -e recuou #263 no mesmo instante. Lyra tambm olhou, e
retrocedeu, decepcionada. Estavam a uns 15 metros do cho, suspensos
sobre uma avenida bastante movimentada. -Claro -fez Will em tom
amargurado. -Ns subimos uma boa ladeira... Bom, estamos presos. Vamos
ter que tentar afastar eles, s isso. Poucos segundos depois, as
primeiras crianas entravam em bando pela porta. O som dos berros ecoava
dentro do templo e reforava a selvageria; e ento ouviu-se um tiro,
imensamente alto, e outro, e os gritos tomaram outra entonao, e ento
a escada ps-se a estremecer quando as primeiras crianas comearam a
subir . Lyra, paralisada, estava agachada contra a parede, mas Will
ainda tinha a faca na mo; correu para a abertura no cho, estendeu a
mo e cortou o ferro do degrau superior como se fosse papel. Sem ter o
que a segurasse, a escada comeou a dobrar sob o peso das crianas,
depois caiu com um enorme rudo. Mais gritos, mais confuso; e novamente
a arma disparou, mas parece ter sido acidental, pois algum se feriu, e
dessa vez o grito era de dor. Will olhou para baixo e viu uma confuso
de corpos a contorcerem-se, cobertos de cal, poeira e sangue. No eram
crianas individuais: eram uma massa nica, como uma onda que cresceu
abaixo deles quando as crianas saltaram para o ar em fria, mos
estendidas para agarr-los, ameaando, gritando, cuspindo, mas sem
conseguir alcan-los. Ento algum chamou, e elas olharam para a porta;
aquelas que conseguiam se mover saram naquela direo, deixando vrias
outras presas debaixo dos degraus de ferro, ou atordoadas, tentando se
levantar do cho cheio de entulho. Will logo percebeu por que elas
tinham corrido para fora. Houve um rudo no telhado abaixo dos arcos e
ao correr para #264 o parapeito ele viu o primeiro par de mos agarrando
a borda das telhas e alando o corpo para cima. Algum ajudava por
baixo, e logo surgiu outra cabea e outro par de mos,  medida que umas
subiam nos ombros das outras e alcanavam o telhado como formigas. Mas
era difcil caminhar sobre as telhas, e as primeiras crianas avanaram
de gatinhas, os olhares ferozes grudados no rosto de Will. Lyra
postou-se ao lado dele, e Pantalaimon, como leopardo, rosnava, as patas
no alto do parapeito, fazendo as primeiras crianas hesitarem. Mas mesmo
assim elas avanavam, cada vez em maior nmero. Algum gritava "Mata!
Mata! Mata!", e ento outras vozes se juntaram, cada vez mais alto, e as
crianas que estavam no telhado puseram-se a bater o p marcando o
ritmo, embora no ousassem se aproximar e enfrentar a fria do daemon.
Ento uma telha se partiu e o menino de p sobre ela escorregou e caiu,
mas o que estava ao lado dele pegou um caco e arremessou-o sobre Lyra.
Ela mergulhou e a telha espatifou-se na coluna ao seu lado; os pedaos
choveram sobre ela. Will tinha reparado na grade de ferro em volta da
abertura no cho, e cortou dois pedaos na forma de espada. Entregou um
a Lyra, que o girou com toda fora em direo  lateral da cabea do
primeiro menino. Ele caiu na mesma hora, mas logo surgiu outra criana
-Anglica, cabelos vermelhos, rosto branco, olhos enlouquecidos; ela
subiu de gatinhas at o parapeito, mas Lyra golpeou-a com o pedao de
grade e ela caiu. Will estava fazendo a mesma coisa. A faca estava na
bainha em sua cintura, e ele atacava e se defendia com o pedao de
ferro; embora muitas crianas tombassem, outras as substituam, e cada
vez mais crianas subiam para o telhado. #265 Ento apareceu o menino de
camiseta listrada, mas tinha perdido a pistola, ou talvez estivesse sem
munio. No entanto, ele e Will se encararam, e ambos tinham conscincia
do que iria acontecer: eles iam lutar, e ia ser uma luta violenta e
mortal. -Venha -disse Will, ansioso pelo combate. -Venha ento... Mais
um segundo e eles teriam lutado. Mas aconteceu uma coisa estranhssima:
um grande cisne branco veio voando baixo, as asas estendidas, grasnando
to alto que at as crianas no telhado, em meio quela selvageria,
viraram-se para olhar . -Kaisa! -Lyra chamou, cheia de alegria, pois era
mesmo o daemon de Serafina Pekkala. O ganso tornou a grasnar, um som
penetrante que encheu o cu, depois girou e passou a poucos centmetros
do menino de camiseta listrada. O garoto recuou, apavorado, e deslizou
para a borda do telhado, de onde desceu; as outras crianas puseram-se a
gritar de medo tambm, porque havia mais alguma coisa no cu; e quando
Lyra viu as pequenas figuras negras surgindo do azul, ps-se a gritar de
alegria. -Serafina Pekkala! Aqui! Socorro! Estamos aqui no templo... Com
um som sibilante, uma dzia de flechas, e mais uma dzia logo em
seguida, e mais outra dzia disparada to depressa, que todas estavam no
ar ao mesmo tempo, choveram sobre o telhado do templo, onde bateram como
marteladas. Atnitas e atordoadas, as crianas no telhado num instante
perderam toda a truculncia, que foi substituda pelo pavor: quem eram
aquelas mulheres vestidas de preto voando no ar? #266 Que coisa podia
ser aquilo? Seriam fantasmas? Um novo tipo de Espectros? Gemendo e
chorando, as crianas saltaram do telhado, algumas caindo de mau jeito e
arrastando-se ou mancando para longe, outras rolando ladeira abaixo e
correndo para um lugar seguro, no mais uma massa humana, mas apenas um
bando de crianas assustadas e envergonhadas. Um minuto depois do
aparecimento do ganso, a ltima das crianas fugiu do templo, e o nico
som era o ar passando pelos galhos nos quais as bruxas voavam em
crculos. Will olhou para cima, maravilhado, espantado demais para
falar, mas Lyra saltava e chamava, encantada: -Serafina Pekkala! Como
foi que nos encontrou? Obrigada, obrigada! Eles iam matar a gente! Desa
para c... Mas Serafina e as outras sacudiram a cabea e tornaram a
subir, para voar em crculos mais acima. O daemon-ganso girou e voou na
direo do telhado, batendo as grandes asas para dentro, para diminuir a
velocidade, e pousou ruidosamente nas telhas abaixo do arco. -Saudaes,
Lyra -disse. -Serafina Pekkala no pode vir ao solo, nem as outras. Este
lugar est cheio de Espectros, mais de 100 deles esto rodeando este
lugar, e vm vindo outros pelo gramado. No conseguem ver? -No! A gente
no v nada disso! -J perdemos uma bruxa. No podemos arriscar. Vocs
conseguem descer da? -Saltando do telhado, como as crianas fizeram.
Mas como nos encontrou? E onde... -Por agora chega. Vm mais problemas
por a, e maiores ainda. Desam como puderem e vo para as rvores. #267
Os dois passaram por cima do parapeito e desceram lateralmente atravs
das telhas quebradas at a calha. No era alto, e o solo era gramado,
com um ligeiro declive. Lyra saltou primeiro e Will seguiu-a, rolando no
cho e tentando proteger a mo, que j estava novamente sangrando muito
e doendo tambm. O curativo tinha se soltado e pendia numa tira;
enquanto ele tentava enrol-lo, o ganso pousou na grama ao lado dele.
-Lyra, quem  este? -Kaisa perguntou. -Will. Ele vem conosco... -Por que
os Espectros esto evitando voc? -o daemon-ganso perguntou diretamente
a Will. A essa altura nada mais surpreendia Will, que respondeu: -No
sei. A gente no consegue ver eles. No, espere! -E ele ficou de p,
quando uma idia lhe ocorreu. -Onde  que esto agora? -perguntou. -Onde
est o mais prximo? -A 10 passos de voc, ladeira abaixo -disse o
daemon. -Eles no querem chegar mais perto,  evidente. Will tirou a
faca e olhou naquela direo, e ouviu o daemon sibilar, surpreso. Mas
Will no conseguiu fazer o que pretendia porque no mesmo momento uma
bruxa pousou seu galho na grama ao lado dele. Ele ficou atnito, no
tanto pelo fato de v-la voar, mas pela espantosa graciosidade, a
claridade intensa, fria e amorosa do olhar dela, e pelos membros
plidos, despidos, to jovens, no entanto to distantes de serem jovens.
-Seu nome  Will? -ela perguntou. -, sim, mas... -Por que os Espectros
tm medo de voc? -Por causa da faca. Onde est o mais prximo? Diga!
Quero matar ele! #268 Mas Lyra veio correndo antes que a bruxa pudesse
responder. -Serafina Pekkala! -exclamou. E jogou os braos em volta da
bruxa, abraando-a com tanta fora que a bruxa riu e beijou-lhe o topo
da cabea. A menina continuou: -Ah, Serafina, de onde voc surgiu desse
jeito? Ns estvamos... aquelas crianas... Eram crianas, e iam matar a
gente... Voc viu? Pensamos que amos morrer, e... Ah, estou to feliz
por voc ter aparecido! Pensei que nunca mais ia ver voc! Serafina
Pekkala olhou por cima da cabea de Lyra, para onde os Espectros
obviamente estavam agrupados a certa distncia, depois olhou para Will.
-Agora escutem, h uma caverna neste bosque, no muito longe. Subam a
ladeira e ento acompanhem a crista do morro, para a esquerda.
Poderamos at tentar carregar Lyra uma parte do caminho, mas voc 
grande demais, vai ter que ir a p. Os Espectros no vo nos seguir;
eles no conseguem nos ver no ar, e tm medo de voc. Ns nos
encontraremos l;  uma caminhada de meia hora. E ela tornou a alar
vo. Will protegeu os olhos da luz para observar a bruxa e as outras
figuras elegantes girarem no ar e voarem cleres rumo s rvores. -Ah,
Will, estamos salvos agora! Vai dar tudo certo, agora que Serafina
Pekkala est aqui! -Lyra afirmou. -Nunca pensei que fosse ver a Serafina
de novo... Ela chegou bem na hora, no foi? Exatamente como na outra
vez, em Bolvangar... Tagarelando animadamente, como se j tivesse
esquecido a luta, ela subiu a ladeira em direo ao bosque. Will
acompanhava-a em silncio. A mo latejava com fora, e o sangue #269
escorria sem parar. Ele ergueu a mo junto ao peito e tentou no pensar
nisso. Demorou no meia hora, mas uma hora e trs quartos, porque por
vrias vezes Will teve que parar e descansar. Quando chegaram  caverna,
encontraram uma fogueira acesa, um coelho assando e Serafina Pekkala
mexendo alguma coisa num pequeno caldeiro de ferro. -Deixe eu ver a
ferida -foi a primeira coisa que ela disse a Will. Ele, como um zumbi,
estendeu a mo. Pantalaimon, em forma de gato, observava com
curiosidade, mas Will desviou o olhar. No gostava de ver seus dedos
mutilados. As bruxas cochicharam entre si, e ento Serafina Pekkala
perguntou: -Qual foi a arma que fez esse ferimento? Will pegou a faca e
estendeu-a para ela em silncio. As companheiras contemplaram a faca com
espanto e suspeita, pois nunca tinham visto uma lmina assim to afiada.
-Vai ser preciso mais do que ervas para curar isto. Vai ser preciso um
feitio -Serafina Pekkala declarou. -Muito bem, vamos preparar um. Vai
estar pronto quando a lua sair. Enquanto isso, vocs vo dormir. Ela deu
a ele uma pequena taa de chifre contendo uma poo quente cujo sabor
amargo era adoado com mel, e algum tempo depois ele se deitou e caiu em
sono profundo. A bruxa cobriu-o com folhas e voltou-se para Lyra, que
ainda comia coelho. -Agora, Lyra, me conte quem  este menino e o que
voc sabe sobre este mundo e esta faca -pediu. Ento Lyra respirou fundo
e comeou. #270 12 A LINGUAGEM DA TELA -Conte tudo outra vez- pediu o
Dr. Oliver Payne, no pequeno laboratrio com vista para o parque. -Ou
no entendi direito, ou voc est dizendo bobagens. Uma criana de outro
mundo? -Foi o que ela disse. Certo,  bobagem, mas pelo menos escute,
Oliver, por favor -disse a Dra. Mary Malone. -Ela sabia das Sombras, com
o nome de P, mas  a mesma coisa. So as nossas partculas de Sombra.
Estou lhe dizendo: quando ela estava ligada  Caverna atravs dos
eletrodos, houve uma extraordinria ocorrncia de figuras e smbolos na
tela... Alm disso ela possua um instrumento, uma espcie de bssola
feita de ouro, com vrios smbolos em volta do mostrador. Disse que
conseguia ler aquilo da mesma maneira, e sabia tambm sobre o estado de
esprito necessrio, ela o conhecia intimamente. Estavam no meio da
manh. A Dra. Malone, a Catedrtica de Lyra, tinha os olhos vermelhos
por causa do sono atrasado, e seu colega, que acabava de voltar de
Genebra, #271 mostrava-se preocupado, ctico e impaciente para ouvir
mais. A Dra. Malone prosseguiu: -E o importante, Oliver,  que ela se
comunicou com elas. Elas so conscientes, e conseguem reagir. E voc se
lembra dos crnios? Pois bem, ela me falou de uns crnios no Museu
Pitt-Rivers, descobriu por aquela coisa que eles eram muito mais antigos
do que o museu dizia, e havia Sombras... -Espere um minuto. Pelo menos
fale coisa com coisa. O que  que voc est dizendo, exatamente? A
garota confirmou o que j sabemos, ou revelou alguma novidade? -As duas
coisas. No sei. Mas vamos supor que tenha acontecido alguma coisa h 30
ou 40 mil anos. Antes disso j havia partculas de Sombra,  claro, elas
existem desde a Grande Exploso. Mas no havia um meio fsico de
amplificar seus efeitos no nosso nvel, no nvel antropolgico, no nvel
dos seres humanos. E ento aconteceu alguma coisa, no consigo imaginar
o qu, mas tinha a ver com a evoluo. Da os seus crnios, lembra-se?
Antes no havia Sombras, e depois havia um monte delas? E os crnios que
a menina viu no museu e testou com aquela espcie de bssola. Ela disse
a mesma coisa. O que estou dizendo  que por volta dessa poca o crebro
humano tornou-se o veculo ideal para esse processo de amplificao. De
repente adquirimos conscincia. O Dr. Payne virou a caneca de plstico e
bebeu o resto do caf. -Por que deveria ter acontecido exatamente nesse
perodo? -perguntou. -Por que de repente, h 35 mil anos? -Ah, quem
sabe? No somos paleontlogos. No sei, Oliver, s estou especulando.
No acha pelo menos que  possvel? -E esse policial, fale sobre ele.
#272 A Dra. Malone esfregou os olhos. -O nome dele  Walters. Disse que
era da Diviso Especial. Pensei que eles tratassem de poltica, ou coisa
assim. -Terrorismo, subverso, segurana, tudo isso... Continue. O que
ele queria? Por que veio at aqui? -Por causa da garota. Ele disse que
estava procurando um menino mais ou menos da mesma idade, mas no me
disse a razo. E esse menino tinha sido visto com a garota que veio
aqui. Mas ele tinha outra inteno tambm, Oliver, ele sabia sobre a
pesquisa, chegou at a perguntar... O telefone tocou. Ela se
interrompeu, dando de ombros, e o Dr. Payne atendeu. Falou rapidamente e
desligou, dizendo: -Temos visita. -Quem ? -No conheo o nome. Sir
Qualquer Coisa. Escute, Mary, voc sabe que vou me demitir, no sabe?
-Eles lhe ofereceram o emprego. -. Tenho que aceitar. Voc certamente
compreende. -Bom, ento  o fim de tudo isto. Ele espalmou as mos, num
gesto que indicava impotncia, e disse: -Para falar com franqueza, no
consigo entender o sentido de tudo isso que voc me contou. Crianas de
outro mundo e Sombras fsseis...  muita maluquice. Simplesmente no
posso me envolver. Tenho uma carreira, Mary . -E os crnios que voc
testou? E as Sombras em volta da pea de xadrs feita de marfim? O Dr.
Payne sacudiu a cabea e virou-se de costas. Antes que ele pudesse
responder, ouviram batidas  porta e ele abriu-a de imediato, com
alvio. Sir Charles cumprimentou: #273 -Bom dia a todos. Dr. Payne? Dra.
Malone? Meu nome  Charles Latrom.  muita gentileza me receberem sem
hora marcada. -Entre -convidou a Dra. Malone, perplexa. - Entendi bem? O
senhor  Sir Charles? Como  que podemos ajud-lo? -Talvez seja o caso
de eu poder ajud-los -ele respondeu. -Ouvi dizer que esto esperando o
resultado do seu pedido de verba. -Como sabe disso? -perguntou o Dr.
Payne. -J trabalhei para o Ministrio. Alis, eu trabalhava diretamente
com a poltica cientfica. Ainda tenho muitos contatos nesta rea, e
ouvi dizer que... Posso me sentar? -Ah, por favor -disse a Dra. Malone.
Ela puxou uma cadeira e ele se sentou como se estivesse dirigindo uma
reunio. -Obrigado. Soube por um amigo...  melhor no mencionar o nome
dele, os regulamentos de segurana so muito rigorosos... Enfim, eu
soube que o seu pedido estava sendo estudado, e o que ouvi me intrigou
tanto, que devo confessar que pedi para ver alguma coisa do trabalho de
vocs. Sei que no era da minha conta, mas ainda atuo como uma espcie
de conselheiro no-oficial, de modo que usei essa desculpa. E realmente,
o que vi era fascinante. -Isso significa que vamos conseguir? -quis
saber a Dra. Malone, inclinando-se para a frente, ansiosa para acreditar
nele. -Infelizmente, no. Tenho que ser sincero: eles no esto
dispostos a renovar a sua bolsa. A Dra. Malone curvou os ombros. O Dr.
Payne observava com curiosidade o visitante. -Ento, por que veio aqui?
-perguntou. #274 -Bem, sabe, eles ainda no decidiram oficialmente. No
parece que a resposta ser promissora, e vou ser franco com vocs: eles
no tm perspectiva de financiar esse tipo de trabalho no futuro. No
entanto, se algum defendesse o caso de vocs, eles poderiam mudar de
idia. -Um patrono? O senhor est dizendo que poderia fazer isso? Eu no
sabia que as coisas funcionavam assim -disse a Dra. Malone,
endireitando-se. -Pensei que eles consultassem outros cientistas e...
-Na teoria, sim, mas tambm ajuda saber como esses comits funcionam na
prtica. E saber quem faz parte deles. Bem, c estou: tenho imenso
interesse no seu trabalho, acho que ele pode ser muito importante e
certamente devia prosseguir. Vocs me deixariam fazer contatos informais
para isso? A Dra. Malone sentia-se como um marinheiro que est se
afogando, quando de repente lhe jogam um salva-vidas. -Ora! Claro que
sim! E muito obrigada... Quer dizer, o senhor acha mesmo que vai
adiantar? No estou querendo dizer que... Ah, no sei o que estou
querendo dizer.  claro que sim! -O que  que ns teramos que fazer?
-perguntou o Dr. Payne. A Dra. Malone olhou para ele, surpresa: Oliver
no tinha acabado de dizer que ia trabalhar em Genebra? Mas ele parecia
estar entendendo Sir Charles melhor do que ela estava, pois uma centelha
de cumplicidade passou entre os dois homens, e Oliver veio sentar-se
tambm. -Fico feliz por voc ter me entendido -disse o homem. -Tem toda
razo. Existe uma certa direo que me deixaria intensamente feliz se
vocs tomassem. E, se pudermos entrar num acordo, eu poderia at
arranjar mais dinheiro, de outra fonte. #275 -Espere, espere
-interrompeu a Dra. Malone. - Espere um minuto. O rumo desta pesquisa 
uma questo nossa. Estou inteiramente disposta a discutir os resultados,
mas no a meta. O senhor sem dvida deve entender que... Sir Charles
espalmou as mos num gesto que exprimia pesar e ficou de p. Oliver
Payne tambm se levantou, ansioso. -No, por favor, Sir Charles, tenho
certeza de que a Dra. Malone vai escutar o que o senhor tem a dizer.
Mary, escutar no faz mal, e pode fazer uma grande diferena. -Voc no
ia para Genebra? -Genebra? -interps Sir Charles. -Excelente lugar.
Muitos recursos. Muito dinheiro, tambm. No quero prend-lo aqui. -No,
no, ainda no est decidido -apressou-se a dizer o Dr. Payne. -Falta
discutir muita coisa, ainda est tudo muito no ar. Sente-se, Sir
Charles, por favor... Posso lhe oferecer um caf? - muita gentileza sua
-disse Sir Charles, tornando a sentar-se com ar de um gato satisfeito. A
Dra. Malone estudou-o com ateno pela primeira vez; Viu um homem de
quase 70 anos, prspero, confiante, vestido com elegncia, habituado ao
melhor, acostumado a conviver com pessoas poderosas e a sussurrar em
ouvidos importantes. Oliver tinha razo, ele queria mesmo alguma coisa
em troca -e s teriam o apoio dele se o satisfizessem. Ela cruzou os
braos. O Dr. Payne estendeu uma caneca ao visitante, dizendo: -Sinto
muito, a nossa loua  modesta... -De maneira nenhuma. Posso continuar o
que estava dizendo? -Sim, por favor -disse o Dr. Payne. #276 -Bem,
compreendo que vocs fizeram algumas descobertas fascinantes no campo da
conscincia. Sim, eu sei, vocs ainda no publicaram, e ainda falta
muita coisa, aparentemente, para o sucesso da sua pesquisa. No entanto,
as notcias se espalham. Estou especialmente interessado no assunto. Eu
ficaria muito feliz, por exemplo, se vocs concentrassem sua pesquisa na
manipulao da conscincia. Em segundo lugar, na hiptese dos mundos
diversos, de Everett, vocs se lembram, 1957 ou por a; acredito que
vocs esto na pista de alguma coisa que poderia expandir muito essa
teoria. E essa linha de pesquisa poderia at atrair verbas da Defesa,
que, como vocs devem saber, ainda  generosa, mesmo hoje em dia, e
certamente no est sujeita a esses cansativos processos de aprovao
dos pedidos de verbas. Ele ergueu a mo quando a Dra. Malone tentou
falar, e prosseguIu: -No me peam para revelar minhas fontes. Mencionei
as leis de segurana nacional;  uma legislao incmoda, mas no
podemos brincar com ela. Eu tenho confiana de que teremos alguns
progressos na rea dos mundos diversos. Acho que vocs so as pessoas
certas para isso. E, em terceiro lugar, existe um determinado assunto
relacionado a uma pessoa. Uma criana. Ele fez uma pausa e bebericou o
caf. A Dra. Malone no conseguia falar; ela empalidecera, embora no
tivesse conscincia disso, mas tinha conscincia de que se sentia zonza.
Sir Charles continuou: -Por diversos motivos estou em contato com os
servios de informaes. Eles esto interessados numa criana, uma
menina, que possui um instrumento pouco comum, um antigo instrumento
cientfico, certamente roubado, que deveria #277 estar em mos mais
seguras do que as dela. Existe tambm um menino mais ou menos da mesma
idade, uns 12 anos, que est sendo procurado por causa de um
assassinato. Muito se discute se uma criana desta idade  capaz de
assassinato, mas ele certamente matou uma pessoa. E foi visto com a
menina. Agora, Dra. Malone, pode ser que a senhora tenha conhecido uma
dessas crianas. E pode ser que a senhora, muito corretamente, esteja
inclinada a contar  polcia o que sabe. Mas estaria agindo melhor se me
contasse em particular. Posso dar um jeito para que as autoridades lidem
com o assuntO de maneira rpida e eficiente, sem sensacionalismo nos
jornais. Sei que o Inspetor Walters veio v-la ontem, e sei que a garota
apareceu. Percebe, sei do que estoU falando. E saberia, por exemplo, se
a senhora a visse de novo; e se no me contasse, eu saberia disso
tambm. Seria bom pensar bastante sobre isso, e tentar clarear a sua
lembrana do que ela disse e fez enquanto estava aqui.  um problema de
segurana nacional. Sei que a senhora est me entendendo. Ele suspirou e
em seguida continuou: -Bem, vou ficando por aqui. Tomem o meu carto,
para poderem me procurar. Se fosse eu, no perderia muito tempo; o
comit se rene amanh, como vocs sabem. Mas podem me encontrar neste
nmero a qualquer hora. Ele deu um carto a Oliver Payne e, ao ver que a
Dra. Malone continuava de braos cruzados, colocou um sobre a mesa para
ela. O Dr. Payne abriu a porta para ele. Sir Charles colocou na cabea o
chapu-panam, dando-lhe um tapinha, depois sorriu para ambos e partiu.
Depois de fechar a porta, o Dr. Payne perguntou: -Mary , voc ficou
maluca? Por que se comportou dessa maneira? #278 -Como assim? Voc no
caiu na conversa desse velho nojento, caiu? -Voc no pode recusar uma
oferta como essa! Quer ou no quer que o nosso projeto sobreviva? -No
foi uma oferta, foi um ultimato -ela retrucou com veemncia. -Ou fazemos
o que ele quer, ou fechamos. E Oliver, pelo amor de Deus, todas aquelas
ameaas e indiretas nada sutis sobre segurana nacional e coisas assim,
voc no consegue enxergar aonde isso iria levar? -Bem, acho que consigo
enxergar melhor do que voc. Se voc disser no, eles no vo fechar
este lugar; vo se apossar dele. Se esto to interessados quanto ele
diz, vo querer continuar com a pesquisa. S que nos termos deles. -Mas
os termos deles seriam... Ora, uma questo de defesa, pelo amor de Deus,
isto quer dizer que eles querem encontrar novos mtodos de matar. E voc
ouviu o que ele disse sobre conscincia: ele quer manipular
conscincias! No vou me envolver com esse tipo de coisa, Oliver,
jamais. -Eles vo fazer de qualquer maneira, e voc vai ficar sem
emprego. Se permanecer, poder orientar o trabalho, dirigir a pesquisa
para um rumo melhor. E ainda estar trabalhando no projeto! Ainda estar
envolvida! -Mas, de qualquer maneira, em que isso interessa a voc? O
trabalho em Genebra j no est decidido? Ele passou as mos pelos
cabelos e disse: -Decidido, no. Nada foi assinado. E seria uma coisa
completamente diferente, eu no gostaria de ir embora agora que acho que
estamos realmente conseguindo alguma coisa... -O que  que voc est
dizendo? -No estou dizendo... -Est insinuando. Aonde quer chegar? #279
-Bem... -Ele se ps a caminhar de um lado para outro no laboratrio,
espalmando as mos, dando de ombros, sacudindo a cabea. -Bom, se voc
no entrar em contato com ele, entro eu -disse finalmente. Ela ficou em
silncio por algum tempo. Depois disse: -Ah, estou entendendo. -Mary,
tenho que pensar na... -Claro. -No que... -No, no. -Voc no
compreende... -Compreendo, sim.  muito simples. Voc promete fazer o
que ele diz, voc consegue a verba, eu saio, voc assume como Diretor.
No  difcil entender. Voc teria um oramento maior. Muitas mquinas
novinhas. Meia dzia de Ph.D.s sob suas ordens. tima idia. Faa isso,
Oliver. V em frente. Mas para mim chega, estou fora. Isso fede. -Voc
no... Mas a expresso dela silenciou-o. A Dra. Malone despiu o jaleco
branco e pendurou-o na porta; juntou alguns papis numa sacola e saiu
sem uma palavra. Assim que ela partiu, ele pegou o carto de Sir Charles
e foi para o telefone. Vrias horas mais tarde, pouco antes da
meia-noite, a Dra. Malone estacionou o carro em frente ao prdio de
cincias e entrou por uma porta lateral. Mas, assim que se virou para
subir a escada, deparou com um homem que surgira de outro corredor,
assustando-a tanto que ela quase deixou cair a pasta. Ele estava
fardado. -Aonde vai? -quis saber . Ficou parado diante dela, corpulento,
os olhos quase invisveis sob a aba baixa do quepe. #280 -Vou para o meu
laboratrio. Eu trabalho aqui. Quem  voc? -Segurana. Posso ver sua
identidade? -Que segurana? Sa daqui hoje s trs da tarde e s havia
um porteiro trabalhando, como sempre. Sou eu quem devia estar pedindo a
sua identidade. Quem o contratou? E por qu? -Eis a minha identidade
-disse ele, mostrando-lhe um carto e tornando a guard-lo sem que ela
tivesse tempo de ler. -E onde est a sua? Ela notou que ele levava um
telefone celular num coldre  cintura. Ou seria uma arma? No, claro que
no, ela estava ficando paranica. E ele no tinha respondido. Mas se
ela insistisse, ele ficaria cheio de suspeitas, e o que interessava era
chegar ao laboratrio; ela pensou: tenho que acalm-lo, como a gente faz
com um cachorro. Remexeu na bolsa e encontrou a carteira. -Isto serve?
-perguntou, mostrando o carto que costumava usar para operar a porta
automtica do estacionamento. Ele estudou o carto rapidamente. -O que 
que est fazendo aqui a esta hora da noite? -perguntou. -Estou no meio
de uma experincia delicada. Preciso verificar periodicamente o
computador. Ele parecia estar procurando um motivo para impedi-la, ou
talvez estivesse apenas gostando de exercer poder. Finalmente assentiu e
ps-se de lado. Ela passou por ele, sorrindo, mas o rosto dele
permaneceu srio. Ela ainda estava tremendo quando chegou ao
laboratrio. Naquele prdio, a "segurana" sempre tinha se resumido a
#281 uma tranca na porta e um porteiro idoso, e ela sabia o motivo
daquela mudana. Mas isso significava que ela dispunha de pouco tempo:
seria preciso acertar de primeira, pois quando descobrissem o que estava
fazendo, ela no poderia voltar l. A cientista trancou a porta atrs de
si e baixou as persianas. Ligou o detector, pegou um disquete no bolso e
colocou-o no computador que controlava a Caverna, e um minuto depois j
estava manipulando os nmeros na tela, guiando-se metade pela lgica,
metade pela intuio e metade pelo programa que ela havia criado em
casa, tendo trabalhado at aquela hora; e a complexidade da tarefa a que
se propunha era to desconcertante quanto fazer trs metades somarem um
inteiro. Finalmente ela afastoU os cabelos dos olhos e colocou os
eletrodos na cabea, depois flexionou os dedos e comeou a digitar.
Sentia-se intensamente constrangida. 'Ol. No sei o que estou fazendo.
Talvez seja loucura.' As palavras se agruparam  esquerda da tela, o que
foi a primeira surpresa. Ela no estava usando um programa de
processamento de texto -na verdade, estava passando ao largo de grande
parte do sistema operacional- e a formatao das suas palavras no
estava sendo feita por ela. Ela sentiu um arrepio nas costas e tomou
conscincia de todo o prdio  sua volta, os corredores escuros, as
mquinas ociosas, as vrias experincias em curso, computadores
monitorando testes e registrando resultados, o ar-condicionado
analisando e ajustando a umIdade e a temperatura, todos os dutos,
encanamentoS e cabos, que eram as artrias e os nervos do prdio,
despertos e vigilantes... Na verdade, quase conscientes. Ela
experimentou de novo. *Nota do digitalizador: O dilogo entre a Dra.
Malone e a tela do computador  feito em uma formatao em que as
palavras digitadas pela Dra. Malone ficam  esquerda, enquanto as
respostas,  direita; sendo assim, o texto ficaria de difcil
compreeno para o deficiente-visual, de modo que optei por apenas
exp-las na orisontal, uma fala abaixo da outra, comeadas e terminadas
pelo cinal '.* #282 'Estou tentando fazer com palavras o que fiz antes
com um estado de esprito, mas' Antes que ela tivesse sequer terminado a
frase, o cursor correu para o lado direito da tela e escreveu: 'Faa uma
pergunta.' Foi quase instantneo. Ela sentiu como se tivesse tentado
descer um degrau que no existia: todo o seu corpo sofreu um impacto com
o choque. Foram necessrios vrios minutos para que ela se acalmasse o
suficiente para tentar de novo. Quando o fez, as respostas se
apresentavam no lado direito da tela praticamente antes que ela
terminasse. 'Vocs so as Sombras?' 'Sim.' 'Vocs so a mesma coisa que
o P de Lyra?' 'Sim.' 'E que a matria escura?' 'Sim.' 'A matria escura
tem conscincia?' 'Evidentemente.' 'O que eu disse hoje a Oliver, a
minha idia sobre a evoluo humana, est' 'Correta. Mas voc  precisa
fazer mais perguntas.' Ela parou, respirou fundo, empurrou a cadeira
para trs, flexionou os dedos. Sentia o corao disparado. Aquilo que
estava acontecendo era impossvel: toda a sua educao, todos os seus
hbitos mentais, todo o seu senso de si mesma como cientista berravam
com ela silenciosamente: isto est errado! No est acontecendo! Voc
est sonhando! No entanto, ali #283 estavam aquelas coisas na tela: as
suas perguntas e as respostas de alguma outra mente. Ela se controlou e
tornou a digitar, e novamente as respostas surgiram sem uma pausa
discernvel. 'A mente que est respondendo no  humana, ?' 'No. Mas
os humanos sempre souberam de ns.' 'Ns? Ento existe mais de um?'
'Milhes e milhes.' 'Mas quem so vocs? ' 'Anjos.' A Dra. Malone
sentiu a cabea girar. Ela fora educada como catlica -mais que isso:
como Lyra havia constatado, ela j tinha sido freira. Nada lhe restava
agora de sua f, mas ela j sabia dos anjos. Santo Agostinho disse:
"Anjo  o nome do trabalho deles, no da natureza deles. Se voc
procurar o nome da natureza deles, esse nome  esprito; se procurar o
nome do trabalho deles, esse nome  anjo; o que eles so, esprito; o
que eles fazem, anjo." Zonza, trmula, ela tornou a digitar: 'Os anjos
so criaturas de matria-de-Sombra?' 'Estruturas. Complexificaes.' 'De
P?' 'Sim.' 'E a matria-de-Sombra  o que chamamos de esprito?' 'Pelo
que somos, esprito. Pelo que fazemos, matria. Matria e esprito so
uma coisa s.' Ela estremeceu -estavam escutando os seus pensa-mentos!
#284 'E vocs interferiram na evoluo humana?' 'Sim.' 'Por qu? '
'Vingana.' 'Vingana de... Anjos rebeldes! Depois da guerra no Cu,
Satans e o jardim do den... Mas (...)' 'Ah, Encontre a menina e o
menino. No perca tempo. Voc precisa bancar a serpente.' '(...) isso
no  verdade, ?' '' 'isso que vocs... Mas por qu?' Ela tirou as
mos do teclado e esfregou os olhos. Quando tornou a olhar, as palavras
ainda estavam l. ' V a uma rua chamada Avenida Sunderland e procure
uma tenda. Engane o guardio e atravesse. Leve provises para uma longa
viagem. Voc estar protegida. Os espectros no lhe faro mal.' 'Onde
Mas eu' 'Antes de ir, destrua este equipamento.' 'No compreendo -por
que eu? Que viagem  essa?' 'Voc vem se preparando para isto desde que
nasceu. Seu trabalho aqui chegou ao fim. A ltima coisa que voc tem a
fazer neste mundo  impedir que os inimigos tomem o controle. Destrua
este equipamento. Faa isto agora mesmo e parta imediatamente.' Mary
Malone empurrou a cadeira para trs e levantou-se, trmula. Apertou as
tmporas com os dedos e descobriu os #285 eletrodos ainda presos  pele.
Tirou-os sem prestar ateno. Podia ter duvidado do que tinha feito e
daquilo que ainda podia ver na tela, mas na ltima meia hora ela havia
passado para alm da dvida e da credulidade. Alguma coisa tinha
acontecido, e ela estava eletrizada. Desligou o detector e o
amplificador. Ento anulou todos os cdigos de segurana e formatou o
disco rgido do computador, esvaziando-o por completo; depois removeu a
interface entre o detector e o amplificador, que era um carto
especialmente adaptado; colocou o carto sobre a mesa e destruiu-o com o
salto do sapato, pois nada havia de pesado  mo. Em seguida desligou a
fiao entre o escudo eletromagntico e o detector; encontrOU a planta
da fiao numa gaveta do arquivo e colocou fogo nela. Havia mais alguma
coisa que podia fazer? No podia fazer coisa alguma a respeito do
conhecimento que Oliver Payne tinha do programa, mas a aparelhagem
especial estava destruda. Enfiou alguns papis de uma gaveta dentro da
pasta e finalmente tirou da parede o cartaz com os hexagramas do I
Ching, que dobrou e guardou no bolso. Depois apagou a luz e saiu. O
segurana estava parado ao p da escada, falando ao telefone. Guardou o
aparelho assim que ela desceu e acompanhou-a em silncio at a entrada
lateral, observando atravs da porta de vidro at o carro dela
desaparecer. Uma hora e meia mais tarde, ela encostoU o carro numa rua
perto da Avenida Sunderland. Tinha sido necessrio procurar a rua num
mapa de Oxford, pois no conhecia essa parte da cidade. At esse momento
ela vinha agindo movida pela empolgao acumulada, mas ao sair do carro
na escurido da madrugada e sentir o ar noturno, frio e silencioso, e a
imobilidade  sua volta, ela teve um momento de apreenso. E se #286
estivesse sonhando? E se aquilo tudo fosse uma complicada brincadeira de
algum? Bem, era tarde demais para se preocupar com isso. Ela j estava
envolvida. Pegou a mochila que tantas vezes carregara em excurses na
Esccia e nos Alpes, e refletiu que pelo menos sabia sobreviver no mato;
se o pior acontecesse, podia sempre fugir correndo, ir para as
montanhas... Ridculo. Colocou a mochila nas costas, deixou o carro e
entrou na Rua Banbury, e caminhou 200 ou 300 metros pela Avenida
Sunderland, que comeava  esquerda do trevo. Nunca na vida ela havia se
sentido to tola. Mas ao virar a esquina e ver aquelas rvores
estranhas, com formato de criana, que Will tinha visto, ela constatou
que pelo menos alguma coisa era verdade: sob as rvores, na grama no
lado oposto da rua havia uma pequena tenda quadrada de nilon vermelho e
branco, do tipo que os eletricistas erguem para proteger-se da chuva
enquanto trabalham, e estacionado ali perto havia um caminho branco, do
departamento de transito, com vidros escuros nas Janelas. Melhor no
hesitar. Ela atravessou diretamente para a tenda. Quando estava quase
l, a porta traseira do furgo abriu-se e dali saiu um policial. Sem o
capacete ele parecia muito jovem, e a luz do poste brilhava em seu
rosto. -Posso saber aonde vai, senhora? -perguntou. -Entrar nesta tenda.
-Infelizmente no  possvel, senhora. Tenho ordens de no deixar
ningum entrar . -timo! -ela exclamou. -Que bom que mandaram proteger
este lugar. Mas sou do Departamento de Cincias Fsicas. Sir Charles
Latrom nos pediu para fazer uma avaliao preliminar #287 e redigir um
relatrio antes que comecem a pesquisa.  importante que isso seja feito
a esta hora, enquanto no h muita gente na rua. Tenho certeza de que
voc compreende os motIvos. -Bem, sim -disse ele. -Mas a senhora tem
alguma identificao? -Ah, claro -ela afirmou. E tirou a mochila das
costas, para pegar a bolsa. Entre as coisas que tinha tirado da gaveta
no laboratrio estava um carto da biblioteca, j vencido, de Oliver
Payne. Com 15 minutos de trabalho, sentada  mesa da sua cozinha, ela
havia utilizado a foto do seu prprio passaporte para produzir um
documento que ela esperava que passasse por genuno. O policial pegou o
carto de plstico e estudou-o atentamente. -Dra. Oliver Payne -leu.
-Por acaso a senhora conhece uma Dra. Mary Malone? -Ah, sim,  uma
colega. -Sabe onde ela est agora? -Em casa, na cama, se tiver juzo.
Por qu? -Bem, me disseram que ela no trabalha mais na sua organizao
e no tem permisso para passar por aqui. Na verdade, temos ordens para
prender a doutora se ela tentar. E, ao ver uma mulher, naturalmente
pensei que s podia ser ela, entende? Desculpe, Dra. Payne. -Ah, entendo
-disse Mary Malone. O policial tornou a examinar o carto. -Bem, isto
parece correto -disse, e devolveu-o. Nervoso, com vontade de falar, ele
continuou: -Sabe o que existe ali, dentro desta tenda? -Bem, s de ouvir
falar -ela respondeu. -Por isso estou aquI. #288 -Imagino que sim. Muito
bem, Dra. Payne. O guarda deu um passo para o lado e deixou que ela
desatasse a proteo que fechava a porta da tenda. Ela esperava que ele
no notasse o tremor de suas mos. Segurando a mochila contra o peito,
ela entrou. Engane o guardio -ela havia feito isso; mas no tinha idia
do que encontraria dentro da tenda. Estava preparada para algum tipo de
escavao arqueolgica, um cadver, um meteorito -mas nada em sua vida
ou em seus sonhos a tinha preparado para aquele quadrado de cerca de um
metro em pleno ar, ou para a cidade adormecida e silenciosa  beira-mar
que ela encontrou quando o atravessou. #289 13 SAHTTR QuandO a lua
nasceu, as bruxas deram incio ao feitio para curar os ferimentos de
Will: acordaram o menino e pediram-lhe para colocar a faca no cho, num
local onde ela pudesse pegar um raio de luz das estrelas. Lyra estava
sentada ali perto, mexendo um caldeiro de gua fervente com algumas
ervas sobre uma fogueira; Serafina agachou-se junto  faca e, enquanto
as suas companheiras batiam palmas, batiam com o p no cho e soltavam
gritos ritmados, comeou a cantar em tom alto e estridente: "Pequena
Faca! Arrancaram teu ferro das entranhas da me Terra, fizeram uma
fogueira e ferveram o minrio, fizeram-no chorar e sangrar e
transbordar, teu ferro foi martelado, foi temperado, mergulhado em gua
glida, aquecido dentro da forja at tua lmina ter a cor
vermelho-sangue, crestante! Ento fizeram-te ferir a gua outra vez, e
mais outra, #290 at o vapor tornar-se nvoa fervente e a gua clamar
por misericrdia. E quando tu cortaste uma nica sombra em 30 mil
sombras, ento souberam que estavas pronta, ento chamaram-te: a sutil.
Mas, pequena faca, que foi que fizeste? Abriste portais de sangue,
deixando-os escancarados! Pequena faca, tua me te chama, das entranhas
da Terra, de suas minas e cavernas mais profundas, de seu secreto ventre
de ferro. Escuta! E Serafina ps-se a bater o p no cho e a bater
palmas com as outras bruxas, que ululavam, suas vozes rascantes
arranhando o ar como garras. Will, sentado no meio delas, sentiu um
arrepio no cerne do seu corpo. Ento Serafina Pekkala virou-se para o
menino e tOmou a mo ferida entre as suas. Dessa vez, quando ela cantou
ele quase fez uma careta, to penetrante era a voz alta e clara, to
brilhantes eram os olhos dela; mas continuou sentado, imvel, deixando
que o feitio seguisse seu curso. Sangue! Obedece-me! Faz meia-volta,
sendo um lago e no um rio. Quando chegares ao ar livre, pra! E
constri uma parede coagulada, Que seja firme, para conter a enchente.
Sangue, teu cu  o domo do crnio, teu sol  o olho aberto, teu vento,
o ar dentro dos pulmes. Sangue, teu mundo  limitado; fica dentro dele!
#291 Will conseguia sentir todos os tomos do seu corpo respondendo ao
comando dela, e ento juntou-se a eles, forando o sangue que gotejava a
escutar e obedecer. Ela largou a mo de Will e se virou para o pequeno
caldeiro de ferro sobre o fogo. Dele subia um vapor acre - Will ouvia o
lquido borbulhando violentamente. Serafina cantou: "Casca de carvalho,
seda de aranha, musgo modo, erva-barrilheira: agarrem-se com firmeza,
unam-se com fora, tranquem a porta, travem o porto, reforcem a parede
de sangue, estanquem a enchente sangrenta. Ento a bruxa pegou um broto
de amieiro e, com sua prpria faca, partiu-o em dois no sentido do
comprimento. A alvura do cerne, exposta, brilhava ao luar .Ela colocou
um pOUCO do lquido quente em cada metade e tornou a junt-las,
pressionando um lado contra o outro em toda a extenso do corte. E o
raminho ficou inteiro de novo. Will ouviu um som vindo de Lyra e
virou-se, para ver outra bruxa segurando uma lebre, que se contorcia e
se debatia nas mos fortes da mulher. O animal ofegava, de olhos
arregalados, chutando furiosamente, mas as mos da bruxa eram
implacveis: uma delas segurava a lebre pelas patas da frente e a outra
pelas patas traseiras, mantendo o frentico animal estendido de barriga
para cima. A faca de Serafina deslizou sobre ele. Will sentiu uma
vertigem; Lyra, por sua vez, segurava Pantalaimon -em forma de lebre,
para mostrar-se solidrio -que tentava #292 desvencilhar-se de suas
mos. A verdadeira lebre imobilizou-se, os olhos saltados, o peito
ofegante, as entranhas brilhando. Mas Serafina deixou cair um pouco do
lquido do caldeiro dentro do corte aberto na barriga da lebre e ento
fechou-o com os dedos, alisando sobre ele os plos molhados at no
haver mais qualquer sinal do corte. A bruxa que segurava o animal
colocou-o no cho com delicadeza; ele se sacudiu, virou-se para lamber o
flanco, mexeu as orelhas e foi mordiscar um pedao de capim como se
estivesse sozinho. De repente pareceu perceber o crculo de humanos 
sua volta e como uma flecha fugiu dali, inteiramente refeito, saltando
velozmente para dentro da escurido. Lyra, acalmando Pantalaimon, olhou
de relance para Will e viu que ele sabia o que aquilo significava: o
remdio estava pronto. Ele estendeu a mo e Serafina passou a mistura
quente nos tocos sangrentos, enquanto ele desviava os olhos e respirava
fundo algumas vezes, mas sem se queixar. Depois que a carne viva estava
inteiramente encharcada, a bruxa pressionou sobre os ferimentos as ervas
tiradas do caldeiro e fechou tudo com uma faixa de seda. Pronto: o
feitio estava feito. Will dormiu profundamente pelo resto da noite.
Estava frio, mas as bruxas empilharam folhas sobre o seu corpo, e Lyra
dormiu aninhada junto s suas costas. Na manh seguinte, Serafina refez
o curativo; e ele tentou ler no rosto dela se o ferimento estava
melhorando, mas a bruxa se mostrava tranqila e impassvel. Depois que
comeram alguma coisa, Serafina contou-lhes: as bruxas tinham concordado
que, j que tinham vindo a esse mundo para encontrar Lyra e tomar conta
dela, iriam ajudar #293 a menina a fazer aquilo que ela agora sabia ser
a sua misso: levar Will at o pai dele. Assim, partiram; e a viagem foi
tranqila em sua maior parte. Para comear, Lyra consultou o aletmetro,
mas com cautela, e ficou sabendo que deveriam viajar na direo das
montanhas distantes, visveis do outrO lado da grande baa. Nunca tendo
chegado to alto acima da cidade, os dois no tinham conscincia do modo
como a costa se curvava e das montanhas que se encontravam abaixo do
horizonte; mas agora eles avistavam, onde as rvores escasseavam ou onde
um declive se abria aos ps dos viajantes, o mar deserto da baa, at as
altas montanhas azuis que eram o seu destino. Elas pareciam muito
distantes. Os dois no conversaram muito. Lyra ocupava-se em observar a
vida na floresta, desde pica-paus at esquilos e cobrinhas de losangos
nas costas, e Will precisava de toda a sua energia simplesmente para
continuar andando. Lyra e Pantalaimon falavam a respeito dele
incessantemente. -Bem que ns podamos consultar o aletmetro -disse
Pantalaimon, em certo momento em que os dois tinham ficado para trs
para ver at que pontO conseguiriam aproximar-se de um cervo antes que
este os visse. -No prometemos no fazer isso. E poderamos descobrir
todo tipo de coisas para ele. Seria por ele, no por ns. -No seja
estpido -retrucou Lyra. -Seria por ns, porque ele nunca perguntaria.
Voc  curioso e intrometido, Pan. -J  uma mudana. Normalmente  voc
quem  curiosa e intrometida, e sou eu quem tem que lhe dizer para no
fazer certas coisas. Como na Sala Privativa na Jordan. Eu no queria
entrar l. #294 -Se a gente no tivesse entrado, Pan, acha que tudo isso
teria acontecido? -No. Porque o Reitor teria envenenado Lorde Asriel, e
tudo ia acabar ali mesmo. -, talvez... Quem voc acha que  o pai do
Will? E por que ser que ele  importante? - isso que eu estava
dizendo! Podemos descobrir num instante! Ela pareceu hesitar.
-Antigamente, eu at faria isso. Mas estou mudando, eu acho, Pan. -No
est, no. -Vocpode no estar... Ei, Pan, quando eu mudar, voc vai
parar de mudar. O que  que vai ser? -Uma pulga, espero. -Voc no tem
nenhum pressentimento do que vai ser? -No, e nem quero ter. -Voc est
chateado porque eu no vou fazer o que voc quer. Ele se transformou num
porco e grunhiu, berrou e roncou at que ela risse, e ento mudou para
um esquilo e correu por entre os ramos ao lado dela. -E voc, quem voc
acha que o pai dele ? -Pantalaimon quis saber. -Acha que  algum que
ns j conhecemos? -Podia ser. Mas deve ser algum importante, quase to
importante quanto Lorde Asriel. Tem que ser. Sabemos que o que ns
estamos fazendo  importante, afinal. -No sabemos, no -retorquiu
Pantalaimon. - Achamos que sabemos, mas no temos certeza. Simplesmente
resolvemos procurar o P porque o Roger morreu. #295 -Ns sabemos que 
importante, sim! -Lyra exclamou com veemncia, chegando abater o p no
cho. -E as bruxas tambm sabem. Elas viajaram at aqui para nos
procurar, s para tomar conta de mim e me ajudar! E temos que ajudar
Will a encontrar o pai dele. Isso  importante mesmo. Voc sabe que ,
seno no teria dado aquelas lambidas nele quando ele se feriu. Alis,
por que voc fez aquilo? Nem me perguntou se podia! No consegui
acreditar quando vi. -Fiz porque ele no tem daemon e estava precisando
de um. E se voc tivesse metade do talento que pensa que tem para
perceber as coisas, saberia disso. -No fundo eu sabia. Pararam de falar
porque alcanaram Will, que estava sentado numa pedra ao lado da trilha.
Pantalaimon transformou-se num papa-moscas e passou a voar no meio dos
galhos. Lyra perguntou: -Will, que ser que as crianas vo fazer agora?
-No vo nos seguir. Esto com muito medo das bruxas. Talvez continuem
por a, andando sem rumo. -, talvez... Mas podem querer usar a faca.
Podem vir atrs de ns. -Que venham. No vo conseguir. No princpio eu
no queria ficar com a faca. Mas se ela mata Espectros... -Nunca confiei
na Anglica, desde o princpio -Lyra afirmou virtuosamente. -Confiou,
sim -ele rebateu. -. Confiei mesmo... No fim eu estava odiando aquela
cidade. -Eu pensei que era o paraso, quando cheguei l. No podia
imaginar coisa melhor. E o tempo todo aquele lugar estava cheio de
Espectros, e agente nem sabia... #296 -Bom, no vou mais confiar em
crianas -Lyra declarou. -L em Bolvangar eu pensava que, por mais
maldades que os adultos fizessem, as crianas eram diferentes, no eram
capazes de tanta crueldade. Mas agora no tenho certeza. Nunca tinha
visto crianas como essas,  verdade. -Eu j -disse Will. -Quando? No
seu mundo? - -fez ele, embaraado. Lyra esperou, imvel, at que ele
continuou: -Foi quando a minha me estava tendo outra fase ruim. Ela e
eu, agente era s, entende, porque obviamente o meu pai no estava l. E
de vez em quando ela comeava a dizer coisas que no eram verdade. E de
vez em quando comeava a pensar coisas que no eram verdade. E tinha que
fazer coisas que no faziam sentido, pelo menos para mim. Quer dizer,
ela precisava fazer essas coisas, seno ficava to perturbada, com medo
de tudo, ento eu ajudava ela. Como tocar em todas as ripas da grade em
volta do parque, ou contar as folhas de um arbusto, esse tipo de coisa.
Depois de algum tempo ela melhorava. Mas eu tinha medo de algum
descobrir, porque achava que podiam levar ela, de modo que eu tomava
conta dela e escondia isso de todo mundo. Nunca contei a ningum. Uma
vez ela ficou com medo quando eu no estava. Eu estava na escola. E
ento ela saiu, estava quase sem roupa, s que no sabia disso. E alguns
meninos da minha escola, eles viram e comearam... Will tinha o rosto
vermelho. Sem conseguir controlar-se, ele comeou a andar de um lado
para outro, desviando os olhos de Lyra, porque tinha a voz instvel e os
olhos cheios d'gua. Mas prosseguiu: -Estavam atormentando ela,
igualzinho queles meninos na Torre com agata... Acharam que ela era
louca e queriam #297 machucar ela, talvez at matar, isso no seria
surpresa. Simplesmente ela era diferente, e eles tinham dio disso. De
qualquer maneira, eu encontrei ela e levei para casa. E no dia seguinte
na escola briguei com o garoto que era o lder da turma. Lutei com ele,
quebrei o brao dele e acho que alguns dentes tambm, no sei. E ia
brigar com o resto da turma, mas comecei a pensar e vi que era melhor
parar, porque, se as autoridades ou os professores ficassem sabendo, iam
procurar minha me para fazer queixa, e ento iam descobrir como ela era
elevar ela embora. Ento fingi que estava arrependido e disse aos
professores que no ia fazer de novo, eles me castigaram por ter brigado
e eu no disse nada. Mas minha me ficou em segurana, entende? Ningum
sabia, alm daqueles meninos, e eles sabiam o que eu faria se dissessem
alguma coisa; sabiam que um dia eu ia matar eles todos, no ia s
machucar. E logo depois ela melhorou outra vez. Ningum nunca ficou
sabendo. Mas depois disso deixei de confiar mais nas crianas do que nos
adultos. So igualmente maus. De modo que no fiquei surpreso quando
aquelas crianas de Ci'gazze fizeram aquilo. Ele tornou a se sentar, de
costas para Lyra. -Mas gostei quando as bruxas vieram -arrematou. Sem
olhar para Lyra, ele enxugou os olhos com a mo. Ela fingiu no
perceber. -Will, o que voc contou sobre a sua me... E Tullio, quando
os Espectros pegaram ele... E ontem, quando voc disse que achava que os
Espectros vieram do seu mundo... -. Porque no faz sentido, o que
estava acontecendo com ela. Ela no  louca. Aqueles meninos podiam
achar que ela era louca, zombar e querer machucar ela, mas estavam
enganados; ela no  louca. S que tinha medo de umas coisas que eu no
conseguia enxergar. E tinha que fazer coisas que #298 pareciam malucas,
eu no conseguia entender o motivo, mas obviamente ela entendia. Como
contar todas as folhas, feito o Tullio, ontem, tocando nas pedras do
muro. Talvez seja um modo de tentar afastar os Espectros. Se a pessoa
desse as costas a alguma coisa que a amedrontava e tentasse se
interessar realmente pelas pedras ou pelo desenho delas, ou pelas folhas
da rvore, se conseguisse achar que aquilo era realmente importante,
estaria segura. No sei. Parece isso. Mame tinha medo de coisas reais,
como aqueles homens que nos roubaram, mas havia mais alguma coisa. De
modo que talvez agente tenha Espectros no meu mundo, s que ningum
consegue ver, e ns no demos nome a eles, mas eles esto l, e no
param de tentar atacar a minha me. Foi por isso que fiquei contente
ontem, quando o aletmetro disse que ela est bem. Ele tinha a
respirao acelerada, a mo direita agarrada ao cabo da faca em sua
bainha. Lyra nada disse, e Pantalaimon ficou imvel. -Quando foi que
soube que tinha que ir procurar o seu pai? -ela perguntou depois de um
momento. -H muito tempo -ele contou. -Eu costumava fingir que ele
estava prisioneiro e eu ia ajudar ele a fugir. Brincava sozinho durante
horas, durante dias. Ou ento ele estava numa ilha deserta e eu ia at
l de barco e levava ele para casa. E ele ia saber exatamente o que era
preciso fazer, especialmente com a minha me, e ela ia melhorar e ele ia
cuidar dela e de mim, e eu ia poder simplesmente ir  escola e ter
amigos, e ia ter um pai e uma me. Ento eu sempre dizia para mim mesmo
que, quando crescesse, ia sair para procurar meu pai... E a minha me
costumava me dizer que eu ia portar o manto do meu pai. Ela dizia isso
para me deixar feliz. Eu no sabia o que isso queria dizer, mas parecia
importante. #299 -Voc no tinha amigos? -Como  que eu podia ter
amigos? -ele perguntou, realmente sem saber. -Amigos... Eles entram na
casa da gente, ficam conhecendo os pais da gente e... s vezes um garoto
me convidava para ir  casa dele, e eu at podia aceitar, mas nunca
poderia retribuir o convite. Ento nunca tive amigos. Eu gostaria... Eu
tinha a minha gata- continuou. -Espero que ela esteja bem. Espero que
algum esteja tomando conta dela... -E o homem que voc matou? -Lyra
perguntou, o corao batendo com fora. -Quem era? -No sei. Se matei,
no me importo. Ele merecia. Eram dois. Iam l em casa atormentar a
minha me at ela ficar com medo de novo, cada vez pior. Eles queriam
saber tudo sobre o meu pai, e no deixavam ela em paz. No sei se eram
policiais ou o que eram. No princpio pensei que faziam parte de uma
quadrilha de bandidos, que achavam que meu pai tinha roubado um banco,
talvez, e escondido o dinheiro. Mas eles no queriam dinheiro, queriam
papis. Queriam algumas cartas que o meu pai tinha mandado. Um dia
arrombaram a casa, e ento eu vi que seria mais seguro se a minha me
fosse para outro lugar. Entende, eu no podia ir pedir ajuda  polcia,
porque iriam levar minha me embora. Eu no sabia o que fazer. Will
parou de falar por um instante. -Finalmente procurei uma senhora que
tinha sido minha professora de piano -retomou. -Na hora s me lembrei
dela. Perguntei se a minha me podia ficar, e deixei ela l. Acho que
ela vai cuidar dela direito. De qualquer maneira, voltei para casa para
procurar as tais cartas, porque eu sabia onde elas estavam. Peguei as
cartas e os homens chegaram e tornaram a invadir a casa. Era de noite,
ou de madrugada. Eu #300 estava escondido no sto, e Moxie, a minha
gata Moxie, ela saiu do quarto sem eu ver, nem o homem viu, e quando
pulei em cima dele ele tropeou nela e rolou escada abaixo... e eu fugi
correndo. Foi o que aconteceu. Eu no pretendia matar ele, mas no me
importo se ele morreu. Fugi e vim para Oxford e encontrei aquela janela.
E isso tudo s aconteceu porque eu vi a outra gata e parei para ficar
olhando, e ela encontrou a janela primeiro. Se eu no tivesse visto
aquela gata... ou se Moxie no tivesse sado do quarto naquele
instante... -, foi sorte -comentou Lyra. -E eu e Pan estvamos pensando
agora mesmo: se eu no tivesse entrado no armrio da Sala Privativa da
Jordan e visto o Reitor colocar veneno no vinho, nada disso teria
acontecido, tambm... Ficaram ambos sentados em silncio na pedra
coberta de musgo, sob os raios oblquos do sol atravs dos velhos
pinheiros, pensando em quantos acontecimentos casuais nfimos tinham
conspirado para levar os dois at esse lugar. Cada um desses
acontecimentos casuais poderia ter tido um desfecho diferente. Talvez
outro Will, em outro mundo, no percebesse a janela na Avenida
Sunderland e sasse a vagar em direo s Midlands, perdido e exausto,
at ser apanhado. E em outro mundo, talvez outro Pantalaimon tivesse
convencido outra Lyra a no entrar na Sala Privativa, e outro Lorde
Asriel tivesse sido envenenado, e outro Roger tivesse sobrevivido para
brincar para sempre com aquela Lyra sobre os telhados e pelos becos de
uma Oxford diferente e imutvel. Finalmente Will estava suficientemente
descansado para continuar caminhando, e os dois seguiram viagem,
rodeados pelo silncio profundo da floresta. Viajaram durante todo o
dia; descansavam, avanavam, tornavam a descansar, enquanto as rvores
iam ficando mais #301 escassas e o terreno, mais pedregoso. Lyra
consultoU o aletmetro, que instruiu: continuem, esta  a direo
correta. Ao meio-dia chegaram a uma aldeia que os Espectros no
pertUrbavam: cabras pastavam nas encostas, uma plantao de limoeiros
jogava sombras no solo e algumas crianas que brincavam num riacho
correram para suas mes ao verem a menina de roupas esfarrapadas e o
menino de rosto plido e feroz e com a camisa suja de sangue, e mais o
elegante galgo que os acompanhava. Os adultos mostraram-se cautelosos,
mas dispostoS a vender-lhes po, queijo e frutas em troca de uma das
moedas de ouro de Lyra. As bruxas ficaram fora de vista, embora as duas
crianas soubessem que num segundo elas estariam ali se surgisse algum
perigo. Lyra, depois de muito pechinchar , conseguiu que uma anci lhes
vendesse dois cantis de pele de cabra e uma bela camisa de linho, pela
qual Will trocou com alvio a sua camiseta imunda, depois de se lavar no
riacho gelado e se deitar ao sol quente para secar. Refeitos, os dois
seguiram viagem. O terreno agora era mais inspito; sombra, s a das
rochas, pois no havia rvores, e o calor do solo atravessava a sola dos
sapatos. O sol doa-lhes nos olhos.  medida que subiam, os dois
avanavam cada vez mais devagar; quando o sol tOCOU na crista das
montanhas e eles viram um pequeno vale abrir-se a seus ps, resolveram
no ir mais longe. Desceram a encosta s pressas, quase perdendo o
equilbrio mais de uma vez, e depois tiveram que atravessar um campo de
rododendros-anes, as folhas escuras e brilhantes e os cachos de flores
carmim pesados com o zumbido das abelhas, antes de sarem para uma
campina aberta ao crepsculo, ao longo de um riacho. O solo ali era de
um capim que #302 chegava aos joelhos, pontilhado de centureas azuis,
gencianas e qinqeflios. Will bebeu bastante gua no riacho e depois
deitou-se. No conseguia ficar acordado e tampouco conseguia dormir; a
cabea girava, uma aura de estranheza rodeava todas as coisas, sua mo
doa e latejava. E, pior, tinha recomeado a sangrar. Serafina examinou
sua mo, colocou mais ervas sobre os ferimentos e apertou a atadura de
seda com mais fora, mas dessa vez tinha a fisionomia perturbada. Ele
no quis fazer perguntas, de que adiantaria? Era evidente que o feitio
no tinha funcionado, e ele se dava conta de que ela sabia disso tambm.
Assim que escureceu, ele sentiu Lyra vir deitar-se perto dele, e logo
ouviu um ronronar suave: o daemon dela, em forma de gato, cochilava com
as patas dobradas a menos de um metro dele, e Will sussurrou:
-Pantalaimon? O daemon abriu os olhos. Lyra no se mexeu. Pantalaimon
murmurou: -Sim? -Pan, eu vou morrer? -As bruxas no vo deixar voc
morrer. Lyra tambm no vai. -Mas o feitio no funcionou. Eu no paro
de perder sangue. No deve ter sobrado muito. E continua sangrando, no
quer parar. Estou com medo... -Lyra acha que voc no est. -Acha? -Ela
acha que voc  o guerreiro mais corajoso que ela j viu, to corajoso
quanto Iorek Byrnison. #303 -Ento  melhor eu tentar no fazer cara de
assustado -Will declarou. Depois de ficar em silncio por um instante,
continuou: -Acho que Lyra  mais corajosa que eu. Acho que  a melhor
amiga que eu j tive. -Ela pensa a mesma coisa de voc -cochichou o
daemon. Finalmente Will fechou os olhos. Lyra estava imvel, mas tinha
os olhos abertos na escurido, e o seu corao batia com fora. Quando
Will tornou a dar por si, estava completamente escuro, e sua mo doa
mais que nunca. Ele se sentou com cuidado e viu uma fogueira acesa no
muito longe, onde Lyra estava tentando tostar po num galho em
forquilha. Havia tambm alguns pssaros assando num espeto, e quando
Will se aproximou Serafina Pekkala pousou. -Will, coma estas folhas
antes de comer qualquer outra coisa. Deu-lhe um punhado de folhas de
sabor levemente amargo, um pouco parecido com salva, que ele mastigou em
silncio e forou-se a engolir. Eram ligeiramente picantes, mas ele se
sentiu melhor, mais desperto e menos friorento. Comeram os pssaros
assados, temperando-os com suco de limo; uma bruxa trouxe algumas
cerejas que ela havia encontrado, e ento as bruxas reuniram-se em volta
do fogo. Conversavam em voz baixa; algumas delas tinham voado bem alto,
para espionar, e uma tinha visto um balo sobre o mar. Lyra
endireitou-se no mesmo instante. -O balo do Sr. Scoresby? -quis saber .
-Havia dois homens nele, mas estavam distantes demais para eu distinguir
quem eram. Atrs deles estava se formando uma tempestade. #304 Lyra
bateu palmas. -Se o Sr. Scoresby est chegando, vamos poder voar , Will!
Ah, tomara que seja ele! Eu nem me despedi dele, e ele foi to bacana...
Queria ver ele de novo, queria mesmo... A bruxa Juta Kamainen estava
prestando ateno, com seu daemon-tordo de peito vermelho e olhos
brilhantes empoleirado em seu ombro, porque a meno de Lee Scoresby lhe
lembrara a busca que ele tinha partido para fazer. Ela era a bruxa que
tinha se apaixonado por Stanislaus Grumman, que desdenhara o seu amor -a
bruxa que Serafina Pekkala tinha trazido para este mundo para impedir
que ela o matasse em seu prprio mundo. Serafina poderia ter percebido,
mas aconteceu alguma coisa; ela ergueu a mo e a cabea, assim como
todas as outras bruxas. Will e Lyra escutavam muito vagamente, vindo do
norte, o grito de um pssaro noturno. Mas no era um pssaro comum: as
bruxas reconheceram instantaneamente um daemon. Serafina Pekkala
levantou-se, olhando atentamente para o cu. -Acho que  Ruta Skadi
-disse. Ficaram imveis, as cabeas de lado, voltadas para o grande
silncio, esforando-se para ouvir . Veio ento outro grito, j mais
perto, e ento um terceiro; diante disso, todas as bruxas pegaram seus
galhos e saltaram para o ar -exceto duas, que ficaram bem prximas,
flechas preparadas nos arcos, protegendo Will e Lyra. Em algum lugar na
escurido l em cima havia uma batalha. E pareceu-lhes ter-se passado
apenas um instante quando ouviram sons de luta, assobios de flechas e
gritos de dor, de raiva ou de comando. E ento, com um estrondo to
sbito que eles no tiveram tempo de saltar para trs, uma criatura caiu
do cu a seus ps: #305 um animal de pele semelhante a couro e pelagem
encardida, que Lyra reconheceu como um avantesma-do-penhasco ou algo
semelhante. O animal tinha sofrido na queda, e tinha uma flecha enfiada
no flanco, mas virou-se e tentou atacar Lyra com malcia. As bruxas no
podiam atirar porque Lyra estava na linha de fogo; mas Will chegou
primeiro, e com a faca cortou fora a cabea da criatura, que rolou para
longe; o ar que ainda havia nos pulmes da fera escapou com um som
borbulhante, e ela caiu morta. Eles tornaram a olhar para o cu, pois a
batalha agora se desenrolava mais perto do solo, e a luz da fogueira
mostrava redemoinhos de seda negra, membros plidos, ramos verdes de
pinheiro-nubgeno, couro descamado, marrom-acinzentado. Como as bruxas
conseguiam manter o equilbrio durante as manobras sbitas, e ainda por
cima fazer pontaria e atirar, era algo acima da compreenso de Will.
Outro avantesma caiu, depois um terceiro caiu no riacho ou nas pedras
prximas; e ento o resto do bando fugiu ruidosamente para a escurido
em direo ao norte. Momentos depois, Serafina Pekkala pousou com suas
bruxas e com mais uma: uma linda mulher de olhos ferozes e cabelos
negros, as mas do rosto ruborizadas de raiva e excitao. Essa bruxa
viu o avantesma sem cabea e cuspiu. -No vem do nosso mundo, nem deste
-declarou. -Abominaes nojentas. Existem milhares delas,
reproduzindo-se como moscas... Quem  esta menina,  a Lyra? E o menino,
quem ? Lyra devolveu-lhe o olhar impassvel, embora sentisse o corao
bater mais depressa, pois os nervos de Ruta Skadi #306 vibravam to
intensamente que provocavam um frmito nos nervos de qualquer pessoa que
chegasse perto dela. Ento a bruxa voltou-se para Will, que sentiu o
mesmo frmito de intensidade, mas como Lyra ele controlou sua expresso.
Ainda tinha a faca na mo; a bruxa viu o que ele tinha feito usando a
faca, e sorriu. Ele a enfiou na terra para limp-la do sangue da
criatura imunda e depois lavou-a no riacho. Ruta Skadi dizia: -Serafina
Pekkala, estou aprendendo muito; todas as coisas antigas esto mudando,
ou morrendo, ou vazias. Estou com fome... Ela comeu como um animal,
roendo o que sobrara dos pssaros assados e enfiando punhados de po na
boca, com a ajuda de grandes goles de gua do riacho. Enquanto ela se
alimentava, algumas bruxas carregaram para longe o corpo do avantesma e
refizeram a fogueira, depois montaram turnos de vigia. As outras vieram
sentar-se perto de Ruta Skadi, para escutar o que ela ia comear a
contar. A bruxa narrou o que acontecera depois que ela partiu voando
atrs dos anjos e a sua viagem at a fortaleza de Lorde Asriel. -Irms,
 o maior castelo que se pode imaginar. Muralhas de basalto chegando at
o cu, estradas largas descendo de todas as direes, por onde chegam
carregamentos de plvora, comida, placas de armadura; como ele conseguiu
isso? Acho que deve ter passado vrios anos, vrias eras, fazendo
preparativos. Ele vem preparando isso tudo desde antes de ns termos
nascido, irms, embora seja to mais jovem... Mas como pode ser isso?
No sei. No consigo entender. Acho que ele comanda o tempo, faz o tempo
andar depressa ou devagar, conforme a sua vontade. Depois de um silncio
ela continuou: #307 -Nessa fortaleza esto chegando guerreiros de todo
tipo, de todos os mundos. Homens e mulheres, sim, e espritos guerreiros
tambm, e criaturas armadas que eu nunca tinha visto. Lagartos e
macacos, e grandes pssaros com esporas venenosas, criaturas estranhas
demais para ter um nome que eu conseguisse adivinhar. E outros mundos
tm bruxas, sabiam disso, irms? Falei com bruxas que vieram de um mundo
como o nosso, mas profundamente diferente, pois aquelas bruxas no vivem
mais do que os nossos vidas-curtas, e havia homens, tambm, bruxos que
voam como ns... As bruxas do cl de Serafina Pekkala ouviam esse relato
com assombro, medo e incredulidade. Mas Serafina acreditava, e insistiu
para que Ruta Skadi continuasse. -Viu Lorde Asriel, Ruta Skadi?
Conseguiu chegar at ele? -Sim, consegui, e no foi fcil, pois ele vive
no centro de muitos crculos de atividade, e dirige todos eles. Mas
fiquei invisvel e consegui chegar ao aposento privativo dele, onde ele
estava se preparando para dormir . Todas as bruxas sabiam o que tinha
acontecido em seguida, mas nem Will, nem Lyra sonhavam com isso. De modo
que Ruta Skadi no viu necessidade de contar, e continuou: -Ento eu lhe
perguntei por que estava reunindo todas aquelas foras, e se era verdade
o que ouvimos sobre o seu desafio  Autoridade, e ele riu. Ele me
perguntou: ento falam disso na Sibria? E eu disse que sim, e em
Svalbard e em todas as regies do Norte, o nosso Norte; e contei sobre o
nosso pacto, e que eu tinha deixado o nosso mundo para procurar por ele.
E ento nos convidou para nos juntarmos a ele, irms. Para integrarmos o
seu exrcito contra a Autoridade. Eu desejava de todo o corao poder
nos comprometer a todas naquele momento; teria jogado o meu cl na
guerra com o corao satisfeito. #308 Ele me mostrou que a rebelio era
certa e justa, diante das coisas que os agentes da Autoridade fizeram em
nome dela... E pensei nas crianas de Bolvangar, e nas outras mutilaes
terrveis que vi nas nossas prprias terras meridionais; ele me contou
muitas outras crueldades feitas em nome da Autoridade. Em alguns mundos
eles capturam as bruxas e as queimam vivas, irms, sim, bruxas como
ns... Ela olhou em volta e prosseguiu: -Ah, irms, eu queria me lanar
nessa guerra com todo o meu cl! Mas sabia que devia consult-la
primeiro, Serafina Pekkala, e depois voar de volta ao nosso mundo e
conversar com Ieva Kasku, Reina Miti e as outras bruxas-rainhas. Ento
fiquei invisvel, peguei meu pinheiro-nubgeno e parti. Mas, antes de ir
muito longe, surgiu um grande vento que me jogou para o alto das
montanhas, e tive que me refugiar no topo de um penhasco. Conhecendo o
tipo de criaturas que vivem nos penhascos, tornei a ficar invisvel, e
escutei vozes na escurido. Parece que eu tinha ido parar no lugar onde
ficava o ninho do mais velho de todos os avantesmas-dos-penhascos. Ele
era cego, e os outros lhe traziam comida, carnia fedorenta, l do vale.
E lhe pediam orientao. Perguntavam e ele respondia: "Vov, at onde
vai a sua memria?" "At bem longe. Muito antes dos humanos", ele
respondeu. Tinha a voz baixa, frgil e alquebrada. " verdade que a
maior batalha de todas est para acontecer, vov?" ", sim, crianas.
Uma batalha maior do que a ltima. Um belo banquete para todos ns.
Sero dias de prazer e abundncia para todos os avantesmas de todos os
mundos." "E quem vai vencer, vov? Lorde Asriel vai derrotar a
Autoridade?" #309 "O exrcito de Lorde Asriel tem milhes de soldados,
vindos de todos os mundos", contou o velho avantesma. " um exrcto
maior do que aquele que lutou contra a Autoridade da ltima vez, e 
melhor dirigido. Quanto s foras da Autoridade, ora, elas so 100 vezes
maiores. Mas a Autoridade  muito velha, at muito mais velha do que eu,
crianas, e seus soldados esto assustados, ou ento complacentes. Seria
uma luta difcil, mas Lorde Asriel venceria, pois  apaixonado e
corajoso, e acredita que sua causa seja justa. Mas h uma coisa,
crianas. Ele no tem sahttr. Sem sahttr, ele e os seus exrcitos
sero derrotados. E ento vamos nos banquetear durante anos, minhas
crianas!". Ele riu e comeou a roer o osso fedorento que os outros
tinham levado, e todos guincharam de alegria. Ora, vocs podem imaginar
como eu me esforcei para escutar mais coisas sobre esse tal sahttr,
mas s conseguia ouvir o uivo do vento e um avantesma novinho
perguntando: "Se Lorde Asriel precisa de sahttr, por que no chama?".
E o velho avantesma respondeu: "Lorde Asriel sabe tanto quanto voc
sobre sahttr, criana! Esta  a piada! Pode rir bastante!" Ruta Skadi
mais uma vez olhou em volta. -Mas quando tentei chegar mais perto
daquelas coisas imundas, meu poder falhou, irms, no consegui ficar
invisvel por mais tempo. Os mais jovens me viram e deram o alarme, e
tive que fugir de volta para este mundo atravs da porta invisvel no
cu. Um bando deles veio atrs de mim, e aqueles corpos ali so os
ltimos. Mas  evidente que Lorde Asriel precisa de ns, irms. Seja
quem for esse sahttr, Lorde Asriel precisa de ns! Eu gostaria de
voltar a Lorde Asriel agora e dizer: no se preocupe, ns estamos
chegando, ns, as bruxas do Norte, vamos ajud-lo a vencer... Vamos
resolver isso agora, #310 Serafina Pekkala, vamos convocar um grande
conselho de todas as bruxas, de todos os cls, e guerrear! Serafina
Pekkala olhou para Will, que sentiu que ela lhe pedia permisso para
alguma coisa. Mas no sabia o que responder, e ela olhou de volta para
Ruta Skadi. -Ns, no-afirmou.-A nossa misso agora  ajudar Lyra, e a
misso dela  guiar Will at o pai dele. Voc deve voltar para l,
concordo, mas ns devemos ficar com Lyra. Ruta Skadi fez um gesto de
impacincia com a cabea. -Bom, se  preciso... -resmungou. Will
deitou-se, porque o ferimento estava doendo, muito mais do que no
incio. A mo inteira estava inchada. Lyra deitou-se tambm, com
Pantalaimon enrodilhado junto ao seu pescoo, e ficou contemplando o
fogo atravs das plpebras semicerradas, escutando, sonolenta, o
murmrio das bruxas. Ruta Skadi avanou um pouco riacho acima, e
Serafina Pekkala acompanhou-a. -Ah, Serafina Pekkala, voc devia ver
Lorde Asriel - disse baixinho a rainha da Ltvia. - o maior comandante
que j existiu. Tem cada detalhe bem ntido no crebro. Imagine quanta
ousadia, entrar em guerra contra o criador? Mas quem voc acha que pode
ser esse sahttr? Como  que nunca ouvimos falar dele? E como podemos
convenc-lo a se juntar a Lorde Asriel? -Talvez no seja "ele", irm.
Sabemos to pouco quanto o avantesma novinho. Talvez o av estivesse
zombando da ignorncia dele. Essa palavra parece significar
destruidor-de-deus, sabia disso? -Ento pode ser que sejamos ns,
Serafina Pekkala! E se formos, ento o exrcito dele ficar muito mais
forte com a nossa presena. Ah, que vontade de ver minhas flechas
matando #311 aqueles malvados de Bolvangar e de todas as Bolvangares em
todos os mundos! Irm, por que fazem isso? Em todos os mundos os agentes
da Autoridade esto sacrificando crianas ao seu deus cruel! Por qu?
Por qu? -Tm medo do P -disse Serafina Pekkala. -Mas no sei o que 
isso. -E esse menino que voc encontrou, quem ? De que mundo ele veio?
Serafina Pekkala contou-lhe tudo que sabia sobre Will. -No sei por que
ele  importante -concluiu. -Mas ns servimos a Lyra. E o instrumento
dela lhe diz que a misso dela  esta. E, irm, tentamos curar o
ferimento dele, mas fracassamos. Tentamos o feitio da coagulao, e no
funcionou. Talvez as ervas neste mundo sejam menos potentes do que as
nossas. Aqui  quente demais para o musgo-de-sangue crescer... -Ele 
estranho -Ruta Skadi comentou. - do mesmo tipo de Lorde Asriel. J
olhou bem nos olhos dele? -Para falar a verdade, no tive coragem
-confessou Serafina Pekkala. As duas rainhas sentaram-se em silncio
junto ao riacho. O tempo passou; algumas estrelas desapareceram, outras
nasceram. Algum soltou um gritinho enquanto dormia: era Lyra, sonhando.
As bruxas ouviram o ronco de uma tempestade e viram os raios sobre o mar
e o sop das montanhas, porm muito distante. Mais tarde Ruta skadi
perguntou: -E a menina Lyra, qual  o papel dela?  s esse? Ela 
importante porque pode levar o garoto at o pai?  mais que isso, no ?
-Isso  o que ela tem que fazer agora. Mas depois, sim, muito mais que
isso. O que ns, bruxas, dissemos sobre a #312 criana  que ela deveria
colocar um fim no destino. Bem, ns conhecemos o nome que iria torn-la
importante para a Sra. Coulter, e sabemos que a mulher no o conhece. A
bruxa que ela estava torturando no navio perto de Svalbard quase disse
qual era, mas Yambe-Akka chegou a tempo. Mas agora estou achando que
Lyra pode ser aquilo que voc ouviu os avantesmas falando, esse tal
sahttr. Nem as bruxas, nem aqueles seres-anjos, mas esta criana
adormecida: a arma definitiva numa guerra contra a Autoridade. Por que
mais a Sra. Coulter ficaria to ansiosa para encontr-la? -A Sra.
Coulter foi amante de Lorde Asriel -informou Ruta Skadi. -Claro, Lyra 
filha deles... Serafina Pekkala, se eu tivesse uma filha com ele, que
bruxa seria ela! A rainha das rainhas! -Psiu, irm -fez Serafina.
-Escute... E que luz  aquela? Elas ficaram de p, alarmadas, imaginando
se alguma coisa teria passado despercebida por elas, e viram um brilho
de luz vindo do local do acampamento: no era a fogueira, no tinha a
menor semelhana com a luz do fogo. Correram de volta sem fazer rudo,
as flechas j preparadas nos arcos, e estacaram derrepente. Todas as
bruxas dormiam na relva, assim como Will e Lyra. Mas em volta das duas
crianas havia mais de uma dzia de anjos, olhos baixos, a
contempl-las. E ento Serafina entendeu algo para o qual as bruxas no
tinham uma palavra: era a idia de uma peregrinao. Ela compreendeu por
que aqueles seres esperavam milhares de anos e viajavam longas
distncias para ficarem perto de alguma coisa importante, e que da em
diante seus sentimentos seriam diferentes at o final dos tempos, por
terem estado por um #313 instante na presena dessa coisa. Era o que
aquelas criaturas agora simbolizavam, aqueles belos peregrinos de luz
rarefeita, postados em volta da menina de rosto sujo e saia escocesa e o
menino de mo machucada que franzia a testa enquanto dormia. Algo se
mexeu junto ao pescoo de Lyra: Pantalaimon, um arminho branco como a
neve, abriu os olhos negros sonolentamente e olhou em volta sem medo.
Mais tarde Lyra iria lembrar-se disso como se fosse um sonho.
Pantalaimon pareceu aceitar aquela ateno como algo a que Lyra tinha
direito; depois de algum tempo, enrodilhou-se e fechou os olhos
novamente. Finalmente uma das criaturas abriu as asas. As outras, embora
bem prximas umas das outras, fizeram a mesma coisa, e suas asas se
interpenetravam sem resistncia, passando uma pela outra como luz
passando atravs de outra luz, at que havia um crculo radiante em
volta das crianas adormecidas na relva. Ento os seres alaram vo, um
de cada vez, erguendo-se como labaredas no cu e aumentando de tamanho,
at ficarem imensos; mas ento j estavam distantes, movendo-se como
estrelas cadentes em direo ao Norte. Serafina e Ruta Skadi saltaram
sobre seus galhos de pinheiro-nubgeno e seguiram-nos para o alto, mas
ficaram para trs. -Eram como as criaturas que voc viu, Ruta Skadi? -
Serafina perguntou, tendo as duas diminudo a velocidade do vo para
contemplar as labaredas brilhantes diminurem em direo ao horizonte.
-Maiores, eu acho, mas da mesma espcie. No tm carne, voc viu? So
feitos s de luz. Seus sentidos devem ser #314 to diferentes dos
nossos... Serafina Pekkala, vou deix-la agora, para reunir todas as
bruxas do nosso norte. Quando nos encontrarmos outra vez, ser tempo de
guerra. Fique bem, minha querida... Abraaram-se em pleno ar, e Ruta
Skadi virou e partiu clere para o Sul. Serafina ficou a observ-la,
depois virou-se para ver os anjos cintilantes desaparecerem de vez na
distncia. Sentia apenas compaixo por aqueles imensos vigilantes.
Quanta coisa eles deviam perder, nunca sentir aterra sob os ps ou o
vento nos cabelos ou o arrepio que a luz das estrelas provocava na pele
nUa! E ela partiu um raminho do galho de pinheiro-nubgeno no qual voava
e aspirou com guloso prazer o aroma acre da resina, antes de baixar
lentamente para juntar-se s companheiras adormecidas na relva. #315 14
A RAVINA DO LAMO Lee Scoresby baixou os olhos para o plcido oceano 
sua esquerda, a costa verde  sua direita, e protegeu os olhos da luz
para procurar sinais de vida humana. Tinham se passado um dia e uma
noite desde que eles deixaram o Yenisei. -E este  um novo mundo?
-perguntou. -Novo para aqueles que no nasceram nele -respondeu
Stanislaus Grumman. -To velho quanto o seu ou o meu. O que Asriel fez
bagunou tudo, Sr. Scoresby, mais profundamente do que jamais aconteceu
antes. Essas portas e janelas de que falei, elas agora se abrem para
locais inesperados. A orientao  difcil, mas o vento est bom. -Novo
ou velho, este mundo a embaixo  estranho - tornou Lee. -, sim.  um
mundo estranho, embora sem dvida certas pessoas se sintam em casa aqui.
-Parece deserto -Lee comentou. -Mas no . Atrs daquela ponta de terra
existe uma cidade que j foi rica e poderosa. E ainda  habitada pelos
#316 descendentes dos mercadores e nobres que a construram, embora ela
tenha entrado em decadncia h 300 anos... Minutos depois,  medida que
o balo avanava, Lee avistou primeiro um farol, depois a curva de um
quebra-mar de pedra, depois as torres, os domos e os telhados
marrom-avermelhados de uma linda cidade em torno de um porto, um prdio
suntuoso, como um teatro, e belos jardins e avenidas largas, com hotis
elegantes e ruelas onde rvores carregadas orlavam sacadas sombreadas. E
Grumman tinha razo: havia gente ali. Mas ao se aproximarem, Lee
surpreendeu-se ao constatar que se tratava de crianas. No havia um s
adulto  vista. As crianas estavam brincando na praia ou entrando e
saindo de cafs e bares, ou comendo e bebendo, ou recolhendo sacolas de
objetos das casas e das lojas. E havia um grupo de meninos brigando, e
uma menina ruiva incentivando abriga, e um menininho jogando pedras,
tentando quebrar todas as vidraas de um prdio prximo. Era como um
playground do tamanho de uma cidade, sem um nico professor  vista -um
mundo infantil. Mas aquelas no eram as nicas presenas ali. Lee teve
que esfregar os olhos quando os viu, mas no havia dvida: colunas de
nvoa, ou algo mais tnue do que a nvoa, um espessamento do ar...
Fossem o que fossem, a cidade estava cheia deles; deslizavam ao longo
das avenidas, entravam nas casas, juntavam-se nas praas. As crianas
andavam entre eles sem os ver . Mas no sem serem vistas. Quanto mais
voavam para o centro da cidade, mais Lee podia observar o comportamento
daquelas figuras. E era evidente que elas se interessavam por algumas
crianas, e seguiam algumas por toda parte: as mais #317 velhas, aquelas
que (pelo que Lee podia ver atravs do telescpio) estavam s portas da
adolescncia. Havia um menino, alto, magro, de cabelos negros, que
estava to rodeado pelos seres transparentes que seu prprio contorno
parecia desfocado. Eram como moscas em volta da carne. E o menino no
tinha idia disso, embora de vez em quando esfregasse os olhos ou
sacudisse a cabea como se quisesse clarear a viso. -Que coisas so
aquelas? -Lee quis saber. -As pessoas as chamam de Espectros. -O que 
que eles fazem, exatamente? -J ouviu falar de vampiros? -Ah, as lendas.
-Assim como os vampiros se alimentam de sangue, os Espectros se
alimentam de ateno, de um interesse consciente e informado. A
imaturidade das crianas no os atrai tanto. -Ento so o oposto
daqueles demnios em Bolvangar. -Pelo contrrio. Tanto o Conselho de
Oblao quanto os Espectros da Indiferena esto enfeitiados por esta
verdade a respeito dos seres humanos: a inocncia  diferente da
experincia. O Conselho da Oblao teme e odeia o P, e os Espectros se
alimentam dele, mas ambos so obcecados por ele. -Esto cercando aquele
menino ali... -Ele est crescendo. Logo ser atacado, e a sua vida ser
transformada num sofrimento vazio e indiferente. Ele est condenado.
-Pelo amor de Deus! No podemos fazer nada? -No. Os Espectros nos
agarrariam na mesma hora. Aqui em cima no podem nos alcanar; tudo que
podemos fazer  observar e seguir viagem. -Mas onde esto os adultos?
No me diga que este mundo inteiro est cheio s de crianas? #318
-Estas crianas so rfs, seus pais foram atacados pelos Espectros.
Existem muitos bandos delas neste mundo. Elas vagueiam por a, vivendo
daquilo que encontram quando os adultos fogem. E, como voc pode ver,
existe muita coisa  disposio delas. Elas no passam fome. Parece que
um bando de Espectros invadiu esta cidade, e os adultos fugiram para
algum lugar seguro; percebeu como h poucos barcos no porto? As crianas
no correm perigo. -A no ser as mais velhas. Como aquele menino ali
embaixo, coitado. -Sr. Scoresby,  assim que este mundo funciona. E se
quiser acabar com a crueldade e a injustia, precisa me levar mais
longe. Tenho um trabalho afazer . -Me parece... -comeou Lee, procurando
as palavras. -Me parece que o lugar de combater a crueldade  onde ela
est, e...o lugar onde se presta socorro  onde ele  necessrio. Ou
estou enganado, Dr. Grumman? Sou apenas um aeronauta ignorante. Sou to
ignorante que acreditei quando me disseram que os xams tm o dom de
voar, por exemplo. No entanto, aqui est um xam que no tem esse dom.
-Ah, mas eu tenho, sim. -Como assim? -Eu precisava voar, de modo que
convoquei voc e aqui estou, voando -disse Grumman. O balo voava mais
baixo, o solo estava mais perto. Uma torre de pedra erguia-se
diretamente no caminho deles, e Lee parecia no ter percebido. Grumman
estava inteiramente consciente do perigo que corriam, mas evitou
insinuar que o aeronauta no estava. E, no momento apropriado, Lee
Scoresby inclinou-se por cima da borda da cesta e puxou acorda de um dos
sacos de lastro. A areia escorreu, e o balo ergueu-se #319 suavemente,
passando por cima da torre a uns dois metros de distncia. Algumas
gralhas, alvoroadas, revoaram aos guinchos em volta deles. -, est
mesmo -disse Lee. -O senhor tem um jeito estranho, Dr. Grumman. J teve
contato com as bruxas? -J, sim -disse Grumman. -E com Catedrticos, e
com espritos. Encontrei loucura em toda parte, mas havia gros de
sabedoria em todos os casos de loucura. Sem dvida havia muito mais
sabedoria do que eu consegui reconhecer. A vida  dura, Sr. Scoresby,
mas mesmo assim nos agarramos a ela. -E esta viagem,  loucura ou
sabedoria? -A maior sabedoria que conheo. -Conte-me outra vez qual  o
seu propsito: vai encontrar o portador da faca mgica, e depois?
-Revelar-lhe qual  a sua tarefa. -Uma tarefa que inclui proteger Lyra-
o aeronauta lembrou. -Vai proteger ns todos. O vo prosseguia, e logo a
cidade tinha ficado para trs. Lee verificou seus instrumentos. A
bssola ainda girava sem parar, mas o altmetro estava funcionando
corretamente, pelo que ele podia julgar, e mostrava que estavam
flutuando cerca de 300 metros acima da costa, paralelos a ela.  frente,
uma cadeia de altas montanhas verdes erguia-se para dentro da nvoa, e
Lee sentiu alvio por ter providenciado bastante lastro. Mas quando
examinou o horizonte ele sentiu o corao dar um salto. Hester sentiu o
mesmo e sacudiu as orelhas, girando a cabea para olhar para o rosto
dele com um olho castanho-dourado. Ele a pegou e a enfiou dentro do
casaco, e tornou a abrir o telescpio. #320 No. no tinha se enganado.
Ao sul (se a direo de onde vinham era realmente o sul) outro balo
flutuava na neblina. A distncia e a distoro do calor impossibilitavam
que ele distinguisse qualquer detalhe, mas o outro balo era maior e
voava mais alto. Grumman tambm o vira. -Inimigos, Sr. Scoresby?
-perguntou, protegendo os olhos para perscrutar a luz nacarada. -Sem
dvida. No sei se solto lastro e subo, para pegar um vento mais rpido,
ou continuo voando baixo e fico menos visvel. Ainda bem que aquela
coisa no  um zepelim, seno poderia nos alcanar em poucas horas. No.
droga, Dr. Grumman. vou subir, porque se eu estivesse naquele balo j
teria visto este aqui. e aposto que eles enxergam bem. Ele tornou a
colocar Hester no cho e inclinou-se para soltar trs sacos de lastro. O
balo subiu imediatamente, e Lee manteve o telescpio pregado no olho. E
no minuto seguinte ele teve certeza de ter sido avistado, pois houve um
movimento na nvoa que se transformou numa linha de fumaa subindo e se
afastando em diagonal do outro balo; e quando chegou a certa altura, a
fumaa explodiu em luz. Durante um instante ela brilhou em vermelho,
depois diminuiu para uma fumaa cinzenta, mas era um sinal to claro
quanto um sino de alarme tocando na noite. -Pode invocar uma brisa mais
forte, Dr. Grumman? Eu gostaria de chegar quelas montanhas antes de
escurecer -pediu Lee. Pois agora afastavam-se da costa, e seu curso os
levava sobre uma grande baa, de uns 50 quilmetros de extenso. As
montanhas erguiam-se do outro lado, e agora que tinha ganho altura, Lee
viu que eram realmente imensas. #321 Virou-se para Grumman, mas este
estava em transe profundo. O xam tinha os olhos fechados, e gotas de
suor surgiam em sua testa, enquanto ele se balanava suavemente para a
frente e para trs. Da garganta saa-lhe um gemido baixo e ritmado, e
seu daemon, igualmente em transe, agarrava-se  borda da cesta. Fosse
resultado da maior altura, fosse resultado do feitio do xam, uma brisa
alcanou o rosto de Lee. Ele ergueu os olhos para verificar o balo
propriamente dito e viu que se inclinava um ou dois graus na direo das
montanhas. Mas a brisa que os impulsionava estava impulsionando o outro
balo tambm. Ele no estava mais perto, porm tambm no estava mais
longe. E quando Lee virou o telescpio naquela direo, avistou atrs
dele formas menores e mais escuras. Estavam agrupadas de maneira
organizada, e a cada minuto ficavam mais slidas e ntidas. -Zepelins
-ele identificou. -Bem, no temos onde nos esconder. Ele tentou calcular
a distncia dos zepelins e das montanhas para onde estavam voando. Sua
velocidade certamente era maior agora, e a brisa erguia franjas brancas
l embaixo nas ondas do mar . Grumman descansava num canto da cesta,
enquanto seu daemon penteava as penas com o bico. Ele tinha os olhos
fechados, mas Lee sabia que estava acordado. -A situao  a seguinte,
Dr. Grumman: no quero ser apanhado no ar por aqueles zepelins. No h
defesa; eles nos derrubariam num minuto. Tambm no quero pousar na
gua, por escolha ou no; poderamos flutuar por algum tempo, mas eles
nos pegariam com granadas como quem pesca um peixe. De modo que quero
chegar at aqueles montes e pousar l. Estou vendo uma floresta; podemos
nos esconder entre as #322 rvores por algum tempo, talvez por muito
tempo. Enquanto isso, o sol est descendo. Faltam umas trs horas para o
pr-do-sol, pelos meus clculos.  difcil dizer, mas acho que a essa
hora os zepelins j tero diminudo pela metade a distncia entre ns, e
j deveremos ter chegado ao outro lado desta baa. Portanto, entenda o
que estou querendo dizer: vou nos levar para aquelas montanhas e ento
pousar, pois qualquer outra coisa ser morte certa. Eles j devem ter
feito a ligao entre o anel que eu mostrei e o escraelingue que matei
em Nova Zembla, e no esto atrs de ns com tanto empenho s para nos
dizer que esquecemos a carteira em cima do balco. De modo que este vo
termina hoje, no sei quando. J pousou de balo? -No, mas confio na
sua habilidade -afirmou o xam. -Vou tentar chegar o mais alto possvel.
 uma questo de equilbrio, pois quanto mais voarmos, mais perto eles
estaro de ns. Se eu pousar com eles muito perto, eles podero ver onde
pousamos, mas se eu pousar cedo demais, no conseguiremos nos abrigar
nas rvores. De qualquer maneira, no vai demorar para haver tiroteio.
Grumman, impassvel, jogava de uma mo para a outra um instrumento de
magia feito de penas e contas, de um determinado jeito no qual Lee
distinguia um certo propsito. Os olhos de seu daemon no abandonavam os
zepelins que os perseguiam. Passou-se uma hora, e mais outra. Lee
mastigava um charuto apagado e bebericava caf frio de um frasco de
lata. O sol baixou no cu atrs deles, e Lee via a longa sombra da noite
avanar pela praia da baa e subir as encostas mais baixas das montanhas
 frente, enquanto o prprio balo e o topo das montanhas estavam
banhados de dourado. E atrs deles, quase perdidas no brilho do poente,
as manchinhas dos zepelins ficavam maiores e mais ntidas. Eles #323 j
tinham ultrapassado o outro balo, e podiam ser vistos a olho nu: quatro
zepelins, lado a lado. E atravs do amplo silncio da baa veio o som
dos seus motores, baixo, porm ntido -um insistente zumbido de
mosquito. Quando faltavam alguns minutos para chegarem acima da praia no
sop das montanhas, Lee percebeu uma novidade no cu, atrs dos
zepelins: um banco de nuvens vinha crescendo e uma imensa nuvem de
tempestade subia milhares de metros no cu, ainda claro l em cima. Como
ele pde no ter percebido? Se uma tempestade era iminente, quanto mais
cedo pousassem, melhor seria. Ento uma cortina verde-escura de chuva
desabou da nuvem, e a tempestade parecia estar perseguindo os zepelins
como estes perseguiam o balo de Lee, pois a chuva vinha do mar em sua
direo; quando o sol finalmente desapareceu, veio das nuvens um
fortssimo claro e, segundos depois, o estrondo de um trovo to alto
que sacudiu por inteiro o balo de Lee e ecoou durante longo tempo nas
montanhas. Houve ento outro relmpago, que dessa vez desceu das nuvens
diretamente sobre um dos zepelins. No mesmo instante o gs incendiou-se:
uma brilhante flor de fogo desabrochou contra as nuvens escuras, e a
embarcao comeou a cair lentamente, em chamas, como uma rocha, e ficou
flutUando no mar. Lee soltou a respirao. Grumman estava de p a seu
lado, uma das mos na borda da cesta, o rosto marcado de rugas de
cansao. -Foi o senhor quem trouxe a tempestade? -Lee perguntou. Grumman
assentiu. O cu agora tinha o colorido de um tigre: listras douradas
alternavam-se com manchas e mais listras marrom-escuras, e #324 o
desenho mudava a cada minuto, pois o dourado desaparecia rapidamente,
engolido pelo marrom. O mar era uma colcha de retalhos de gua escura e
espuma fosforescente, e as derradeiras labaredas do zepelim em chamas
minguavam, para finalmente desaparecerem quando ele afundou. No entanto,
os outros trs continuavam a perseguio, maltratados pela tempestade,
porm mantendo o rumo. Em volta deles os relmpagos se multiplicaram, e,
 medida que a tempestade se aproximava, Lee comeou a temer pelo gs de
seu prprio balo: um raio iria derrub-lo no solo, em chamas, e ele no
imaginava que o xam teria tanto controle sobre a tempestade aponto de
evitar isso. -Certo, Dr. Grumman, por enquanto vou ignorar aqueles
zepelins e me concentrar em nos levar em segurana para as montanhas e
pousar por l. Quero que o senhor se sente e se segure bem, e fique
preparado para saltar quando eu mandar. Vou dar um aviso e vou tentar
pousar o mais suavemente possvel, mas o pouso nessas condies  tanto
uma questo de sorte quanto de habilidade. -Confio em voc, Sr.
Scoresby- afirmou o xam. Ele foi se recostar num canto da cesta
enquanto seu daemon empoleirou-se na borda, as garras enfiadas nas
cordas de couro. O vento agora soprava forte sobre eles, e o grande
balo sacudia-se e se inclinava. Os cabos estalavam, forados, mas Lee
no temia que eles cedessem. Soltou um pouco mais de lastro, observando
atentamente o altmetro. Numa tempestade, quando a presso do ar caa,
era preciso levar em conta essa queda ao fazer a leitura do altmetro,
que muitas vezes permitia apenas um clculo aproximado. Lee verificou e
tornOU a verificar as cifras, e ento soltou seu ltimo lastro. #325 o
nico controle que tinha agora era a vlvula do gs. No poderia subir
mais; poderia apenas descer . Perscrutou atentamente o ar tempestuoso e
distinguiu o vulto das grandes montanhas escuras contra o cu nublado.
De baixo vinha um som como ondas batendo numa praia de pedras, mas ele
sabia que era o vento passando com fora pela folhagem das rvores.
Ento j estavam ali! Viajavam mais depressa do que ele tInha ImagInado.
E ele no devia demorar muito para pousar. Lee era tranqilo demais por
natureza para vociferar contra o destino; sua reao era erguer uma
sobrancelha e aceit-lo laconicamente. Mas agora no conseguia deixar de
sentir uma fagulha de desespero, pois a nica coisa afazer -isto , voar
 frente da tempestade, esperando at que ela acabasse -era a nica
coisa que garantiria que eles seriam derrubados a tiros. Pegou Hester e
enfiou-a dentro do casaco de lona, abotoando-o at o pescoo para
mant-la presa. Grumman estava quieto e imvel; seu daemon, aoitado
pelo vento, a plumagem eriada, agarrava-se firmemente  borda da cesta.
-Vou descer agora, Dr. Grumman -Lee gritou acima do rudo do vento. -O
senhor deve ficar de p, pronto para saltar. Agarre aborda e pule para
fora quando eu mandar . Grumman obedeceu. Lee olhou para baixo, para a
frente, para baixo, para a frente, tentando enxergar alguma diferena de
uma olhada para outra, pestanejando para tirar a chuva dos olhos -pois
uma chuvarada sbita desabou sobre eles como punhados de cascalho, e o
tamborilar dos pingos sobre o balo juntava-se ao uivo do vento e ao
rudo da folhagem l embaixo, at que Lee mal conseguia ouvir at mesmo
o trovo. -L vamos ns! -gritou. -O senhor preparou uma bela
tempestade, Sr. Xam. #326 Ele puxou a corda da vlvula de gs e
enrolou-a numa haste, para manter a vlvula aberta.  medida que o gs
saa pelo topo, invisvel l em cima, a curva inferior do balo comeou
a encolher, formando uma prega, depois mais outra, onde antes havia
apenas uma esfera. A cesta sacudia-se com tanta violncia que era
difcil dizer se eles estavam descendo, e as rajadas de vento eram to
sbitas e fortes que eles poderiam muito bem ter sido soprados para o
alto sem perceberem; mas depois de mais ou menos um minuto, Lee sentiu
um puxo e verificou que a pequena ncora tinha ficado presa num galho.
A freada foi apenas temporria -o galho que os segurava partiu-se -, mas
serviu para demonstrar como estavam perto do solo. Ele gritou: -Quinze
metros acima das rvores! O xam assentiu. Houve ento outro puxo, mais
violento, e os dois homens foram jogados de encontro  parede da cesta.
Lee estava acostumado, e logo recuperou o equilbrio, mas o Dr. Grumman
foi pego de surpresa. No entanto, no largou aborda da cesta, e Lee viu
que ele estava seguro, pronto para saltar. No instante seguinte houve um
choque violento, quando a ncora prendeu-se a um galho que no se
partiu. Imediatamente a cesta tombou de lado, e no segundo seguinte ela
batia contra o topo das rvores, e, em meio s chicotadas da folhagem
molhada e dos ramos partidos e o estalo dos galhos que suportaram o
choque, a cesta conseguiu uma precria imobilidade. -Ainda est a, Dr.
Grumman? -Lee chamou, pois era impossvel ver qualquer coisa. -Ainda
estou aqui, Sr. Scoresby. - melhor ficarmos parados um minuto at eu
entender claramente a situao -disse Lee. #327 Estavam a sacudir-se
ferozmente ao vento, e ele sentia a cesta vencer, com pequenos puxes, a
resistncia do que quer que os estava segurando no ar. O balo, agora
quase vazio, operava como uma vela ao vento, puxando-os para um lado.
Lee pensou em cortar os cabos que o prendiam, mas se fizesse isso, e o
balo no fosse soprado para longe, ficaria sobre as rvores como uma
bandeira indicando onde eles se encontravam; era melhor recolh-lo, se
conseguissem. Houve o claro de outro relmpago, e no segundo seguinte o
estrondo do trovo: a tempestade estava quase em cima deles. O claro
permitiu que Lee visse o tronco de um carvalho, com uma grande cicatriz
branca onde um galho tinha sido quase totalmente arrancado -a cesta
descansava sobre ele, perto do lugar onde ele ainda estava precariamente
preso ao tronco. -Vou jogar uma corda e descer -ele gritou. -Assim que
estivermos com os ps no cho, poderemos planejar o passo seguInte. -Vou
atrs do senhor -Grumman declarou. -Meu daemon me disse que o solo fica
a pouco mais de 10 metros. E Lee tomou conscincia do bater de asas
poderosas, enquanto o daemon-guia pousava novamente na borda da cesta.
-Ela consegue afastar-se tanto assim? -perguntou, surpreso. Mas afastou
isso da mente e prendeu a corda com segurana, primeiro  cesta e depois
ao galho, de modo que, mesmo se este cedesse e a cesta casse, a queda
no seria grande. Ento, com Hester em segurana junto ao seu peito, ele
jogou o resto da corda pela borda e desceu por ela at sentir o cho
debaixo dos ps. Os ramos cresciam grossos em volta do tronco; era uma
rvore imensa, um carvalho gigante, e Lee #328 murmurou um obrigado
enquanto dava um puxo na corda para avisar a Grumman que ele podia
descer. Mas havia por acaso outro som no meio do barulho? Lee escutou
com ateno. Sim, o motor de um zepelim, talvez mais de um. Impossvel
dizer sua altitude ou direo; mas o som perdurou por um minuto ou mais,
e depois desapareceu. O xam chegou ao solo. -O senhor escutou? -Lee
perguntou. -Escutei. Subindo e se aproximando das montanhas, eu acho.
Parabns por ter pousado em segurana, Sr. Scoresby. -Ainda no acabou.
Quero puxar aquele balo para debaixo das rvores antes do amanhecer,
seno ele vai revelar a nossa posio a quilmetros de distncia. Est
disposto a um trabalho braal, Dr. Grumman? -Diga-me o que tenho que
fazer. -Est bem. Vou tornar a subir e baixar algumas coisas para o
senhor. Uma delas  uma barraca. O senhor pode ir montando a barraca
enquanto eu vejo o que posso fazer para esconder o balo. Trabalharam
por longo tempo, e correram perigo em certo momento, quando o galho que
segurava a cesta finalmente se partiu e Lee caiu com ele; mas no caiu
muito, j que o balo, ainda preso ao topo das rvores, segurou a cesta
no ar. Na verdade, aqueda facilitou esconder o balo, pois a parte
inferior foi puxada para baixo, atravessando a ramagem das rvores;
trabalhando  luz dos relmpagos, puxando, torcendo e cortando, Lee
conseguiu que todo o corpo do balo descesse por entre os galhos at
descansar sobre os ramos inferiores, fora de vista. #329 o vento ainda
aoitava o topo das rvores, mas o pior da tempestade tinha passado
quando ele concluiu que aquilo era o mximo que podia fazer. Quando
finalmente desceu, constatou que o xam no apenas tinha montado a
barraca como tambm acendido uma fogueira, e estava fazendo caf. -Fez
isso com magia? -ele perguntou ao entrar na barraca, dolorido e
encharcado, e pegar a caneca que Grumman lhe estendeu. -No, pode
agradecer aos escoteiros -Grumman respondeu. -Existem escoteiros no seu
mundo? Um escoteiro prevenido vale por dois. De todas as maneiras de
fazer fogo, a melhor delas  usar fsforos secos, e eu nunca viajo sem
eles. Podamos estar menos confortveis num camping, Sr. Scoresby.
-Ouviu aqueles zepelins de novo? Grumman ergueu a mo. Lee escutou, e
realmente l estava o rudo de motor, mais discernvel agora que a chuva
tinha diminudo. -J passaram duas vezes -disse Grumman. -No sabem onde
estamos, mas sabem que estamos em algum lugar por aqui. E no minuto
seguinte um brilho bruxuleante veio da direo em que o zepelim voara.
Era menos brilhante do que um relmpago, mas era duradouro, e Lee tomou
conscincia de que era um foguete de iluminao. - melhor apagar o
fogo, Dr. Grumman -ele disse. -Por mais pena que me d ficar sem ele.
Acho que a cobertura das rvores nos esconde, mas nunca se sabe. Vou
dormir agora, molhado ou no. -De manh o senhor estar seco -o xam
afirmou. #330 Pegou um punhado de terra molhada e pressionou-o sobre a
chama, e Lee estendeu-se com esforo na pequena barraca e fechou os
olhos. Teve sonhos fortes e estranhos. Em certo momento, teve certeza de
ter despertado e visto o xam sentado de pernas cruzadas, envolto em
chamas, e as chamas consumiram rapidamente o seu corpo, deixando apenas
um esqueleto branco, ainda sentado num montinho de cinzas ardentes.
Assustado, Lee procurou por Hester e encontrou-a adormecida, coisa que
nunca tinha acontecido, pois quando ele estava acordado, ela tambm
estava; assim, ao encontr-la dormindo, sua daemon lacnica, porm de
lngua ferina, pareceu-lhe to boazinha e vulnervel, que ele se comoveu
com a estranheza daquilo, e deixou-se ficar, inquieto, ao lado dela,
acordado dentro do sonho, mas na realidade dormindo, sonhando que ficara
longo tempo acordado. Outro sonho tambm enfocava Grumman. Lee parecia
ver o xam sacudindo um chocalho enfeitado de penas e dando ordens a
alguma coisa, exigindo obedincia. Lee viu, com um espasmo de nusea,
que essa coisa era um Espectro como aqueles que eles tinham visto do
balo. Era alto e quase invisvel, e provocava uma repulsa to profunda
em Lee que ele quase despertou de terror. Mas Grumman dava ordens sem
ter medo, e no parecia ter problemas, pois a coisa escutou-o com
ateno e depois ergueu-se no ar como uma bolha de sabo at perder-se
no topo da barraca. Ento a exaustiva noite de Lee deu outra
reviravolta, pois ele estava na cabine de um zepelim, observando o
piloto - alis, estava sentado no lugar do co-piloto, e voavam acima da
floresta, perscrutando a superfcie revolta do topo das rvores, um mar
bravio de galhos e folhas. Ento viu aquele Espectro na cabine com eles.
#331 Preso no sonho, Lee no conseguia mexer-se ou gritar, e sofreu o
terror do piloto quando este comeou a tomar conscincia daquilo que
estava lhe acontecendo. O EspeCtro estava inclinado sobre o piloto,
pressionando aquilo que seria o seu rosto contra o dele. O daemon do
piloto -uma fmea de tentilho -bateu asas, grasnou e tentou afastar-se,
para cair, quase desmaiado, sobre o painel de instrumentos. O piloto
virou o rosto para Lee e estendeu a mo, mas Lee no tinha poder de
movimento. A angstia nos olhos do outro era dilacerante. Alguma coisa
viva e verdadeira estava a escoar-se dele, e seu daemon bateu as asas e
soltou um grasnido alto e selvagem: ele estava morrendo. Ento o daemon
desapareceu. Mas o piloto ainda estava vivo; seus olhos tornaram-se
opacos e a mo estendida caiu flacidamente sobre o manete. Ele parecia
vivo, mas no estava vivo: estava indiferente a tudo. E Lee ficou ali
sentado, vendo, sem nada poder fazer, o zepelim voar diretamente para a
encosta de uma das montanhas que se erguiam  frente. O piloto
contemplava a montanha crescer sobre eles, mas nada poderia despertar o
seu interesse. Lee apertou-se contra o encosto da cadeira, horrorizado,
mas nada aconteceu, e no momento do impaCto ele apenas gritou: -Hester!
E despertou. Estava na barraca, em segurana, e Hester mordiscava o seu
queixo. Ele estava coberto de suor. O xam permanecia sentado de pernas
cruzadas, mas Lee sentiu um estremecimento ao ver que o daemon-guia no
estava por perto. Obviamente aquela floresta era um lugar ruim,
assombrado por fantasmas. Ele ento tomou conscincia da luz pela qual
estava conseguindo enxergar o xam, pois o fogo continuava apagado #332
e a escurido da floresta era total. Um claro distante mostrava os
troncos e a parte inferior da copa das rvores, com as folhas pingando
gua, e Lee de imediato soube do que se tratava: seu sonho tinha sido
realidade e um piloto de zepelim havia voado contra a encosta da
montanha. -Droga, Lee, est tremendo como uma folha de faia. Qual  o
problema com voc? -Hester resmungou, movendo as grandes orelhas. -Voc
no est sonhando tambm, Hester? -ele resmungou em resposta. -No est
sonhando, Lee, est vendo. Se eu soubesse que voc  um vidente, j o
teria curado h muito tempo. Agora v se sossega, est ouvindo? Ele
esfregou a cabea do daemon com o polegar e as orelhas dele
estremeceram. E sem a menor transio ele estava flutuando no ar ao lado
do daemon do xam, a guia-pesqueira Sayan Ktr. O fato de estar na
presena do daemon de outro homem e distante do seu prprio provocava em
Lee um forte sentimento de culpa e um estranho prazer. Estavam planando,
como se ele tambm fosse um pssaro, nas turbulentas correntes
ascendentes acima da floresta, e Lee olhou em volta para a escurido,
agora permeada pelo brilho plido da lua cheia que ocasionalmente surgia
atravs de uma breve fenda nas nuvens e coloria de prateado as copas das
rvores. A guia-daemon soltou um guincho forte e de baixo vieram, em
mil vozes diferentes, os sonidos de mil pssaros: o pio das corujas, o
grito de alarme das pequenas andorinhas, a msica lquida do rouxinol:
Sayan Ktr estava chamando os pssaros. E eles acorreram, todos os
pssaros da floresta -os que estavam deslizando pelo ar com asas
silenciosas, os que #333 estavam em plena caa, os que dormiam
empoleirados, todos alaram vo aos milhares. E Lee sentiu a natureza de
pssaro que o dominava reagir com alegria ao comando da guia-rainha, e
a humanidade que ele possua sentiu o mais estranho dos prazeres: aquele
de oferecer obedincia a um poder mais forte e inteiramente correto. Ele
girava e volteava com o resto do enorme bando, cem espcies diferentes
voando em formao, em obedincia  vontade poderosa da guia, e
avistou, contra a capa prateada das nuvens, o odioso vulto escuro de um
zepelim. Todos sabiam exatamente o que deviam fazer. E avanaram para a
aeronave, os mais rpidos chegando primeiro, mas nenhum to rpido
quanto Sayan Ktr; as minsculas cambaxirras, os tentilhes, os
andorinhes de vo rpido, as corujas de VO silencioso -em um minuto o
zepelim estava rodeado deles, as garras procurando apoio na seda oleada,
perfurando-a. Os pssaros evitavam o motor, embora alguns tenham sido
atrados por ele, sendo feitos em pedaos pelas hlices. A maioria
simplesmente empoleirou-se no corpo do zepelim, e os que chegavam depois
agarravam-se aos primeiros, at cobrirem no apenas todo o balo da
aeronave (agora perdendo hidrognio atravs de milhares de pequenos
orifcios feitos pelas garras) mas as janelas da cabine tambm, e os
espeques e cabos -cada centmetro quadrado de espao tinha um pssaro,
dois pssaros, trs ou mais, agarrado a ele. O piloto nada podia fazer.
Sob o peso dos pssaros, o zepelim comeou a perder cada vez mais
altura, e ento surgiu outra escarpa, crescendo na noite e naturalmente
invisvel aos homens dentro da embarcao, que movimentavam as armas sem
direo e atiravam a esmo. #334 No ltimo instante Sayan Ktr gritou, e
o estrondo do ruflar de asas abafou at mesmo o ronco do motor, quando
todos os pssaros alaram vo e se distanciaram. E os homens na cabine
tiveram quatro ou cinco segundos de constatao e terror antes que o
zepelim batesse na rocha e explodisse em chamas. Fogo, calor,
labaredas... Lee acordou novamente, o corpo quente, como se estivesse
deitado ao sol do deserto. Do lado de fora da barraca ainda havia o som
incessante dos pingos que caam das folhas sobre a lona da barraca, mas
a tempestade passara. Uma luz cinzenta e fraca filtrava-se no interior
da barraca, e Lee ergueu-se um pouco e viu Hester a seu lado,
pestanejando, e o xam enrolado numa coberta, dormindo to profundamente
que poderia estar morto, se sua daemon-guia-pesqueira Sayan Ktr no
estivesse dormindo empoleirada num galho cado do lado de fora. O nico
som alm dos pingos era o cantar dos pssaros na floresta. Nenhum motor
no cu, nenhuma voz inimiga; portanto, Lee achou que seria seguro
acender o fogo e fazer caf -e conseguiu, depois de certo esforo. -E
agora, Hester? -perguntou. -Depende. Havia quatro zepelins, e ele s
destruiu trs. -O que estou querendo saber : j cumprimos a nossa
obrigao? Ela moveu as orelhas e disse: -No me lembro de contrato
nenhum. -No  questo de contrato,  uma questo moral. -Ainda temos
que nos preocupar com mais um zepelim, antes de voc comear a inventar
essa coisa de moral, Lee. So 30 a 40 homens armados querendo nos pegar
. Soldados imperiais, ainda por cima. Primeiro a sobrevivncia, depois a
moral. #335 Ela estava com a razo, naturalmente, e enquanto bebericava
o caf quente e fumava um charuto, contemplando a luz do dia que
aumentava gradualmente, ele ficou pensando no que faria se estivesse no
comando do nico zepelim restante. Retroceder e esperar o dia clarear,
sem dvida, e voar suficientemente alto para esquadrinhar aborda da
floresta numa grande extenso e avistar Lee e Grumman quando eles
deixassem seu esconderijo. O daemon-guia-pesqueira Sayan Ktr
despertou e estendeu as longas asas acima de onde Lee estava sentado.
Hester ergueu os olhos e girou a cabea para um lado e para outro,
encarando o poderoso daemon com um olho dourado de cada vez, e no
momento seguinte o prprio xam saiu da barraca. -Que noite cheia! -Lee
comentou. -E um dia cheio por vir. Temos que sair imediatamente da
floresta, Sr. Scoresby. Eles vo botar fogo nela. Lee, incrdulo, deu
uma olhada para a vegetao encharcada  sua volta e perguntou: -Como?
-Eles tm um motor que lana uma espcie de nafta misturada com potassa,
que se incendeia em contato com a gua. Foi desenvolvido pela Marinha
Imperial para ser usado na guerra contra os nipnicos. Se a floresta
est molhada, vai pegar fogo ainda mais depressa. -O senhor consegue ver
isso? -Assim como o senhor viu o que aconteceu com os zepelins durante a
noite. Prepare o que vai querer levar, e vamos embora agora. Lee
esfregou o queixo. As coisas mais valiosas que ele possua eram tambm
as mais portteis -os instrumentos do balo, que ele recolheu da cesta e
guardou cuidadosamente numa mochila; em seguida, certificou-se de que o
rifle estava #336 seco e carregado. Deixou a cesta, os cabos e o balo
vazio onde estavam, retorcidos e emaranhados nos galhos. Da em diante
ele no era mais um aeronauta, a no ser que por algum milagre
conseguisse escapar com vida e conseguisse dinheiro suficiente para
comprar outro balo. Agora tinha que mover-se como um inseto, ao longo
da superfcie da Terra. Sentiram o cheiro da fumaa antes de ouvirem o
fogo, pois uma brisa vindo do mar levava-a para o interior. Quando
alcanaram a borda da floresta, escutaram o fogo, um rugido profundo e
voraz. -Por que no fizeram isto  noite? -Lee quis saber. -Podiam
ter-nos assado enquanto dormamos. -Acho que querem nos pegar vivos
-Grumman respondeu, enquanto preparava um galho para servir de bengala.
-E esto esperando sairmos da floresta. De fato, o zumbido do zepelim
logo se fez ouvir acima at mesmo do som do fogo e da sua prpria
respirao ofegante, pois agora estavam correndo, trepando sobre razes,
rochedos e troncos cados, parando apenas para recuperar o flego. Sayan
Ktr , voando alto, dava rasantes para informar o progresso que eles
tinham feito e a distncia das labaredas; mas no demorou at que eles
prprios pudessem ver a fumaa acima das rvores atrs deles, e depois
uma faixa ondulante de fogo. Pequenas criaturas da floresta, esquilos,
pssaros, javalis fugiam com eles, e um coro de guinchos, berros, sons
de alarme de todo tipo erguia-se  volta deles. Os dois homens avanavam
com esforo para aborda da floresta, no muito distante; e ento a
alcanaram, enquanto chegavam cada vez mais perto as ondas de calor das
gigantescas labaredas que agora alcanavam 15 metros no ar. As rvores
ardiam como tochas; a seiva em suas veias fervia e partia-as em pedaos,
a resina nas conferas #337 prendiam fogo como nafta, os ramos pareciam
florescer de um momento para o outro com ferozes flores alaranjadas.
Ofegantes, Lee e Grumman encontraram-se junto  ngreme encosta de
rochedos e cascalho. Metade do cu estava obscurecida pela fumaa e pela
reverberao do calor, mas acima flutuava a forma atarracada do nico
zepelim que restava -longe demais para avist-los, mesmo atravs de
binculos, Lee pensou esperanosamente. Vertical e intransponvel, a
encosta da montanha erguia-se  frente deles. S havia um caminho para
escapar da armadilha em que se encontravam: uma garganta estreita mais 
frente, onde um leito seco de rio emergia de uma reentrncia na rocha.
Lee apontou, e Grumman disse: -Exatamente o que eu estava pensando, Sr.
Scoresby. Seu daemon, voando em crculos, balanou as asas e voou para a
ravina aproveitando uma corrente ascendente. Os homens no pararam,
subindo o mais depressa que podiam, mas Lee disse: -Desculpe a minha
pergunta, se ela for impertinente, mas nunca conheci algum cujo daemon
conseguisse se afastar assim, a no ser as bruxas. Mas o senhor no 
bruxo. Isso foi uma coisa que o senhor aprendeu, ou veio naturalmente?
-Para um ser humano, nada vem naturalmente -disse Grumman. -Temos que
aprender tudo que fazemos. Sayan Ktr est me dizendo que a ravina leva
a uma passagem. Se chegarmos at l antes que eles nos vejam, ainda
poderemos escapar . A guia tornou a voar baixo, e os homens continuaram
a subida. Hester preferia encontrar seu prprio caminho por sobre as
rochas, de modo que Lee a seguiu, evitando as pedras soltas e movendo-se
o mais depressa que podia por cima das pedras maiores, sempre em direo
 pequena ravina. #338 Lee ficou preocupado com Grumman, pois este
estava plido e abatido, e respirava com dificuldade. Suas atividades
noturnas tinham consumido muito da sua energia. At quando conseguiriam
prosseguir era algo em que Lee no queria pensar; mas quando estavam
quase perto da en trada da ravina, na margem do leito seco do rio, ele
escutou uma mudana no som do zepelim. -Eles nos viram -disse. Isso era
como receber uma sentena de morte. Hester tropeou -at Hester, de
passos to seguros, tropeou e vacilou. Grumman apoiou-se na bengala que
levava e protegeu os olhos para olhar para trs, e Lee virou-se para
olhar tambm. O zepelim descia depressa, rumo  encosta diretamente
abaixo de onde eles estavam. Era bvio que os perseguidores pretendiam
captur-los vivos, pois uma rajada de balas teria acabado com os dois
num segundo. Em vez disso, o piloto trouxe habilidosamente a nave para
pairar logo acima do solo no ponto mais alto da encosta abaixo deles; da
porta da cabine saltaram muitos homens de farda azul, com seus
daemons-lobos ao lado, e puseram-se a subir a encosta. Lee e Grumman
estavam quase 600 metros acima deles, e no muito distantes da entrada
da ravina. Uma vez chegando l, poderiam rechaar os soldados enquanto
tivessem munio: mas s tinham um nico rifle. -Esto atrs de mim, Sr.
Scoresby- disse Grumman. -Se me der o rifle e se entregar, vai
sobreviver. So soldados disciplinados. O senhor ser prisioneiro de
guerra. Lee ignorou isso, e disse: -Mexa-se. V at a ravina e se
adiante at o outro lado, enquanto eu fico na boca da ravina e seguro os
soldados. Trouxe o senhor at aqui e no vou deixar que o peguem agora.
#339 Os homens l embaixo subiam com rapidez, pois eram fortes e estavam
descansados. Grumman assentiu. -No tive foras para derrubar o quarto
zepelim -foi tudo o que disse. Os dois se apressaram para atingir o
abrigo da ravina. -Diga-me s uma coisa antes de ir, porque no terei
sossego enquanto no souber -Lee pediu. -No sei dizer de que lado estou
lutando, e no me importo muito com isso. S quero saber o seguinte:
isso que vou fazer agora vai ajudar ou vai prejudicar aquela garota,
Lyra? -Vai ajudar -Grumman afirmou. -E o seu juramento, no vai esquecer
o que jurou? -No vou esquecer. -Porque, Dr. Grumman, ou John Parry, ou
seja l o nome que o senhor arranjar no mundo em que for parar, o senhor
fique sabendo de uma coisa: eu amo aquela menininha como uma filha. Se
eu tivesse uma filha, no a amaria tanto. E se o senhor quebrar seu
juramento, o que quer que sobre de mim ir procurar o que quer que sobre
do senhor, e o senhor vai passar o resto da eternidade desejando nunca
ter existido. Isto mostra a importncia que tem o seu juramento.
-Compreendo. E j dei a minha palavra. -Ento  s o que eu preciso
saber. Boa sorte. O xam estendeu a mo, que Lee apertou. Ento Grumman
se virou e seguiu em direo  ravina, e Lee olhou em volta  procura do
melhor lugar para assumir sua posio. -No o rochedo grande, Lee-
aconselhou Hester. - De l no d para enxergar  direita, e eles
poderiam atacar por ali. V para o menor. Havia nos ouvidos de Lee um
rugido que nada tinha a ver com o incndio da floresta abaixo dele, ou
com o zumbido #340 forado do motor do zepelim tentando elevar-se outra
vez. Tinha a ver com a sua infncia e o lamo. Quantas vezes ele e seus
amiguinhos tinham encenado de brincadeira aquela batalha herica, nas
runas do velho forte, alternando a vez de serem franceses ou
dinamarqueses! A sua infncia lhe voltava agora, com fora redobrada.
Ele pegou o anel navajo da me e colocou-o na pedra ao seu lado. Nas
velhas brincadeiras de lamo, Hester muitas vezes se transformava em
puma ou lobo, e uma ou duas vezes em cascavel, mas em geral em tordo.
Agora, porm... -Pare de sonhar acordado e faa pontaria -ela instruiu.
-Isto no  uma brincadeira, Lee. Os homens que subiam a encosta tinham
se espalhado e avanavam mais devagar, porque entendiam a situao to
bem quanto ele. Sabiam que teriam que invadir a ravina e sabiam que um
homem com um rifle poderia det-los por muito tempo. Atrs deles, para
surpresa de Lee, o zepelim ainda tentava subir. Talvez estivesse
perdendo a flutuao, ou talvez o combustvel estivesse baixo, mas,
fosse o que fosse, ele ainda no tinha levantado vo, e isso lhe deu uma
idia. Ele ajustou a posio e fez pontaria com o velho Winchester at
ter o suporte do motor de bombordo bem na mira; ento atirou. Ouvindo o
disparo, os soldados que subiam a encosta ergueram a cabea, mas no
segundo seguinte o motor de repente roncou e tambm de repente morreu. O
zepelim tombou de lado. Lee ouvia o outro motor roncando, mas a aeronave
agora estava no solo. Os soldados tinham estacado, tentando proteger-se
como podiam. Lee conseguiria contar quantos eram, e fez isso: 25. E ele
tinha trinta balas. Hester aproximou-se do seu ombro esquerdo. #341 -Vou
vigiar deste lado -disse. Agachada no rochedo cinzento, as orelhas
esticadas sobre as costas, ela parecia uma pequena rocha,
marrom-acinzentada e quase invisvel, a no ser os olhos. Hester no era
nenhuma beleza; era sem graa e magrela como uma lebre pode ser, mas
tinha os olhos maravilhosamente coloridos, dourados, com raios de um
marrom profundo e um verde vivo. E agora esses olhos contemplavam a
ltima paisagem que veriam: uma encosta rida, de brutais pedras
roladas, e atrs dela uma floresta em chamas. Nem uma folha de capim,
nem uma manchinha verde para descansar seus olhos. Ela mexeu de leve as
orelhas. -Esto conversando -disse. -Consigo escutar, mas no consigo
entender. - russo -ele explicou. -Vo atacar todos juntos e correndo.
Seria o pior para ns, portanto  o que eles vo fazer. -Mire direito
-ela recomendou. -Vou mirar. Mas, que droga, no gosto de matar, Hester.
-Eles ou ns. -No,  mais que isso -ele corrigiu. -So eles ou Lyra.
No entendo como, mas estamos ligados quela garota, e isso me faz
feliz. -Um homem  esquerda vai atirar- disse Hester. Enquanto ela
falava, ouviu-se o disparo, e a bala veio arrancar lascas da pedra a 30
centmetros de onde ela estava agachada. A bala ricocheteou para dentro
da ravina, mas ela no moveu um s msculo. -Bom, isso faz eu me sentir
melhor -disse Lee, fazendo pontaria com cuidado. #342 Ele atirou. Havia
apenas um pedacinho de azul para acertar, e ele acertou. Com um grito de
surpresa o homem caiu para trs e morreu. E ento comeou o tiroteio.
Dentro de um minuto, o estalido dos tiros e o zumbido das balas que
ricocheteavam ecoavam ao longo do flanco da montanha e da ravina atrs
de Lee. O cheiro de cordite e de queimado que vinha da pedra pulverizada
que as balas atingiam era apenas uma variao do cheiro de queimado que
vinha da floresta, at parecer que o mundo inteiro estava em chamas.
Logo o rochedo de Lee estava marcado de balas; ele sentia o impacto
quando elas atingiam a pedra. Uma vez ele viu a pelagem das costas de
Hester ondular com o deslocamento de ar provocado por uma bala, mas ela
no se mexeu; e ele no parou de atirar. O primeiro minuto foi feroz. E
depois, na pausa que se seguiu, Lee constatou que estava ferido: havia
sangue na pedra debaixo do seu rosto, e a mo direita -e o ferrolho do
fuzil estavam vermelhos. Hester virou-se para olhar . -Nada de grave.
Uma bala arranhou o seu couro cabeludo -declarou. -Voc contou quantos
caram, Hester? -No, estava ocupada demais me desviando das balas.
Recarregue a arma enquanto pode, rapaz. Ele rolou para baixo atrs do
rochedo e moveu o ferrolho para a frente e para trs. O ferrolho estava
quente, e o sangue do ferimento que o encharcava estava coagulando,
emperrando o mecanismo. Lee cuspiu sobre ele e soltou-o. Ento
colocou-se novamente em posio e, antes mesmo que pudesse fazer
pontaria, levou um tiro. #343 Pareceu uma exploso no seu ombro
esquerdo. Durante alguns segundos ele ficou atordoado, e quando
recuperou o sangue-frio tinha o brao esquerdo dormente e intil. Havia
uma dor imensa esperando para dar o bote sobre ele, mas ela ainda no
tinha reunido coragem para isso, e essa idia deu-lhe foras para firmar
o pensamento em voltar a atirar. Apoiou o rifle no brao intil, que um
minuto antes era to cheio de vida, e fez pontaria com estica
concentrao: um tiro, dois, trs, e cada um deles encontrou o seu alvo.
-Como vamos indo? -resmungou. -Bom trabalho -ela cochichou de volta, bem
perto do rosto dele. -No pare. Em cima daquela pedra preta... Ele
olhou, mirou, atirou. A figura caiu. -Droga, so homens como eu
-desabafou. -No faz sentido. Mas atire assim mesmo -ela disse. -Voc
acredita nele? Em Grumman? -Claro. Mande chumbo, Lee. Um tiro: outro
homem caiu, e seu daemon apagou-se como uma vela. Houve ento um longo
silncio. Lee remexeu no bolso e encontrou mais algumas balas. Enquanto
recarregava, sentiu algo to raro que seu corao quase parou; sentiu o
rosto de Hester pressionado contra o seu, e ela estava chorando. -Lee, a
culpa foi minha -ela disse. -Como assim? -O escraelingue. Eu aconselhei
voc a trazer o anel dele. Sem ele, no estaramos nesta situao. -Voc
acha que alguma vez segui um conselho seu? Peguei o anel porque a
bruxa... No terminou, porque outra bala o atingiu. Dessa vez na perna
esquerda, e antes que ele pudesse sequer piscar, uma #344 terceira bala
raspou por sua cabea, como um ferro quente encostado no couro cabeludo.
-Agora est por pouco, Hester -ele murmurou, tentando ficar firme. -A
bruxa, Lee! Voc falou na bruxa! Lembra-se? Pobre Hester, agora ela
estava deitada, no agachada em postura tensa e vigilante, como estivera
em toda a sua vida adulta. E os lindos olhos dourados estavam ficando
embaados. -Ainda lindos -ele disse. -Ah, Hester, sim, a bruxa. Ela me
deu... -Isso mesmo. A flor... -No bolso da camisa. Pegue, Hester, eu no
consigo me mexer . Foi um esforo grande, mas com seus dentes fortes ela
conseguiu puxar para fora a pequena flor escarlate, e colocou-a junto 
mo direita dele. Com enorme esforo ele fechou os dedos em volta da
flor e disse: -Serafina Pekkala! Socorro, por favor... Um movimen to l
embaixo: ele soltou a flor, fez pontaria, atirou. O movimento cessou.
Hester estava enfraquecendo. -Hester, no v antes de mim -Lee
sussurrou. -Lee, eu no conseguiria ficar longe de voc nem por um
segundo -ela sussurrou em resposta. -Acha que a bruxa vir? -Claro que
sim. Devamos ter chamado ela antes. -Devamos ter feito um monte de
coisas. -Pode ser... Outro estampido, e dessa vez a bala penetrou fundo,
procurando o centro da vida dele. Ele pensou: ela no vai encontrar isso
aqui dentro, o meu centro  Hester. Avistou #345 uma centelha azul l
embaixo e esforou-se para virar o rifle naquela direo. - ele -Hester
murmurou. Lee achou difcil puxar o gatilho. Tudo era difcil. Teve que
tentar trs vezes, mas finalmente conseguiu; a farda azul rolou encosta
abaixo. Outro longo silncio. A dor que se avizinhava estava deixando de
ter medo dele. Era como um bando de chacais, andando em crculos,
farejando, aproximando-se, e ele sabia que no iam deix-lo agora at
que o tivessem devorado. -Ainda falta um -Hester murmurou. -Est indo
para o zepelim. Lee viu-o mal e mal: um soldado da Guarda Imperial
afastando-se da derrota da sua companhia. -No posso matar um homem
pelas costas -Lee protestou. -Mais vergonhoso  morrer com uma bala na
arma. Ento ele apontou para o prprio zepelim, que ainda se esforava
para subir com um s motor, e disparou a sua ltima bala, que devia
estar em brasa -ou talvez um galho em chamas da floresta l embaixo
tenha subido at a aeronave numa corrente ascendente, pois o gs
subitamente transformou-se numa bola cor de laranja, e o zepelim
ergueu-se um pouco e depois tombou e saiu rolando, devagar, suavemente,
mas repleto de morte feroz. E o homem que fugia, mais os seis ou sete
que eram o restante da Guarda e que no tinham ousado chegar mais perto
do homem que defendia a ravina, foram envolvidos pelo fogo que caa
sobre eles. Lee viu a bola de fogo e escutou, acima do rugido nos
ouvidos, a voz de Hester: #346 -J foram todos, Lee. Ele disse, ou
pensou: -Esses coitados no precisavam chegar a isso, nem ns. -Ns os
rechaamos. Ns conseguimos. Estamos ajudando Lyra. Ela ento apertou
seu corpo orgulhoso e alquebrado contra o rosto dele, o mais prximo que
conseguiu, e os dois morreram. #347 15 MUSGO-SANGNEO "A diante",
instruiu o aletmetro. "Para frente, para cima". De modo que eles
continuaram a subir. As bruxas voavam acima para escolher o melhor
caminho, pois o terreno cheio de colinas logo deu lugar a aclives mais
ngremes e solo pedregoso, e enquanto o sol subia em direo ao meio
dia, os viajantes se embrenhavam numa regio inspita de solo seco e
desbarrancado, grandes rochedos e vales pontilhados de grandes pedras,
onde no crescia uma nica folha verde e onde o estrdulo dos insetos
era o nico som. Seguiram em frente, conversando pouco, parando somente
para beber uns goles da gua de seus cantis de pele de cabra. Por algum
tempo Pantalaimon voou acima da cabea de Lyra, at que se cansou e
transformou-se num pequenino cabrito monts de ps firmes e orgulhoso de
seus chifres, saltando por entre as rochas enquanto Lyra subia
trabalhosamente. Will seguia, melanclico, apertando os olhos por causa
da claridade, ignorando a dor que aumentava em sua mo, e #348
finalmente chegando a um estado em que mover-se era bom e ficar parado
era ruim, de modo que ele sofria mais descansando do que em marcha. E,
desde que o feitio das bruxas para estancar a hemorragia tinha
fracassado, ele achava que elas estavam olhando para ele com medo,
tambm, como se ele fosse marcado por alguma maldio mais forte do que
o poder delas. Em certo momento, chegaram a um laguinho, um pedao de
azul intenso com pouco mais de 25 metros de dimetro, em meio s rochas
vermelhas. Pararam ali por algum tempo para beber e encher os cantis, e
para banhar os ps doloridos na gua gelada. Ficaram alguns minutos e
seguiram em frente, e logo depois, quando o sol estava mais quente e
mais alto, Serafina Pekkala deu um rasante para falar com eles. Estava
nervosa. -Tenho que deixar vocs por algum tempo -declarou. -Lee
Scoresby precisa de mim. No sei por qu. Mas ele no me chamaria se no
precisasse de ajuda. Vo em frente, eu os encontro... -O Sr. Scoresby?
-fez Lyra, agitada e ansiosa. -Mas onde... Serafina, porm, j tinha
partido, sumindo de vista antes que Lyra conseguisse completar a
pergunta. Automaticamente Lyra ia pegar o aletmetro para perguntar o
que tinha acontecido com Lee Scoresby, mas desistiu, pois tinha
prometido no fazer coisa alguma alm de guiar Will. A menina olhou para
ele. Will estava sentado por perto, a mo descansando sobre o joelho,
ainda pingando sangue devagar, o rosto crestado de sol e plido sob o
bronzeado. -Will, sabe por que voc tem que encontrar o seu pai? -ela
quis saber. #349 - o que eu sempre quis saber. Minha me disse que eu
ia levar o manto do meu pai.  s isso que eu sei. -Que significa isso,
levar o manto dele? O que ser esse manto? -U ma misso, eu acho. Seja o
que for que ele anda fazendo, tenho que continuar por ele. No faz o
menor sentido. Ele enxugou o suor dos olhos com a mo direita. O que o
menino no podia dizer era que ansiava pelo pai como uma criana perdida
anseia pelo lar. Essa comparao no teria lhe ocorrido, pois o lar era
para ele o lugar onde ele tomava conta da me, no o lugar onde outras
pessoas tomavam conta dele; mas j fazia cinco anos desde aquela manh
de sbado no supermercado quando a brincadeira de se esconder dos
inimigos tornara-se desesperadamente real; cinco anos era muito tempo em
sua vida, e seu corao ansiava por ouvir as palavras: "Muito bem, muito
bem, meu filho; ningum no mundo teria feito melhor; estou orgulhoso de
voc. Agora venha descansar...". Will ansiava tanto por isso que mal
sabia que ansiava; aquilo simplesmente fazia parte do modo como as
coisas eram. Portanto, no conseguia expressar isso para Lyra agora,
embora ela conseguisse ler tudo nos olhos dele -e isso era novidade
nela, tambm: ser to perceptiva. O fato era que em relao a Will ela
estava desenvolvendo outro sentido, como se ele simplesmente estivesse
mais ntido do que qualquer outra pessoa que ela conhecia. Tudo nele era
claro, prximo e imediato. E teria at dito isso a ele, mas nesse
momento uma bruxa pousou. -Vem vindo gente atrs de ns -informou.
-Esto bem longe, mas avanando depressa. Devo chegar mais perto e
espiar? #350 -Sim, faa isso -disse Lyra. -Mas voe baixo, e se esconda,
no deixe que vejam voc. Will e Lyra ficaram de p com esforo e
seguiram em frente com dificuldade. -J senti frio muitas vezes, mas
nunca tinha sentido tanto calor. Faz calor assim no seu mundo?
-perguntou ela, para afastar o pensamento dos perseguidores. -No onde
eu morava. Normalmente, no. Mas o clima est mudando. O vero tem sido
mais quente do que costumava ser. Dizem que as pessoas interferiram na
atmosfera colocando nela produtos qumicos, e o clima est ficando fora
de controle. -, colocaram mesmo, e est ficando mesmo -Lyra concordou.
-E ns aqui bem no meio disso tudo. Ele estava com calor e sede demais
para responder, e ambos continuaram a subir, ofegantes. Pantalaimon
agora era um grilo, sentado no ombro de Lyra, cansado demais para saltar
ou voar. De vez em quando, as bruxas avistavam do alto uma nascente
distante demais para Lyra e Will atingirem, e voavam at l para encher
os cantis deles. As crianas teriam morrido sem gua, e onde estavam era
tudo seco; qualquer nascente que conseguisse aflorar logo afundava outra
vez entre as rochas. E assim seguiram, enquanto a tarde findava. A bruxa
que voltou para espionar chamava-se Lena Feldt. Ela voava baixo, de um
penhasco a outro, e quando o sol se punha, tingindo de vermelho-sangue
as rochas, chegou ao laguinho azul e encontrou uma tropa de soldados
acampados. Mas ao primeiro olhar ela ficou sabendo mais do que gostaria:
aqueles soldados no tinham daemons. E no eram do mundo de Will, nem do
mundo de Cittgazze, onde os #351 daemons das pessoas ficavam dentro
delas, e onde elas mesmo assim pareciam vivas: aqueles homens eram do
mundo dela mesma, e v-los sem daemons era um horror grosseiro e
nojento. Ento, de uma barraca na margem do lago veio a explicao. Lena
Feldt viu uma mulher, uma vida-curta, graciosa em suas roupas cqui de
caadora e to cheia de vida quanto o macaco dourado que ao seu lado
dava cabriolas ao longo da margem. Lena Feldt escondeu-se entre os
rochedos acima do lago e ficou observando enquanto a Sra. Coulter
conversava com o oficial comandante, e os homens montavam barracas,
faziam fogueiras, ferviam gua. A bruxa estivera com Serafina Pekkala
resgatando as crianas em Bolvangar, e sentiu uma vontade imensa de
atirar na Sra. Coulter ali mesmo; mas alguma boa sorte estava protegendo
a mulher, pois a distncia era um pouco grande demais para uma flechada,
e a bruxa no poderia chegar mais perto- a no ser que se tornasse
invisvel. Ela ento comeou a fazer o feitio para isso. Foram precisos
10 minutos de profunda concentrao. Finalmente confiante, Lena Feldt
desceu a encosta rochosa em direo ao lago, e quando atravessou o
acampamento, um ou dois soldados de olhar vazio ergueram os olhos de
relance para ela. A bruxa parou do lado de fora da barraca onde a Sra.
Coulter tinha entrado e colocou a flecha no arco. Escutou a voz baixa da
mulher atravs da lona e ento avanou cautelosamente at a abertura da
barraca, que era virada para o lago. Dentro, a Sra. Coulter conversava
com um homem que Lena Feldt nunca tinha visto: um homem mais velho,
grisalho #352 e corpulento, com uma daemon-serpente enrolada no pulso.
Estavam sentados em cadeiras de lona colocadas lado a lado, e ela falava
em voz baixa, inclinada para ele: -Claro que sim, Carlo -dizia. -Vou lhe
contar o que quiser. O que  que voc deseja saber? -Como  que voc
comanda os Espectros? -ele perguntou. -Pensei que fosse impossvel, mas
eles seguem voc como cachorrinhos... Eles tm medo da sua escolta? O
que ? -Simples. Eles sabem que posso lhes dar mais alimento se me
deixarem viva do que se me consumirem. Posso lev-los a todas as vtimas
que seus coraes fantasmagricos desejarem. Assim que voc os descreveu
para mim, eu soube que poderia domin-los, e foi o que aconteceu. E um
mundo inteiro estremece sob o poder dessas coisas plidas! Mas, Carlo,
posso contentar voc tambm, sabe? -ela sussurrou. - Gostaria disso?
-Marisa, j  prazer suficiente estar perto de voc... -No , no,
Carlo; voc sabe que no . Sabe que posso lhe dar ainda mais prazer .
As mozinhas negras e calosas do daemon dela acariciavam o
daemon-serpente. Aos poucos a serpente desenrolou-se e comeou a
deslizar ao longo do brao do homem em direo ao macaco. O homem e a
mulher seguravam taas de vinho dourado, e ela deu um gole na sua e
inclinou-se para ele um pouco maIs. -Ah... -fez o homem, enquanto seu
daemon deslizava lentamente do seu brao para as mos do macaco dourado.
O macaco ergueu-a devagar at o rosto e passou a face de leve ao longo
da pele cor de esmeralda da serpente. Esta dardejou a lngua, e o homem
suspirou. #353 -Carlo, me conte por que est perseguindo o menino -a
Sra. Coulter pediu, com a voz to suave quanto a carcia do macaco. -Por
que precisa encontr-lo? -Ele tem uma coisa que eu quero. Ah, Marisa...
-O que , Carlo? O que  que ele tem? Ele sacudiu a cabea. Mas estava
achando difcil resistir; seu daemon enrolara-se em volta do trax do
macaco e deslizava a cabea pela pelagem longa e lustrosa, enquanto o
macaco corria as mos ao longo do corpo fluido da serpente. Lena Feldt
observava, parada, invisvel, a dois passos de onde eles estavam
sentados. Mantinha a corda do arco tensa, a flecha preparada: em menos
de um segundo a Sra. Coulter poderia estar morta. Mas a bruxa estava
curiosa; ficou parada, imvel, silenciosa, de olhos bem abertos. Mas
enquanto ela observava a Sra. Coulter, no olhou para o laguinho azul
atrs de si. Na margem oposta, na escurido, parecia ter nascido um
bosque de rvores fantasmagricas, um bosque que de vez em quando
estremecia como se com uma inteno consciente. Mas no eram rvores,
naturalmente; e, enquanto Lena Feldt e seu daemon dedicavam toda a sua
ateno  Sra. Coulter, uma das figuras plidas afastou-se das outras e
deslizou sobre a superfcie do lago gelado sem provocar uma nica
ondulao na gua, at parar a cerca de um metro da pedra onde o daemon
de Lena Feldt estava empoleirado. -Voc podia muito bem me contar ,
Carlo -murmurava a Sra. Coulter. -Voc podia sussurrar. Podia fingir que
estava falando dormindo, quem poderia culp-lo por isso? Conte
simplesmente o que  que o garoto tem e por que voc quer essa coisa. Eu
poderia consegui-la para voc... Gostaria que eu fizesse isso?  s me
contar, Carlo. No quero essa coisa para mim; eu quero a garota. O que
? Diga-me, e eu lhe trago. #354 Ele estremeceu de leve. Tinha os olhos
fechados. Ento disse: - uma faca. A faca sutil de Cittgazze. Nunca
ouviu falar dela, Marisa? Algumas pessoas a chamam de teleutaia
makhaira, a ltima de todas as facas. Outras pessoas chamam de
sahttr... -O que  que ela faz, Carlo? Por que  to especial? -Ah...
a faca que corta qualquer coisa... Nem os seus fabricantes sabiam o que
ela pode fazer... Nada, ningum, matria, esprito, anjo, ar, nada 
invulnervel para a faca sutil. Marisa, ela  minha, voc entende?
-Claro, Carlo. Eu prometo. Deixe-me encher a sua taa... E enquanto o
macaco dourado percorria com as mos o corpo da serpente esmeralda,
apertando de leve, erguendo, acariciando, enquanto Sir Charles suspirava
de prazer, Lena Feldt viu o que estava realmente acontecendo: como o
homem tinha os olhos fechados, a Sra. Coulter secretamente colocou na
taa dele algumas gotas de um pequeno frasco antes de tornar a ench-la
com vinho. -Tome, querido -ela sussurrou. -Vamos brindar um ao outro...
Ele j estava embriagado; pegou a taa e bebeu gulosamente, gole aps
gole. E ento, sem qualquer aviso, a Sra. Coulter levantou-se, virou-se
e ficou cara a cara com Lena Feldt. -Ora, bruxa, pensou que eu no sabia
como  que vocs ficam invisveis? -falou. Lena Feldt estava atnita
demais para se mover. Atrs da Sra. Coulter o homem lutava para
respirar. O peito ofegava, o rosto estava vermelho e o daemon pendia
#355 flacidamente das mos do macaco, que jogou-o longe com desprezo.
Lena Feldt tentou erguer o arco, mas uma paralisia fatal lhe dominava o
ombro; no conseguia se mexer. Isso nunca tinha acontecido antes; ela
soltou um gritinho. -Ah,  tarde demais para isso -disse a Sra. Coulter.
-Olhe para o lago, bruxa. Lena Feldt virou-se e viu seu daemon-calhandra
batendo as asas e guinchando como se estivesse numa cmara de vidro
sendo esvaziada de ar; o daemon debateu-se e caiu, o bico aberto, em
pnico, tentando respirar. O Espectro o tinha envolvido. -No! -ela
gritou. Tentou ir at ele, mas foi impedida por um espasmo de nusea.
Mesmo naquele estado terrvel, Lena Feldt via que a Sra. Coulter tinha
mais fora na alma do que qualquer outra pessoa que ela conhecia. No
ficou surpresa ao perceber que o Espectro estava sob o poder da Sra.
Coulter: ningum conseguia resistir  sua autoridade. Lena Feldt,
angustiada, voltou-se para ela. -Solte ele! Por favor, solte ele!
-implorou. -Veremos. A criana est com vocs? A menina, Lyra? -Est! -E
um garoto, tambm? Um menino com uma faca? -... Eu lhe imploro... -E
quantas bruxas so? -Vinte. Solte ele, solte ele! -Todas no ar? Ou
algumas ficam no cho com as crianas? -A maioria no ar, trs ou quatro
sempre no cho...  horrvel... Solte ele, ou me mate agora! #356 -A que
distncia da montanha eles esto? Esto avanando, ou pararam para
descansar? Lena Feldt contou-lhe tudo. Teria resistido a qualquer
tortura, exceto o que estava agora acontecendo com o seu daemon. Quando
a Sra. Coulter ficou sabendo tudo que desejava, dIsse: -E agora me conte
uma coisa. Vocs, bruxas, sabem alguma coisa sobre essa menina. Eu quase
fiquei sabendo por uma das suas irms, mas ela morreu antes que eu
pudesse completar a tortura. Bem, no h ningum para salvar voc agora.
Diga-me a verdade sobre a minha filha. Lena Feldt disse, ofegante: -Ela
ser a me... Ela ser a vida... a me... Vai desobedecer... vai...
-Diga o nome dela! Voc est contando tudo, menos a coisa mais
importante! O nome dela! -gritou a Sra. Coulter . -Eva! A me de todos!
Eva, outra vez! A Me Eva! - balbuciou Lena Feldt, soluando. -Ah! -fez
a Sra. Coulter . E soltou um grande suspiro, como se finalmente o
propsito de sua vida estivesse claro. A bruxa percebeu vagamente o que
tinha feito, e, vencendo o horror que a envolvia, tentou gritar: -O que
 que vai fazer com ela? O que  que vai fazer? -Ora, vou ter que
destru-la -respondeu a Sra. Coulter. -Para impedir outra Queda... Por
que no vi isso antes? Era grandioso demais para ser percebido... Ela
bateu palmas de leve, como uma criana, de olhos arregalados. Lena
Feldt, gemendo, ouviu-a prosseguir: #357 -Claro que sim. Asriel vai
guerrear contra a Autoridade, e ento... Claro, claro... Como antes, de
novo. E Lyra  Eva. E desta vez ela no vai cair. Vou cuidar disso. No
vai haver Queda... E a Sra. Coulter endireitou o corpo e estalou os
dedos para o Espectro que se alimentava do daemon da bruxa. O pequeno
daemon-calhandra ficou cado sobre a pedra, em espasmos, enquanto o
Espectro avanava para a prpria bruxa; e ento, o que quer que Lena
Feldt tenha suportado foi duplicado e triplicado e multiplicado 100
vezes. Ela sentiu nuseas na alma, um desespero terrvel e repugnante,
melancolia e cansao, um cansao to profundo que ela pensou que fosse
morrer. Seu ltimo pensamento consciente foi nojo da vida: seus sentidos
tinham-lhe mentido, o mundo no era feito de energia e delcia, mas de
sujeira, traio e lassitude. Viver era horrvel e morrer no era
melhor, e de um lado a outro do universo essa era a primeira e ltima e
nica verdade. Assim ficou ela, o arco na mo, indiferente, morta em
vida. De modo que Lena Feldt deixou de ver ou de se importar com o que a
Sra. Coulter fez em seguida. Ignorando o homem grisalho derreado,
inconsciente, na cadeira de lona, e o daemon-serpente de pele opaca
enrodilhada no cho, ela chamou o capito dos soldados e ordenou que se
preparassem para uma marcha noturna montanha acima. Ento foi at a
beirada do lago e chamou os Espectros. Eles vieram ao seu comando,
deslizando como colunas de nvoa por cima da gua. Ela ergueu os braos
e fez com que se esquecessem de que eram presos  terra, de modo que um
por um eles se ergueram no ar e flutuaram, como sombras malvolas
deslizando na noite, levados pelas correntes de ar #358 em direo a
Will, Lyra e as outras bruxas; mas Lena Feldt nada enxergou disso tudo.
Depois que escureceu, a temperatura caiu rapidamente; Will e Lyra
comeram o restante do po seco e foram deitar-se na reentrncia formada
por um rochedo que assomava, para ficarem aquecidos e tentarem dormir.
Lyra, pelo menos, no precisou tentar; em apenas um minuto estava
dormindo, enrodilhada em volta de Pantalaimon. Mas Will no conseguia
dormir, por mais que tentasse -em parte por causa da mo, que agora
latejava at o cotovelo e estava incomodamente inchada, em parte por
causa do solo duro, em parte pelo frio, em parte por pura exausto e em
parte por saudade da me. Estava preocupado com ela, naturalmente, e
achava que estaria mais segura se ele estivesse l, tomando conta dela;
mas queria que ela tomasse conta dele, tambm, como quando ele era
pequeno; queria que lhe fizesse um curativo, cantasse para ele dormir e
levasse embora todos os problemas, que o rodeasse de todo o carinho,
suavidade e amor maternal de que ele tanto precisava; e isso nunca iria
acontecer. Parte dele ainda era um menininho. De modo que ele chorou,
mas sem se mexer, para no acordar Lyra. Mas mesmo assim no conseguia
dormir. Estava mais desperto que nunca. Finalmente estendeu as pernas
doloridas e levantou-se cautelosamente, estremecendo, e com a faca na
cintura ps-se a subir a montanha, para acalmar a sua inquietao. Atrs
dele, o daemon-tordo da bruxa de sentinela inclinou a cabea e a bruxa
virou-se em seu posto de vigia para ver Will subindo pelas pedras. Ela
pegou seu ramo de pinheiro-nubgeno e alou vo silenciosamente, no
para incomod-lo, mas para proteg-lo e evitar que ele se machucasse.
#359 Ele no percebeu. Sentia tal necessidade de se movimentar que j
quase no sentia a dor na mo. Tinha a sensao de que deveria caminhar
a noite inteira, o dia inteiro, para sempre, porque nada mais acalmaria
aquela febre em seu peito. Ento, como se solidrio com ele, o vento
comeara a soprar. No havia folhas que pudessem ser sacudidas, mas o
vento golpeava o corpo de Will, soprando seus cabelos para trs; havia
turbulncia dentro e fora dele. Ele subiu cada vez mais alto, mal se
lembrando de que precisaria encontrar o caminho de volta para Lyra, at
chegar a um pequeno plat que parecia estar quase no topO do mundo; em
volta dele, em todos os horizontes, no havia montanha mais alta. Ao
luar brilhante, as nicas cores eram o negro total e o branco puro; os
contornos eram serrilhados e as superfcies eram nuas. O vento selvagem
devia estar trazendo nuvens, pois de repente a lua foi encoberta e a
escurido cobriu toda a paisagem; e eram nuvens espessas, pois nem um
raio de luar brilhava atravs delas. Em menos de um minuto Will
encontrou-se em escurido quase total. E no mesmo momento sentiu que lhe
agarravam o brao direito. Ele gritou com o choque e tentou
desvencilhar-se, mas foi em vo. E Will tornou-se selvagem. Tinha a
sensao de ter chegado ao fim do mundo; se ali fosse tambm o fim da
sua vida, ele iria lutar e lutar at cair. De modo que ps-se a girar e
chutar, mas a mo no o soltava; como era o brao direito que estava
preso, ele no conseguia pegar a faca. Tentou fazer isso com a mo
esquerda, mas estava sendo to sacudido, e sua mo estava to inchada
#360 e dolorida, que no conseguiu; tinha que lutar com uma s mo,
machucada, contra um homem adulto. Enterrou os dentes na mo que lhe
prendia o brao, mas o que aconteceu foi que o homem lhe deu um soco
estonteante na nuca. Ento Will tornou a chutar, alguns dos chutes
atingiram o alvo e outros no, e durante todo o tempo ele saltava,
girava, empurrava e se debatIa- mas no conseguia desvencilhar-se. Ouvia
vagamente a sua prpria respirao ofegante junto com os grunhidos e a
respirao rascante do homem; ento, por puro acaso, conseguiu passar a
perna por trs do outro e jogou-se contra o peito dele, e o homem caiu
com Will por cima; mas nem por um instante o aperto no brao de Will
diminuiu. E Will, rolando com violncia no solo pedregoso, sentiu um
grande medo apertar-lhe o corao: aquele homem jamais iria solt-lo;
mesmo que o menino conseguisse mat-lo, o cadaver continuaria preso ao
seu brao. Mas Will sentia-se enfraquecendo, e agora estava chorando,
tambm, soluando amargamente enquanto chutava, empurrava e batia no
homem com a cabea e os ps, e sabia que seus msculos logo cederiam. E
ento percebeu que o homem estava imvel, embora a mo continuasse
agarrando firmemente o brao de Will. Estava deitado, deixando que Will
o surrasse com a cabea e os joelhos, e assim que percebeu isso Will
perdeu o resto das suas foras e caiu ao lado do seu oponente,
atordoado, cada nervo em seu corpo retesado e latejante. Will ergueu o
tronco com dificuldade e perscrutou a profunda escurido, distinguindo
um borro branco no cho ao lado do homem. Era o peito e a cabea
brancos de um grande pssaro, uma guia-pesqueira, um daemon, que estava
deitado, imvel. Will tentou soltar o brao, e o fraco puxo provocou
uma reao do homem, cuja mo no tinha afrouxado. #361 Mas ele estava
se mexendo: estava tateando a mo direita de Will com sua mo livre.
Will arrepiou-se. Ento o homem disse: -Me d a sua outra mo. -Tome
cuidado -Will pediu. A mo livre tateou ao longo do brao esquerdo de
Will, e as pontas dos dedos deslizaram pelo pulso at a palma inchada e,
com enorme delicadeza, pelos dois tocos dos dedos de Will. No mesmo
instante a outra mo soltou o menino e ele se sentou. -Voc tem a faca-
afirmou. -Voc  o portador da faca. A voz era ressonante, spera, porm
ofegante. Will sentia que o outro estava seriamente ferido. Ele teria
machucado aquele adversrio oculto? Will ainda estava deitado nas
pedras, inteiramente exausto. Tudo que via era o vulto do homem agachado
ao seu lado, mas no conseguia ver-lhe o rosto. O homem estava
procurando alguma coisa, e depois de um instante uma sensao
maravilhosa e calmante espalhou-se pela mo de Will, partindo dos tocos
dos dedos, enquanto o homem massageava sua pele com um ungento. -O que
est fazendo? -Will perguntou. -Curando o seu machucado. Fique quieto.
-Quem  voc? -Sou o nico homem que sabe para que serve a faca. Segure
a mo assim. No se mexa. O vento soprava mais forte que nunca, e um
pingo de chuva bateu no rosto de Will. Ele tremia violentamente, mas
apoiou a mo esquerda com a direita enquanto o homem espalhava mais
pomada sobre os tocos e enrolava uma faixa de linho em volta da mo.
#362 Assim que o curativo ficou pronto, o homem deixou-se cair de lado e
deitou-se. Will, ainda pasmo com a abenoada insensibilidade na mo,
tentou sentar-se e olhar para ele. Mas estava mais escuro do que nunca.
Ele estendeu a mo direita e tocou no peito do homem, onde o corao
batia como um pssaro contra as grades de uma gaiola. -Sim -disse o
homem em voz rouca. -Tente curar isto. -Est doente? -Vou melhorar logo.
Voc tem a faca, no? -Sim. -E sabe us-la? -Sei, sei. Mas o senhor 
deste mundo? Como  que sabe dela? O homem sentou-se com esforo.
-Escute -disse. -No me interrompa. Se voc  o portador da faca, tem
uma misso maior do que pode imaginar. Um menino... Como  que eles
deixaram isto acontecer? Bem, j que tem que ser... Vem a uma guerra,
garoto. A maior que j existiu. J aconteceu uma coisa parecida, e desta
vez o lado certo tem que vencer... Durante todos os milhares de anos da
Histria humana, s tivemos mentiras, propaganda, crueldade e
hipocrisia. Est na hora de comear de novo, mas desta vez da maneira
certa... Ele parou de falar para respirar vrias vezes, ruidosamente.
Depois de um minuto, continuou: -E a faca... Eles no sabiam o que
estavam fazendo, aqueles filsofos antigos. Inventaram uma coisa que
podia partir as menores partculas de matria, e usaram isso para roubar
caramelos. No tinham idia de que haviam feito a nica arma em todos os
universos que poderia derrotar o #363 tirano. A Autoridade. Deus. Os
anjos rebeldes fracassaram porque no tinham uma coisa assim; mas
agora... -Eu no queria a faca! E ainda no quero! -Will exclamou. -Se o
senhor quer, pode ficar com ela! Eu odeio esta faca e odeio o que ela
faz... -Tarde demais. Voc no tem escolha:  o portador . A faca o
escolheu. E alm disso, eles sabem que voc est com ela, e se no
us-la contra eles, vo arranc-la de voc e us-la contra o resto de
ns, para sempre. -Mas por que eu devo lutar contra eles? J lutei
demais, no posso continuar lutando, eu quero... -Voc venceu as suas
lutas? Will ficou em silncio. Depois disse: -, acho que sim. -Lutou
pela faca? -Sim, mas... -Ento  um guerreiro.  o que voc ; conteste
qualquer coisa, menos a sua prpria natureza. Will sabia que o homem
estava falando a verdade. Mas no era uma verdade agradvel; era pesada
e dolorosa. O homem parecia saber disso, pois deixou Will baixar a
cabea antes de tornar a falar. -Existem dois grandes poderes, e eles
lutam desde o incio dos tempos. Eles disputam, arrancando dos dentes um
do outro, cada progresso na vida humana, cada passo nosso no
conhecimento, na sabedoria e na decncia. Cada pequeno avano na
liberdade humana foi disputado ferozmente entre aqueles que querem
aumentar o nosso conhecimento para que sejamos mais sbios e mais
fortes, e aqueles que nos querem obedientes, humildes e submissos. E
agora esses dois poderes #364 esto se preparando para a guerra. E cada
um deles quer essa sua faca mais do que qualquer outra coisa. Voc tem
que escolher, garoto. Ns dois fomos guiados at aqui: voc com a faca e
eu para lhe falar dela. -No! Voc est enganado! -Will exclamou. -Eu
no estava procurando nada disso! No  nada disso que eu estava
procurando! -Voc pode achar que no , mas foi isso que encontrou
-disse o homem na escurido. -Mas o que devo fazer? E ento Stanislaus
Grumman, Jopari, John Parry, hesitOU. Tinha plena conscincia do
juramento que fizera a Lee Scoresby, e hesitou antes de romp-lo; mas
foi o que fez. -Voc deve ir at Lorde Asriel e dizer-lhe que Stanislaus
Grumman mandou voc e que voc tem a arma de que ele precisa mais do que
todas. Gostando ou no, rapaz, voc tem um trabalho afazer .Ignore todo
o resto, por mais importante que parea ser, ev fazer isso. Vai
aparecer algum para gui-lo; a noite est cheia de anjos. Agora a sua
ferida vai cicatrizar. Espere. Antes de ir, quero ver voc direito. Ele
tateou  procura do pacote que estava carregando, tirou alguma coisa,
desdobrou vrias camadas de lona e depois acendeu um fsforo e com ele
acendeu uma pequena lamparina de lata. A essa luz, atravs do ar ventoso
e denso de chuva, os dois se entreolharam. Will viu olhos ardentes num
rosto abatido, dominado pela dor, o queixo forte coberto por uma barba
de vrios dias, cabelos grisalhos, um corpo curvado e magro envolto numa
capa pesada, uma espcie de manto orlado de penas de pssaros diversos.
#365 O xam viu um garoto ainda mais jovem do que ele tinha imaginado, o
corpo magro e trmulo numa camisa de linho rasgada, e expresso exausta,
selvagem e desconfiada, mas iluminada por uma curiosidade feroz, os
olhos arregalados sob as sobrancelhas negras e retas, to parecidas com
as da me... E ento aconteceu entre ambos a primeira fagulha de outra
coisa mais. Mas nesse mesmo momento, enquanto a luz da lamparina
iluminava o rosto deJohn Parry, alguma coisa desceu do cu encoberto e
ele caiu morto antes de poder dizer uma palavra, com uma flecha cravada
no corao doente. O daemon-guia-pesqueira desapareceu. Will conseguia
apenas olhar, estupefato. U ma fasca cruzou seu campo de viso, e sua
mo direita moveu-se como um raio; ele viu que estava segurando um
daemon, um tordo de peito vermelho, em pnico. -No! No! -gritou a
bruxa Juta Kamainen, e caiu tambm, apertando o peito, batendo no solo
pedregoso e levantando-se outra vez com esforo. Mas Will aproximou-se
antes que ela conseguisse se equilibrar, e colocou a faca sutil na
garganta dela. -Por que fez isso? -gritou. -Por que matou ele? -Porque
eu o amava e ele me desprezou! Sou uma bruxa! Eu no perdo! E por ser
uma bruxa, normalmente ela no teria medo de um menino; mas teve medo de
Will. Aquela jovem figura machucada tinha mais fora e representava um
perigo maior do que ela jamais encontrara num humano, e ela se
intimidou. Deu um passo para trs; ele avanou e agarrou-lhe os cabelos
com a mo esquerda, sem sentir dor, sentindo apenas um desespero enorme
e esmagador. #366 -Voc no sabe quem ele era! -gritou. -Era o meu pai.
Ela sacudiu a cabea e sussurrou: -No, no! No pode ser verdade!
Impossvel! -Voc acha que as coisas tm que ser possveis? As coisas
tm que ser verdadeiras! Ele era o meu pai, e nenhum dos dois sabia, at
o segundo em que voc o matou! Bruxa, eu espero a minha vida inteira e
venho at aqui e finalmente encontro o meu pai, e voc mata ele... Ele
sacudiu a cabea dela como a de uma boneca, e jogou-a sobre o solo,
deixando-a quase inconsciente. O pasmo dela era quase maior do que o
medo que tinha dele, que era bem grande, e ela se levantou, atordoada, e
agarrou a camisa dele, em splica. Ele afastou a mo dela com
brutalidade. -Que foi que ele lhe fez, para precisar matar ele? -
gritou. -Diga-me, se puder! E ela olhou para o morto. Depois olhou outra
vez para Will e sacudiu a cabea com tristeza. -No consigo explicar
-disse. -Voc  novo demais. No iria entender. Eu o amava. S isso.
Isso basta. E antes que Will pudesse impedi-la, caiu de lado, com a mo
no punho da faca que acabara de tirar de seu prprio cinto e enfiar no
peito. Will no sentiu horror; apenas desolao e perplexidade.
Levantou-se devagar e olhou para a bruxa morta, para os cabelos negros,
a face corada, os membros macios e plidos molhados de chuva, os lbios
entreabertos como os de uma amante. -No compreendo.  estranho demais
-disse em voz alta. Will virou-se para o homem morto, seu pai. #367 Mil
coisas lutavam em sua garganta, e s a chuva forte esfriava o fogo em
seus olhos. A pequena lamparina ainda tremeluzia ao vento, e  sua luz
Will ajoelhou-se e colocou as mos no corpo do homem, tocando em seu
rosto, seus ombros, seu peito, fechando os seus olhos, afastando da sua
testa os cabelos grisalhos e molhados, apertando as mos contra suas
faces speras, fechando a boca de seu pai, segurando as suas mos.
-Pai... Papai, paizinho... Meu pai... No entendo por que ela fez isso.
 estranho demais para mim. Mas o que o senhor queria que eu fizesse,
prometo, juro que vou fazer. Vou lutar. Vou ser um guerreiro, vou. Esta
faca, vou lev-la para Lorde Asriel, onde quer que ele esteja, e vou
ajudar ele a lutar contra o inimigo. Vou fazer isso. Pode descansar
agora. Est tudo bem. Pode dormir agora. Ao lado do morto estava a bolsa
de pele de cervo, com a lona dobrada, a lamparina e a pequena caixinha
de chifre cheia de ungento de musgo-sangneo. Will recolheu essas
coisas, e ento viu o manto orlado de penas, sujo e encharcado, mas
ainda assim um agasalho. No teria mais utilidade para o pai, e Will
estava tremendo de frio. Desabotoou afivela de bronze que prendia o
manto na garganta do homem morto e colocou a bolsa de lona sobre o ombro
antes de enrolar-se nele. Apagou a lamparina e olhou para trs, para as
figuras desfocadas do pai, da bruxa e novamente do pai, antes de
virar-se e descer a montanha. O ar tempestuoso estava eltrico com
sussurros, e no fragor do vento Will ouvia outros sons tambm: ecos
confusos de gritos e cnticos, o clangor de metal contra metal, um
poderoso ruflar de asas que em certo momento soou to prximo que
poderia at estar dentro da cabea dele, e no momento seguinte parecia
to distante que poderia estar em #368 outro planeta. As pedras no cho
eram soltas e escorregadias, e foi muito mais difcil descer do que
tinha sido subir; mas ele no vacilou. E quando desceu o ltimo pequeno
barranco antes de chegar ao lugar onde Lyra estava dormindo, ele estacou
de repente. Havia dois homens simplesmente parados ali, no escuro, como
se estivessem esperando. Willlevou a mo  faca. Ento um deles falou:
-Voc  o menino da faca? Sua voz tinha a mesma qualidade estranha do
ruflar de asas. Fosse quem fosse, no era um ser humano. -Quem so
vocs? -Will perguntou. -So homens, ou... -No somos homens, no. Somos
os Vigilantes. Bene elim. Em sua lngua, anjos. Will ficou em silncio.
O homem continuou. -Outros anjos tm outras funes e outros poderes. A
nossa misso  simples: precisamos de voc. Viemos seguindo o xam por
todo o caminho, na esperana de que ele nos levasse a voc, e ele fez
isso. E agora viemos para levar voc a Lorde Asriel. -Vocs estiveram
com meu pai todo o tempo? -Cada minuto. -Ele sabia? -No tinha a menor
idia. -Ento por que no detiveram a bruxa? Por que deixaram ela matar
o meu pai? -Antes ns teramos feito isso; mas a misso dele estava
cumprida, depois que ele nos levou at voc. Will no respondeu. Sua
cabea retinia; aquilo no era menos difcil de entender do que todo o
resto. Finalmente falou: #369 -Est bem, eu vou com vocs. Mas primeiro
tenho que acordar Lyra. Eles se afastaram para deix-lo passar, e ele
sentiu uma vibrao no ar ao passar perto das duas figuras, mas ignorou
isso e concentrou-se em descer a encosta na direo do pequeno abrigo
onde Lyra estava dormindo. Mas alguma coisa fez com que estacasse. Na
penumbra, ele viu que as bruxas que protegiam Lyra estavam todas
sentadas ou de p, imveis. Pareciam esttuas; respiravam, mas mal
estavam vivas. Havia tambm vrios corpos vestidos de seda negra cados
no cho, e enquanto contemplava a cena, horrorizado, Will entendeu o que
devia ter acontecido: elas tinham sido atacadas no ar pelos Espectros e
morrido na queda, indiferentes. Mas... -Onde est Lyra? -ele bradou. A
pequena reentrncia sob o rochedo estava vazia. Lyra tinha desaparecido.
Havia alguma coisa onde Lyra estivera deitada. Era a pequena mochila de
brim, e pelo peso ele soube, sem precisar olhar, que o aletmetro ainda
estava ali dentro. Will sacudiu a cabea. No podia ser verdade, mas
era: Lyra tinha sumido, Lyra tinha sido capturada, Lyra estava perdida.
As duas figuras escuras dos bene elim no tinham se movido. Mas
disseram: -Agora tem que vir conosco. Lorde Asriel precisa de voc
imediatamente. O poder do inimigo cresce a cada minuto. O xam lhe disse
qual  a sua misso. Siga-nos e nos ajude a vencer. Venha conosco. Venha
por aqui. Venha agora. Will olhou para eles, depois para a mochila de
Lyra e de novo para eles, e no escutou uma s palavra do que eles
disseram. #370
